O Morcego

Noel Nascimento

 

Apelidaram-no de “Morcego” os aeronautas. Quando piloto alçava vôo somente à noite, à procura de outros seres notívagos no céu. Fez-me crer em bruxas e fantasmas. Convenceu-me de existência de mundos invisíveis de gnomos, silfos, ninfas, fadas, salamandras, pululando no ar, na água ou no fogo. Segundo ele, não são falsas as histórias de fadas, de anões, de assombrações. Dizia-me seguro de si:

- As iaras – sereias ou mães d’água – sacis, mulas-sem-cabeça, lobisomens, tudo existe. Vivem no mundo em que vivemos, porém não os enxergamos como videntes, a não ser quando sonhamos.

Cheguei a sentir pena dos serezinhos encantados ao sabê-los ingênuos, inocentes que não sabem distinguir entre o bem e o mal, com prazo certo de vida, sem a marca humana da imortalidade. Revelou-me segredos e o modo de dominá-los. Mas por descrença até o “Livro Gigante de São Cripiano” sumiu misteriosamente de minha biblioteca. Versado em causas das cousas, só havia bondade em sua fala.

Antes que me esqueça: os anõezinhos, guardiães de tesouros ocultos nas entranhas da terra, podem ser vistos apenas durante vinte segundos, principalmente nos países escandinavos.

Eu o conheci na cidade nascente, empoeirada no meio do cafezal que se perdia de vista. No hotel de tábuas sobre o barranco, hipnotizara um filho do proprietário, fazendo-o descrever a Lisboa de 1.830.

- Agora você regrediu no tempo e no espaço e vai contar como foi a sua última encarnação...

Esvoaçante, vestia casaco de modelo antigo, capuz caído às costas. Alto, magro, macilento, orelhas pontiagudas para o alto, causando espanto.

Do pardieiro mudou-se para o escritório de porta para a rua. Ficamos amigos e deixou-me penalizado ao confidenciar-me sua história.

- A dor... Não sei explicar o que é viver a vida inteira chorando. Oculto as lágrimas com medo de zombaria. Pago meu carma. Queimo sândalo aos pés da cama, uso roupa branca, amarela ou vermelha, pratico yoga e letargia. À noite, ouço Wagner, que é ocultista.

Na seqüência, chegou a soluçar sobre a mesa, o rosto iluminado pela lamparina. E divagava desconexo:

- Tenho a visão desenvolvida, servi-me da bola de cristal, de espelho, da chama de vela. Pela manhã, fico meia hora de cabeça ao chão e pernas para o ar. Eu me sinto um atlante. Na Atlântida o homem tinha cabeça, mas testa de um dedo de largura. O cérebro não apresentava desenvolvimento frontal, a alma parcialmente fora do corpo e, assim, o homem conhecia o mundo espiritual. Por isso, sei que existem os gnomos, elementais sem noção do bem e do mal. E as fadas? São belas e graciosas voando sobre as flores do campo.

Há muito tempo não recebo notícias de minhas duas irmãs, fugiram de casa para viverem nos prostíbulos – enxugou uma lágrima e continuou o relato:

- Tive infância azarada e não quero recordá-la. Minha alma e só dissabores.

Aos doze anos assisti à coma e à morte de meu pai, operado como indigente. Viemos do Mato Grosso para o Paraná. Em Curitiba, trabalhando no período diurno, cursei o Ginásio Novo Ateneu. Morávamos nos fundos de um quintal, bairro das Mercês. Lembro-me do desespero de minha mãe ao ler a carta de despedida de minhas pobres irmãs.

Morcego fora apontado por ser infeliz, traído no casamento. Aos quarenta, esvoaçava atrás de moças assustadas. Formara-se em Direito, não se sabe como. Trocou o aeroplano pelo código de Leis, dedicando-se à advocacia. Os clientes encontravam-no no escritório a redigir mensagens recebidas de outros mundos. Exibia o livro de Nostradamus, vaticinando:

- O mundo sofrerá uma grande transformação, com guerras e abalos sísmicos. Continentes serão submersos pelas marés, a Terra se inclina atraída pela aproximação de um novo astro para que surjam regiões esplêndidas e riquezas imensas nos pólos.

- Faz mal, não. Nós só queremos saber da reclamação trabalhista... – interrompiam perplexos os trabalhadores agrícolas.

Assim que se instalara no escritório, convidaram-no para lecionar no colégio local. Por causa das pregações chegara a ficar “tomado” na sala de aula. Perdeu o cargo. Permaneceu advogado armado de dons naturais, encantando Juízes, delegados, réus e jurados. Recorria à magia. Voltava as cadeiras para o Polo Sul, imantava o ambiente com fluídos, sinais cabalísticos, magnetizava o auditório.

Altas horas da noite, Morcego era a visão que, acompanhado  pelo cão amestrado, dava sinais com uma lanterna, tentava contato com os objetos celestes. Sim. Existem marcianos cumprindo missão de reconhecimento da Terra, - explicava.

A última vez que o vi, já revirara as comarcas interioranas. Apesar da fama, parecia desolado:

- Não fui compreendido. Os brutos não têm sensibilidade para a verdadeira justiça.

Pobre Morcego!

Vestiu de novo suas asas e voa entre as estrelas para comunicar-se telepaticamente com as tripulações dos objetos voadores não identificados.