A Loura Fantasma

Noel Nascimento

 

PARTE-I

 

Quando a cidade se biparte à meia-noite, garis fazem a coleta do lixo, as mariposas revoluteiam à luz das lâmpadas, movimenta-se nas ruas o submundo. Praças desertas faíscam, prédios macabros margeiam calçadas com bêbados estirados, passeiam as assombrações. Vagam duplos de celerados e há larápios encapuzados pelas trevas. Nas largas alamedas, os bruxos feito arbustes agitam as vassouras de folhas.

A ditadura age na madrugada. Carrascos, com um Cristo metálico acorrentado ao pescoço e o demônio nos corações, arrancam gritos de estertor dos torturados.

Surgindo dos becos escuros, mirando-se na lua, a Loura Fantasma revela a face oculta do mundo. A Curitiba adormecida não vê o crime, a cidade sangrando na madrugada. A cidade que de dia sorri, chora refletida pelo espelho da noite. Ainda bem que há seres, talvez anjos, zelando pela paz dos inocentes.

Wilmar não era sonâmbulo, porém presa fácil. Moço pálido, de olhos claros, tinha ponto de taxi na Praça Osório e, até quando o sol raiava, fazia corrida para as bailarinas e os freqüentadores de boates e inferninhos. De volta do “Gogó da Ema”, passara pela funerária e sentira um calafrio ao fixar os olhos na grande cruz roxa iluminada sinalizando a morte. Começou a sentir o peso da sua cruz quando parou para apanhar a passageira loura, de cabelos luminosos, que vestia um casaco negro de pelo sobre o qual pendia reluzente colar de pérolas de várias voltas. Os dentes brilhavam como as contas do colar. Versão oficial.

- Siga até o cemitério do Abranches.

- Sim, senhora – respondeu sem saber se falara ou se transmitira o pensamento.

Wilmar drogava-se para dirigir acordado, mas desconfiou que estava sonhando ao ver a passageira sumir e reaparecer para, finalmente, evaporar-se no ar. Trêmulo de medo, retornou ao centro em alta velocidade e relatou o fenômeno aos agentes João Cunha e Artigas, que o ouviram espantados na viatura policial.

- Vamos para lá – decidiu Artigas, após comunicar a ocorrência ao Centro de Operações.

- O taxi na frente. Se “ela” aparecer, dá sinal de luz – disse João Cunha a Wilmar.

Wilmar dirigia alucinado, estremeceu ao virar-se para trás e ver a bordo a mesma passageira.

- Siga até o cemitério – repetiu-lhe ela.

Embora submetido ao domínio da aparição, ainda assim Wilmar acionou o pisca-pisca, alertando a polícia.

Entretempo, na funerária do restaurador de cadáveres Diamond, a bomba d’água explodiu misteriosamente e a urna mortuária mais luxuosa caiu do suporte, partindo-se no chão.

E na viatura que perseguiu Wilmar, os agentes viram que a árvore defronte ao prédio 2.362, na Mateus Leme, onde a passageira embarcara na primeira vez, deslocou-se para longe, voltando depois ao lugar. Ao perceberem o sinal, também teriam visto a loura a bordo do taxi.

- Olha “ela” dentro do “fuque”!

Subitamente, a loura atirou-se gargalhando sobre o pobre Wilmar. Quis esganá-lo, agarrou-lhe o pescoço, tentando arrancar-lhe a alma. Fora de si, Wilmar se achava ao volante de um bólide a ponto de penetrar num outro plano de vida, porém pisou no freio, e o taxi derrapou, corrupiando na pista. João Cunha desceu rapidamente do carro policial e abriu a porta do táxi.

- Saia! – gritou, puxando a loura violentamente pelos braços, sem poder salvar o sufocado Wilmar. Incontinente, com o revólver atingiu-a com três tiros à queima-roupa. O último, no meio da testa, fez o sangue cobrir-lhe o rosto.

Desmaiado, Wilmar foi arrastado pelos agentes à beira da Rodovia dos Minérios.

