Os “Monges” – história e lenda

 

              Enéas Athanázio (autor catarinense)

 

         Escritor incansável, Noel Nascimento exercita com idêntica segurança a história, a ficção, a poesia, a filosofia e a ciência jurídica. Dotado de agudo senso crítico, focaliza os eventos históricos por um viés inovador e às vezes surpreendente quando confrontado com historiadores ortodoxos. Além disso, escreve bem, num estilo muito pessoal e elegante, tornando a leitura um prazer. Comprovando sua produtividade, acaba de acrescentar à sua vasta obra mais três títulos. Trata-se de “A Nova Civilização” (Edição do autor – Curitiba – 2004), “A Revolução do Brasil” (Edição do Autor – Curitiba – 2005) e “Contos Fantásticos” (Edição do Autor – Curitiba – 2005). Todos apresentados com o esmero de quem faz das letras uma atividade superior.

         No primeiro deles, espécie de romance profético, o autor antevê o surgimento de uma nova civilização em plenos Campos Gerais, uma civilização “que é real, um sonho a realizar-se e não fantasia ou utopia. Aponto-a na direção do porvir, mas estou numa sociedade nova, de um mundo virgem nos primeiros estágios de desenvolvimento, em que ocorrera formidável miscigenação a originar um novo povo” (p. 5) . Essa Terra Prometida, um Brasil dos Campos Gerais, se vislumbrava no hemisfério sul, alteada por uma cruz cintilante no céu, onde imperaria uma igualdade fraterna. E aí se desenrola a trama, não faltando os ingredientes romanescos que atraem as atenções de todos. Mas esse mundo novo não é apenas resultado do mero desejo ou dos desvarios da imaginação, mas real e palpável, cuja gênese já pode ser percebida no Brasil de hoje. O livro é uma mensagem de esperança, uma lufada de ar puro no ambiente depressivo de hoje.

         Em “A Revolução do Brasil”, ensaio muito pensado e pesquisado, ele mostra como a revolução brasileira vem se realizando ao longo do tempo graças às conquistas do povo. Os fatos mais marcantes da história nacional, encarados de forma isolada, parecem independer dos outros, mas a interpretação correta revela que são elos de uma mesma corrente, como atos de um processo nem sempre percebido pelos historiadores. Tanto é assim que a muitos deles têm sobrevindo movimentos reacionários na tentativa de retornar ao status quo, o que é impossível porque a história não se repete. E assim, passo a passo, penosamente, dolorosamente, vai acontecendo a revolução que levará o país ao seu verdadeiro destino. Como afirma, “a história não pára. É um expresso correndo em direção ao futuro. Mas os historiadores pátrios a têm-na visto estática... A história há de ser vista dinâmica, coincidente com a realidade em movimento. É nessa história que se desenrolam a revolução brasileira, a contra-revolução e as lutas sociais” (p. 7). Com essa visão humanista, vai ele analisando a realidade social brasileira, a revolução e a contra-revolução, os avanços e os recuos, perdas e conquistas, os eventos mais importantes, entre eles a grande guerra camponesa do “Contestado” (1912 / 1916), seus “monges” e o Império Sul Brasileiro que deveria abranger não apenas os três Estados do Sul mas também o Uruguai. Sua abordagem sobre esses temas merece um comentário.

         “Monge – escreve ele – é o asceta plebeu e rebelde, visto no campo como um salvador, um enviado do céu. Não é padre nem frade, porém um líder místico que se destaca da massa dos vagabundos e desocupados dos latifúndios” (p.75). Na região do “Contestado”, três monges perambularam, dois de nome João Maria, e o terceiro, José Maria, o monge da guerra. Graças ao misticismo imperante na região, foram sagrados santos, dotados de imaginários poderes sobrenaturais, os santos do povo, como tantos outros existentes no país para os quais os cientistas sociais não encontram explicação pacífica e traçam teorias sem-fim. Ainda agora, graças a um livro que recebi dos autores, tomei conhecimento de mais um desses santos populares, o motorista Gregório, em cuja honra foi elevado um altar onde se fazem orações e pedidos, cantam-se louvores e feitos, depositam-se ex-votos em sinal de gratidão. Pelo que relatam os autores, é um santo que ainda vai dar o que falar. Quanto aos dois João Maria, sempre tive a impressão de que são confundidos na memória popular e unificados numa só pessoa nas crenças do povo. Creio que essa tese já mereceu a atenção de algum historiador. Quanto a José Maria, entrou em cena em Campos Novos, minha terra natal. “Recebido como salvador, José Maria instalou-se numa cabana no município de Campos Novos, para depois fixar-se em Curitibanos, em cujo município fundou Taquaruçu, o arraial santo e rebelde para onde afluíam os camponeses” (p. 76). Como registra a história, José Maria e o comandante das forças legalistas, coronel João Gualberto, pereceram num début sangrento nas terras do Irani, que seria o verdadeiro estopim da guerra.

