Heterônimos

                                                                          Noel Nascimento



Na minha vida
multiplicada e dividida
existem tantas
quantos foram meus nomes.


A criança que eu fora
voava além de mim.


Em heróicas figuras
corri terras estranhas,
mares e ilhas,
em busca de tesouros.
Casei com a filha do rei,
vivi venturas sem fim.


Era fácil ser outros e eu mesmo,
vencer bruxas, gigantes,
vilões, tiranos e malfeitores,
fazer justiça em sonhos.


As donzelas que salvei,
as mais belas esposei.


Fui mosqueteiro, espadachim,
pirata e até galé;
dos romancistas
só não encarnei o Quasímodo.


Qual um mago,
de plebeu tornei-me príncipe.


Fiz a viagem de Marco Polo
e, nos tempos de Colombo,
	a das caravelas.


Por amor de Dulcinéa,
lutei como Dom Quixote;
sem o amor de Violeteira,
fui Carlitos nas telas.


Vivi dramas e tragédias
de Tolstói e Dostoiévski;
e de Romeu a Othelo,
morri de amor, matei de ciúmes.


Chefiei rebelião de escravos,
na cruz morri Spartacus.
Pranteei a desgraça negra
nos versos de Castro Alves.


Carrego lembranças pungentes
de algozes convertidos
há dois mil anos
na crucificação de Cristo.


Eu sinto a dor do mundo,
mas também as alegrias,
por isso meu amor é grande.


A criança que eu fora
voava além de mim.


Já virei de tudo nos contos,
nas fitas, nas fábulas,
	nos quadrinhos.
Já virei de tudo por encanto:
	e - numa só vez -
em mais de mil passarinhos.