Cundiberto, sonhando à janela do quarto, detrás de sua fabriqueta de móveis e sua vizinha Bastiana ouviram a bulha, os estampidos, mas não foram doidos de saírem de dentro da casa.

- Nossa, quanto sangue! – exclamara um rapaz que chegara num automóvel.

De repente – contavam – a loura estava “desaparecida” e sem deixar nenhum vestígio de sangue! Boquiabertos, três notívagos entreolharam-se estarrecidos.

Quando as viaturas do Centro de Operações chegaram, só acharam uma bala amassada no chão do táxi. Então policiais e repórteres vasculharam o bairro e o cemitério, mas sem encontrar sinal algum de mulher baleada. Não podendo desvendar o mistério, já as nove horas da manhã, o delegado Adelmar declarou que a polícia não tinha condições de operar sobre fatos abstratos.

A cidade concreta, fundida pelo sol, amanheceu apavorada.

A notícia da Loura Fantasma alastrou-se pelo País, anunciada com mais estardalhaço que o nascimento do “bebê-diabo” de São Paulo. Manchete de primeira página, precedia outros títulos nos jornais: “Morreu Massacrada nas Mãos do Marido Bêbado”, “Atriz Morta Nua”, “Rasgou Irmão à Faca”, “Estradas Mataram 93 Pessoas em 25 Dias”, “Disputaram Mulher à Bala”. As denúncias sobre mortos e desaparecidos, ou torturas, eram desmentidas ou tinham pouca repercussão.

Na Rua das Flores só se falava em casos de almas de outro mundo. Num grupinho, Rei, que fora goleiro do Vasco da Gama, contava que ao pernoitar no estádio da Portuguesa Santista via um jogador de basquete que já havia morrido há mais de vinte anos; noutro, o jornalista Amatuzi se gabava de haver sido o primeiro a enamorar-se da Loura Fantasma, porém a seguira e ao encontrá-la sentada num muro, correu quando viu tinha o rosto de caveira. Nas casas, nos bares, em toda parte havia gente assustada. Na Delegacia de Trânsito, dois guardas diziam que, tempos atrás, seguiram uma loura bonita que desaparecera nas proximidades do cemitério municipal.

À tarde, o Secretário de Segurança declarou à imprensa: “A Secretaria da Segurança tem competência para o esclarecimento de fatos policiais e não sobrenaturais”.

Wilmar, além de perder cinqüenta cruzeiros da corrida, foi despedido pela “Rodotaxi”, convidado a mudar-se da casa em que morava e ameaçado de abandono pela esposa.

- Estou sem ajuda e sem dinheiro. – queixou-se aos repórteres que o fotografaram no bairro Estribo Ahú. Vestia calça faroeste, blusa de lã aberta ao peito sobre a camiseta, desleixado e com ar de quem morre em breve.

O táxi de prefixo 30 não se locomoveu durante o dia. Manfredo, que tem três filhos e mora na Vila Guarani, ficava no meio da aglomeração de curiosos. Desabafou, narrando o que acontecera ao seu genro:

- À noite, vou numa sessão de saravá, porque o negócio anda demais. O rapaz estava dirigindo o carro para mim e pegou um passageiro no Bairro Alto. Perto da igreja, meu genro olhou pelo retrovisor. Não havia mais ninguém. Perdeu oito cruzeiros da corrida.

Pouco a pouco, os fatos abstratos se esclareciam. Vinha à lembrança a loura que cortara os pulsos, outra que bebera formicida, ou a que fora estrangulada na pensão noturna da Praça Tiradentes. Dizia-se que os automóveis pareciam bordéis sobre rodas à noite, porém as pensionistas e as bailarinas deixaram de se aventurar sozinhas pelas ruas.

