Opinião

 

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UM RETRATO DO BRASIL (por Ivan Schmidt, Jornalista)

 

 

Há um escritor paranaense conhecido por muitos, mas infelizmente desconhecido pela maioria, mesmo dos        apreciadores da leitura de nível superior, Noel Nascimento, que acabou de ter sua obra prima, o romance histórico Arcabuzes, relançado pela Juruá, uma editora paranaense que em momento elevado teve o descortino administrativo de re-direcionar sua política editorial.

            Lançado originalmente em 1997 pela gaúcha Mercado Aberto, em colaboração com a Universidade Federal de São Carlos (SP), Arcabuzes recebeu o Prêmio Nacional de Romance, atribuído por uma comissão formada, entre outros, pelos consagrados romancistas Ignácio de Loyola Brandão (Deonísio da Silva, cuja justificativa para a premiação assegurava estar o leitor diante de “um escritor interessado em decifrar o Brasil, em narrar outra história,dando versões bem diferentes da história oficial e, principalmente, contestando a versão triunfante e gloriosa imposta desde os primeiros anos nas escolas”.

            Trabalhando com as licenças franqueadas pela criatividade do narrador consciente e, acima de tudo, profundo conhecedor do tema que resolveu abordar, Noel teceu um admirável painel da vida brasileira nos períodos que antecederam e se seguiram à proclamação da República, em 1889, notabilizados por dois extraordinários acontecimentos: as guerras messiânicas de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, e do Contestado, cujo protagonista da fase inicial foi o curandeiro José Maria, ou Miguel Lucena de Boa Ventura, desertor da polícia paranaense e, mais tarde taumaturgo da Irmandade cabocla reunida na vila de Taquaruçu, nas proximidades de Curitibanos (SC), lá pela altura de 1912.

            José Maria se dizia irmão mais novo de João Maria, o andarilho Anastás Marcaf, um admirador do revolucionário Gumercindo Saraiva, que varava os sertões da região Sul plantando cruzes, rezando, distribuindo mezinhas e dormindo em cavernas, como a gruta da Lapa.    Saraiva, anos depois, teria papel preponderante na “invasão” do Paraná, à frente dos maragatos que tencionavam derrubar a República (Floriano já era o presidente), mais especialmente no histórico episódio do Cerco da Lapa.

             Na realidade, esse foi o fio da meada tomado pelo romancista para desenvolver sua proposta de resgatar a história – sem falseá-la – com uma riqueza impressionante de informações, lendas pessoais e espaços geográficos que constituem o locus de uma ação prolongada no tempo.

             Sem medo de errar, poder-se-ia afirmar que Noel movimentou seus personagens, alguns deles com uma expressão digna da melhor cepa do romance nacional, como os inesquecíveis Xandô, doutor Vitor e coronel Solano, entre outros tantos, obviamente inspirados em atores reais daquele ciclo.   É por demais conhecido o pensamento de Leon Tolstoi sobre o desejo de ser universal.   Dizia o autor de Guerra e Paz que se alguém tencionava ser universal que cantasse primeiro sua aldeia.   Pois não foi outra a escorreita intenção de Noel senão narrar um conturbado período da história brasileira a partir de seu torrão natal, a antiga vila de Ponta Grossa, que “palpitava nos campos gerais, bem no topo, com a capela ao lado da célebre Casa de Telha”, uma estrela pregada no céu para alumiar o vaivém das tropas.

             Proclamada a República, mal findara o baile da Ilha Fiscal, o último promovido pela monarquia, estouram focos de resistência e se robustece a ameaça da anarquia.   A contra-revolução tencionava enfraquecer o governo republicano espalhando toda sorte de boatos.   Um deles assegurava que uma flotilha da Marinha Imperial tinha partido para trazer dom Pedro II de volta ao Rio de Janeiro...

             O Rio Grande se pôs em pé de guerra, com a costumeira divisão de seus envaidecidos chefetes e, entregando o comando da coluna aos irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva, iniciou a marcha contra o resto do Brasil.  Uma revolução alcunhada de constitucionalista, na verdade, apenas uma tentativa de restaurar a monarquia dos Bragança.