         Esse reduto do Taquaruçu seria a capital do Império Constitucional Sul-Brasileiro, imaginado em todos os seus detalhes, e que constitui um dos mais curiosos aspectos da guerra camponesa. “Em Caraguatá, um novo arraial, gêmeo de Taquaruçu, a outra virgem, Maria Rosa, filha do camponês Eliasinho dos Santos, transmitiu as ordens de proclamação da monarquia e de coroação de Rocha Alves como Imperador” (p. 79). É lançada uma “carta aberta à nação”, mal redigida e considerada ingênua, subscrita por Dom Manuel Alves de Assunção Rocha, o Rocha Alves, declarando ter sido proclamado Imperador Constitucional. A reivindicação material, no fundo, era a mesma de sempre: terra para plantar, colher, viver em paz (p. 80). O capitão Matos Costa, soldado que compreendia as reivindicações dos caboclos e que foi tão injustamente morto, declarava que os “sublevados eram espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança” (p. 81).  Foi morto perto da estação de São João dos Pobres, hoje rebatizada de Matos Costa em sua homenagem. Depois de Taquaruçu e Caraguatá brotaram redutos revoltosos na região. Havia uma igrejinha, um quadro santo e muitos ranchos. Dali partiam os piquetes, atacando aqui e acolá, atirando de cima das árvores, realizando tocaias, numa guerra móvel que deixava aturdidas as forças governistas. Atacaram Canoinhas, Papanduva e Itaiópolis. Em Calmon, queimaram a serraria da Lumber, provocando um fogaréu que iluminou as noites do sertão, e degolaram os que julgaram inimigos. Ainda conheci, nessa localidade, o chamado poço dos jagunços, onde diziam ter sido esqueletos sem as cabeças, vítimas das degolas. Na sua fase final, a guerra se transformou em puro banditismo. Adeodato, que alguns chamavam Leodato, foi o mais destacado bandoleiro dessa fase e sua fama perdurou na região ao longo das gerações. “A grande resistência acabou degenerando em simples ações de bandoleiros e a constituir um caso de polícia. As famílias camponesas fugiam para as cidades, aos milhares, abandonando os arraiais. Então as forças policiais dos Estados de Paraná e Santa Catarina, com auxílio de vaqueanos, terminaram a chacina, triste fim do Império Sul-Brasileiro” (p. 86).

         Maior e mais duradouro movimento revolucionário da história nacional, o “Contestado” exigiu grande esforço dos governos federal e dos Estados de Santa Catarina e Paraná para ser debelado, além de ter provocado enormes gastos e ceifado milhares de vidas. A expulsão dos posseiros pelas Cia. Lumber, o desemprego que sobreveio à conclusão da ferrovia e o misticismo exacerbado constituíram o caldinho ideal para a chamada “guerra do novo mundo”. A região que lhe serviu de palco ficou empobrecida e durante muitos anos o assunto foi escamoteado, enquanto as fontes para estudo e as testemunhas desapareciam. Hoje, porém, há um renovado interesse pelo assunto.

         Em “Contos Fantásticos” o autor reuniu várias peças de ficção, embora todas, ou quase todas, tenham algum fundamento histórico. Dentre esses contos, “João Maria” se enquadra melhor nos temas deste artigo, merecendo um comentário. Percebe-se desde o início que o personagem é o segundo João Maria, uma vez que há referência ao primeiro, “um outro velhinho, o Agostini, que morara antes dele na gruta (da Lapa), mas não fizera guerra, nem história, só folclore, fora mais um tipo de frade e não propriamente tudo que se entende por monge” (p.19). Ele voltara à gruta para esquecer a guerra, ali fazia uma parada em sua interminável caminhada. Corriam versões a respeito dele: era Anastás Marcaf ou Johana Ieshona, nascido na Galiléia, ou um espião argentino a observar o Sul, ou então um simples andarilho, sem paragem ou identidade, como tantos outros seres que cortam os campos, furam os matos, palmilham os caminhos, sem cansaço e até sem comida, intoxicado de chimarrão e fumo forte. “Poucas vezes lhe faltavam pinhão, mel e verdura. Bem que se lambia ao tomar o café com leite e bolinhos de trigo que lhe davam nas fazendas. (...) Se os curiosos perguntavam quem era, tinha a resposta pronta na língua: - Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença” (pp. 22 e 23). Para dormir, fincava três varas no chão, formando um triângulo, e ali dentro dormia, livre de cobras, bichos, águas da chuva e outros males. Juntar terras e terras, dinheiro e muitos bens materiais à custa do trabalho alheio é crime, dizia ele, apregoando a vinda de pestes, desgraças, doenças e violência. Nas cidades só há ambição e hipocrisia, os filhos da mata precisam ficar na Casa Verde (a própria mata).

         Suas lendas e profecias corriam mundo. “Os povoados em que fora maltratado, João Maria disse que iriam “rolar para trás” e, de fato, foram sumindo. Antevira: um dia Curitibanos vai se tornar uma tapera, a cidade de Lages sofrerá uma praga de borrachudos”(p.28). Ouvi dizer, desde criança, que ele também havia praguejado minha terra em virtude de maus tratos sofridos. Mas as pragas, por sorte, não pegaram. Previu – desta vez com precisão – que o desmatamento acarretaria imensas enchentes, que o ronco dos pássaros de ferro (aviões) seria ouvido nos ares e que outro monge, José Maria, “virá continuar minha guerra” (p. 30). Plantava cruzes nos morros, com seus braços abertos, e afirmou que seu túmulo seria cavado pelos índios no cerro de Taió. E seu sucessor apareceu, dizendo-se irmão e pregando a guerra justa, conduzindo os crentes para a insurreição cabocla, a mais sangrenta e duradoura de nossa história.

         Mas – como diz o autor – “santo não morre. João Maria protege a Casa Verde. Guiado pelo bordão inseparável, vagueia nas veredas da história” (p. 33).

         O passeio pelas obras de Noel Nascimento, das quais tentamos dar uma amostra, é agradável e produtivo, desvendando facetas curiosas de nosso Estado e de todo o Sul.

 


Noel  Nascimento - Email: noel@astrovates.com.br