A cidade assombrou-se com a revelação do mistério. Quem o desvendou foi Diamond, o restaurador de cadáveres. Sentado ante a mesa funerária, sob o quadro de um gato branco, ladeado por dois caixões mortuários de luxo recostados à parede, relatou a verdade na entrevista. Os olhos mórbidos brilhavam no rosto cheio e circundado pela cabeleira negra e solta sobre os ombros. As palavras soavam metalicamente:

- Ela já falou duas vezes comigo depois que morreu e, na próxima, vou apanhá-la. O nome dela é Claudia Regina. É loura, encorpada, e morreu atropelada por um carro na Avenida República Argentina. Fui eu que  restaurei seu rosto mutilado no acidente. Ela foi enterrada como indigente, junto com outros defuntos no cemitério Santa Cândida.

Três dias após baixar à cova, Claudia Regina procurara Diamond lá mesmo na funerária:

- Vim agradecer o trabalho feito no rosto de Claudia.

- Conhece a indigente morta? – perguntou-lhe Diamond.

- Sou eu mesma – respondeu, desaparecendo.

Outra vez, foi Ogacir, um dos empregados da empresa, que se encontrou com Claudia Regina, a qual lhe perguntou:

- Já foi descoberto o nome do motorista que me matou?

Quando eram realizados sepultamentos, Claudia Regina aparecia subitamente no coche fúnebre da funerária.

Diamond recuperou-lhe o rosto no necrotério, quando estava de plantão. Ela vestia um conjunto branco e tinha no dedo um anel muito gasto, com o nome gravado de baixo de uma pedra vermelha. Ficando com o anel, Diamond noivou com a morta.

O coveiro João Cruz fez o enterro de Claudia Regina num dia de muita chuva. Artur, da funerária, auxiliou a descarregar o esquife que, escapando das mãos dos dois, bateu no chão, abrindo-se a tampa.

- Um pouco antes de tirar o caixão do necrotério, ela me passou a mão gelada dentro do carro – disse Artur.

Logo em seguida, chegou o ajudante José dos Reis e então a colocaram na cova. Mas no livro do cemitério, o nome dela sumiu da página número dez. E José dos Reis já a viu entre os túmulos, à tardezinha.

Levaram meses as discussões sobre a existência da Loura Fantasma. Tratava-se de uma reencarnação incompleta, disse um médium muito conhecido. Há tempos ela aparecera em Belo Horizonte, quando Carlos Drumond de Andrade lhe dedicara um poema. Artigos de parapsicólogos e do Instituto Wing Chong concluíram que o caso não era do Além, porém do Aquém.

Quanto a Wilmar, que chegara a pedir para ser preso, tentando livrar-se do mundo, da polícia e de Claudia Regina, já não era o mesmo de antes. Vivia assustado, falava gaguejando. Se era reconhecido ao volante de taxi, a passageira pedia que parasse, pagava a corrida e fugia. Tinha vontade de chorar – queixava-se.

De Diamond, restaurador de cadáveres, despedido da funerária, nunca mais se soube. De Claudia Regina, sabe-se que um rosto, metade carne, metade gesso, relampeja quando a cidade de biparte à meia-noite.

 

 

PARTE-II

 

Assolada pela epidemia, a cidade ardia em febre consumista. Fantasmas de meia-noite, envolvendo com as asas negras a cidade enferma, esvoaçavam, debatiam-se contra as paredes dos prédios da Rua Mateus Leme. Mas quem é, nessa rua sem fim, o demônio de cabelos dourados luzindo em meio às asas, postado na esquina?

Será que o “duplo” sai para namorar enquanto a dona dorme? Ou é a alma de megera a fazer mal durante o sono? Ou, ainda, uma simples imagem no ar  captada por secreto sentido? E se for uma bailarina viva de casa noturna?

É hora de necrófilos violarem túmulos, desenterrarem cadáveres, e na alameda macabra escancara-se a porta do além-túmulo, trevas crocitando no arvoredo.

À tardezinha, duas moças iniciaram cerimônia no cemitério. A de avental e colares matou a dentadas sete galinhas pretas, abriu garrafas de conhaque, pinga e champanha, suja de sangue, bebendo e dançando ao redor da cruz, frente ao préstito, espetou com alfinetes um boneco dentro de um caixão mutuário em miniatura.

