Adeus de Rosa Vermelha

                                                                          Noel Nascimento

		I
Eu só quero uma rosa vermelha
para acenar do meu vagão.
Já comprei um terno novo
para a hora do adeus.
Pungente ressoa o apito
do trem de fogo do arrebol.
É um grito que estremece
o fúnebre pátio da Estação.
Há cortejos de lágrimas e flores
em direção à carruagem.
O coração dá a hora da partida,
pára de repente.
Move-se o trem a céu aberto
na trilha do Infinito.
Some o sol no poente
e se acabam as dores.
As nuvens são a fumaça 
da máquina a vapor.
As pétalas viram centelhas,
e os espinhos saudades.
Eu me vou, mas permaneço.
Se presente o sol faz o dia
também faz a noite se ausente.
 
		II
Ficam na alma as lembranças.
O tempo não passa,
dura sempre para quem ama.
A rosa vermelha
marcou-me o caminho,
espelha o meu coração.
Mágico oráculo, carta flórea,
dama de copas ditando-me a sorte.
Embriaguei-me da corola que se derrama
no verde cálice do perianto.
 
		III
Meu adeus é breve poema,
aceno de versos florais.
Devo a Deus e tanto a tantos
		a felicidade,
a veste, o pão, o teto e o afeto.
Renascer é a lei da vida
e na aurora voltarei um dia.
Apenas um véu separa
a Terra do Céu.
Volátil e liberto na viagem,
entre as estrelas o transponho.
O Além é muito perto
e sei que lá me querem bem.
É de madeira o coche
que vou em estado de graça.
Vivi lendas e quimeras reais
sem glória e sem história,
com alegria.
Vou fingir que poeta não chora
para viajar risonho.
Ao fechar-se o vagão sobre a essa
e me virem entre as centelhas,
não dormi nem morri.
Por mim não chorem mais:
eu acordei de um sonho