A Crítica do Materialismo Histórico

	
							Noel Nascimento


	Impõe-se a necessidade de uma crítica do materialismo histórico 
que não seja contrária aos ideais da democracia, do socialismo e à 
liberdade rela de todos os homens.
	No Gênesis, o primeiro livro bíblico, lê-se:

	"No princípio Deus criou o céu e a terra."

	Após às origens do mundo, da natureza, é que narra as origens do 
gênero humano:

	"Disse também Deus: Produza a terra animais viventes segundo a 
sua espécie, animais domésticos, e répteis e animais selváticos, segundo a 
sua espécie. Viu Deus que isto era bom e disse: Façamos o homem à 
nossa imagem e semelhança e presida aos peixes do mar, e às aves do 
céu, aos animais selváticos, e a toda terra, e a todos os répteis que se 
movem sobre a terra."

	Eis também a origem do humanismo histórico.
	Até mesmo na Bíblia se encontra a afirmativa de que o céu e a 
terra precedem o homem, produto da natureza.
	Fora o jovem Marx um discípulo de Hegel, idealista como este, do 
qual adotou o método dialético para interpretação dos fenômenos naturais 
e sociais. Mas na primeira metade do século XIX, veio à lume a 
"Essência do Cristianismo", de Luiz Feurbach, influenciando-o 
decisivamente e a Friederich Engels, fornecendo-lhes, com pensamento 
semelhante ao bíblico - sem nada de novo debaixo do sol - uma base 
"materialista" para suas idéias acerca do desenvolvimento da história. 
Contribuíram para uma atitude anti-religiosa as posições reacionárias das 
igrejas, aliadas que eram das classes dominantes.
	Idealistas e materialistas discutiam sobre religião. Para Hegel, 
idealista, a natureza não seria mais que a "exteriorização" em forma 
secundária da "idéia absoluta", enquanto para materialistas seria a 
natureza a única realidade. Foi a tese de Feurbach, aceita com entusiasmo 
por Marx e Engels, o marco inicial do materialismo histórico:

	"A Natureza existe de forma independente de toda filosofia; é o 
solo sobre o qual nós, homens, produtos nós mesmos da natureza, 
brotamos e crescemos. Fora da natureza e dos homens nada existe, e os 
seres superiores, criados por nossa fantasia religiosa não são senão o 
reflexo fantástico de nosso próprio ser."

	Dominava a época ainda a visão menor e mais estreita da vida e do 
mundo, a qual justificava enunciados aparentemente óbvios e lógicos. A 
razão e a ciência permaneceriam impotentes para desvendar o Universo. 
A natureza não é apenas o solo sobre o qual brotamos e crescemos, não é 
só o planeta Terra, ponto minúsculo na Via Láctea. Fora deste solo e 
destes seres humanos - isto sim é obvio - muitas coisas fantásticas 
existem. Mas a ciência e a razão também avançam para dotarem os 
homens de uma visão cósmica. Esta lhes dará consciência da força 
criadora que move o cosmos, nele presente, de sua própria evolução e da 
sociedade.
	O materialismo histórico, ao preocupar-se em negar a Deus, nega o 
homem como pessoa, vendo-o como produto das forças econômicas, sem 
vontade própria, razão e dignidade.
	Marx adotou a dialética de Hegel e a concepção de Feurbach. Ao 
eleger causas econômicas como primeiras, unívocas, das transformações 
sociais, chegou à conclusão de que a história, não é mais que a história da 
luta de classes, proposição fundamental do materialismo histórico.
	Afirma:

	"O conjunto das relações de produção constituem a estrutura 
econômica da sociedade, base verdadeira sobre a qual se edifica a 
superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas 
formas de pensamento social. O modo de produção da vida material 
determina em geral o desenvolvimento da vida social, política e 
intelectual, não é a maneira de pensar dos homens que lhes determina o 
modo de viver. É pelo contrário, a maneira de viver que determina a 
maneira de pensar."