A Loura Fantasma toma formas e expõe as faces resplandecentes, após furtar só para si a luz das velas vermelhas e pretas dos despachos de feitiçaria. Há rastros de violência nas ruas e forte odor de tóxicos. Medonhamente bela, assoma com os olhos brilhando, pois a escuridão é a claridade dos mortos, muitos ainda agarrados às costas dos encarnados. Os suicidas, desaparecidos antes do tempo, pagam em dobro a dor da vida.

A lua flui no céu e a Loura Fantasma no infinito da alameda.

Tudo começou quando, ao cair da noite, uma fogosa dama da alta sociedade corneava o marido, bordejando de carro em carro. Surpreendida acasalada no assento traseiro, foi três vezes alvejada e morreu com um tiro no meio da testa, o rosto coberto de sangue. Então ressurge a confundir os mundos e, sequiosa da carne, agarra o homem do volante, e toda a cena se repete.

Homem que dirige automóvel a desoras tem de tomar muito cuidado, pode errar o caminho e topá-la na alameda. Taciturno, o poeta Adalto por pouco não foi dançar nas nuvens, quando parou o carro, arrepiando-se ao vê-la sumir debaixo da árvore.

No plantão noturno da farmácia do Ahú, dizia o boticário:

- A Uda se vestia de preto e pintava os cabelos de amarelo. Tinha bordel naquelas imediações, o tempo passa e ela permanece jovem. Se não podia envelhecer, decerto não podia morrer. Não será ela a Loura Fantasma?

Moça direita, Joyce chegou atrasada à Praça Garibaldi, onde trabalha. Não pôde apanhar um táxi no centro porque o motorista pensou que era ela a Loura Fantasma.

No Teatro Guaíra, o eletricista Reinaldo fantasiou-se de Loura Fantasma e quase matou de susto o vigia noturno. Agora se encolhe, penando de medo de castigo.

Há muito mistério na Rua Mateus Leme, que segue para o cemitério do Abranches. Um pátio alto e soturno é uma sepultura que se ergue sobre os escombros de um antigo prostíbulo. A dona, que freqüentava o Cassino Ahú, morreu moça, viu seu próprio enterro, não sofreu nenhuma mudança e ainda continua a sair após o movimento do salão.

Na verdade, a Loura Fantasma é Nereide – sabem o que significa? – a que sorri com a minguante na boca, à caça de amantes, ocultando crimes e desaparecendo no bairro. Alimentada pelo ectoplasma das bruxas, é vista em muitos lugares num mesmo instante, impregnando Curitiba. Movendo-se em quarta dimensão, de medo e de ódio. Emboletada, não come. Não engravida para não perder a cintura. Um belo monstro. Deusa e besta dos homens. Um velho viu-a de chifres na testa, e um coxo ficou encantado: “parece uma Cleópatra Loura”.

De dia, ela anda por aí, escondida atrás da face das damas falsas. Gilberto, que também tinha um táxi, ao recolhê-la ficou alucinado ao ver-se dirigindo um féretro e foi parar no Pronto Socorro. Ela aparecia em plena escuridão, mas Guilhobel só a enxergou ao alumiar-lhe o rosto com a chama do fósforo. De medo fez tremer a terra, há pouco saíra de uma sessão de necromancia.

- Loba! – João Padeiro ouviu-a rosnar, os dentes faiscando. Rocio, borboleteando na praça escura, fora atacada e sabia que, bisexuada a Loura Fantasma é lésbica. Não podia ser homem, “que só tem uma face”, já desfilara no concurso de travestis do Clube Operário.

Não mais era apenas a Claudia Regina agradecendo a Diamond; a Claudia Regina, cara metade de gesso, metade de carne, buscando quem a atropelara na Avenida República Argentina. Nem alguma outra alma tentando vingar-se de um assassino. Projeção da besta demonólatra do mundo, Nereide irradiava sexualidade no corpo astral de tecido negro com bordado de ouro, o colar de pérolas a envolver-lhe o pescoço, os cabelos chamejando, ao entrar no automóvel.

