ARCABUZES

Noel Nascimento

 

 

Dedicatória

À minha esposa Beatriz.

Aos filhos Noel e Othon Ludwig.

Aos irmãos Sebastião, Othon e Vera.

 

Aos heróis humildes, os Arcabuzes.

Eles fazem a história.

 

In memoriam

Ao meu pai

Sebastião Nascimento.

À minha mãe

Maria Claudina


 

 

 

PRÓLOGO

 

 

I

 

Havia um mendigo que por ironia chamavam de Arcabuz da Miséria. Um aristocrata, o único de uma classe alta. Sátira viva de conde fora de moda. Perdera a identidade, um não-pessoa, triste imagem de nação sem memória. Usava casaca e cartola encardidas, mas tinha as barbas bem aparadas. Parecia mais de um - porque mudava de cidade ou porque davam a outros a mesma alcunha - e muitas pessoas podiam ser ele. Vagabundo urbano, bengala na rua, e não um João-Maria de cajado pelos carreiros. Jamais fizera balsa de uma calçada, indo e vindo sem sair da quadra como o Toco de Vela. Num tempo em que não constituíam bom gosto o ordinário, o sórdido, o calão, provocava admiração com a finura no falar. Só estava louco da sociedade em que vivera. Granjeara mais fama que o Pé Espalhado no Rio de Janeiro.

Um caso muito diferente de andarilhos como o Anastás Marcaf que fanatizara a matutada, único prodigioso dos joões-maria.

Chamavam de arcabuzes os combatentes que passavam às centenas nos trens militares. Certamente os infantes com suas carabinas. Soldado desconhecido, Arcabuz é homem-arma, herói humilde, o que muda a ordem das coisas. O Arcabuz da Miséria poria fim à miséria - tudo acabou em escárnio.

Não era plebeu, e sim um nobre. Um viajante rio-grandense contou no Café Glória que o viu fardado de capitão, atirando ao rio pela janela do trem uma cabeça humana. Ninguém acreditou. O diário secreto do general Carneiro, abatido com um tiro no fígado, citou-o como herói. As suas pegadas passam pela história do povo brasileiro.

Ele era uma prova de que um mendigo pode ser qualquer coisa, nobre, padre ou militar. Para Xandô, neto de Pedro Tropeiro, não faria diferença. Aprendera que a pessoa vale por suas próprias virtudes, acima de divisões de classes ou de raças. Crescera vendo o povo plasmar-se nas cidades. Achava que povo é extensão da pessoa e, por isso, lutara também na guerra. Afinal, um mendigo pode ser até um grande homem. Tudo depende do coração, que é o motor da história. O bom coração.

Quando as sociedades secretas lutavam contra a escravidão e a monarquia, o governo mandou prender o Arcabuz, suspeito de chefiar as conspirações. Tratava-se de cognome. De quem, ninguém sabia.

Um mendigo da alta sociedade...

O carroceiro que transportou os corpos atirados na Grota do Diabo afirmou que o vira esgueirando-se entre as tumbas na ocasião da exumação secreta. Um soldado da escolta ajudou a confundir muita gente com sua versão: - Foi ele que escapou-se, atirando-se do trem.

 

II

 

A primeira aparição foi em Ponta Grossa, cidade das estrelas. Estrelas vistas do alto, de longe, apontando caminhos. Antes não era pândego, nem vestia fraque ou ficava penso, apoiado à bengala de engaste prateado. Chegara assustando o povoado, apesar da poeira, um redemoinho de pedra erguido pela ventania apelidada de Gadelhuda. Viera estropiado, metido num capote, debaixo do qual escondia um arcabuz. Espectro da guerra.

Ponta Grossa tinha muitos casarões e o comércio na colina mais elevada. Dos ranchões com quintais cultivados, as lavadeiras subiam as ladeiras com trouxas à cabeça. Caipiras dos arredores, ou negros que habitavam as barrocas com os polacos, prestavam serviços avulsos e começavam a progredir. Os imigrantes louros já tomavam conta das roças e do transporte. Fora um bairro de Castro onde numa reunião com autoridades os fazendeiros protestaram:

     - Não queremos a Estrada de Ferro.

     - Somos contra o ajuntamento de forasteiros e desocupados.

     - Que passe por Ponta Grossa, a sete léguas e a um dia de viagem a cavalo.

O primeiro Arcabuz não apeou da montaria, não desembarcou de trem e, muito menos, de carruagem. Fugira a pé das chacinas. Os hospícios moviam-se nas estradas, o mundo convivia com seus loucos quando não os matava a pauladas. Não sabia responder qual o seu nome aos viajores, mas o seu destino:

     - Eu vou para a Estrela.

Gravara no juízo que restava o que ouvira da localidade, como a sonhara antiga tribo. Abaretama, terra de paz e igualdade, sem crimes ou suicídios. Procurava-a para viver sua utopia.

Houve uma trilha. Às bandeiras sucederam as tropas de mulas. No local da cruz, o padre ergueu um pouso. O principal no ponto nevrálgico dos caminhos. Apossavam-se dos terrenos vagos. Cada caboclo com sua choupana, na sala a tosca capelinha. Por toda parte sucupira, jucá, macambira, tucum, quixaba e jandiroba. A mancheias jabuticabas, araçás, pitombos, ariticuns, guabirobas, mandubis e outros frutos. Escravos fugidos, forros ou servos dos latifúndios vinham abrigar-se. Ofereciam-se para substituir os arrieiros que desertavam e guiar as comitivas. Os negros que saíam dos esconderijos à cata de serviço e comida amedrontavam os viajantes. Aquilombados nas depressões do terreno, escondiam-se do capitão-de-mato e da companhia de ordenanças sediada em Castro.

Na mexida e remexida de raças na massa urbana, amalgamara-se o povo que, por princípio, não devia discriminar ninguém. Lugar ideal para um mendigo aristocrata.

O clima de terror não cessara. Contavam-se casos de arrepiar os cabelos. Os adultos ainda temiam perseguições, e as crianças acreditavam na fantasma Gadelhuda, a ventania. Com as unhas crescidas e a cabeleira esvoaçada surgia detrás da igreja. Ocultava-se nos sótãos e nos porões, nas barrocas e capões de mato. Galopava nos campos, moldava espectros de pedra na Vila Velha, voava e carregava crianças. Talvez tivesse algo a ver com as pedintes que, de cabelos desgrenhados, subiam as ladeiras.

De dez ou mais léguas, via-se a povoação. Ao cruzá-la no cavalo branco de arreios de prata, o sol clareava-a. À noite, ela coruscava. Elevada à Vila, recebera o nome de Estrela.

De repente, o vulto estranho causando espanto - podia ser furioso -, portando um bacamarte! Juntou gente para vê-lo. Sentenciaram:

     - Enlouqueceu na guerra!

Um antigo sargento do quinto corpo de cavalaria afirmava que reconhecera o ajudante de confeiteiro, o qual desfilara nu no dia da visita de D.Pedro II. O doutor Arcanjo, que relatou toda a tragédia da retirada de Ponta Grossa, reforçou-lhe tal versão ao mencionar "um polaco sujo, cadavérico, trêmulo, de olhar sinistro, que come costelas cruas de burro, apelidado de Judeu Errante". Deram-lhe de comer e beber por caridade. Teve a sensação de que encontrou o mundo pelo qual lutara.

Esquecera o nome, o batismo, a família, o passado, o amigo que desejava reencontrar. Com vida no peito, comandava os movimentos, só não era dono da cabeça. Carruagem sem o cocheiro, desgovernada. Por causa da arma imprestável, dos andrajos e da botina rasgada, nasceu naturalmente a alcunha: - Arcabuz da Miséria. Inventavam tanta coisa a seu respeito que não se sabia na qual acreditar:

     - Esteve a ferros nas fortalezas.

     - Traiu o juramento que fez no convento.

     - É um foragido da justiça.

     - Montou a cavalo na própria mãe.

     - Deu uma surra na madrinha, que lhe rogou uma praga.

     - Degolou uma santa.

     - Matou a mulher com trinta e duas facadas.

Não fazia mal a ninguém, mas chegavam a dizer que comia criancinhas. De uma coisa havia consenso nas rodas de prosa:

     - Está pagando seus pecados.

     - Só o arrependimento redime um condenado.

Após a aparição, vagou de cidade a cidade. Com o  capote rustido, chegou à capital. Granjeara fama, assombrava menos. Ia começar a consagração. Passou a morar num banco do Passeio Público, mansão a céu aberto. Caluniavam-no que andava coberto de piolhos, de carrapatos, além de recender cachaça. Petas e mais petas sem fim. Só era bêbado de sonhos. Os pipeiros que ele ajudava no chafariz do Largo da Ponte, achavam-no limpo e são, um doido normal.

Um dia, surgiu à porta do solar da Baronesa, a qual ordenou aos criados:

     - Deixem-no entrar. Essa fisionomia não me é estranha... Eu já vi antes esse coitado. Dêem a ele o que sobrou do finado.

A sua vida mudou dos trapos para o fato chique. Então virou o nobre que era, mas parecia a sátira. A tristeza cedeu à gaiatice, ficou diferente. Arrancou uma exclamação mais absurda nas ruas:

     - O Arcabuz da Miséria está maluco!

Tinha prestígio, sua classe fora extinta, porém não perdera o respeito. Os panos - casaca, calça listrada - cartola e fina bengala confundiram uma velhinha caduca na sacada:

     - Não riam do Barão!

Juntava gente para vê-lo passar na Rua Quinze de Novembro. Lembrava o palhaço de um circo antigo, um herói humilde picado à faca no Paiol de Pólvora da Água Verde.

Comparecia a reuniões e festas populares, a solenidades públicas. Não era nenhum alienado e não controlava o coração ao ouvir a banda da polícia tocar o Hino Nacional. Emocionava-se ao ver desfraldada a bandeira. Amiúde acompanhava os funerais e, à sua custa, os canastrões faziam humorismo anticlerical.

A revista "O Olho na Rua" publicara uma charge, com estampa de um sobretudo esfarrapado e versos que o comparavam ao padre Antônio Carlos:

     "Enfim para o cemitério

     Se dirigiu comovido

     O cortejo grave e sério

     Do defunto falecido,

     O Antônio Carlos tristonho

     Coitadinho do Arcabuz,

     Num passo lento e tristonho

     Fazia o Sinal da Cruz."

Pichote - pseudônimo do autor - assistira ao féretro de um figurão, o carro puxado por corcéis brancos de penachos pretos cobertos por uma manta, cocheiro de cartola e fraque, com o séquito dispersando para beber cerveja no Passeio Público. Noutro número da revista, quebrou os pés de um soneto:

     "Embora fedorenta e bem rasgada

     Vecchia zimarra, serves de ornamento

     Ao mais papa-hóstias da manada

     O padre Antônio Carlos, o portento.

 

     Não sei se por sua cor enferrujada,

     Mais parece a pele de um jumento

     Ou divisa de uma ordem arruinada

     Que simboliza um chiqueiral convento.

 

     Se ele aparece gritam: Ai! Jesus!

     Onde está a Sanitária trabalhando?

     E é o velho sobretudo do Arcabuz!

 

     Ele passava, e o Soegmueler vem

     E por graça ou talvez se equivocando

     Põem-lhe no lombo a chapa nº 100."

 

Sanitária seria a empresa Limpa Fossas, com placa de número cem na carreta de pipas de fezes, puxada por jumento. E Soegmueler um funcionário municipal.

Discutia-se Voltaire nas mesas de cafés e confeitarias, respirava-se o ar da revolução francesa. E nem os doutores iniciados se admiraram que um pária fosse tema de discurso numa reunião filosófico-literária do Clube Iguaçu, fundado pelo Barão do Paraná:

     -...O Arcabuz da Miséria lembra um acusado da Santa Inquisição. O acusado, sem direito à defesa, que era obrigado a usar o sambenito, o saco macabro dos hereges e excomungados, o resto da vida, para esmolar e ser apedrejado pela molecada. Temos de nos unir em defesa do livre-pensamento e resistir à ação dos que pretendem vestir no homem paranaense o sambenito, a casaca do Arcabuz da Miséria.

O novo presidente só faltou reintroduzi-lo na alta sociedade. A língua de Chica Chapeleira saía às ruas e entrava nas casas:

     - Arcabuz da Miséria é o padre Beto. Toca negro da igreja, bate e mata pobre na rua, não deu extrema-unção à Maria Conceição Bueno. Sabem que fim deu ao construtor da catedral?!

O nobre detestava intrigas, que o usassem. Não tolerava tanta curiosidade, recolhia-se a seu banco. Sumiu quando soldados do oitavo de cavalaria, numa casa de raparigas da Rua do Fogo, atormentaram-no com perguntas, supondo que enlouquecera por causa de maus tratos na caserna.

 

III

 

Ressurgiu em Ponta Grossa, desembarcando de vagão de segunda classe, apesar de nobre. De fraque, colarinho, plastrão, chapéu coco, causando pasmo. Com a imagem mudada, via transformar-se o mundo ao toque da bengala, condão mágico. Os cães não mais ladravam a sua passagem. Não se sentia acossado por ronda de fantasmas vingativos. As crianças seguiam-no empolgadas. O dono da casa assombrada, vazia desde o enterro de Carolina, deixou-o ocupar o galpãozinho dos fundos. O Colle, um sapateiro anarquista da Colônia Cecília, que fora obrigado a mudar-se de Palmeira por hostilizar o padre, serviu-o várias vezes em sua confeitaria, sem imaginar quem fosse. Uma vez deu causa a sério desentendimento entre um médico e um fazendeiro que o escarnecera. O médico interveio:

     - Caçoar dele é o mesmo que caçoar de si próprio.

     - Tá me chamando de Arcabuz da Miséria?! - o coronel tentou tirar o revólver da cinta.

Não houve derramamento de sangue porque apartaram a briga.

As mulheres e as crianças achavam-no divertido. Sentia-se feliz ao ver as pessoas igualadas nas rodas de prosa e chimarrão, nas ruas, na praça, nas quermesses e festas populares. Era quem mais se divertia com os outros. Gostava que as crianças fossem apenas crianças, pareciam-lhe solidárias, amigas umas das outras.

Muita gente ficou impressionada quando o tenente Irani, veterano da guerra civil, afirmou tê-lo visto antes, sem se lembrar onde. Pode ser um oficial da marinha - imaginavam. Alguém o viu fardado em Porto União da Vitória.

Não criam que fosse mau e escondesse o tal arcabuz de que se falava. O cognome não significava coisa, escravo ou servo da Companhia Mate Laranjeira, tratavam-no como pessoa. Com novo traje dera lugar a novas versões. Teria possuído fazenda e escravaria, saíra de um convento, escrevera um compêndio de mil páginas, enlouquecera de tanto estudar.

Opinava sobre todos os assuntos, deixando os ouvintes boquiabertos. Paravam-no nas ruas. Tinha agenda para visitas e presenteava as donas de casa com flores ou pacotinhos de ervas milagrosas. De modos gentis e ditos graciosos, o tratamento de tu não prejudicava o sotaque agradável. As moças disfarçavam a curiosidade e escondiam os risinhos atrás dos leques. Atraía-lhes a atenção com o porte altivo, os olhos azuis, a barba aparada, apesar da roupa rustida. Olhavam-no com receio, sem repudiá-lo. Uma menina impressionou a família com visões em que ele aparecia com uma bilha de água, regando jardins.

No barracão em que Curu era ferreiro e de tarde dentista, este quis engraçar-se:

     - De um mucufo e um barão, qual é o mais infeliz?

A clientela gostou da resposta:

     - Quero ser um tico-tico, tendo o céu para voar e árvore para pousar, e não canarinho de ouro, cheio de alpiste, trancado numa gaiola.

O meirinho definiu-o:

     - O Arcabuz tem ares de fidalgo, modos de desocupado, jeito de anarquista.

O doutor Ricci, um médico que viera da Colônia Cecília arrasada pelos soldados, irritou-o na roda da farmácia:

     - É verdade que o senhor é um garibaldino?

     - Não sou do tempo de Anita...

     - Nem desertor de um batalhão maragato?

     - Nunca peguei em armas contra o Imperador, nem contra presidente - desconversou e saiu resmungando: sou quem sou, nem soldado nem desertor...

O prefeito, um fazendeiro que fora delegado na Palmeira e expusera nos postes as cabeças de suas vítimas, ferido durante a grande retirada, não teve intenção de desagradá-lo:

     - Quer entrar na guarda, com patente de capitão?

     - Muito donaire de tua parte. Estás refazendo o batalhão de Palmeira, senhor prefeito?

Deu a resposta com um ar de quem fica sem nexo, porém com um olhar expressivo, mas indizível. Tinha algo de maluco, que ninguém entendia. Não distinguia os tempos, misturava presente, passado e até futuro. Rodavam como papa-ventos em sua mente. Sentia-se no porvir que imaginara. Não pedia, mandava. Havia fartura de caçar codorna com a mão, veado no laço,  tatu pelo rabo. Erguia a bengala e batia com a ponta na janela, avisando:

     - Hoje quero chá com leite e torradas.

As crianças também lhe abriam a porta, sem o medo que tinham do homem do guarda-chuva, o qual virava lobisomem. Não abusava da hospitalidade, porém não fazia cerimônias:

     - Nhá Miroca, me prepara uma xícara de café com leite. Se não tiver pão-dágua ou bolo de polvilho, não sou de luxo, serve pão-de-ló.

Ou então:

     -Severiano, diz à Judite prá arrumar o quartinho dos fundos. Vou pernoitar aí.

De vez em quando, um chefe de família se irritava:

     - Será o Benedito?!

Era o primeiro Arcabuz e achava natural que o servissem. Acostumara o hoteleiro:

     - Palreio, mande o garção me trazer um prato de comida.

Pedia pouco nos balcões e agradecia o atendimento gratuito. No seu mundo, ninguém faria questão de dinheiro. Aguardava a vez na barbearia, participando da prosa. Ouviam-no indagar:

     - Como estão todos em casa? Passa melhor dona Candinha? Consegui a erva das crianças.

Elogiava o corte, agradecia, saindo galante. Como na capital onde o barbeiro David, um italiano gorducho, de freguesia selecionada, fazia questão de cortar-lhe os cabelos e aparar-lhe a barba.

Comparecia ao bordel da Velha Bolsa, na rua da Estação, cheia de caleças. Fora ela a menina Dalila,  a qual caíra na zona de Castro, na casa de Formiga, a mais freqüentada há algum tempo.

Assistia às retretas da Lira dos Campos, em pé. Apoiava-se à bengala, defronte ao coreto. Esperava a banda na praça e saía por último. Levava uma braçada de flores a todos os guardamentos, chorava e rezava. Crianças morriam até de sarampo e mulheres no parto. Acompanhava enterros de ricos ou de pobres, igualados na vida e na morte. Esquecia as ofensas. No cortejo fúnebre do coronel que mandara expulsá-lo da cidade, fora o primeiro atrás do coche, seguido pela Lira dos Campos.

De vez em quando, reaparecia na Capital, em Palmeira, Campo Largo, Irati, Piraí e outras localidades. Mas retornava com sua febre visionária.

Tempo durou em que mendigo, além de gente, podia ser um aristocrata.

Nos carreiros ainda transitavam carroças de toldo, cavaleiros, carros-de-bois, manadas, apesar da ferrovia. A cidade virou um cais de trens e carros nas bandas da Estação. Escorria graxa preta das rodas, misturando-se à sujeira dos cavalos.

Se o doutor Azevedo Macedo, médico filósofo, não o abrigasse no porão da casa onde morou longos anos, ele teria morrido muito antes numa noite de inverno. A vida que viveu no solo que pisamos não foi a mesma de outros mendigos que não são arcabuzes.

Ao deixar vago o trono das sarjetas, outros o ocuparam. O Beijo, um mulato gordo, cabelos crespos, fazia a festa, rivalizando com a bandinha do polaco sapateiro. De lata, pau e cordas de viola, modelada a faca, inventara uma harpa, ao som da qual improvisava modinhas plebéias. Chovia gente para ouvir um estribilho:

     "Bravo, que linda flor,

     quem não vem a Ponta Grossa,

     não sabe o que é amor."

Zorico, enfiado num culote e de barriga para fora dos trapos. O dócil Matias, magricela, contando grandezas, supondo-se dono de fábrica e vagão de agulhas. E Nhô Ganso, homem pássaro. Tamanho infinito por causa do pescoço e das pernas. Sentava na calçada para não ficar cara a cara com o sol, ou com a poeira de estrelas nos olhos vermelhos de pinga. Colhia pinhão, curvando-se sobre a copa, pescoço esticado. De braços dados com a preta Maria, a qual pintava o rosto de branco com pó-de-arroz, foram rei e rainha de carnavais, coroados no corso. Benvinda e Margarida subiam as barrocas espantando as crianças, confundidas com a Gadelhuda.

A cidade esplendia de noite, e de dia só com o sol tinindo nas pedras.

 

IV

 

Desvendar o mistério do Arcabuz da Miséria é descobrir a história de uma nação. Ali me contaram um fato, lá ou cá outro mais. Vou dizê-la fingindo que a inventei, como quem sonha, sem parâmetros de tempo.

A história é só o processo de evolução do homem no planeta Terra.

Vasculhei jornais, revistas, publicações comemorativas, álbuns de família, no afã de achá-lo retratado. A história não é apenas o conhecido, senão os perversos seriam o sujeito, pois são os crimes que a marcam. Não se faz reclame de trabalhador e de gente humilde. Nada li a respeito de um escravo, forro, servo, criado, engraxate, moleiro ou limpador de chaminés. Onde se exaltam lacaios, peões, soldados rasos, viúvas pobres e mendigos?

Do Arcabuz da Miséria, nem no cemitério achei a cruz. Quando desapareceu, ninguém sabia informar se havia morrido. Faz um século que os zombadores insistem que não significava cousa alguma, um ser imprestável. Mas a pessoa só se explica pela alma.

É falsa a idéia da evolução através de catástrofes, de más-paixões das massas, de que o ódio conduz ao progresso, e a violência plasma a sociedade. O homem bom é um herói humilde, atua em toda parte, nas bases, nas ruas, nos locais de trabalho, nos lares, nas igrejas, nas escolas, no meio do povo. Faz o curso da história como as águas fazem o do rio.

Um mendigo é um aviso dos céus.

Ao envelhecer tinha o coração assombrado, mas lá estavam lacradas as palavras de seu melhor amigo:

     - Os bons são eternos perdedores no presente e ganhadores no futuro.

Autores exaltam impérios, guerras, conquistadores, tiranos. A crônica enaltece figuras menores. A mulher, que civilizou o homem, permanece na obscuridade. No porvir, os maus hão de ser menoscabados, e a Terra não mais vista como palco de tragédia, opressão e morte.

A história não é só resultado de relações de produção e trabalho, das invenções, das máquinas, porém da conspiração dos sonhadores.

 

V

 

É preciso imaginar-se nos fins dos tempos do império e do século dezenove. Formava-se o povo, surgiam e cresciam as cidades. As pessoas se vestiam com excesso de pano, os homens com jaquetões e echarpes de cor, as mulheres com longos cinturados e blusas rendadas. Muitos deles, os mais velhos, usavam bengalas, e elas armavam sombrinhas de seda. Eram alegres as aldeias urbanas, células-mães da Pátria.


 

 

 

PEDRO TROPEIRO

 

 

I

 

Pedro, avô de Xandô, foi arrieiro quando tangia muladas e fazendeiro ficava com a fama. Fundou o Brasil, semeando povoados. Mas os primeiros que vasculharam o sertão foram os mineradores provindos da vilinha. Ao iniciar-se a economia do ouro, um mulato parnanguara achou pepitas negras em Minas, dando origem ao nome de Ouro Preto.

As bandeiras invadiram e tomaram posse dos campos. Caboclos, índios forros e escravos negros viajavam armados de trabucos, mosquetes e clavinotes, temendo ataques indígenas. Padres lado a lado com os chefes que financiavam a leva.

Um padre vem a ser tio-avô do doutor Vítor Machado.

O sobreexcesso da população mestiça veio para os Campos de Curitiba. Assim chamavam o Paraná onde, desde menino, Pedro vivia e viajava abrindo e firmando caminhos, principalmente de muladas. Buscavam-nas numa vila do Rio Grande do Sul para levá-las a Sorocaba. Os paranaenses já povoavam o Rio Grande do Sul ao descortinarem os campos entre os rios Iguaçu e Uruguai. Advinham daí as queixas das autoridades paulistas, reclamando da mania de mudarem para o Sul e deixarem desertos os distritos dos Campos de Curitiba. Todos os paranaenses eram conhecidos nas demais províncias como curitibanos.

Ao se armarem as barracas, ampliavam-se os pousos, surgiam povoados dos quais partiam de novo pequenas bandeiras em busca de gado e forragem. Para lá queriam mudar-se as mulheres campeiras, e a um deles até se deu o nome daqueles que as atraíam: Curitibanos. Ah, esses tropeiros... Não dá para dizer se eram nômades ou civilizados, se formavam clã, classe ou não-classe. Camponeses livres talvez, igualados nas travessias.

Pedro, de sobrenome Silva, só foi conhecido como Pedro Tropeiro. Antes de possuir casa e chácara, morava no lombo do tordilho, numa rua sem fim, a das tropas. Ainda as compraria na antiga vilinha de mineradores para a qual se mudavam muitos litorâneos, cercando-a de pequenas propriedades rurais. Ficava a meio caminho do porto, onde poderia levar suas cangas de erva e ter uma vida menos penosa. Não acabou fazendeiro, mas foi tronco de uma clã importante. Espalhava o hábito de tomar o mate em cuiada quente, gabando-se de um feito que o tornara famoso:

     - Conheço o solo que piso. Fiquei a favor dos farrapos na guerra. Tropeei mais de quinhentas mulas para Bento Gonçalves e David Canabarro, que trouxe da fazenda de Dom Chico, na fronteira do Uruguai. Viajei pelos peraus, pelas picadas da mata, subindo escadas de lama formadas pela chuva, desviando dos soldados do império. Não perdi nenhuma na correnteza ou na fundura dos rios. Voltei de Sorocaba com tempo de entregar o dinheiro para a campanha.

Com desaponto, fazia uma revelação:

     - Os curitibanos iam entrar na revolução que estourou em Sorocaba, para se unirem aos farrapos. Até o Dondoca e o Jesuíno se comprometeram nas reuniões. Mas os liberais traíram o movimento, se venderam ao governo central que elevou a Comarca à Província, separando-a de São Paulo.

Ao soltar a animalada, falava ao pé do fogo:

     - Dizem que o império mantém o Brasil unido, guerreando o povo. Nem era para haver regência... Se não existissem os tropeiros, o país se dividia, acabava. Até as famílias se separavam, ninguém sabia dos parentes, dos amigos. O morador do Sul não entendia o do Norte nem na fala. Nem todos tinham esse nosso sentimento.

Pelo almocreve o país se identificava, informando-se de tudo. Da marcha para a Amazônia, de nordestinos buscando saída nos grupos de cangaço ou de fanáticos, da Noite das Garrafadas, das prisões de republicanos nas fortalezas. Pedro se tornara chefe nas caravanas, respeitavam-no e criam no que ele afirmava:

     - Este país vai ser a Estrela das nações.

A linha de muares enfiava-se no pano verde dos campos. A égua madrinha vinha batendo cincerro em frente - agulha de patas - costurando povoados, freguesias e vilas num mesmo espírito. O peão-guia também ponteando a tropa. Furavam-se as serras, atavam-se céus, terras e gentes, o chão uma bandeira nacional. Tropeiros teciam a pátria. Manadas em demanda das feiras. O caminho fora desviado para a freguesia Santa Ana do Iapó - antigo nome -  onde as mulheres faziam xergas e baixeiros para que vendessem nas feiras. Nesse pouso, o mais importante, o capão próximo ao acampamento deu lugar ao nome definitivo, porque o pinhal visto de longe projetava-se numa ponta grossa. O gentio fixava a rancharia, à espera das caravanas.

Botões de cidades desabrochavam à borda do caminho, o principal do país: a Rua das Tropas.

Ponta Grossa palpitava nos campos gerais, bem no topo, com a capela ao lado da célebre Casa de Telha. Quando Pedro entrou no tropeirismo já havia igreja e cemitério. Ao ser elevada à Vila, assistiu à festa e se expressou emocionado na hora do foguetório:

     - Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.

Ela iluminava o vaivém das tropas.

O Velho tangeu cargueiros de poucos haveres, quase só a família de comitiva. Após anos de casado adquiriu a casa e a chácara. Tropeiros antigos, os ricos e não os arrieiros, tomaram posse dos campos, criavam o gado solto, com peões e escravos nos galpões, estes cuidando de roças abertas nas nesgas de mato. Os agregados moravam em taperas, plantavam milho e feijão, criavam porcos e aves. Dez bois não valiam duas mulas, mas davam segurança. E da família do Velho, ninguém admitia trabalho escravo.

Reconhecido, jurava amor à mulher:

     - Sem você, eu não seria ninguém.

Uma castrense criada no Rio Grande.

Pedro era feliz como tropeiro de mala-nos-tentos. Não mais levava muares e cavalares às lavouras do norte, nem vendia as xergas e baixeiros que as moças faziam. Apeava com material de cozinha, mantimentos, além de barracas, redes, utensílios e ferramentas. Junto ao cabeçote do arreio achavam-se escopetas, garruchas, facões e adaga. O acampamento, um festão no povoado, lida de laços, rédeas e cabrestos, com dança e cantoria em noites de lua, pirilampos e lampiões a querosene. Chimarrão à roda, discutiam-se jogos, corridas de cavalos, negócios. Um caboclo ajeitando a viola, outro a sanfona, namorados nos cantos, gente chegando, e começa o baile. No cargueiro da despensa a mula boa, bruacas bem costuradas, toucinho, feijão, farinha, torresmo, charque e bolo de polvilho. Leitões e galinhas encestados nas cangalhas. Numa dezena de bestas, o comércio: confecções, águas de cheiro, remédios, armas, sementes, além do charque. O principal, dinheiro amoedado, na volta pesava na mala à garupa. O Velho conhecia as variantes e desviava os registros onde a Real Fazenda cobrava taxas escorchantes. Trazia amarrados no lenço os documentos e as notas de mil-réis, escondido sob a ceroula.

     - Tiram dos pobres prá pagarem o luxo da corte! - cuspia de lado.

Embora lerdas, suas viagens seriam breves se comparadas às dos grandes fazendeiros, que duravam meses. Rarearam quando os filhos se tornaram independentes.

Isso tudo faz tempo, o primeiro Arcabuz nem era nascido.

 

II

 

Ponta Grossa atraíra muita gente em busca de oportunidades e nova vida. Tinha uma vintena de quarteirões em declive, quase mil fogos, mais de três mil habitantes. Contavam-se quinhentos e tantos sítios de roças, muitas chácaras e poucas fazendas de criação. Os paulistas dos tempos coloniais trouxeram gado, fundaram currais, e os rebanhos pastavam as sesmarias. Após o barracão de ferreiro e da rancharia tosca, apresentava um comércio de portas abertas - selarias, armazéns, hospedarias, cocheiras, açougues e até padarias. O tropeirismo restringira-se a duas correntes: uma que levava o gado do sul para o norte; outra, a da erva-mate, vinha do interior para a exportação no litoral. Havia carroções eslavos nos caminhos, bois-de-carga arrastando toras, varas de porcos, viajantes nos semoventes de rodas e de patas. Falava-se muito na necessidade da construção da Estrada de Ferro, da qual não queriam saber os castrenses.

Um marco de progresso foi a inauguração, com o nome de Estrela, do hotelzinho com confeitaria no largo da igreja. Seu dono, o Frederico, não se cansava de contar que conhecera Naná numa festa de Santana. Do casamento e baile lembravam-se na cidade. Depois que o padre benzeu o estabelecimento e o intendente parabenizou em nome do povo o casal, Frederico agradeceu com um "muito obrigado" e pouquíssimas palavras:

     - Aqui, meu pai Pedro Tropeiro disse aos filhos que apeavam da montaria: - Essa Estrela fomos nós que pregamos no céu.


 

 

 

A FAZENDA

 

 

Ao crescer o arraial, a fazenda deixou de ser o centro do mundo. A vida começou a depender mais do comércio com base na erva-mate, madeiras, e menos de gado. Desagregavam-se as famílias campeiras. Houve êxodo para os pampas, não só pela qualidade dos pastos, mas também devido a proibição de criar mulas no Paraná. Apenas os grandes proprietários da região enriqueceram com as manadas que traziam de Corrientes, do Uruguai ou do Paraguai, evitando como intermediários os rio-grandenses. Apuravam mais de cinco mil-réis a besta. Até a década de sessenta, ótimo negócio. Os tropeiros de profissão continuaram nos carreiros, transportando erva, charque, mercadorias, ou conduzindo pontas de gado.

Noutra época, o movimento na fazenda era maior que na cidade onde as casas só se abriam aos domingos, dias santos e feriados.

As filhas vibraram quando ouviram Chiquito Ribas dizer ao capataz:

     - Melhor é arrendar os pastos. Vou mudar para a cidade. Coronel no mato não tem mais valor.

Invernagem dava mais lucro, sem exigir trabalho. De tempos menos maus, sobrara a solidão - diriam as mulheres. O direito de mal abrir a boca, cuidar de casa e dos filhos. Antigamente valia a pena morar na fazenda. As casas, os galpões, as cercas e até a mobília tinham sido construídos com madeira dos capões. De algodão e lã, as mulheres fabricavam o pano na roda de fiar. Do couro saíam os aperos, os arreios, lombilhos, xergas, cinchas e botas. De fora só se precisava de aço, pólvora e sal. Havia negro para toda obra. Nos serões reuniam-se sinhás, mucamas, comadres, fiando e tecendo lençóis, baixeiros, coxinilhos, rendas finas. Enrolavam-se cigarros de palha. Era elegante fumar e cuspir nas escarradeiras de louça.

Os escravos enchiam o prato de feijão, arroz, milho, mandioca e carne de porco. Fartavam-se de leite, queijo e manteiga. Sempre alguém socando pilão no terreiro, um sinal de fartura. O pão-de-casa assado em fornadas. Nos fogões ferviam os tachos de doce, estocavam-se caixotes de marmelada. As correntes e algemas do galpão não eram usadas, raramente se chicoteava um negro.

Chiquito Ribas surpreendeu-se quando Melquíades pediu para vender os cestos que fabricava:

     - Por que quer dinheiro se aqui não lhe falta nada?

Melquíades foi o último a comprar-lhe a alforria, nem precisou da ajuda dos brancos do povoado.

Os agregados colhiam pouco, propunham roçar às meias para ouvirem o dito:

     "- As meias só para o pé, bolinho só da graxa."

Outrora, plantava-se, moía-se o trigo, porém veio a ferrugem e tornou-se mais vantajoso adquirir a barrica de trigo argentino no armazém.

Chiquito Ribas possuía renda para fazer eleitor na paróquia e decidir na escolha de deputados. Mas via a pecuária em decadência e, com ela, a sua classe. As carroças dos colonos iam tomando conta da região, construíam-se linhas de ferro no país, eram melhores as pastagens e as raças bovinas de São Paulo. Lá um boi custava o dobro. Muladas haviam sido trazidas de volta das feiras e arrematadas por preço de galinhas. Na sua fazenda de mais de quatro léguas, apenas seiscentas rezes sobreviviam com o capim nativo. Desvalorizavam-se as terras com a suposição de que samambaias e barbas-de-bode indicavam escassez para o gado. Com a invernagem de muladas, relegara ao abandono a criação. Os rebanhos foram minguando nas propriedades, a maioria menores que a sua. Estas mal cuidadas, tábuas desunidas assoalhando as salas, riscadas de esporas. Mobília de jacarandá, canapé a parede, enorme cômoda, relógio-armário, janelas para o patamar. No fim do corredor, a sala rodeada de quartos, antes da cozinha. Nos casebres de chão batido, as famílias agregadas. Andavam de mudança na cacunda para o arraial. Na área do campo - via-se pelas feições - ficavam os mestiços que puxavam mais para o bugre de que para o branco.

A erva-mate, pintando de verde o Paraná, transformou-o de vez. Era só colher as folhas, secá-las no carijo ao fogo e quebrá-las miudamente. Famílias inteiras tiravam dela o sustento. Comerciantes e carroceiros enriqueciam, Ponta Grossa tornou-se o maior empório da província. A eles vendiam suas terras os fazendeiros empobrecidos.

A Chiquito Ribas, que vendera os escravos a paulistas e queria lucrar com invernagem, restava acomodar-se na cidade com a família, sem desfazer-se das suas. A abolição podia parecer um sonho, mas na região já haviam sido rompidas as relações escravo-senhor, substituídas pelas de patrão-camaradas. E na cidade teria de habituar-se a um tipo de vida em que todos queriam ter os mesmos direitos.

O antigo arraial é que passara a ser o centro do mundo, um mundo cheio de vida e movimento a fascinar a família campeira. A fazenda tornara-se um vazio que doía na alma das moças, trancafiadas no quarto quando chegava um forasteiro. Os irmãos varões foram embora, um para São Paulo onde se estabeleceu com comércio, outro para o Rio Grande do Sul para continuar no campo. Os Ribas eram daqueles que iam para as cidades, porém com o umbigo ligado à terra.

Não resistiu à pressão das filhas que só falavam sobre o povoado, a nova casa, empolgadas com a mudança. Não mais pareceriam caipiras - pensavam. Freqüentariam aulas de mestre-escola, procedendo e falando como gente fina. Os Ribas evitaram a transferência do professor Nhonhô para os cafundós, contavam com sua atenção especial para as meninas. Freqüentando as escolas da cidade, até os pobres falavam corretamente, e os camponeses procuravam imitá-los.

     - Com vestidos bonitos, vamos passear, dançar, flertar e casar.-  Anita excitava as duas mais novas.

     - Tem quermesse, banda, teatro, festa de igreja, baile no clube - acrescentava Dorinha, a do meio.

O gado mugindo, o galo cantando, o bode berrando, não contavam novidades, parada a vida na fazenda.

Letícia, a caçula, olhava da janelinha do sótão a cidade-estrela brilhando no alto. Sentia-se presa no quarto, isolada do mundo como as outras. Ah, se pudesse voar para lá. Mal podia acreditar no que ouvira. Fora a que mais se chocara com o suicídio de uma tia, abandonada no caminho por um tropeiro. Não compreendeu porque a mãe falou desacorçoada:

     - Não faz diferença levar a mesma vida de escrava.

Dona Aparecida desgostara-se com a imagem de quem envelhecera antes do tempo, por viver socada naquele fundão. Parideira, de nove partos criara cinco filhos, enterrando quatro. Uma camponesa à força. Burguesa de capital, jamais a satisfaria o reinado numa fazenda. Chegara a sonhar com a corte, na qual tinha duas primas. Mudar-se da capital para o mato acabou sendo o inverso do sonho. Uma das primas, a invejosa, humilhou-a na viagem que fizera ao Rio de Janeiro, perguntando-lhe numa reunião social se iria trabalhar na roça. A prima fez o casal tornar-se objeto de chacotas. Um fidalgo teve o desplante de indagar ao coronel Chiquito se tropeiro no Sul era barão. O casamento fora arranjo de famílias, tinha dezesseis anos, inocente de tudo. Após curto noivado, chocou-se nas núpcias. Paria em meio à azáfama da fazenda, longe da falsa nobreza, cercada de gente rústica, escravos e agregados. Nos serões recordava o sucesso que fizera nos clubes, ganhando concursos.

     - Perdi minha mocidade, passou como um relâmpago - lamentava-se. Descuidara-se da formosura.

Uma vida dura. Levantar às cinco da manhã, arrumar quarto, dar conta dos serviços domésticos, educar e instruir as crianças, costurar, fiar, tecer, defumar toucinho, fazer sabão e até partos de escravas. Lavar roupa, lidar no jardim e ainda sair a cavalo inspecionando a fazenda com o marido.

A preta que a assistira em todos os partos sabia que dona Aparecida, católica devotada, lutava para ser boa e mãe amiga. Mas se a pobre mostrava-se dócil com Anita e Dorinha, não podia conter a irritação diante de Letícia, criança mais parecida com ela. Mistérios da alma, causas pretéritas, um louco ciúme do mundo que fatalmente a menina conquistaria. Uma revolta contra si própria. Num dia em que chorava angustiada, após desentendimento com o marido, reclamava às criadas:

     - Eu sou menos que uma escrava nesta casa, sou uma inútil, não sirvo para nada.

     - Dona Aparecida é uma santa - interveio uma com a concordância das outras. A sua palavra, uma bênção, acabou as malvadezas na fazenda. Foi Deus que mandou a senhora proteger a gente - acrescentou.

     - O que lhe parece pouco foi muito para quem recebeu da senhora.

Eram aquelas negras que mudavam as pessoas e o mundo. Através de gestos e das palavras alcançavam-lhes o coração. E se dona Aparecida negava carinhos à Letícia, não lhe faltavam os das mucamas. Ao vê-la chorar, por causa da mãe, consolavam-na:

     - As lágrimas fazem bem, fia. As flores que as mães-pretas regaram de lágrimas, viraram violetas. Deus quer ver as crianças alegres, por isso fez os campos, as árvores, a criação, os passarinhos.

Letícia era feliz.

O sonho da mãe resumia-se, agora, em voltar do campo para a cidade, recuperar um tempo perdido. O marido já decidira a mudança e chegara a freqüentar às escondidas a Rua da Estação, não mais voltando à casa da Formiga, em Castro. Ainda assim, dona Aparecida induziu-o mais uma vez:

     - A cidade tá assim de bom partido prás meninas. Doutor solteiro, gente educada.

Zangara-se, no princípio, alegando que a esposa não soubera dar valor à mobília de primeira, cadeiras austríacas, mesa com gavetas, espelhos grandes na sala, relógio de parede, louças de porcelana, talheres de prata, catres de couro. Mas não resistiu a seu assédio e das filhas.

A fazenda só para passear - frisavam o que queriam. Uma só coisa as preocupava, como a todos: - Será que vamos mudar antes das festas do Imperador?

Chiquito Ribas não descuidou das lides do campo. Saiu cedo com o farnel de feijão, charque e farinha, numa tropa de mula com bruacas cheias de sal. Mandou que o capataz tropeasse o gado e desocupasse o pasto que alugara para criadores vindos de Palmas e Guarapuava. Voltou à sede e fez a mudança em carroças e cargueiros que avançaram pela campina. Ao subirem as colinas do povoado, acenderam-se as lanternas no ensaio de recepção aos soberanos, o coro aprimorando-se na praça:

     - Ponta Grossa aparece na altura...

Uma estrela no céu - pensaram as meninas.


 

 

 

RELAÇÕES PRIMORDIAIS

 

 

I

 

Balançava a monarquia quando Xandô veio ao mundo. Naquele ano, o tenente Pompílio de Albuquerque alistara secretamente seus camaradas, planejando capturar o Rio de Janeiro antes da partida de D.Pedro II para a Europa. A família imperial e as principais autoridades seriam detidas num dia de gala, quando se achassem reunidas, transportadas para a fortaleza de Villegaignon, enquanto dos morros as baterias levariam pânico à cidade.

Além de porem a culpa na cegonha, diziam às crianças que a parteira, Nhá Caetana, descia da caleça trazendo o nenê dentro de uma enorme bolsa. Naná deu à luz no sobrado, e as pretas celebraram o acontecimento como um prenúncio de justiça. Adaptadas às novas condições, conservando pouca coisa de suas tradições, falaram que o menino era algo de Xangô. No colo de uma delas, pronunciou tal palavra do modo que podia: Xan-dô. Assim o chamavam, apesar do assento de batismo. Eram comuns as mudanças de nomes pelos apelidos, o seu avô nascera Silva e o povo batizou-o de Tropeiro.

Mal engatinhava e já percorria a cocheira, os cômodos de carros e animais, todas as dependências, conhecendo os hóspedes, os fregueses do bilhar recém-vindo do Rio de Janeiro. Depois cantava trepado na ameixeira do quintal, antes de voar pelas adjacências. Chamavam-no com ternura:

     - Vem prá dentro, passarinho.

Desde cedo, aprendeu a amar as pessoas e o mundo. Tinha um jeito meigo e arteiro. Conseguiam entretê-lo, mas não enganá-lo. Franzino, cabeça pensa, olhos escuros sob a franjinha que mais o amorenava. Aproximava-se das pessoas a sondar-lhes as intenções e até os pensamentos, fazia cara de sono ou de sonso, fingindo com qualquer caco na mão. Custaria a perder o titibate, medindo as palavras, soltando-as a intervalos. Perguntavam-lhe se gostava mais da mãe ou de Júlia.

     - Mãe é uma só - não magoava ninguém e acrescentava após a pausa: a Júlia é mais de uma, é a mãe de mais de uma porção de filhos.

     - O que é que você vai ser quando crescer?

     - Santo - respondia impressionado com as cerimônias da primeira comunhão de sua irmã Cecília.

Depois que aprendeu a pronunciar os erres, mudou diversas vezes de opinião:

     - Médico, para curar os doentes pobres.

     - Advogado para defender os pobres.

     - Soldado francês.

Captava as coisas no ar. Prestava atenção em tudo, nas pessoas, qual se estivesse em salas de aula. O professor Nhonhô, assíduo à confeitaria e ao jogo de carambolas, comentava:

     - A fala remorada é uma herança dos tropeiros no descanso, sem pressa, proseando nos pousos.

Repetia o que ensinava na classe:

     - No Paraná se fala um português mais suave, mais natural e correto. Mais ao norte, a pronúncia se torna algumas vezes pedante, outras grotesca. Os paulistas forçam os erres, mas não corrompem a língua. Os catarinenses cantam as palavras de um modo enjoativo. Os rio-grandenses tratam todos por tu, dobram vogais e eles: "sull", "baguall", "urinoll".

Concluía com uma ponta de orgulho:

     - Nós pronunciamos as palavras por inteiro, as sílabas destacadas, abertas: "leite quen - te". É o modo másculo de falar, natural.

Os mestres-escolas, tal como Nhonhô Colares, talvez fossem a principal causa de, no meio citadino, as pessoas falarem razoavelmente correto. Xandô ia aprendendo e corrigindo o titibate.

O povoado desabrochara na colina dominante. No capão que engrossava numa ponta, havia abundante lenha. Os moradores que relutaram em aceitar o nome de Ponta Grossa - e isso foi no ano de um mil oitocentos e setenta e um - trocaram-no pelo de Pitangui, mas acabaram acedendo à maioria. Uma lenda segundo a qual pombinhos brancos teriam voado ao local onde foi erigida a igreja, reflete apenas o espírito pacífico dos habitantes. Não havia pombos domésticos nos campos gerais, só a juriti e a pomba preta, ambas nativas. Atraíra negociantes que abandonavam a região velha, progredindo com carroças abarrotadas às portas do comércio. Entre eles, o coronel urbano. Um mandachuva de roupagem nova, de bigodes, mas sem botas, bombachas ou chapelão, com lojas de ferragens, couros, louças, tecidos, remédios, miudezas. Dono na cidade interiorana. Até um médico trocara o bisturi pelo balcão. Os pobres encontravam serviço e algo novo acontecia: formava-se o povo.

Para deixar o marasmo da fazenda, as moças não precisavam mais fugir com tropeiro, se não casassem com os primos. E aquele era o povoado mais promissor. Antes perguntavam:

     - Divertir-se onde? namorar como? noivar com quem?

Chegou a vez das adivinhações de Anita, Dorinha e Letícia. Primeiro esta, a mais nova:

     - Com quem será que casarei?

Depois Dorinha, a do meio:

     - Com qual será que me casarei?

Por último, Anita, a mais velha:

     - Quem será que quer casar comigo?

Dava vida à cidade o movimento do comércio, das escolas, da igreja. Reunia gente no paço da Câmara, principalmente com a presença do corpo de cavalaria e da guarda municipal. Nas ruas transitavam caleças, cavaleiros e pessoas a pé. Pequenos grupos formavam-se perto de clube ou da agência de correios e telégrafo. Luzes à noite, animação na confeitaria. Nhô Quim organizara uma bandinha, enchia o Teatro Santana. Existiam, ainda, os galpões de costura, porém as mulheres se exibiam às janelas, à entrada das missas, nos salões de dança e nas dependências do teatro. As ruas, os campos e as escolas, ainda que separassem meninos de meninas, igualavam-nos como crianças. O povoado crescia sem as pessoas se tornarem desconhecidas umas das outras. Diferia de vilas paradas e mortas, meros ajuntamentos de parentes, que aumentavam para baixo, como rabo de cavalo.

Para Xandô a casa assobradada construída em estilo barroco no largo parecia de ouro. Seu pai, um rei em palácio. Mirava as sacadas suspensas por leões de pedra, as grossas colunas e sentia orgulho de morar em cima, na parte que abrigava a família. Em baixo, o maior número de salas e aposentos, cozinha com fogão e chaminé, na qual cabiam mesas, cadeiras e bancos. Repartições ainda mais ao fundo, pois o terreno tomava quase um terço do quarteirão em declive. O prédio dividia-se ao meio e, numa parte, três largas portas davam acesso ao salão com balcão ao longo da parede lateral, do qual se atendia a freguesia nas mesas de mármore. No contíguo jogavam carambolas. Ao lado havia entrada independente para a hospedaria. Além do confeiteiro e seu ajudante na oficina, três criadas e dona Naná atendiam a cozinha. Aquelas dividiam o casebre dos fundos, sua parte separada da dos homens por um corredor terminando no banheiro. Antes, fora um telheiro como os outros, em que as mulheres costuravam, bordavam, faziam massa, fofocando. A porção maior do terreno estava ocupada por cocheiras, carros, animais e algumas árvores.

Até os cachorrinhos alegres, abanando os rabos, tinham importância nas relações primordiais do menino.

A entrada de veículos, carroças de lenha, de fornecimento, ficava beirando a esquina, um portão no final do muro corrido. As chacrinhas cercavam a colina em que se situava, das quais a criançada fugia pelas sebes, derramando de dentro das camisas as frutas furtadas. Fora dali do largo, as ruas eram estreitas, as casas à beira, nunca recuadas. Sobrados e térreos de portas e janelas escancaradas para as ruas.

De água e esgoto cuidavam os escravos, provendo as bilhas e limpando as fossas.

Em Ponta Grossa via-se formar o povo.

Xandô pregou vários sustos à cidade. Antes de ganhar o tamborzinho com o qual brincava de marcha-soldado, deu-lhe o primeiro. Amuado no quintal, teve a idéia de tirar  proveito do poço em desuso e tão mal coberto.

     - É um perigo - pressagiavam. Um bode se esborrachara e apodrecera no fundo.

Serelepe, arrastou um saco de tralhas à borda, arredou as tábuas e deixou-o cair. O baque ressoou na cozinha, de cujas janelas se via o local.

     - Minha Nossa Senhora!

     - O que foi que aconteceu?!

     - Acuda, acuda! O piazinho caiu no poço!

Em meio à gritaria a mãe desmaiou ao descer a escada. Um rebuliço, o povaréu invadindo a casa. Alberto ajudando a carregar a mãe para o quarto, Cecília chorando, Manoel pálido, cumprindo as ordens do pai.

     - Bar-ba-ri-da-de ... - ouviam-se bem pronunciadas as sílabas.

Rodearam o buraco.

     - Corda!

     - Tragam uma corda!

Júlia, sua mãe da guarda, olhou para baixo e piorou a situação, choramingando:

     - Xandô, passarinho 'tá boiando no fundo ...

Arrependido, sentia a dor que melhora o coração: o remorso. Escondido atrás da pilha de lenha no porão, temia a companhia da Gadelhuda no escuro, ouvindo a bulha e imaginando as cenas. A causa de tudo fora um cascudo que lhe dera Manoel. Puxa! Não devia ter fingido que se atirara ao poço. Não há sova mais doída que o remorso - aprendia. A cada minuto, um novo susto. Paulo, ajudante de confeiteiro, quase rolou poço adentro ao desmoronar-se a borda. Depois, a vez do Sobradinho arriscar a pouca vida que tinha. Doente do peito, acometido de tosse na hora do salvamento, escorregou para o fundo e ficou de ponta-cabeça, preso pelos pés.

     - Só tem uma trouxa em cima da água - berrou de baixo, antes de ser recolhido pelos soldados que o socorreram e retiraram os entulhos.

     - Vasculhamos tudo, não há nada, criança nenhuma.

Houve uma sensação de alívio, porém ao se sentirem logrados, poucos não recomendaram uma tunda. Os cães, assustados com o alvoroço, entravam e latiam no porão, denunciando o menino.