	O que se deve destacar, desde logo, é que para corresponder à 
realidade, torna-se necessário substituir na tese o conceito de 
determinação pelo de influência ou de relativo condicionamento.
	São muitas as formas de pensamento social neste ou naquele 
regime, parece-nos óbvio. O progresso material possibilita o 
desenvolvimento da vida social, política e intelectual, não é a maneira de 
viver que determina o modo de pensar, e sim a maneira de pensar que 
determina o modo de viver. Considere-se, todavia, a influência de 
interesses, o relativo condicionamento pelos mesmos.
	No prefácio da "Contribuição à Crítica da Economia Política", 
após considerar que os homens se iniciam na produção social 
independentemente da própria vontade, omite o porquê, como se nada os 
movesse ao trabalho. Pois a causa da produção social reside na vontade 
dos homens, provocada pelas necessidades da vida. Inverte os fatos ao 
considerar efeito da economia a vontade, o que significa a consciência.
	Apenas em certos casos o modo de viver pode ser determinado 
pela troca de mercadorias e o consumo, porém de um modo geral a 
pessoa não sofre alteridade pela profissão que exerça, pelo lugar na 
sociedade.
	Não podendo negar a consciência, a vontade, os seu seguidores 
chegam a admitir a ação dos homens na história, com ressalva de que os 
propósitos têm caráter secundário, determinados pelas forças 
econômicas.
	Subestimam-lhes a inteligência, vendo-os como joguetes, 
autômatos, sem poder de escolha e decisão. Reduzem o mundo a uma 
máquina de economia, caixa registrando tudo que é humano como lucros 
ou perdas e danos das lutas entre as classes.
	Marx e Engels tentam salvar a base de sua teoria, e para que não a 
percebam inconsistente declaram:

	"Os diversos elementos da superestrutura - as formas políticas da 
luta de classes, as formas jurídicas (...), teorias políticas, jurídicas, 
filosóficas, concepções religiosas, - exercem igualmente uma ação sobre 
o curso das lutas históricas e em muitos casos determinam-lhe, de modo 
preponderante a forma. Há a ação e reação entre todos esses fatores 
(...)."

