Juca, o Caminhoneiro

Noel Nascimento

 

O chão forrado de pinheiros, as juntas de bois arrastavam as toras para as serrarias que devoravam os bosques. As estradas carroçáveis alargavam veredas à margem das quebradas, percorridas pelos tropeiros.

Com o tempo, as mulas criaram patas rodadas de borracha e motorizaram-se os novos arrieiros. O boi-carreiro virou boi de ferro, gasolina correndo nas veias, injetada no carburador.

Juca manobrava um calhambeque esclerosado e fazia mais força que um boi-carreiro para apanhar as toras, prendê-las ao gancho e empilhá-las no reboque. Gabava-se de haver achado uma jararaca enroscada no diferencial, mas não era de muita prosa desde que vira o pai esmagado por uma tora que rolou da pilha.

No arraial, parecia um príncipe comparado aos caboclotes que roçavam sítios e aos operários que só recebiam vales, endividados no armazém da serraria. Podia roubar a Mariquinha, loura e rechonchuda, filha de polonês que, além de lavrar a terra e criar porcos, consertava carroças, armas de fogo, bicicletas e máquinas de costura. De carro novo, Juca passou lua-de-mel na boléia e, na cidade, alugou um ranchinho de fundos. Pensou pelo pára-choque: “um ranchinho, teus carinhos, nada mais”. Fiel à Mariquinha, a qual conheceu antes que a Serra do Mar, obedecia à sinalização e ao que dizia na traseira de um Mercedes: “olhe para outra mulher, mas conserve a sua direita”.

O mundo de Juca tinha rodas, uma saudade de ferro, de lata, gemendo na estrada. A vida uma viagem sem pouso nem repouso. Com percentagem na frete, dia e noite ao volante, sem descanso de domingo ou feriado, tornou-se escravo de transportadora. Ajudava a crescerem as vilas e cidades à margem das rodovias. Lia-se por toda parte nos pára-choques: “motorista é que nem cachimbo, só leva fumo”; “não sou gaiteiro, mas toco a noite inteira”; “a morte me namora”; “vou ficar parado quando morrer”.

Juca tropeava máquinas de lata como alimárias estourando nas estradas. Ao corcovearem na buraqueira, quebravam os eixos. Nas nuvens de poeiras, corriam às cegas. Ao ataque das chuvas, atolavam-se. Ainda assim, costuravam a terra brasileira. Ao aguardarem a vez de descarga na fila, Juca compreendeu o que lhe quis dizer um colega do grupo:

- Se não fosse  o caminhoneiro, o Brasil se espedaçava.

Fitando navios carregados no Porto, lembrando-se da pobreza dos camponeses, Juca pensava em voz alta:

- Para onde vai nossa riqueza...

As bandeiras de carga conquistavam as terras, semeavam povoados, unificavam o País. “Eu dirijo, Deus me guia”. A divisa exprimia a crença da classe.

Juca passava a noite em claro na boléia em cujo painel falavam os retratos de Mariquinha e seus três filhinhos: “não corra pai”. Por causa do ruído do motor estava ficando surdo. Parecia não ouvir a súplica dos retratos. Confiava na proteção divina e até bolou novo dístico: “no meu lar, uma santa e três anjinhos rezam por mim”.

Sua morada, a estrada. Vencia o trânsito, as distâncias, passava noites acordado à custa de comprimidos.

- “Rebitado” - dizia-se.

Dele enamorou-se a Serra ao vê-lo moço e forte, moreno canela, flertando através do pára-brisa. Juca não traía Mariquinha, mas a Serra era da “Graciosa”, tinha o “Véu da Noiva”, cheinha de curvas perigosas. Ia a seu encontro, porém voltava feliz para os braços de Mariquinha.

A Serra não desistia de Juca, desejava prendê-lo em seus braços abissais.

Era noite na derradeira vez que desceu a Serra do Mar, a da Graciosa. A carga pesava sobre o caminhão que mal iluminava a estrada por causa da neblina. Juca tocava devagar nas perigosas curvas à beira dos taimbés. Mas a Serra o envolvia amorosamente, fazendo-o sonhar ao volante, adormecendo-o no caminho.

Dizem que Juca quis salvar a vida dos ocupantes de um automóvel que subia na contra-mão. O fato é que não resistiu aos encantos da Graciosa. Beijou-lhe a face, precipitou-se em seus braços.

Lembra-o uma cruz pequena no alto à beira da estrada onde Mariquinha e seus três filhinhos vão rezar.