     - Acuda, Maria Papuda! - chamou-a Júlia, impedindo a sova.

     - Eu me arrependi, pai.

     - Viu? - Maria Papuda acalmou Frederico, e Júlia desarmou todo mundo:

     - Arrependimento é prova de bondade, só quem é mau e não gosta de ninguém, nunca se arrepende. O menino 'tá sofrendo.

O pirralho pregava peças a si próprio. Numa noite gemia e, com medo que o pai lhe arrancasse o dente, mentiu-lhe:

     - É a feridinha do pé.

Ao debater-se na cama, na hora de tomar injeção contra tétano, seguro por três, protestou a verdade:

     - Não é a feridinha do pé, é meu dente aqui - mostrou com o dedinho.

Recebeu o castigo. Pelo sim, pelo não, lá veio o pai de alicate em punho, e zás! extraiu-lhe o dente.

Eram apenas crianças e não pretos, brancos, ricos ou pobres, que colhiam juntos pitangas no campo, que brincavam no largo e nas ruas. Xandô só se sentia inferiorizado por causa das pernas fechadas nos joelhos, abertas em baixo - formato de tesoura - e do pouco pescoço delgado. Queixo pendendo sobre o ombro, humilhavam-no os risos de mofa. Brigou muito para evitar chacotas e impor-se até assumir liderança de setra ou trabuco na mão. Teve o apoio dos engraxates da recém-inaugurada charutaria.

     - Pau-de-vinho, não! - impedia as brutalidades.

Fazia o tempo de brincar com peão, arco, papagaio, bola de búrica, malhas, de esconde-esconde, de índio ou de soldado. No Escorpião ou no Cavalinho, arroios mais próximos, nadava em dois estilos: "cachorrinho" e "arrancão". Na Prancha, o seu amigo Chico Bóia morrera afogado ao enroscar-se em galhos do fundo.

Peraltices sob nuvens de passarinhos. Comandava incursões aos quintais, às chácaras, às carrocinhas derramando frutas. Os companheiros faziam-lhe degrau com as mãos para pular as cercas e conseguir trepar nas pereiras ou jabuticabeiras. Ajudavam-no como podiam na hora da fuga. Se não corresse primeiro e não se escondesse, seria apanhado. De pernas duras, os passos não rendiam.

Não tirava vantagem em briga, menos de medo de que pelo sentimento que o inibia. Defendia-se sem desferir socos. Era fácil escarnecê-lo:

     - Tem sangue de barata.

     - Tá com medo, cagou no dedo - temia alguns marmanjos que maltratavam os menores.

Não cessavam as queixas a Frederico sobre as artes do bando. Xandô afrouxara o breque de uma carroça, distorcendo a manivela, os cavalos dispararam na ladeira. Montara no burrico de uma gaiota, e outro dono o ameaçava com o chicote.

     - Guri duma figa.

Acudiam-no nas horas de perigo:

     - Não vêem que é uma criança inocente? Ainda por cima doentinho...

Não escapava aos males infantis. Agravados com a coqueluche, faziam-no estrebuchar e parecer fracote. Chegou a acordar de velas acesas nas mãos. A recomendação médica foi deixá-lo à solta. Aí, fumou no campo o cachimbinho do saci-pererê e pintou os chifres do diabo. A mãe justificava-lhe as travessuras:

     - Pobrezinho, foi desenganado.

Certa vez, não o acharam em parte alguma, pensando que tivera o mesmo fim do Chico Bóia, no fundo da Prancha. Ficara o dia inteiro proseando com a velhinha do botequim de bananas.

     - Parece gente grande - tranqüilizou-os ela.

As famílias entretinham-se com as fofocas da cidade. As enredeiras comentavam nos telheiros o caso de Rosinha, loura fogosa, de faces rosadas, mulher do professor, irmão do padre, a qual com este traía o marido. Hospedado pelo casal, o padre abusara da confiança do próprio irmão, seduzido pela cunhada. A casa ficava numa ruela detrás da igreja. No dia do ensaio do coral para apresentar-se no teatro, ninguém mais duvidou do que cochichavam as pretas. Uma vira Rosinha correr para a cama do padre, assim que o marido saiu para dar aula. No ensaio tocavam piano a quatro mãos, trocando olhares apaixonados.

A ciumeira geral e o medo do exemplo de Rosinha resultaram na transferência do padre para outra paróquia.

     - O professor é brocha - instruíam-no os engraxates.

Traseiro cheio, pernas grossas, Rosinha excitava a rapaziada. Que jolunda! - a exclamação numa linguagem secreta, quando passava pela charutaria.

Xandô percebia o ciúme dos homens, que a condenavam, e uma certa satisfação das mulheres, admirando-a.

Na roda de chimarrão, a bomba e o purungo corriam só para um lado, mas na prosa o tempo voltava. Girava o pensamento, a vida, o mundo. Frederico a definia:

     - O chimarrão é uma corrente de tropeiros, dando volta de pouso em pouso. Sem ela não tinha amizade unindo tanta gente, não tinha Brasil. Não fossem os tropeiros abrindo os caminhos, semeando os povoados, costurando as províncias...

Os filhos prestavam muita atenção no que dizia aos companheiros:

     - Por causa de meu pai, Pedro Tropeiro, por um triz não fui batizado com nome trocado, sem o Silva que assino. Corri o mundo por muito arraial de futuro: Palmas, Lages, Curitibanos. Vi muitos nascerem no Rio Grande. Ah, a última vez que passei em Porto União da Vitória! Parece que estou vendo uma vintena de casas, lanchas e canoas no rio.

A história passava em Ponta Grossa, e Xandô tinha orgulho da Rua das Tropas onde a família pusera um "secos e molhados". Sabia que os pais se conheceram numa festa de Santana, dançando no caramanchão do acampamento. Frederico desembarcou do comboio de mulas para casar e pôr comércio. Bem mais tarde, Xandô nasceu na casa assobradada do largo, depois que o casal mudou do ramo de negócio. Naná - a própria terra-mãe - terra natal, pois só conhecia o mundo de seu lar, jamais tirara os pés de Ponta Grossa.

O sobrado de hotel e confeitaria retratava a cidade, muito movimentada de caboclos urbanos e todo o tipo de amestiçados, principalmente muzambos. Bairrista igual à mãe, Alberto provocava-a cantarolando ao piano:

     - Ó dona Naná,

     onde fica o mundo?

     - No Brasil, e o Brasil no Paraná.

     - É só viajar numa carroça,

     que o Paraná fica em Ponta Grossa.

As perguntas fazia Alberto com sua voz de tenor, as respostas davam-nas em coro, na sala de cima, Cecília, Manoel e Xandô. Naná levantava o queixo orgulhosa, porém se enternecia.

Antes de estabelecer-se, Frederico trabalhou em olaria, em serraria, lidou com lenha, mas se arranjou mesmo com erva-mate. Do armazém passou para o sobrado com hotel e confeitaria. Nesta, o movimento. Continuou muito dado, muito amigo, e tinha a companheira ideal. Para ele, a mulher era apenas uma mulher. Não fazia distinções pelas diferenças de sorte. Ensinava aos filhos que o homem não se explica pela posição social, pelo modo de viver, mas sim pelo modo de ser. Xandô nunca se esqueceu de uma observação de seu irmão mais velho:

     - A pessoa não muda, apenas evolui.

A viúva Juanita tinha dois filhos garçãos na confeitaria, os quais a seu pedido apanhavam de cinta, se faltavam ao serviço. Por isso, comparecia ao sobrado com a filha Dalila, da idade de Xandô. Frederico concordou com que os moços dormissem no emprego para tratá-los como se fossem da família. Não havia razão para ciúme de Naná. Frederico seguia o exemplo de Pedro Tropeiro com seus camaradas. Afirmava que o mundo devia ser uma família, o chefe impondo ordem e provendo as necessidades de todos. A mesa dos serviçais tinha fartura, igual a dos patrões.

O casal só poupava Cecília, mocinha da casa, fazendo cursos, educando-se para o casamento.

Por todas as razões, Frederico desfrutava de muito prestígio. Envolvendo militares e até padres, com certidões de batismo e provas de alistamento na guerra do Paraguai, conseguira a liberdade de muitos escravos. Beneficiara-os de acordo com a lei do ventre livre ou a dos sexagenários, e a que concedia alforria aos voluntários negros. Atrás dele uma sociedade secreta. Quando tinha de ausentar-se, deixava nas mãos confiáveis de Alberto e Manoel o comércio. Dava como pretexto às viagens o tratamento do filho caçula.

 

II

 

Na gorducha valise, Naná enfiava a roupinha de Xandô, rabo do pai. Ele se lembrava das viagens, fundindo-as num único cenário mental, em acontecimentos simultâneos. Hospedavam-se no casarão de Tio Silva, construído por Pedro Tropeiro, o avô. A rua movimentada, carroças com os produtos das chácaras. Os homens pitando o palheiro na boléia, enfiados em botas, chapéus desabados. Mulheres empunhando rédeas, com espessas saias, de aventais e lenços de cor. Gente a pé, a cavalo, em carretas e troles. Nas janelas - nem todas envidraçadas - meninas louras de olhos azuis. Em dia de descanso, viam-se cavaleiros com as sacolas cheias de bicudos que caçavam nas cercanias. Ouviam-se tiros dos que se metiam nos brejos e banhados, principalmente no lago farto de narcejas, patos e marrecas, onde seria construído o Passeio Público. Curitiba era um mundo novo a sua frente. Adorava-o apesar da fria umidade, das chicotadas desferidas pelo vento chamado de Bugio. Relembrava cenas presenciadas nos chafarizes, no pelourinho, sobrepostas com as de colonos comerciando com os alemães da Rua Fechada e da Praça D.Pedro II. Não se apagavam em sua mente os carros-de-bois, muares com morrões de erva mate e carroças descendo pela Rua da Graciosa. Injeções no consultório, febre e temores noturnos não o impediam de sentir-se numa quermesse durante o dia. Presenciara a inauguração dos vinte lampiões comprados no Rio de Janeiro, quando se revezaram as bandas musicais, foguetes estourando, pares dançando defronte à Matriz. Ah! a Matriz. O povo fiel não admitia que estivesse condenada. Não ruíra quando, da janela do coro, Xandô descortinara a cidade com seu casario rasteiro. Tinha o branco da alegria, cor de festa, polvilhada de verde nas ruas.

Uma aldeia, se a comparassem a uma metrópole. Não mais a aldeia colonial dos mineradores. Duzentos anos de história estavam guardados nas urnas mortuárias encerradas nas paredes da Matriz. Espelhava o passado. Servira de escola, abrigara a câmara e as catacumbas. Como na recepção aos voluntários da guerra do Paraguai, ali defronte tudo se comemorava. Armavam-se palanques, erguiam-se andores, rezavam-se missas. As moças acenavam, agitando-se nas janelas do coro, antes das danças.

Não se esquecia das rachaduras causadas pelo peso das torres, retangulares, gradeadas, três janelões e respetivos balcões em fileira sobre o portal em arco romano. O desentendimento entre políticos, engenheiros, devotos, envolviam a população na briga pela conservação ou demolição do monumento.

Fora à missa com a tia Dulce no dia em que o teto ameaçou desabar provocando pânico e a correria da assistência. Ainda assim, contra a demolição protestavam os fiéis: - É uma profanação. Faziam coro com o pároco.

Na procissão de transferência da Matriz para a igrejinha do Rosário, oratório da irmandade dos pretos, havia choro e lamúrias. Eram xingados de hereges as autoridades, os engenheiros e os encarregados da demolição. O cortejo fúnebre trasladava os ossos da aldeia colonial. A nova catedral seria erguida por trabalhadores livres, em sua maioria imigrantes alemães, e não mais por escravos. Cresciam as classes urbanas.

Conhecera todos os becos e vielas que se irradiavam da rua principal. Em frente ao sobrado da presidência, havia retreta às quintas e aos domingos. Num outro, ficava a Casa do Sol. Aquele com a estaca, em cujo argolão prendiam-se os animais, pertencia ao Zé Nabo. O armazém vivia cheio. Após a entrega da erva-mate nos engenhos, os fregueses iam para lá de chinelos e palas. Ele vendia fiado e servia o chimarrão. Na esquina de Nhá Ziza, onde se editava uma revista, aconteciam grandes bailes.

Na mente da criança, tudo era festa em Curitiba. Os sucessos de comemorações ou de revoltas ligavam-se, sem que soubesse quais haviam ocorridos antes ou depois. Via o pai, o tio e os cavalheiros que se reuniam numa sala do casarão cumprindo algum papel importante na província. O povo se amotinara em frente ao salão Lindman, em apoio à comissão do comércio, quando se cerraram as portas das lojas e a polícia foi para as ruas. Os negociantes organizaram um protesto contra o lançamento do imposto de um e meio por cento sobre as vendas. O jornal "Dezenove de Dezembro" publicara o ato, a comissão redigira um boletim. As pessoas exclamavam indignadas:

     - Acabaram-se as garantias!

Os monarquistas liberais, no governo, contra-atacavam:

     - É uma revolta de estrangeiros!

Comerciantes, na maioria alemães e portugueses, constituíram uma vanguarda urbana e, aproveitando a oposição do Partido Conservador, enfrentavam o domínio oligárquico. O corpulento Treme-Treme, dirigente da facção, tentou dobrar o palácio, porém não conseguiu a suspensão da medida, cumprida apenas na Lapa e na Palmeira, redutos liberais. Um estampido de revólver provocou carga de cavalaria para os lados do bairro Pilarzinho. Linhas de soldados cercaram a área em que o povo se concentrou, para esmagá-lo no Largo da Matriz. À noite, os discursos no salão Lindman foram interrompidos a tiros, partiram-se os lampiões, a multidão promoveu um quebra-quebra, apedrejando casas de governistas. A guarda da tesouraria, atacada por um grupo, retirou-se para dentro do portão com alguns feridos. Quando a cavalaria avançou pela Rua Fechada, os praças mataram o rapaz louro que não fugira a tempo. Debaixo de golpes de espada, a tropa levou mais de uma dezena de comerciantes para a cadeia.                                             

Durante a comoção urbana, Tio Silva escondia gente no casarão, e o governo imperial deslocou para o Paraná cerca de quinhentos soldados que desembarcaram do paquete Rio Branco, em Antonina. Em conseqüência, cindiram-se os partidos da província e cresceu a oposição ao governo de seu primeiro barão, o palmeirense que foi conselheiro e ministro no Rio de Janeiro. E o grupo dissidente liberal aliou-se aos conservadores.

Fora com o tio ao alfaiate, mestre Torquato, que morava num dos casebres de cima do paredão de pedra. Cruzando com o caminho estreito entre a barranqueira alta até o Largo da Matriz, erguia-se o palácio do governo. Adiante, na outra esquina, nas bodegas de charque e toucinho, reuniam-se os cachaceiros. De outro lado - o casebre empoleirado sobre os alicerces, com escada de tábuas na lateral. Num canto da rua, fechado por muros remendados de ripas, uma bela placa vegetal - a roseira Mariquinha - dava-lhe o nome: Rua das Flores.

 

III

 

Antes de uma das viagens em que acompanhara o pai, houvera o roubo dos quarenta negrinhos. Vinham de Castro, em duas carretas, para serem vendidos no Rio Grande do Sul. Um grupo de cavaleiros com lenços cobrindo os rostos interceptou-as no caminho. Levaram os cavalos e as armas do feitor, de seus capangas, sumindo com a preciosa carga. À sua procura, o capitão-de-mato e a polícia vasculharam Ponta Grossa. Xandô ouvira-o afirmar aos homens da patrulha:

     - Tem mão negra atrás disso.

Impressionou-se com a expressão do capitão-de-mato. Não sabia que significava atribuir o crime a um negro. Entendeu tratar-se de uma quadrilha. Viu-o decepcionado porque não havia um só quilombo armado na região para que pudesse mostrar serviço, apenas casebres mal estaqueados nas barrocas.

Os negros rareavam, havia queixas de evasão. Os compradores vinham de fora, os corretores nem precisavam se esforçar para convencer os proprietários:

     - É um bom negócio vender para as firmas paulistas, aqui não dá mais para ter escravos.

Alguns fazendeiros, moradores da cidade, faziam uma comparação maldosa:

     - A arrecadação de impostos sobre os negros é maior que a do comércio de animais quadrúpedes.

Chimarreava-se à entrada da hospedaria, mas o bate-papo esquentava nas mesas da confeitaria ao lado. Ouvia-se a cidade falar pela boca dos jovens:

     - Se eu fosse rei, acabava com a escravidão.

     - Então não seria mais rei, caía a monarquia - observara o moço que pretendia abrir uma banca de advocacia e dedicar-se à política. Cursava o último ano em São Paulo, onde chefiava orgias estudantis, além das campanhas abolicionista e republicana. Natural de Castro, onde a família possuía fazenda, sondava o lugar mais próspero para iniciar a carreira. Um bom partido, porém noivo de uma prima. Um grande orador - reconheciam os camaristas. Hospedara-se na casa de um deles, o coronel Bitencourt. Um rapaz moreno claro, de estatura média, de bigodinho e ar audacioso. Bebera e Frederico acautelara-o:

     - Cuidado, você não está em São Paulo, numa reunião de  academia de Direito.

Formavam o grupo mais próximo ao balcão, e à mesa aproximou-se de cabelos arrepiados no cocuruto o piá, inquirindo-os:

     - Por que é que os senhores deixam haver mendigos?

O novo pároco ficou embasbacado com a pergunta:

     - Por que foi que Deus fez a escravidão?

Estava na rua o negro Marcelino, descalço e de calças arregaçadas, com pipa de água ao ombro. Propriedade dos Guimarães, fazia os serviços brutos da casa, apanhando e partindo lenha, carregando volumes e guiava a caleça.

Ao desenvolver-se, tomando remédio, Xandô endireitou o porte e já não era o magricela. Achavam-no um louco por causa das artes. Completaria dez anos quando pediu ao pai que o matriculasse na escola. Falava remoradamente, mas corrigindo o titibate aprendeu a soletrar muito bem as palavras, repetidas em coro em frente ao quadro-negro. Nhonhô apontava-as com a vara de marmelo.

A cidade mobilizara-se para evitar que Nhonhô fosse mandado para um fim de mundo, o Saco de Tamburutaca, pelo Conselho Literário. Declarara-se solidário a um colega mestre-escola que presidira uma mesa eleitoral e se insurgira contra a presença policial. Os Ribas impediram a remoção.

O mestre Nhonhô conhecia a tese do inspetor, do doutor Leocádio Correia, sobre o poder das palavras. A eles se deviam o ensino correto da língua, a boa instrução dos alunos e até o cuidado na fala do povo. Mas Xandô não era estudioso, sobrava-lhe tempo de ócio e travessuras. Perdia tarde inteira na carpintaria de Jango Ribas. Gostava de ajudá-lo mais do que ao pai na confeitaria, juntando pregos, parafusos, petrechos no chão. Pendurando nos lugares pua, chaves de fenda, serrotes. As ferramentas forravam as paredes. O barracão fora erguido ao lado da moradia, num vasto terreno com água ao fundo, servindo a oficina e o moinho construído com ajuda da mulher e do filho. Este, o farinheiro. A menina, Xandô conhecia das aulas de catecismo, e todo mundo sabia que tinha pouco tempo de vida. O pai, caboclo tirante a branco de Castela, tinha palavras chanceladas pelas mãos calosas, marcadas de cicatrizes. Consertando rodas, dizia coisas  misteriosas:

     - Só acredito nos três poderes: um, a lei de Deus, outro a do amor, e no trabalho. Estes é que movem o mundo.

Armava quebra-cabeças no crânio do ajudante mirim.

Fazia e reparava carroças, pipas, tábuas de lavar roupa, barris, tinas. Lá, chegavam carroções de carga para mais de dois mil quilos, puxados por seis burros. Preferia encomendas de rodas. Ao afinar uma espiga de raio e pregar as cambotas com pinos de pau, dizia à piazada em volta:

     - Não troco por nada o meu trabalho. O homem deve ganhar o sustento com o suor do rosto e não com o dos escravos. Mas vai chegar o dia em que as máquinas multiplicarão os pães para os pobres.

A carpintaria virava uma classe de mestre-oficina. E Jango Ribas só não enriquecera porque gastara muito em alforrias. Um dos principais abolicionistas do grupo de Frederico. Intrigado com a diferença entre as pessoas, Xandô perguntou-lhe:

     - Por que o senhor não é como "seu" Curu?

     - Quem é que sabe por que uma pessoa não é igual a outra?

Assíduo à confeitaria aos domingos, bebia cerveja e jogava carambolas. Ia bem trajado, deixava a caleça na rua.

Xandô aproveitava a liberdade que tinha a conselho médico, mas sua educação começava em casa. Completavam-na as nhás-marias e o pessoal do sobrado. Elas que se vestiam como caboclas e nunca à baiana, cuidavam-no assustando-o com boitatá, lobisomem, mula-sem-cabeça e Gadelhuda. Contavam de reis e rainhas, senhores e escravos, sempre dividindo as pessoas em boas e más, estas vencidas e castigadas. Faziam-no dormir satisfeito, acreditando num mundo assim, sonhando o reino da justiça. Ensinaram-no a perceber o bem nas pessoas, até mesmo nas empedernidas.

O confeiteiro Matias, que lhe moldava os brinquedos a canivete, pensava de modo semelhante. Polaco alto e louro, metido no guarda-pó, esparramando trigo e a sovar a massa sobre a mesa longa, simplificava as coisas:

     - O mundo 'tá dividido entre os bons e os maus, por isso tem rico e pobre, senhor e escravo. Os maus são minoria, mas dominam o mundo.

Não atinava com as concausas, com outros motivos, principalmente com o econômico. Porém de tal pensamento resultava uma grande verdade: só os bons, os que amam, poderão modificá-lo.

Abria a torneirinha do barril de pinga, enchia o cálice, estalava a língua, tirava do forno doces, empadinhas, sonhos, pães de forma ou de minuto. Um aparvalhado ajudante, de avental e gorro branco, coco rapado à navalha, ia com as bandejas pelos corredores em direção ao salão onde ficavam expostos os salgados na estufa e os confeitos na vitrina giratória. Matias findava o expediente juntando as pontas que cortava do rocambole, distribuindo-as às crianças que o rodeavam. Avermelhado pela carraspana, pregava de língua mole:

     - Ser bom não é dar esmolas, é dar o que o outro tem direito e mais ainda. Não sei qual é o pior, se o bandido ou o escravocrata. Se não se arrependerem, vai haver um banho de sangue neste país. Até um ladrão pode ser bom. Jesus na cruz, mostrou que dos crucificados com Ele, um iria para o céu. Vote, caninana!

À tardezinha, deixava o serviço, dirigindo-se à Ronda, bairro onde morava. Retornava na manhã seguinte, evitando a bebida por uns dias.

Uma vida fascinante de criança, acumulando experiências em casa e nas ruas. Ouvia os carroceiros reunidos no Chafariz, os meninos da engraxataria e os fregueses da barbearia. Além dos companheirinhos, conhecia muito bem gente como o Zé Barriga, língua de trapo, João Galinha, o fiscal matador de cachorros, Gigi - acendedor de lampiões, Januário - que se esgoelava fazendo reclame com o porta-voz, todos mestres-ruas. Pompílio, o amolador, puxava a pé a carreta com o rebolo movido a pedal. Corriam às portas e janelas para vê-lo, cercavam-no os curiosos. Traziam-lhe facas, tesouras e até machados para afiação. Zé Barriga contava que trocara a mulher por um cavalo, o cavalo por uma vaca, a vaca por um porco, o porco por um ganso, e o ganso pela pedra de amolador. Onde mais Xandô passaria tempo, senão no barracão de "seu" Curu? De um lado a oficina de ferreiro atravancada de destroços, pedaços de ferro. Da goela da forja saíam lingüetas de fogo, avermelhando-lhe o corpo nu, banhado de suor, enquanto martelava na bigorna o ferro em brasa. À tarde, como dentista, recebia noutro compartimento os clientes. Ouvira-o rebater a fama de avarento:

     - É justo cada um ganhar de seu trabalho, juntar tostão por tostão prá ter um milhão. Emprestar a juros prá ajudar é diferente de viver à custa dos negros. Dar de graça é esmola, e esmola só se dá prá mendigo.

Empolgado, assistia à armação do circo no largo da igrejinha, na parte baixa do povoado. De lá subia a Rua das Tropas, depois de cortar o bolo de chacrinhas.

Naná e várias outras mães que não concordavam que lhes chamassem os filhos de moleques, maltratando-os, protestaram no Paço Municipal contra a professora que os agredia a varadas e unhadas de bruxa. Provocaram muitas discussões, porém não conseguiram a abolição da palmatória.

 

IV

 

Os amigos de Vítor, o bacharelando, gabavam-se de sua coragem política. Impusera-se e não consentira que o diminuíssem chamando-o de Machadinho. Enturmava-se com os rapazes. Precedera-o a fama de boêmio, irradiada de São Paulo pelos colegas de academia. A dona da pensão inclinava-se para o Vítor - contavam. Uma noite, ele chegou embriagado, entrou no quarto e deitou na cama de Mme. Maria, a qual roncava a seu lado. De manhã, ela acordou assustada e saiu correndo com as cobertas, alarmando todo mundo, deixando-o de cuecas, tremendo de frio. Vítor, ainda sonso, levantou suplicando:

     "- Ai Maria, meu amor,

     Se fugir dos meus braços,

     Dá-me, ao menos, o cobertor."

Um estribilho que os colegas cantavam em coro, assobiando. Agora, Vítor queria que esquecessem o caso. Formava-se no fim do ano. Zé Barriga, confiado, experimentou-o durante um jogo de bilhar:

     - O senhor, hein seu doutor?! E madame Maria?... Quem diria?!

Vítor desferiu-lhe uma tacada em horizontal, de volteio, que fez voar o chapéu para longe. Bastou para que ninguém mais se atrevesse a desrespeitá-lo.

Rosinha caiu em sua lábia de orador galante e ajanotado. Falta de macho, esbanjando sensualidade pôs-se apontando seios, ancas e colo à cata de um amante. Por sua causa resistiu ao médico que a agarrara à força no consultório. Preteriu o doutor Glória, que não achava bonito por ser ruivo. Engraçou-se pelo Vítor, mais parecido com o padre, um jeito de gente ladina. Tornou-os rivais, justamente eles que já não se gostavam antes de se conhecerem, com tanta coisa em comum, inimigos à primeira vista. Além de gêmeos em virtudes e defeitos, eles possuíam pretensões idênticas, que se contrapunham. Atraindo-os com seus encantos, atiçou-os.

Vítor esgueirava-se na ruela detrás da igreja e, às ocultas, Rosinha acolhia-o fofa nas coxas e seios, agasalhando-o do frio. O marido dormia em cama separada, depois que o apoquentara ao se separarem do padre. O professor não descobrira nada, mas o doutor Glória mandou um aviso para que se afastasse de Rosinha. Ninguém poderia imaginar que a desavença entre Vítor e o doutor Glória terminaria em guerra. O primeiro tiroteio no povoado foi num domingo, dia seguinte à palestra do bacharelando no Teatro Santana. Fazendo pregação republicana, falou nas questões sociais e de cidadania, encerrando o discurso sob aplausos:

     - O que não pode continuar é a vergonha da escravidão e o sistema de eleições indiretas em que só os ricos podem votar e ser votados, favorecendo a oligarquia que está no poder.

A escolta do capitão Ribas não lhe deu cobertura à saída, quando um grupo de provocadores, formado pelos irmãos Glória, seguiu-o vaiando-o pelas ruas até à casa do edil Bitencourt, na qual se hospedara. Vítor não se intimidou, prometendo o revide!

     - Esse filho da puta me paga!

Fatalmente aconteceu o duelo.

A cidade fora ao circo, deixara as ruas desertas. A função da tarde enchera-o por causa das crianças. A exemplo delas, as classes igualavam-se na platéia, embora os mais ricos se exibissem nas cadeiras numeradas e nos camarotes. Ao surgir no picadeiro, o palhaço provocava a maior bulha da arquibancada. Os piás traquinas passavam debaixo dos bancos, viam as coxas e a cor das calcinhas das moças descuidadas. Quando em silêncio o público voltava os olhos para o trapezista, temendo-lhe a queda do alto, ouviram-se os estampidos vindos do centro.

Alberto perdera a sessão circense, mas assistiu ao duelo. Tomara conta do sobrado para que seus irmãos e os pais aproveitassem o camarote que lhes fora cedido pelos Queirolos. Rosinha passara piscando para Vítor que a seguiu. Nem os engraxates haviam percebido, porém o doutor Glória intrometeu-se e só se ouviram os berros:

     - Canalha!

     - É a tua mãe!

Em seguida, a troca de tiros.

O jovem médico saíra da casa do irmão, atravessara o largo deparando com Rosinha quase ao lado de Vítor. Transtornado pelo ciúme, sacou a arma, descarregando-a na direção do desafeto. Afastando-se para não ser atingido, Vítor tirou a sua da cinta, atirando contra o rival que recebeu outro revólver do irmão que veio em socorro. Mas só os dois ficaram em pé, expostos, porém as balas erravam o alvo. Alguns transeuntes assustados jogaram-se ao chão no largo, e os fregueses esconderam-se debaixo das mesas da confeitaria.

Quando acabou a munição, terminou a briga, juntou gente, chegou a polícia, começaram os comentários intermináveis. Quem pendia para o doutor Glória, defendia-o dizendo que ele era o médico dos pobres, e que Vítor Machado viera provocar discórdia na paróquia. Mas os partidários deste não lhe pouparam elogios, ressaltando que se tratava de um moço solteiro, enquanto o médico casara há pouco tempo. Ambos heróis e vilões. O primeiro, um tipo explosivo, o outro, um fleumático.

Xandô ouviu o pai comentar que era uma pena homens como o Glória e o Vítor viverem se digladiando. Não compreendeu por que lamentava considerando-os mais do que os outros. Não lhe alcançava o pensamento, não possuía experiência de vida para saber que tanto um médico quanto um advogado exerciam a profissão por vocação e ideal. O pai atribuía-lhes o valor que mereciam.

A função circense terminou mais cedo, recolhendo-se o público as suas casas. O assunto agitou a localidade e prejudicou a audiência ao circo.

Vítor voltou à pensão de Mme. Maria para concluir o curso. E Rosinha mudou-se com seu marido, transferido para a paróquia do irmão, a pedido deste.

 

V

 

Xandô formou um bando, uma quadrilha de brinquedo. Após tirar as queijadinhas de pequenas formas, o confeiteiro Matias aprontou-lhe a bandeira branca com a mão negra que Júlia bordara ao centro. Piazada atacando carrocinhas de frutas, parreiras, pomares. Traquinando nas ruas, e nos campos colhendo pitangas, araçás, araticuns, pitombos. Descalços, muitos com as calças curtas remendadas, eram todos ricos de passarinhos, mais de mil cabiam a cada um, de tantos que havia no ar. Sabiás, pintassilgos, coleirinhas, tico-ticos, chupins, tesoureiros, bem-te-vis, um mundão de espécies. Sentiam-se donos de tudo, capivaras, tatus, tapiras, sanhaços, codornas, graúnas, canindés. Preparavam-se para a vida, aprendendo a solidariedade. Esqueciam-se das advertências maternas:

     - Cuidado com os bichos do mato.

Ramalhetes nos pomares, pendiam das árvores manacás, ingás, catuabas e sumarés. Dos capões alçavam vôo bandos de gaviões e de papagaios. Nas moitas de bambu havia orquídeas retorcidas e enroscadas, lembrando as serpentes venenosas. Nos lagos os lírios lilases, brancos e amarelos.

     - Quem plantou tudo isso? - um perguntava ao outro, todos admirados com a mesma resposta na mente.

Armavam-se arapucas nas relvas que cercavam os riachos, porém nenhum deles admitia o ferimento de um passarinho. Quantas vezes de dó abriam-se as portinholas das gaiolas. A generosidade da terra refletia-se no coração e no rosto da molecada. Respirava-se um ar puro, gostoso, o bem, a gratidão, dava vontade de ser bom. Alguns brincavam de achar tesouros que realmente nem era preciso procurar. Forjava-se o companheirismo na visão espetacular da flora e da fauna. Os olhos diziam alto: - Eu amo a minha terra, as pessoas, a vida, o mundo. Supunham que jamais se acabariam os pinheiros, os campos, os rios, os pássaros, os animais.

Reuniam-se no largo, defronte ao butiazeiro onde Jair, retinto e risonho, fora aclamado chefe. Seu dono, o Guimarães, chegou com o relho na mão disposto a dispersar o bando. Esbravejou como quem toca um cachorro:

     - Já prá cavalariça, negrinho safado!

Xandô encabeçou a reação que atraiu gente ao largo:

     - A rua é nossa! Aqui o senhor não manda! Ele é o chefe...

     - É um negrinho escravo. Não se intrometa, vou dar queixa a seu pai.

     - É só um menino.

     - Isso mesmo, um menino como os outros - interveio Sobradinho, tocado pela resposta, aquele que um dia ficara pendurado dentro do poço.

Guimarães ergueu o relho e vociferou:

     - Eu sei do que ele precisa.

A voz enérgica de Frederico fê-lo retroceder:

     - Uma criança só precisa de um pai e de uma mãe.

Naquele momento, apeou do cavalo um moço que roubou o espetáculo, dirigindo-se ao proprietário:

     - Faça preço no guri. Eu também sou da Mão Negra - acrescentou aplaudido, erguendo a bandeira das mãos de Jair.

Tratava-se do doutor Deleone, jovem médico, nobre italiano - notava-se pelo sotaque - hóspede de Pinto Ferreira e sua esposa Ambrósia. Alguém muito importante para hospedar-se na mansão do "grande tropeiro" - mandava na intendência - homem de confiança do presidente da província, credor do próprio Guimarães. Enfrentar o intruso seria desafiar D. Ambrósia, patronesse de campanha "em favor dos escravizados". Com o gesto, o doutor Deleone obrigou Guimarães a reconhecer os direitos de uma criança.

O chefe Jair e Xandô foram os mais arrojados, venciam corridas de carro, uma caixa sobre rodas de pau, camboteavam nas ladeiras dentro de arcos e barricas, esquiavam em pranchas na serragem do engenho. Depois Jair ganhou a liberdade, botinas e calça comprida, pouco antes de servir o exército. Minega, filho do escravo Marcelino, substituiu-o no comando da Mão Negra.

A correnteza do rio Verde, onde se banhavam, era lenta. Eles não viam o tempo passar. Não se davam conta das horas que o sol marcava e, à tardezinha, ainda demoravam numa chácara do caminho. À noitinha, aguardava-os em casa a vara de marmelo. Magoado com a sova que lhe deram os donos da estrebaria, Minega queixou-se da sina, e Xandô convidou-o para levá-lo onde os negros fossem realmente livres.

     - Prá onde?

     - Estados Unidos.

Os galos acordaram o sol, e a passarinhada se alvoroçou nos arvoredos, quando os dois saíram em disparada numa meia caleça da cocheira. Pai Marcelino não chegou a tempo de impedi-los, e o italiano ainda culpou-o pelo furto.

     - Negro ladrão! - xingou-o, mandando prendê-lo. Um rebuliço envolvendo até o corpo da cavalaria e a guarda municipal.

O carro se distanciou nos carreiros, em direção ao porvir que não chegava nunca. Não desacorçoaram ao trocarem as rédeas na boléia.

     - Tá longe os Estados Unidos?

     - As luzinhas no horizonte são de São Paulo. De lá é perto.

     - Queria levar junto o pai e a mãe.

     - Em São Paulo dá prá engraxar sapatos e juntar dinheiro.

No caminho banharam-se no rio Pitangui e merendaram como num piquenique. Ao atrelarem o cavalo, o dia também começava a fugir porque a viagem não tinha fim, embora Castro estivesse cada vez mais perto. Então o medo originou o arrependimento.

     - É de verdade que cavalo enxerga visage? - Minega estalando os olhos.

     - Não existe assombração de dia - Xandô disfarçando.

     - O sol tá caindo, vermelhando o céu, putcha! Queria ser um passarinho?

     - Por quê?

     - Prá voar, não ter medo.

A noite perseguia-os cada vez mais perto com a tropa de fantasmas, cargueiros carregados de estrelas, boitatá à frente. Noite é alma de tropeiro.

     - Prá mãe tudo tem alma. Será que o Brasil tem alma?

     - Tem. É o tropeiro que já morreu.

Deu tremedeira em Minega, limpou a boca com a manga da camisa, pediu as rédeas e procurou mudar de assunto:

     - Pronde que a lua avoa? Será que as estrelas são passarinhos ou que nem vaga-lumes? A de baixo da lua é minha madrinha, qual é a tua?

Xandô apontou uma outra, em resposta, e raciocinou em voz alta:

     - Tá vendo por que é errado a escravidão? Deus fez a noite negra, e quem é que pode prender a noite?

Trocavam idéias com sua lógica, porém ninguém tem mais razão que uma criança. A noite achara-os, apanhara-os no caminho para a patrulha que, só pela manhã, escoltou-os de volta à cidade.

Poucos dias antes da visita real, entravam eles triunfalmente pela Rua das Tropas, admirados pela proeza. E, apesar do interesse das autoridades em que S. Majestade encontrasse um clima abolicionista, Marcelino ficou esquecido no xadrez.

 

VI

 

Todos se igualam nas relações primordiais por serem apenas crianças. As diferenças sociais não fazem parte da pessoa. Por viver a verdade, Xandô pertencia à plêiade que move para frente o mundo. Nascera perto do largo, logo uma pracinha, onde o Brasil se exprime com quermesse e banda no coreto. A cidade é a colmeia do homem, a pátria mora no casario onde os obreiros são os que depositam o mel.

Xandô tinha-a na palma da mão, becos e ruas as linhas. Amalgamava-se o povo. As pessoas se conheciam pelos nomes. Na escola, na oficina, nos lares, nas ruas, forjava-se a sua identidade. Reduzira-se o número de escravos e miseráveis, desenhando-se entre ricos e pobres uma classe predominante que parecia a de todos, a média. A diferença aparecia na roupa de casimira e seda para os ricos, de brim, algodão e chita para os pobres. Mas o pobre de ontem poderia ser o rico de hoje. Em reuniões de gala, viam-se cavalheiros de casaca e cartola, as damas espartilhadas em longos vestidos, de boina ou chapéu com plumas, flores ou fitas. Nem eles, seus criados ou os trabalhadores braçais distanciavam-se da classe média, que os absorvia, cerne das camadas urbanas. Nem os que vinham do campo para formarem o gentio proletário. A vida ensinava que entre os opostos há sempre um intermediário, deles resultante. Quanto mais aumentava o número de profissões - um dia seriam milhares - mais crescia a base urbana, formando-se o povo.

A população crescia com a dispersão das famílias campeiras. A casta senhorial perdia a importância, os herdeiros vendiam seus quinhões mudando de atividades. Os agregados abandonavam a roça e o pastoreio, arranjando-se na periferia. A exemplo de forros, mulatos e muzambos, trabalhavam até pela comida. Os colonos ruivos dominavam o comércio e o transporte do mate com suas carroças, construindo as melhores residências. Tiravam o pão da boca dos arrieiros. Uma classe alta seria a dos abrasonados, de grandes proprietários, de agraciados com cargos ou favores do imperador, ou com galões da guarda nacional. Diminuta, mero arremedo de corte na cidade-flor que mal se abria nas colinas. Nela misturavam-se, numa única massa, classes e raças, acaboclando-se as européias. Era comum a mudança de profissão, de ramo de negócio, de condições de vida. Quem tinha sorte prosperava e até enriquecia. Disso tudo, resultara o dito:

     - O que vale mesmo é a pessoa.

À nobreza supunham pertencer os que freqüentavam o clube Campos Gerais. A diretoria recusava a admissão de sócios negros, mestiços ou sem bens. Aos que tinham vedada a entrada, os sócios se referiam com desprezo:

     - Gentinha.

Nos galpões de costura e nas salas de visitas, as madames diziam com orgulho:

     - No Campos Gerais não há mistura.

     - Tem gente que não sabe nem falar o brasileiro, nem pisar num salão de dança.

     - Lé com lé, cré com cré.

Tornar-se-ia ofensa chamar alguém de negro, caipira, polaco, russo ou turco.

Os soberbos desciam de carruagens à porta do Campos Gerais, mas havia clubes mais abertos, democráticos. Xandô nunca se esqueceu das críticas que ouvia.

     - Nobres de meia-tigela.

     - Imitam os da corte, só tomam banho aos sábados - uma ponta de despeito dos maledicentes.

Na colmeia do homem, o sol nasce para todos, só as vaidades podem dividi-los. Não só os que tinham ofício prosperaram. Um soldado deu baixa, abriu uma porta e, segundo jornal recém-fundado, tornou-se "abastado comerciante". Vendedores de cestas nos braços estabeleceram-se, um deles montou uma fabriqueta de banha. Os moradores tinham respeito como nos tempos de Pedro Tropeiro. Viam-se a todo momento, irmanavam-se como nas festas do doutor Casemiro. Então eram bem falados os bailes no Campos Gerais ou em quaisquer salões da paróquia.

Xandô, Jair, Minega e todos do bando preferiam a do Zé Pereira. Havia um em cada cidade brasileira. Em Ponta Grossa, por coincidência, chamava-se Otávio Pereira. Um bondoso português, gordo e sorridente, dono de um armazém de secos e molhados, pai de muitos filhos. No terreno vago, promovia fogueiras juninas, queima de estrelinhas, busca-pés, fósforos de cor. Nas tábuas sobre cavaletes, sobravam guloseimas de milho, amendoim, rapadura e pinhão, regadas a capilé. No Natal distribuía balas vestido de Papai Noel. No Carnaval armava folia tocando bumbo no meio de dois corneteiros a cavalo, na carroça cheia de crianças que parava em frente à casa de "seu" Negrão onde tinha lugar o baile infantil.

A Vila Estrela não era mais um galpão, um pouso com currais, invernadas e campos de ronda. Tornou-se o empório da província. As casas desciam o morro, estendendo-se pelos flancos. Carroça povoada, a pique nas colinas. Ao sopé da encosta, o chafariz um jumento de ferro vertendo água pelo nariz, bombeado pelo rabo. Focinhos enfiados nos baldes, a alimária enlameando o chão. Uma carroça que passa qual o rio que não sai do lugar, carroça de pedra e pinho, de tolda arqueada, presa nos horizontes, azul nas horas de sol. Mas a vila continua pouso da lua, égua branca ponteando o rebanho de estrelas.

Conservava uma calma bucólica antes de se toparem os doutores Glória e Vítor Machado. O tiroteio acabou com a concórdia na paróquia, com eleições tranqüilas e acordo entre os partidos. A oposição dos conservadores e da facção republicana aos liberais tornou-se mais forte. Apesar da luta pelas cidadanias, a política parecia outra aos moradores:

     - A política no Paraná é uma briga de famílias.

     - Aqui não se vê intendente que não seja  Ribas.

Liberais e conservadores não demonstravam terem opinião e divergirem. Uma simples coincidência não podia ser, após o tiroteio por causa de Rosinha, acentuou-se a ameaça de divisão na província, não em partidos, porém em grupos.

A democracia forjava-se na cidade, com oficinas em todas as portas. Gente boa conduzia o povo e dava para ver a verdade. Existiam causas mais profundas, no coração das pessoas, a transformarem o mundo. Findava a escravatura, há tempo fora proibido o tráfico, e vigorava a lei do ventre livre. Agora, os poucos senhores negavam-se a libertar seus negros sem uma compensação em dinheiro.

     - Se vamos perder o que compramos e nos pertence, não podemos arcar com os prejuízos - argumentavam.

     - O que eles querem é vender os negros à nação - indignavam-se os abolicionistas.

Notícias de fugas, maus tratos e morte de escravos comoviam a população. Frederico expulsou da hospedaria um caixeiro que anunciou no jornal: "Compra-se uma mulata forte e bonita para fazer companhia a um homem solitário". Pediu-lhe o quarto e explicou o motivo.

De uma coisa Xandô tinha certeza: Os próprios negros, através de sua bondade, conquistavam as pessoas e transformavam o mundo. Ouviu Matias declarar na confeitaria que não trocava uma moça como a preta Júlia por dinheiro nenhum.


 

 

 

VISITA IMPERIAL

 

 

Não é verdade que D.Pedro se preocupava apenas em compor sonetos e com bailes na corte, rei poeta, negligenciando a política. Alertado para o perigo que constituía a propaganda contra o regime no Paraná, província que poderia ser o elo de ligação entre paulistas e rio-grandenses como no passado, convenceu-se do que lhe disse o senador:

     - A presença de V.Majestade anularia a ação e a influência dos grupos republicanos.

     Após os preparativos e convites de estilo, inclusive a jornalistas, D.Pedro e D.Teresa Cristina, acompanhados de seleta comitiva, embarcaram no vapor Rio Grande, o qual chegou à baía de Paranaguá no dia dezoito de maio daquele ano. Centenas de embarcações receberam-nos sob o troar de salvas e com execuções de hinos a bordo. Paranaguá e Antonina pareciam portos de mar celeste. O dono do litoral, um barão antes de abrasonado visconde, hospedou-os. Em seu palácio - anotaram os jornalistas cariocas - vangloriava-se do episódio Cormoran, reação parnanguara à intromissão estrangeira proibindo o tráfico.

Antes da navegação a vapor, o anfitrião tinha a maioria dos veleiros e nas mãos o porto. No banquete oferecido à comitiva, exibia uma centena de familiares de três casamentos e os escravos a servirem e a bisbilhotarem.

Além da visita, comemorou-se em Paranaguá a inauguração da era ferroviária na província, mas isto significava o declínio do sistema imperial. Talvez o desejassem os trabalhadores no almoço que a Compagnie Générale de Chemins de Fer encomendara na Casa Leão de Ouro, do Rio de Janeiro, ao qual D.Pedro não compareceu, adiando para o retorno a inauguração das obras.

A realeza quis ver de perto a terra do muito, assim chamada por causa da abundância. Na terra do muito, tanto quanto de pinhões, havia excesso até nas manifestações de júbilo. A província promissora onde se situava o Eldorado. A presença mágica do Imperador e da Imperatriz, acompanhados de barões, almirantes, damas e áulicos enfatiotados, levava as massas ao delírio. Após trezentos anos de catequese, os pobres principalmente se impressionavam com a pompa e mal podiam acreditar fossem de carne e osso os semideuses. Por toda parte, como na capital, o foguetório, o repicar dos sinos, ruas forradas de flores e folhagens, tapeçarias pendendo de balcões e janelas atopetados de gente. Visitas, passeatas e bailes.

A Curitiba, D.Pedro encaminhara anarquistas espanhóis, franceses e italianos, expulsos da Argélia pelo governo colonial de Paris. Imaginara encontrar uma próspera colônia. No amontoado do Bacacheri só havia alguns canteiros de cevada ou centeio e pés de batata. Apenas duas famílias permaneciam no local, uma Galiat, outra Borelli. De um tal Anastás Marcaf, anarquista, porém cristão que viera pregando o Evangelho durante a viagem, ninguém tinha notícias, sumira. D.Pedro reclamou das autoridades da província:

     "- ...Vieram de Marselha no navio Polynée trinta e seis famílias, mandei dar diárias para alimentação e alojamento, dinheiro para compra de sementes, bois e ferramentas. "

     - São anarquistas, majestade - protestou um secretário.

     - Dei ordens - frisou. O senhor sabe o que é um anarquista? - admoestou-o também com o olhar.

Soubera de uma manifestação de trabalhadores italianos e polacos que exigiam da Câmara Municipal salários atrasados. Criticou as comissões de trabalho, semelhantes a que pagava aos negros com a comida. Acordava no sobrado da esquina, das sete janelas em arco, de frente para os destroços da Matriz. Ovacionado nos balcões, queria ver realizar-se o sonho do mundo novo, utópico, uma Europa avançada na província.

A visita imperial faria de Ponta Grossa uma vila real. Pouco antes, chegara a mudança da família de Chiquito Ribas, a qual assistiu à tropelia causada pela fuga e captura dos chefes da Mão Negra. Xandô também vira da sacada serem descarregados os cargueiros e as carroças. Batizaram a nova residência como a Casa das Três Meninas. Três princesinhas camponesas antecederam os reis.

O povoado agitou-se. Estrela designava ora uma fazenda, um bairro ou um estabelecimento comercial. Então passaram a referir-se às irmãs como as Três Marias. Os jovens se alvoroçavam, apaixonando-se. Todo mundo indagava:

     - Como se chamam as Três Marias?

     - A primeira é Anita, a do meio Dorinha, a menor Letícia.

Amigas de Cecília compareciam ao sobrado para ouvirem Alberto tocar piano na sala de portas abertas para a sacada. O largo encheu-se de vida, moços rondando a Casa das Três Meninas. E Letícia liderava as cirandinhas, rodando e cantando, atraindo a assistência acotovelada às janelas. Estranhava-se dona Aparecida, ralhando à toa:

     - Menina sapeca, tem bicho carpinteiro.

Bravo, o pai bate, xinga, vai atrás, mas quem manda é a mãe. No brinquedo dos piás quem pega é o pai. Letícia se intrometeu, no corre-corre, alcançou Xandô, bateu-lhe nas costas, gritando: pai! Os outros riram, caçoando, como se dissessem: aí! pernas tortas, não sabe correr. Xandô corou, repreendeu-a:

     - Não vê que é uma menina?

Na missa chique das dez, o padre entoava o latim com a igreja abarrotada. Na última vez falou dos preparativos, da vinda do Bispo, do coral, da dedicação das beatas, nas ornamentações e feitura do tapete de flores, elogiando as senhoras que angariavam fundos para as celebrações religiosas. E numa demonstração de que os governistas se encontravam em ofensiva, pregou de dedo em riste:

     - Temos de defender a Igreja e a Monarquia. Até onde irá o desrespeito de maçons e ateus protestantes às cousas sagradas? Querem acabar os santos sacramentos e substituir o matrimônio por um contrato, um papel sem valor, um lixo de cartório. Minar a autoridade da Igreja, como querem os republicanos, é desobedecer a Deus e implantar a anarquia. Para onde pretendem nos levar? Ao inferno? Sabem o que aconteceu numa escola de Palmeira? Um professor, traindo a confiança pública, em plena sala de aula declarou-se um protestante. Não fosse a coragem de uma aluna denunciando o fato à diretora, o malfeitor não teria sido exonerado por S.Ex.ª, o Presidente da Província.

O rebanho parecia pouco atento e indiferente ao sermão, damas se exibindo, os moços flertando. À saída, as comadres matraqueavam, nem todas de acordo com o sacerdote. Ainda era pequeno na vila o grupo que apoiaria o doutor Vítor, primeiro candidato republicano da província. Das mais ligadas a sua família e de seus correligionários, ouvia-se a crítica ao pároco:

     - O que ele quer é ser nomeado bispo pelo Imperador.

     - Faz parte da oligarquia, é da família Braga.

Letícia soltou-se da mãe e das irmãs, assim que viu Xandô brincando no portal. Enfiou-se entre as colunas alteadas que ladeavam a escadaria da catedral, derrubando-o da beirada. O tombo rasgou-lhe a camisa, esfolou-lhe os cotovelos, sujou-lhe a calça curta domingueira, envergonhou-o. Pediu desculpas.

     - Não foi por querer...

     - Foi por gosto - interveio com um risinho Anita, frisando "por gosto" como quem diz "por amor".

Oh! pimentinha que ardia em seus olhos. Escapulia de Letícia e, de repente, com ela dava de encontro, um saci. No baile infantil, ao escorregar de sapatos novos no salão, ela lhe deu um empurrão nas costas e, de novo, caiu estatelado no chão. Depois - que azar! - formaram par na quadrilha organizada pelo doutor Casemiro. Ela o arrastava, mais ligeira que uma corça. Procurava agradá-lo, por enquanto a única das Três Marias, ainda sem brilho. Anita, aos dezesseis anos, tinha uma legião de admiradores e flertava com o filho de um comandante militar. Dora, apesar dos doze anos, também despertara paixões secretas de adolescentes. Letícia acompanhava-as por toda parte e, nas reuniões do sobrado, um rabinho. Xandô a temia por que o encabulava. À frente de seus irmãos, deixara-o embaraçado:

     - Você deixa eu fazer parte da Mão Negra?

     - Não pode uma menina entrar em quadrilha.

