Carta de Noel Nascimento direcionada ao Conselho Editorial, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 
 

Curitiba, 14 de Junho de 2009

 

Ao

Conselho Editorial

Biblioteca Nacional

Rio de Janeiro

 

Prezado Senhores.

 

                        Há décadas procuro esclarecer através de artigos, livros, ensaio e romances que conceituo como de “realismo histórico” a existência de guerra camponesa e de uma guerra civil em nosso país. No ano de 1963 tive a primeira edição de “Casa Verde” pela Livraria Martins Editora (São Paulo) revelando o Contestado como grande guerra camponesa. Facilitou-me a interpretá-la o estudo das que ocorreram na Europa, em fins da Idade Média, esclarecidas pela obra de Fredrich Engels: “As Guerras Camponesas da Alemanha”. (1) No jornal “O Estado de São Paulo”, em 64, houve manifestações a respeito. Antes tratara eu a divulgação nas revistas “Fundamentos” e “Brasiliense”, primeira a de Monteiro Lobato, esta outra sob direção de Elias Chaves e Paulo Dantas, autor de “Capitão Jagunço”, ambas de São Paulo. E, em Curitiba, no “Panorama” e de várias instituições histórico-literárias, quanto nos jornais de maior circulação no Estado.

                        Todavia, tudo isso representa muito pouco num país tão grande.

                        Messianismo é a tese idealizada no ar, irreal, de caráter reacionário e ostentação intelectual, que oculta e omite a causa verdadeira das sublevações camponesas: a exploração em regime de servidão nos latifúndios, a luta pela terra!

                        Na Historia do Brasil percebi grande lacuna ocasionada pela omissão de acontecimento da maior importância em nossa pátria: a revolução das massas urbanas, da burguesia, e de uma contra-revolução de caráter reacionário e anárquico determinada pelas velhas estruturas escravistas, latifundiárias, monarquistas; a aristocracia, as oligarquias rurais, o coronelismo. Em conseqüência, eclosão de uma guerra civil, a qual detalhadamente com todos os móveis revelo-a no romance “Arcabuzes”, premiado em concurso nacional por comissão constituída pelos escritores Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e Jane Sprenger Bodnar.

                        Reafirmo que se caracteriza como de “realismo histórico”, eivado de fatos e personagens reais, alguns por motivos óbvios nomeados Barão do Paraná, Vitor Machado, Doutor Glória, Major Solano, (Sólon, sogro de Euclides da Cunha).

                        Em “A Revolução do Brasil” procuro às páginas 113, 117, e 121, demonstrar a diferença entre estado unitário e estado federal, quanto o real significado de federalismo, ignorado pelos adversários do novo regime republicano, detratores de Floriano.

                        Em razão da autoridade superior para dirimir questões sobre História do Brasil, cumpre-me recorrer ao douto Conselho Editorial, convicto de que através das páginas da revista da Biblioteca Nacional, venha a preencher de vez a injustificável lacuna e, com o devido pronunciamento, elucidando os fatos.               

                       

 

                        À missiva estou anexando material pertinente visando instruí-la.

 

 

                        Aproveito a oportunidade para expressar confiança e consideração à colenda corte da Biblioteca Nacional.

 

 

Atenciosamente

 

 

Noel Nascimento

 

 

(1) Há exemplares dos livros na Biblioteca Nacional, e em edição melhorada de “A Revolução do Brasil”, com capa dura, roda pés, sem os descuidos e senões da atual edição em brochura na digitação e sem a devida correção!

(2) Acaba de ser publicado o livro “História e Historiografia da Revolução em Santa Catarina”, de Jali Meirinho, por certo enviado à Biblioteca Nacional, o qual vem ao encontro do exposto. Recomendo-o.