            Essa é a história contada por Noel Nascimento em Arcabuzes, romance que deve ser lido por todos quantos almejam conhecer a intimidade de um povo que se fez na extensão das pessoas.   Um agradável exercício de prazer e emoção.

 

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O olhar de um poeta iluminado: Noel nascimento

 

 

           Agraciada com a publicação “Cosmonave”, 2a. edição, que é complementada por aquela intitulada “Coreto de Papel”(4a. edição, Curitiba, Vicentina, 2006), de autoria de Vossa senhoria, Noel Nascimento, ensaísta, romancista e poeta, e que possui inúmeros talentos, propus-me a realçar alguns aspectos de sua etérea, sublimada e luminosa inspiração, expressa em diversas poesias, que enriquecem a nossa literatura, alçando o autor ao grupo de poetas brasileiros mais destacados, lídimos representantes de nossas manifestações culturais e literárias, tanto a nível nacional, quanto regional e local, olhar, este, inteligente e significativo, principalmente para o microcosmo de Curitiba, tendo, como um dos eixos principais, o homem, como ser histórico e social, e a natureza em geral, associando os aspectos geográficos, materiais, terrenos, ou seja, o espaço físico, com o espaço sideral, o Cosmos, alcançando os píncaros do irreal, do etéreo e do imaginário, chegando ao nível da utopia, da musicalidade das idéias e da expressão da alma brasileira e, porque não dizer, curitibana.

           O autor coloca os seus dons e talentos nos seus versos, reconhecendo que a sua condição de poeta é uma dádiva de Deus, concedida a uns poucos mortais, como no seu caso, o olhar de um brasileiro para o meio ambiente que o cerca, no sentido de captar e recriar a realidade, ultrapassando, nessa análise, os limites terráqueos, concretos e materiais, transcendendo, para o plano superior, procurando decifrar e traduzir, na sua poesia, os mistérios da mente e do coração humano, valorizando os princípios metafísicos da religião e o progresso da ciência, que se completam, sem antagonismos.

           Para se ter uma idéia de conjunto, só mesmo lendo o livro todo, procurando o alcance do olhar do autor e o significado de cada verso, de cada palavra, de cada pontuação, de cada pausa, no sentido de absorver o caráter humanista, místico e polêmico, principalmente nos dias atuais. Resolver os problemas é tarefa de gigantes, mas “é possível em poesia / alcançar o inatingível” (O primeiro astronauta. Cosmonave, p.7).

           Após estas rápidas considerações, faço votos que o autor continue a premiar os leitores em geral, com novas publicações, nos gêneros de sua preferência, contribuindo para o nosso enriquecimento cultural e exaltando, de modo significativo, o espírito de brasilidade e paranismo.

Curitiba, janeiro de 2007

Odah Regina Guimarães Costa

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"Oserva Tulio Vargas que tem sido predominante nas cogitações literárias e filosóficas do autor a tese de uma revolução cultural humanista, tendente a caracterizar uma nova época de luzes, com a afirmação do primado do homem na história, sua dignidade, restabelecendo-lhe os valores imperecíveis e criando o critério do realismo humanista nas artes e na literatura

Noel Nascimento foi o primeiro paranense a vencer o Concurso Nacional de Romances, no estado do Paraná. Conferiram-lhe o prêmio os escritores Ignácio Loyola Brandão, Dionísio da Silva e Jane Bodnar."

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"Quem não leu 'Arcabuzes' não sabe nada de Brasil, muito menos dos estados do Sul." - Paulo Henrique Figueiredo, Porto Alegre

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"Noel Nascimento escreveu outro romance paradigmático sobre uma das nossas traumáticas, sanguinárias e inúteis tragédias nacionais. É uma história shakespereana, cheia de ruído e furor. Um livro muito bem escrito, tem a originalidade de incluir cidades (Ponta Grossa com suas histórias tenebrosas de província; Curitiba, centro de desvairados desdobramentos políticos, e a Lapa, com o famoso cerco em que, afinal, se decidiram os destinos da revolução. A chamada Guerra do Contestado já lhe havia inspirado o romance 'Casa Verde'." - Wilson Martins, Curitiba - PR