Atraída, via nele o herói que chegara escoltado por fugir com o pretinho na caleça. Precisava de um para apoiar-se. À sacada, confidenciou-lhe:

     - Não gosto que meu pai tenha escravo. Proibiu o namoro de Anita e vai escolher marido contra a vontade das filhas. A mamãe dá razão não sei por quê.

Desceram juntos a escada para a rua e foram ver de perto a carruagem de dona Ambrósia. Cercavam-na os curiosos na esquina. Jair, empertigado na boléia, explicou:

     - É um faetonte com jogo de volta inteiro, eixo-patente estofado de chacrim com guarda-lama de couro envernizado.

     - O negrinho 'tá prosa - caçoou um camarista.

     - É para a recepção aos Augustos Viajantes - afirmou outro.

A vida rodava rotineira, uma carroça vagarosa carregando a vida. Antes eram poucos os fatos que lhe quebravam a monotonia. As festas de domingos, dias santos e feriados, uma inauguração, o desfalque de um guarda-livros, a ruína de um falido, um casamento fugido, forçado, ou algum adultério escandaloso. O assalto às carretas e o tiroteio no largo foram assunto de cinqüenta anos. Os moradores se envolveram na política de famílias, reflexo das desavenças entre o doutor Glória e Vítor Machado, porém o fato memorável da época foi a visita imperial.

Tropeiros ainda cruzavam o pouso, levando gado para o norte e erva-mate para o litoral. Ponta Grossa contava com postos de beneficiamento e de compra e venda, refletindo progresso do interior da província.

Na Catedral, em cujas torres aninhavam-se andorinhas mais bulhentas que os sinos, aumentava a afluência, com o anúncio da visita.

Na confeitaria, comentavam que o padre Braga ia rezar uma missa só para os pobres e os negros. Vítor Machado criticou-o acerbamente:

     - Ele quer apenas os ricos na missa de recepção rezada pelo Bispo.

Estrela dominando o povoado, um foco dos acontecimentos, sempre o prédio da confeitaria. O doutor Casemiro não se cansava de afirmar que a democracia nasce na cidade e se exibia no Estrela.

     - É o forno da cidade.

Vítor bebia no balcão e procurava ser agradável:

     - O Paraná nasceu nos Campos Gerais, criou-se em Ponta Grossa. Sem os Campos Gerais, havia apenas São Paulo na faixa litorânea.

A cidade parecia irradiar-se do prédio, cujo movimento trazia ocupadas a família e a criadagem. Naná, uma patroa amiga, dependia de Júlia, dona da cozinha, e ela das ajudantes. Júlia, filha de um escravo para o qual Frederico providenciara a alforria. Manoel, tirante ao pai, melhor de que Alberto cuidava-lhe o negócio. Sobrinhos do casal chegavam do campo e, por um tempo, cuidavam do balcão. Os pais poupavam dos serviços apenas Cecília, que aprendera costura, bordado, crochê.

Alberto, com o dobro da idade de Xandô, reunia a moçada alegrando o povoado. Tinha jeito de ator, galã à moda antiga, corpo de toureiro espanhol. Demorava-se ao espelho, assentando com brilhantina os cabelos escuros. Chegou a inventar um bigodinho. A sala enchia na hora do ensaio de números para o clube e o teatro. Quando mudava o piano para a confeitaria, no pavimento térreo, promovia tocatas com acompanhamento e cantoria. Crescia a féria no caixa. O salão grande, com as mesas retiradas para o contíguo, foi palco da inesquecível festa dos quinze anos de Cecília.

Aguardava-se a visita de D.Pedro e D.Teresa Cristina, em viagem - segundo os jornais - " de muitas peripécias devido a intempéries e ao mau estado dos caminhos". A população empenhava-se nos preparativos, ajardinando o largo e toda a vila, a segunda maior da província. Alfaiates e costureiras não venciam as encomendas, na expectativa de cerimônias reais. Hotéis e pensões lotados, gente importante hospedando-se em residências de parentes ou correligionários. À noite, coruscavam lampiões e arandelas de ferro fundido, candelabros no largo, ao alto. Já haviam sido confeccionadas milhares de lanternas. Consertaram-se as ruas e foram pintados os prédios, a começar pelo Paço Municipal. Enfeitado de bandeirolas com as cores do Império, armou-se um palanque ao lado do coreto, em meio a barraquinhas. Estas aos cuidados de moças que viraram princesas à espera dos reis. Com a encomenda da Comissão de Festejos, Emílio Fogueteiro poderia construir o galpão da fábrica de bombas num buraco da Ronda, antes de estourar a mão à frente de uma procissão. Das adjacências chegavam os moradores, alegres como crianças cujos pais anunciavam:

     - Vamos a Ponta Grossa para ver o rei e a rainha.

No clima desanuviado, festivo, persistia apenas a preocupação com um reencontro de Vítor Machado com o doutor Glória. As madonas suspiravam mais por este, menos por aquele. Um viera clinicar em Ponta Grossa, possuía a fama de médico dos pobres, belo conquistador, além disso, valente. As donzelas admiravam-no debruçadas às janelas quando passava erecto, elegante, bigodinho dourado no rosto rosado. Vinha de visitas às fazendas como um herói de cavalaria, o pingo resfolegando. Os maridos temiam-no duplamente, por ciúme e por medo. Para enfrentá-lo, somente Vítor Machado, seu rival, também ambicioso, admirado, noivo da prima invejada pelas mulheres.

Certa madrugada, um grupo subversivo espalhou por baixo das portas faixas com as inscrições: "Abaixo a Escravidão!" "Viva a República!" Os Ribas que comandavam a guarda nacional, o corpo de cavalaria, a polícia, mandando na intendência, não descobriram os autores. Ocultara-os a escuridão e mal se ouvira o ruído das caleças. O alvo lençol da geada ainda se estendia nos campos quando a vila se levantou agitada. O doutor Glória compareceu à reunião das autoridades no Paço Municipal e acusou publicamente:

     - É um crime de lesa-majestade cometido pelo bando de Vítor Machado!

Ameaçado, Vítor refugiou-se na fazenda da família, em Castro. A Zé Barriga que informara ter visto um rapaz apear de uma caleça e entrar no sobrado, ninguém deu crédito, pois amanhecera bêbado. Xandô ouviu sua história e guardou para si próprio o que pensou: - Ah! Então por isso Alberto fazia ensaios até de madrugada. Puxa! o Alberto, um rebelde!

Uma comitiva foi ao encontro de D.Pedro e D.Teresa Cristina. Então partiu de Palmeira, em direção a Ponta Grossa, a caravana que tomou conta do caminho. Além das carruagens, cerca de seiscentos cavaleiros acompanharam o coche real, atrás da guarda de honra.

Abaixo de Deus, o Imperador! Chegou o grande dia do século, o dia sagrado e maior feriado, em que o povo se apinhava nas ruas, às portas, às janelas, às sacadas, para ver um rei e uma rainha de verdade.

Xandô e seu irmão Manoel espremeram-se no forro do banheiro dos criados para, de olho no furo que fizeram, verem nua a caboclinha que ajudava na cozinha. Em vez dela, quem tirou a roupa e mergulhou na tina de água foi Petrovitch, o ajudante de confeiteiro. Antes mendigava nas ruas, de saco às costas, barbas de pó, catava tocos de cigarro e corria atrás dos moleques que o chamavam de Coruja. Acolhera-o Frederico, tratando-o. Limpo, de gorro e avental, sempre de branco, tornara-se o ajudante de confeiteiro. Acomodara-se e não mais tivera acesso que o levasse a vagar sem rumo como o primeiro Arcabuz. Ao apalpar o sexo, masturbando-se na tina, voltou o rosto para cima, arregalando os olhos. Despregava-se o forro, estalando. Primeiro os risos, depois os gritos e o teto desabando com os dois - Manoel era gordinho e pesado - acabaram o que lhe restara de juízo. Virou com tina, água e sabão, arrastou-se e saiu correndo nu como nascera. Quando transpôs o portão, provocando gritos de assombro, começou a confusão à espera do corso real. A multidão supôs tratar-se da realeza.

     - Vem vindo o Imperador!

     - Viva o Imperador!

     - Viva Sua Majestade!

Um rei ao avesso, pelado, passou correndo, oferecendo ao inverso o espetáculo aguardado. Os homens se espantavam, e as mulheres quase morriam de susto cobrindo ou desviando os olhos do espectro que fugia virando a cabeça para todos os lados.

     - Minha Nossa Senhora! que horror!

     - Um pobre diabo com as vergonhas de fora...

     - Bar-ba-ri-da-de!

 Acharam graça e até as casas achatadas faziam caretas de risada. À pergunta quem foi que fez isso?  - respondiam : o piá sapeca do Estrela.

O ajudante de confeiteiro expusera-se nu onde era pecado mostrar as canelas. Os soldados levaram-no escoltado ao quartel e, de botinas, culote, coberto com um capote da cavalaria, sumiu no mundo.

À passagem de D.Pedro pela província, os proprietários procuravam agradá-lo alforriando os escravos. Agora se atrasara por não admitir o abandono em que se encontravam os imigrantes. Contrariou-se com o mau trato aos russos, tachados de brutos e selvagens que, exigindo repatriação, retornaram a Hamburgo ou se bandearam para a Argentina. Numa fazenda adquirida por importância astronômica, mandou o capitão enterrar a espada no solo. Não valia centésimo do que fora pago.

     - É puro pedregulho.

A incomensurável riqueza da terra não sabiam explorar nem mesmo os imigrantes.

A emoção da expectativa aumentou ainda mais com o anúncio oficial da chegada. As girândolas subiam aos céus, bombas e foguetes explodiam durante o trajeto dos soberanos acenando da carruagem. Repicaram os sinos das igrejas, romperam as bandas. Apenas os clarins precederam o coche real e a guarda de honra. A população vibrou:

     - Viva a Coroa do Império!

     - Viva o Rei D.Pedro!

     - Vivôôôôôôô.

Agitavam-se as bandeiras imperiais e também os corações nos peitos dos espectadores. Tremiam os prédios e as casas achatadas. As ruas estavam juncadas de flores e folhagens. Na principal do alto das ladeiras, eram doze os arcos de triunfo sob os quais passava o cortejo. No do meio, Letícia e outras meninas de branco, cingidas com fitas verde-amarelas, cobriam os reis com uma chuva de pétalas.

     - Suba aqui, Xandô! - chamara-o.

     - Vou lá.

O padre Braga enxotou-o:

     - O que faz aqui no meio das meninas? Já para fora!

Encerravam o desfile carroças polacas, carroças de toldo puxadas por seis cavalos, a exibição de arados, foices, enxadas e gradis. As bandas de Nhô Quim e de Juca de Godói, fundador da Lira dos Campos, ainda se revezaram quando, aclamados entusiasticamente, os monarcas chegaram ao largo ajardinado para a festa. Atingira o clímax e foi a vez da banda militar estremecer a vila, ao som do Hino Nacional. O palanque monárquico fora armado de modo que o ladeassem os seiscentos cavaleiros e a força militar, deixando um grande espaço livre para os escolares e a multidão que acorreu ao local. Saudado pelo orador que veio da capital, D.Pedro discursou agradecendo as manifestações de apoio e lealdade, exaltando a atitude de barões como o de Campos Gerais, que alforriaram seus escravos. Provocou comoção:

     - Após trezentos e oitenta anos de Cabral, o Brasil ainda não foi descoberto. É preciso vir ao Paraná para conhecê-lo. Aqui me encontro face a face com a Pátria, ouço-lhe o palpitar, olho-a nos olhos, vejo-lhe a alma. Homens de todas as raças confraternizam-se nestas terras, semeando-as, nelas construindo o porvir que sonhamos. Ponta Grossa, antigo pouso de tropeiros, continua a Estrela. No alto destas colinas, defronte à Catedral e sob o símbolo da cruz, declaro que acabo de redescobrir o Brasil!

O discurso causou impacto mais forte que o troar das salvas, do foguetório ensurdecedor, emocionando a província. Mas no Rio de Janeiro a "Revista Ilustrada" satirizava a visita, comparando os paranaenses aos indígenas. Ninguém compreendia o imperador visionário, nem os republicanos ou os reacionários da corte.

Sob estrondosa ovação, vivório sem fim, os soberanos dirigiram-se à mansão de Ferreira Pinto, na qual se hospedaram. D.Ambrósia mandou preparar os cômodos, sem dar importância às fofocas das comadres:

     - Os reis não vão aceitar acomodações porque dormem em camas separadas.

Durante o banquete, D.Pedro disse ao doutor Deleone que, tal como ele, simpatizava com as idéias socialistas.

     - Essas coisas acontecerão quando os reis forem filósofos - acrescentou.

     - Temos um no Brasil - e por esse eu daria a vida, adiantou o jovem médico que viera de Curitiba com a comitiva.

     - Muito admiro os imigrantes que com nossos patrícios constroem um mundo novo, sem os ódios e conflitos do velho continente.

     - Utopia, que pode ser realidade, não D.Pedro? - interveio um político para mostrar-se.

     - Certamente.

Emocionado, o anfitrião ergueu o brinde:

     "- Senhor Imperador! Eu queria ter matado mais um peru ou um leitão para obsequiar a V.M., mas não quis. Preferi em comemoração à honra da visita de V.M., que se concedesse alforria aos meus escravos. Estou certo de que assim agrado mais a V.M.."

D.Pedro deixou-lhe a família embevecida ao tratá-lo de barão. Regozijou-se o povoado ao saber que Ferreira Pinto seria agraciado com o título. Ao dar mostras de generosidade, doou cinqüenta mil réis para a igreja e os pobres, cem mil réis para o Teatro Santana, mais duzentos mil réis para a liberdade do escravo Marcelino. Instada pela professora Alzira, irmã do pároco, D. Ambrósia fez um pedido:

     - O povo católico renderia graças a V.M. se o padre Braga fosse nomeado bispo.

Marcelino foi muito cumprimentado na rua, seu antigo proprietário recebera o dinheiro e, por pouco, não levou uma surra ao declarar-se republicano.

Essas coisas confundiam Xandô, o qual pensava que só os abolicionistas e republicanos podiam ser pessoas generosas. Não compreendia o motivo pelo qual afirmavam que D.Pedro ia pagar caro por suas atitudes em favor dos negros. A maioria chamava-o carinhosamente de Velhinho, mas os simpatizantes de Vítor Machado, os republicanos, tachavam-no de Pedro Banana. Mantinha firme a idéia de que os próprios negros eram bons e com sua bondade, seu trabalho, sua vida, sua luta, conquistavam no dia-a-dia a liberdade.

D.Pedro inaugurou obras, inspecionou escolas, o mercado, o matadouro, compareceu a sessões cívicas no Paço Municipal, visitou as colônias de Uvaranas, Nevile, Taquari e Tavares Bastos. Ao anoitecer, a vila parecia assistir a uma festa de coroação. Na missa do "Te Deum Laudamus", apertavam-se cavalheiros de sobrecasaca, uniforme de gala e condecorações ao peito. Damas de trajes opulentos cobertos de mantilhas ajoelhavam-se com terços de prata e luxuosos livros de orações nas mãos. Sem assistirem à cerimônia religiosa, mas presentes no largo, os pobres sentiam-se felizes. O povoado estrelejava. Lamparinas coloridas iluminavam as fachadas das casas e resplendiam na frontaria em arco da Catedral. Dir-se-ia que a corte, Petrópolis e o Rio de Janeiro haviam mudado para as colinas do Pitangui.

No Teatro Santana, o concerto musical foi seguido por um espetáculo dos três grupos de amadores. Na peça destacavam-se Alberto e Anita, muito aplaudidos. Nhô Quim trouxe cantores de Palmeira, enquanto Juca de Godói contou com sua mulher Marcolina e os filhos Delfino, Joana e Sinhana. Ao se acenderem as lanternas do teatro, a Imperatriz recebeu de Letícia e outras meninas de branco várias cestas de flores.

O doutor Casemiro, orador da comissão de festejos, subiu ao palco e encerrou as homenagens a Suas Majestades, afirmando que reis e súditos estavam cada vez mais unidos pela liberdade e pelo Brasil. Ovacionados, D.Pedro e D.Teresa Cristina acenaram do camarote, agradecendo.

No Campos Gerais, realizou-se o maior baile da paróquia, um baile imperial. O séquito aumentara desde o litoral, comprimindo-se nos salões aristocráticos. Cavalheiros de fraque, madames com longos de rendas e babados, as donzelas vigiadas dos camarotes pelas matronas. Depois que D.Pedro honrou várias senhoras, a começar por D.Ambrósia, os reis permaneceram a maior parte do tempo no docel, numa face do salão.

O povoado tornou-se real para sempre, como se a visita inesquecível fosse, por isso, infinda. Causara o maior orgulho em toda a província.

Do homem nu que correra pelas ruas, atropelado por Xandô e seu irmão Manoel, esqueceram-se. Mas não dos locais por onde passaram os Augustos Viajantes, um palácio, um rancho, um trecho de estrada, uma árvore. Muito menos dos desfiles, das inspeções, dos banquetes, das missas, dos bailes, da recepção apoteótica.


 

 

 

GAZEIO

 

 

Os reis não se cansaram do "regalo de festas e orações", como dizia a "Revista Ilustrada". Partiram sensibilizados pela recepção que lhes fora oferecida. No baile de despedida em Paranaguá, ocasião em que o doutor Leocádio Correia, inspetor escolar e médico-mór da província, preparou um banquete de fazer inveja ao futuro visconde, o Barão de Taguaré, o clima foi também de grande emoção. Provera de iguarias a ceia regada a vinho, champanha, genebra, conhaque e licores. Presentes cerca de cem senhoras finamente toaletadas.

Após a partida, a normalidade voltou à província. Tímida no princípio, ressurgiu a propaganda republicana. Pouco a pouco, os moradores compreendiam ter outro mundo e não aquele da casta de cortesãos privilegiados. Mas até nas vilas dorminhocas da província formava-se uma nova elite arremedando a corte, fundando clubes.

Em Ponta Grossa ficou a alegria, que não foi embora com os Augustos Viajantes. Na proximidade de festas juninas e de Santana, continuavam as tocatas da moçada, apresentações no teatro, danças nos clubes, bandas no coreto disputando audiências. Fogueiras, pinhão e quentão. Quermesses cheias de moças nas barraquinhas. O passeio em volta da quadra repetia-se todas as noites e nas manhãs domingueiras. Os jovens rondavam a Casa das Três Meninas. Permanecia no povoado o clima de opereta cabocla.

Anita e Dorinha, que foram proibidas de estudar violão, passaram à Letícia o pouco que sabiam. Dissera-lhes o pai:

     - Bordado e costura, sim; instrumento de boêmio, não.

Letícia surpreendeu-o num festival escolar porque tomara aulas às escondidas na casa do tio Jango.

Xandô abandonara o primário, rebelado contra os castigos de irada professora, e só recuperou  o tempo - três anos - quando aos doze reingressou na escolinha de Nhonhô Colares. Gazeava, vadiava, fugia do balcão. De tanto debater-se nos arroios, endireitava-se, fortalecendo e conformando o corpo. Mas recapitulou o á-bê-cê e se adiantou com facilidade. Estranharam-no de guarda-pó engomado na passeata em homenagem aos reis. Aos domingos, calçava sapatos de cordões. No inverno, vestia camiseta de lã, gola que se dobrava, fechando-se à altura do nariz. À cabeça, ligeiramente pensa à direita, um boné de couro. O cabelo não assentava nem com o uso da toca de meia. Matava a metade do tempo no gazeio.

Sentiu-se moço ao vestir calça comprida, herdada de Alberto. Compenetrou-se seguindo o seu exemplo e o de Manoel, principalmente. Também atendia o balcão, para a alegria dos garçãos, do Sobradinho e outros pobretões aos quais cedia cálices de pinga com limão e cigarros soltos de marca ordinária.

Discutiam-no, desde pequeno. Os mais exigentes não o perdoavam, achando que não tinha educação nem juízo. Às costas de Frederico, comentavam:

     - Deviam mandar esse moleque para a Ilha das Cobras.

     - Na marinha, endireita.

     - Se não fosse o pai...

Divergiam do Curu, do Jango, de Matias, do pessoal do sobrado e da maioria.

     - Esse menino tem tutano.

     - 'Tá se perdendo.

Marcelino, pai de Minega, ganhando a vida puxando uma carrocinha de mão, aconselhou-o:

     - Vosmicê tem de arribá daqui prá fazê um bem, entonce sim.

Maior do mundo era a vila no coração, mas nela não havia mais lugar para ele. Culpavam-no de tudo, até por antecipação.

     - Vê como te comportas, senão te ponho para fora! - ameaçavam-no sem razão.

Os outros podiam fazer a maior algazarra, ele pagava. Pegavam-no porque não podia correr acompanhando os demais. Do circo e do teatro, tiraram-no pelas orelhas.

     - Pernas-de-pau! - diminuíam-no, caçoavam porque corria sem dobrar as joelhos.

Não fora filho do Frederico, o dono do Estrela, não poderia freqüentar o baile infantil. Na última vez que brincou no salão, atingiu com o cotovelo o nariz de Letícia, sangrando-o. As velhotas que cacarejavam nas mesas ou no balcão viam-no com maus olhos e, nos saraus, evitavam-no as cocotinhas. Ainda não estava bem, gordura mal distribuída. Mas a boa Júlia erguia-lhe o moral, encabulando-o:

     - Que mocinho mais lindo, parece um artista.

Amava a sua terra, porém não gostava de malquerências, fuxicos, lavagens de honra, namoros proibidos, ou casamentos forçados, coisas desse tipo. O lugar agitou-se com o namoro de Anita e o filho de um oficial, proibido porque este apoiara Vítor Machado, o primeiro candidato republicano, derrotado nas eleições para a Assembléia. O par se encontrava às escondidas no Parque Honório, palco de um conflito entre o corpo de cavalaria e a guarda policial que fora prender o jovem Álvaro. A família deste transferiu-se para o Rio Grande, e o rapaz sentou praça no intuito de fazer carreira. Despediu-se de Anita no átrio da igreja, comprometendo-se a vir buscá-la.

Aos quatorze anos, atrasado, terminara apenas a segunda série quando Tio Silva insistiu para que o deixassem estudar em Curitiba. Tornara-se um problema para a cidade, ou esta para ele. A compulsão no peito, ânsia de voar, sensação de pássaro engaiolado, ou de asas quebradas. Ao fitar as aves riscando o céu - um desejo de segui-las não sabia para onde. "Arribá prá fazê um bem" - lembrava se de Marcelino.

     - É uma força dentro do peito - confidenciou à mãe, que decifrava o que ouvia.

Sentia-se preso à terra, às raízes, ao ninho, porém tinha de arribar. Só em pensar de afastar-se do largo, das ruelas empoeiradas, do sobrado, da cidadela, sentia saudades. Inquieto, procurando gozar a vida num minuto, aprontava outras tantas artes. Muitas delas tão mal sucedidas como da vez em que, embebedado com copadas de vinho de laranja, acabara esmurrado no largo da igrejinha dos polacos, ocasião da qual se aproveitou até o garção despedido do Estrela por furtar o caixa e os fregueses.

Letícia era três anos mais nova que a prima Helena, filha do tio Jango. Juntas, as duas aprendiam violão com um músico da banda. Ao contrário de seu pai, o tio Jango incentiva-as, fazendo todas as vontades da filha desenganada pelos médicos. Anemia profunda - prognosticaram. Letícia vinha de sua casa quando Xandô, viu aproximarem-se dela Castanho e Marino, marmanjos marotos e malvados. Os dois se prevaleciam do tamanho, batiam nos mais novos, furtavam-lhes os brinquedos. O pior é que desrespeitavam as meninas, um levantava o vestido por trás, outro pela frente. Num impulso, atirou-se contra os malcriados dos quais costumava fugir, afastando-os a socos e pontapés. Levou, porém, uma tremenda surra, da qual resultou dorida ameixa preta sobre o olho esquerdo.

Defendera uma criança, não a considerava mocinha como as que namorava à traição, em segredo. Estas não dirigiam o olhar a um piá de calça curta. Uma loura de nariz arrebitado, de casaco cor-de-rosa, que iniciara um namoro na escola, acabou machucando-o ao desdenhá-lo pelas costas. Parecia não perceber o encanto de Letícia, ainda menina, um botão balouçando na haste. Ela possuía muita graça, dons, um pouco de mel, mas também sal e pimenta. No canto da boca, uma pintinha. Cabelos e olhos castanhos, covinha no queixo. Acompanhada das irmãs, recebidas com cerimônia na sala do pavimento de cima do sobrado, encabulou-o em frente de todos:

     - Mamãe mandou, e eu vim agradecer a sova que você levou por minha causa.

Quando desapareceu o hematoma, encontraram-se a sós na sacada. Duas crianças selaram uma aliança. Herói a seus olhos, fez-lhe um pedido:

     - Você jura por Deus, que me salva?

     - Do quê? Já não chega?

     - De casamento forçado, contra a vontade.

Percebendo-lhe o temor de que se repetisse com ela o que acontecera a uma prima, quis ver-se livre:

     - Tá bom, juro.

Não possuía um fio de barba para dar de garantia da palavra, porém o coração e se comprometera. Depois só a viu no festival escolar, cantando chula e modinha, muito aplaudida.


 

 

 

CORÉ-ETUBA

 

 

Três dias rangeram as rodas da carruagem, trepidando no seco, e nos charcos patinhando os cavalos. O Tibagi - "como o mar" para os índios - farto de peixes, ocultando brilhantes no cascalho, paranaense até o fundo, igual a Xandô no fundo da alma, fora transposto na balsa. Um camarista e o caixeiro-viajante iam de prosa mais cansativa de que a viagem, ao assuntarem a frase feita: O Paraná é uma zona de passagem. Ah! que vontade de contestá-los: - Isso mesmo, por que os senhores não passam, vão embora e não voltam mais?! Certamente, Tio Silva sentira o mesmo, bastou que se intrometesse na conversa para que a tornasse agradável:

     - O Brasil é o prolongamento de cada vila ou povoado, de cada uma das províncias.

As campinas e as florestas de pinheiros pareciam não ter fim e, por isso, Xandô nem pôde imaginar o tamanho de seu país. Após a descida da serra - as vilas bruxuleando ao anoitecer - os passageiros pernoitaram em Campo Largo, reanimando-se. À hora do café, na estalagem, o caixeiro-viajante soube ser inconveniente, rindo de suas próprias graças, repetindo:

     - As moças de Campo Largo gostam dos moços de Ponta Grossa.

Ziguezagueando no caminho estreito - cocheiro estalando o chicote - a carruagem chegou ao destino, entrando pela Rua Mato Grosso. Em poucas palavras, resumiram as impressões da localidade:

     - Esta é a cidade da erva.

     - A capital do mate.

Curitiba nascera vilinha garimpeira no Atuba. Engatinhara para o outeiro entre os rios Ivo e Belém. Um desabusado virou o rosto da imagem de Nossa Senhora para o oeste, pendendo para o sul, insinuando ter sido vontade da santa a escolha. Os faiscadores de ouro acreditaram e pediram ao índio que indicasse o local para erguerem uma capela.

     - Coré-Etuba! - exclamou o cacique.

Inventaram que a vara fincada no solo virou uma árvore florida.

Riqueza na flora  e na fauna, tuba indica que de tudo há muito. No local juntava porco-do-mato, o chão forrado de pinhões que despencavam do pinheiral.

Agora a carruagem corria no quadro verde, entre o casario branco. Xandô revia a vila também adolescente, pela qual se apaixonava. Uma capital. Visão tivera seu avô Pedro Tropeiro. Não conservava nítidas as lembranças, a não ser a da antiga matriz demolida onde se construía a nova. Ajardinavam o pátio, transformando-o na Praça D. Pedro II. A região nova, coberta de pântano, nascia no largo onde seria a Estação. Logo, se ergueriam as construções, entre elas o Palácio do Governo e o Edifício do Congresso Estadual.

Da principal rua, muito se orgulhavam os habitantes. Dela se irradiavam as vielas e becos que já percorrera criança. Na casa de três pavimentos, por enquanto o palácio, morava o presidente da província. As lojas maiores pertenciam a brasileiros e portugueses, as menores a alemães. A Rua das Flores se tornara a da Imperatriz, nela enfileiravam-se os sobrados, comércio em baixo, residência em cima. Das janelas e balcões gradeados de ferro, as moças assistiam ao movimento. As pessoas se encontravam habitualmente, se conheciam e se visitavam.

O trole do qual tio e sobrinho apearam com a bagagem abriu caminho no meio dos curiosos. Atraíra-os a Empresa Sanitária, cujo diretor proprietário fazia a limpeza de uma fossa. Na carreta de enormes barris coloridos, bombeava os dejetos através da mangueira. Tarefa nobre, a julgar por sua aparência, pelo traje e atavios. Um menino preto queimava piche e alcatrão na vasilha de ferro, que recendiam, encobrindo o mau cheiro. Este servia satisfeito ao patrão que o acolhera com carinho quando sumira do comboio negreiro  na estrada de Castro. Os do ajuntamento não continham o riso ao ouvirem o apodo:

     - Barão da Merda.

Ele não se importava, dizia-se republicano, defendendo-se:

     - Barão de merda são os monarquistas e escravocratas.

Xandô encontrou o casarão de portas escancaradas, como braços abertos. Próximo a residências térreas, mal alinhadas, sem calhas, nem platibandas, fora uma sede rural, com muitas janelas, porta ao meio, num terreno murado e cheio de rosas. Tinha galpão, cocheiras e árvores frutíferas ao fundo. Só se encontrava fechada a porta da sala da área ao lado.

À janela, a tia Dulce e a filha pequerrucha enxergaram-nos de longe. Receberam-nos contentes, mas Balbina, a preta velha criada por Pedro Tropeiro, queria-o para si, puxando-o:

     - Vem, fio, vê seu quartinho.

Disputavam-no e se sentia em casa, em família, sossegada a saudade. Dava-se bem com todos, achavam-no meigo. Luzia e seu irmão Genésio riam de satisfação, mudaram de quartos, ele para o galpão num contíguo ao de Balbina. Nem Luzia, de olhos azuis, nem Genésio provocavam suspeitas de haverem desaparecido das carretas, pois não tinham negra a cor da pele. Ela ajudava na casa, aprendia prendas domésticas, ele se encarregava da caleça e dos animais, porém ambos freqüentavam a escola. O primo Roberto chegara antes para estudar em Curitiba. Seu pai enviava da fazenda de Porto União da Vitória muito mantimento, uma quantidade enorme de caixetas de goiabada. Frederico também impusera como condição à ida do filho uma contribuição para as despesas. Tio Silva já vendera quase a metade do terreno e, lecionando dia e noite, mantinha a família. Um homem desprendido, solícito, de enorme prestígio no lugar. O tipo daqueles que reduzem a nada a autoridade de coronéis interioranos na cidade. Um tal de Tio Silva prá cá, Tio Silva prá lá. Paravam-no a caminho do Instituto Paranaense. Em toda parte, negociantes, doutores ou simples barriqueiros aproximavam-se para ouvir-lhe as opiniões e conselhos. Além das aulas no Instituto Paranaense, tinha na sala independente do casarão um curso de contabilidade. Caboclo alto, belo e elegante, fino e discreto. E já havia quem achasse o paranaense um povo fechado! Talvez até fosse nos dias frios e chuvosos.

Nhá Balbina lhe disse que não haveria mundo melhor do que este, se as pessoas pensassem como Tio Silva.

     - Por que é que não pensam? - quis saber, embasbacando-a.

     - Não sei, são ruins, uai! - deu de ombros.

Nunca mais saiu da mente de Xandô a idéia de que o Brasil era o prolongamento das vilas das províncias. Por analogia, viu Curitiba como extensão da sua. Não passava de um mosaico dos povoados interioranos. Tomou-a de pronto. Reconheceu-a, sentindo-lhe a respiração. Gente ligada ao comércio dirigia a opinião pública, ainda se falava da revolta contra os impostos e da demolição da Matriz. No transcorrer do tempo, a visita imperial perdera o efeito desejado, e vingavam as idéias republicanas. O povo se interessava muito no progresso da capital e da província. E em festas.

     - Uma lameira só! - queixavam-se, reclamando providências.

Batráquios em coro nos banhados e, à noite, solo de cigarras e aves noturnas. Nas casas havia tocatas e, por isso, os próprios moradores gracejavam:

     - Terra de sapos e bandolins.

Fora anunciada a construção da Estação, inaugurada dois anos depois. Então seria aberta a rua que "em seguimento à de Riachuelo dirigia-se ao largo".

     - A falta de água e esgotos ameaça o futuro da cidade - protestavam.

Na água Curitiba flutuava, barco com mastros de pinheiros atracado num cais de lama. Os riachos transbordando, o do centro transportava o lixo. Na volta ao leito, asseavam as casas, lavavam as roupas, os animais, as carruagens, e faziam a alegria da gurisada. Nas fontes, três chafarizes de ferro. A água do chafariz do Largo do Machado, a primeira encanada, vinha do Olho D'água dos Sapos, vendida em carreta pelos pipeiros, um tostão o barrilete. Muitas cacimbas, água nunca faltou - uma lameira só. Chovia duzentos dias no ano.

Apesar de sediar o governo, de suas chaminés e apitos de fábricas, conservara o aspecto bucólico. Animais pastavam em terrenos vagos, nos quintais e em ruas próximas ao centro. Aproveitavam-se os dias de sol com festas ao ar livre, piqueniques, passeios, bailes ao ar livre. Animação com as retretas, o teatro, o circo. O gosto pelas operetas e concertos musicais. Sob impressão do viver alegre, diziam que a colônia alemã transportara a Curitiba recantos da Bavária e os bosques de Viena. Na pequenina capital, cabia Paris. Iluminada a gás, a cidade recolhia-se cedo, depois que se retiravam das salas as visitas. Menos, é claro, nas noites de saraus, sessões teatrais e tertúlias literárias.

Decorando pontos, com muita sorte em português e aritmética, os quais não dominava, Xandô prestou exames e, num salto, foi admitido no Instituto Paranaense. Um casebre de alvenaria na Rua Aquidabã, com várias salas de curso secundário, gabinete da diretoria à entrada do corredor e pátio nos fundos. Pela manhã, ia à frente com o primo Roberto, e só quando chovia chegavam juntos com o tio, mais encapotados que a caleça. A grandeza não estava no prédio acanhado, porém no ensino, nos professores. Um deles - agradável surpresa - Vítor Machado, lecionando Filosofia. Após a formatura, exercera cargos de juiz, de promotor, e viera residir na capital. Tio Silva aproveitava as aulas de Geografia para pregar o humanitarismo. Só havia um monarquista, porém abolicionista e democrata. O mestre mais alto, de barbas nevando e olhos celestes, era também o mais avançado nas idéias. Esotérico, doutrinava os alunos nas aulas de História: - O Brasil está sendo pensado em todas as esferas, não tardará a tornar-se uma república sem escravos e sem castas. Tinha convicção mais religiosa que científica. Todos mestres excelentes, como o de Português. Instruíam uma juventude idealista, solidária. Moços briosos que vibravam na forma ao cantarem os hinos, ou quando se hasteava a bandeira. No recreio discutiam-se as novas idéias, o progresso. No Instituto ou no Parthenon e até mesmo nos colégios para meninas, respirava-se política. Um ponto de História inflamava as classes: a Revolução Francesa.

No princípio, os colegas mexiam com Xandô:

     - É verdade que o prefeito de Ponta Grossa vai mandar tirar as subidas e deixar apenas as descidas?

     - É, não, ao contrário. Em Ponta Grossa ninguém vai para baixo, só para o alto.

Repetiam a história das moças de Campo Largo e coisas desse tipo.

Adaptou-se depressa ao lugar. Viu no casarão também uma extensão do lar paterno. Acolhiam-no em toda parte pelo simples fato de ser sobrinho do Tio Silva, portanto um primo do povoado. Desfrutava do prestígio dele e de D.Dulce, sempre cercados de famílias amigas nos bosques e parques. O casal possuía filha única, Clarinha, pois D.Dulce sofrera de complicações do parto. Mas criava com igual carinho Luzia e seu irmão Genésio. Amor não faltava a ninguém no casarão, visto à noite iluminado a gás. Tio Silva, um homem de meia idade, porém belo e elegante, lembrava o poeta Castro Alves. Miss Tramplin corava, as pupilas dilatavam ao apresentar-se com suas alunas no Teatro São Teodoro, em concerto de música e dança, quando o via na platéia. Dona Dulce lhe roubara o namorado, o qual continuava a beijá-la nos sonhos, roçando-lhe os negros bigodes.

Não esquecia sua terra natal, a vila alteada nas colinas qual se fora uma araucária apinhada de casario. Mas todos os povoados da província desembocavam na Capital, sua foz a espelhá-los. Por isso, transbordava, agitando-se o povo. Em reuniões nos clubes, nas associações, nos teatros, nos cafés nas praças e nas ruas, discutia problemas, política, arte e até filosofia. Os versados referiam-se a Curitiba como a Atenas brasileira. Na pequenina capital, Paris cabia duas vezes.

Hotéis e pensões hospedavam muita gente do norte, transitando atraída pela riqueza do sul. Corretores vinham atrás dos últimos escravos, pois os peões das fazendas de gado eram caboclos numerosos na região. Não necessitavam de mão escrava como as de lavoura, principalmente de café. Abriam-se lojas, confeitarias e cafés com mesinhas de mármore, a freguesia sentada e servida por garções de bules às mãos. Nas inaugurações não faltavam quitutes, sonhos, vinas, chucrutes. Os moradores gostavam de assistir de suas residências ao movimento nas ruas, às procissões e, principalmente, às passeatas. Das janelas e sacadas as moças caíam de amores sobre a cavalaria. As carruagens das autoridades vinham puxadas por vistosas parelhas, dirigidas por cocheiros de fraque e cartola ou militares com seus uniformes. Batedores à frente, atrás a guarda, soldados a cavalo.

Nas quatro estações, o mesmo clima pré-revolucionário, sinais no ar, forças atuando nos homens e na história. Não eram só os letrados que ainda discutiam a questão surgida entre a Igreja e o Império por causa da proibição aos padres de pertencerem à maçonaria. As prosas chegavam a madrugar com luz só de um lado da rua. Falava-se cada vez mais no manifesto republicano, a campanha contra a escravidão tinha contornos antimonarquistas. Os políticos já se declaravam favoráveis à libertação dos negros. O povo se confundia porque uns, os emancipadores, exigiam indenizações ao governo, enquanto outros, os abolicionistas, desejavam a libertação imediata e incondicional. Desde a revolta do comércio, as classes urbanas tendiam para os abolicionistas e, conseqüentemente, para os republicanos.

A mais célebre comemoração em seu tempo de estudante, foi a da visita do Conde D’Eux e Princesa Isabel, ainda que sem entusiasmo pelo francês pretendente ao trono. Com aparato oficial, a cidade assistira a desfiles, missas e danças. Hospedado na mansão Miró, o casal recebia palmas e acenos quando saía na carruagem, dirigindo-se às moradas da nobreza cabocla. O ponto alto da estada foi o suntuoso banquete no palácio do Barão do Paraná.

Um ano mais tarde, houve - diziam os jornais -  a monumental festa de inauguração da Estrada de Ferro. A banda tocou o Hino Nacional, o Visconde Taunay, presidente da província, discursou sobre a importância do evento. Antes da primeira viagem a Paranaguá, a máquina novinha em folha exibiu-se para o arremedo de corte no pátio. A plataforma com o alarido de gente ruidosa, passageiros e familiares, bagageiros, ferroviários, ambulantes com cestinhas, lá fora os cocheiros e carroceiros disputando cargas. Enfim, a multidão aguardando partidas ou as novidades dos vapores do litoral.

Inauguravam-se novos tempos.

Antes da conclusão de seu curso no Instituto Paranaense, já se comemorava com maior entusiasmo a Queda da Bastilha do que o Grito do Ipiranga. Exaltado, Ratclif tinha seu nome numa das ruas centrais, numa prova de consciência republicana. O povo se indignava contra crueldades, os letrados discutiam Voltaire e o caso de João Calais. Vários deles engajavam-se em campanhas anticlericais, iniciados em lojas ou seitas esotéricas, até mesmo influenciando o nascer do simbolismo. Nas rodas da Confeitaria Esperança, recitavam seus sonetos. Com um século de atraso, Paris transportava-se a Curitiba, e a Revolução Francesa ao Brasil. A Marselhesa, amiúde executada pelas bandas e conjuntos musicais, provocava comoção, rivalizando com o Hino Nacional. Miss Tramplin tocava-a, fazendo-se acompanhar nos clubes e teatros pelo Coro Municipal. Nos palcos alcançava enorme sucesso a representação da Queda da Bastilha, e o público cantava a Marselhesa. Publicavam-se a sua letra, a tradução, artigos, crônicas, poemas. Eram exaltados Marat, Danton, Robespièrre ou Chenier.

Não fora apenas de Rosendo que ouvira no pátio:

     - Tenho duas pátrias. Primeiro o Brasil, depois a França.

A máquina a vapor possibilitara uma transformação no mundo. Estradas de ferro, navegação, correios e telégrafos, sociedades anônimas, bancos e companhias traziam o progresso. As classes urbanas cresciam e, mobilizadas, organizavam reuniões, fundavam sedes, programando palestras. A conscientização dos direitos de cidadania processava-se naturalmente até nos espetáculos de arte e diversões. Quando planejavam a fundação de uma liga de sapateiros e do clube dos barriqueiros, Xandô ouviu Tio Silva dizer aos cavalheiros na sala onde se reuniam:

     - Se tudo isto está acontecendo na província, imaginem nos grandes centros como São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, sede da corte.

Vira-os, na primeira assembléia da Sociedade Protetora dos Operários, prestigiando o gráfico que discursara contra a jornada de dezesseis horas diárias de trabalho, falta de leis, e salários de fome.

Os clubes eram os centros da rebeldia cívica. Na capital e em toda a província, um ostentava o objetivo na própria denominação: Clube Republicano. Difundia-se a mensagem: "- Todo poder emana do povo e todos devem ser iguais perante a lei." Sociedades secretas secundavam a ação da maçonaria, e a cidade ganhara um grande aliado contra o escravismo e o latifúndio: o Exército. Comentava-se a insatisfação em suas fileiras, agravada com a proibição aos oficiais de se manifestarem pela imprensa, gerando a questão militar.

As aulas foram suspensas e, na manifestação no Teatro Tivoli, a multidão vibrou quando o major Solano anunciou:

     - Um grupo de jangadeiros nordestinos recusou-se a transportar escravos para navios negreiros. O líder foi recebido festivamente no Rio de Janeiro, homenageado na Escola de Tiro de Guerra, de Campo Grande, comandada pelo coronel Sena Madureira!

Presenciou com seus colegas Estácio e Rosendo, na Confeitaria do Pupe, o doutor Vítor explicar que os cafeicultores bandeavam-se para os republicanos e que suas fazendas eram diferentes das do Sul onde se criava gado e se apoiava a Coroa.

Ele e os amigos, por mais que se dedicassem aos estudos e se distraíssem nos passeios, nas festas, namorassem ou fossem banhar-se no Tanque do Bacacheri, acabavam envolvidos nos acontecimentos.

O Clube Iguaçu, fundado pelo Barão do Paraná, principal figura da província, tornou-se um ninho de republicanos encasacados. Um deles de batina, o padre Beto, carne e unha com o doutor Vítor.

De dia, Curitiba tinha as faces claras, empoadas de verde, mas à noite ocultava-as.

Uma sociedade secreta instalara-se na chacrinha do doutor Deleone no Alto da Glória. Na sala onde se reunia a confraria, notavam-se logo o retrato de D.Pedro II, a bandeira e uma arma parecida ao bacamarte. Tomada por símbolo, esta emprestou-lhe a denominação: Clube do Arcabuz. Os cavalheiros fundaram-no tomando rigorosas medidas de segurança, decidindo o exercício da presidência em rodízio. Ouviram todos a advertência, antes do juramento.

     - Não podemos esquecer: Arcabuzes, somos fora da lei. Há pouco tempo rezava um artigo no código: "E o que atirar com arcabuz de menos comprimento que de quatro palmos de cano, posto que não fira, morra morte natural." O Arcabuz nos lembra que não podemos falar nem falhar, corremos risco de desterro, prisão e morte. O auxílio aos escravos é punido até com vinte anos de galés - palavras do primeiro presidente.

O Clube do Arcabuz muito fez em favor dos negros, unindo civis e militares pela mesma causa, ramificando-se na clandestinidade. Fora responsável pelo assalto às carretas com as quarenta crianças que iam ser vendidas no Rio Grande do Sul. Cindiu-se quando começaram as divergências entre abolicionistas e emancipadores. O Barão do Paraná e simpatizantes monarquistas opunham-se a participação de líderes negros, a fugas e a medidas de força.

     - Sou um pacifista - justificava-se.

Deleone ainda tentou evitar a cisão, mas atribuía seus próprios ideais a D.Pedro II:

     - O Velhinho é, no fundo, um abolicionista. Com o Velhinho, o Brasil será o primeiro império socialista do mundo.

O que dissera não agradou nem ao Freitas, que viera de Paranaguá só para assistir à reunião:

     - O senhor está sonhando! - exclamou. Isto é um disparate. A República é o único caminho para o socialismo.

Em sua intervenção, o doutor Vítor chancelou as dissensões criticando os emancipadores e os partidários de utopias, propondo em tom exaltado:

     - Devíamos iniciar uma campanha de ultimatum ao Imperador: Abolição da escravatura ou República!

A dissolução ocorreu no momento em que, no Rio de Janeiro, o governo central expediu ordem de prisão contra o Arcabuz. A notícia provocou sensação na cidade, na expectativa da prisão de quem o governo achava que fosse um chefe republicano. A suspeita recaía sobre pessoas influentes.

Desde o Largo da Ponte até à Rua do Fogo, as pessoas indagavam:

     - Quem é o Arcabuz?

     - Sei lá!

     - O que significa?

     - Libertador de escravos, Arcabuz da Miséria.

Originara-se um brasão de vagabundo.

Os abolicionistas, de tendência republicana, fundaram a Ultimatum. Às vezes reuniam-se no casarão, confiando a vigilância ao terceiranista do Instituto Paranaense. Quem na Ultimatum mais o impressionou foi o palhaço Totó, o cavalheiro que liderou a fundação do Clube dos Girondinos e o Clube dos Avernos, este carnavalesco. Via-o animado e divertido, sem a roupagem de conselheiro - a fantasia espalhafatosa com a qual surgia de supetão no picadeiro. Tratava-se de Fernando Barreto. Um moço elegante, moreno claro, tão simpático e mirabolante que fazia darem cambalhotas os corações das moçoilas. Flechara o peito de Teresa, neta do Visconde de Taguaré, cuja família o detestava.

     - Um palhaço sem escrúpulos - bufavam os herdeiros da desativada Companhia Taguaré de Navegação.

Fernando Barreto nascera no Rio Grande do Sul, tornara-se paranaense porque os pais vieram dos pampas e abriram uma venda na Rua Ratclif. Ao fugir de casa e do Instituto, correu mundo num circo. Com antigos magos da arena aprendeu a arte e as piruetas que exercitava horas a fio. De volta - ainda era menor de vinte e um - teimou, armando a própria tenda. No princípio, o circo parecia de brinquedo. Tinha força de vontade, talento e confiança na criançada. Saía pelas ruas de cara pintada sob a cartola, alteado com pernas de pau nas quais se equilibrava, para atrair espectadores. Construiu-o aos poucos, costurando e remendando o pano, a juntar cadeirinhas de palha e tábuas na arquibancada. Por fim, de mastros erguidos, lanternas penduradas, estava pronto. No começo, além de cuidar da propaganda, de venda dos ingressos, da portaria, da administração, desdobrava-se como acrobata, equilibrista e... palhaço.

Alma circense, a razão do enorme sucesso. Contou com a colaboração de grupo de artistas amadores e com a banda da União dos Artistas. Não foi difícil a Tio Silva e a mestre Salvador obterem um empréstimo ao banco para que comprasse a lona, um novo mastro, arquibancada em semicírculo, camarotes e cadeiras. Fez de uma das crianças raptadas das carretas na estrada de Castro o seu principal coadjuvante, um palhacinho negro, Otelo. Os dois anunciavam as funções com grande alarde numa carrocinha de duas rodas puxada por um burrico. Assim topou-os Xandô, ao voltar do Instituto para casa. Chovia gente para vê-los, Barreto de alto-falante e exibindo enorme cartaz, Otelo batendo bumbo, ambos pintados a caráter. Na ocasião, o burrico assustou-se e a viatura virou no córrego sem causar vítimas, na maior comicidade.

Fernando Barreto antecedia os irmãos Queirolo e queria modificar o mundo em Curitiba. Uma vez foi chamado à polícia porque entrou de bacamarte no picadeiro. Dava tiros de pólvora em extras encartolados que fingiam de mortos.

     - É o Arcabuz! - exclamava, alongando com muita graça a última sílaba.

Ridicularizara o caso do clube e a ação das autoridades, mas o capitão Solano foi pessoalmente ao prédio da câmara e cadeia pública para soltá-lo.

No pavilhão, ao qual deu o nome de Circo Imperial, podia encenar maior espetáculo. Já não era o único artista e num circo de brinquedo. Além do coadjuvante, que exercitara na arte, contratava amadores e profissionais. Na parte de variedades, o público ficava atento às exibições de malabarismo, acrobacia, equilibrismo e aos números musicais. Encerrava-a a doma. Oferecia-se um prêmio em dinheiro a quem montasse e dominasse o burro xucro. Atirados a corcovas, os candidatos acabavam suspensos no ar pela corda que lhes envolvia a cintura, passando pela roldana ao alto, com o palhaço segurando a outra ponta.

Com tempo bom, o circo enxameava aos sábados e domingos. À tarde e à noite, os troles não paravam de despejar os espectadores. Defronte à bilheteria, vendiam amendoim torrado, pinhão cozido, doces e pastéis de banana. Lá dentro, o Canjeiro a passar com seu tabuleiro, oferecendo:

     - Balas e chocolates!

Os espectadores igualavam-se nas arquibancadas. Nas sessões, diluíam-se as classes e, embora os mais abastados ocupassem camarotes e cadeiras numeradas, ali todos compunham apenas o público.

Na estréia do pavilhão novo, o Circo Imperial virou um formigueiro humano de lona. O povo se comprimia nas dependências. Nos camarotes não faltaram as famílias do Visconde Taguaré, do Barão do Paraná, do Barão dos Campos Gerais e outros figurões do regime. No do Visconde se encontrava a sua neta Teresa, sinhazinha nobre, proibida de apaixonar-se por um plebeu, o palhaço.

No camarote reservado à família de Tio Silva, ao lado daquele ocupado pela do capitão Solano, viram-no surgir no picadeiro, eletrizando o público.

     - Totó! - riam até do nome.

Totó causava impacto com sua expressão de pasmo, bobice e irreverência, o rosto pintado e suspenso pelo colarinho. Arrastando a casaca, puxava as calças e, de passos alongados pelos sapatões de pano, punha à vista os remendos no traseiro. Uma sátira viva da sociedade imperial que ria de si própria. Malhava-a realçando o ridículo na caricatura, no espalhafato, no volume do traje, nos gestos, na entonação de voz. Fundia no tipo o plebeu e o nobre, o nababo e o vagabundo. Disfarçava o acinte com o ar envergonhado, encolhendo os ombros. De cartola e bengala, sacudindo o cordão ao qual prendia a cadela de pano, atiçava-a:

     - Pula Violeta, pula!

Otelo entrava correndo na arena para abaná-lo com enorme leque, descalço, de camisa e calças rotas, chapéu de palha. Sobre ele saltava violeta, obedecendo a Totó. Mais de uma vez, este perguntou:

     - Estão rindo de mim, dele, de Violeta ou de vocês mesmos? Ou é daqueles? - apontava autoridades e abrasonados.

Voltando-se para Otelo:

     - De que cor é o palácio rosa do Barão do Paraná?

     - Azul! - o circo quase veio abaixo, e todos os olhares se dirigiram à Baronesa de queixo erguido, envaidecida.

Entre cambalhotas, a roupa folgada e leve esvoaçando, Totó sentava-se à mesa fazendo Otelo abaná-lo, tirar-lhe e por-lhe as calças e os sapatos, dar-lhe a sopa na boca, inventando ditos engraçados que tomaram conta da cidade:

     - Eu quero sopa...é de colher! Vou ter que vender esse negrinho. Já fui barão, conde, marquês... - eu sou Conselheiro do Rei! Pula Violeta, pula!

