Trem Fantasma

(Nos porões do DOI-CODI da ditadura)

				Noel Nascimento



Rapto,
armas apontadas,
amarras nos pulsos, nos olhos,
no coração.
A viagem do medo
na escuridão
rumo ao inferno.


Trem fantasma.


Féretro presídio,
comboio macabro
do terror.
Nas celas, sem passaporte,
os prisioneiros se vão.
Transporte da morte,
centelhas de sangue borrifam o ar,
e o grito lancinante
é grito de dor.


Trem fantasma.


Sinistro:
corpos esmagados nos trilhos,
queda nos precipícios.
Nos túneis os monstros:
o Drácula fascista,
morcegos esvoaçando.
Na calada das ditaduras,
Jack o Estripador.


A carruagem na estação de triagem...
Na plataforma
lixo e trapos
de direitos humanos.


A missa negra,
satanases incorporados
com tenazes elétricas.
Escárnio:
Cristo acorrentado
pendendo do pescoço dos torturadores.


Na capela do diabo
a confissão é de joelhos
para o ar,
cabeça para baixo
no capuz.


Trem fantasma
que desaparece no quartel...