- Para onde?

A resposta veio com um sorriso curvo e polido de foice:

- Sou bailarina. Siga para o cemitério, vamos à minha boate.

A cidade estendia-se, deslocava-se em todas as direções para o infinito. Subitamente, iluminava-se a alameda dentro de novo espaço. Apenas vidente, Raul não ouvira o estrondo com o qual a meia-noite partira a cidade e provocara um clarão no mundo físico. Dirigia o corcel, um bordel de lata, delirando de desejos. Homem-coisa diluído na massa, a cara de ovo. Freqüentava o centro que fervilhava de gente com cabeças de cachorro a lamber os nus expostos nas bancas de revistas. Refletiam-se em sua mente as notícias que lia e ouvia, filmes aos quais assistia atingindo o êxtase. Gozava com as manchetes: “Drogada e Torturada”, “Currada por Cinco na Praça Osório”, “Tarado Estupra Menor”, “Triângulo de Homossexuais”, “A Virgem Violentada”, “O Super Macho”, “As Fêmeas”, “A Dama da Lotação”. Só lia pornografia moderna, literatura erótica. Com a cabeça cheia de imagens sujas, imitava os personagens. Quando leu a reportagem do maloqueiro que estrangulara uma estudante, não viu mal nenhum no crime. O mal atrai o mal e, por isso, caiu nos braços de Nereide. Saía de casa à cata de “chacretes” ou “vendrametes” e não se satisfazia na Vila Parolim, nem no quarto de espelhos do “Quatro Bicos”, nem na “Boneca do Iguaçu”. Perdera-se na cidade e entrou no infinito da Rua Mateus Leme.

Ao passar em frente à igreja, Nereide sumiu momentaneamente do assento, mas reapareceu sorrindo sarcasticamente. Chegou a elevar-se no ar, à altura do Parque São Lourenço.

- É aqui. Chegamos.

- Parece mais um castelo de que uma boate.

A vila (o cemitério) tinha vida noturna, estava em festa, e os vigias de rostos melífluos recepcionaram os amantes, conduzindo-os à boate pela rua principal. As portas abrem-se diretamente para o salão, onde a música era sensual e macabra, desconhecida na Terra. Fantascópios pendiam do teto e sua luz provinha de fogo e sal, embora o luar penetrasse pelos vitrais, refletindo no chão as pétalas das rosáceas em que pisavam. Caras satisfeitas de gente-animal coruscavam nos espelhos. A realidade não se mostrava por inteiro a Raul, que arregalava os olhos sobre Nereide. Ao tomá-la nos braços, sentia-se num mundo de gaze, éter e sonho. Via mostras desse mundo, vislumbrava-o. Encantados um com o outro, longas horas passaram num segundo. Suas almas pareciam as asas da mesma borboleta. Trocavam fantasias libidinosas, entendendo-se pelo olhar, pelo aperto de mão, pelo pulsar do coração.

“Nereide é seu nome, já a conheço há muito tempo, desde esta noite”, - pensava, enquanto via as feições de tantas outras passarem naquele rosto adorável. Começou a estranhar o que acontecia, quando notou que os pares eram homens entrelaçados ou de mulheres a se oscularem com sofreguidão. E, então, num beijo da morte, sentiu as garras de Nereide nos lábios, um calafrio, o sangue e o tremor do coma.

Na manhã seguinte, os jornais anunciavam que macumbeiros haviam violado um túmulo no cemitério e espalhado todos os ossos retirados dos caixões. O corpo de um desconhecido, com a cara desfigurada, só foi achado quinze dias depois de assassinado, atirado a um perau da Serra. As matrizes do inferno continuaram gerando cada vez mais. Gente aprendendo o verbo do mal, perdendo o entendimento, deixando de ser pessoa, virando fantasma.

Voluptuosa, medonhamente bela, brilhando em meio às asas de trevas, a Loura Fantasma vigia a Rua Mateus Leme à espera de amantes.