O espetáculo encerrava-se com atos cômicos de puro teatro. Mas Fernando Barreto, o Totó, criou números que marcaram época. O da Berlinda, por exemplo. Mas o de maior impacto foi o dos puxa-sacos. Anunciado por um pelotiqueiro, num calhambeque gracioso, chacoalhando, à guisa de coche real e puxado por um burrico, entrava na arena provocando grande estardalhaço.

     - Chegou o Grão-Duque!

Com destino ao palácio, Totó desembarcava com sua bagagem, um saco enorme e pesado. Ao cercarem-no, paparicando-o, transformavam o palco num pandemônio, um empurrando o outro na disputa da honra de carregar-lhe a bagagem, cada qual puxando o saco para o seu lado. Voltando-se ora para um, ora para outro, Totó exclamava com a autoridade de momo:

     - Sai de mim, puxa-saco!

A Berlinda homenageava quem se destacasse por exemplos de vida, beleza e generosidade. A primeira convidada deixara estupefata a própria família, surpreendida no camarote. Teresa, a neta do Visconde de Taguaré, desceu da carruagem numa cena em que Totó supunha haver quebrado as resistências a seu namoro. Revezavam-se na berlinda heróis humildes, mães negras ou brancas, um soldado raso, um escravo, um operário e até empreendedores como "Herr" Leitner ou "Herr" Louis, um hoteleiro, outro cervejeiro. Luzia também fora muito aplaudida, a exemplo da bela Maria Conceição.

O número despertava expectativa na cidade. Quem será que irá à Berlinda? - perguntavam-se os moradores. Na hora, Totó aumentava-lhes a curiosidade: - Adivinhem quem está na Berlinda?

As borrascas quase causaram o naufrágio de seu barco mágico, às vezes atracado noutros portos. Dificultavam-lhe o pagamento das dívidas.

     - Em tempo de procelas, arriar velas - rimavam no barco de pano, ancorado no largo, pouco distante do da Ponte.

Num dos cruzeiros é que o palhaço ficou com fama de ladrão de mulher. Teresa completou maioridade, fugiu de casa na berlinda, e se casaram na Palmeira, desafiando os Taguarés. Após o regresso, com tanta caixeta de doces em casa, tiveram a idéia de atrair a criançada, distribuindo balas de goiabada e marmelada. Então nasceu o reclame do palhaço qual cantiga de rua:

     - Hoje tem marmelada?

     - Tem, sim senhor.

     - Hoje tem goiabada?

     - Tem, sim senhor.

     - E o palhaço o que é?

     - É ladrão de mulher - respondia em coro o cortejo.

No circo, palco da cidade, as classes eram o povo. A burguesia salientava-se mais no teatro. O Teatro São Teodoro é o maior da província e um dos mais luxuosos do Brasil - comentava-se com orgulho.

Se Totó fazia com que Xandô se lembrasse do Circo Imperial, Mestre Salvador levava-o a meditar sobre a Ultimatum. Na Rua da Assembléia, antigamente chamada a do Jogo da Bola, erguia-se o imponente sobrado de três portas envidraçadas, encimadas por balcões de grades de ferro e oito janelas. Atrás dos panos-de-boca - a cortina e outro de anúncios - havia onze camarins separados por biombos. Duas ordens de camarotes com duzentos mochos de palhinha envernizados, e uma terceira servindo de galeria com quarenta bancos sem encosto. No camarote de gala, cadeiras de braços e uma lâmpada pendente. Entre o palco e a platéia ficavam os músicos, entre os quais Benedito, aluno no curso de contabilidade, o qual falava em compor uma opereta. No salão o espelho, a mobília estofada, um sofá, meia dúzia de cadeiras e um belo candelabro. A platéia se iluminava com vinte e quatro lampiões belgas e vinte bocais de luz na rampa. Em cima existia um salão de pintura com luz de quatro lucernas.

Palco do mundo chique, com suas damas e cavalheiros, surgira por obra de aficionados que fundaram no Lindman uma sociedade teatral beneficente. Aberto ao público, houve marche au flambeau, um "Anjo da Liberdade" - a senhorita Judite Requião - empunhou a bandeira imperial.

Mestre Salvador podia ser confundido com São Teodoro que emprestara o nome a casa. Ele próprio resumia sua história:

     - Sou cenógrafo, pintor e escultor. Há mais de cinco anos fui contratado para fazer a decoração e terminei-a em três anos.

Correra que não possuía o curso completo de pintura, e um professor de desenho não o poupava:

     - Mestre Salvador não entende de arte. Pintou a cortina onde o panorama representado não possui perspectiva e é de péssima qualidade.

Com o sotaque de além-mar, não se cansava de rebater:

     - Sou detrás os Montes. Eduquei-me no Porto. Fiz também curso de modelagem e escultura.

Os comentários tinham lugar no próprio teatro e não cessavam, até que publicou no jornal:

"O pano-cortina não foi por mim pintado. O teatro só tinha uma cena por mim pintada na saleta nobre. O que haveria de executar seria a saber: uma sala régia ordem coríntia, estilo Luiz XIV; uma sala nobre (fantasia); uma marinha; um jardim (fantasia); um cemitério (cena noturna) fantasia; uma montanha; um claustro masmorra de Castela, ordem jônica, estilo Luiz XIV - um pano-cortina e seus acessórios, para o arco do proscênio, representando uma parte do Passeio Público do Rio de Janeiro; ou a fachada do gabinete português de leitura erigido à memória de Camões, estilo manoelino."

Erecto e magro, de ombros largos, impunha-se com o dolmam fechado à golilha, colarinho branco contrastando com negros bigodes de pontas para o alto. Ainda não deixara crescer a barba. A loura Mariana, eleita musa no Clube Concórdia e princesa no Thalia, sua aluna e namorada, participava dos ensaios da peça "O Lobisomem", apoiando-o sem entendê-lo. Prestigiando-o, professores do Instituto sugeriram aos estudantes uma visita à Escola de Artes e Ofícios que fundara. A turma de Xandô entrou no salão nobre em que se lia:

     "- No templo da Arte não há plebeus."

De capa espanhola forrada de seda, ar de pintor exótico, mestre Salvador explicou:

     - Para um artista não existem senhores e escravos, ou plebeus, todos os homens são nobres. Nobres no sentido sublime da palavra.

Deitou verbo:

     - Napoleão traiu a revolução, Beethoven move guerra à tirania armado de música, pois o artista é um conspirador, um revolucionário.

Xandô tornou a vê-lo quando, numa reunião no casarão, referiu-se ao doutor Deleone:

     - Caluda! Nunca vi anarquista defendendo um império. Artista tem de ser republicano.

A política dominava a capital, invadindo-lhe as casas e as ruas. A repressão perdera a força, pois nem mais aos proprietários interessaria a escravatura. Os que ainda possuíam alguns negros, em face da queda do mercado preferiam uma indenização em dinheiro do governo. Doutores, filhos de fazendeiros, engrossavam a burguesia, interessada em mão de obra livre. Na província, cessavam os riscos de acompanhar os abolicionistas e os próprios republicanos, pois militares tomavam tal posição, a exemplo dos capitães Solano e Teles, ambos da cavalaria. O primeiro foi eleito presidente do Clube Militar. Uma conspiração assumia cada vez mais o caráter antimonárquico.

Embora a questão militar e a questão religiosa fossem apenas manifestações de superfície, tanto o Exército quanto a Igreja se achavam divididos e já não sustentavam suficientemente o regime. O capitão Solano declarou-se disposto na Ultimatum a depor o governo. Não adianta sonhar com uma transição pacífica - dissera Tio Silva. Na ocasião, sugeriu que alguns monarquistas, favoráveis à abolição, poderiam ser atraídos à campanha republicana, citando o Barão do Paraná, o qual liderava um movimento de comerciantes e de carroceiros contra impostos e fretes ferroviários. A idéia provocou imediata reação de um dos presentes:

     - É ele o maior inimigo!

Constantino odiava-o. Filho de um almirante, Constantino culpava a mãe pelo assassinato do pai, cometido pelo amante, o próprio irmão. Viera de Porto Alegre e se empregara na firma do Barão, na qual dera desfalque. Descoberto e despedido, respondia processo de falsário.

Um fato assombrou a cidade. A Ultimatum organizou o protesto contra a discriminação e a falta de serviços aos alforriados. Estava para explodir uma revolta no Morro dos Enforcados, um quilombo. De sobreaviso, a polícia se preparou para invadir a área. O capitão Solano colocou o esquadrão de prontidão para evitar um massacre, porém um milagre evitou o confronto. Não possuíam armas os negros quando se alvoroçaram na noite:

     - São Francisco! São Francisco! - saíam das casas para vê-lo subir a trilha do Morro dos Enforcados.

O luar banhava-lhe o vulto esguio e as barbas de um monge que de frade não tinha nada. São Francisco vinha avisá-los transfigurado no monge sem hábito, de calças e paletó de brim rotos. Um outro São Francisco, o Anastás Marcaf sumido do Bacacheri, ele próprio transmudado em João Maria. Na sua primeira aparição, a primeira que deu origem às lendas dos monges, aconselhou os aquilombados que o acompanharam até o alto:

     - Vim abençoar e salvar vocês de uma desgraça. Voltem e não saiam de casa, prá não caí numa ratoeira.

O recado divino, seguido de coriscos na madrugada chuvosa, espantando a polícia, foi providencial. A paz voltou ao morro que mudou de nome, homenageando São Francisco.

Quando o doutor Vítor perdeu a cadeira que lecionava, entraram em greve os estudantes do Instituto Paranaense. Embora os liberais ocupassem cargos no governo do Partido Conservador, viu-se perseguida a ala radical. As palestras dos publicistas como o doutor Vítor agitavam a província. O escritor Rocha Pombo fundara jornais em Morretes, Paranaguá, Castro, Ponta Grossa e na Capital. Desde a existência do "Livre Paraná", dos maçons da loja "Perseverança" de Paranaguá, recrudescera a campanha republicana. O doutor Vítor não voltou a lecionar e foi abrir sua banca de advocacia em Ponta Grossa, preparando-se para as eleições à Assembléia.

Depois que a Ultimatum cumpriu seu papel, enraizando-se na província,  as visitas no casarão foram o resultado de uma sólida amizade entre as famílias de seus membros. A burguesia imitava a nobreza nos salões, tomando-lhe as posições na cidade. A elite que se reunia no Clube Iguaçu, presidido pelo Barão do Paraná, não era nobre, porém burguesa. Nela tanto havia católicos republicanos liderados pelo padre Beto, como hereges interessados em restaurar o pitagorismo, ou maçons da loja secreta "Luz Invisível". Nas sessões cívico-literárias do "Cenáculo", não havia lugar para a insignificante minoria monarquista. Divertia-se a moçada. Os mais adiantados publicavam versos românticos no jornaleco, exaltando "fitas nos cabelos", "tranças louras", "braços de alabastro", rimando anjo louro com tesouro, coisas assim de provocar suspiros. Ao inspirar quadrinhas melancólicas, a "pobre menina" que vendia pastéis à entrada do prédio casou com um dos presidentes.

Xandô freqüentava-o, agora que vestia calças compridas, paletó bem abotoado, laço de cor e terno azul-marinho nos fins de semana. Nenhum jovem de cidade usaria botas de gaita, bombachas e pala de pontas franjadas. Não faziam boa figura os cavaleiros de esporas ajustadas ao tacão das botas, relho nas mãos, surrando os cavalos, tirando faíscas do chão em que pisavam. Ele, Estácio e Rosendo costumavam assistir às retretas, aguardar as saídas de missas e dos colégios de meninas. Namoravam no Chafariz, nos piqueniques e danças ao ar livre.

Otelo também era seu amigo e, com a turma, ia nadar no Tanque do Bacacheri. Aos domingos de sol divertiam-se chiques no Passeio Público. Fora inaugurado há pouco tempo. Na festa da primeira lâmpada elétrica, o meio do parque estava iluminado por um foco rodeado de lanternas japonesas, quando mal dava para se mexer no meio de tanta gente. O Passeio Público e os clubes eram o encanto dos jovens. Até à tardezinha flertavam à beira do lago, ouvindo as valsas de Ivanovicki. Sinhazinhas modernas, urbanas, dirigiam-se de braços dados para os clubes, passando pelo casario dos alemães e evitando a Rua do Fogo. Esvaziava-se a Praça D.Pedro II, agora assim chamada, tal como a Rua das Flores que recebera o nome de Imperatriz. As senhorinhas vinham em bandos, seguiam-nas os rapazes por toda parte, a ponto de rondar-lhes as casas. As que subiam as escadas do Clube Iguaçu, divertiam-se tocando piano e dançando. Despertavam paixões secretas. Xandô namorava à traição Belinha, a qual o cobria de esperanças dos olhos verdes, virando-se para trás.

     - Deu uma "queimadinha"... - mal acreditava.

Estácio e Rosendo se encantaram com uma moça de Morretes que viram uma única vez. Descobriram-lhe o nome: Maria Conceição.

     - Um anjo! - suspiravam.

Dia de grande emoção foi o da inauguração dos bondinhos de burros. Xandô encheu-se de coragem e sentou ao lado de Belinha, a qual fez as duas irmãs ocuparem o banco da frente, burlando a vigilância do pai. Às onze horas, o vagãozinho partiu do barracão onde ficavam as baias, na Rua da Liberdade. No da frente, abancaram-se o presidente da província, o chefe de polícia, o tenente-ajudante e representantes dos jornais "Dezenove de Dezembro", "Diário Popular", "A República" e "Gazeta Paranaense". O fiscal Moura e sua mulher, pais de Belinha, ali estavam entre vários políticos, inclusive o Barão do Paraná e o juiz Silveira, que conversavam animadamente. No segundo, acomodou-se a banda do corpo de cavalaria, cujos comandantes se achavam entre os presentes. Estreando o uniforme, os condutores deram início à carreata. Eram quatro os veículos e, no detrás, Xandô e Belinha viam os burrinhos com asas, pois se sentiam no ar. Suas mãos se tocaram a caminho do Boulevard Dois de Julho, onde ficavam os Moinhos Imperiais do Brasil e a mansão do comendador Fontana que preparou recepção com música. Enamorados, a festa lhes parecia sua e de mais ninguém. Tudo coincidia em seu favor, como o fato de haverem sido Tio Silva e o fiscal Moura os que mais se empenharam para que Boaventura Clap levantasse o capital e pudesse formar a sociedade por cotas. Assim permaneceriam com suas famílias até o fim dos festejos. De pé, Belinha encostou-se em Xandô, que ao sentir-lhe o corpo e roçar-lhe os cabelos, também não prestou atenção ao discurso do presidente a elogiar o senhor Boaventura.

     - Ah! que boa ventura...- sussurrou-lhe ao ouvido.

Um colóquio de olhares, sorrisos e poucas palavras. Imaginavam o que não diziam. Ele lembrou-se até de um passeio à Serra da Graciosa, do Véu da Noiva, uma cascata, mas os cabelos de Belinha eram dourados a caírem sobre os ombros. Quando os vagõezinhos tomaram a direção do Batel, pela Rua Mato Grosso, precedidos pelos lanceiros da cavalaria, confessaram-se apaixonados, as vozes abafadas pelos dobrados da banda musical. A festa era realmente deles. Recebiam-nos as flores, as palmas, as girândolas, o resto um cenário. Ainda que no Batel houvesse um brinde a S.M. o Imperador, e aplausos aos oradores.

No regresso, os capitães Solano e Teles vieram em seus corcéis à frente da tropa que ponteou a carreata. Aplaudiram-nos dos balcões e nas ruas. Pela primeira vez, ouviram-se gritos com alusões aos belos uniformes:

     - Os pica-paus! Os pica-paus!

À tardezinha, a banda União dos Artistas partiu de bonde para o Batel, onde havia dança em várias casas. Os mais jovens preferiam a música nova, sincopada. Mas predominaram a valsa e o xote. Afinal, os dois se esqueceram do mundo, perderam o último bondinho, admirados quando Tio Silva e o fiscal Moura reuniram as famílias nas carruagens.

Comentou-se muito o acontecimento, todo mundo feliz. Só não foram lembrados os burrinhos.

Depois disso, Xandô estreou o traje a rigor no dia seis de janeiro, aniversário do clube fundado pelo Barão do Paraná. O grande evento teve a participação do Cenáculo e do Grêmio das Violetas. Alberto e Cecília, que vieram passar férias em Curitiba, atraíram as atenções da moçada.

Na sessão da tarde, os presentes cantaram em pé o hino do clube. O presidente procurou ser breve.

     "- Precisamos reunir os literatos do Paraná, publicando um jornal com o objetivo de elevar o espírito e o coração, a inteligência e o sentimento" - salientou o propósito.

Apoiaram-no os já adjetivados "poetas primorosos", "jornalistas talentosos", "advogados fulgurantes", "oradores eloqüentes", "escritores de grande cultura e sensibilidade". Inchava de orgulho na platéia quem já tivesse um poema, uma crônica, uma nota num órgão local. E se um remendão ali surgisse com um soneto de sua própria autoria, talvez fosse admitido como sócio. Imagine-se, pois, a emoção da maioria dos presentes ao surpreendê-los o presidente com o primeiro número do jornal já publicado. Moças do Grêmio das Violetas colaboraram com "páginas vertidas do coração, pinceladas em tardes de saudade", crônicas "molhadas de pérolas de pranto". Uma delas leu em voz alta o "despetalar de lembranças viventes". O jovem filho do professor esotérico, também iniciado em Teosofia, ocultismo e doutrina pitagórica, foi muito aplaudido ao encerrar seu discurso:

"...Esta é uma plêiade esforçada para que a juventude não se enfarte de chope, nem se apouque por antro de tavolagem, por tascas e bordéis, onde menos ficam as pratas que o ânimo; não se arrefeça, indiferente na penumbra o beauceant simbólico, enquanto corvos e morcegos se abatem na Arcádia brasileira, a enegrecer-lhe as campinas, a sugar-lhe as seivas, ébrias de ganância, vorazes de ignorantismo. O Cenáculo quer o "Sentimento pelo Sentimento e a Verdade pela Verdade"."

Explicou que sem fundar uma escola, tal era o lema do jornal.

A assistência parabenizou os autores, dissimulando o desinteresse por suas qualidades. Entre eles, criticado pelas costas, estava o autor de "Visões", de um livro de contos e poesias e mais o romance "No Hospício". Certamente, achavam que colonizar o Vale da Ribeira e possuir uma rede de açougues desmereciam-no para as artes.

Gente importante de outras cidades participou das comemorações da fundação do clube. Foram muito cumprimentados os doutores Glória e Vítor Machado, que vieram de Ponta Grossa, ou Soares Gomes, chefe político em Morretes, autor de uma peça com a estréia marcada no Teatro São Teodoro.

A sessão cívico-literária do Cenáculo encerrou-se com D.Zilie ao piano, tocando a Marselhesa.

Já passavam das cinco quando o Grêmio das Violetas realizou o concurso de Rainha da Beleza. Estácio e Rosendo viram Maria Conceição em companhia das filhas de um comerciante italiano e quase perderam a fala.

     - Se ela for candidata, já se conhece o resultado - convinham os votantes.

Mas as duas irmãs, remoendo a inveja, informaram à mesa que Maria Conceição não passava de uma criada. Evitando um incidente desagradável, a diretora anunciou:

     - Só poderão concorrer ao título de Rainha as filhas de sócios, pertencentes ao Grêmio. A vencedora será coroada à noite no grande baile.

Alberto há dias se exibira ao piano, conquistara as "violetas", enquanto Cecília atraíra as atenções do cadete Mendes Carvalho, em férias.

O resultado da votação foi recebido com poucas palmas, e quem exultou foi um colega do Instituto, cuja namorada venceu Iaiá e Maricota. Estácio e Rosendo, sem saberem por que Maria Conceição não se candidatara, enviaram-lhe um bilhete:

     "Você, sinhazinha, não é Rainha,

     nem Princesa, é mais ainda: Santinha."

À noite, as carruagens despejaram a elite chique, cavalheiros de casaca e cartola, damas de fina seda, chapéu e xale. Graduados da guarda nacional, nem sempre elegantes, arredondados, arrastaram suas matronas escada acima e no salão engalanado. Viam-se funcionários, doutores, militares, professores e estudantes, gente do comércio, e suas famílias. Moças bem cinturadas, de anquinhas como cálices ou taças de pura seda virados para baixo. Jovens casais e pares enamorados dançaram a primeira quadrilha. À frente vinha o presidente do província e sua corte, lembrando a cena de Totó no Circo Imperial. Xandô só dançou a primeira quadrilha com Belinha, a qual debutando não pode recusar o convite de tantos admiradores. Desenxabido, ficou bebendo chope com Estácio e Rosendo. Mas entre paixões efêmeras de pares, nasceram romances duradouros, de final feliz, como o do cadete Irani e sua prima. Porém o que mais chamou atenção foi o de Mendes Carvalho, da Escola Naval, e Cecília. As irmãs que não permitiram mais a companhia de Maria Conceição, pousaram de castigo em suas cadeiras, enquanto até mesmo as gorduchas se divertiram espremidas nos espartilhos. O programa fora inserto no convite:

 

"             I

1° Quadrilha

2° Lanceiros

2° Polca

3° Valsa

 

              II

1° Valsa

2° Xote

3° Quadrilha

4° Quadrilha

 

              III

1° Valsa

2° Valsa

3° Mazurca e Cotilon."

 

Cacarejavam na galeria. Tesoura na língua, titias e velhotas fiscalizavam o salão. Vasculhavam-no catando quem pudesse desairar. Bisbilhotando, entravam no ritmo de festa, faziam parte dos clubes. No baile esqueciam-se as rivalidades. Pelo menos, rodopiando. Solano, promovido a major, parecia comandá-lo, o casal muito cumprimentado. E apesar de Glória e Vítor Machado, não pareciam divididos os associados.

Se Alberto não perdeu uma só contradança, o mesmo não aconteceu a Xandô e seus amigos, pois as mocinhas comprometiam-se com os admiradores de mais idade.

Os jornais "República" e "Dezenove de Dezembro" noticiaram que a "fina flor curitibana comparecera ao monumental baile, no qual fora coroada a Rainha da Beleza". Lia-se que Belinha, menina-moça, debutara linda de saia godê com anquinhas, saia de bailarina, blusa de rendas, os tons verdes realçando a beleza loura. Uma nota desagradara a Rua do Serrito porque dera como certa a vitória de Maria Conceição, se houvesse concorrido ao título.

Xandô, Estácio e Rosendo decerto se sentiram menosprezados. Tinham de mostrar que mereciam as atenções das sinhazinhas. Xandô teve a idéia da façanha. Ao clarear o dia, os três embromaram de tal modo o crédulo guardião das baias, dando-lhe folga e prometendo-lhe aumento de ordenado, que saíram com dois bondinhos causando a maior estripulia nas ruas da cidade. Ao fim da brincadeira, choveu gente às janelas quando desatrelaram os burrinhos, debandando-os entre os transeuntes. Nunca se viu tamanha algazarra, e tiveram de dar satisfações na delegacia de polícia onde foram buscá-los os responsáveis.

Tio Silva defendia-os das recriminações:

     - São os moços que vão mudar o mundo.

Talvez o mundo é que mudasse os moços, abrindo-lhes novas perspectivas de vida. A máquina a vapor movia a urbe e tudo girava em torno da erva que a borrifava de verde. A roda de chimarrão, circulando mundo afora, tinha seu início no porongo paranaense. O Visconde Taguaré tornou-se um dos capitalistas, explorando o ramo. Os três se achavam no Café Glória e viram-no apontar para um carroção de barricas cheias de erva, exibindo-se:

     - São de ouro em pó. A erva-mate é a maior riqueza da terra e alimenta o comércio em geral.

Gabou-se das marcas que citava, mas não de "Teresa", nome da neta que tratou de excluir dos pacotes.

Aprontaram mais uma ao mandarem pôr no jornal o anúncio de uma nova marca de erva na praça: "Totó".

Ao contrário do primo que desistira do curso, Xandô alcançou a última série. Enriqueceram-no as experiências no casarão, no Instituto, na Curitiba. Tornou-se homem a criança de franjinha e cabeça pensa, o menino de pernas duras comandando a molecada. Liderando as artes dos rapagotes, escondia-se entre os ombros, do mesmo jeito. Ele e os jovens de seu tempo, o homem novo que não descrê, o homem novo no país virgem do planeta. Um sentimento divinatório levava-o a acreditar em fraternidade, num futuro de direitos iguais para todos.

Às vezes parecia sisudo, porém não perdera a meiguice. Sensibilizava-o o sofrimento de um companheiro, como de um negro ou um pobre. Com seu modo de tratar as pessoas, conquistava-as. No casarão os tios, a preta Balbina, Clarinha, Luzia, Genésio. No instituto os colegas e até os professores. Nas ruas o povo. Propenso ao perdão e ao arrependimento, se chorava escondido no quarto, num instante recuperava o ânimo, revigorado - não se sabe como - com uma carga de energia. Foi um dos convidados por colegas de outras séries a participar das reuniões da sociedade secreta "Os Mosqueteiros". Comprometiam-se a lutar pelo bem. Viam-no na vida e na natureza, tinham extraordinária visão da realidade. Todos eles irradiavam otimismo, uma contradição com a enxurrada pessimista das publicações literárias. Afinal, o romantismo se firmara por este lado falso e negativo no mundo.

Ao passar de ano e perder uma aposta no colégio, conduzido pela turma ruidosa, Xandô escandalizou de novo a cidade, tomando banho de ceroulas no Chafariz. Lá se reuniam os namorados. No carnaval, lá se enchiam as bisnagas, seringas, para esguichar água nos conhecidos. O povo se divertia nos bombardeios de farinha, laranjinhas e limões-de-cheiro. Todos se igualavam nas ruas, as moças formavam blocos, cordões saíam de cafés e confeitarias. À noitinha, o corso. Os cavalos atolavam-se em confete e serpentina, puxando os carros ornamentados dos clubes e dos foliões. A Rua da Imperatriz se estreitava para tanta gente. Os bailes de fantasias, muito concorridos, terminavam na Quarta-Feira de Cinzas.

As visitas e a prosa solta na sala constituíam vestígios ainda da Ultimatum. No inverno, a cuiada quente, pinhão assado na chapa, fogo de nó-de-pinho. O major Solano, que comparecia com a família, mulher e duas filhas, concordou com a formação de uma confederação abolicionista que congregasse todos os clubes.

A mão escrava já não trabalhava a erva. Engenhos bem equipados com misturadores, condutores, jogos de pilões, ocupavam prédios em grandes áreas e exibiam nas dependências prêmios de exposições internacionais de suas marcas. Empregavam trabalhadores livres. Ao misturarem outras folhas ao produto, os senhores por pouco não perderam o mercado. Aprenderam a lição, deixaram de falsificá-lo, superando o impasse com Chile, Argentina e Peru. Não tardaria a ser instalado no Batel o Engenho Iguaçu, com maquinismos modernos, aperfeiçoados, que exportaria para Europa e Estados Unidos. Seriam empacotadas marcas famosas como "Uruguai", "Ventura", "Idília", "Blanca" e "El Tigre". Além de empregar quarenta operários, daria serviços a despachantes, barriqueiros, carroceiros e volantes. Disporia de energia elétrica, força motriz e de bondes numa avenida particular.

As folhas da caá transformavam-se no ouro da província. Esta progredia. Capital do mate, possuía de tudo, comércio de atacado e a varejo, hotéis, pensões, cervejarias, cafés e confeitarias, colégios, instalações militares. Já não havia necessidade de seus intelectuais correrem atrás de fama no Rio de Janeiro. Redigiam jornais e revistas. Muita gente nas ruas, nos logradouros públicos, soldados defronte aos quartéis para onde se dirigiam vendedores ambulantes, cavalheiros na Rua da Imperatriz assistindo ao passeio das mulheres às compras. Suspiravam ao sentir-lhes o perfume francês e esqueciam a sujeira dos cavalos. Troles pelo centro e muitos carroções parados em pontos como o Largo do Mercado. Continuavam transitando nortistas em busca de nova vida no Sul, viajantes, compradores de erva, negros e madeira. O movimento passava por armazéns, vidrarias, selarias, farmácias, tamancarias, consultórios, escritórios, depósitos, cocheiras. Xandô não perdera o hábito de entrar num barracão de ferreiro, numa funilaria como a do italiano Gravina, ou de parar numa calçada para ver o amolador tirando faíscas do rebolo. Fora do centro, viam-se monjolos, curtumes, olarias, vários engenhos, tudo numa cidade rodeada de chacrinhas.

A par da indústria do mate, desenvolvia-se a da madeira. Com a imensidão da floresta, nem Cleto da Silva poderia imaginar que veria tombar o último pinheiro. As serras-fitas vomitavam montanhas de serragem em Irati, Fernandes Pinheiro, Ponta Grossa e São José dos Pinhais. Mas fora a pecuária que formara a oligarquia e sua fortuna.

O que se ensinava na escola dizia nas revistas e nos jornais:

     "- A erva-mate ocupa grande extensão de terras particulares e públicas. Uma vez escolhidas as folhas, secas ao fogo e ligeiramente malhadas, são levadas aos engenhos. Aqui, velhos e moços, homens e mulheres ocupam-se da congonha, socando o mate. Mais da metade da renda provém da erva."

As árvores nativas, desde Curitiba, acompanhavam os pinheiros por toda parte. Os maiores ervais ficavam nas matas do Triunfo, Carrapatos, Ipiranga, nos vales dos rios Iguaçu, Negro, Ivaí e Paraná. Não davam nos campos, e até no rio Tibagi se construiu um porto para transporte, nas proximidades de Ponta Grossa, centro das carroçadas. Apesar do caminho de ferro para o litoral, continuava o vaivém na Serra da Graciosa, porque eram muito caras as tarifas da companhia, gravando o produto.

Barões do mate passavam a comandar os negócios e a vida na província. O Barão do Paraná, camarista do Partido Conservador, encabeçara a campanha do cavalo contra a máquina. Reivindicando a intervenção do governo, opunha-se à ferrovia para favorecer a classe dos carroceiros. Desde a revolta do comércio, quando o corpulento Treme-Terra se colocara à frente do povo, os conservadores aliavam-se aos republicanos. Representavam uma classe mais progressista da cidade, enquanto os liberais tinham raízes no latifúndio.

Em todas as bocas, o mate predominava como assunto e bebida. Discutia-se qual a melhor marca empacotada. Entendidos gabavam-se de melhor gosto e de serem melhores provadores. A riqueza que proporcionava refletia-se no luxo das patronesses com casacos de pele, xales e estolas de lontra, acompanhando os maridos ao teatro. De gandolas se agasalhavam os militares. A renda dos espetáculos já não revertia para o pagamento de alforrias. Houve bailes nos clubes e várias sessões no Circo Imperial para arrecadação de fundos. Os donos de escravos não tinham de que se queixar:

     - No Paraná não se perdem os escravos. Ainda se ganha algum dinheiro quando se vão embora.

À porta dos hotéis, os forasteiros admiravam-se:

     - Isto aqui parece um outro Brasil, um país onde até o preto loureja.

O Barão presidiu reuniões políticas no Teatro São Teodoro quando, liderando grupos rivais, Vítor Machado e o doutor Glória compareceram para dividir a província. Na mais movimentada, Vítor Machado interrompeu-o de pé no camarote:

     - A República bate às portas para abolir a escravidão e reconhecer a todos o direito de cidadania. É uma vergonha admitir a indenização em dinheiro, o que significa a venda pura e simples de escravos ao governo. Por que se concedeu, por decreto, liberdade ao negro que partisse com sua mulher para morrer na guerra em lugar dos brancos? De cada trinta soldados, vinte e nove são negros. Por que Sua Majestade não pode, agora, conceder-lhes a liberdade para viverem em paz?!

     - Muito bem! Bravos! Apoiado! - interrompiam-no.

Uma parte da assistência vacilou, sem saber a quem apoiar, no momento em que o doutor Glória pediu a palavra no camarote do lado oposto, chamou de traidores os liberais que atacavam o governo central, defendendo D.Pedro II:

     - Foi o Imperador que persuadiu Rio Branco a assumir responsabilidade pela lei do ventre livre. O escravo tem o direito de pagar por si próprio o seu preço. O estado paga alforria com fundo oficial. É justa a indenização e, se vier a República, o Brasil não pode esquecer a dívida da Independência para com D.Pedro I, nem a liberdade concedida por D.Pedro II aos voluntários negros.

Aplaudiram-no, porém num debate ninguém vencia Vítor Machado:

     - Voluntários caçados e amarrados, oferecidos em lugar dos filhos dos escravocratas? Foi o patriotismo de D.Pedro I que o levou a transferir a dívida de Portugal ao Brasil, pagando um milhão de libras esterlinas à Inglaterra? D.Pedro II é muito bom Velhinho - ironizou - mas os senhores já imaginaram se a coroa vai para a cabeça do Conde D’Eux, o francês que instituiu a degola como lei de guerra?!

     O povo fazia do teatro um centro de decisões do país e do mundo. Até o exército se dividia lá dentro. Com a discórdia semeada pelos oradores, ninguém entendeu ninguém quando, ao discordar do tom conciliatório do presidente da reunião, o doutor Glória esbravejou:

     - Canalha! É preciso acabar com essa camarilha que quer se apossar do poder!

A troca de insultos e empurrões terminou na rua, onde os mais exaltados atracaram-se a bengaladas. Xandô ficou ao lado de Tio Silva, o qual apartou briga e segurou Constantino que fez voar longe o chapéu do Barão. Com exceção de Chica Chapeleira, viúva do anarquista francês da Colônia Argelina do Bacacheri, as mulheres não saíram do prédio enquanto a tropa não pôs fim à rixa.

Da amizade e colaboração entre os grupos de Tio Silva e do major Solano surgiu a aliança entre civis e militares, a Confederação Abolicionista. A idéia desta fora sugerida na sala de visitas do casarão. Naquela reunião informal em que o major estivera com a família, indagara a Xandô se desejava seguir a carreira militar. Aninha, a filha adolescente, deixou-o encabulado por haver sugerido ao pai:

     - Por que não o ajudas a entrar na Academia?

Menina fascinada por uniformes. Certamente por orgulho do pai herói - pensava Xandô - não tirava os olhos de um cadete num sarau ou numa passeata. Descartou a idéia, queria estudar direito para defender os pobres. Sentia-se dotado de vocação para a classe que marcava o apogeu urbano e à qual se referiam como "a plebe fulgurante dos doutores". Fernando Barreto, que ao lado de Teresa olhava-o com simpatia, frisou:

     - O importante é o ideal, o cumprimento do dever.

A província se uniu sob a bandeira da Confederação Abolicionista, à qual as sociedades se filiaram. Sediou-a o Clube Militar, no prédio achatado, perto do Largo da Ponte. O major Solano foi aclamado presidente. Aquele oficial de cavalaria, ligeiramente calvo, de bigodes e cavanhaque, entusiasta como só ele, comandava a capital, a província, o povo.

Formaram-se comissões libertadoras e sucederam-se as manifestações pelo fim da escravatura. Quando os sinos anunciaram a Abolição, o foguetório cobriu os céus da província. Esta se transformou numa praça em festa, com quermesses, bailes, cerimônias religiosas ou cívico-militares, regimentos e escolares desfilando, bandeiras hasteadas, bandas musicais, cânticos patrióticos, discursos nos palanques. Xandô e seus amigos gritavam na rua, acompanhados dos balcões:

     - Não há mais escravidão no Brasil! Viva a Princesa Isabel!

A medida não mais desagradava aos monarquistas e satisfazia à maioria do Partido Liberal, porém se tratava de uma conquista dos republicanos, precedendo o fim do decadente regime. Crescera a força do povo e, no dia quatorze de julho, foram ruidosas as comemorações da Queda da Bastilha. Na Rua do Imperador e na Rua da Imperatriz houve uma marcha luminosa, a multidão empunhando lanternas. O ex-professor Vítor aparecia em toda parte. De viagem para o Rio de Janeiro, a serviço de firmas ervateiras, encontrando-se em Paranaguá, discursou levando a população ao delírio. A campanha republicana intensificou-se, teatros e clubes ficavam repletos para ouvirem os palestrantes.

Os alunos que iam colar grau no Teatro São Teodoro sabiam o que se passava no país, comentavam no pátio do Instituto Paranaense:

     - O povo brasileiro está preparado para tomar o poder em suas mãos.

     - Quem chega do Rio Grande do Sul diz que vai estourar uma nova Farroupilha.

     - Só em Minas Gerais há mais de cinqüenta clubes republicanos. Os jornais "Propaganda", "Transformação", "O Movimento" e "A Revolução", estão levando avante os ideais de Tiradentes.

     - São Paulo reclama o dinheiro do café, o Paraná o dinheiro da erva-mate.

     - ... Que a monarquia esbanja em pompas, banquetes, em festas no Paço de Petrópolis - emendavam.

     - Bailes do Barão de Cotegipe e Mme. Haritolf para uma corte de parasitas.

Em setembro, geava na cama e na alma dos paranaenses, o frio e a chuva espantava-os das ruas. Ao vê-los passarem enroupados, de guarda-chuvas, sombrinhas, ou debaixo das capotas dos tilburis, os forasteiros achavam-nos fechados e a capital insólita. Caía o movimento, recolhiam-se às casas e aos afazeres, deixando desertas as ruas noturnas. Após o crepúsculo e o sopro do vento que chamavam de Bugio, vinha a bulha da saparia, abertos apenas alguns botecos, cafés e confeitarias. A vida ocorria no interior das casas, girando em torno da família. Ao chegarem as visitas, tinham lugar as rodas de jogos, de prosa, de música, cantoria e dança, de comes e bebes. Cordiais na intimidade, não davam demonstrações em público.

Nas propriedades urbanas, os serviçais eram como os agregados, ligavam-se à família pelo trabalho e pela afetividade, mais de que pelo ordenado. No casarão tornavam-se mínimas as diferenças. Segundo o legado de Pedro Tropeiro, todos são filhos de Deus.

Só num sentido poderia ser definida como conservadora a sociedade, naquele que se refere aos valores e à solidariedade. As pessoas eram cordiais, hospitaleiras, conheciam-se, ajudavam-se.

Aos dezoito, esbanjando vitalidade, Xandô podia ser visto como o mais representativo tipo daquela mocidade rebelde. Capacitara-o a tanto o modo de viver nos campos gerais. A força que o movia tinha algo a ver com sonho, bondade de negros e índios, ternura cabocla, esperança de colonos. Algo a ver com tropeiros, tarefeiros, trabalhadores de erva, agregados, com a gente igualada no campo, na roça, nas ruas e praças da cidade. Agia por impulso de solidarismo.

Uma de suas últimas artes, liderando um grupo com negros, foi a de entrarem a força numa festa de alta sociedade promovida no Teatro São Teodoro, desafiando o racismo.

Passara férias em Ponta Grossa e muito sentira a morte de Helena, a filha de Jango Ribas, prima de Letícia. Não via a hora de voltar, assim que concluísse o Instituto.

Ao aproximar-se o fim do ano, comentou-se muito a transferência dos comandantes do regimento de cavalaria para unidade sediada no Rio de Janeiro. Os dois majores, Teles e Solano, receberam homenagens nos clubes e na hora do embarque. A despedida foi emocionante na estação, e Tio Silva gracejou com seu amigo Solano:

     - Agora vai cair a monarquia.

Ouviram-lhe a previsão, gostaram e repetiam nos cafés:

     - Que se cuide o Rei, D.Pedro II corre perigo.

Os oficiais do distrito tinham-nos como modelos.

O casarão exigia muito trabalho, serviços domésticos e de campo. Um tipo de chácara espremida entre habitações de frente para a rua sem calçamento. No terreno havia pequeno pomar, horta, chiqueiro, galinheiro, galpões, depósitos para lenha, ferramentas, abrigos para os carros e os animais. Um tal de catar cavacos, acender o fogo, ordenhar a vaca, preparar o forno, tratar de aves e animais, cuidar das plantas, lavar roupa, fazer sabão, socar grãos no pilão. Todos ajudavam, revezando-se conforme as necessidades. Posta a mesa da manhã, nunca faltara leite nem pão, mel, melado, doces de frutas, além de canjica, paçoca e rapadura. Um polaco desgarrado da colônia partia a lenha, fazia o serviço mais pesado e pequenos consertos. Uma azáfama a arrumação, principalmente quando chovia. Com a lameira, avolumava-se a roupa nos balaios. Tia Dulce, Balbina e Luzia não venciam passá-la com o ferro de brasas. Mal se viam livres das louças do almoço, estava na hora de jantar. Ainda encontravam tempo para costura e bordado.

Dulce, tia para os de casa, Tio Silva para todo mundo, diziam aos sobrinhos e aos adotados:

     - Vocês são filhos do coração.

Apenas Clarinha, criança duma vez, chamava-os de papai e mamãe. O casal tinha muito amor para dar. Sentiu, por exemplo, quando Roberto abandonou os estudos, e sofria só de pensar que Xandô tencionava mudar-se para cursar direito no Rio de Janeiro.

Um dia, Dulce surgiu com uma novidade no casarão. O padre Celso, de outra paróquia, pedira que abrigassem um menino que lhe fora confiado. Concordara antes mesmo de consultar o marido. Trouxe-o mais bem vestido para causar boa impressão, ainda assim pobremente. A calça curta de brim, camisa listrada de algodão, calçado barato. Tímido e insinuante na figura, conquistou logo o seu lugar. Alourado, de olhos verdes, não houve quem não simpatizasse com o guri que, em boa hora, viria preencher um vazio que deixava Xandô. Medrosamente, segurava com firmeza a mão de D.Dulce e só perdeu o constrangimento quando Clarinha se aproximou, perguntando-lhe o nome.

     - Bento - ao dizê-lo, sorriu.

Nome bem próprio a um filho de clérico. Tinha doze anos e consciência de sua lenda. Um padre americano e a jovem aldeã que o ajudava no sacristia e nas aulas de catecismo apaixonaram-se. Ao se tocarem, beijaram-se sofregamente até se desvirginarem sob chuva de bênçãos. O pai da moça ameaçou de morte o vigário. Então, para casar, combinaram uma fuga em lombo de burro para o litoral, com o fim de embarcarem para longe. Na Serra da Graciosa, uma expedição punitiva formada pelo exaltado fazendeiro, interceptou a bala o comboio nupcial. O noivo de batina teve de embrenhar-se na mata. Caçado e sob acusação de rapto e sedução, nunca mais foi visto. A mãe, expulsa de casa mais tarde, contou a sua história antes de morrer ao padre Celso, pedindo-lhe que encaminhasse o filho. Bento herdara aquela paixão, porém pela vida. Encheu dela o casarão.


 

 

 

PAIXÃO PROFANA

 

 

A história corria célere no país para recuperar um século de atraso. No Rio de Janeiro ocasionava choques entre grupos armados. Na Rua do Ouvidor, na Travessa do Rosário e onde ficava o teatro Luís de Camões, a cavalaria dispersara o povo a pranchadas de armas. Os distúrbios deixaram centenas de feridos. Silva Jardim insuflava a multidão, discursando na Sociedade Francesa de Ginástica.

A monarquia obstaculizava a história. Uma crise de mando e de autoridade, indisciplina nos quartéis, governos periclitantes, assinalavam o ocaso do regime. A corte se importava com ela própria, exibindo-se nos palácios.

Na província, a oposição aumentara após a repressão contra os comerciantes, mas só agora a campanha republicana atingia o auge. Com a exibição do filme "Marselhesa", a comoção tomou conta do povo.

De posse do diploma do Instituto, Xandô assistiu em Ponta Grossa ao casamento de sua irmã Cecília com o guarda-marinha Carvalho Mendes. Pouco antes, ouvira Frederico aconselhá-la:

     - Ouça, minha filha. Você pode estender para sempre a sua felicidade. As pessoas sejam ricas ou pobres, brancas ou negras, todas enfrentam dificuldades e sofrem. Mas só podem ser felizes aqueles que são bons e honestos. Sabe o que eu quero lhe dizer?

     - Sei sim, papai - deu-lhe a prova, enxugando uma lágrima.

Com o orgulho que o povo tinha de seus soldados, é fácil imaginar a excitação na vila, o que sentiam Naná e Frederico ao casarem Cecília com um oficial da Marinha Imperial. Após a cerimônia na igreja e a recepção no sobrado, o casal partiu no coche para Curitiba, com destino ao Rio de Janeiro.

Ponta Grossa progredia. O Hotel dos Campos Gerais mudara-se para o Largo Municipal e também o Hotel Romão fora inaugurado com instalações modernas. Eram os últimos dias da família no sobrado, uma vez que Frederico decidira vendê-lo, recebendo uma casa e uma chácara no negócio. O comércio ainda não se localizava na rua barrenta ladeando a Ronda, em direção ao cemitério e à Nova Rússia. A Casa Juca Pedro, de ferragens, miudezas, couros, louças, ficava na Rua do Mercado. No mesmo lado estava a Casa Vilela, com cereais, ferramentas, tecidos e remédios. A Casa Osternack e a Casa Bitencourt situavam-se nas proximidades. A cidade interrompia-se ladeira abaixo, na barroca do Pátio do Chafariz. Para diante, escasseavam as habitações. Aumentara o movimento de carroças e, de manhã, os polacos entregavam leite, vendiam aves e hortaliças, ou lenha. Antes havia uma botica para atender a demanda, Carlo aplicando ventosas e sanguessugas, encanando pernas e braços quebrados. Agora seria diferente, pois o doutor Glória se associara ao farmacêutico Sezefredo, recém-chegado da corte do Rio de Janeiro com a esposa Carolina.

Ao reencontrar os companheiros, as farras chegaram ao auge quando Xandô fez o padre e os moradores pularem assustados da cama, badalando os sinos da igreja em plena madrugada. O povoado alarmou-se qual se houvesse um choque entre o doutor Glória e o doutor Vítor.

Em sua terra natal, sentia-se ainda o piá franzino - uma vez acordara de velas nas mãos - que corria de medo de visagem, de arco-íris, de Saci-pererê. Compensava-o fazer-se de corajoso. Imaginavam que o fosse, gabando-o. Os amigos não esqueciam a Mão Negra, o desfile de um imperador nu pelas ruas, a fuga com Minega. Atribuíam-lhe proezas fictícias, depois que souberam do caso dos bondinhos de burros na capital.

Inesperadamente, envolvia-se em encrenca. Obrigou-se a romper um cerco de jagunços mal encarados, cujos bigodes debaixo dos chapelões amedrontavam mais de que as armas à cintura. O motivo era Letícia, estrela do festival no Teatro Santana. A peça em dois atos contava o descobrimento do Brasil pelos imigrantes. A magia da floresta, a semeadura da terra, o encontro com índios, negros e mestiços, principalmente caboclos. Com canções de Letícia encantando o público. Ao cair o pano, subiu ao palco para cumprimentar o irmão Alberto, quando em seu lugar se apresentou Letícia para receber-lhe um abraço em meio aos aplausos.

Tibúrcio, de botas e bombachas na platéia, queimou-se de ciúme. Viram-no bêbado de ódio, com um grupo de capangas, depois do espetáculo.

Passava de meia-noite quando incendiou-se o Teatro Santana, alvoroçando a cidade. Uma vez ruíra e fora reconstruído. Suspeitou-se, agora, de origem criminosa, porém os anarquistas ainda não haviam chegado para serem acusados.

Letícia era uma menina, porém Tibúrcio tinha planos de pedi-la em casamento. Despeitado, noutra noite desmanchou a quermesse. O bando surgiu a cavalo, atirando nas lanternas, arrancando os fios com as bandeirinhas, dispersando o povaréu. As autoridades apareceram após o malfeito, sem darem muita importância à baderna do parente. Um dos brutos atirou em Manoel, confundindo-o com o irmão, ferindo-lhe o ombro. Uma das filhas do coronel Bitencourt socorreu-o e pediu ao pai que o recolhessem em casa. No momento de maior perigo para Xandô, providencialmente surgiu a carruagem de madame Formiga, na qual se encontrava Dalila, a Bolsinha. Tiraram-no do povoado.

     - Suba depressa, querem te matar.

     - Por quê?

     - É o Tibúrcio, por causa da Letícia.

     - É como uma irmã, quero o bem dela.

     - Vamos, meu bom rapaz, lá em casa você explica - interveio madame.

Os jagunços atiravam para o ar, e a resposta era uma chuva de estrelas. A noite enluarada permitiu o trote dos cavalos no carreiro.

O bordel de madame Formiga ficava no fim de uma ruela de Castro. Duas lanternas coloridas encimavam a porta, acesas até as primeiras horas da madrugada. À Dalila, Bolsinha, como se tornou conhecida, madame reservara o melhor quarto de raparigas. Fresquinha na zona, estreou sua cama nos braços de quem mais queria no mundo. Fugira de casa e, numa feliz coincidência, em companhia de quem amava em segredo, desde criança. No quarto contou-lhe tudo:

     - Foi o Tibúrcio que me fez mal, me pegou a força na fazenda, comprou mamãe, a coitada. Fugi prá não ser dele, prefiro morrer.

Beijava-o e repetia:

     - Venha me ver sempre. Você eu só quero por amor.

Algo doeu no peito como pena ou remorso na hora de deixá-la.

Ao retornar a Ponta Grossa, caçavam-no, constando que raptara Bolsinha, abandonando-a no meretrício. Tal teria sido o motivo do tiroteio na praça, com os primeiros disparos por parte de Xandô, tentando impedir que, a pedido da mãe, Tibúrcio a buscasse. História contada às avessas. Para livrar-se de apuros e dar sossego aos familiares, Xandô socorreu-se de antigo companheiro da Mão Negra, empregado na empresa funerária Boa Morte. Então pôde furar o cerco dos capangas que rondaram o sobrado. Despediu-se - herói não era, não - e sem perceberem, saiu pelos fundos, escapulindo no coche fúnebre que o levou à saída da cidade para esperar a diligência.

Só Deus sabe quanto custou à pobre Letícia fingir acreditar na versão do rapto - morria de ciúmes da Bolsinha - para poder continuar no grupo de artistas amadores. Aprisionada no quarto, torturada pela mãe, obrigou-se a dar esperanças ao primo Tibúrcio. Mas à casa de Chiquito Ribas, o castigo chegou a cavalo do Rio Grande do Sul, para onde fugiu e se foi embora Anita na garupa de Álvaro, o qual veio buscá-la assim que recebeu a espada de aspirante.

Escândalo algum ofuscava a arrelia entre os doutores Glória e Vítor Machado, ambos casados, eleitos à Assembléia Provincial, babando-se pela bela Carolina, esposa do farmacêutico. Todo mundo fofocava sobre o caso, como nos cafés:

     - O Sezefredo deixa a mulher em casa, amanhece em casa de jogo ou na cama de madame Formiga, em Castro.

     - O doutor Vítor levou vantagem com Florzinha, mas o felizardo com Carolina vai ser o Glória. Sabe qual o melhor remédio e já é sócio do farmacêutico...

     - Ela sozinha dia e noite, ele pertinho no consultório.

     - O doutor Vítor é muito ladino, tem lábia, passa mel na menina. Vai lá todo dia comprar xarope.

     - Vai sair faísca quando um der de cara com o outro.

Faziam-se comentários às costas dos temíveis rivais, heróis ou vilões da história. Não se tratava apenas de grandes oradores que declamavam como artistas de teatro. Ambos competentes em suas profissões, gozando de prestígio, ambicionavam o mando político e reuniam considerável número de asseclas na província. Só não se assemelhavam fisicamente. Derretiam-se por Carolina, tão cheinha, farta de seios, nem vinte anos completara. Bombom recheado de licor saboroso. Há dois anos viera da corte, mal casada com Sezefredo. Glória oferecera vantagens ao marido numa sociedade de farmácia, de olho na esposa. Inconformado em lamber os dedos, o doutor Vítor passava ora a pé, ora a cavalo, procurando tentá-la. Carolina não lhe dava trela, achando-o presunçoso e lorpa. Sezefredo preferiu-lhe a amizade, ligando-se ao grupo de liberais aliados aos conservadores, contrários ao governo. Menosprezando os Ribas, a baronesa Ambrósia e o doutor Casemiro, passou a apoiar o doutor Vítor e a surrupiar a féria da farmácia. Amante de madame Formiga, mandava no fuso de Castro, ausentando-se de casa. Carolina em solidão, sem esposo, sem ninguém. Chorava ao fazer os filhinhos dormirem. Vítor e Glória arriscariam a própria vida para consolá-la. Ambos queriam dar-lhe mão forte. O primeiro fleumático, manhoso, o segundo de sangue quente latino, impulsivo. Nenhum dos dois pensaria duas vezes para eliminar um inimigo. Vítor por encomenda, Glória num ímpeto de cólera. Sujeito arrogante - diziam tanto de um como de outro.