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"Caro Noel,  

 É Com grande júbilo que li o seu livro “ARCABUZES “. Quando terminei a leitura, (já sou um homem que passou dos 40 anos), lembrei-me dos arroubos da juventude, dos meus 17, 18, 25 anos, quando tive por Companheiros Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Henry Miller, Machado, Manoel Bandeira, Guimarães Rosa, escritores que você bem conhece. Sabe NOEL, quando mais jovem, eu amava tanto esses escritores que sentia vontade de conhecer a vida deles em seus pormenores. Gostaria de Ter conhecido Perspectiva Nevski por onde caminhava Dostoievski, é piegas mas é a verdade. Tinha como herói o grande escritor americano Henry Miller, que quando morreu em 1980, senti profundo pesar, pois desejava conhecê-lo pessoalmente. Puxa, todas as pessoas pelas quais tinha realmente admiração, já haviam morrido a muito.

-Foi quando um dias destes tive a boa ventura de Ter em minhas mãos o teu livro, quase que por acaso, aqui neste canto de mundo que se chama Pinhais, Estado do Paraná. Um livro que você doou para uma SRA. Rosilda, a qual não conheço, mas vi tua dedicatória e quando comecei a primeira página não consegui mais parar de lê-lo. Parece que tenho faro para bons livros. Bem, nesse momento, percebi que minha busca havia terminado, pois havia encontrado alguém que retrata bem a sua aldeia e era alguém vivo. Demorou mas percebi que todos aqueles escritores que amava, morassem talvez aqui perto de mim. Isso encheu-me de contentamento, pois soube que estava diante de algo grande, o teu livro, e diante de um grande escritor, que sabia o que era nadar cachorrinho e arrancão, termos que faziam muitos anos não ouvia. Ei, ei, pessoal, não deixemos passar despercebido, no nosso meio existe um jovem de 79 anos que não perdeu seus sonhos, clamemos nos auto falantes, falemos a boca pequena, tem alguém que conservou o bom vinho até agora, temos um tal de NOEL que não é alguém de uma geração, mas de todas até agora, e pasmem é um dos nossos, mora aqui bem pertinho.  Olhe, não sou literato, julgo humildemente que possuo uma cultura mediana, mas sei avaliar um bom livro. Consigo beber com avidez e grande prazer a boa leitura. Fico eletrizado diante da tamanha engenhosidade, conhecimento e laivos de cultura que emanam de ARCABUZES, além dos arremessos que nos levam a imaginação, com os quadros que formamos na mente, quando nos deparamos com sua rica leitura. Mudei minha forma de ver muitas coisas. Soube por exemplo que onde vivemos, aqui na Curitiba, na Ponta Grossa ou na Lapa, houve num passado não muito remoto, uma guerra terrível entre irmãos, que se vivemos hoje aqui tranqüilos, de papo para o ar, muitos morreram, adubaram este solo com sangue, suor e lágrimas. Houve aqui uma guerra, esquecida e não conhecida pela maioria de nós, não divulgada hoje. Vejo a figura do Marechal de Ferro  com grande admiração e simpatia depois de descrito pelo Noel. Vejo a podridão e oportunismo da igreja católica da época, que não queria perder a teta da Monarquia, para não falar do enredo do romance, que é belo, real, parece que os personagens moram aqui ao lado, que CHANDO era meu amigo de infância.

-Bem, vi muitos elogios tecidos a você. Todos merecidos. Sabe, aprendi muito da história do nosso país, lendo teu romance. Creio que deveríamos adotar esta forma de aprender, lendo algo que nos dá satisfação. Nunca mais esquecemos os conceitos, a poesia, realmente é prazeroso aprender algo assim.

Depois dos 40 anos, muitas pessoas já se amoldaram aos moldes do mundo, muitas se tornaram amargas pelas pressões, pelos problemas materiais, por uma série de fatores. Todavia, acredito que não devemos perder a fé, não podemos matar o talento que todos nós herdamos algum. Vejo amigos de infância que eram crianças adoráveis tornarem-se escravas do sistema, amargosas, problemáticas, alienadas, sem afeição natural, nada amorosos. Meu Deus, parece que estamos todos soltos e sós, jogados à própria sorte, numa arena.

Bem, não vou me alongar mais. Não me perdoaria se não pudesse me expressar para você.