	Percebendo a contradição em que incorrem, socorrem-se de uma 
das leis da dialética descoberta por Hegel - a de que todos os aspectos da 
realidade prendem-se por laços necessários e recíprocos - para admitir 
que em muitos casos e de forma preponderante as idéias determinam a 
forma das lutas históricas.
	Então com o mesmo argumento e maior segurança os idealistas 
podem afirmar o inverso: que em muitos casos e de forma preponderante 
os fatores econômicos determinam a forma das lutas históricas.
	A discussão passa ao sexo dos anjos, à origem primeira do ovo ou 
da galinha, se a maneira de pensar determina o viver ou vice-versa.
	É falsa a idéia-chave do materialismo histórico, de que "a vida 
material da sociedade é uma realidade objetiva que existe independente 
da consciência e da vontade, não somente dos indivíduos, mas do homem 
em geral".
	Enfatiza que as mudanças ocorrem na história sem que aqueles que 
a suscitam, ou dela participam, tenham consciência ou hajam querido. 
Isto é a negação do que todos os reformadores ou os revolucionários 
pregaram, inclusive os próprios líderes da doutrina. 
	A natureza existe independentemente da nossa vontade e 
consciência, é anterior à nossa existência, à nossa aparição sobre ela. O 
mar, a floresta, o ar, os rios, os campos, as montanhas, antecedem-nos. 
Mas o barco singrando as águas, as ondas; o balão, o avião no ar e a 
astronave no espaço; a estrada, a ponte, o prédio, a cidade; a lavoura, o 
arado, o veículo, o moinho, a fábrica, as usinas; tudo isto não existe 
independentemente da consciência dos indivíduos e do homem em geral. 
É o homem que por sua vontade inventa instrumentos, cria valores, e vive 
em família, em grupo, em tribo, em nação, organiza-se em estado, 
reconhece direitos, impõe deveres, faz leis. É pessoa.
	Se o indivíduo nasce numa sociedade que o antecede, esta foi 
organizada pelos que o precederam, mas que continua a evoluir.
	Outra afirmativa improcedente é a de que em épocas diferentes os 
homens tiveram desejos e idéias diferentes como eram as suas relações 
econômicas. Dão ênfase à indagação: Por que tal ou qual idéia apareceu 
em nossos dias e não na antigüidade?
	- "Não há nada de novo debaixo do sol." O ideal humano tem o 
mesmo conteúdo em qualquer época. Uma idéia nova não passa de uma 
adaptação da antiga como o canhão é a versão da catapulta, o navio da 
piroga, ou o avião das asas de Ícaro. Os desejos são os mesmos, quanto 
são as mesmas as expressões artísticas, apenas com as adaptações 
possibilitadas pelo progresso material. O desejo mais profundo é o de 
felicidade, e sentimento - o de solidariedade, estes na origem das teorias 
éticas, religiosas ou políticas.
	Antes da era cristã, a teoria do direito natural e depois as 
lembranças da Idade de Ouro significavam o desejo de volta à natureza e 
à igualdade. Pode-se dizer que inexiste? O ideal de Licurgo ou de Platão 
é pelo menos semelhante ao de pensadores de outras épocas. As leis de 
opressão não tem algo de draconianas?
	Idéias de antanho apresentam-se de roupagem nova. São presentes 
nas sociedade modernas o epicurismo e o estoicismo. Discussões pré-
socráticas têm o seu curso nos tempos. Religião, fome, crime e dúvidas 
são antigas como os macacos.
	Houve também um proletariado no império romano e nenhum 
filósofo teria elaborado uma doutrina comunista. No entanto, Max Beer 
diz textualmente na "História do Socialismo e das Lutas Sociais": "O 
proletariado romano não criou nenhuma doutrina comunista precisamente 
porque o cristianismo foi o comunismo do proletariado romano."
	Quanto à afirmativa de não poderem os homens prever as 
conseqüências das idéias, que dizer de Leonardo da Vinci, Julio Verne, 
Santos Dumond, Lomosov, Lenin, dos cientistas e filósofos?
	As idéias, os desejos, as aspirações, os sentimentos, não são de 
raças ou de classes, e sim humanos.
	Não é a primeira vez que, na história, se tenta criar um quadro 
completo do mundo por meio da extensão das leis de uma das ciências 
concretas aos fenômenos da natureza e da sociedade. No século XVIII, 
os filósofos estendiam as leis da mecânica a todos os fenômenos da 
natureza e tentaram também interpretar, por meio delas, os fenômenos 
sociais. Há, em voga, o darwinismo social. E até a psicanálise procura 
explicar o homem e os fenômenos sociais tomando como causa a libido.
	A obra humana, suas instituições, não são uma simples 
conseqüência da economia, porém possibilitadas por ela. O próprio 
desenvolvimento da economia quanto da sociedade depende da ação do 
homem. As intenções não mudam: na estrada erige a cruz; na aldeia, a 
capela; na cidade, a Catedral.
	Há contradições sobre o homem no materialismo histórico. O 
pensamento de Hegel, embora idealista, porém adotado por Marx, é 
contrário ao de Rousseau. Diz ele: "Acredita-se que o homem é 
naturalmente bom, mas olvida-se que se diz uma verdade maior ainda 
com estas palavras: o homem é naturalmente mau." Conceituam-no como 
"metade anjo, metade demônio". Por fim, pretendem que sua essência 
seja "o reflexo do conjunto das relações sociais". Arrancam-lhe a alma e 
o coração, a natureza íntima e até a herança hereditária.
	Assinale-se que para o materialismo histórico o mal é a força 
motriz do desenvolvimento. A luta das classes seria movida por más-
paixões, ciúme, inveja, ambições, ódios. O bem e o mal passam a ser 
considerados conceitos de classe, e a justiça o direito de uma dominar e 
esmagar a outra.
	Mas os próprios autores favoráveis a ditaduras contradizem em 
suas obras a teoria do mal moral. Quando Gorki, Erhemburg, Polevói e 
tantos outros exaltavam como heróis e benfeitores os chefes e líderes 
revolucionários, e de bondade o regime, escreviam o contrário os 
dissidentes.