Um dia, o menino João chamou o doutor Glória para atender a patroa, pobrezinha sofria do coração, tinha dores nos rins, mal podia levantar-se. Sentiu alívio com a aplicação de compressas. Pareceu-lhe um anjo louro, o médico. Mas de voz trêmula, apertando-lhe a mão, revelou-se-lhe sem auréola:

     - Não posso vê-la assim, sofrendo, tão só.

Carolina não agüentou, chorou, abriu o coração, contou sua sina. Era filha única de um casal paranaense dos mais distintos na corte do Rio de Janeiro. Aos quatro anos fora morar com a avó materna. Por falecimento desta, passara à companhia de uma tia, formando-se no colégio Mme. Etiene, nas Laranjeiras. Na casa da frente morava Sezefredo que cursara farmácia na Escola da Corte. Dava aulas particulares de química mineral.

     - Eu era inocente e ainda insisti com papai e mamãe para consentirem no casamento. Eles estavam certos, temendo pelo meu futuro - enxugou as lágrimas.

Comoveu-o:

     - No princípio foi tudo bem. No acampamento do Realengo, Sezefredo obteve o lugar de farmacêutico. Daí por diante, começou meu sofrimento. Ele tinha ciúme da própria sombra, entregou-se aos vícios, me bateu e lá no Rio de Janeiro me deu três tiros de revólver. Eu perdoei e, a conselho de amigos na corte, viemos tentar uma vida nova no Paraná. Ai, não suporto mais minha cruz...

A resistência que chegou ao fim foi a do doutor, o qual aplicou-lhe beijos e abraços sofregamente, aliviando-lhe as dores. Carolina ainda tentou negar-se, porém com gemidos de prazer, entregou-se ao tratamento.

Um sismo passional abalou Ponta Grossa.

De manhã, chuchurreavam o chimarrão na casa de Herculano, irmão do doutor Glória, além deles o juiz Gusmão, seu hóspede, e Sezefredo Campos. Entre cuiadas quentes combinaram jogar uma partida de bilhar à noite, quando este regressasse de sua visita à madame Formiga, em Castro. À tarde, aproveitando-lhe a ausência, após atender um doente no Hotel Romão, sequioso de Carolina, o sedutor encontrou-a sentada na sala, fazendo crochê, e dispensou o menino João que cuidava da porta. Afogueado, tomou-a nos braços, cobriu-a na cama entre juras ardentes.

Ainda à luz do dia, Sezefredo chegou desfilando de caleça com madame Formiga, o sem-vergonha. Zé Galinha, a quem devia e não pagava o que perdera no pôquer, vingou-se despertando a suspeita:

     - Dona Carolina não viu nada. Não abriu a farmácia hoje, fechou cedo a porta de casa.

Sezefredo achou-a muito mudada, contente, não podia ter sido curada tão depressa. Convidou o sócio para jantar, procurando certificar-se do que acontecera, sem dar demonstração de desconfiança. Venceram em dupla as duas partidas de bilhar que jogaram, conforme haviam combinado. De volta, beberam o café que lhes serviu Carolina, conversando até às nove.

A noite tornou-se sinistra. Maneco da banda já estava quase na esquina quando ouviu uma voz trespassar as janelas trancadas:

     - Não me mate! Não me mate!

Acenderam-se as luzes na vizinhança e o capitão Salvador chamou o doutor Glória, atravessando o largo:

     - Alguma coisa está acontecendo na casa do Sezefredo.

Em seguida o próprio Sezefredo foi bater à sua porta:

     - Glória, vai lá em casa, que eu vou à polícia.

O doutor e o capitão entraram na residência às escuras. Acenderam uma vela sobre a mesa de jantar, percorreram os compartimentos e viram as crianças dormindo. Abriram a porta do quarto do casal, iluminando-o com o lampião. Um quadro macabro. Carolina estirada na cama revolta, em trajes menores, ferida com trinta e duas facadas, o sangue nodoando o corpo e o leito, salpicando até as paredes. Ao lado da morta, um romance de Rocha Pombo e a carteira de cigarros que Glória esquecera no criado-mudo. Este descontrolou-se:

     - Que bárbaro! covarde! que infame! que fera! - e chorou convulsivamente.

A polícia encontrou-o de joelhos sobre o cadáver, e o capitão teve de arrastá-lo do local do crime. Os curiosos se aglomeraram e, para contê-los, foram destacadas sentinelas. Removido o corpo ao necrotério, de lá a multidão acompanhou o enterro. A banda comovendo-a, tocando atrás do coche fúnebre. Agitadores exaltavam os ânimos, à medida em que se atribuía a culpa do crime ao doutor Glória, acuado em sua residência. Execravam-no todos, inclusive os de sua própria classe. Não se admitia que um médico, então visto qual anjo ou sacerdote, "abusasse" de uma paciente. Parecia ele o autor das trinta e duas facadas, não Sezefredo, o assassino.

Vítor Machado vingou-se comandando a campanha de ódio e difamação, tripudiando sobre o rival. Vangloriou-se na confeitaria:

     - Eu disse que esse filho da puta me pagava.

Nos grupos formados no povoado, as acusações visavam um só alvo:

     - Foi o Glória o causador da tragédia.

     - Casado, com dois filhos. A mulher vive doente, vai morrer de desgosto.

     - Traiu o sócio, o amigo, abusou da vítima, desgraçou a pobrezinha.

     - Violou um lar e desrespeitou a sociedade pontagrossense.

     - Onde já se viu? Um médico assassino...

Poucos se atreviam a defendê-lo, e muitos se esqueciam de seu desprendimento, seus favores, sua dedicação à cabeceira dos doentes. Assim, a revolta sucedia à consternação do povo.

Glória não assistira ao sepultamento, porém uma paixão louca, profana, impelia-o a despedir-se da amada Carolina. À tarde, mandou arrear o cavalo e se foi troteando em direção ao cemitério. De revólver em punho, obrigou o coveiro a remover o túmulo e abrir o caixão. Abraçou-se à morta e, com exclamações de amor entre lágrimas, beijou-a inconsolável.

O fato espalhou-se com o pavor que o coveiro o relatava. A cidade acordou indignada no dia seguinte, e não se falava noutra coisa. Em ato de desagravo ao sacrilégio, o doutor Vítor insuflou a multidão, encerrando o palavrório da janela do Paço Municipal:

     - A sociedade ultrajada exige a expulsão do médico assassino, violador da honra alheia!

Um cortejo com caixão e velas, no enterro simbólico de Glória, passou em frente a sua casa, à porta da qual se encontrava o padre Gervásio. Fora do féretro, o defunto só não revidou a bala a afronta, dissolvendo o acompanhamento, por respeito aos amigos e familiares, enquanto a esposa desfalecia socorrida pela baronesa Ambrósia, Aparecida Ribas e outras senhoras. Dora e Letícia distraíam as crianças.

Vítor Machado não lhe deu tréguas. À noite, chegou com uma dezena de sequazes, bateu à porta, ordenando que abandonasse a cidade num prazo de vinte e quatro horas. Ao juiz Gusmão, que protestou lá de dentro, mandou andar em melhor companhia.

O jornal "Dezenove de Dezembro", de Curitiba, noticiou o telegrama que recebera do infortunado: "Machado, à frente de dez conservadores, meus inimigos, e capangas, vieram hoje intimar-me mudança em vinte e quatro horas. Nenhuma falta cometi. Não me retiro intimado." A "Galeria Ilustrada", com ampla reportagem, esgotou-se rapidamente. O jornal da corte, no Rio de Janeiro, "Gazeta de Notícias", publicou com destaque a história do crime, lamentando a sorte de Carolina, a qual só completara vinte anos de idade. Escandalizou o mundo a paixão profana, o beijo na amante após a violação da tumba. Foram inúteis, a pedido, os telegramas do padre Gervásio: "Recomendei a alma no enterro e não vi o doutor Glória beijar cadáver."

Tiroteio não houve na praça porque, se responsável ou não pela tragédia, já fora ele condenado pela opinião pública e perdera o respeito, a clientela, o ambiente. Hostilizavam-no por todos os modos, enxotando-o da cidade.

No dia em que, após a fuga, o aspirante Álvaro e Anita, de bem com a família, vieram casar na igreja, a banda musical espezinhou-o tocando para o povo. De sua casa, pálido e indignado, Glória ouviu a valsa "Trinta e Duas Facadas", composta pelo flautista Cesário, executada à saída dos noivos.

Tal caso de amor turbulento deixou marcas perenes. Na casa da esquina da igreja, onde foi morta Carolina, ninguém mais quis morar porque as manchas de sangue no chão, depois de lavadas, reapareciam. Crêem que vertem lágrimas na laje aqueles que acendem velas e levam flores à Carolina no "túmulo que chora".


 

 

 

O RIO HISTÓRICO

 

 

O clima na província igualava o da revolta do comércio. O governo local se desmandara fechando escolas e removendo professores. A população fazia coro com os jornais, protestando nas ruas:

     - É preciso derrubar a monarquia decadente!

Clubes e teatros ficavam socados de gente durante as palestras dos ativistas.

No Hotel Paraná, de elegantes salões, suculentos manjares e banhos de chuveiro, os viajantes traziam notícias de conflitos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na Confeitaria Esperança, na do Pupe ou no Café Glória, vinham mostrar-se coronéis civis com suas longas barbas, de poncho-pala, botas e chilenas, declarando-se contra o governo. Chefetes de lugarejos próximos, ainda no Partido Liberal. À Federação Abolicionista, que o major Solano presidira, somaram-se clubes como o Republicano e o dos Girondinos, sociedades operárias, sindicatos, lutando pela mudança do regime. A maioria da população queria escolher seus governantes, a democratização das eleições e autonomia para a província. Oficiais e subalternos, em grande número na capital, apoiavam os que desejavam ser cidadãos e não súditos. Formaram-se durante uma guerra sangrenta, de vitórias e reveses, e identificavam-se com as aspirações populares. O uniforme azul, rubro e dourado, quepe de bico duro - lembrava o pica-pau - não era apenas bonito e vistoso, porém glorioso.

A casta reinante fazia crer que a agitação se devia a um punhado insignificante de republicanos. Em seus cálculos só os conferencistas, uns poucos jornalistas e fundadores de clubes. Deixavam de fora os associados, os auditórios, a multidão anônima.

A repercussão do crime das trinta e duas facadas, o beijo na morta, o enterro simbólico do doutor Glória, enxotado de Ponta Grossa, aumentou a tensão na capital, onde os desafetos se encontraram na Assembléia. Glória não engolia desaforos e desferiu muitas bengaladas, tirando satisfações de quem se referia ao episódio difamando-o. O ex-professor Vítor retornou famoso, além de deputado e advogado de firmas ervateiras, absolvera Sezefredo por agir "com perda dos sentidos", culpando da tragédia o seu adversário político.

De viagem para a capital do país, Xandô despediu-se de um tempo muito feliz de sua vida. Sentia gratidão e uma saudade que doía no peito, qual se o vapor houvesse zarpado para o fim do mundo. O barco avançava, e seu pensamento ia de encontro a águas passadas, ele debruçado à amurada. Cenas da infância, o sobrado do Estrela, as travessuras, a Mão Negra, Letícia perturbando-o... A graça com que cantava modinhas e lundus. Matias o confeiteiro, seu ajudante pulando nu da tina, correndo nu pelas ruas apinhadas de gente. A animação do largo da igreja, na confeitaria, por que a política dividindo o povo? Alberto ao piano, ensaiando a moçada. Manoel atendendo o balcão, de olho no movimento das mesas e do bilhar. Uma família só, o pessoal dos serviços da casa. Dalila, a Bolsinha, irmã dos garçãos Ciro e Calimério que por ordem da viúva tinham de prestar obediência a Frederico, tentando-o às escondidas com requebros num quartinho do galpão. Cecília estava casada, aguardando-o no Rio de Janeiro. Frederico, que lhe custeava os estudos, falando dos tempos de tropeiro nas rodadas de chimarrão, de vez em quando acendendo o palheiro. Naná pensativa, sentada à mesa da cozinha, o rosto apoiado na palma da mão, os cabelos prateados. As pretas a se estorvarem entre o fogão e o guichê, as dóceis pretas que o faziam dormir sonhando com histórias. De Curitiba - o casarão, o Instituto, o Tanque do Bacacheri, o Passeio Público, os piqueniques, os saraus, as festas ao ar livre, o Chafariz, o teatro, o circo. Uma quermesse de pedra e cal nos dias de sol. A inauguração dos bondinhos de burros, Belinha nos braços. Por que com a distância diminuía ou se modificava o que sentia por ela? Então não lhe tinha amor. Tio Silva, o major Solano e suas filhas. Fernando Barreto e o circo, mestre Salvador, membros da Ultimatum.

A mente à deriva em lembranças ia de encontro à imagem de Letícia. Por que o perseguia? - indagava sem saber dar resposta. Apesar do devaneio, ele e Estácio conversaram sobre a viagem, o balanço do vapor, o capitão e os tripulantes. Contagiante o entusiasmo de Estácio, que lhe confidenciou:

     - Quando me formar em direito, quero ser presidente da província, quem sabe presidente da República. Ou então embaixador, um grande jurista.

Ainda sob as impressões da leitura de "Os Miseráveis", Xandô disse preferir ser advogado dos pobres e dos injustiçados. Tinham ilusões diferentes, porém os mesmos ideais.

Desembarcaram pela manhã, encantados com o Rio de Janeiro. Parecia esculpido na natureza, e um homem novo, cordial, sobrepondo-se a todos os aspectos negativos, tornava-a mais bela ainda. Miscegenavam-se as raças, lado a lado o luxuoso e o miserável, o perfeito e o mal-acabado. Tílburis e bondinhos de burros cortavam as ruas. Um calor abafante, o ar estagnado. O mar vinha exibir-se na praia, porém a cidade dava-lhe as costas voltada para o lado oposto. Podia-se avistá-la nua lá do alto dos morros. Sentia-se a falta de algo no Corcovado, um vazio talvez compensado pela cruz de estrelas indicando o Sul. O Aqueduto, sim, constituía obra monumental. Havia becos insalubres, e o Canal do Mangue, poluído por esgotos, provinha dos arrabaldes de Tijucas. Os insetos proliferavam com o calor e sujeira das feiras, dos matadouros, atacando por toda parte. A febre amarela flagelava os habitantes.

O fiacre de aluguel, que tomaram ao deixarem o cais, passou por várias casas de luto com cortinas negras de cruz dourada à porta. Uma multidão de rostos descorados e, no centro, enxameavam as alfaiatarias, chapelarias, joalherias.

Ainda atônitos, chegaram ao destino. Um quarto fora reservado a Xandô na pensão de Mme. Souza, um sobradinho em zona de cortiços. Asseada e com os cuidados de pessoas prestimosas como a dona, não se adequava às descrições com imundícies tão a gosto da literatura naturalista. O marido construíra a hospedaria, um prédio barato, com o que lhe rendera o primeiro quiosque do Largo da Sé, antes de a epidemia levá-lo deste mundo. Com a pensão funcionando e criados de confiança, a viúva ficou à testa do negócio. Ali se separaram, e Estácio se dirigiu ao Hotel Cintra, onde havia um só quarto vago. Estranhou as repartições de pano e papel, telhado sem forro, tábuas rachadas e cheias de frestas. Queixava-se das galinhas e pombos, do galo tocando corneta qual se estivesse num quartel. Mudou-se para o Hotel Rovot, de gente relaxada, enquanto aguardou acomodação prometida pela viúva.

De malas nas mãos, Xandô subiu a escada e entrou num dos quartinhos com janela de peitoril que o prédio despejava para a rua. As melhores casas ocupavam a área, mas em direção ao morro havia um casario pobre e sujo, com fundos comuns e roupas nos varais. Na rua detrás da pensão, estabelecera-se pequeno comércio com taberna, quitandas e bazares. Nos fundões, alguns pardieiros, becos cheirando mal.

Madame Souza mantinha o capricho, limpeza nos quartos - roupa de cama, toalha, água na jarra - na cozinha e no refeitório. Três mulatas no serviço, além do criado afeminado. A cozinheira morava com o português no galpão dos fundos, separado por uma cerca. Este fazia biscates de pedreiro. Beirava os cinqüenta, cofiando os bigodes, satisfeito da vida, pois Izabela não passava dos trinta. Depois de Mme. Souza, mandava mais, dava ordens na cozinha e à arrumadeira, filha de Marieta, a lavadeira, que moravam juntas no outro cômodo do galpão.

Mme. Souza enviuvara com dois filhos em idade escolar, Alfredo e Henrique. Este, o caçula, estava de cama, motivo de sua aflição. O tratamento era um só: óleo de rícino e... cobertores. Dera-lhe um banho quente. Xandô ouviu-a protestar:

     - Os ricos fogem para Petrópolis, para as mansões de veraneio, deixando a cidade entregue aos ratos, aos mosquitos e aos pobres. Vão fedendo por baixo das sedas esses lordes e galegos...

     - Só de febre amarela esses bichos matam mais de mil pessoas por ano aqui no Rio. No cemitério do Caju, presidiários e voluntários estão fazendo as vezes de coveiros, abrindo valas para os mortos - interveio o hóspede mais antigo.

     - Essa peste veio dos Estados Unidos, nos porões dos navios.

Agora os turistas não vêm mais para cá, ainda mais com a onda de assaltos - lamentou outro.

Talvez fosse mal menor o de Henrique, porém a mãe parecia apavorada:

     - Não vou deixar mais as crianças irem à escola, até os teatros estão vazios, as companhias cancelaram as apresentações, tem gente morrendo como formiga e ninguém faz nada. Essa peste é pior que a guerra.

Xandô espantou-se e perguntou:

     - Que guerra?

     - Tu não sabes? Essa do fim da monarquia. Não sabes que está pipocando Brasil afora? Donde vens, então? Tem motim em toda parte, no Sul, no Norte. Eu vi brigas de grupos armados. Nas ruas do Ouvidor, do Teatro, de Luís de Camões e na Travessa do Rosário a cavalaria dispersou o povo a pranchadas. Houve mais de duzentos feridos. Não sabes que quase mataram o doutor Silva Jardim à saída da Sociedade Francesa de Ginástica?

Ao almoçarem na mesa grande do refeitório, comentavam:

     - A guarda negra persegue os que mais lutaram contra a escravidão.

     - Ainda há quem defenda a monarquia por causa da Princesa Isabel. Não viram a multidão que se formou no dia treze de maio?

     - O pobre quer o direito do eleitor, até o negro deve ter o direito de votar.

O funcionário que falou foi interpelado pelo estudante de medicina, o qual procurou esclarecê-lo:

     - Até os negros por quê? Eles em primeiro lugar, pois construíram o Brasil. Sabes? - prosseguiu- os falsos abolicionistas é que, como alguns escritores, julgam o negro inferior. São uns racistas.

     - Muito bem falado - aplaudiu o português que acabara de consertar uma das poltronas, português abrasileirado e não da casta dos galegos.

O mesmo pensionista indagou de Xandô:

     - Tu não sabias que na Bahia, em Ilhéus, bandidos tomaram a cidade, arrombando casas comerciais, aterrorizando a população? O império está em ruínas - concluiu convicto.

O Rio de Janeiro alarmava-se com tantas desordens no país, a quarentena da peste, a corte gozando em Petrópolis. Qual urbe de ressonância, na capital sentia-se o pulsar de toda a nação. Benvindo, Xandô adaptou-se imediatamente ao viver carioca. Certamente que as interpelações "de onde és tu?" só inexistiam no Paraná. Fascinou-o nas moças o falar chiado, palavras suspiradas. Pareciam-lhe beijos sonoros. Galanteando, dissera a uma que tal se devia à influência do mar. Saía em direção à Faculdade na hora do movimento de empregados do comércio. Negros que se agachavam nas soleiras das portas, trançando palha, tiravam o chapéu, cumprimentando-o com mesura:

     - Bom dia, senhor acadêmico. Como passou vosmicê a noite? Espero que Vossa Graça goze boa saúde.

Achava-os bons como os do Sul e pensava: Se há os que armam brigas, furtam fidalgos e turistas, é conseqüência dos maus tratos.

Ex-escravos chegavam das fazendas de café onde viviam como galés, debaixo de chicote, mãos sangrando nas enxadas. Erguiam barracos miseráveis arribando os morros.

De coches e carroças, os ricos em cupê, vitória, caleche ou landau - na boléia um negro de casaca - todos davam passagem ao bonde de mulas tilintando as campainhas e sujando as ruas. Vendedores atravancavam-nas, não bastasse o mendigo dos pés gigantes. Um sujeito que os colegas apelidaram de "poeta de galinheiro" morava no Hotel Cintra e saíra com esta:

     " Onde eu moro canta o galo

     e tem merda de galinha,

     na rua que se caminha

     só tem bosta de cavalo."

Havia exagero nas reclamações, o poeta de galinheiro poderia hospedar-se em hotéis de primeira como o França, Europa e Frère Provençaux.

Cafés, botequins e bilhares, que serviam média de café pingado, pão e manteiga, fervilhavam de gente. Os acadêmicos também os freqüentavam. Xandô gostava de conversar com os tamanqueiros do beco do Fisco, com os bacalhoeiros e os empregados nas sapatarias, tinturarias e fabriquetas próximas à pensão. Aproximava-se pensando: sou igual, sou estudante, sou povo. Via que os negros eram fortes e os brancos fracos, o que desmentia os autores. Os mestiços, malandrins, bons de briga, de capoeira e golpes de navalha, apesar de franzinos. As mulheres de cor, altas, rijas, bonitas, de colos e braços nus luzidios. Ouvia nascer da raça uma música de ritmo novo. Acordado pelo canto nos cortiços, comentou com os colegas:

     - Se Carlos Gomes e Itiberê da Cunha estivessem aqui, não em Milão, poderiam compor o Coro das Lavadeiras.

Nos principais quarteirões que se estendiam do Largo de São Francisco, ficava o comércio de luxo. Mais movimentada a Rua Direita. Na do Ouvidor com seus prédios de sacadas, telhados salientes, o mundo chique se dirigia às lojas francesas Tour Eiffel, Notre Dame e Palais Royal, misturando-se ao pessoal das redações dos jornais, estudantes e populares que freqüentavam os cafés. Os homens virando os rostos para seguirem as moças com os olhos. Bem cinturadas, estas passavam de saias amplas, traseiros em tufo, coletes de barbatanas, chapéus cobrindo os cabelos encaracolados. Os lampiões clareavam a noite para cavalheiros enrolados em cachecóis, com galochas, guarda-chuva ou bengala. Burguesia e pequena borra imperial, cuja preeminência se retirava para os palácios de Petrópolis.

Já havia povo no Rio de Janeiro, onde melhor se organizavam burgueses e operários. A massa nas ruas, nos terreiros de danças terminando em capoeira, rasteiras, rabos-de-arraia, navalhadas. Campeava a capoeiragem e ao ouvir-se uma banda, as casas fechavam-se de medo de assaltantes. Os cortiços estendiam-se até o centro, enfeado pelo Cabeça de Porco. Os ciganos que negociavam escravos e animais no Valongo, integrados à população, já moravam em boas residências.

Diminuindo as tarifas alfandegárias, a monarquia impedira a industrialização do país. A escravatura vedara o desenvolvimento do capitalismo, mas o Rio de Janeiro possuía a metade das fábricas. As empresas de importação e exportação prosperaram. As pontes de aço e os lampiões que iluminavam as cidades saíam de uma fundição com mais de mil operários, na Ponta da Areia. Lá foram construídos setenta e dois navios. Desativou-a a isenção de taxas aos barcos estrangeiros. Os trabalhadores manifestavam-se contra o regime, protestando contra a exploração de menores, longas jornadas de trabalho e baixos salários. Tinham clubes e trataram de fundar o Partido Operário. Não só aos negros que formigavam nas encostas dos morros faltava serviço.

As chamas da rebeldia nas províncias causavam a ebulição no Rio de Janeiro. Não bastassem os salteadores fazendo ponto no Arco do Teles, assombravam a capital a peste e os boatos alarmantes. O nervosismo aumentava a importância de pequenos incidentes.

No ponto de cargas com os produtos que chegavam dos subúrbios, Xandô meteu-se numa encrenca, levando uma porção de sopapos. Um landau interceptou uma carroça de galinhas que se debatiam sangrando, penduradas pelo pescoço, enforcadas. Tomando-lhes as dores, um moço de sangue azul como seus próprios olhos deixou a irmã desesperada na carruagem e saiu a gritar com o verdureiro:

     - Não vês que estão sofrendo?! Tu queres ser pendurado pelo pescoço? - desprendeu-as da carroceria.

 

Um ambulante instigou a turba que se formou em volta:

     - Filhote de barão não tem pena de pobre, tem pena de galinha, merece uma coça.

Xandô intercedeu e ambos foram salvos pelas galinhas, pois enquanto agredidos por alguns, a maior parte do ajuntamento se desfez porque os vagabundos correram a apanhá-las, fugindo com elas debaixo dos braços. A polícia acabou o tumulto e tomou partido, colocando-se às ordens do jovem, reconhecido como um nobre. Sem se aproveitar do fato, ele pagou o prejuízo ao carroceiro e, sem que lhe dessem ouvido, advertiu que era proibido maltratar os animais. Tratou a todos com ar de superioridade, inclusive Xandô com a equimose sob um dos olhos e vergão no pescoço. Mandá-lo-ia à merda, não fora a irmã agradecer-lhe com aquele murmúrio suave de palavras, aquele chiado de mar na voz, acalmando-o.

     - Muito obrigada pelo que fizeste pelo Orestes. Não fosse por ti, não sei o que teria sido. Meu irmão é como eu, não pode ver um bichinho sofrendo. Como te chamas?

     - Antônio da Silva Xandô. Me tratam só por Xandô.

     - Vê-se que não és do Rio...

     - Não. Sou de Ponta Grossa, no Paraná.

     - De onde?! - achou graça, encabulando-o e, por isso, a recusa de um lugar no landau.

A vendeira que o observara interpelou-o como quem ralha e diz bem-feito:

     - Viste, intrometeste onde não devias.

Surpresa foi encontrar Orestes como seu colega na aula inaugural da Faculdade. Entenderam-se, apresentou-o a Estácio, tornaram-se amigos.

De bem na pensão, começou a amar o Rio de Janeiro que, em troca, abria-lhe as portas. Acompanhava os meninos à escola qual se fora irmão mais velho. Prestava pequenos favores, uma providência, uma compra. Só demorava quando ia buscar o maço de cigarros "Veado", para Gigi, o acendedor-de-lampiões. Prendiam-no na roda de prosa da Charutaria e Engraxataria. Aos sábados, trazia a roupa lavada e passada do casebre do Maneco, o qual ganhava a vida com carroça de mão, amancebado com a mulata Biduca, lavadeira. Estudante algum granjeou tal simpatia em tão pouco tempo. Até nos cortiços a cidade confiava-lhe segredos. Cortava os cabelos no salão da esquina cheio de passarinhos nas gaiolas, onde o barbeiro lhe dissera:

     - Muro que separa a casa do pobre é trincheira.

Em toda parte falava-se mal dos ministérios, do Conde D’Eux, dos galegos, da aristocracia. Nem os soldados da polícia ou do exército se calavam.

Agradecera ao cunhado as providências e o oferecimento de hospedagem. Não a aceitara por respeito à privacidade do casal, não queria tornar-se um estorvo, morando e estudando de graça - explicou-lhe. Iria procurar um emprego. Não lhe disse que recusava pelo fato de ser um republicano, temendo atritar-se em casa com o oficial da Marinha Imperial. Expusera isso a Frederico e, em particular, à Cecília.

Na mesma tarde em que se justificou com Carvalho Mendes, surpreendeu-o na pensão a visita do major Solano. Sem a intenção, exclamou:

     - O pica-pau!

Não precisou desculpar-se, o major sorriu, atraindo a atenção dos pensionistas.

     - Dá cá um abraço, tchê! Disseste a teus colegas que tens amigo no regimento de cavalaria sediado em São Cristóvão? Picapau é alusão carinhosa a quem veste farda - dirigiu-se aos demais.

     - Já falei do Arcabuz, da Ultimatum, da Federação Abolicionista e que Tio Silva, ao saber de sua transferência para cá, previu a queda da monarquia - gracejou com ar respeitoso.

     - Continuas peralta, hein? Não te meteste nalguma barafunda?

Madame Souza interveio:

     - Aqui ele é como um filho, major.

     - Muito bonzinho..., armou a maior confusão na feira, uma briga com galinhas - caçoou o mais confiado.

     - Depois me contas. Vou precisar de ti, espero-te em casa, amanhã às oito, visto? Soubeste do assassinato de Carolina pelo marido Sezefredo, em Ponta Grossa? Do que aconteceu com o doutor Glória? Por certo não lês o jornal da corte, a "Gazeta de Notícias".

Fez-se silêncio para ouvir do major Solano como fora morta Carolina. Impressionaram-se ainda com o relato do beijo no cadáver, o enterro simbólico do médico amante e sua expulsão pelo tal doutor Vítor Machado. Jorginho, o garção, quase derrubou as xícaras da bandeja, lamentando-se:

     - Ai, que me deu um arrepio na espinha... Isso sim é que é paixão. Lá tem homens, e eu aqui neste Rio de Janeiro!

Começaram a falar sobre o oficial picapau nas tavernas e até nos cortiços. Havia muitos nos quartéis.

À tragédia relatada, só se referiam nas altas rodas porque o casal fora conhecido na corte. Com o jornal nas mãos, D. Pedro comentou no Paço:

     - No Brasil, tudo acontece, parece outro mundo. Em Ponta Grossa, um crime hediondo desses, o médico perdendo o juízo, e lá deverão chegar os anarquistas que eu trouxe da Europa para fundarem uma colônia. No nordeste, o flagelo da seca, cangaceiros pondo as populações em sobressalto. No Juazeiro, tingiu-se de sangue a hóstia na boca de uma beata, o padre Cícero provocando uma explosão de fanatismo.

O Rio de Janeiro e seus contrastes refletiam o país. Antes de dormir, Xandô fitava estrelas à janela, ouvindo o som de um chorado baiano ou a voz de alguma lavadeira. A cidade espelhava o passado, abalada pela escravidão de quatrocentos anos em seus alicerces. Com a monarquia não desapareciam os vestígios de pelourinho, açoutes, torturas, pena de forca. A paisagem humana ilustrava a tragédia. Os negros na miséria, o povo nos cortiços. Para um estudante o Rio se abria como um livro de história empedrado à beira-mar. Virando-lhe as ruas qual folhas, percorrendo-lhe as páginas povoadas, abeberava-se de saber.

De um rancho no morro Cara de Cão - fora a capital dos tamoios - virara capital de um império. Cariocas os habitantes, em sua maioria caboclos da gema. Para três mil índios havia setecentos brancos e cem negros. No tempo dos sete vice-reis, todos condes, tempo do saque de ouro e diamantes para Portugal, quando o Papa, os cardeais e todos os reis da terra felicitavam o lusitano, ela já exibia como capital do vice-reino um troféu: a cabeça de Tiradentes.

Os velhos conversavam de antigamente:

     - No tempo dos sete vice-reis, havia a coroação do rei e da rainha dos negros, com batuque, os tambores, os canzás, as marimbas, danças.

     - Tinha loja de escravos na Rua da Valonga. Viam-se os negros de tanga, outros acorrentados ou com o colar de ferro.

     - De dia os escravos carregavam as senhoras nas cadeirinhas. Depois do pôr-do-sol passavam com os cabungos cheios de merda dos brancos, que despejavam nas praias.

Deles a juventude herdara a ojeriza contra a casta aristocrática. Os estudantes percebiam claramente que havia uma só luta pela Independência, pela Abolição e pela República. Sintomático o modo carioca de dizer que no fim do sétimo vice-reinado, ao salvar da artilharia, foguetes e repiques de sinos, desembarcara uma corja de desertores chefiados pelo monarca, quinze mil desocupados para roubar-lhes as propriedades. Fugiram da pátria e, distribuídos pelos palácios, viviam à custa de trabalho escravo. Não ganhavam o pão com as próprias mãos. Donos de belíssimas chácaras nos arredores e de mansões assobradadas, locupletavam-se nos altos cargos. O povo via-os isolados nos coches com um negro de libré e botas. Brancos não fidalgos pertenciam ao foro, médicos, professores, funcionários graduados. Eles e os galegos recebiam comendas. Pródiga em grã-cruzes, com elas a monarquia mantinha o apoio de altos  chefes da marinha e do exército. Centenas de abrasonados, cobertos de veneras e fitões, viveram com grande fausto. D.Pedro I desprezava os brancos azeitonados, fracos de físico, por serem mestiços chamava-os de macacos. De seu reinado restavam lembranças de corrupção, levantes e massacres.

A corte caía de podre, suspensa apenas pelo fio de respeitabilidade a D.Pedro II e à Isabel que, decretando a abolição, sentenciara de morte o regime.

Num café ou numa tabacaria, Xandô ouvia que na capital do Reino, a cadeia de Aljube, com subterrâneos infectos, podendo castigar quinze presos, mantinha mais de trezentos, montes de criminosos de roldão com jornalistas e políticos. Concluía que não mudara muita coisa, pois os cubículos das fortalezas estavam abarrotados de republicanos.

Convencera-se de que o móvel de uma revolução, mais de que a fome é o espírito de justiça. O preto velho que o tratava de senhor acadêmico, contou-lhe casos. Rememorou o da menina Isaura, de onze anos, a qual desobedecendo as ordens foi torturada até à morte pelo dono. O monstro enterrou-a no fundo do quintal, mas o cadáver veio a boiar numa enxurrada, revelando o crime. Um negro beirando oitenta falou-lhe sobre o Toque de Aragão, o sino da igreja que dava dez horas para os escravos se recolherem com caixeiros e empregados cuja labuta começava às quatro da madrugada.

     - Negrinho na rua ia parar no xilindró.

As vovós ainda fofocavam de Carlota Joaquina:

     - Tinha ódio do Brasil a bexiguenta. Para ela - um país de negros e feras. Quando voltou para Portugal, no desembarque sacudiu os sapatos de cetim, limpando-o de "pó do Brasil". Foi amante do Fernandinho - o Petrônio da época - e mandou matar-lhe a esposa Angélica, a qual tombou ao lado das filhas numa caleche, atingida por um tiro de bacamarte na ponte do Catete.

O passado parecia cada vez mais presente no Rio de Janeiro. Na taberna que os acadêmicos freqüentavam, um jornalista baiano, macróbio das redações, impressionou-os com suas histórias. À sua mesa, o sargento que tocava clarineta na banda da polícia afirmou que as favelas seriam os quilombos do futuro. Foi quando o velho contou, provocando-lhes arrepios:

     - Eu era uma criança. No dia da execução de Ratclif, chefe republicano do levante de Pernambuco, vi um irmão da Misericórdia, vestido de balandrau, badalando uma campainha antes do cortejo, dizendo: Orai por vossos irmãos padecentes. Plangiam os sinos da igreja. Os condenados ouviram missa, depois os três subiram ao patíbulo. No caminho, um franciscano xingou Ratclif: Rebelde! O carrasco tinha pressa, Ratclif consolou os companheiros, e o padre não o deixou gritar Viva a República! Não o enterraram como os outros dois enforcados. Um doutor, de avental branco, decepou-lhe a cabeça e pôs num barril cheio de sal. D.Pedro I mandou um oficial de nome Galvão levar o barril para D.Carlota Joaquina, em Portugal.

Na viagem por mar - prosseguiu - houve uma tempestade, o navio rangeu, rugiu e ruiu - bumba! só se salvou o oficial Galvão, agarrado ao barril que boiava sobre as ondas. Quando declararam na sentença "morra o réu", um desembargador morreu na Rua da Quitanda e, passados uns dias, outro ficou louco. O oficial que levou a cabeça morreu alucinado em Niterói, um filho suicidou-se, degolando-se; o marido de uma neta também se matou, e uma bisneta foi parar no hospício - concluiu num tom macabro.

A julgar pelo que dizia nas tabernas, o país tinha memória. Porém ele próprio punha o fato em dúvida:

     - O Brasil se desconhece. De uns tempos prá cá é que se estuda a Inconfidência Mineira, mas quem sabe da conspiração baiana? - perguntou, deixando-os atentos até às primeiras horas da madrugada, pois refazia seu relato, pausadamente entre goles:

     - O governo da Metrópole procurou apagá-la da memória do povo. A maior de todas as conjurações foi a de João de Deus. Espalharam-se "avisos ao povo baiense" de que estava para chegar o tempo em que "todos seremos iguais". Eram seiscentas e setenta e seis pessoas no movimento: quarenta e oito clérigos, quatorze terésios, quatorze franciscanos, oito frades bentos e três barbudinhos; trinta e quatro oficiais de linha, cinqüenta e quatro de milícias, onze graduados em postos e cargos; dezoito graduados em lei e mais oito de comércio. Havia ainda oito homens do comum, uma centena de inferiores de linha e milícias, e quase trezentos soldados. Cipriano Barata estava envolvido. Diziam: "Queremos a República para respirar livremente." As denúncias apontavam para Cipriano Barata, culpando-o de "achar-se a Bahia cheia de jacobinos que fazem descaradamente casas de assembléia..."

Para apressar a revolta, João de Deus, pardo, alfaiate, pôs-se a aliciar gente. Após uma reunião, foi preso com mais de cinqüenta rebeldes, todos moços. Reconheciam-se pela barba crescida, argolinha numa orelha, búzio de Angola na cadeia do relógio. Onze foram condenados à forca. O que redigiu os avisos teve as mãos decepadas depois de morto. Os degredados foram para a África. Manoel Faustino, um adolescente, e João de Deus, alfaiate pobre, por sonharem com o tempo em que todos seriam como irmãos, morreram pendentes de uma corda, no meio da Praça da Piedade. Seus corpos foram esquartejados e atados a postes. Na manhã em que João de Deus foi preso com sua mulher, só havia oitenta réis em sua casa para o sustento de seus oito filhos - arrematou.

Não era o único fazendo a campanha surda contra a monarquia, e ao sábio afeiçoou-se o grupo. Esclarecera Xandô sobre o que Jango, carpinteiro de sua vila, quisera dizer com três poderes, lei de Deus, amor e trabalho. Explicou-lhe que a lei de Deus rege o universo e a vida, que com o trabalho o homem constrói o mundo, e com o amor pode torná-lo fraterno e feliz.

A religião continuava a ser base da vida social carioca. Festas de santos, ladainhas, novenas, as pessoas encontrando-se na igreja. O foguetório assustando o céu, em cada habitação um oratório na sala. Antes, o comércio fechava na hora da missa. A cidade conservou os costumes, as casas com quintais de criação, quando não perdiam o espaço para os amontoados de gentios. Nas abastadas, de retrato a óleo na parede da sala, os estofados e o gorgorão escarlate. O consolo com jarras de porcelana e pêndulos de metal dourado a fogo, estes colocados sob redomas e mangas de vidro. A população, em sua maioria, contava com mobília pobre, cadeiras de palha.

Xandô e Estácio compareceram à reunião na casa do major Solano e ficaram a par do que ocorria no exército. Provindos do povo, conhecendo o Brasil, promovidos em campos de batalha, os oficiais que chefiaram guarnições na província, formavam-lhe a vanguarda. Comandavam soldados negros e mestiços, seus camaradas de armas, desprezados pela nobreza. Atacavam-nos em sua honorabilidade os porta-vozes monarquistas, negando-lhes direitos, humilhando-os no parlamento e na imprensa. Ao hostilizá-los, o governo promovia a remoção de batalhões e regimentos inteiros. Estavam todos cientes da advertência que fez o major Solano:

     - Temos de agir antes que o governo resolva extinguir o exército. Discute-se no palácio o aumento da guarda nacional, da polícia, a formação de uma guarda cívica e mais apoio à guarda negra.

Um dos civis presentes lembrou o que havia dito Saldanha Marinho numa sessão maçônica:

     "- Só precisamos dar um empurrão final para derrubar a monarquia."

Entre os oficiais encontrava-se também o paranaense Irani, da artilharia, responsável pela ligação entre as diversas unidades.

A conspiração que se urdia em todo o país culminava no Rio de Janeiro. A palavra federação, exigência das províncias, soava como primeiro sinal do desmoronamento do regime. A apropriação pelo governo central da renda anual de vinte e cinco mil contos de réis com o café, levou fazendeiros a entenderem federalismo por separatismo, quando circulou o livro "Pátria Paulista". O país estava enfermo qual D.Pedro com seus diabetes. Votos só havia para que caísse do trono. Não se admitiu a hipótese de um terceiro reinado, descartada até mesmo por seus simpatizantes. Um tanto alheio aos fatos, durante a "Fala do Trono" definira a situação interna como "tranqüila, com ocorrência de fatos isolados de pequena gravidade". Ao terminar com uma chave de ouro um soneto, convocou o Visconde de Ouro Preto para chefiar um ministério e reprimir manifestações. Mas abusaram da poética passividade do rei. O professor Benjamim Constant chegou a sugerir-lhe no palácio:

     - A nação ficaria eternamente agradecida a V.M. se instituísse a República.

Prevenira-o a princesa Isabel, muito católica, abespinhada com positivistas:

     - Eu não confio nesse homem.

     - Não digas tal coisa, filha. Ele é um homem franco, muito meu amigo.

O Brasil era um país difícil de compreender. Com todo o clima de agitação revolucionária, ocorriam inúmeras manifestações de simpatia a D.Pedro ou à Isabel. Depois de tudo que já observara em sua vida, na infância e na juventude, Xandô também se dava conta de que o povo era um povo rebelde, porém por amor e não ódio. Esta a causa da aparente incongruência popular.

Numa certa noite, o grupo de jovens acercou-se de Pardal Malet num dos cafés. Este deu o seu revólver a Adriano, um caixeiro menor de idade, o qual saiu para a rua e, assim que o imperador saiu do Teatro Santana, disparou um tiro para o ar, gritando "Viva a República!" Durante o tumulto, Xandô foi salvo por Orestes e sua irmã Laiz que foram à função e lhe deram fuga na caleche.

Em face da prisão de Adriano, explorada como ação contra terroristas, começou a guerra dos gritos. Para combater o vivório à República, o chefe de polícia organizou um bando que saía berrando pelas ruas: "Viva a Monarquia! Abaixo a República!"

No Largo da Misericórdia, os estudantes deram  uma tremenda vaia no Visconde de Ouro Preto. Sabina, uma baiana, encontrava-se lá com seu tabuleiro. Quando a carruagem que vinha seguida de dois soldados a cavalo foi barrada, os jovens bradaram: "Viva a República!" Municiou-os o tabuleiro da baiana para que estourassem laranjas sobre os soldados e a carruagem, espantando os cavalos. Acompanharam-no por toda parte os apupos.

A baiana Sabina chorou com medo de perder seu tabuleiro e não poder pagar o aluguel do cortiço, pois em represália a polícia deteve-a, proibindo-a de vender sua mercadoria. Os fregueses acudiram indignados às suas lágrimas, organizando uma grande passeata de protesto. Acompanhados de banda de música, espetaram laranjas nas pontas das bengalas e percorreram a cidade, aplaudidos pela população. Entre eles alguma moças vestidas de baiana, inclusive Laiz, irmã de Orestes. Um corso com comícios pelo caminho. Na sacada da redação do jornal "O País", um quintanista de medicina resumiu tudo numa exclamação, levando a massa ao delírio:

     - Esta manifestação é uma nova e gloriosa Sabinada!

Xandô venceu a timidez e protestou contra a exploração que se fazia em torno do incidente à saída do Teatro Santana e a prisão de civis e militares. Ao denunciar a transferência de batalhões para o interior, os oficiais da Rua do Ouvidor vibraram - Bravos! Muito bem!

Encerrou o seu discurso, ouvindo-lhes as exclamações.

     - O governo reorganiza a guarda municipal, cria a guarda cívica, protege a guarda negra, tenta enfraquecer o exército por todos os meios e até dasarmá-lo!

Com uma sentença categórica, Estácio provocou o clamor popular:

     - O povo brasileiro quer a República!

Os estudantes ganharam a batalha. A passeata abalou o governo que demitiu o delegado. Sabina voltou de tabuleiro e toda prosa ao Largo da Misericórdia.

Parte da imprensa, sintonizando com a "Fala do Trono", insistia em negar a revolução em andamento. Uma reação desesperada minimizava o êxito da campanha republicana, ocultando o que ocorria no país. Fazia pouco caso das manifestações populares e taxava de pasquins os jornais. Porém não mais podia impedir a ação de clubes, associações, sindicatos, sociedades secretas, maçonaria e, muito menos, a união povo-soldado. A repressão tornara-se cada vez mais contraproducente, como naquele ano da visita de D.Pedro ao Paraná, quando Lopes Trovão discursara e a polícia destruíra o Café Loanda, na Praça da Constituição. Recentemente, o povo brasileiro tomara a praça e as ruas, cantando a Marselhesa na comemoração da Queda da Bastilha. No Rio, foi recebido com salva de artilharia e dispersado por cargas da cavalaria policial e da guarda negra.

A revolução, após a conquista da libertação dos escravos, evoluíra rapidamente para a sua fase decisiva. O general que lhe assumiria o comando, despistava os inimigos, mas se comprometia com quem lhe merecia confiança. Deixou clara a sua posição:

     "- Enfim, se a causa é contra os casacas, lá tenho a minha espingarda velha."

Certamente temia a pusilanimidade de arrivistas, casacas hoje, vira-casacas amanhã. Cauteloso, sugeriu ao major Solano que tratassem de convencer Deodoro, chefe do Exército, o qual tivera uma recepção triunfal num ato de desagravo, ao retornar de Corumbá. Então os líderes dirigiram suas atenções ao velho marechal. Indignados, não se continham os oficiais:

     - Não podemos ficar indiferentes à prisão do tenente Carolino e à transferência do batalhão de infantaria.

     - Com ajuda dos sobrinhos, que são camaradas de armas, temos de tirar o marechal da cama.

Sucediam-se-lhe as visitas, porém o doente conservava-se fiel a D.Pedro II, seu amigo. Atribuía os desmandos ao gabinete. Até que um capitão e um tenente, vindos do Rio Grande do Sul, foram a seu palacete para queixar-se das perseguições movidas pelo governo do conselheiro Gaspar Martins. Ah! não se esquecia de que este subira à tribuna do Senado para ridicularizá-lo perante à nação. Fervia-lhe o sangue ao lembrar-se das palavras:

     "- Recordo que, quando comandante de uma divisão de observação, dividira-a em duas brigadas, confiando o comando de uma a um paralítico e o da outra a um octogenário que caiu do cavalo parado."

Ao ouvir-lhe o nome, o marechal Deodoro da Fonseca seria capaz de erguer-se do túmulo.

      


 

 

 

FESTAS CHILENAS

 

 

I

 

No fim de outubro, ao recepcionar a esquadra chilena na Escola Militar da Praia Vermelha, Benjamim Constant declarou sem a menor hesitação:

     "- A força armada poderá depor na praça pública o governo, quando entender que seus brios o exigem ou julgar conveniente e acertado, para o bem da pátria."

Já não eram tão secretas as reuniões nos quartéis ou no escritório de Quintino Bocaiúva.

A recepção fazia parte de um plano da diplomacia brasileira para evitar uma guerra no continente. O poderoso Visconde de Ouro Preto aproveitou a ocasião para atrair de novo a elite que desertara da corte. Com a mão no tesouro, abriu o período chamado de Festas Chilenas. Com uma apoteose real esperava vencer os opositores. Desde que se festejara no Rio de Janeiro a aclamação de D.João, com préstito de cento e tantos cavaleiros acompanhando dois grandes carros ornamentados de flores, ao som de uma charanga, há mais de trezentos anos, o carnaval constituía um exemplo de como o povo se impressionava com desfiles de grande aparato. Além de conhecer as vaidades burguesas, sabia quanto a pompa, o brilho e a imponência influenciavam as massas.

Para demonstrar a eternidade do reino e da corte, nada mais apropriado de que um baile monumental. Dinheiro a rodo transformou o prédio de estilo mourisco num castelo das mil e uma noites. Fora um posto de vigilância aduaneira numa ilha de ratos, a duzentos metros do centro. A família real haveria de ser vista descendo dos céus ao palácio da Ilha Fiscal. Sem se importar com os gastos, ou lembrar-se da pobreza das populações, o chefe anunciou aos membros de seu gabinete:

     - Este baile será o triunfo imperial.

As bandas imperiais e a do couraçado chileno animaram as celebrações da visita naval. No desfile pela cidade, tocaram o Hino Chile-Brasil, canção obrigatória que compôs Francisco Braga. Inegável o fascínio exercido pela nobreza e a corte, ainda não substituído no carnaval pelos carros alegóricos.

E o dia marcado chegou, nove de novembro, porém o bailado da monarquia durou até o dia quinze. Ninguém queria perder o espetáculo, pelo menos assistir à passagem dos felizardos, os convidados.

Na visita que Xandô fez à irmã, abriu-lhe a porta o guarda-marinha, e ela lhe deu a notícia:

     - Telegrafei a papai e mamãe, contando que vou ter nenê. Eles vão ser vovós e você titio.

Esplendia a morenice em seu rosto, a alegria em seus olhos.

     - Meus parabéns! E você também dá cá um abraço - dirigiu-se ao cunhado depois de acariciar a irmã.

Cecília achava uma pena que não se entendessem em política.

     - Podias morar conosco e nos acompanhar ao baile da Ilha Fiscal - convidou-o  o cunhado.

     - Eu lhe agradeço muito, mas... sabe? Já tenho até um emprego prometido no jornal. E me comprometi, a pedido do pai, a acompanhar uma moça lá do Sul, e sua mãe, à festa. Não quero mesmo perder a última ceia da aristocracia - gracejou.

     - Não dês crédito a boatos. Não subestimes a Marinha Imperial do Brasil. Te cuides com politiqueiros que querem dividir o país em republiquetas.

     - É sim. Mas nem os heróis do exército ou da marinha têm os pés no ar. Uns têm os pés na terra, outros no mar - desconversou sem dizer cousa alguma.

Quando saiu, Cecília estava envolvida com as amigas, discutindo detalhes dos vestidos.

Na lista dos convidados, organizada no palácio, constava o nome do major Solano. E foi dele a idéia de convocação da reunião no Clube Militar, aproveitando a data do baile na Ilha Fiscal. Pediu a Xandô que acompanhasse a filha e a esposa. Em sua residência, reinou a mesma animação, embora as mulheres mexericassem:

     - Por mais monumental que seja o baile, vai fazer falta o pé-de-valsa, o marechal Deodoro, para que o governo fique fortalecido.

     - Um pé-de-valsa galanteador. Sabes que no Sul se tornou inimigo de morte do conselheiro Gaspar Martins, por causa da Baronesa do Triunfo? Queria conquistá-la, mas Gaspar Martins levou vantagem ao cair da montaria na fazenda do pai da moça, quebrando a perna e recebendo dela os cuidados. O marechal não o suporta, não pode ouvir-lhe o nome, fica bufando.

     - Num salão de gala, nunca se viu maior garbo no comando de uma quadrilha.

     - Se não lhe falhasse o coração, iria à Ilha Fiscal com o uniforme vistoso, o peito repleto de medalhas e comendas, o escarlate à gola e à cintura, os punhos e galardões dourados. Quem não sabe de seu romance com a viuvinha?

     - Aí não adiantava nada a assembléia no Clube Militar.

A enfermidade do marechal Deodoro, a ausência do almirante Saldanha da Gama, a agitação revolucionária nas províncias, o descontentamento dos militares com os atos do gabinete, poderiam favorecer a mudança de regime por uma rápida ação armada. Aliciado o regimento de cavalaria, o major Solano garantira a adesão de outros quartéis. Era bom que as atenções se voltassem para o grande baile que o presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto, ofereceria aos oficiais do encouraçado chileno.

Os preparativos movimentaram o Rio de Janeiro, teve folga o conselheiro Basson e pôde relaxar a vigilância da polícia. De outra coisa não se falava, apesar das críticas acerbas de quem não recebia o convite aguardado, vingando-se nos cafés da Rua do Ouvidor:

     - Tudo à custa do povo. Duzentos e cinqüenta contos de réis jogados fora. Vão gastar uma fortuna, dez por cento do orçamento da província.

     - Um acinte.

