Furiosa

                                                                          Noel Nascimento



Entre alas de sorrisos

a banda passa,
e se exclama: -"Furiosa!"


É a banda do Sapateiro
que passa
e sobe a ladeira da  Matriz,
céu em festa.


Feliz
o povoado sai de casa,
vem às ruas
marchar o dobrado,
rodopiar a valsa
e saltitar o maxixe
na Praça.
 
Noite de festa de Santana,
a banda passa
pisando em pedrinhas de estrelas
e na luz do luar.


"Furiosa!"
é trem de música,
a carga de alegrias.
O povoado pega fogo
entre rolos de nuvens
e fagulhas de sonoras.


Bulha campestre
no fragor metálico:
cocorocós,
coaxos e mugidos,
silvos e estrídulos,
gorjeios da passarada.


O coração
acompanha o bombo,
a cidade vira uma plataforma
de Estação.


Faz graça
resmungando a tuba.
Trombones, bombardinos,
flautins e cornetins
tocam por amor.
À frente
o polaco sapateiro
sem o martelo e o avental de couro,
empertigado no brim domingueiro,
	apita a flauta
regendo a máquina fumacenta.
Atrás
o bombo fazendo estrondo,
a caixa-clara repicando
e outro crioulo
batendo palmas de pratos.


Eu menino
na rabeira.  


Não há quermesse sem ela,
tão singela e pura
que o padre
e até os santos saem da igreja
para ouvi-la tocar.


Do coreto
levaram-na os anjos.
Subindo
a banda passa 
em pedrinhas de estrelas
e na luz do luar.
A retreta
é na Praça da Matriz
da Via Láctea...