Olhe, estou torcendo sempre por você.

 Com Carinho do seu Leitor, 

 MARCOS OLIMPIO ALBUQUERQUE" - Pinhais - PR

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Confrade Amigo Noel Nascimento,  

    Terminei a leitura, com muito interesse, do seu interessantíssimo "ARCABUZES". Louvo o seu árduo trabalho intelectual de conhecimento histórico e de imaginação criadora. Poucos romances prenderam tanto como o seu por dois motivos: a limpeza de linguagem e os fatos nele relatados com tanta precisão temática. Sem dúvidas é um livro romance para ficar. Original no seu contexto. Puro no seu estilo. Bem escrito e bem construído.

        Sem dúvida "Arcabuzes" vale também pelo seu  conteúdo histórico. Ensina muita coisa que não sabíamos. Nos leva para um mundo de relações humanas que impressionam pelo que conta de verdade num tempo que passou. Pode estar certo: é um livro-romance documento dos melhores escritos da nossa atual literatura.

        Prometo a mim mesmo que vou relê-lo com mais vagar pela sua alta importância intelectual. Com a sua leitura não se perde tempo, se ganha tempo de conhecimento de um passado dramático nos seus aspectos humanos. A presença dos inúmeros personagens faz reviver uma época que não pode ser esquecida. São figurantes que chegam agora para nos dizer que viveram.

        Grande abraço do seu amigo,

        Manoel de Oliveira Franco Sobrinho - Curitiba - PR

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Os “Monges” – história e lenda

 

Enéas Athanázio (autor catarinense)

 

         Escritor incansável, Noel Nascimento exercita com idêntica segurança a história, a ficção, a poesia, a filosofia e a ciência jurídica. Dotado de agudo senso crítico, focaliza os eventos históricos por um viés inovador e às vezes surpreendente quando confrontado com historiadores ortodoxos. Além disso, escreve bem, num estilo muito pessoal e elegante, tornando a leitura um prazer. Comprovando sua produtividade, acaba de acrescentar à sua vasta obra mais três títulos. Trata-se de “A Nova Civilização” (Edição do autor – Curitiba – 2004), “A Revolução do Brasil” (Edição do Autor – Curitiba – 2005) e “Contos Fantásticos” (Edição do Autor – Curitiba – 2005). Todos apresentados com o esmero de quem faz das letras uma atividade superior.

         No primeiro deles, espécie de romance profético, o autor antevê o surgimento de uma nova civilização em plenos Campos Gerais, uma civilização “que é real, um sonho a realizar-se e não fantasia ou utopia. Aponto-a na direção do porvir, mas estou numa sociedade nova, de um mundo virgem nos primeiros estágios de desenvolvimento, em que ocorrera formidável miscigenação a originar um novo povo” (p. 5) . Essa Terra Prometida, um Brasil dos Campos Gerais, se vislumbrava no hemisfério sul, alteada por uma cruz cintilante no céu, onde imperaria uma igualdade fraterna. E aí se desenrola a trama, não faltando os ingredientes romanescos que atraem as atenções de todos. Mas esse mundo novo não é apenas resultado do mero desejo ou dos desvarios da imaginação, mas real e palpável, cuja gênese já pode ser percebida no Brasil de hoje. O livro é uma mensagem de esperança, uma lufada de ar puro no ambiente depressivo de hoje.

         Em “A Revolução do Brasil”, ensaio muito pensado e pesquisado, ele mostra como a revolução brasileira vem se realizando ao longo do tempo graças às conquistas do povo. Os fatos mais marcantes da história nacional, encarados de forma isolada, parecem independer dos outros, mas a interpretação correta revela que são elos de uma mesma corrente, como atos de um processo nem sempre percebido pelos historiadores. Tanto é assim que a muitos deles têm sobrevindo movimentos reacionários na tentativa de retornar ao status quo, o que é impossível porque a história não se repete. E assim, passo a passo, penosamente, dolorosamente, vai acontecendo a revolução que levará o país ao seu verdadeiro destino. Como afirma, “a história não pára. É um expresso correndo em direção ao futuro. Mas os historiadores pátrios a têm-na visto estática... A história há de ser vista dinâmica, coincidente com a realidade em movimento. É nessa história que se desenrolam a revolução brasileira, a contra-revolução e as lutas sociais” (p. 7). Com essa visão humanista, vai ele analisando a realidade social brasileira, a revolução e a contra-revolução, os avanços e os recuos, perdas e conquistas, os eventos mais importantes, entre eles a grande guerra camponesa do “Contestado” (1912 / 1916), seus “monges” e o Império Sul Brasileiro que deveria abranger não apenas os três Estados do Sul mas também o Uruguai. Sua abordagem sobre esses temas merece um comentário.