Nas lojas de roupas finas, na Casa Welicamp, na Palais Royal e na Mme. Roche, as damas escolhiam toaletes, sedas, rendas, chamalotes e veludos. Cavalheiros encomendando casacas, vestaus - o traje novo, comprido, preto, com golas inteiras de seda. Fatiotas anunciadas nos jornais. A Chapelaria Aristocrata avisando ter recebido pelo vapor Pinto, chapéu de mola, de gorgorão, cetim ou merino. Mal dava para entrar no Bazar do Costa e na Chapelaria Universo, tamanha a afluência.

No Rio, o ano passava velozmente. O tempo não lhe parecia lerdo como nas cartas que recebia do Sul e lia na hora de dormir, antes de apagar o lampião no quarto. Chegavam com abraços e beijos, como se visse as pessoas, presenciasse os acontecimentos relatados. Aplacavam-lhe as saudades. Frederico abandonara o ramo de hotel e confeitaria. Dera-lhe conselhos para que não se iludisse com política, que a República viria a seu tempo. Manoel tirara o curso de guarda-livros e não tardaria a casar com Cidinha, filha do coronel Bitencourt. Alberto fora nomeado professor, dirigia o Teatro Santana, mas causava pena, sofrendo muito uma desilusão amorosa. Imaginadas de longe, tornavam-se até cômicas as brigas entre Vítor Machado e o doutor Glória. Soube Xandô que este agredira a bengaladas Eduardo Chaves, na loja de Maneco, em Curitiba, devido ao comentário sobre o beijo no cemitério.

Sentia-se fortificado pelas notícias caseiras. Confortavam-no de pequenas desilusões com a cidade grande. Estranhara a superficialidade de muitos que se desfaziam em mesuras e gentilezas, porém evitando estreitar relações de amizade. Achava que a falsidade na corte influenciava muita gente. Chocara-o a mendicância, a indiferença a párias dormindo nas ruas. De onde viera, nunca vira alguém jogado numa sarjeta. Fora injusto quando criança perguntara aos pais "por que os senhores deixam haver mendigos?" E Letícia, como lhe parecia graciosa...

Pôs-se a meditar depois que vedou a entrada da lua pela janela. Responderia ao pai, que abraçara a idéia socialista por discordar de desigualdades de direitos, da divisão entre os homens por causa de bens, de dinheiro, de religião, de raça e tudo mais. Indagava de si próprio como seu pai, um simplório, podia saber que os carreiristas se aproveitam do ideário dos sonhadores, dos utopistas? Mal cursara o primário. O que aprendera a cavalo nos tempos de tropeiro, ou mesmo negociando na vila? Se não entendia de história, de onde provinha o conhecimento de que para cada período corresponde um regime? Viva a sua vida - dissera de modo imperativo. Teria também adivinhado a hora do baile na Ilha Fiscal? Revirou-se na cama com um estalo no cérebro: eureca! - Meu pai tem a mesma intuição de Jango Ribas e do velho jornalista baiano. Uma lei maior, a Lei de Deus, rege tudo, o Universo, a vida, as ciências, a humanidade. Nela, os fatos são previstos e determinados a seu tempo. Com o trabalho o homem vence a fome, as doenças, os males, a sujeira, a miséria. E o amor deve ser o seu móvel. Pronto, solucionado o quebra-cabeças.

Esquecendo-se de tudo em que estava pensando, por fim adormeceu.

Acordou alegre, porém sem se lembrar da vigília, do sono e dos sonhos. Era o dia nove, o da grande festa, na qual não havia acreditado que pudesse comparecer. Sem saber o porquê da idéia, expressou-a:

     - Tudo vem a seu tempo.

     - Já li isso na Bíblia - disse-lhe Mme. Souza, servindo-lhe o café da manhã.

Amanhecera inspirado, o espírito instruído durante a noite. Tudo lhe parecia excitantemente agradável, bonito. A caminhar absorto, pensando na passagem "Olhai os lírios dos campos", achou-a significante e reveladora. As pessoas simples, que têm sabedoria, aprendem o que está escrito na própria natureza - divagava. É tão fácil ver que "tudo vem a seu tempo". Bastou olhar um ipê amarelo para ocorrer-lhe a idéia e uma premissa: as árvores florescem na primavera. Ao filosofar sobre a ordem em que se processam os acontecimentos, atravessando o Largo, chocou-se com um cavalo e ouviu o pito do carroceiro de chicote à mão:

     - Tá dormindo? Bocó duma figa!

Não perdeu o humor, apesar de haver pisado em esterco na rua.

À tarde, Mme. Souza ajudou-o na aprontação. Houve filas nas barbearias, movimento igual ao dos cabeleireiros onde as mulheres disputavam as vagas. A abertura do baile fora marcada para as oito e meia da noite, porém desde cedo a multidão postara-se no cais Pharoux e nas ruas adjacentes, aguardando a passagem dos convidados. A fina flor - segundo os jornais. A corte, galegos ricos, personalidades, altos funcionários.

Antes de sair com o tenente Irani em direção ao Clube Militar, o major Solano despachou a carruagem com sua família e Xandô para o ancoradouro. A leva de convivas arrancava exclamações da plebe que a aplaudia. Rumo à ilha, numa das barcas de Niterói, este viu em Aninha uma princesa. Estava tão faceiro que até a noite, enamorada, piscou-lhe a lua. Afinal, acabavam de entrar num verdadeiro conto de fadas, o que não impediu de ocorrer-lhe o pensamento de que a monarquia iria naufragar numa maré de divertimentos. Os fachos dos encouraçados iluminavam a ilha. Damas finíssimas recepcionavam os convivas, conduzindo-os ao palácio com os quatro salões decorados, as luzes jorrando de lanternas e candelabros. Cumprimentado pelo Visconde de Ouro Preto, D.Pedro II tropeçou ao transpor o portal e gracejou:

     "-  O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu."

D.Pedro vestido de almirante, sua família e as de seus ministros polarizavam as atenções, notadas as presenças de congressistas e de alta oficialidade. Concentravam-se igualmente nos homenageados. Ainda que com a enchente nos salões, recepcionada a tripulação do encouraçado Cochrane, a marinha apaniguando a corte, passavam despercebidas à realeza ausências até mesmo de figuras ilustres. Casais e pares de jovens deram maior animação ao baile. Apreciavam-no de peitos erguidos cavalheiros, e damas de corpos arredondados. Xandô, a esposa e a filha do major Solano formaram um grupo com o guarda-marinha Carvalho Mendes e Cecília, logo à direita do portal. Deixou-o desenxabido a irresistível atração de Aninha pelas fardas de gala. Decepcionara-o ao som das rabecas:

     - Por que tu não ingressas na Academia para seguires a carreira militar? - impondo de narizinho erguido.

     - Não nasci para marchar - melindrando-a.

     - Então não admiras meu pai? - estranhou-o.

     - Sim. Mas meu ideal é a justiça, não a espada - foi cordato.

Ela meneou a cabeça, balançando o corpo, e com ar de pouco caso lamentou um amor perdido:

     - Ficarias tão bem num uniforme...

O namoro terminou sem haver começado, e pôde vê-la enlevada nos braços de um cadete chileno. Pôs-se a vagar nas dependências do palácio, esgueirando-se entre mais de cinco mil pessoas, figuras em extinção como rei, rainha, condes e viscondes, bichos áulicos, gente empavonada. A máscara coletiva exprimia bem a falsidade social, embora procurassem disfarçá-la. Escancarava-se com todo esplendor a hipocrisia da sociedade imperial. Até moças casadoiras  escondiam risinhos  maliciosos atrás de leques coloridos.

O som de fundo que se ouvia era feito com trechos de óperas, porém para dançar as bandas tinham repertório com predominância de valsas e polcas.

Nos vastos salões paradisíacos, foram servidas as mesas com aparelhos de prata, finíssimo cristal, louças de porcelana estampadas a ouro, pratos ornados de flores e frutas, tudo a combinar com a suntuosidade mourisca. Os convidados fartaram-se de mais de mil quilos de camarões, milhares de assados, de doces e requintadas iguarias, afogando-se a casta num mar de vinho e champanha.

Mal-humorado, à vista de aduladores erguendo brindes ao reino decadente, enojou-se. Vieram-lhe à memória o "conselheiro" Totó e suas graças no Circo Imperial. A casta bebia e comia emporcalhada, chapéus enfiados na cabeça. Súditos civis com patentes de coronéis, galegos ricos, trovejavam com a boca cheia, respingando-se. Ora de pincenê ou nariz empinado e até com o rabo dos olhos mediam-no dos pés à cabeça. Certamente, não lhe caíra bem o traje, não sabia empertigar-se, menos ajeitado que um pagem. Tinha a impressão de que o julgavam um penetra. E dizer que chegara eufórico à ilha, vendo-a qual castelo flutuante bombardeado de luzes pelos encouraçados. Que afundasse com os bêbados empanturrados! Que afundasse com a carga acumulada de quatrocentos anos de escravidão!

O fausto entristecia-o, a soberba provocava-o. Porém bastou que Laiz, uma fada, entrasse no conto para transformar tudo em sonho, modificando-lhe o estado de espírito. Ela e o irmão, Orestes, procuraram-no nos salões fervilhando de gente. Fê-lo perder a fala, todo frajola, de casaca emprestada. Justamente ela que despertava paixões na juventude acadêmica, admirada inclusive na corte, apesar de sair de baiana na passeata estudantil. Achou-o com o pretexto de apresentá-lo à família, o herói na briga das galinhas, acomodada no lado oposto, próxima à do monarca. Fidalgamente, Orestes entreteve dona Otília e fingiu não ouvir quando Aninha, despeitada, interpelou em voz baixa Xandô:

     - Vais dançar com essa enjoada, toda cheia de petelequê?

Aí, sim, começou o baile, e um par formado pelo coração viveu num clima de festa fantástica. O galanteio foi de quem zonzeou com o burburinho, inebriado pelo encanto de Laiz:

     - Minha impressão é de que estou noutro mundo. O meu meio não é este. Sou um peixe fora da água. Sabe como me sinto?

     - Sim, diz - pediu que continuasse, a voz chiada.

     - Assim como você: fora do céu - não a tratou por tu, o que também a agradava. Disse-lhe que parecia acima das cousas terrenas.

Não havia dúvidas, era um ser da plêiade que faz o mundo evoluir - pensou.

Enlevaram-se tanto no salão, em meio ao farfalhar das sedas e às cintilações dos bordados, que a ela soou verdadeira a idéia de Xandô, que a tiara prendendo-lhe os cabelos a aureolava. Sentiu-lhe a fragrância já na "pièce de résistance" em três tempos: valsa, fantasia e valsa. Agora, sim, ele via o ambiente inebriante, "o bulho e o ruge-ruge das sedas, os colos salpicados de brilhantes, safiras, esmeraldas e os diademas rutilantes dos penteados".

Mal provara o vinho, porém dela se embriagara, falando até demais. Laiz pôde auscultar-lhe a agitação interior e o coração rebelde. Conversaram muito e até sobre livros, criticando a visão pessimista ora no romantismo, ora no realismo. Ambos concordavam em que deviam ser exaltados os bons sentimentos, a esperança e o bem no mundo. Não se afinavam com a grã-finagem gulosa, pendurada nos garfos e copos, grosseira.

     - A monarquia vai morrer de indigestão, não quero perder o enterro - brincou ele, espirituoso.

Magoou-a, todavia, ao dizer que aquela noite encerrava o espetáculo de um mundo falso e injusto. Laiz imaginou que o desagradara. Perdoou-o e foi a primeira a perceber que da paixão momentânea florescera em cada coração apenas uma grande admiração, uma grande amizade.

Ao tomá-la nos braços novamente, ambos se esqueceram do mundo, pois não viram passarem as horas.

A ceia precedera a licenciosidade dos cavalheiros e damas disfarçadas atrás dos leques. Então se despediu de Laiz, lisonjeando-a como a fada no último baile da monarquia.

     - E tu que personagem foste?: - perguntou-lhe, pouco antes de acompanhar Orestes e os pais à barca.

     - O povo - satisfê-la, deslumbrado ainda com o canto de cisne da monarquia.

Fim de festa, pró-pudor! espartilhos, ligas de meias arriadas, perdidas pela ilha, escandalizaram o Rio de Janeiro.

 

II

 

Os oficiais aproveitaram a noite do baile e a ressaca da aristocracia. Reunidos no Clube Militar, conferiram plenos poderes a Benjamim Constant para buscar uma solução honrosa à classe e ao país. Acompanhado pelos sobrinhos de Deodoro e pelo major Solano, dirigiu-se ele ao palacete do marechal, ouvindo-o indignar-se no leito:

     "- O Velho já não regula, porque se regulasse não haveria essa perseguição contra o exército. Já que não há outro remédio, que leve à breca a monarquia!"

Dias antes, o marechal indagara a Floriano Peixoto qual seria a sua posição, e este lhe declarou pegando um botão da farda: "Seu Manoel, a monarquia é inimiga disto, se for para derrubá-la, estou pronto." Influenciara-o.

Animado com a disposição demonstrada por Deodoro, adiantou-se o major Solano:

     - Marechal, podemos marcar uma reunião com o senhor para amanhã à noite?

     - Sim. Amanhã às oito, eu os esperarei.

À hora aprazada, na sala iluminada, com os líderes civis e militares à mesa, Benjamim Constant concitou-o a proclamar a República. A resposta satisfez a todos:

     "- Eu queria acompanhar o caixão do imperador que está velho e a quem respeito muito. Ele assim o quer, façamos a República. Benjamim e eu cuidaremos da parte militar. O senhor Quintino e seus amigos organizem o resto."

Ao deixar o palacete, um dos líderes civis provocou risos ao dirigir-se a Lopes Trovão:

     - Ele queria acompanhar o caixão do imperador, mas é difícil saber qual dos dois vai primeiro...

O Visconde de Ouro Preto ainda se iludia e afirmou aos membros do gabinete:

     - Não falta apoio ao governo, compensei a ausência do marechal Deodoro, agraciando com convites para o baile quarenta e cinco grandes patentes do exército.

O próprio conselheiro Basson demonstrou tranqüilidade:

     - O marechal Deodoro, além de amigo do imperador, é primo-irmão do senhor ministro da Guerra. Não iria aderir à indisciplina.

Achando-se fortalecido com a apoteose da Ilha Fiscal, o Visconde anunciou que ia acabar com a indisciplina no Exército e na Escola Militar, ameaçando confinar e dissolver unidades, além de punir os responsáveis. Na tarde do dia quatorze, determinou que o ajudante-general Floriano Peixoto chamasse o major Solano para deslocar os regimentos de cavalaria e da artilharia do quartel de São Cristóvão para a Praia Vermelha. Antes de convocá-lo, o general Floriano avisou-o por oficial de confiança. Fora responsável de sua transferência de Curitiba para o Rio de Janeiro, deu-lhe sinal discretamente na sala de comando, antecipando a hora da revolta. De Floriano, que de fato a chefiava, uma ordem levantaria a tropa e troariam os canhões. Dissimulava a repulsa ao gabinete e à aristocracia, medindo, economizando as palavras. Tal a razão do fleuma, fleuma típico do caboclo de guerra. A perspicácia tornava-o tão cauteloso - achavam-no desconfiado - a ponto de, não pondo em dúvida a lealdade e as convicções de Benjamim Constant, lembrar a companheiros de farda que até este só se declarara republicano depois de preterido por afilhados da Coroa, no colégio do professor Aquino, no Morro de Castelo. Em seu posto de ajudante-general, Floriano queria evitar riscos desnecessários.

Desta vez, não se repetiria um erro como o de sete de abril, no qual o país caíra no logro da Abdicação. A discussão sobre a necessidade de mudança do regime atingira o auge. Até um projeto de lei propondo-a fora apresentado, obtendo trinta e sete votos favoráveis.

Tinha de ser agora!

Aninha foi à pensão com recado do pai para Xandô e Estácio que avisaram os líderes estudantis, percorreram cortiços, pontos de comércio, de aluguéis de carros, portas de fábricas.

O major Solano não descansou um só minuto. À paisana, dirigiu-se de bonde ao Largo de São Francisco, alvoroçando os cadetes que se reuniam no Café Londres. O pessoal das redações se agitou aumentando os grupos que se formaram na Rua do Ouvidor. As notícias espalharam-se provocando a estupefação geral.

     - O governo vai prender o marechal Deodoro e Benjamim Constant.

     - É preciso avisar Lopes Trovão, Quintino Bocaiúva, Patrocínio, o Pé de Pato, antes que o conselheiro Basson mande trancafiá-los nas fortalezas.

     - As guarnições do exército vão ser transferidas para o interior do país.

     - A cidade vai ser entregue à guarda negra, aos capoeiras e arruaceiros.

     - É a anarquia total.

     - Pode estourar uma guerra.

Alertados, os fundadores do Partido Operário mobilizaram a massa para que, de manhã, apoiasse as tropas no Campo de Santana.

Apesar do mangue e do mar, o Rio de Janeiro pegava fogo. O povo tinha em mente manifestações às quais desejava dar seqüência. Não esquecera a revolta do vintém que começara no Terreiro do Paço. A multidão havia depredado bondes, arrancado trilhos, dispersada a bala, deixando mortos e feridos na Rua Uruguaiana. No ano seguinte fora dissolvido o comício do próprio Lopes Trovão. Há pouco, ele voltara da Europa pelo vapor "Ville de Santos", recebido com estrondosa demonstração de apoio popular. Proibidos de comparecerem à recepção, os cadetes subiram no baluarte da escola, acenando e dando vivas ao grande republicano.

Com o alarme que o major Solano fizera soar, ficaram em pé de guerra. No quartel de São Cristóvão, propôs que se desse um ultimatum ao governo, aproveitando a ausência do imperador. Os oficiais mostravam-se impacientes:

     - D.Pedro não sabe o que se passa nas províncias, nem debaixo de seu nariz.

     - Enquanto escreve sonetos e ouve o fonógrafo, atacado de diabetes ou entretido com divertimentos, o governo persegue os militares e quem não quer mais escravidão no Brasil.

Foi unânime a decisão:

     - Vamos tirar o marechal Deodoro da cama e proclamar a República!

Cerraram-se as portas do Maison Moderne, do Recreio Dramático, das tabernas, das cervejarias do Largo do Rocio, e a cidade recolheu-se sonolenta. As luzes nos quartéis chamaram a atenção do conselheiro Basson, o que levou o Visconde de Ouro Preto a convocar o gabinete no Ministério do Exército.

Na manhã de quinze de novembro, seis dias após o baile na Ilha Fiscal, a população acordou com um grito entalado na garganta. A exclamação que agitava as ruas, as praças, os teatros e clubes, soando mais alto que os projéteis nas cargas da polícia e da guarda negra. Depois da prisão de Adriano, apenas um menino, o governo quis amordaçar a nação, os jornais anunciaram em letras garrafais: "- É proibido gritar: Viva a República!" Muitos que desafiaram o édito foram para as fortalezas. Na apresentação do gabinete, o padre João Manoel bradara por todos: "Viva a República!" As galerias romperam em aplausos, o capitão Serzelo só se acalmou com as mãos de Floriano em seus ombros.

A guerra dos gritos ainda não terminara.

Às primeiras luzes da Aurora, romperam em direção ao Campo de Santana a primeira brigada e os cadetes da Escola Militar. Um funcionário apressou-se em representar o povo no regimento de artilharia. À frente de um batalhão de cavalaria fechando o cortejo, vinha o major Solano. Corriam enorme risco, pois o conselheiro Basson reunira uma força de dois mil homens, policiais e marinheiros. Mas, providencialmente, mal aconselhado pelo ministro da Guerra, o Visconde se isolara com o gabinete no quartel-general, exposto ao cerco, ao sítio da artilharia, à mercê de Floriano.

Caiu numa ratoeira - diriam.

De madrugada, Benjamim Constant e Quintino Bocaiúva tiraram da cama Deodoro com dispnéia e acesso de asma. O marechal conseguiu erguer-se, animado com o deslocamento das tropas, tirando as cataplasmas do peito. Com a ajuda da mulher, vestiu a sobrecasaca de um uniforme e calça de outro, sem forças para levantar a espada. Chegou combalido à casa do major Solano, porém dona Otília e as meninas recolocaram-no na carruagem, revestindo-a com travesseiros e almofadas.

Tido como fiel amigo do imperador, monarquista e primo do ministro da Guerra, a presença do marechal provocou a maior confusão entre as tropas posicionadas no largo. Forças leais ao governo prestaram-lhe continência durante o trajeto. Ao chegar, um alferes cedeu-lhe o cavalo para que assumisse o comando das amotinadas. Com o quepe na mão direita, exclamou: "Viva o Imperador!" Foi ouvido por alguns graduados que chegaram a responder "Para sempre Viva!" Mas o major Solano reagiu regendo um coro mais forte da oficialidade rebelde, e Benjamim Constant ordenou uma descarga de artilharia, ficando apenas a impressão dos vivas à República. O ministro da Marinha tentou salvar o regime, desceu da carruagem, apontou a pistola para Deodoro, porém levou dois balaços, e um tenente desferiu-lhe uma coronhada.

O Visconde não acreditava no que via e ordenou que um marechal investisse contra os sublevados. Este saiu do prédio com uma coluna de soldados, aderindo ao movimento. O potentado resolveu instar com Floriano, que a seu lado aguardava o desfecho dos acontecimentos:

     "- No Paraguai, o senhor foi o valente à frente de nossos soldados que tomaram a artilharia em piores condições. Faça agora o mesmo, tomando aquelas bocas de fogo que ali estão."

     "- Sim - respondeu o ajudante-general - mas as bocas de fogo no Paraguai eram inimigas, e aquelas que V.Ex.ª  está vendo são brasileiras, e eu sou antes de tudo um soldado da nação. Os galões que possuo, Exª, foram ganhos nos campos de batalha e não por serviços prestados a ministros."

A banda tocou e Deodoro entrou triunfalmente no quartel-general. Surpreendentemente, exclamou:

     "- Viva Sua Majestade, o Imperador!"

Acompanhado do alferes Rondon, dirigiu-se à sala de ministros, obrigando o gabinete a exonerar-se. Decidido a depô-lo, ameaçando de prisão o Visconde e seu ministro da Justiça, mostrou-se dúbio e vacilante, preocupando Floriano, pelo que lhes disse:

     "- ... Quanto ao imperador, tem a minha dedicação, sou amigo, devo-lhe favores. Seus direitos serão garantidos. Vou encaminhar nomes a D.Pedro para um novo ministério. Depois me entenderei com D.Pedro."

Em face dessas palavras, o Visconde apressou-se em salvar o regime, solicitando a imediata presença de D.Pedro para que organizasse novo ministério.

O povo saíra às ruas, um grande comício realizou-se atrás das forças. O chefe civil Quintino Bocaiúva surgira a cavalo, dando vivas à República, correspondido pelas tropas e pela massa popular concentrada em frente à Câmara Municipal. As janelas e sacadas dos prédios estavam apinhadas de gente. Embaixo a multidão heterogênea, a plebe urbana. Homens e mulheres impedidos de serem cidadãos. Uns vinham a pé, outros de carroça, bonde, seges, carruagens. Esvaziaram-se os salões de comércio, os cortiços, os casebres que grimpavam as encostas dos morros.

Xandô e Estácio haviam avisado Zé do Pato, José do Patrocínio, e Lopes Trovão para que convocassem o povo à Câmara Municipal e proclamassem a República. A sessão foi concorrida e o comício prosseguiu lá fora. Xandô a assistia de um dos balcões compartilhando da comoção nacional. Os oradores declaravam findos quatrocentos anos de tirania e escravidão. Ele divagava emocionado porque seus olhos viam ao longe, naquele momento, caminhos abrindo-se no horizonte, a Rua das Tropas desembocando no Campo de Santana. De arraiais que cresceram - estrelas pregadas no céu - eram a sua extensão o Rio de Janeiro, suas praças - o Campo de Santana.

De novo a banda tocou, quando o marechal Deodoro saiu do prédio. O vivório tornou-se ensurdecedor, um capitão até perdeu o fôlego de tanto gritar, desmaiando. Contagiado pelo entusiasmo dos civis e das tropas, o marechal montou o cavalo, arrancou o quepe agitando-o no ar e - até que enfim! - bem alto exclamou:

     "- Viva a República Brasileira!"

A artilharia respondeu pelo Exército com uma salva de vinte e um tiros.

Na Câmara Municipal, após os discursos de José do Patrocínio, Olavo Bilac, Murat e Pardal Malet, consumou-se então a proclamação da República. No manifesto, os vereadores pediam aos representantes das classes militares que "virtualmente exerciam as funções de governo no Brasil, sancionassem o ato".

As tropas desfilaram pelas ruas, e manifestantes chegaram a correr deputados governistas que das janelas do edifício da Assembléia davam vivas ao imperador.

Lopes Trovão promoveu chopada numa taberna,  festejando a vitória, quando D.Pedro chegou de Petrópolis e se dirigiu ao Paço. Evitaram que se aproximasse de Deodoro, ao qual o major Solano comunicou:

     - Sua Majestade, o Imperador, por indicação do Visconde de Ouro Preto, acaba de nomear chefe de gabinete o Senador Gaspar Martins.

A notícia atingiu-o como um raio, provocando-lhe uma explosão de cólera:

     - Vou mandar deportar os três: o Visconde, o irmão e o Gaspar Martins!

À esposa que o observara com ar de contrariedade, explicou:

     - Isso não tem nada a ver com a Baronesa do Triunfo.

De imediato assinou a proclamação previamente redigida, que lhe foi entregue e divulgada no Brasil e no mundo. Recebera o documento das mãos de Benjamim Constant e, à porta do palacete, foi aplaudido pela multidão.

Do governo provisório, rezou o decreto inaugural: "Fica proclamada provisoriamente e decretada como forma de governo da nação brasileira a República Federativa."

Até tarde da noite comemoraram na taberna a revolução vitoriosa. Da roda de Xandô, Estácio, Orestes, Adriano e tantos outros, aproximou-se o rapaz canhestro, expulso da Escola Militar por haver desacatado o diretor e o próprio ministro da Guerra, ao protestar contra a proibição aos cadetes de comparecerem ao desembarque de Lopes Trovão. Cursara a Escola Politécnica, porém queria retornar ao Exército.

     - Tu poderias falar de mim ao major Solano - pediu a Xandô, depois de falar sobre a necessidade de um romance em que a personagem fosse a Pátria.

Prometeu atendê-lo e saiu mais cedo, preocupado com a posição de seu cunhado.

O major Solano rondou o solar do Paço com uma patrulha e prendeu quinze marinheiros nas imediações. No outro dia, acompanhado de dois oficiais, entrou no palácio com notificação ao imperador para que, com a família, deixasse o território brasileiro.


 

 

 

A ALVORADA REPUBLICANA

 

 

Encoberta pela noite, a família imperial embarcou no Paraíba e depois foi transferida para o mercante Alagoas. O rei protestou:

     "- Não sou negro fugido para embarcar a esta hora."

Em pleno mar, o herdeiro do trono, neto de D.Pedro, ao sofrer mais uma de suas crises, por pouco não estrangulou o comandante do navio.

De posse do telégrafo, um tenente anunciou ao país a tomada do Campo de Santana, dando vivas à República.

Um sopro - puf! - e ruíam os palácios nas capitais. Nas câmaras, o povo e as tropas aclamavam governos provisórios. Invalidavam-se títulos de nobreza, os abrasonados igualavam-se ao conselheiro Totó, do Circo Imperial.

Esboçou-se resistência. Na Bahia houve conflito no Largo Castro Alves, cacetadas, pedradas, tiros de revólveres. Em Belém, os republicanos tiveram de obrigar o presidente a deixar o governo, apoiados pelas guarnições militares.

Em São Paulo e Campinas, a população participou de comemorações apoteóticas. Uma comitiva de senhoras campineiras promoveu na capital uma grande passeata. Parecia um movimento de elite, mas os jornais noticiaram o apoio popular ao novo regime. Da região cafeeira, avançava uma classe rica e próspera dando origem, com o crescimento urbano, à alta burguesia. Os cafeicultores diferenciavam-se dos fazendeiros de gado, estes fixados à terra, à montaria, cavalgando com os camaradas o latifúndio.

No Paraná, o patriarca de Palmeira, ex-ministro e conselheiro, renunciou à presidência. Os dois partidos, um reunido no Clube dos Girondinos, outro no Teatro São Teodoro, arriaram a bandeira do antigo regime para disputarem as graças do governo provisório. O Liberal acabou nas mãos do doutor Glória e seus seguidores. Mas ele e os adesistas teriam de confrontar-se com o doutor Vítor, republicano de primeira hora, deputado cujo pronunciamento na Assembléia virou a província.

As cidades tornaram-se pequenas para tanta gente nas ruas, nas praças, num sem fim de desfiles, com bandas musicais, de festa e de sessões cívicas.

Xandô só viria de férias em dezembro, após o período de provas. Empolgara-se no centro dos acontecimentos, como a maioria dos moços, com o que se idealizava para o Brasil: "A República da Paz". O governo se declarara "da paz, da fraternidade e da ordem".

Longe, varando campos e matas sulinos, atraindo romarias aos pousos onde erigia cruzes, benzia as fontes e batizava as crianças, João Maria preparava a caboclada:

     - Vai estourar uma guerra de dar sangue nas canelas.

Pregava, dizendo que os padres haviam traído o imperador.

A República deu à luz a contra-revolução, com as desordens e a pusilanimidade dos vira-casacas. A alta sociedade carioca sentiu-se frustrada com o cancelamento do baile que o Conde D’Eux e D.Isabel ofereceriam aos visitantes chilenos na Boa Vista. Referia-se com ódio ao povo do Campo de Santana como "a ralé maltrapilha". Durante a visita que lhe fizera, Xandô ouviu do cunhado que a marinha jamais permitiria o destronamento de D.Pedro II, a qual fora surpreendida com seus chefes ausentes. Havia motivos para o boato que corria no país: - Uma flotilha naval vai trazer de volta a família imperial.

No alto mar, em viagem de cruzeiro, o almirante Custódio de Melo e seus comandados renderam a bordo homenagens a D.Pedro e seus filhos.

A reação crescia com forte respaldo de antigos conselheiros, ministros, condes, viscondes, áulica companhia. No dia da proclamação, os jornais não souberam analisar os fatos. Davam notícias lacônicas: - "...rompera com o dia um movimento militar", "o movimento que iniciado por alguns corpos do Exército, generalizou-se rapidamente pela pronta adesão de toda a tropa de mar e terra existente na cidade". Então o Visconde divulgou um manifesto, concluindo: "A República brasileira, tal qual foi proclamada, é uma obra de iniquidade; não pode perdurar." Iniciara-se uma campanha para negar a revolução nacional e a legalidade republicana. Os monarquistas argumentavam que a tomada do Campo de Santana fora apenas uma sedição, os civis não passavam de desordeiros e os soldados de indisciplinados. O novo chefe de polícia teve dificuldades em extinguir a guarda negra e bandos de arruaceiros que se insurgiam contra o novo regime.

O mais difícil seria debelar as idéias com as quais se gerava a contra-revolução. Confundira-se até mesmo um ministro do governo provisório, que escreveu: "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem saber o que significava."

Tal declaração infundada e desastrosa seria muito explorada. Em contrapartida, o "Correio Paulistano", num artigo do conselheiro Antônio Prado, reconhecia que "o movimento militar de quinze de novembro, transformara-se em verdadeira revolução, com um governo apoiado pelo Exército, pela Armada e aclamado pela população".

O empenho em denegrir a República chocava-se, no entanto, com a realidade nacional. Exaltavam-na os jornais do interior e o povo festejava-a nas ruas. Despachos de Buenos Aires diziam que os acontecimentos do Rio de Janeiro causaram sensação no mundo. O "Daily News", de Londres, comparava-o aos de Paris, cem anos antes: "A República brasileira foi proclamada durante o centenário da Revolução Francesa". Antes e depois de tomar o Campo de Santana, o povo brasileiro cantava a Marselhesa e o Hino Nacional.

Por fim, a "Tribuna Liberal", que difundia as idéias contra-revolucionárias, foi empastelada por populares e silenciada por decreto.

Às vésperas da viagem de férias, Xandô e Estácio estiveram na casa do major Solano, encontrando os paulistas do jornal "Evolução", que tinha a divisa "ordem e progresso" adotada pelos republicanos. Estavam eufóricos, um deles subestimou a reação:

     - A nobreza tem sete marqueses e uma marquesa viúva, dez condes e dez condessas viúvas, vinte viscondessas    viúvas, vinte e sete barões e onze baronesas viúvas.

O outro ainda observou:

     - Esqueceste um monte, a começar pelos viscondes e trezentos barões sem grandeza. Não contaste cinqüenta e cinco baronesas viúvas, nem a corja de bajoulos.

Ninguém se dava conta do perigo de uma contra-revolução que a todo custo ocultaria sua face restauradora, aninhada no ventre da própria República.

Havia ameaça no Rio de Janeiro, onde o príncipe constituía motivo de orgulho nas fileiras navais. À Armada Imperial não faltaria o apoio da nobreza, dos galegos ricos, de negros iludidos e até de marginais, gatunos, malandros, prostitutas e capoeiras.

A revolução vitoriara-se com a Abolição e a República, mas inacabada sem a extinção do latifúndio onde se levantavam as massas cegas em torno de caudilhos, coronéis e monges.


 

 

 

ANARQUIA

 

 

I

 

Em toda parte dizia-se reinar a anarquia, empregando-se o termo no sentido de desordem. O jogo político não se definia, o mando trocava de mãos.

Na Câmara Municipal, com a multidão defronte ao prédio, um general foi proclamado Governador Geral do Paraná, com apoio das guarnições e do alto comércio. Quinze dias depois assumiu o cargo um almirante, dissolvendo a comissão constituída. Pendendo para os antigos liberais, acabou destituído. Substituiu-o o genro do general fundador do Partido Republicano. Já exercera a chefia de polícia, muito ligado ao doutor Vítor e ao doutor Sérgio que liderara a revolta dos negociantes.

Ainda no Rio, Xandô não pôde assistir aos entreveros oratórios no Teatro São Teodoro, durante sessões políticas que terminaram em chinfrins e resultaram na prisão do doutor Glória. Porém soube que na volta fora recebido apoteoticamente em Curitiba.

Nas casas, nos cafés, nas ruas, faziam-se críticas acerbas a nomeações:

     - Só gente de fora - a reclamação geral.

Pegou um dito que Tio Silva espalhou:

     - Sabe por que foi escolhido o novo presidente?

     - Por quê?

     - Por ser de Minas.

Tornara-se presidente o orador mineiro que se notabilizara por afirmar num discurso: "Se o mar além suspira e geme, é porque está longe de Minas." Precedera em arroubo o prefeito de Ponta Grossa que, um dia, prometeu construir lá um porto de mar.

Percebia-se o descontentamento da população com as mudanças. A extinção das câmaras municipais, o casamento civil, a secularização dos cemitérios, a corrida pelas terras ou lotes urbanos, os empréstimos bancários a aventureiros e, principalmente, o troca-troca de governantes. Após a nomeação do paulista, a escolha recaiu no major que, na apresentação do gabinete, ao dar vivas à República, fora aplacado por Floriano. Um magricela de bigodes e cavanhaque negros, mais tarde ministro. Substituiu-o um comandante baiano de cavanhaque e bigodes mais vastos. De família monarquista, além de escravocrata, escapara de servir na guerra do Paraguai. Envolvido pelo doutor Glória, aliou-se a seu grupo e promoveu à força a eleição de um líder da União Republicana, que os abrigara, contra os republicanos autênticos do Partido Republicano Federal.

A Ponta Grossa voltou a paz depois que Sezefredo sumiu com a cruz dos pecados e - graças a Deus - Vítor Machado e o doutor Glória topavam-se noutra paróquia.

Nhô Juca, vereador mais velho e respeitado, causou sensação na Câmara Municipal, declarando:

     - O país está pacificado, não tem mais motivo para briga. Agora é tudo uma família unida. Com o marechal Deodoro, amigo de D.Pedro, vivemos numa república monarquista!

Motivavam-lhe o disparate o ministério do Governo Provisório e, no estado, a União Republicana, reduto da oligarquia decaída.

A rotina pontagrossense só fora quebrada com a chegada de uma leva de imigrantes italianos. Pouco antes da Proclamação, o doutor Deleone veio de Curitiba para recebê-los. Numa reunião no Paço, ladeado pela baronesa Ambrósia e o doutor Casemiro, expôs os motivos de D.Pedro II, em nome do qual ali se encontrava, para trazê-los da Europa. O imperador quer construir uma nova Europa, um mundo do porvir no Brasil - concluíra.

Prevaleceu a boa vontade dos habitantes na recepção, mas houve reações de espanto:

     - Anarquistas?

     - Sim. Anarquia não significa desordem, quer dizer uma ordem verdadeira sem necessidade de leis e de autoridades. Na colônia todos trabalharão pelo bem comum porque não haverá bandidos nem vagabundos.

     - Impossível - achavam, porém olhando-os com simpatia.

     - O conde Geovani, amigo de Carlos Gomes e de Brasílio Itiberê da Cunha, irmão do Padre Celso, aliciou-os entre operários, artífices, intelectuais e lavradores. Ele próprio é escritor, agrimensor e músico. D.Pedro aprovou a idéia, doando-lhes trezentos alqueires de terras na Mandaçaia, perto de Palmeira - repetia Deleone, desdobrando-se para esclarecer os incrédulos.

Gente de fora também veio dar apoio aos colonos. O doutor Blumenau queria levá-los para Santa Catarina.

Eram cerca de duzentos e cinqüenta, contando-se as crianças. Chegaram cansados, descuidados, mal vestidos de pano grosseiro, chapéus desabados, porém irradiando esperança. Até as crianças brincavam alvissareiras no pátio. Eles tinham a ilusão do paraíso terrestre, um sonho de justos, algo os distinguia como pessoas bem dotadas, um ar de aventureiros realmente heróicos. Não buscavam tesouros, riqueza alheia, incapazes de escravizar índios ou negros, destruir reduções. Não queriam construir um mundo de ouro, mas de amor e felicidades. Acreditavam na bondade dos homens, ponto pacífico da filosofia.

O líder notabilizara-se pronunciando palestras e escrevendo no jornal "Lo Sperimentale", de Bréscia. Quando D.Pedro leu o pequeno livro "II Comune in Riva al Mare", gostou da idéia, aprovando a utopia. De volta ao Brasil, convidou-o a realizar o grande sonho no Paraná.

O barco que os transportou tinha o nome de Roma, qual se Roma transportasse cruzando o Atlântico. Idealizavam uma nova Itália, um mundo do futuro, ou do nunca.

A população aprendeu a respeitá-los. Um dos que mais contribuíram para a compreensão geral foi o professor Nhonhô. Lembrava que a região fora o Abaretama, onde não havia crimes porque os índios dividiam os frutos do trabalho, livres e felizes. Outros falavam do mesmo modo sobre as aldeias guaranis. Marcelino, encarvoado, escada às costas, e de comprida vassoura sob o braço - agora limpador-de-chaminés - expressou a opinião dos que arrastavam tamanco:

     - O imperadô mandô, princesa Isabé aprovô, Sinhá Ambrósia falô, num tem que discuti. Si num tem diferença de pobre cum rico, de branco cum preto, é bão.

Ribas, Vilela, Bitencourt, Batista ou Almeida não se importariam, pois as terras doadas eram distantes das suas. Mandaçaia ficava longe.

Gerava desconfiança a acusação de comunistas e de que não tinham religião os imigrantes. Mas foram aceitos. Alojados precariamente em escolas, barracões e casas desocupadas, receberam ajuda e prestaram valiosos serviços aos moradores. Granjearam amizades, principalmente o líder e outro músico que deram aulas, elevando o nível dos instrumentistas da localidade. Quando lhes perguntavam se eram comunistas e ateus, respondiam que achavam o homem bom se fosse livre, onde não houvesse propriedade nem governo e, por isso, não admitiam nenhuma ditadura. Queriam viver em paz, com o fruto de seu próprio trabalho, cada qual com sua crença e liberdade absoluta - esclareciam.

Frederico cedeu-lhes a chácara. Matias deixara a confeitaria, tornando-se o caseiro. Estava de casamento marcado com Júlia, a qual morava com os antigos patrões, e combinaram passar a lua-de-mel na colônia Santa Bárbara. Matias era um Bodziack e nesta habitavam polacos, seus parentes, perto das terras destinadas aos anarquistas. Para os colonos foi providencial o seu apoio. Orientou-os sobre as peripécias de uma viagem à região, como também sobre criações e plantações naquelas paragens.

A partida foi defronte à escola, na qual se concentraram, e alvoroçou a cidade. Nas carretas havia ferramentas, utensílios, cobertas, remédios, suprimentos. As mulas com as cangalhas cheias. Nas carroças para os quais o povo acenava, lá se iam ao encontro do sonho as famílias anarquistas. Uma caravana pobre de trabalhadores em que se igualavam intelectuais, sapateiros, gráficos, ferreiros, alfaiates, músicos, donas de casa, lavradores, inclusive as crianças. Em marcha a Colônia Cecília. Tinha o nome da filha de Frederico e Naná, desde que fora idealizada.

Não mais o enjôo causado pelo balanço do mar, agora o saracoteio na estrada espremida entre cercas ou no meio da mata. Nas geadas de abril, o frio queimando as carnes, o hálito esfumado. Passaram três léguas de Palmeira e, pouco além da colônia polaca, acamparam. As terras da utopia ficavam em área acidentada, uma baixada entre campos, cujas lombadas pertenciam a donatários. Concentraram-se na parte mais elevada, perto do rio. Qual se houvessem vencido uma batalha decisiva contra um mundo de injustiças, hastearam numa palmeira a bandeira rubro-negra. Cantavam seu hino, Va Pensiero, da ópera "Nabuco", de Verdi.

Cada família teve seu rancho de tábuas. Os homens solteiros ficaram num único pavilhão disciplinado pelo doutor Grilo, um médico da vila, dedicado quanto o próprio doutor Deleone.

Abertos os valos, furados os poços, plantado o milho e pronto o monjolo, contavam-se vinte barracões com mais de cinqüenta metros na colônia. Na "Casa do Amor" não havia casamentos, mas se realizavam assembléias, debates, palestras. A tônica era amor e liberdade.

Padres e proprietários tementes aos pobres e não a Deus, alarmaram-se diante da propagação das idéias anarquistas. Enredavam imigrantes indefesos que nem a língua da terra conheciam. Punham-nos de quarentena, confinados na colônia, e a pregação no púlpito assustou muita gente: - São ateus, pregam o amor livre, a destruição da igreja e da família.

Muita gente acreditava no que se dizia:

     - Os comunistas vivem como cachorros, matam as criancinhas, tiram dos colos das mães para se criarem juntas, a mulher tem que se deitar com qualquer um.

Parte dos palmeirenses estranhava-os quando alguns deles iam à vila fazer compras, vender seus produtos, lecionar música. Mães horrorizadas sondavam-nos das janelas entreabertas, agarrando os filhos, uma delas, a esposa do delegado.

Solidários, eles dividiram a vida, repartiram o fruto do trabalho, viviam livres e felizes. Repartiram também as dores e mal sentiram o tempo passar, enquanto noutros lugares os homens não se entendiam.

O anarquismo se difundiu, calando na alma cabocla. Se acabasse a colônia, permaneceria para sempre a lembrança. Geovani e Adele, sua mulher, faziam amizades na vila quando a visitavam por ocasião das aulas ao mestre Manequinho, ao maestro Eugênio e outros musicistas, elevando-lhes o nível de conhecimento. Em pouco tempo, tornaram-se amigos dedicados dos colonos o coronel Henriquinho, o major Castro, o doutor Grilo e outros fazendeiros ligados à União Republicana.

Na Confeitaria do Bube, em plena Praça Tiradentes, na capital, o doutor Glória desferiu uma bofetada em Constantino, o qual ofendera Deleone, dizendo que os italianos eram desordeiros, lamentando que o vapor que os trouxera não afundasse em alto mar, ou que o governo impedisse o desembarque. Prevalecendo-se de autoridade junto à chefia de polícia, falava em destruir a colônia e expulsar os italianos do Brasil. Insolente, perguntara por que havia médicos agitadores, socialistas. Deleone tivera a paciência de responder que ao fazerem os partos, os médicos viam todos nascerem iguais. A seu lado, o doutor Glória não se conteve e interveio:

     - Menos os patifes como você!

Seguiu-se a bofetada pela qual prestou contas em inquérito.

Egresso da primeira leva que veio expulsa da Argélia, quem pregou o anarquismo no mundo, abrindo os caminhos com seu cajado, uma serpente de pau, foi o Anastás na figura do monge João Maria. Com velha bíblia na mão, anarquista místico, virou caboclo, andarilho no campo, mas a quem estranhava o sotaque na fala, respondia:

     - Sou um imigrante do céu.

Estampava a mata, as barbas longas e alvas caindo no rosto como cascatas, a jaguatirica em forma de gorro à cabeça. O céu nos olhos, a passarada na voz sibilante, o cheiro de resina, erva e pinha. Surgiu na colônia, depois de benzer o gado numa fazenda. Trazia mochila e caixa de oratório às costas; chaleira, bomba e purungo pendurados à cintura. Viera dos cafundós, onde varava o mato, surgindo de súbito nas aldeias dos bugres, nas vilinhas de carijos e barbaquás, nas sesmarias, atraindo tarefeiros de erva, arrieiros, peões, agregados e suas famílias. Sagrando fontes, erigindo cruzes nos pousos, benzia, receitava, celebrava casamentos e batizados comandando as rezas. Chegou anunciando a fome, a peste e a guerra.

Propércia batia roupa na pedra ao topá-lo saindo do carreiro no meio do bosque. Mentira que não cria em nada, nem em visagens, pois pensou que fosse uma alma do outro mundo. Deram-lhe acolhida e, no paiol em que ficou de pernas cruzadas no chão, reuniu gente das redondezas. O conde Rossi, líder da colônia, exclamou ao vê-lo:

     - Uno duende brasiliano!

João Maria causou assombro, um espírito encarnado da floresta, aparição das profundezas da terra ou do céu, relâmpago de carne e osso. Convidaram-no para assistir às reuniões da "Casa do Amor". Tornou-se mais anarquista do que já era. Interrompeu uma palestra, polarizando as atenções:

     - Prá viver sem governo, tem um meio no caminho prá chegar no fim, tem que passar no meio que é o governo de rei. Tudo deve vir a seu tempo - sabia.

Respeitavam-no, ouvindo-o recomendar fé em Deus. As madonas da colônia acompanhavam as crentes em romaria ao paiol, para receberem bênçãos. João Maria não perdera o sotaque e gostava de chamar os colonos pelos nomes: Adele, Lúcia, Marta, Geovani, Primo, Bruno, Gigio, Francesco, Piero, Parodi, Agotani, Cristiana, Artuzi. Só não pronunciou o nome de Garigo. Garigo, o Judas da colônia, nela se introduzira com más intenções. Após ganhar a confiança da comunidade, fugiria com a carroça carregada e o dinheiro das safras.

Certamente João Maria previra o crime.

Os colonos já venciam a luta contra as incompreensões e retiravam da terra seu sustento. Havia fartura de aves, animais, caça e pesca abundante, lenha, pinhas e outros frutos silvestres. Vingaram as roças e as hortas. Contudo, João Maria vaticinava fome, peste e guerra. Alguém que se fingia de companheiro, estava de caso pensado na colônia -  advertira, acrescentando que gente grande, de fora, punha mau olhado. Deixara-os boquiabertos, pregando contra a República que, segundo ele, queria tomar as terras dos pobres, dos polacos e dos italianos. Vaticinou que nas casas altas das cidades grandes os homens perderiam a hombridade, e as mulheres a vergonha. Cini, o italiano que construíra o moinho de fubá e sabia fazer gasosa, indagou quando ocorreriam as cousas que anunciava.

     - Quando rolarem as cabeças e for degolada uma santa - a resposta.

Ao partir, deixou-os estupefatos:

     - A árvore que vocês plantaram é uma cruz, só vai dar flores e frutos depois de um século de mais de mil anos.

O doutor Ricci morava na colônia, seus colegas médicos Deleone e Grilo também davam assistência, mas não puderam salvar a vida das sete crianças atacadas de crupe, entre elas os dois filhos de Geovani e Adele Rossi. Houve casos de tifo. Seus mortos foram proibidos de serem enterrados na vila. Não tardou a sabotagem com a venda que lhes faziam de más sementes, de salários baixos nos serviços que prestavam. A República não reconheceu a concessão de terras. Os fiscais já vinham cobrando pesados tributos aos poloneses. A perseguição do padre e do delegado aumentou à medida em que se assenhoreou do governo a facção de Vítor Machado. A perda de mando dos fazendeiros amigos como o coronel Henriquinho, o major Castro e outros, deixou-os desprotegidos. A colônia passara a ser conhecida como Santa Cecília, por causa da pregação de João Maria, o que mais infernizou o padre. Então as arbitrariedades culminaram com a prisão do jovem Riva, trancafiado na delegacia de Palmeira. Tudo se cumpria de acordo com os vaticínios, faltava apenas consumar-se a ação de Gariga. Ninguém mais duvidara da palavra do monge: - Para chegar ao fim que desejavam, o caminho passava pela restauração da autoridade de D.Pedro II.

Assim falara João Maria que, nos estados sulinos, trindade política nacional, rebelava os camponeses.

 

II

 

O Rio de Janeiro vivia a "eterna primavera brasileira". Xandô e Estácio chegaram e já não se impressionavam com as carrocinhas carregando defuntos, ou com as aglomerações nas casas com cortinas de luto. Uma rotina de verão, tal como as enchentes e desmoronamentos causados pela chuvarada. Fazia tempo que o barco Navarre despejara a febre amarela no mangue. Pelos corredores do esgoto, os ratos transportavam a cólera e a peste bubônica. O quadro só era dantesco e trágico para as vítimas. Parecia insignificante em face da paisagem, céu e mar descerrados, montanhas belíssimas, porta aberta de um éden tropical.

Para quem chegava tinha início um sonho.

Confundiam-nos os contrastes. Nas palestras os literatos defendiam um realismo com descrição do sórdido, da fieldade, da doença e da miséria. O Rio de Janeiro disfarçava suas tristezas e dores. Tudo belo, alegre e pitoresco. A corte negra instalando-se nos paços de pau e zinco dos morros, as favelas. A miséria nos cortiços. As ruas e becos escuros. Ainda assim, Xandô protestava que deviam ser realçados os valores da vida. O bem e o belo, a bondade da terra, o trabalho e o coração do homem. E não apenas os aspectos negativos do meio.

Ele e Estácio tinham amigos entre os gnoas e os guaimus, grupos de capoeiristas, porém não se envolviam nos freges à porta dos teatros e das festas elegantes. Já o Matosinho, filho do conde proprietário de um jornal, fora trancafiado no presídio de Fernando de Noronha, quando o novo chefe de polícia quis pôr fim às arruaças.

Ouviram o comentário na pensão:

     - Quintino Bocaiúva intercedeu em favor do Matosinho, exigindo a soltura. O caso deu lugar a uma crise ministerial - criticou o estudante mais velho.

     - Por isso?! - estranharam.

     - O conde vendeu o jornal e vai embora para a Europa -informou outro.

O garção efeminado provocou risos:

     - Que bom ser um conde, ficar desgostoso e ir morar em Paris...

Uma notícia deixou os acadêmicos frustrados. Perguntaram a Xandô na faculdade:

     - Sabes que Laiz, irmã de Orestes, foi pedida em casamento pelo capitão Teles?

Alguns se consolaram na taberna, mas Xandô aceitou o fato naturalmente. Conhecia o militar que ficara viúvo, muito amigo de Tio Silva, o qual comandara um esquadrão de cavalaria em Curitiba, colega do major Solano. Achava-o digno e capaz de fazê-la feliz.

Nos cafés falavam da degeneração da monarquia, que D.Pedro fora instado a abdicar em favor do neto e, na viagem para o exílio, o rapaz quase estrangulara o comandante do navio.

Desde as primeiras reuniões no Instituto dos Meninos Cegos, Benjamim Constant encontrou a resistência de Deodoro. Não havia quem não soubesse:

     - Deodoro não é mais o mesmo, desembainhou a espada contra Benjamim Constant.

Ao demitir o ministério que se recusava a aprovar-lhe os atos, nomeou um gabinete de monarquistas.

     - Conselheiros caricatos - definia-os o povo.

Então Floriano fez a sua aparição, consagrado na chapa oposicionista como vice-presidente, na Quinta da Boa-Vista.

