A Pornoarte

	
							Noel Nascimento


	O homem está levando a cabo a sua própria destruição.
	Não é à poluição de seu ambiente físico natural que me refiro; 
chamo atenção para a devastadora inundação que ocorre no seu mundo 
espiritual tanto pela apologia da violência como pela poluição nas artes e 
na literatura.
	Transformar o coração do homem num deserto é mais grave que 
transformar em cinzas as florestas, que envenenamento do mar, dos rios 
dos oceanos. 
	- Na Idade Média, a pintura dos artistas foi uma pintura de 
encomenda, dirigida. Os artistas pintavam para as igrejas, os monastérios, 
a nobreza dos castelos feudais e dos palácios, e mais tarde para a 
burguesia incorporada à Corte e ao mundo feudal. Os temas referiam-se 
ao sagrado, ao faustoso e ao principesco. Por isso há quem afirme que as 
madonas opulentas e carnudas, a transmitirem uma proibida mensagem 
de terranalidade, não passavam de um pretexto profano contra a 
severidade religiosa.
	A vitória do nu passou a ser encarada como uma vitória sobre o 
obscurantismo e o domínio eclesiástico. A paisagem, no princípio profana 
e clandestina, inauguraria nas artes a sociedade moderna.
	Os mestres da pintura outra coisa não fizeram que não revelar e 
realçar tanto a beleza espiritual como a física da mulher. A mulher divina 
é a mesma terrena. É pacífico que a mulher civilizou o homem e que é a 
fonte de todos os valores humanos.
	Há belas obras na literatura mundial em que o sexo é o tema 
dominante. Grandes autores buscam no amor puro um conteúdo para 
investir contra realidades que já não refletem os melhores sentimentos e 
ideais humanos. Proibições originadas na escravização da mulher e que 
lhe negam a igualdade de pessoa. Experimentados artistas denunciam 
toda sorte de opressões, objetivando mostrar vidas alienadas, dramas e 
tragédias de gente humilde e simples para qual a sociedade não 
emprestaria nenhuma importância. Quanto mais venceram a tendência de 
escarmentá-las, melhor a obra. Outros descrevem sociedades decadentes, 
mas apresentam em oposição, um herói, como Spartacus, com ideais 
elevados em luta pela liberdade.
	Nenhum autor responsável faz apologia da corrupção, apoiando-a, 
esperando através dela um evolução ou revolução.
	O tema em si não representa nenhum mal, porem o autor pode ser 
traído por ele e nem ao menos, fazer "arte pela arte", mas sexo pelo sexo, 
e explorá-lo, o que é pior, com torpeza. Por isso vem sendo mal 
sucedido.
	Não se fez a história da pornografia. Mas é certo que é assinalada 
em todas as épocas. Há, na atualidade, uma pornografia transformada 
qualitativamente. Referimo-nos à pornoarte.
	A pornoarte é uma pornografia requintada, dissimulada por 
recursos de técnica, em que os autores puderam eliminar o "grosseiro", 
um dos elementos que a caracterizam, conservando apenas o "torpe" no 
conteúdo, em que pesem a vulgaridade da linguagem e a ação obscena.
	A obra de arte é maculada tendo por conteúdo a torpeza. Arte que 
provoca paixões más, emoções choque, abrindo caminhos a tendências 
que levam à degradação e até mesmo à violência criminosa, é arte 
pervertida.
	Evidentemente, era outra coisa e muito diferente o conteúdo das 
madonas terrenas ou dos nus dos grandes artistas.
	Não se iludam os autores brasileiros, compondo sem motivo, sem 
finalidade, com frivolidade, fogem às suas responsabilidades de artistas. 
É assim que os temas nacionais não vêm à tona e o espírito do povo 
permanece ignorado ou dominado.
	A pornoarte é a importação de amoralidade de grupos sociais 
decadentes ou interessados na decadência. A quem pode interessar a 
descaracterização da arte, a alienação intelectual e moral de um povo? 
Oferecê-la a um homem despreparado é solapar a conscientização 
nacional. É um complemento da subarte, da subliteratura, a poluir a 
atmosfera espiritual dos homens.
	É destruindo a mulher que o homem destrói a si próprio. 
Destruindo a imagem de santa, de mãe, de esposa, de irmã, de filha, de 
criança; de mulher em que a beleza se revela em todos os seus aspectos; 
destruindo a noção do bem na mulher, tornando-a exclusivamente objeto 
sexual; - o homem desce na escala animal, se desvaloriza e se destrói.
	O bem florescerá combatendo-se idéia com idéia.
	A reação contra esse estado de coisas deve partir dos próprios 
artistas e escritores, alertados para os objetivos alienantes da pornoarte 
que, através de histórias anedóticas, poemas obscenos, palavrões nas 
representações e na linguagem do autor, pornochanchadas; concorrem 
com as historietas de quadrinhos importadas, fotonovelas de péssima 
qualidade, dramalhões sobre taras, e com a própria pornografia 
clandestina.
	Numa obra de arte não há como separar-se elementos estéticos de 
elementos anestéticos como queria Lalo, pois ela constitui uma unidade. 
Croce, de considerável influência, achando que arte é expressão de uma 
intuição, nega que tenha algo a ver com o útil, o prazer, a dor ou a moral. 
Para ele, o homem honesto ou de boa vontade, não constitui o artista. As 
interpretações lingüísticas e estruturalistas, muito em voga, contribuem 
para a preponderância das teorias formalistas que levam uma crítica, já 
comprometida, a considerar a obra por si só, um fato isolado, um "bólido 
no espaço" - lá em cima, distante da realidade do homem, lá em baixo. 
Tais suposições de que a obra de arte, valendo por si mesma, vale por 
suas propriedades formais e não se vincula à realidade social e, por 
incrível que pareça, até mesmo ao autor, geram apoio incondicional à 
pornoarte.
	Mas a verdade é que uma obra, valendo pelo que é, significa que 
vale pelo que representa, pelo conteúdo e pela forma, pela participação 
nela do próprio autor. Quem lê um livro, lê através dele uma fatia de 
realidade e lê o próprio autor. A abordagem dos textos, desligados do 
contexto social e do espírito do criador da obra, sem levar em conta os 
fatores psicológicos e sociológicos, é apreciação deficiente, parcial, 
carente de significados. Essa abordagem para a qual não importam  nem a 
sociedade, nem a vida, a alma e a grandeza do artista, o torpe e a 
obscenidade nada representam, nada que não apenas corrupção. Para 
muitos a arte parece incriada, independente da vida e da vontade dos 
homens.
	De fato, o conteúdo torpe é fruto apenas do desamor, de 
frustrações de todo tipo, do distanciamento que existe entre as pessoas, 
principalmente nos grandes centros urbanos, onde se desconhece ou não 
se reconhece o próximo.
	Nada há de mal em tema algum. Toda realidade é digna de ser 
revelada. Mas a salvação estética está no Realismo Humanista que só 
admite o tratamento tendo por conteúdo essencial o amor desinteressado, 
a bondade do artista.