         “Monge – escreve ele – é o asceta plebeu e rebelde, visto no campo como um salvador, um enviado do céu. Não é padre nem frade, porém um líder místico que se destaca da massa dos vagabundos e desocupados dos latifúndios” (p.75). Na região do “Contestado”, três monges perambularam, dois de nome João Maria, e o terceiro, José Maria, o monge da guerra. Graças ao misticismo imperante na região, foram sagrados santos, dotados de imaginários poderes sobrenaturais, os santos do povo, como tantos outros existentes no país para os quais os cientistas sociais não encontram explicação pacífica e traçam teorias sem-fim. Ainda agora, graças a um livro que recebi dos autores, tomei conhecimento de mais um desses santos populares, o motorista Gregório, em cuja honra foi elevado um altar onde se fazem orações e pedidos, cantam-se louvores e feitos, depositam-se ex-votos em sinal de gratidão. Pelo que relatam os autores, é um santo que ainda vai dar o que falar. Quanto aos dois João Maria, sempre tive a impressão de que são confundidos na memória popular e unificados numa só pessoa nas crenças do povo. Creio que essa tese já mereceu a atenção de algum historiador. Quanto a José Maria, entrou em cena em Campos Novos, minha terra natal. “Recebido como salvador, José Maria instalou-se numa cabana no município de Campos Novos, para depois fixar-se em Curitibanos, em cujo município fundou Taquaruçu, o arraial santo e rebelde para onde afluíam os camponeses” (p. 76). Como registra a história, José Maria e o comandante das forças legalistas, coronel João Gualberto, pereceram num début sangrento nas terras do Irani, que seria o verdadeiro estopim da guerra.

         Esse reduto do Taquaruçu seria a capital do Império Constitucional Sul-Brasileiro, imaginado em todos os seus detalhes, e que constitui um dos mais curiosos aspectos da guerra camponesa. “Em Caraguatá, um novo arraial, gêmeo de Taquaruçu, a outra virgem, Maria Rosa, filha do camponês Eliasinho dos Santos, transmitiu as ordens de proclamação da monarquia e de coroação de Rocha Alves como Imperador” (p. 79). É lançada uma “carta aberta à nação”, mal redigida e considerada ingênua, subscrita por Dom Manuel Alves de Assunção Rocha, o Rocha Alves, declarando ter sido proclamado Imperador Constitucional. A reivindicação material, no fundo, era a mesma de sempre: terra para plantar, colher, viver em paz (p. 80). O capitão Matos Costa, soldado que compreendia as reivindicações dos caboclos e que foi tão injustamente morto, declarava que os “sublevados eram espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança” (p. 81).  Foi morto perto da estação de São João dos Pobres, hoje rebatizada de Matos Costa em sua homenagem. Depois de Taquaruçu e Caraguatá brotaram redutos revoltosos na região. Havia uma igrejinha, um quadro santo e muitos ranchos. Dali partiam os piquetes, atacando aqui e acolá, atirando de cima das árvores, realizando tocaias, numa guerra móvel que deixava aturdidas as forças governistas. Atacaram Canoinhas, Papanduva e Itaiópolis. Em Calmon, queimaram a serraria da Lumber, provocando um fogaréu que iluminou as noites do sertão, e degolaram os que julgaram inimigos. Ainda conheci, nessa localidade, o chamado poço dos jagunços, onde diziam ter sido esqueletos sem as cabeças, vítimas das degolas. Na sua fase final, a guerra se transformou em puro banditismo. Adeodato, que alguns chamavam Leodato, foi o mais destacado bandoleiro dessa fase e sua fama perdurou na região ao longo das gerações. “A grande resistência acabou degenerando em simples ações de bandoleiros e a constituir um caso de polícia. As famílias camponesas fugiam para as cidades, aos milhares, abandonando os arraiais. Então as forças policiais dos Estados de Paraná e Santa Catarina, com auxílio de vaqueanos, terminaram a chacina, triste fim do Império Sul-Brasileiro” (p. 86).