Discutiam-se as divergências no governo, as nomeações de presidentes provinciais, a dívida de um milhão de contos de réis, a emissão de papéis sem lastro pelos bancos, a jogatina e as negociatas que levavam o país à ruína. A multidão de aventureiros encasacados formava-se defronte ao prédio da Bolsa. Chamavam de Encilhamento a nova política econômica, lembrando a hora em que os cavalos entram na raia e os apostadores ficam frenéticos. De bengala e cartola, os ricos montavam a cavalo na pobreza.

Desagradava a todos o governo do marechal Deodoro. Criticavam-no como fábrica de leis para mudar nome de ruas, praças e estabelecimentos. Indignados contra o Encilhamento, os fazendeiros de café pressionavam pela Constituinte. Militares democratas queriam a substituição de juntas por governadores eleitos. O país pendia para a ditadura, porém as eleições foram convocadas para o mês de setembro.

Vaticínios de flagelos não eram apenas de João Maria, ao sul, e de Antônio Conselheiro, ao norte. Em pleno centro do Rio de Janeiro, as pessoas afirmavam:

     - Reina a anarquia, o clima é de guerra civil, vai correr o sangue que D.Pedro não quis ver derramado.

A contra-revolução se fortalecia procurando desestabilizar a República por todos os meios, espalhando boatos como o de que a flotilha da Marinha Imperial fora buscar de volta o rei.

Na sala de aula, um professor socialista previu o surgimento de um líder unificando o movimento republicano e combatendo as correntes contra-revolucionárias. Empolgou as classes ao falar de Floriano. Citou-lhe as palavras no Campo de Santana.

O estudante Xandô não primava na sala de aula, menos atento à matéria clássica. Até o subestimavam e riam de seu modo folgazão. Com seu modo de imaginar como queria que o mundo fosse, não o satisfaziam preceitos preestabelecidos como o de que a justiça "consiste em dar a cada um o que é seu". Achava que serviam aos interesses de aristocratas, proprietários e escravocratas. Cada qual interpretaria como lhe conviesse. Escolhera o curso por ideal, na convicção de que a justiça é o bem. Relacionava-a à bondade, ao perdão e à caridade. Evoluía para a aceitação de penas como fatalidade, para o pensamento de que determinavam o direito as leis de causa e efeito, enquanto a justiça provinha do sentimento do bem e do divino. Tinha essas cousas no espírito, porém ainda não sabia explicá-las. Nada lhe ocultavam as faces das pessoas nem as pedras das ruas. O próprio Rio de Janeiro, sua Universidade. Além de atencioso na classe ou nas tabernas, aprendia com pretos velhos, criadas e lavadeiras, mascates, operários, carroceiros, cocheiros, soldados, marinheiros e remendões. A falta de serviço no país criara uma multidão de desocupados. No Rio perambulavam negros libertos, artesãos, ambulantes, prostitutas, pedintes. Mas uma população buliçosa, superando a tristeza.

Cidade alegre. Os teatros apresentavam companhias de revista, os jornais instituíam seções de humorismo. Inventaram modas de Deodoro, que cantavam nas ruas e nos cabarés:

 

     "Fui ao Campo de Santana

     beber água na Cascata,

     encontrei o Deodoro

     dando beijo na mulata.

 

     Chegou, chegou, chegou,

     chegou agora, agora...

     chegou há bocadinho,

     inda não faz meia hora."

 

Fazia ponto na Candelária um mendigo de pés enormes em que tropeçavam os transeuntes. Estirando-os tapava o caminho. Temiam-lhe o cangapé. Perguntavam-lhe se era verdade que, numa casinhola do morro, dormia de patas para fora. Tranca Rua, porta-voz de maledicências, revidava as chacotas. Maroto e atrevido, importunava os cavalheiros:

     - Agora é só trepá, não precisa casá. Religião se acabô. Vão enterrá branco cum preto, cristão cum judeu, católico cum ateu.

A par de tudo, satirizava as mulheres:

     - Rainha não tem mais, só a mulhé do presidente é uma dama. E quando não tivé mais rei nem presidente?

Não perdia os fatos que agitavam o Rio de Janeiro:

     - Quiseram mudá o hino, o povo se revoltô no Teatro Lírico, cantando em pé o ouviro do Ipiranga! Só palhaçada, acabô o duelo do Bilac cum o Malet.

Insolente quando lhe negavam os réis, procurou jogar os fiéis contra um padre republicano, anunciando à porta da igreja:

     - Tiraram a cruz da bandeira do Brasil.

O padre salvou-se com muita presença de espírito no púlpito:

     - Houve uma troca bem idealizada. Apenas a substituição de uma cruz por outra, pela cruz de estrelas, o Cruzeiro do Sul.

O professor Benjamim Constant não era católico, mas as suas seis filhas bordaram na bandeira o símbolo que estava no céu.

Havia sinais de mudanças na sociedade. Discutiam-se as condições de trabalho, a exploração de menores e de mulheres. As de classe média procuravam timidamente o magistério, o acesso a escritórios e repartições. Animavam-nas as novas de que, na Inglaterra, pediam o direito de voto. Os cavalheiros criados durante o escravismo reagiam com escárnio.

     - Sufragetes!

Ridicularizava-os o revide dos acadêmicos:

     - Viste a cara dos machões?

     - É a de quem não pode confiar nem na própria esposa e tem medo de mulher...

Laços de afinidade uniam Xandô, Estácio e Orestes, vistos sempre juntos na cidade. Influenciavam-na porque eram três moços alegres levando o mundo para a frente, agitando idéias generosas. Na taberna, os marinheiros exaltavam-se entre nuvens de fumo, peixe fresco e lanternas de querosene, ouvindo-os pregarem contra as crueldades nos quartéis e nos navios. Resquícios da escravidão, tal a lei da chibata.

     - É crime maltratar um animal, quanto mais um ser humano - Orestes se preocupava até com o chicote dos carroceiros.

Os três tendiam à humildade como os que rodam o progresso, passam despercebidos e não ficam na história. Fazem-na.

Aqueles que lhe são opostos e movidos por más-paixões podem ser cultuados, mas não são deles os ideais pelos quais vive a humanidade.

Há uma luta dos homens como pessoas, que não visa o poder, porém a fraternidade. Mas a discórdia grassava no país, invadindo lares, fazendas, povoados e cidades. A máquina transformara a economia, as relações humanas, desavindo ainda mais uns com os outros. O povo se fortalecia conquistando seus direitos nas cidades, rompendo os obstáculos das oligarquias monarquistas, porém estas ameaçavam voltar nas províncias. Os navios traziam imigrantes, mercadorias e novas cargas de idéias da Europa.

O mando político passava do campo para a cidade.

Compreendendo as condições do momento, os três amigos falavam de uma república democrática. Mas não faziam apenas política. Viviam intensamente, divertiam-se. Os novos esportes, tênis e futebol, só eram conhecidos na Inglaterra. Banho de mar estava fora de moda, mas Xandô e Estácio, freqüentadores do Tanque do Bacacheri, carregaram Orestes à praia. Jogo ou esporte, havia o turfe, versão chique das raias caboclas. Os nobres chegavam atrasados ao hipódromo para serem notados. As tardes enchiam de mulheres elegantes com vestidos longos, sapatos de salto Luís XV, chapéus floridos, e de cavalheiros com sobrecasacas, cartolas, binóculos a tiracolo.

Nas cervejarias, discutia-se qual a melhor marca, se "Pá" ou "Dois Machados", da Alemanha, se a "Guines" ou a "Portes", da Inglaterra. O senhor Villiger convidou-os a provarem num domingo a que preparava em casa.

O jogo do bicho fora inventado no Jardim Botânico. Anunciavam o resultado, interrompendo a conversa sobre o exílio de D.Pedro, os crimes de Jack, o Estripador, a Torre Eiffel e as dançarinas de cancã do Moulin Rouge. Os políticos falavam do reconhecimento do governo por países da América e da resistência oferecida pelos da Europa, mostrando-se preocupados com as tropelias no Sul.

Nas rodas cultas vinham à baila "A Dama das Camélias", Sarah Bernhard e a morte trágica de seu marido, as amizades íntimas de Oscar Wilde com rapazes, o tratamento por hipnose e "pó branco" de Freud. Causavam sensação as novas invenções: telefone, gramofone, luz elétrica, roda de ar, filme de celulóide. Continuavam em pauta a Revolução Francesa e a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. Entusiastas do cientifismo e dos prodígios da máquina viam no progresso o fim dos problemas e dos pecados humanos. Ser materialista virara sinal de superioridade cultural.

Os três amigos não concordavam com isto, concluindo que a história é obra de Deus, através da ação e da vontade inteligente dos homens. Deles depende fazer uso da ciência e da máquina para o bem ou para o mal - levavam horas argumentando. Menos falante, Xandô ouvia-os ressaltarem a importância de todas as correntes, como de positivismo e dos avanços científicos, engrandecendo o Papa que pedira fosse respeitada no trabalhador a dignidade humana. Tais idéias significavam que no Brasil, com o caldeamento de raças, classes e culturas, ocorria um sincretismo de crenças. Quando se arriscou a dar a sua, dizendo que os homens de bons sentimentos fazem e dirigem a história, um sujeito muito presunçoso tachou-o logo de maniqueísta. Afirmara que o povo brasileiro era bom por ser o caboclo o seu sangue e liga.

O governo de Deodoro enfraquecia a revolução, minada a República por numerosos focos de resistência. Impopularizou-se com o Encilhamento e opondo-se à convocação de uma constituinte. Grassavam os inconformados, os arrivistas, gente em busca de posições, mando, notoriedade. A marujada acudiria ao primeiro toque de reunir contra o regime. A contra-revolução avançara, aproveitando-se do desencanto e confusão nas hostes republicanas.

Os próprios estudantes deram razão aos protestos contra o governo do marechal Deodoro: - Que República é esta que manda espancar e trancafiar jornalistas?

Por fim, cedendo ao clamor de eleições, Deodoro promoveu-as sem obrigatoriedade, manipuladas.

Em Ponta Grossa, uma cidade pacificada, cinqüenta praças embalados postaram-se à frente da igreja. O capitão Canto Ribas deixou primeiro votarem os correligionários. Aos adversários, interpelou:

     - Onde vão os senhores?

     - Vamos votar.

     - Quem for do governo, pode entrar. Quem for anarquista e do contra, é proibido.

As listas com nomes de candidatos a senador e a deputado partiam do Rio de Janeiro para as províncias. O marechal prestigiava políticos ligados aos gabinetes monarquistas. Não bastara a escolha a presidente que se dera por afeições, percorrendo-se os almanaques militares.

A Assembléia instalou-se no Rio, no primeiro aniversário da Proclamação, celebrada em local distante do centro, no Paço de São Cristóvão.

A contra-revolução ameaçava o país de desmembramento e morte. Com Deodoro havia um vazio no palácio, o legislativo opondo-se a seus atos. Conselheiros, barões e almirantes fomentavam sedições, a revolta, a guerra civil, pretextando sem nenhuma razão o federalismo já instituído com ampla autonomia nos estados e soberania da União. Constituintes propuseram a conversão do Brasil em confederação de vinte pequenas pátrias, com extinção de exército nacional, para dotar uma marinha de guerra a cada estado. Havia muita gente ambicionando altos cargos, pleiteando postos, concessões, condecorações. Os que se gabavam de bravuras davam a impressão de sentirem mórbidas saudades de mortes e desgraças na guerra.

Indignavam-se as classes urbanas e a juventude, levantando-se o povo em defesa de seus valores e da unidade nacional.

A desordem grassou com a instabilidade dos governos, da alternância de facções e grupos rivais, disputa de chefetes envolvendo militares, gerando crise de autoridade. Esse desgoverno não era, por certo, a anarquia desejada pelos imigrantes italianos, muitos deles presos em São Paulo.

Em tal clima, inaugurou-se a era das liberdades e direitos dos cidadãos, com a proclamação da constituição republicana.

Só em julho do ano de noventa e um, Xandô desligou-se de tudo, para rever a terra natal. Não agüentou tanta saudade, achando o céu triste noutros lugares por não cobrir o Paraná. Em suas cartas avisou que assistiria às festas de Santana. Imaginara o casamento de Júlia e Matias exatamente como fora. Na igrejinha de tábuas, ele de calça listrada e paletó preto, Júlia toda de branco. Os polacos da Santa Bárbara engrossando o desfile das carrocinhas enfeitadas com fitas coloridas, para a festa acabar em lua-de-mel na colônia. Parecia ouvir o que diziam na cidade:

     - Os polacos estão branqueando os negros.


 

 

 

FUGA

 

 

I

 

A viagem de volta à província foi uma fuga que começou no cais e, quando o paquete se afastou do burburinho carioca, a mente perdeu-se no mar. Em Paranaguá, tomaram o trem que subiu cachimbando a serra vagarosamente. À chegada, a mesma bulha na plataforma. Bento e Genésio, depois que Xandô se despediu de Estácio, levaram as malas à caleça.

O trânsito nas ruas não apagava a impressão de marasmo e monotonia de quem vinha do Rio de Janeiro ou de São Paulo e se exprimia:

     - Que movimento parado...

Recebeu-o com alegria o casarão, ansioso de ouvir-lhe os relatos. O que contou se espalhou e, na seqüência de suas aventuras, atribuíam-lhe proezas nos sucessos do Campo de Santana. Nas ruas emendavam a fama de antes com a que trazia do Rio de Janeiro. Olhavam-no com simpatia os republicanos, e com o rabo dos olhos os das facções decaídas. Quando o elogiavam, sentia-se constrangido, perdia o jeito. Estácio pusera a cidade a par de tudo que fizera o seu melhor amigo. O exagero chegara a ponto de dizerem, tanto em Curitiba como em Ponta Grossa, que se não fora Xandô, o trono estaria de pé.

Ele se dizia desiludido ao ver os vira-casacas em busca de cargos e honrarias. Tio Silva esclarecera que fatos semelhantes repetiam-se no estado:

     - Virou moda parecer bravo, um grande homem, exibir medalhas e condecorações. As patriotadas estão em voga - ironizou.

Foram fugazes as férias. Apenas alguns dias em Curitiba, o tempo suficiente para matar as saudades que sentia dos tios, como de Luzia, Bento, Clarinha e Genésio. Ainda pôde enturmar-se com os amigos. Primeiro desejou reatar um namoro, revivendo com Belinha o passeio de bondinho de burros. Aguardou-a sentado no banco de trás, distraído com os anúncios. Num cartaz - "Pharmácia Pitta", noutro - "Vítor do Amaral, médico e parteiro". Os menores com "Cigarros Indianos", "Xarope Rosão Iodado", "Purgativo Jubileu". Ela saiu da igrejinha do Largo da Ordem, esgueirou-se pela Tiradentes e desceu até o ponto. Viu-a ocultar-se com a sombrinha inclinada e desconfiou de algo. Estava indecisa, mal permitiu que a beijasse, dizendo-se proibida de vê-lo. Deixou-o numa das paradas, e o motivo se encontrava na esquina: um moço de bigodinho, com bela farda de tenente.

Fez-lhe bem o regresso, rever gente querida, inclusive Belinha, apesar da desilusão. Consolaram-no os colegas: - Você ficou longe, e ela é mesmo belinha, né?

Felizes, eles esqueciam os dissabores nas rodas de chope. Estácio e Rosendo queixaram-se condoídos da sorte de Maria Conceição.

     - A pobrezinha é maltratada na casa do italiano.

Afastavam-se de políticos, mas sabiam da renúncia do governo, de festa na mansão de Vítor Machado, cheia de gente barulhenta, jogando, ouvindo palestras, música, dançando. Que tomasse cuidado, pois na do doutor Glória não era menor o movimento e tramavam a volta da oligarquia deposta.

Com vira-casacas a dar com o pé, mantendo privilégios, as eleições não vão ser livres nem honestas - observara Estácio.

Xandô foi alvo das atenções de ex-militantes da Ultimatum, de vários colegas de farda do major Teles e do major Solano. À Luzia, que o fitava com maior orgulho no casarão, dirigiam-se disfarçadamente os olhos dos jovens solteiros. E já no quinto dia, Bento e Genésio acompanharam-no ao ponto da diligência.

Viajou na rede de trilhos com trechos escavados de patas, rodas, enxurradas. Na estalagem da primeira muda, o cocheiro repetia de beiço esticado: - O carreiro tá que é um charco. Os cavalos não disseram nada, tinham pressa de chegar e, depois que o tempo firmou, pastaram a distância. A região prosperara, viam-se colônias nascentes, sinais de prenhez: capelinhas e ranchos de tábuas.

À saída de Papagaios, os passageiros tomaram leite fresco em tigela de pau, onde uma negra moía café no pilão. Crescera a animação com a proximidade do rio Tibagi. Naquelas águas - agora sim! - afogavam-se as saudades.

Não era a carruagem, porém o coração que o trazia de regresso. Havia mais ar nestas paragens, revigorando-o e a todos dando a agradável sensação de renascer. A de altivez provinha de contemplar o pinheiro alteado, monarca de coroa vegetal cravejada de sol e passarinhos. Ocorreu-lhe o pensamento de que se os poetas e escritores fossem da região, respirando esse ar, jamais optariam pelo negativo, o feio e o miserável. Exaltariam, acima de tudo, o bem e o belo. Nem prestara atenção ao gado nos cercados de pasto, aglomeraram-se as chácaras, depois as casas. Caiu em si ao desembarcar.

De mala na mão foi atropelado ao atravessar a esquina. Um susto, um grito agudo, estatelou-se na poeira. No choque partiu-se o biciclo de rodas maciças, com guidão de ferro, que atirou do selim a moçoila ousada. Ao se erguerem do chão, fulos de ódio, iam trocar desaforos quando se reconheceram:

     - Xandô?!

     - Letícia!

Passados o susto e o espanto, os olhares se reencontraram e bastou para que sorrissem, embora gemendo.

     - Machucou-se?

     - A perna, um pouco. E você?

     - Caí sentada. Dói, mas não é nada.

     - Que perigo essa geringonça. Assim que me recebe?

     - Tio Jango inventou prá mim, desculpe.

Ameaçaram dar-se as mãos, porém estavam sujas. Levantaram-se com dificuldade, ajudando-se, e quase se beijaram ao perderem o equilíbrio.

O sol ardente afugentava as pessoas das ruas, por isso quem viu toda a cena foi só o tio, também caldeireiro, o bom dos Ribas. Ao perder a filha Helena, amenizara a dor transferindo à Letícia o carinho paterno. Acudiu-a, levou-a para casa, guardando segredo do acidente.

Xandô encheu de vida a nova casa, um sobrado. O fato é que nem parecia de uma só família, filho apenas de Naná e Frederico, irmão apenas de seus irmãos. Amigo de todos, todos o queriam bem. Quando Frederico concluiu a venda do hotel e da confeitaria, mudando-se para o prédio da nova Rua Quinze de Novembro, a tristeza estampou-se no rosto dos que continuaram trabalhando no Estrela. Além de pagamento em dinheiro, recebera uma casa e a chácara. A família levou consigo a alegria que se transferiu para aquela rua do vaivém, na qual passeavam e namoravam os moços. Frederico e Naná estavam felizes, Alberto pontificava como professor e diretor de artes do município, mandando no teatro. Manoel gerenciava o comércio do futuro sogro. Cecília casara com um oficial de marinha, e por Xandô, que vai ser um doutor, Deus há de olhar! - exclamava Naná.

Além de haverem juntado um bom dinheiro, tinham uma casa para alugar, sem contar aquela em que moravam e uma chácara bem formada com todos os pertences. Ao fundo, um capão de mato. E o senhor Palreio entrou na posse do Estrela com uma féria diária de aproximadamente cinco mil-réis.

Xandô atraiu logo muitas visitas, a começar pelas de Júlia, Matias e de seus antigos companheiros da Mão Negra. Chiquito Ribas e sua esposa Aparecida reagiram proibindo os ensaios de Letícia, enquanto Tibúrcio arreganhou os dentes ameaçadoramente. Ela se tornara a estrela do grupo de amadores. Arrebatava a platéia com suas modinhas, misto de fados, chulas e toadas. Tomara aulas do preto Ramalho e dos professores da Colônia Cecília. Tinha o dom. Mexia com a platéia, interpretando a música nova, plebéia e negra, antes das bandas sacudirem os coretos. Ritmo que, com certeza, acabaria com os passos lentos de bailes como o dos tempos do império. Composições de Chiquinha Gonzaga não tardariam a sinalizar o novo regime. Alguns monarquistas retrógrados e empedernidos ainda se escandalizavam:

     - O mundo está virado, vai acabar no fim do século.

Letícia fora prometida em casamento ao primo, porém ninguém jamais duvidou que amasse Xandô. Principalmente após as festas de Santana.

Uma quermesse inesquecível, a praça enfeitada de bandeirinhas coloridas, moças nas barracas de prendas. A banda tocando no coreto, sorteios e leilões, quentão, pinhão cozido, doces e salgadinhos, gasosa e cerveja. Faltaram mesinhas para tanta gente. Maneco Cirilo, regente da "Aurora Pontagrossense", executou a missa de José Mendes, com a igreja lotada. À noite, eram tantas as lanternas penduradas nos fios, que pareciam estrelas iluminando tudo.

Houve um grande baile de encerramento.

Embora ausentes, os doutores Glória e Vítor Machado dividiram o clube, seus partidários em lados opostos ocupando as mesas. Mais de quarenta pares formaram a quadrilha no salão. Letícia levantou-se da cadeira, fingiu que ia à toalete e fez par com Xandô até a última dança. Os Ribas se ouriçaram, Tibúrcio bufou, e o zum-zum-zum chegou a abafar o som da banda. Mas num baile aristocrático ninguém ousaria parecer mal-educado. Impunham respeito não só as autoridades, o intendente, comandantes, camaristas e o pároco. Fazia-se presente D. Ambrósia, ostentando o título de baronesa recebido após um ano do enterro do marido. Estava muito acima de qualquer coronel da guarda nacional.

O doutor Casemiro, de jaquetão azul, calça balão de linho branco, gravata de laço vermelho, sapato amarelo de salto alto e biqueira fina, tirava as moças:

     " - Pardonne moi. Arriez vou lá bonté, Madame? "

Comandava a quadrilha:

     "- En avant.

     - Retourner les dames e les chevaliers aussi.

     - Balancer. Autre foi.

     - Traverser.

     - Fermer le circle!"

 

Fazia jus ao título de presidente dos festejos populares, com o qual fora agraciado depois que chefiara as comemorações de Treze de Maio. Animava o Campos Gerais enquanto os Ribas se continham.

De mãos dadas com Xandô, ou sentindo a dele em sua cintura, Letícia desafiava o mundo. Em vão Dorinha procurou demovê-la do intento. Punha-o em perigo, noutro lugar enforcavam-no pelo colarinho. Foi perdendo o medo, entretido com o seu jeitinho de menina-moça, até encantar-se, esquecendo-se do rio de ouro que era Belinha. Achou que Letícia possuía mais graças. Ainda que não soubesse, já a tinha no coração. Fitou-a com ternura e, durante a valsa, ela lhe perguntou:

     - Você se lembra da promessa que me fez?

     - Sim.

     - Vai cumprir, não é? Então vamos dançar todas para verem que nunca existiu noivado algum. Quero fugir, não vou me matar nem parar num convento como outras.

Adivinhando o que se passava entre os dois, as velhotas tesouravam no camarote:

     - É uma criança, não quer saber do noivo arranjado, namora aquele que gosta.

     - Um pecado de Chiquito e Aparecida.

     - Não pode ver o primo nem pintado. Desde criança se enrabichou pelo peralta dos Silvas.

Alheio às ameaças em torno, o par dançou por último o tango "Coalhado". Houve o maior respeito à Padroeira e o baile não terminou em briga.

 

II

 

No mês de novembro, o marechal Deodoro empurrou o país para o abismo. Aproveitando o Finados, dissolveu o Congresso, impôs o estado de sítio e censura à imprensa. "Vou depor a anarquia" - proclamou. Um golpe na República. Mau também para os operários e socialistas que, com italianos anarquistas, haviam fundado o Partido Operário. Eclodiram greves, a principal na Central do Brasil.

A exemplo de Solano, elevado a general, muitos militares apoiaram o ato e se referiam aos deputados como "coveiros da República". Deixavam-se levar pela solidariedade ao chefe fardado. O exército ocupou as casas legislativas, efetuando prisões. Governos estaduais confundiam-se em face de ter sido justamente Deodoro o proclamador da República. Aqueles que desde logo não aprovaram o golpe foram depostos. Júlio de Castilhos caiu no Rio Grande do Sul, mas a guarnição de Porto Alegre jurara resistência.

Vinte dias após o cerco ao Congresso, o Rio de Janeiro ficou na mira dos canhões de três navios. Então assumiu o governo o vice-presidente Floriano Peixoto, substituindo Deodoro. Reabriu-se o Congresso, e assim que começaram a ser demitidos os governadores não confiáveis, terminavam as provas dos acadêmicos. Novas férias Xandô foi passar na casa paterna.

Após breve estada na capital, chegou de fininho, com medo de provocar alarde na rua do movimento. Minega procurou-o com um recado. Filho da cozinheira da casa, contou-lhe o que sofria Letícia. Mantinham-na noiva sob ameaças, de casamento marcado, embora conservasse distância do primo. Os pais se enfureciam ao ouvirem que desejava ser artista e dona da própria vida. A situação piorara de vez, após as festas de Santana. Nem em Dora podia confiar, que ora intercedia em seu favor, ora parecia aliada da mãe. Felizmente havia o tio Jango.

Era da pranteada Teresa, sua prima, o túmulo onde Letícia foi depositar flores, local secreto do encontro. Ao revê-la ajoelhada, rezando, Xandô comoveu-se. Uma prova contrária às afirmações nas tabernas contra a existência e a bondade de Deus, uma revelação a fortalecer-lhe a fé. O amor entre os dois, verdadeiro, puro, total, sem pecado nem morte, é o que está sempre fora de moda. Ela sabia que o amava há muito tempo, ele não. Deram-se as mãos, contendo o desejo de se abraçarem.

     - Vou lhe cobrar a promessa - tremor no corpo e na voz.

     - Do menino na igreja, ou do homem no baile?

     - Dos dois, você mesmo, um irmão que eu não tive. Tem coragem de me salvar desta? - tocou-lhe nos brios.

     - Não duvide.

Sempre fora assim, Letícia remexia-lhe o coração, atingindo-lhe o orgulho, o amor próprio. O desafio fê-lo sentir a compulsão no peito. Ao vê-la colocar a vida em suas mãos, o pedido soava como uma ordem irresistível. No breve colóquio combinaram o reencontro, um plano de fuga, e se despediram com a agradável sensação de um leve beijo no cantinho dos lábios. A aia se entretivera na romaria à tumba da desditosa Carolina.

Cumprindo o trato, Xandô viajou para Curitiba e não pensava noutra coisa, guardando segredo. Letícia a dizer-lhe mais de que pelos lábios, pelo gesto, pelos olhos e com o movimento do corpo - cinturinha de vespa, busto levemente realçado, oculto entre babados sobrepostos - o que não saía da lembrança: - Quando duas crianças se ajoelharam jurando amizade ante à cruz, você se tornou igual a um irmão para me salvar.

Surpreendiam-no rindo sozinho do acidente com o biciclo. Estranharam-no um pouco no casarão, mas ninguém desconfiou de nada quando falou da hospedagem a uma amiga de Cecília, sua irmã.

Descartada a idéia de sumir com um fiacre de aluguel, dirigiu-se à coudelaria no Largo do Bom Jesus. Um terreno cercado de muros e gradil de ferros, com ranchos e estrebarias. No chalé assobradado entendeu-se com o gerente Balbino.

     - O general Solano mandou-lhe um grande abraço.

O efeito foi imediato, o gerente até corou sentindo-se lisonjeado.

     - Somos muito amigos, colaborei como pude na Confederação Abolicionista. O general é um grande homem.

     - Vim procurá-lo em seu nome, para cumprir uma missão no maior sigilo, pois o senhor é pessoa de sua confiança.

     - O que estiver em minhas forças...

     - O comandante do regimento disse que o senhor cooperaria de muito bom grado, cedendo um dos carros para que a realizássemos. No caso não poderá ser usada uma viatura militar. O empréstimo será de no máximo por uma semana.

Deu certo, com esperanças de tirar proveito do favor prestado, o gerente recomendou:

     - Não vou deixar de dar a minha contribuição à causa da República, diga aos chefes e a seu tio que estarei sempre ao lado dos patriotas.

     - Não há dúvida de que seu nome será lembrado. Por saberem disso é que me mandaram...

Escolheu a carruagem e convenceu Otelo a ajudá-lo. A seu lado na boléia, o amigo não se conteve:

     - Putcha lá merda! Você é mesmo louco, me mete em cada uma!

Dera-lhe folga Fernando Barreto, o Totó, uma vez que poderia contar na arena com o anão Bartolo, um novo coadjuvante. Cocheiro de ébano, reconhecido com seus olhos arregalados, apontavam-no:

     - Olha lá o Otelo!

Esquivando-se do noivo, Letícia só não fingia de morta. Se não fosse salva, diria não ao padre, ainda que sobre a cabeça desabasse o mundo. Aproximava-se a hora, tudo pronto para a cerimônia e a festa, os moradores provando os trajes novos. Dona Aparecida, fautriz da novela, abria os presentes em vez da filha.

Na véspera, havia uma azáfama de gente a serviço da família do coronel Chiquito. Anita não pudera vir devido à situação no Rio Grande do Sul e ao compromisso do marido com a sua unidade. Mas a parentada já estava reunida. Armaram um caramanchão no terreno. Ficou tudo preparado na cozinha, leitões e perus seriam levados ao forno no terreiro. A igreja matriz se ornamentara, com o coral ensaiado. Letícia, que estava nervosa e aflita, mudou quando Dora entregou-lhe no quarto um envelope:

     - O negrinho que trouxe o presente, veio com uma cartinha de um dos convidados.

Abriu-a, reanimou-se e até experimentou o vestido de noiva, para satisfação dos familiares. A mãe, as tias, a irmã e as criadas ajudaram-na a aprontar-se e a fazer as malas para a viagem de lua-de-mel.

Passava de meia-noite, a cidade dormia. Letícia abriu a janela, desceu as duas malas com as alças presas ao lençol e pulou para o quintal. Trocou de lugar com a lua que entrou no quarto, também pela janela. Xandô acompanhou-a do portão, levando-lhe a bagagem. Otelo ficou boquiaberto e tremeu de medo ao vê-los subindo à carruagem:

     - Então é uma moça a tal encomenda, hein?! Por que não me falou? Vocês não são deste mundo...

Outro que se surpreendeu foi o coronel Bitencourt, o qual favorecera a fuga involuntariamente, ocultando-os na suposição de prestar um serviço aos correligionários.

Os galos acordaram o sol, que se espreguiçou, e estenderam a manhã sobre os campos. Primeiro uma criada bateu à porta do quarto, depois outros gritaram em vão. Viram o coronel Chiquito arrombá-la e ficaram perplexos. Em cima da cama intacta, bem arrumada, o vestido de noiva. O guarda-roupa vazio e a janela escancarada contavam o resto. Ninguém se conformava, e o mistério consistia em como, por quê, com quem? Sumira com o dote em dinheiro, cinco contos de réis, com o qual quiseram comprá-la. Faziam-se conjeturas de todo tipo. Escândalo maior na cidade só o desenterro de Carolina.

O banquete foi distribuído aos pobres, formou-se uma fila enorme. Devolveram-se os presentes, a casa não parecia mais a das "Três Meninas" ou das "Três Marias", apagara-se o brilho das estrelas. Falando em lavagem de honra, os Ribas fizeram buscas, ameaçaram invadir residências, vasculharam a cavalo o município. Não davam ouvido ao tio Jango que defendia a sobrinha. Notícias desencontradas os confundiam. Uma delas deixou-os estupefatos. Um caixeiro-viajante hospedado no Hotel Romão afirmou que, à boléia de uma carruagem suspeita, reconhecera Otelo, coadjuvante do palhaço Totó no Circo Imperial.

Namoro era pecado, amor crime, paixão loucura. Ai das vítimas de maledicência. Submetiam-se à disciplina preconceituosa dos pais ou corriam o risco de morrerem solteiras, ou teriam de optar entre o convento e o suicídio. Letícia era casta e fugira para não casar com quem não amava. Inventaram que fora vista, altas horas da noite, com um amante no Largo da Matriz, que a raptara um homem casado. Zombavam de haver embarcado num coche fantasma, circense. Tentavam difamá-la, porém o respaldo da moçada do teatro amador desfazia as calúnias. Prometendo vingança, os Ribas não queriam ouvir-lhe o nome, e sim punir o culpado, pouco se importando com ela.

O delegado que instaurou inquérito não encontrou provas para incriminar ninguém, apenas indícios, vestígios de uma lenda.

Ao sentir-se segura. Letícia recostou-se ao assento e adormeceu a seu lado. Não percebeu quanto ele lutou contra a tentação de beijá-la, tomá-la nos braços e, duma vez, possuí-la. Amava-a com respeito e, mesmo que a desejasse, Otelo parecia atento na boléia. Ela, sim, não ofereceria resistência alguma. Na primeira paragem, viu-a com toda a graça feminil, sonhadora, os olhos fazendo asas das pálpebras. Ave em suas mãos, sob seus cuidados. A confiança que um inspirava ao outro impediu um simples abraço.

À noite, chegaram à estalagem de Campo Largo, onde os corcéis da coudelaria de Balbino aguardavam a trela. A viúva Mariquinha, em cuja casa pernoitou Letícia, ficara de sobreaviso para seguir de carona em viagem de visita a uma comadre. De madrugada, Xandô e Otelo foram buscá-las. Assim, Letícia chegou acompanhada de uma senhora a Curitiba.

Acolheram-na no casarão e, em pouco tempo, parecia filha do casal, uma irmã para Clarinha. A ela, igualmente se afeiçoaram Luzia, Bento e Genésio. Aliás, não havia quem a ela não se inclinasse. Tomou parte numa das reuniões e tornou-se a atração nos salões residenciais das damas da sociedade. Uma estrela de fato, conquistou a capital. Num grupo de amadores do Teatro São Teodoro, atraiu as atenções de Pepa, a diretora de uma companhia de revistas. Então Letícia ganhou de vez o palco, muito admirada. Artista da sociedade local, provocou curiosidade, mas ninguém lhe adivinhava o segredo, principalmente o que existia entre ela e Xandô. Escondia-se atrás de um nome artístico e, vista em sua companhia, por causa de um quê misterioso nos rostos, perguntavam-lhes:

     - Sua irmã?

     - Seu irmão?

Sorriam qual se assim parecessem.

O sucesso dela intimidou-o, pois quando foi declarar-se a voz morreu na garganta. Mas ao despedir-se abraçou-a, beijou-a como no atropelamento pelo biciclo, pediu-lhe que o esperasse.

     - Sim, eu vou esperar você - prometeu-lhe Letícia na estação.

Naquela noite, relatou tudo que lhe acontecera, como Xandô a salvara de uma situação que não suportava e poderia terminar em tragédia. Comovendo a todos, pediu perdão ao Tio Silva e à Dulce por haver ocultado o fato. Fora convidada a excursionar com a companhia, dispunha-se a mudar-se e alugar acomodações, não queria abusar de sua bondade. Mas quem mais se surpreendeu foi ela própria ao ouvir o que Dulce lhe disse com a concordância do Tio Silva:

     - Ah! minha filha, nós sabíamos de tudo. Meu marido obrigou-se a engabelar o senhor Balbino a respeito da carruagem, e Fernando Barreto esteve aqui, atrás de notícia de Otelo. Quando começaram os comentários sobre a fuga de uma noiva da cidade de Ponta Grossa, ligamos os fatos. Nós nos apegamos muito a você, filha.

     - Não sei como agradecer... - comovida, lágrimas de gratidão diziam mais que as palavras.

Participou de um espetáculo que houve no Teatro São Teodoro, em homenagem a Vítor Machado. O doutor Glória travara amizade com o comandante do distrito e combinara um golpe com seus correligionários. Grupos exaltados para lá se dirigiram para acabar com a festa. O plano foi descoberto, e a polícia cercou a quadra do teatro. Mas o número de Letícia cantando modinha e lundu fez o público esquecer a política.

Razão tinha Tio Silva. Dulce perguntou-lhe ao apagar o lampião no criado-mudo:

     - Por que será que não se declararam? Nasceram um para o outro - observou.

     - Letícia sabe que fugiu com quem vai casar - ponderou o marido.

Em Ponta Grossa, os Ribas desnortearam-se em face das notícias desencontradas. Recebiam informações de que Letícia fora vista ora em Santa Catarina, ora no Rio de Grande do Sul. Dariam crédito a um parente, Felício Rato, que diria tê-la visto cantando e encenando no Circo Imperial.


 

 

 

O PRESIDENTE

 

 

O comando da revolução tornara-se governo. Assumira-o a personagem central dos acontecimentos na Capital, que os decidia com um gesto ou uma palavra. Floriano, um homem que não tolerava lisonjas, festins, detestado pela nobreza. Ao assumi-lo correra o risco de cair numa cilada. Responsável pelo que ocorrera no Campo de Santana, contrário ao fechamento do Congresso, tinha contra si os monarquistas e o próprio Deodoro, seu amigo, no entanto. Secretas vigiavam-lhe a casa, evitando que estabelecesse contato com Campos Sales e outros congressistas. Apesar da ameaça, fora ao Arsenal da Marinha e, encarando o almirante que ambicionava o cargo, esteve no navio que bombardeava o palácio.

Fora-se o ano, levando Benjamim Constant e Silva Jardim, este devorado pelo vulcão Vesúvio. Muito fraco, com a vida por um fio, Deodoro arrependera-se no dia seguinte ao golpe, em face da exprobração de Pinheiro Machado, enviado de Castilhos.

O ambiente de confusão política, ambição de militares, agitação de restauradores, favorecia a contra-revolução. Esta armara botes como um dragão de asas e várias cabeças. Floriano, presidente, desembainhou a espada para salvar a República.

Quinto filho nascido num sítio, oferecido a um tio, criou-se no engenho, freqüentou escola e assentou praça. De raso foi a tenente, de tenente a coronel nos campos de batalha. Num decisivo avanço de emboscadas, proibido de disparar um só tiro que alertasse o inimigo, tomara de surpresa a artilharia paraguaia. A façanha pusera fim à guerra, ao possibilitar o assalto ao acampamento de Solano Lopes, morto no combate.

De hábitos simples, caseiro e até displicente, o presidente Floriano tomava café nas tendinhas, conhecido nas ruas:

     - Um homem como nós - surpreendiam-se os populares.

A decaída elite ofendia-o pelas costas.

     - Um sargentão.

     - Achincalhe para a guarda nacional.

     - Ele e a primeira dama são dois caipiras.

     - Com a mulher e a filharada formam uma quadrilha de festa de São João - gracejavam despeitados, com saudades dos bailes da corte.

O presidente Floriano ficava numa saleta do Itamarati, de dolmam aberto, quase descalço, fumando cigarros de palha. Diziam que escandalizara diplomatas, recebendo-os de calça, camisa e chinelos, com prato e colher nas mãos, comendo curau. Ou magro e pálido, com a sobrecasaca folgada, sem-cerimônias, a espada estorvando-o.

Jamais houve alguém tão injustamente injuriado, pois seu desejo era evitar a guerra civil e estabelecer a paz. Distorciam-lhe a imagem, desvirtuando-lhe as atitudes enérgicas. Comandando a resistência revolucionária do novo regime, provocara a ira da corte, das oligarquias decaídas e dos golpistas. Enquanto alguns lhe atribuíam a inauguração de um período jacobino, como ocorrera na França, outros o xingavam de traidor, de ditador perverso. Crivavam-no de pejorativos. Um pároco lhe escrevera uma carta amaldiçoada: "- Monstro, cara de idiota e entranhas de fera." Não devia ser padre.

Os entojados revelavam aversão às feições caboclas. O sertanejo, o matuto, o campeiro e o caiçara estampavam-se nas faces sincréticas do presidente. Bigodes ralos sob os vincos das asas do nariz, suíças borrando o rosto qual a moitinha de pelos no queixo. Diziam "cara de papas", "de plastro", "mole e sem expressão", coisas desse tipo para a fisionomia de uma raça que não se deixa enganar, experimentada e forte.

Soldado no pico da carreira, presidente cinqüentão, pai de numerosa família, taquariço, de estatura média e tamanho da pátria. Nesta dimensão o via a mocidade idealista. Se João Maria incubava o fanatismo no Sul, Antônio Conselheiro no Norte, e a caudilhagem ameaçasse o país, em contrapartida o sentimento de brasilidade a levava a um tipo de jacobinismo florianista. Ai de monarquistas e girondinos.

Davam forma à brasilidade a juventude nas escolas, nos quartéis, os ativistas republicanos e os operários. Em toda parte, defendiam com veemência o presidente:

     - Os que combatem Floriano tramam contra o Brasil e a República, são monarquistas, carreiristas, especuladores da Bolsa.

     - Floriano foi eleito legalmente pelo Congresso, como Deodoro. A ele não se aplica o artigo invocado para depô-lo. O Congresso referendou a sua posse.

     - Como podem falar de militarismo, se Floriano reabriu a Câmara e o Senado, fortalecendo o poder civil?

As oposições locais nos estados depuseram os governos que apoiaram o fechamento do Congresso. Aproveitando a confusão, os reacionários levantaram bandeiras desagregadoras de parlamentarismo, federalismo ou civilismo. Os governantes depostos recorriam aos tribunais que as juntas dissolviam, tal como eram cassados os ministros.

Em Curitiba, o doutor Vítor chefiou grupos exaltados e com apoio da oficialidade, depôs seus adversários. Mas no Rio Grande do Sul, a contra-revolução se fortaleceu caluniando Castilhos. Os inimigos exploraram habilmente o telegrama que passara a Deodoro: "Ordem pública será mantida aqui."

As conspiratas provocaram desordens, motins e, com a fustigação de bandos armados no interior, começou a guerra. Floriano tencionava acabá-la. Mas as duas principais cabeças contra-revolucionárias achavam viável a restauração monárquica. Almejavam substituí-lo por uma junta e, após um plebiscito, por rei.

Floriano adivinhava as intenções dos inimigos do regime. Tinha intuição qual se fora também um enviado do céu, soldado monge, monge general, com fé fervorosa no Brasil, herói sim. Com poucas palavras fanatizava os patriotas. Seu bordão - a espada com a qual fazia milagres, vencendo as dificuldades.

Xandô, Estácio e Orestes viram na taberna o sargento Silvino, no meio de marujos e pescadores, pregando a favor da ditadura de Deodoro. Homenzinho franzino, de olhos pequenos, vivos, e bigode no rosto marcado de bexiga. Chamavam-no de Engenheiro por causa da unidade em que servia. Não lhe fizeram caso antes de saberem de suas façanhas. Primeiro amotinara um navio da esquadra protestando contra a lei da chibata, mas em verdade pretendendo chefiar a deposição de Floriano. Em reunião secreta, fora escolhido por mais de trezentos votos para comandá-la. Os conspiradores prometiam-lhe uma insurreição geral em mar e terra.

Depois de frustrada a tentativa inicial, Silvino liderou os presos que deixaram os cubículos do subsolo para os serviços de rotina, trancafiou as praças do batalhão no refeitório, apossando-se da Fortaleza de Santa Cruz. Desarmados os oficiais, hasteada a bandeira vermelha, quarenta rebeldes dirigiram-se numa lancha à Fortaleza de Lage. À solapa, renderam a guarda, soltaram os galés e prenderam a guarnição. Então Silvino mandou ofício a Floriano "intimando-o a entregar o poder ao marechal Deodoro, no prazo improrrogável de duas horas, sob pena de bombardeio da Capital Federal".

O presidente foi pessoalmente ao Arsenal da Marinha e providenciou ataque através da esquadra e batalhões de infantaria. Uma lancha com dezenas de soldados aportou à praia, embora repelida a metralha. Desembarcou um emissário, ao qual Silvino mostrou-se insolente.

     "- Que farsa é esta? Quem é o chefe disto?"

     "- Sou eu o governador da Fortaleza. Sou eu quem mando. Já intimei Floriano a entregar o poder."

     "- Vocês não terão apoio, rendam-se ou terão um castigo tremendo."

     "- Ou Deodoro assume o governo ou vamos até o fim. Estamos resolvidos a ficar sepultados nas pedras desta fortaleza."

Numa arriscada manobra, os batalhões que partiram de Jurujuba foram alvejados do Pico, um baluarte de granito. Floriano ordenou ataque por terra, e os infantes deixaram um rastro de sangue nas picadas abertas na mata. Os primeiros que transpuseram o paredão, fizeram-no através de um galho de árvore. Aos gritos de "a vitória é nossa" e "viva a República", noventa soldados de revólveres e baionetas nas mãos, em árdua luta, subjugaram os amotinados.

As forças de mar e terra, mais os bandos populares que deviam dar apoio à revolta, conforme o combinado, não apareceram. E Silvino que assinou no ofício a própria sentença de morte, fugiria para o Norte onde, reconhecido pelo antigo fiel da alfândega, enviado para facilitar sua captura, seria preso em Belém. Por telegrama de uma só palavra, Floriano ordenaria: "- Execute".

A mocidade se agitava no clima de expectativas do Rio de Janeiro. Estácio não era um dos mais exaltados e assim se expressava entre os amigos:

     - É a segunda vez que fracassam. Na primeira, mandaram cercar o Congresso e fechá-lo, se não fosse eleito Deodoro. Floriano surgiu como vice na chapa de oposição presidida por Prudente de Morais, aclamado estrondosamente pelos congressistas e pelo povo. Agora procuram vingar-se, mas saíram com o rabo entre as pernas os cães revanchistas.

A par das aventuras de Xandô, interpelavam-no sorridentes:

     - Viste? Tudo aconteceu enquanto te arregalavas com uma daminha em Castro e roubavas uma noiva.

No país desassossegado, os inimigos de Floriano a encarnar a República confabulavam encapuzados pela noite. Recrutamento de voluntários, prontidão e movimento de tropas sobressaltavam o povo. Soldados do Norte transitavam para o Sul conflagrado. Atingia o auge a campanha difamatória contra o presidente. Tachando-o como "de ferro" e com outros epítetos, os próprios admiradores contribuíam para a distorção de sua imagem, qual se fora inumana. Não passava de um general da raça, de carne e osso, porém consciente de seus deveres de cidadão presidente. Em defesa das instituições não tinha escolha que não as medidas tomadas, correndo risco com Josina e os filhos.

O Brasil cindiu-se seriamente no Rio Grande do Sul. Enquanto Castilhos e Pinheiro Machado dirigiam o Movimento Reivindicador, na cidade de Bagé os adversários envolveram o velho general Joca Tavares, pretextando federalismo e parlamentarismo, aclamando como chefe o ex-conselheiro Gaspar Martins.

Definiam-se os campos da guerra civil.

Em movimento sincronizado, reuniram-se secretamente no Rio de Janeiro oficiais superiores do Exército e da Armada, assinando o "Manifesto dos Treze". Exigiam a renúncia de Floriano, ao qual o Congresso Nacional apelara para que empregasse todos os meios, a fim de manter a paz e defender o novo regime.

A contra-revolução assumia forma anti-florianista, com grande repercussão do manifesto. Lamentando o envolvimento de velhos camaradas, sereno e enérgico, Floriano demitia-os ou reformava-os. O Clube Militar eliminou de seus quadros os signatários, sob aplausos da sociedade civil.  

Neste ínterim, Xandô visitou Cecília, tomou no colo o sobrinho, conversando sobre a terra natal. À irmã confessou que não se esquecia de Letícia. Pelo que ouviu do cunhado, percebeu como se sentiam os marinheiros:

     - Desta vez, Floriano pagará caro por sua traição. Com uma junta governativa e um plebiscito as cousas voltarão a ser como eram.

Mostrou-se desinteressado do assunto para não contrariá-lo. Então Cecília animou o irmão, dizendo que as companhias evitaram o Rio de Janeiro, mas se Pepa Ruiz aparecesse, faria questão de hospedar Letícia.

Em hora imprópria, fez visita à casa do general Solano. Nunca se sentiu tão mal e inconveniente. Na sala em que o receberam, havia civis e militares combinando uma passeata, com a intenção de depor Floriano. Convidado a aliciar os estudantes, desapontou-os declarando que discordava do movimento.

     - Admiro os senhores como patriotas honestos, pela amizade e lealdade ao marechal Deodoro, o que é muito bonito. Mas acho que Floriano também é seu amigo, embora coloque acima de tudo a causa da República.

     - Não és mais aquele que conheci com o Adriano, atirando corajosamente à frente da carruagem imperial - fustigou-o justamente quem lhes cedera o revólver.

     - Adriano pensa como eu.

Desculpou-se e, respeitosamente, pediu permissão para retirar-se. A situação tornara-se embaraçosa, porém o general Solano interveio, dizendo considerá-lo um amigo fiel em quem tinha a maior confiança.

A massa que saiu do Largo da Lapa, acompanhando a banda de música de um batalhão de infantaria, gritava "Viva Deodoro!" "Morra a tirania!"

Deodoro não se levantou da cama, e de novo se formou uma turba que do Largo de São Francisco dirigiu-se para o Campo da Aclamação, na intenção de depor o governo. Vinham à frente políticos e oficiais de altos postos. Floriano recebeu-a na rua, acompanhado de colegas de farda e de grupos populares que lhe davam vivas e à República. Entre os estudantes que o apoiavam, Xandô assistiu à chegada do bonde com a banda de música, ocasião em que Floriano impediu que um coronel fosse trespassado por espada, porém lhe deu ordem de prisão: "- Estás desmoralizando a farda, és indigno dela. Recolham este oficial!"

Em face de sua determinação, a turba dispersou-se, os líderes fugiram, esconderam-se ou foram presos. Dois dias depois, partiram desterrados a bordo do navio Pernambuco, além de um conde, barões, almirantes, marechais e vários militares reformados, políticos comprometidos nas arruaças. Outros  encheram os cubículos das fortalezas.

Ódios acumulados durante o colonialismo, a escravidão e a monarquia, explodiam agora. Havia focos de revolta no país. Em Pernambuco, atacaram o palácio. Ocorreram lutas armadas em cidades mato-grossenses.

Um deputado oposicionista definiu muito bem a situação: "A um golpe de estado, opõem-se vinte outros menores..." Da Europa e do Prata, os monarquistas faziam propaganda contra a República.

A resposta de Floriano aos que pretendiam depô-lo tornou-se o lema da mocidade: "Só a lei ou a morte!"

Mas em busca da conciliação nacional, o presidente concedeu anistia aos desterrados e a todos os presos políticos. Ao voltarem pregavam a sua morte, recrudescendo a campanha difamatória. O presidente não podia confiar em marinha. Para a Escola Naval a aristocracia encaminhara os filhos. Os oficiais do Exército e seus subalternos, sim, provinham do povo. A reação vangloriava-se de havê-lo dividido com o nome do marechal Deodoro. As colônias estrangeiras, mormente a portuguesa, esperavam a restauração monárquica. Noticiavam-se motins, esboçavam-se sedições contra governadores. Em Minas Gerais, queriam criar uma nova unidade federativa.

Na mansão de Manoel Lavrador, em São Cristóvão, sucediam-se as reuniões conspiratórias. Rua por rua, casa por casa, discutia-se política. Agravava-se a situação no Sul, e no caldeirão da Rua do Ouvidor um deputado gaúcho não se cansou de explicar por que Floriano devia apoiar Castilhos:

     - Júlio de Castilhos fundou o jornal "Federação" e iniciou há quase vinte anos a propaganda contra a monarquia e a escravidão. Apoiou Deodoro na questão militar e é, por isso, considerado inimigo dos monarquistas liderados pelo ex-conselheiro Gaspar Martins. Floriano está a par disso. Gaspar Martins chefia a oposição ao Partido Republicano. Reuniu seus antigos correligionários e fundou o Partido Federalista. Para disfarçar os intentos de restauração, quer substituir pela força a Constituição do Rio Grande do Sul e levantar a bandeira do parlamentarismo e do federalismo.

