As Vozes

(Noúres)

                                                                          Noel Nascimento



	I



Silêncio!


Eu ouço o clamor da Natureza,
a Mãe-Terra ferida.


Crepitam línguas de fogo
devorando a flora,
estertora a fauna.


O solo sangra,
os rios - féretros líquidos -
transportam cardumes mortos
com coroas de lixo e lama
ao enterro nas margens.


Há presságios na migração das aves,
no pio da coruja,
nas flores murchas,
no canto da baleia.


Eu ouço o bramido dos mares,
o clamor de socorro.


A erupção das máquinas
	(cinzas, pedras,
	lava fervente)
soterra os céus.
Desmoronam os pólos,
inclina-se o planeta,
deslocam-se os oceanos.


Nos porões da humanidade,
gases drogas, narcotráfico,
batalhas nas ruas, nos lares;
saques, estupros, chacinas,
pobres à beira dos esgotos,
ricos presos em fortalezas.


A vida poluída,
perversão nas letras,
nas artes, nas imagens,
pulverizada a poesia.




	II


Silêncio!


A fala tátil do vento,
luminosa das estrelas,
simbólica nas asas do pombo,
é de Esperança!


Eu ouço a música das esferas
e o raiar do Terceiro Dia
na concha acústica do infinito.
Ondas noúricas...
O universo é só um arquipélago
emergindo de um mar sonoro.


Eu ouço a voz das coisas,
o desejo de ser da semente,
o brotar de flores
- acordes de pétalas -,
sob as formas o princípio,
a idéia do movimento,
a alma do mundo
emanando bondade.


Na Terra a ressonância:
pios, cris-cris, zumbidos, gorjeios,
estacato do sapo-martelo,
todos os cantos;
murmúrios, quedas d'água,
farfalhar de asas, folhas,
solos de pássaros,
concertos humanos.


Eu ouço a vida nos elementos,
nas pedras,
nos cristais,
em todos os reinos,
como o cântico verde das matas,
o azul do céu e do mar,
e os metais agrupados nas galáxias.


Eu ouço a Voz que rege o mundo
em meu palpitar.


Notas de bem e alegria
nas pautas,
vida - o tema
ascensão - nos movimentos,
vibrato sublime - o final.


Eu ouço na alma
a música das esferas.


Armas quebradas,
palmas!
Corrente de abraços
envolvem a Terra.
Movem-se as montanhas.
Desfilam rios cristalinos
entre aplausos de bosques
em regozijo.


Mutirões de boa vontade.
A cada qual seu teto,
sua árvore e mil passarinhos,
ar, sol e água pura;
seu trabalho,
parte na roça, na horta
e no pomar;
um lugar ao sol,
um pedaço de rio,
de mar e de céu.
A todos o Amor!


Eu ouço na alma
	o Verbo
e do alto as trombetas
anunciando o homem novo.


Na fusão de sons, acordes, ritmos,
cores, letras e sentimentos,
desfralda-se em minha poesia
a bandeira da Fraternidade!