         Maior e mais duradouro movimento revolucionário da história nacional, o “Contestado” exigiu grande esforço dos governos federal e dos Estados de Santa Catarina e Paraná para ser debelado, além de ter provocado enormes gastos e ceifado milhares de vidas. A expulsão dos posseiros pelas Cia. Lumber, o desemprego que sobreveio à conclusão da ferrovia e o misticismo exacerbado constituíram o caldinho ideal para a chamada “guerra do novo mundo”. A região que lhe serviu de palco ficou empobrecida e durante muitos anos o assunto foi escamoteado, enquanto as fontes para estudo e as testemunhas desapareciam. Hoje, porém, há um renovado interesse pelo assunto.

         Em “Contos Fantásticos” o autor reuniu várias peças de ficção, embora todas, ou quase todas, tenham algum fundamento histórico. Dentre esses contos, “João Maria” se enquadra melhor nos temas deste artigo, merecendo um comentário. Percebe-se desde o início que o personagem é o segundo João Maria, uma vez que há referência ao primeiro, “um outro velhinho, o Agostini, que morara antes dele na gruta (da Lapa), mas não fizera guerra, nem história, só folclore, fora mais um tipo de frade e não propriamente tudo que se entende por monge” (p.19). Ele voltara à gruta para esquecer a guerra, ali fazia uma parada em sua interminável caminhada. Corriam versões a respeito dele: era Anastás Marcaf ou Johana Ieshona, nascido na Galiléia, ou um espião argentino a observar o Sul, ou então um simples andarilho, sem paragem ou identidade, como tantos outros seres que cortam os campos, furam os matos, palmilham os caminhos, sem cansaço e até sem comida, intoxicado de chimarrão e fumo forte. “Poucas vezes lhe faltavam pinhão, mel e verdura. Bem que se lambia ao tomar o café com leite e bolinhos de trigo que lhe davam nas fazendas. (...) Se os curiosos perguntavam quem era, tinha a resposta pronta na língua: - Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença” (pp. 22 e 23). Para dormir, fincava três varas no chão, formando um triângulo, e ali dentro dormia, livre de cobras, bichos, águas da chuva e outros males. Juntar terras e terras, dinheiro e muitos bens materiais à custa do trabalho alheio é crime, dizia ele, apregoando a vinda de pestes, desgraças, doenças e violência. Nas cidades só há ambição e hipocrisia, os filhos da mata precisam ficar na Casa Verde (a própria mata).

         Suas lendas e profecias corriam mundo. “Os povoados em que fora maltratado, João Maria disse que iriam “rolar para trás” e, de fato, foram sumindo. Antevira: um dia Curitibanos vai se tornar uma tapera, a cidade de Lages sofrerá uma praga de borrachudos”(p.28). Ouvi dizer, desde criança, que ele também havia praguejado minha terra em virtude de maus tratos sofridos. Mas as pragas, por sorte, não pegaram. Previu – desta vez com precisão – que o desmatamento acarretaria imensas enchentes, que o ronco dos pássaros de ferro (aviões) seria ouvido nos ares e que outro monge, José Maria, “virá continuar minha guerra” (p. 30). Plantava cruzes nos morros, com seus braços abertos, e afirmou que seu túmulo seria cavado pelos índios no cerro de Taió. E seu sucessor apareceu, dizendo-se irmão e pregando a guerra justa, conduzindo os crentes para a insurreição cabocla, a mais sangrenta e duradoura de nossa história.

         Mas – como diz o autor – “santo não morre. João Maria protege a Casa Verde. Guiado pelo bordão inseparável, vagueia nas veredas da história” (p. 33).

         O passeio pelas obras de Noel Nascimento, das quais tentamos dar uma amostra, é agradável e produtivo, desvendando facetas curiosas de nosso Estado e de todo o Sul.