Otavinho

Noel Nascimento

 

Guarapuava fica no Paiquerê onde gabavam os índios serem os campos mais verdes e belos, região encantada dos guerreiros lendários.

Nos tempos do Fortim Atalaia, índias de tanga, ainda sem baeta vermelha ao pescoço, teciam balaios à porta das tendas. Ao dançarem ao som de gaitas de taquara, mantos de caça grossa – de antas e porcos-do-mato – pendiam de traves e varais. O pajé adivinhava perigos. O cacique preocupado com a sorte da tribo e das colheitas, indignado com o padre que proibira os soldados de aceitar as mulheres como provas de hospitalidade, comandou ataque ao muro alto de taipa com dois morteiros torneados no arsenal do Rio de Janeiro.

Lentamente, mãos escravas construíram de pedras e estuque a cidade antiga. Antes a caça era a vida. No campo, o sol – guará com pelagem quente de ouro – corria atrás da lua branca, codorna que jamais abocanhava. O pinheiro, sempre de braços abertos, carregado de pássaros e ninhos, refletia a fraternidade da terra. No campo, o vaqueiro valente, camarada fiel. A liberdade com o vento galopando pelas coxilhas e canhadas. À garupa dos redemoinhos, sacis protegem as árvores, boitatás vigiam a grama verde para que não a incendeiem. À noite, há rodeio de astros no céu.

Otavinho fugia dos estilingues de moleques, de pedradas, flechas dos brancos civilizados. Apressava-se pelas ruas onde morava, tinha medo. Inofensivo, humilde, não possuía orgulho de ser mendigo. Diferente do Lataria, aquele que sacudia as latas de cozinha pendurada ao pescoço e que morava debaixo de uma árvore nas proximidades da Vila dos Aflitos. Ou do João Maria que tinha os dentes de lobisomem, mão de gancho armada com cacete. Ou, ainda, que Caíca a pedir esmolas ajoelhado, fazendo o sinal da cruz e beijando o chão para suplicar: “benção, padrinho!”

Uma pedinte, a Francisca, respondeu à porta da igreja quando lhe perguntaram se dava o nome em troco de dinheiro.

- Daí eu tinha meu nome do mesmo jeito. Foi meu pai que me pós.

Otavinho não sabia o sobrenome, dava-se de corpo e alma, sentia-se um sopro no barro, puro qual criança de berço. Berço de sarjeta, numa nuvem de pó, numa poça, no lixo. Pousava ao relento e, nas noites de neve, por milagre não sucumbia.

Guarapuava era boi de pedra bebendo água na lagoa. Só mugia quando havia cavalhada. Acordava-se ao meio-dia. Preguiçosa. Os fazendeiros e desocupados lagarteavam recostados ao muro do Clube Guaíra na Rua Quinze de Novembro. O Interventor discursara afirmando que “Guarapuava cresce para baixo como rabo de cavalo”.

Otavinho a engrandecia. Aquele maravilhoso céu azul estampava o olhar de Cristo zelando por onde ele andava. Ao escurecer, os sinos pregavam às andorinhas, e o campo queimando parecia um guará de fogo correndo no horizonte. Óbolos de prata caíam nas pedras das ruas em que Otavinho passava descalço.

Antigos moradores que rememoravam casos nos bancos defronte à Prefeitura provocam-no:

- Que há de novo?

- Casamento fugido co a fia do coroné, tiroteio na igreja do Pinhão, frege na raia, jogo de baraio, morte na “zona” do Morro Alto.

Gritava se ouvia barulho, punha as mãos na cabeça e corria apavorado. Não suportava a menor violência. Quando num comício eleitoral os atrevidos deram mais de mil tiros para o ar, começou a gritar para todo mundo ouvir:

- Estão atirando em Nossa Siora!

Muitas vezes apedrejado, cambaleava choramingando. De rosto macerado, olheiras arroxeadas, jeito de quem fazia do lugar uma bíblia de pedras aberta nas campinas verdes, o vento soprando salmos. Mas o frio chicoteava-o furiosamente no inverno.

Certa tarde, o crepúsculo fora um Calvário, e o dia morrera ensangüentado como Cristo na Cruz. O sol – sino de bronze – tangeu triste o arrebol. “À noite, Otavinho dormia ao relento, estirado numa calçada. Crivado de orvalho, enquanto sonhava, foi gelando até o coração. Expirou sem um gemido, sem uma lágrima ou queixa qualquer.”

Nessa vez, atiravam-lhe estrelas do céu.