A Propósito de Helena Kolody

							Noel Nascimento


	A paisagem e a música que transpõe da alma para os versos, 
prenderam-nos na contemplação de cada canto. Luares, tardes e manhãs 
vistas só por seus olhos de cor celeste foram mostrados como se a leitura 
fosse um sonho. Assim o encanto de um pássaro, de um chafariz, ou da 
carroça de tolda.[1]
	Talvez pudéssemos cooperar com os novos poetas, esclarecendo 
algumas questões de realismo artístico.
	É bom ver como procuram reter o característico e o singular em nosso 
modo de ser, pensar e exprimir, permanecendo fiéis ao meio e contribuindo 
para o progresso através da arte. É preciso descartar idéias formalistas que 
fizeram com que tantos autores se julgassem zaratrustas, acima do bem e do 
mal, transplantando conteúdos antinacionais. Em oposição à afirmação da 
existência de um sentido secreto do belo, de metalinguagem - nada mais há 
que intuição - dizemos que o senso do bem e do mal é um senso das emoções 
e tem a ver como fonte do sentido estético. Prova disso é que elementos 
como graça, dramático, torpe, macabro, trágico e tudo mais, são os que 
causam encanto, ternura, medo, assombro, compaixão, revolta. Existe um 
vínculo indestrutível entre o bem e o belo, quanto o existente entre a arte e a 
natureza.
	Então podemos abordar a confusão que se faz entre injustiça social e 
fealdade, embora sejam intimamente relacionadas. A origem de um danoso 
equívoco está na idéia marxista, que muito bem expressa Jean Freville:

	"Enquanto as classes reacionárias são obrigadas, para manter seu 
domínio, a deformar os fatos e embelezá-los, as classes revolucionárias têm 
necessidade de reconhecer a realidade a fim de poder transformá-la. Toda 
literatura revolucionária, voltada para o mundo exterior, repousa 
necessariamente na análise científica, enquanto a literatura reacionária evade-
se no idealismo ou na religião."[2]

	Não é só exaltando a fealdade que se mostra a injustiça e se dá um 
empurrão na roda da história. Por outro lado, contam-se nos dedos os poetas, 
os músicos e pintores que não foram religiosos. Na maior parte das vezes é 
implícito na exaltação da fealdade o ódio como conteúdo, na suposição de 
que movida por paixões más é que as massas destroem valores humanos 
consagrados, estabelecendo nova ordem das coisas.
	Pensamos de modo diverso. Já virou modismo representar miséria e 
dói-nos dizer - muitos, a exemplo de contistas, chegam a divertir-se com a 
desgraça. O trágico vem sendo apresentado como pitoresco. Não seria melhor 
agora mostrar o bem e o belo ao povo, do que conduzi-lo ao pessimismo, 
negativismo e desespero? Achamos que é preciso preservar e defender 
valores, destacando em primeiro plano a liberdade, a dignidade humana e o 
trabalho, sem os quais não tem sentido a vida e o mundo. Entendemos que só 
o amor é realmente revolucionário e quanto mais lírica a obra de arte realista, 
retendo o típico, o característico, mais valor possui e mais contribui para o 
progresso. O próprio Croce, concebendo a arte divorciada de bem e de mal, 
diz que é "expressão de intuição", porém "lírica". Ainda quanto aos valores, 
que fez o próprio Gorki senão recorrer à figura da mãe, fonte dos valores 
humanos, em sua novela mais famosa, exaltando-lhe as virtudes?
	Um pequeno reparo que gostaríamos de fazer é o de que a maior parte 
dos novos parece desprender-se da realidade, preocupados apenas em 
comunicar um ponto de vista.
	Achamos positiva a revelação de nosso próprio homem e seu ambiente, 
por exemplo, o camponês. Parece-nos um típico novo, ainda ignorado. Os 
temas urbanos nos tem afastado de nossa realidade camponesa. Mas 
gostaríamos de dizer que o camponês não é só um miserável, que é um herói, 
que vence a luta pela vida, que a todos alimenta. Todo habitante de interior 
tem algo de camponês, e o que é importante: o campo humaniza o homem. O 
contato com a natureza, a flora, a fauna, o trabalho, faz um bem 
extraordinário. É justamente por ser bom, digno, trabalhador, que deve ser 
livre das servidões.
	Vamos às delicadas questões de forma.
	O poema não é expressão corporal, mas dança da alma, cujos passos 
são as palavras. E as palavras, eis a questão. Sem elas o grito permanece no 
peito, não há tinta para tela e o circundante não encontra representação. São 
elas que expressam o ritmo e a realidade subjetivada. Todos os elementos do 
verso podem e devem ser usados, como a rima, porém sem queda e lugar 
predeterminados como nos modelos caducos.
	A importância das palavras não justifica o radicalismo dos que avaliam 
o texto pelo texto.
	É também verdade que houve uso abusivo de palavras, por demais 
sovadas, que acabaram estropeadas, parecendo até perder o significado, tanto 
foram massacradas em sonetos, recitações e até em discurseiras políticas. 
Mas não se justifica a posição de grupos que pensam fazer revolução apenas 
substituindo um modo de falar por outro, uma expressão por outra 
semelhante, como se isso alterasse posições ideológicas. Não há, aqui, 
oposição ao linguajar típico.
	Poetas como Carlos Nejar e João Cabral de Melo Neto, para citar 
apenas os mais importantes, têm procurado restaurar as palavras, exemplo 
que deve ser seguido. Restaurando-as estaremos renovando valores, não 
apenas lingüisticos, mas humanos.
	Dizemos que os símbolos devem ser facilmente identificáveis e não 
prejudicar a clareza do poema, a ponto de torná-lo hermético, indecifrável. A 
imagem salva e renova a poesia na realidade brasileira, esta é uma fonte 
inesgotável de novas representações, e é um bom caminho o desbravado, há 
algum tempo, por Mário Faustino, Foed Castro Chamma, Marly de Oliveira, 
Affonso Ávila e tantos outros. Todavia, não esqueçamos o lirismo e digamos 
que "só o amor constrói para a humanidade", que amor é ação, luz sobre o 
novo, resistência pacífica e jamais passividade.



[1] Helena Kolody, "Correnteza", Edit. Litora-Técnica, Curitiba, 1979.
[2] Trechos Escolhidos de Marx, Engels, Lenin e Stalin sobre Literatura e 
Artes, trad. De Eneida, Ed. Calvino, Rio, pág.13