Gaspar Martins, que tinha assento no Senado, embora arquiinimigo do marechal Deodoro, demostrando grande capacidade em articular as forças reacionárias, assumiu-lhes a chefia. No Itamarati, não fora levado a sério e passara por doido varrido. Entendeu-se, porém, com os conspiradores e, ao participar das reuniões secretas com os almirantes, deixou-os exultantes, convencidos de que aliados derrotariam num só golpe Floriano e Castilhos. O ministro da Marinha insistiu sempre numa intervenção contra este, durante o tempo em que se processaram as disputas no Rio Grande. Traía-se ao propor a substituição de guarnições das fortalezas por forças de marinha, encomendando material bélico no estrangeiro. Ao inspecioná-las e, visitando os navios, preparava a repetição do golpe com o qual depusera Deodoro. Floriano ainda tinha esperanças na paz e contemporizava, porém atento a seu ministro, almirantes, militares e civis anistiados em 3 com o ex-conselheiro Gaspar Martins.

Num Rio de Janeiro agitadíssimo, foi atropelado o ano letivo. As notícias não perdiam a atualidade na Capital Federal. Um acadêmico catarinense chamava atenção, contando no café:

     - As tropas desfilaram no Desterro. Depois dos discursos, dos vivas à República e da banda executar a Marselhesa, o triunvirato tomou posse. No dia seguinte, um cabo e quarenta soldados obrigaram a banda a tocar e marchar pelas ruas, com vivas ao Império e a D.Pedro II. A parada terminou num tiroteio com mortos e feridos do mesmo batalhão.

Comentavam-se os incidentes ocorridos durante mudança de governos. Sabia-se que, no Paraná, Vítor Machado discursara exaltado no pátio de um quartel, levando o comando a depor o governo que apoiara a ditadura. Xandô esclarecia que fora eleito de modo arbitrário, que um general envolvido pelo grupo mandara buscar até um navio de guerra para intimidar os eleitores. Uma nova assembléia já tomara posse, presidida pelo líder da revolta do comércio, início de tudo no Paraná.

O jornal em que trabalhou à noite, pensando em casar, noticiou o embarque de um príncipe na Europa, para ocupar o trono do Brasil... Despediu-o.

À esta altura, o dragão contra-revolucionário aninhara-se na crise social e política, aprofundando-a. A brutalidade cega passava por valentia entre os civis e bravura entre os militares. Homens sensatos davam lugar a bandos celerados.

Na Candelária, os populares pareciam indiferentes à situação e mexiam com o mendigo que apelidaram de Pé Espalhado, depois que fora atingido por um projétil da esquadra.

     - Aí, Pé Espalhado! Pensaste que bala de canhão é bola?

Um modo de enganar o medo que só diminuiu no enterro do marechal Deodoro. A câmara ardente na sala de visitas, o forro preto e dourado, altar ao lado. No centro, o cadafalso do caixão. No patim da escada, nos corredores, nos compartimentos, grupos de amigos, jornalistas, políticos, vestidos de luto, falando em voz baixa. No peito do morto, apenas uma das medalhas: a da Confederação Abolicionista. A multidão nas ruas, o acompanhamento apoteótico, os grandes vultos da Pátria, a marcha fúnebre pela banda da Brigada Policial.

Atrás do coche, cabisbaixo e triste, o presidente Floriano.


 

 

 

AMOR E OPRESSÃO

 

 

Ao findar o ano, agora bacharelandos em férias, Xandô e Estácio desembarcaram em Antonina. Viajaram de ressaca. Oh! que sede de beber aquele mar de cerveja, cerveja verde-escura, com a espuma que fazia o barco. Passariam as festas em casa. O trem fumegando vagaroso na serra e, de novo, os abraços no pátio da estação.

Um bom descanso, preocupar-se com amenidades e não em querer mudar o mundo. Quando se vem de fora, os amigos se retraem. Os primeiros que se aproximaram foram os colegas de ginásio. Os "mosqueteiros", quase todos casados, engrossavam com as esposas "a luta pelo bem". Na reunião de aniversário do "Dartagnan", ao saudá-lo como insistiram para que o fizesse, Xandô resumiu seu pensamento, o qual parecia de todos:

     - Não é a fome, nem a miséria a causa da revolução, e não são os políticos, movidos por egoísmo, os verdadeiros líderes. A causa real é o espírito de justiça, e revolucionário é o homem bom, não importando qual a sua cor ou a sua classe.

As mulheres bem casadas e as moças casadeiras eram felizes, muito admiradas e valorizadas por suas virtudes. Outras sofriam em razão de que pela união os senhores se julgavam proprietários da família. Ainda se mantinha o amor entre barreiras, coibindo-o, embora as pobres não fossem escrituradas como escravas, e as ricas casassem por conveniência. Poucos achavam injusto que um marido como Sezefredo, matando a própria esposa com trinta e duas facadas, fosse absolvido.

Desta vez, Xandô não conseguia esconder sua angústia, um tipo de remorso. Confidenciou a amigos a preocupação com Letícia. Sentia-se culpado ao imaginá-la sofrendo. Percebendo-o, Tio Silva tranqüilizou-o na sala do casarão:

     - Letícia está muito bem. A companhia se apresentou em Porto Alegre, quando o povo em armas reconduziu Júlio de Castilhos ao governo. Dias depois, uma canhoneira bombardeou a cidade. As coisas lá ficaram feias, com um governo em Porto Alegre e outro em Bagé. Mas para ela o perigo só rondou por aqui, onde alguns parentes andaram fazendo perguntas. Não a incomodarão mais.

A excursão da companhia de Pepa Ruiz se dera em teatro tumultuado. No Desterro, o próprio governador catarinense lançara um manifesto tachando Floriano de anarquista. Em Tubarão e Tijucas, os espetáculos tiveram de competir com os dos republicanos que levantaram a população e depuseram a câmara. Ao vencerem uma tropa inimiga, ocuparam Blumenau, onde assistiu à apresentação da companhia o governo paralelo. Logo após, o presidente de Santa Catarina foi chamado ao Rio e preso, substituído por outro igualmente simpático aos rebeldes.

Isso tudo lhe contou o tio, e que Floriano dera apoio aos republicanos, os quais haviam vencido as eleições no Rio Grande do Sul, com Castilhos.

     - Mas quando Letícia estará de volta? - suplicou-lhe.

     - Os teatros cerraram as portas no Sul. No começo de fevereiro, a companhia tem breve temporada marcada na Lapa. Então por que não vai lá encontrar e roubar a noiva?

Sorriram na sala, aprovando a idéia.

     - É o que desejo, tio. Tenho de ir a Ponta Grossa, quando voltar de casa, o senhor me ajudará?

Tia Dulce interrompeu-os:

     - Logo vamos ter um casamento, hein?...

Calou-se e passou a dar maior atenção a Bento, Luzia, Clarinha e Genésio.

Recomendaram que tomasse muito cuidado na visita aos pais. Preocupados viram-no afastar-se. Bento e Genésio acompanharam-no ao ponto da carruagem. Ao pôr o pé na terra natal, esperou-se um pé de vento. Temia-se a vingança, mas logo o rodeavam os amigos, rememorando proezas. Algo surpreendente acontecera. Os Ribas não tomaram conhecimento de sua presença. Podia andar tranqüilamente pelas ruas, freqüentar os cafés e confeitarias, ouvir a retreta. Não o vigiavam. Alberto e Manoel, este casado e morando no prédio de comércio dos sogros, sentiram-se aliviados. Frederico e Naná, hospedaram-no despreocupados em suas cadeiras de embalo. Perturbou-o a indiferença. Quando passou pelo coronel Chiquito e Tibúrcio, estes só faltaram cumprimentá-lo tirando os chapéus.

Soube que Tibúrcio se interessara por Dora, certamente esquecido de  Letícia. O que o intrigou, além de aborrecê-lo, foi a atitude de Minega, evitando-o, fugindo ao vê-lo. Quis esclarecer possível mal-entendido, porém em vão. Tio Jango, o bom dos Ribas, não o recebeu na oficina - quem diria! - mandou bater-lhe a porta. Como atinar com tudo aquilo? Os inimigos satisfeitos em vê-lo, os amigos virando-lhe as costas. O que teria feito de errado?

As comadres ainda fofocavam, e os Ribas punham medo nas pessoas. Aparecida perdoara à Anita, mas nunca à Letícia que - segundo ela - envergonhava a família. Anita não fora desonrada - aludia a uma, ferindo a outra.

Numa reunião de família na mansão do coronel Chiquito, Tibúrcio havia proposto uma lavagem de honra com o sangue de Xandô e do tal palhaço Totó que, segundo informara Felício Rato, aproveitara-se do abandono de Letícia pelo raptor, o moleque dos Silvas. Guardaram segredo do combinado, um plano do próprio tio Jango que o acusou de haver deflorado a sua afilhada, atirando-a à rua. Estavam a par da excursão e do retorno da companhia, Chiquito Ribas não se conteve e deixou escapar numa roda de chimarrão da farmácia:

     -  Filha minha não vai ser mulher de circo, nem de teatro, rapariga sem dono. Esse moleque vai pagar caro.

     - Vai se arrepender o desgraçado - atalhou Tibúrcio.

Sobradinho ouviu e se apressou em prevenir o piá que um dia fê-lo cair no poço:

     - Te cuida, zinho. Os Ribas tão de tocaia.

À casa do coronel Chiquito chegava gente a pé e a cavalo, tramava-se algo até com a aquiescência do juiz e do delegado. O conluio envolvia o padre e os jagunços. Um mistério e, evitando transtorno de familiares, Xandô não quis desvendá-lo, retornou logo à capital.

Abrira-se o ano, e a guerra parecia longe. No largo do regimento de cavalaria, as crianças brincavam de soldado, com bandeiras e bibicos de jornal:

 

     "Marcha soldado,

     cabeça de papel.

 

     Marcha direito

     direto pro quartel.

 

     Quartel pegou fogo,

     soldado deu sinal.

     Salve, salve,

     bandeira nacional."

 

Havia todo tipo de gente e de carros nas ruas sujas, empoeiradas, mas ao terminarem as formas, quase só se via a soldadesca. Era Maria Conceição a moça da qual se acercavam, disputando-lhe os quitutes do tabuleiro, ou os sorrisos. Distinguia-se de tal modo que impunha maior respeito, inclusive aos vagabundos e prostitutas das proximidades. Não se encorajavam a dirigir-lhe galanteios, e as ciganas coloridas não a importunavam como aos transeuntes. Aquela de vermelho e amarelo assustou-a dizendo que à noite jamais fosse sozinha para casa.

O anspeçada Diniz, apaixonando-se doidamente, imaginou-se correspondido. Tipo meão, moreno, sem nada de extraordinário que não a farda nos desfiles do esquadrão. Frio e ciumento de Maria Conceição. Nas folgas do quartel, trabalhava de barbeiro. Morava com a mãe e a irmã, sustentando-as. Mas o diabo atentava-o contra Maria Conceição.

Os tios consentiram que Luzia fosse a uma festa com uma amiga e o irmão, desde que também Xandô os acompanhasse. Maria Conceição recebia e servia os convidados. Todas as atenções voltavam-se para ela, a moça morena que tanto impressionara Estácio e Rosendo, uma mistura de espanhol com índio. Bem cinturada, sem espartilho, formosa sem sinal de pintura. Muito satisfeita, a dona da casa comentava-lhe a sina, elogiando-a. O pai morrera na guerra do Paraguai, ela a última de cinco órfãs. Uma irmã tratara-a cruelmente, o cunhado a perseguia tanto quanto o anspeçada Diniz. Fugira de casa, refugiando-se num convento de frades. Estes a levaram para Curitiba, vestida de homem, cabelos cortados, numa carrocinha, deixando-a às freiras de um colégio. Deram-na as freiras ao dono do armazém para saldar a dívida. Depois de fazer companhia às filhas do comerciante, provocou um ciúme tão grande que a fizeram de escrava. À noite, servia a mesa do carteado. Basso, um jogador, perdera o que tinha e o que não tinha, além de haver confiado na política do Encilhamento. Descoberto ao tentar seduzir Maria Conceição, fugiu para São Paulo, abandonando a família. Inocente, Maria Conceição se ajoelhara aos pés da senhora e as suas filhas, abrandando-lhes a ira. Sustentava-as lavando roupa para fora, fazendo doces e salgados que vendia em frente aos quartéis.

As salas estavam iluminadas, mas também se irradiava uma luz dela que animava os convidados. Combinara ficar até o fim do baile e pernoitar na casa. Mas de madrugada, pouco antes de sair o grupo barulhento em que se encontravam Xandô e Luzia, recebeu um recado falso, como se a mandasse chamar a senhora Basso, na verdade ausente da cidade. Atendeu-o seguindo sozinha pelo caminho.

Sangrou-se o coração curitibano, enlutou-se na manhã de domingo. Maria Conceição fora encontrada morta, com as mãos feridas entre as pernas, a cabeça pendendo para trás, garganta talhada. Atocaiara-a no carreiro o assassino. O próprio Diniz, ordenança do coronel, enfiado nas calças brancas afuniladas, túnica escura, pequeno boné de lado sobre a carapinha, mostrou-se surpreso e indignado. Embora apontado como suspeito pela cigana, provava que não saíra da guarda que dera no quartel.

Os jornais noticiaram o crime:

"Maria da Conceição, segundo consta, era uma dessas pobres mulheres da vida alegre. A morte havia sido quase uma decapitação  e o autor do crime era o anspeçada do 8° regimento da cavalaria, Inácio Diniz que, estando de guarda no quartel, fugira à meia-noite, apresentando-se às quatro da madrugada."

Alheia à opressão de mulheres, a alta sociedade assim via a vítima, diferentemente do povo.

Há pouco, o padre Beto interpelara o tenente Cid por flertar com Belinha na hora das rezas, e este chamou-o para briga num tumulto dentro da igreja. Depois se indispôs com o cortejo de Maria Conceição, negando-se a encomendar-lhe a alma.

Tio Silva foi um dos que pediram a recomenda e ouviram as razões da recusa:

     - Só é santa quem a igreja reconhece. Quem se sacrifica pela igreja, que morre defendendo a fé ou a virgindade. Maria Conceição não é branca. Uma criada, lavadeira, sem pai, nem mãe. Como pode ser santa morando perto da Bigorrilha, morta à saída de um baile? Onde já se viu uma santa namorando, vendendo doces entre os soldados no quartel?

A voz corrente a defendia como uma moça de encantos e virtudes. Uma santa - os pobres erigiram uma cruz onde fora sacrificada, e as velas acesas comprovavam as graças recebidas.

O anspeçada Diniz foi preso quando dois recrutas tiravam água do poço, caçaram uma trouxa suja de sangue, com a arma e a blusa azul de faxina que lhe pertenciam.

Xandô viu-o na cadeia sem demonstrar o menor sinal de arrependimento. Nem mesmo as lágrimas da mãe que estivera presente o comoveram. O mundo dera ao condenado o absurdo direito de dizer "se não for minha, não será de mais ninguém". Seria a razão de tal frieza?

Comentou o fato com Tio Silva, Estácio e alguns amigos, achando a prisão inútil enquanto não houvesse um meio que levasse o condenado a arrepender-se, único modo de recuperar-se e merecer perdão. Pela primeira vez meditara sobre a importância do remorso, a dor de consciência. Demonstrando um certo desencanto, mas não perda de esperança, referiu-se à Maria Conceição:

     - E só dela que o mundo se lembrará amanhã.


 

 

 

A VINGANÇA

 

 

Encorajado, Xandô desembarcou na Lapa, no dia seguinte à estréia da companhia. Entrou no hotelzinho onde se hospedara o elenco, surpreendendo a todos que tomavam café no salão.

     - Vim para levar Letícia - explicou-se decidido.

     - Então és tu o Antônio da Silva Xandô? Muito prazer. Queres roubar a nossa estrela? - apertou-lhe a mão o cavalheiro.

Percebendo a emoção da pupila que a seu lado corou e até perdeu a fala, a diretora se pronunciou:

     - Pepa cuidou-a muito bem para ti, como tu e ela queriam.

     - Vim pedi-la em casamento, com a permissão dos senhores - perdera a timidez.

O cinqüentão que tudo indicava fosse marido da espanhola, fingiu uma cena:

     - Bem, vamos ver... Aceitas casar com este pretendente? - dirigiu-se à Letícia, tomando-a pela mão, despertando-a para o sonho.

     - Sim! - explodiu de alegria, abraçaram-se os dois, saudados pelo vivório que atraiu os curiosos à porta do prédio.

Sem cerimônias, nem vinho nem champanha, sogro ou sogra, tal foi o noivado.

Havia gente estranha despertando suspeitas no vilarejo. Mas a experiente espanhola aquiesceu em deixar que Letícia seguisse com Xandô. No caminho, um magote de cavaleiros parou a carruagem, como num assalto, espantou o cocheiro, desviando-a em direção a Campo Largo. Letícia reconheceu um antigo capataz que lhes disse:

     - Obedeçam quietos, senão é pior. Só estamos cumprindo ordens.

A felicidade de estarem juntos compensava o susto. Nem durante a muda de cavalos ficaram separados, e só em Palmeira aguardou-os a parentela revoltada. Mais ninguém abancou-se na carruagem, escoltaram-na a cavalo. Na fazenda em que deixaram Xandô, Letícia não se conteve e gritou desesperada:

     - Pai! me matem, mas deixem o Xandô que não tem culpa de nada.

Ouvira um capanga falar:

     - Se o almofadinha resistir, capamo e matamo.

Conduzida à casa dos pais, foi recebida com frieza, repreendida com rancor pela mãe e trancafiada no quarto. Temendo pela vida de Xandô, refém indefeso, obrigou-se a experimentar o vestido de noiva que deixara sobre a cama na noite da fuga. Mas só parou de chorar quando o tio Jango, autor de toda a trama, convenceu-a a acalmar-se. Um verdadeiro Arcabuz. Um só indivíduo, como ele, seria capaz de causar um bem ou uma desgraça. Arquitetara o plano num momento de aflição com as notícias de saques e degolamentos que chegavam dos campos de Palmas. Instigara a família à vingança. Soube incitar o coronel Chiquito e dona Aparecida:

     - É uma vergonha ter uma filha largada na rua!

Armou um batalhão de marionetes no seu teatrinho diabólico, envolvendo juiz, delegado, um padre, meio mundo.

Aprazado o dia, não faltou gente para assistir à desforra. Antegozaram-na os desafetos, com a cidade em expectativa. Curiosamente, até Matias e Júlia foram avisados.

Havia guardas dos Ribas em todos os pontos, dominando o município. Jagunços auxiliavam a polícia na manutenção da ordem. O coronel Chiquito e Tibúrcio, com pequena escolta, tiveram o gosto de conduzir Xandô à delegacia, onde apôs a sua assinatura no livro. Não atinara com o que lhe dissera Tibúrcio:

     - Miserável, agora você vai pagar pelo mal que fez!

Na concepção do primo, Letícia não era mais moça, não tinha mais honra.

Depois o padre mandou tocar os sinos da igreja, convidando o povo para assistir ao desagravo. Nas filas da frente - os varões armados - abancaram-se os parentes da noiva. Perturbou-os a presença buliçosa e entusiastas dos familiares e amigos dos Silvas, inclusive o grupo de artistas amadores. Estavam a par do castigo planejado pelo tio Jango.

Quem dizia que Letícia não podia casar de branco, desapontou-se. A igreja encheu para ver o final de sua batalha para ter livre o coração. Ao descer sorridente da carruagem, arrancou um oh! de admiração com a qual contagiou a assistência. Com ar enérgico, o pai acompanhou-a, mas só até o átrio. Dali foi de braço com Jango, seu padrinho, ao altar. Esperava-a Xandô que, entrando com o delegado, causara estupefação.

De mãos dadas, ajoelharam-se e receberam o sacramento do matrimônio.

Por fim, o clima de regozijo que começou com as estátuas em seus altares. Os próprios Ribas, um tanto desenxabidos, receberam abraços e felicitações. Os mais intransigentes perceberam com desagrado o bem que tinham feito quando o padre declarou os noivos marido e mulher, elogiando-lhes as famílias, dizendo que o amor se vinga distribuindo felicidades.

Tibúrcio não se conformava de haver sido o primeiro a aprovar a idéia do casamento forçado.

     - O moleque está satisfeito - observou contrariado.

     - Hum! isso não vai dar certo nunca - fez coro dona Aparecida, obrigada a engolir as palavras a cada parabéns.

Crivavam de perguntas o tio Jango, principalmente se fora castigo o casamento forçado, e não lhe perdoaram as intenções. O ódio poderia reacender-se, porém não por ora. Dava-lhes uma boa resposta:

     - Agora o moço é da família, e Letícia mulher casada. Melhor esquecer as mágoas.

Sentiram-se logrados e ouviram de longe o estrepitar de fogos da festa na chácara.

     - Fazer as pazes, isso não, quem quiser vá lá! nós não - resmungavam.

Num caramanchão de tábuas sobre cavaletes, abancaram-se à mesa de macarronada, frangos, leitões, perus e o bolo à cabeceira. Cortaram-no os noivos debaixo do vivório. Minega espelhava a alegria reinante, a alegria de todos, com a sua cara de noite enluarada pelo sorriso. Sem ele, Nhô Jango não poderia executar tão bem o plano. Minega fizera todas as ligações, por isso a expressão de vitória. Matias e Júlia vieram a tempo de, com a colaboração de amigos, inclusive os do Estrela, preparar a recepção na chácara. Também ladearam os noivos, além de Frederico e Naná, o padre, o doutor Casemiro e dona Ambrósia. Os antigos companheiros da Mão Negra e os artistas amadores do Teatro Santana divertiram-se a valer, brindando e inventando modas. Fez-se silêncio quando Nhô Jango falou:

     - Hoje é o dia mais feliz de minha vida. Caso uma filha, da qual sou tio e padrinho, como se Deus me compensasse pela que perdi tão jovem.

Visivelmente emocionado, não precisou dizer mais nada, interromperam-no com o vivório. A despedida dos noivos precedeu o desmonte das tábuas sobre os cavaletes. Então o sanfoneiro animou a dança e a brincadeira no caramanchão.

Mudou-se o Éden para a Rua Quinze de Novembro, fim do corredor do sobrado, à direita da sala, no quarto nupcial - lanternas apagadas - onde começou a lua-de-mel. Experimentando o pleno prazer dos que se amam, Xandô e Letícia descobriram que não estavam sonhando. Ela ainda lhe pediu:

     - Me belisque para eu ver que tudo é verdade.

     - Não tenha receio, vamos nos amar mais acordados que nunca - ... fê-la mulher.

No dia seguinte, faziam planos de vida, na expectativa da partida para o Rio de Janeiro. Olhavam os lírios dos campos e não passariam por dificuldades financeiras. Estavam bem apoiados, Letícia ainda acrescentara mais algum dinheiro aos cinco contos e Xandô logo seria independente. Foram muito presenteados e levaram enxoval completo nas canastras. Na hora em que embarcaram na carruagem especial, despedindo-se de todos, demonstraram a sua gratidão, e Xandô resumiu em poucas palavras o seu pensamento:

     - São os homens humildes como Nhô Jango que fazem o mundo melhor.


 

 

 

OS MARAGATOS

 

 

Ao tanger a mulada para a revolta farroupilha, Pedro Tropeiro encontrara no Sul famílias campeiras paranaenses. Formavam clãs de pastoreio, às quais se penduravam os agregados. Peões sestando nas ramadas, gaúchos proseando sobre o gado, carreira de cavalos, brigas e mulheres, ou a bondade dos campos. Avistavam-se pela restinga os tropeiros e carreteiros. A camaradagem tinha o mais amplo significado, igualando as pessoas nas rodas de chimarrão e churrasco. Destacavam-se pela valentia, e lá não se perdoava deslealdade nem covardia. Havia fazendas de muitas léguas e não uma sociedade reunida, governo, municipalidade.

Os galos corneteavam e o sol se erguia assustando a passarada. Ouviam-se os cantares da calhandra no galho do imbu. O gado mugindo, cavalos relinchando, camponeses no trabalho, algum cavaleiro agitando o poncho no ar. Nas casas o bulício, crianças papagueando, a patroa cuidando de tudo, mandando as filhas servirem o mate para o pai e seus amigos. Os meninos encilhavam os petiços.

As crianças aprendiam a montar, a domar, a galopar e a pelear. Não demorariam a participar de jogos e rodeios. A todos a faina alegre dos campos tornava otimistas, de peito aberto, fiéis, amantes da vida, de mulher, música e dança. Nem o rigor do inverno arrefecia-lhes o ânimo. Desde cedo, meninas ainda, as mulheres eram as guardiãs dos valores da campanha. O prêmio do leal e corajoso companheiro. Seduziam-no bailando com seus vestidos de cores, fitas nos cabelos, negaceando a formosura. Este de botas e bombachas, cabeça erguida, lenço ao pescoço. Nos pampas, de onde o Minuano varrera o medo, ainda festavam para aquela guerra.

Patrão, compadre e amigo dos moradores, chefiava-os o fazendeiro. Com as condições de renda e de proprietário, exercia o mando político, decidia a justiça.

Pedro Tropeiro, avô de Xandô, conhecera Don Zico Saraiva que, desgostoso com o desfecho da luta dos farrapos, levara a mulher e seus dois filhos Gumercindo e Doralício para o lado uruguaio da fronteira. Não parou de prosperar e, com um contrato da Companhia Mensageirias Orientales, cujas carruagens faziam ponto para troca de animais, prestava serviços de correio, alimentação e hospedagem. Pompília, sua mulher, criou mais onze filhos na estância. Com tantos varões entre brasileiros e uruguaios, ai de quem relasse nas duas meninas... A madre de los muchachos sofreu por causa de Doralício, o qual se pôs ao lado dos colorados, travando combate contra os próprios irmãos no levante blanco. Os outros seguiam Gumercindo nas pendências do Prata, o qual iniciou Aparício e Chiquito nas montoneras. Gumercindo tinha vinte três anos quando participou na patriarca de Angel Muniz. Aparício, o quarto filho, criou-se na estância La Chilca, onde fez o primário. Quando foi internado, fugiu a pé do Colégio Viadurreto e, no caminho, entrou em combate na divisão de lanceiros comandada pelo irmão Gumercindo. Brasil e Uruguai eram irmãos como esses dois.

Don Zico viuvou avô e casou pela segunda vez. Com onze filhos do primeiro casamento, tornou-se pai de dezenove. Sobrava sustento porque o Departamento de Trinta e Três, com estâncias cheias de gado, vacas e mulas, pertencia aos Saraivas. Também cá, no Rio Grande do Sul, perdiam-se nos horizontes os campos da Curral dos Arroios. E Don Zico começara a vida simplesmente vendendo éguas, comprando vacas, marcando orelhanos. Os Saraivas cresceram respeitados, admirados, temidos, tomados como modelos. Ninguém melhor no manejo do laço e do chicote, na agilidade e coragem para dominar o potro, o burro xucro, as feras, saltar precipício, desferir o lançaço.

Amélia, neta de um Correia que emigrara e se fixara no Sul, amava Gumercindo antes de vê-lo, imaginando-o como o diziam: guapo, faceiro e de todos o mais valente. Conheceram-se em Jaguarão e, após o casamento na fazenda do sogro, Gumercindo levou-a para La Pandorga, dois anos antes do levante de Angel Muniz. Aparício também casou moço, constituindo numerosa família na El Cordobles. De La Pandorga e de El Cordobles, espalhou-se a fama dos peões morenos e altos, de lenços e coletes bordados de vermelho. Desde a adolescência destacavam-se como lanceiros, vencendo os entreveros. Serviam fielmente aos Saraivas como se defendessem a própria família. Diziam de si: - Mi padre és de Maragateria, en la proximidad de Astorga, en La Espanha. Hei de amar lo cavalo, la tenda e la lança. Adestravam os meninos nos dois lados da fronteira, e a eles se juntavam paraguaios e portenhos de Corrientes.

Por "los maragatos" os conheciam. Na Espanha, maragatos eram tropeiros de mercadorias e correspondência, mas quem não gostava dos Saraivas dava crédito a outra versão:

     - Los maragatos son salteadores, ladrones de cavalos.

Em La Pandorga, os sete filhos do casal criaram-se com eles, falando o espanhol abrasileirado. Sentiram muito quando os pais tiveram de voltar ao Rio Grande, por causa de um incidente muito comentado no Uruguai. A comitiva, que tropeava gado para Montevidéu, deu de encontro com o Presidente General e sua escolta de soldados negros montados em cavalos brancos. Este queria desforra e, antes de estourar a boiada, exclamou provocando a peleia:

     - Los blancos existen para que sejan montados!

     - Los colorados para que sejan pisoteados por los blancos! - retrucou-lhe Gumercindo, destroçando-lhe a escolta.

O General Presidente retornou vencido e cabisbaixo pela estrada, rebocando os cavaleiros feridos. No afã de vingar-se tentou invadir La Pandorga, mantendo-a sob constantes ataques. Travou-se uma verdadeira guerra, até que a família retornou à pátria. Por causa das crianças, Amélia sugerira a mudança para a Curral de Arroios, fazenda na qual nascera o marido, em Santa Vitória do Palmar.

Nesse tempo, cavaleiros percorriam a campanha rio-grandense e, aproveitando as raízes farroupilhas, faziam a propaganda republicana.

Nos primeiros anos, todo mundo no trabalho, a fazenda prosperou muito. Quando ladrões rondavam a fronteira e começou o roubo de gado, uma patrulha saiu da Curral de Arroios, efetuando inúmeras prisões. Então tudo se misturou à política. O delegado protegia os bandoleiros, além de soltá-los, mandou prender camaradas de confiança da Curral de Arroios. Gabava-se de que enquanto fosse delegado, nenhum liberal passaria sobre a sua autoridade. Mas o mando mudou de mão quando o conselheiro Gaspar Martins assumiu a presidência da província. Gumercindo foi nomeado delegado e até recusou a concessão do título de barão, proposto ao Imperador. Para combater o banditismo, construiu uma cadeia no povoado de Santa Vitória do Palmar.

Proclamada a República, acabou de vez a paz na campanha. O cargo de delegado voltou a ser ocupado pelo beleguim do Partido Conservador. Um inimigo que se pôs a perseguir sua gente. O próprio Gumercindo viu-se processado e foi preso à traição por uma patrulha numa venda. Trancafiado, ouviu o insulto:

     - Aí tchê! prá ti mesmo construíste a cadeia, bandido.

Até os guardas acompanharam-no na fuga, quando Giuliano, Paquito e outros dois peões foram buscá-lo, deixando o delegado na cela.

Há muito, com a divisão entre monarquistas e republicanos, ou subdivisões criadas pelos partidos, sucediam-se as agressões de um grupo a outro nos pampas. A disputa pelo poder gerava a desordem, a desagregação da vida no campo. Em sua maioria, os fazendeiros resistiam contra a passagem do mando político para as cidades. Outros aliavam-se aos republicanos, e todos formavam bandos. Num círculo vicioso de vinganças, o sentimento de indignação justificava os ódios e a onda de crimes. A situação, explorada pelas facções partidárias, favorecia a contra-revolução liderada astutamente pelo conselheiro Gaspar Martins.

Nas bandas de Bagé, onde houve depredações e roubos, assaltaram as fazendas dos Tavares. O mais velho, além de barão, amigo de D.Pedro, general e herói na guerra do Paraguai. O preto Catão fora peão em sua fazenda, depois passou pela de Fagundes e fixou-se na do outro irmão, o coronel Zeca, como capataz. Começara a vida de agregado, mas já possuía alguns palmos de terra. Um dia, a polícia atacou a casa de Fagundes e matou-lhe os dois filhos. Levaram-no preso a Porto Alegre, obrigando-o a desfilar a pé pelas ruas. Catão transtornou-se com o assassínio daqueles moços, com os quais fora criado. Enterrou-os e só falava em vingança com os camaradas. Os irmãos Pedroso, que chefiavam a política, surpreenderam-no numa venda, desarmando-o e tomando-lhe a montaria.

Então o lenço vermelho da peonada que se reunia, acudindo ao chamado dos Tavares, simbolizou a resistência contra os governos republicanos.

Também a prisão de Gumercindo ferira brios gaúchos. A notícia galopara mundo afora, comentada nos pousos, nas fazendas, nos vilarejos. O jornal "A Reforma", de Porto Alegre, destacou-a. Escarnecia-o "A Federação":

"Evadiu-se da cadeia civil de Santa Vitória o indivíduo Gumercindo Saraiva, bandido quase célebre, que há dias teve retrato na página de honra de A Reforma, galeria onde já ocupam lugares, também o conselheiro Martins e outros notáveis da grei!"

A perseguição a sua gente fez muitas vítimas, e seu primo Cisério tornou-se sanguinário, depois de jurar desforra sobre o cadáver do irmão assassinado num tiroteio.

Nessa época, o monge João Maria estivera na Curral de Arroios, batizara o filho recém-nascido do casal, permanecera vários dias num galpão pregando a revolta e defendendo a monarquia. Tanto que Amélia foi a primeira a apoiar os propósitos do marido em chamar o irmão Aparício para, com os castelhanos, reforçarem a sua montonera.

Na escolinha de Santa Vitória, desde a inauguração, durante o mando de Gumercindo, lecionava Zaíra, morena jambo da fronteira, prenda disputada e querida na região. Quando Giuliano chegou de La Pandorga, acabou a disputa. Dizem que foi por causa dele e dos lanceiros castelhanos que pegou de vez a pecha de maragatos. Não resistiu-lhe Zaíra, esbelta, graciosa, chapelinho missioneiro, que vinha a cavalo pelo carreiro e apeava em meio ao alvoroço da criançada. De cabelos soltos sobre o alvo guarda-pó, em frente ao quadro-negro ensinava cartilha, contas, após os cantos. Ninguém melhor que ela diria quem eram os que formavam a tropa na Curral de Arroios, onde morava. Zaíra descendia de farrapos, a classe a ouvia em silêncio definir o gaúcho. A primeira vez que indagara se sabiam, os alunos erguiam os braços, estalavam os dedos e gritavam: eu sei! eu sei!

Zaíra deixava-os excitados:

     - Tem gaúchos nos estados do Sul e no estrangeiro, podem ser orientais, argentinos ou brasileiros como nós.

O que achavam as crianças tinha fundamento. Gaúcho é peão de fazenda, hábil cavaleiro, corre carreira, atira laço e boiadeira, coteja de faca, lança e arma de fogo. De folga, joga telha, dados e cartas, tudo de cócoras como no chimarrão e churrasco. Faz cantoria, dança de roda ou de par, batendo os pés no chão. Gosta de guitarra e sanfona, de trovas, namoro e galanteio. Calça botas e bombachas, pala, chapéu e lenço ao pescoço.

     - Faz parte, me digam o principal - mexia-lhes na imaginação.

     - Tem de ser bravo e faceiro como Giuliano - arriscava um, provocando risos, corando-a.

Uma menina se distinguira:

     - Tu tens de ajudar a mãe no serão, seres honesta e sincera. Se souberes montar, tratar das aves e dos animais, ordenhar as vacas, cevar o mate, dar gosto no assado, cantar e bailar ao som de guitarra e harmônica, és uma prenda. Não podes esquecer a flor nos cabelos, o laço de fita, babados e rendas no vestido, o almíscar.

Zaíra enchia-os de orgulho:

     - O que faz do habitante do campo um gaúcho é tudo isso, mas o principal está no coração, a fidelidade, um sentimento que une as pessoas, um amor sem fim como a campanha, à vida e à liberdade.

Entendia o gauchismo como um estilo de vida, em que pesa o companheirismo e o espírito de justiça. Estava inspirada quando o mais humilde dos alunos lhe dissera que o pai não possuía um pingo, nem poncho e morava num rancho.

     - Se o Minuano não é o cavalo, e sol o poncho de um gaúcho pobre, nunca lhe faltará a amizade e a ajuda dos companheiros nos galpões da Curral de Arroios - respondeu-lhe.

Mas a escolinha ficou de porta e janelas fechadas. Com os guerreiros acampados na fazenda, preparava-se uma formidável bandeira de guerra para, como dizia o grande chefe, "libertar los brasileños del tirano que se apossó del poder". Caudilhos, no linguajar das cidades, na verdade caciques de tribos camponesas, foram dar-lhe apoio, e ouvir-lhe os planos de luta. Entre ele gente da estirpe de Juca Tigre, Augusto Amaral, Torquato Severo e Prestes Guimarães. Depois  passariam ao seu lado, desde rasos a generais.

Noutras fazendas, reuniam-se forças contrárias apoiando os governos e o exército legal. Se os maragatos predominavam, os picapaus fortaleciam-se cada vez mais com a liderança urbana.

Tudo começou com facções de gaúchos em campos opostos. Tribos camponesas nas quais se destacavam como chefes, além dos caudilhos, os mais bravos. Cresciam e fundiam-se os bandos. Organizavam-se em brigadas com estandartes rivais. Das rixas passavam aos assaltos. Sobrevieram as vinganças, entreveros, os combates encarniçados. As duas correntes, ambas valentes e cruéis, abriram o veio de sangue. Cidades, vilas, pequenos povoados, temendo represália de uns e de outros, despovoavam-se. Abandonavam-se as fazendas. O gado tresmalhava-se, perdido, sem dono.

Ao dar início às guerrilhas, o grande chefe contava na Curral de Arroios com seus cavaleiros armados de lanças com pontas de tesoura. Colhendo armas e equipamentos aos vencidos nos combates, enrodilhando piquetes e grupos diversos, acabaria à frente da mais colossal coluna camponesa e plebéia.

O conselheiro Gaspar Martins, que procurava unificar movimento rebelde no país, reuniu os fazendeiros que integravam o Partido Liberal, aliciou dissidentes republicanos, aliou-se ao Visconde e ao velho Joca Tavares, fundando o Partido Federalista. Ao insuflar o populacho, depusera o governo estadual, substituído por uma junta. Mandou o general lançar um manifesto reconhecendo "a impossibilidade da pacificação e da inviabilidade de administração" para que, arbitrariamente, fosse empossado o Visconde na Presidência do Estado. Então o velho Joca Tavares, que ainda menino combatera em companhia do pai as farroupilhas, foi agraciado com o cargo de Vice-Presidente.

O fato provocou imediata reação dos adversários e uma convocação amplamente divulgada pelo jornal "A Federação", além de boletins que corriam de mão em mão: "A República nos Chama".

Numa pequena cidade argentina, reuniram-se os líderes picapaus, combinando o restabelecimento da legalidade republicana. Comandariam dois mil homens armados de carabinas, oriundos de Livramento, Uruguaiana, São Luís, Itaqui e São Borja. Em Porto Alegre, as forças militares cercaram o palácio, depuseram o Visconde, e o povo aclamou Castilhos.

A guarnição em que servia o tenente Álvaro tomou parte ativa nos acontecimentos. Não fora a presença de Letícia e da companhia na cidade, ai de Anita, desesperada. Após a posse, houve choque de armas em São Gabriel e Livramento. Porto Alegre foi bombardeada por uma canhoneira. Com o teatro fechado, acompanharam Letícia à casa da irmã, cujo marido partira para o fronte.

A ação de um piquete de lanceiros, maragatos comandados por Gumercindo e Aparício, empolgava as populações do campo. À medida em que vencia os combates, multiplicava-se, engrossando com adesões até de gente das fileiras inimigas. Giuliano, Paquito, Juan, Ramón, Miguez, Manolo e tantos outros trocaram as lanças com ponta de tesoura pelas dos que tombavam nos entrechoques. As proezas e a invencibilidade do esquadrão maragato animaram a resistência à legalidade. Ao instalar um governo contra-revolucionário no interior, o general Joca Tavares declarou:

     "- Abandonei os galões dourados do Exército para envergar a blusa de gaúcho."

Envolvido pelas forças legalistas, rendeu-se sob garantia de pacificação, impossíveis de serem cumpridas, tal a sucessão de vinditas na região de Bagé.

À notícia de que Castilhos vencera as eleições, famílias inteiras, milhares de homens dirigiam-se para o lado uruguaio da fronteira. Então o conselheiro Martins convenceu de novo o velho Joca, de oitenta anos, a reorganizar um exército revoltoso para invadir sua pátria. Reunira-se com os coronéis signatários do manifesto em que se declaravam "povos oprimidos, em armas contra o regime de perseguições, das violências inauditas, do saque, do assassinato, afirmando não serem restauradores da monarquia". Coincidira, não ao acaso, com o ultimatum dos treze oficiais generais a Floriano Peixoto, no Rio de Janeiro.

 Nas principais cidades do país, comentava-se que quarenta e cinco caudilhos chefiavam bandidos dos países fronteiriços:

     - Maragatos!

Estes revidavam atribuindo-lhes os crimes mais bárbaros. Aludindo a militares com golilha vermelha e quepe de bico, que defendiam o governo, pechavam-nos por sua vez:

     - Picapaus!

Matavam-se a bala e a lançaços. Grupos que fugiam e se ocultavam no mato incorporavam-se ao esquadrão maragato, falando em vingança com lágrimas nos olhos. Famílias inteiras abandonaram os lares, refugiando-se nos campos de Palmas e Porto União da Vitória, no Paraná. Só nos três meses de governo de Vitorino Monteiro e Fernando Abot houve cento e trinta e quatro assassinatos: quatro em Porto Alegre, quinze em Pelotas, sete em Bagé, doze em São Gabriel, dezesseis em Passo Fundo, treze em São Borja, cinco em Piratini, doze em Canguçu, três em Rosário, um em Jaguarão e trinta e cinco em Cruz Alta.

A companhia de Pepa retornara confrangida de sua excursão por vivenciar os acontecimentos. Letícia e os artistas despediram-se com muita pena de Anita, grávida de quatro meses, assim que o tenente chegou do interior com o regimento.

Onde o velho Joca Tavares tivera o quartel-general, não cessavam os assassinatos. Em Porto Alegre, até os deputados que representavam as colônias alemãs na Assembléia Provincial foram perseguidos e presos por integrarem o Partido Liberal. Um deles não resistiu aos maus tratos, teve um colapso. O outro foi executado dentro de casa.

Na região serrana, um chefe castilhista foi morto num entrevero. O filho, que ainda não havia completado dezoito anos, comandou uma força policial de revide e, babando de ódio, degolou com suas próprias mãos mais de duzentos maragatos.

Em Jaguariaça, um delegado acordava de mau humor, prendia inimigos do governo, atava-os como gado, sangrando-os a faca.

Nos povoados só havia mulheres e crianças assustadas. No Rincão do Cadeado, moravam cento e oito viúvas de degolados. No Rincão da Cruz, foram decepadas oitenta e seis cabeças.

O emissário de paz, que chegara do Rio de Janeiro, pediu a intervenção, dizendo no telegrama:

     "- Por toda parte degolam homens, mulheres e crianças, como se fossem cordeiros; o saque está por demais desenvolvido, assim é que não há nenhuma garantia, quer individual, quer material."


 

 

 

INHANDUÍ

 

 

À meia-noite, chovia, levavam de dentro da casa malas e sacolas para a carroça. O doutor Arcanjo, sua família, os empregados, abandonavam a chácara. A esposa lhe aprontara a bandeira branca com a cruz vermelha ao centro. Tinham de fugir para não serem mortos. Foram avisados:

     - Os bandidos dos Motas e dos Pedrosos andam à cata de amigos dos Tavares.

Catão retirou da parede da sala o bacamarte, na área clareou a fechadura com o lampião, chaveou a porta, fez cara de quem não entendia por que carregá-lo. O doutor explicou:

     - Esse arcabuz foi o Barão Joca que me deu, é de estimação, tem a cara dele.

Ao montar o pingo, nem obtiveram resposta os que lhe perguntaram se viajaria desarmado.

Não lhe faltavam bondade, ilusões, instrumental médico e, principalmente, palavras. Deixava consultório, chácara, trocando tudo pela barraca e o campo de batalha. Assimilara o tipo de moral que se criara nos pampas, não a quixotesca de combate fictício, mas aquela em que os cavaleiros defendiam a justiça e a liberdade atacando moinhos de fogo, pólvora e chumbo. Do lado dos Tavares, representava-a muito bem com sua verve ultra-romântica. Com a cobertura do piquete de Catão, este já no posto de tenente-coronel, transpôs a fronteira, família a salvo. Nos acampamentos, declamava poesias e lia alto o manifesto de próprio punho, aplaudido pelos companheiros. Há pouco tempo, num sarau, pedira que um tocador de violão musicasse e cantasse os versos dedicados à esposa:

 

" Se acaso, na chácara, sentares sonhando

Com teu pensamento baixinho a falar,

Se um colibri junto a ti voando

Os lábios de rosa chegar-te a beijar;

Criança, não cores, não cores de pejo,

- Sou eu que ousado te roubei esse beijo."

 

Além de médico e poeta, o doutor Arcanjo era um nortista feito gaúcho, comandando no posto de coronel o hospital de campanha. Um federal. O que dizia arrastava gente contra o governo:

     - Estou na luta pela liberdade, pela honra desta nação, contra a tirania de Floriano e Castilhos, três vezes traidor.

Acusava Castilhos de haver atraiçoado Deodoro, correligionários, e de desrespeitar o acordo com Joca Tavares, mandando prender e executar os adversários políticos. O doutor Arcanjo participou do governo paralelo de Joca Tavares, apoiando o conselheiro Gaspar Martins que levantava a bandeira de autonomia dos estados, que já eram autônomos e criava o risco de uma secessão.

No início de fevereiro, o venerando Joca assinou o manifesto de convocação às armas, enquanto bandos de emigrados cruzavam a fronteira, e saíam a campo com seus piquetes os chefetes locais.

Entusiasmavam-nos as proezas da coluna Saraiva. Os cavaleiros com bandeirolas brancas, com pontas de tesouras imitando lanças. A brigada de Aparício conservava o blanco no lenço ao pescoço, na fita em volta do chapéu, núcleo invencível da legião de lanceiros. Na Serrilhada, atacara o inimigo de flanco, derrotando-o. Abriram-se fossos para enterrar os cadáveres dos rasos, enquanto os dos graduados ficaram nas covas do pátio de uma casa. Todos despojados das armas e das roupas pelos peões e agregados que chegaram, engrossando a força. Gumercindo advertia do perigo as mulheres que insistiam em acompanhar os maridos e, por fim, recomendava que cuidassem bem das carretas, das roupas, da cozinha, das barracas, ajudando nos acampamentos e no socorro aos feridos.

Na coluna em nova formação, havia um rancho de infantaria sob comando do sargento que desertara de um batalhão, mas ela era semi-nômade, com brigadas de caudilhos. O doutor Arcanjo queria conhecer o maior entre todos, julgava-o "estrategista genial, sem o qual jamais haveria uma reação armada em nível de guerra". Não escondia a admiração por ele e pela montonera que vencia todas as batalhas de uma guerra perdida. Igualava-o em valentia, com uma diferença, corria risco talvez maior assistindo os feridos entre chuvas de balas. Médico, político, poeta, coração de ouro, num relance percebeu o quanto representavam os irmãos Gumercindo e Aparício, vislumbrando-lhes a glória. O primeiro, austero e enérgico, porém como um pai consideravam-no os comandados. O outro, muito alegre, seu braço forte, às vezes pândego. Filhos de Don Chico, ao qual se referiam com ternura e saudade, dizendo sempre: "- Pobre viejo." Foi visitá-los no acampamento, pouco antes da invasão. Pablo, um adolescente, exclamou ao ver o visitante:

     - O doutor Arcanjo!

Pablo fora aconselhado a não afastar-se de Ramón, Paquito e outros lanceiros. Estavam agachados rodando um chimarrão, Aparício cantarolava uma toada campeira, provocando risos. Bem recebido, igualmente afamado, o esculápio belicoso aderiu ao mate e, embora sob o comando de um coronel do Exército na outra coluna, pôs-se à disposição de Gumercindo:

     - Estarei as suas ordens. Pode contar comigo, como seu fiel amigo.

Misturando português e espanhol, cousa comum na fronteira, respondeu-lhe o libertador:

     - És benvindo senior, venceremos los tiranos. No me gusta los políticos e los janotas que comen bifes e hacem discursos.

Sobre a falta de armamento, ouviu-lhe o plano e uma pergunta:

     - Armas, bastam-me poucas de início. Preciso de cavalos e los tem o Rio Grande. E que pensas usted de la causa nostra?

     "- Penso que esses homens que assassinam e roubam em nome da república, persistem em nos mandar matar, por isso em vez de levantar a bandeira da separação do Rio Grande, eu prefiro que se levante a bandeira da restauração da monarquia."

O doutor foi logo reconhecido como porta-voz do pensamento dos combatentes:

     "- Se nos disserem que é preciso lutar pela república, responderemos que para salvar a república será preciso lutar contra todos que se dizem republicanos."

Já se falava abertamente que se os estados do norte não acompanhassem a revolta, seria proclamada uma monarquia-sul-brasileira. Isto tinha fundamento nas frustrações da própria revolta. Macambúzio, o doutor sabia que no fundo eram vãs as esperanças de vitória, embora procurasse iludir-se com as proezas dos gloriosos irmãos Saraiva. Comoveu-se na despedida quando o mais velho, um brasileiro, saudou-o com o dito que unia os maragatos:

     - Amigos, hasta a la muerte.

Na invasão, foram eles que salvaram o movimento, vencendo mais de uma dezena de combates. Assim, os regimentos chegados do norte do país e os batalhões de polícia foram impotentes para debelar a revolta. A sua coluna fazia estremecer a campanha:

     - Aí vem os federalistas!

O ministro da Marinha, almirante Custódio de Melo, estivera em Porto Alegre, reunindo-se secretamente com o conselheiro Gaspar Martins, Joca Tavares e outros líderes. Prometera a intervenção da Armada, que preparava com a oficialidade no Rio de Janeiro.

Então a estância de Palma, onde se concentraram as forças rebeldes, parecia em festa de guerra. Elas vitoriosas, tal a animação na sede. A oficialidade num vaivém constante, tilintando e riscando o soalho com as rosetas das chilenas. Emissários chegavam com ordens e notícias auspiciosas. Outros estados se rebelariam, e o marechal Floriano seria deposto pela "Marinha Imperial". No salão principal, espaçoso e alto, cinco janelas escancaradas, viam-se os próceres em conferência. Barão e general, passado de oitenta, Joca Tavares chefiava o estado-maior improvisado. A soldadesca dos piquetes descansava nas barracas, a peonada nos galpões. Duas mil cabeças de gado garantiam o abastecimento.

Dividira-se a nação dos minuanos, caudilhos nos dois lados. Muita gente de Itaqui, São Borja e São Luís, mais os serranos de Boqueirão, ficaram com o governo. Formou-se a famosa Divisão Norte, com a legião de gaúchos comandados por Pinheiro Machado. Um outro a causar assombro, ponche entreaberto, botas altas, não abandonava a pistola e na cava do colete, a sua faca. A estratégia legalista consistia em manter e esmagar num círculo de ferro e fogo as tropas adversárias.

Ensaiava-se a epopéia de Inhanduí.

Primeiro houve encontro de patrulhas, tiroteio, cargas de lanças, muita carnificina. Um dos pelotões de picapaus caiu numa cilada. O piquete de Aparício, simulando fuga, trouxe-o atrás de si para onde aguardava em linha de tiro um regimento rebelde. Outro debandou para o lado maragato.

O doutor Arcanjo participou da maior batalha travada entre brasileiros, socorrendo os feridos.

Evacuada a estância de Palma, lá permaneceu de isca um corpo de cavalaria em missão de sacrifício. Atrairia as tropas inimigas para conduzi-las a campo aberto, onde as esperavam centenas de lanceiros. Pinheiro Machado, à frente dos cavalarianos, encontrou-a abandonada. Tudo vazio, as casas de colonos, as cavalariças. Tochas queimadas, restos de fogueiras. Detrás de um casarão em ruínas, onde se ocultara, o pelotão abriu fogo sobre a força, causando-lhe baixas. Esta se refez e perseguiu-o na fuga para o passo, de novo surpreendida pelo ataque de outro piquete maragato. Então o grosso da vanguarda legalista, percebendo a emboscada, abriu em leque a linha de atiradores para, entre as rochas, conter a investida. Tremia a terra, batida pelos cascos de milhares de cavalos descendo a galope do outro lado da colina. À frente, destacava-se a montonera brasileira, mesclada de uruguaios e corrientinos seguindo Aparício. No tiroteio à queima-roupa, com cutiladas e lançaços, relinchos raivosos da cavalhada abafando gemidos e imprecações, estouros de pistolas e espingardas, tombou um comandante legalista. O doutor Arcanjo arrepiou-se ao vê-los entrarem triunfalmente na campina. Tratou de apressar o condutor do hospital de campanha, emocionando-se com aqueles bravos que haviam abandonado tudo, bens, haveres, até a família, sacrificando a própria vida pela causa. Uma legião de anjos revoltosos. Não fazia distinção entre os feridos.

O desastre total desenhou-se primeiro para os legalistas, depois para os rebeldes.

Da coxilha central partiam outras menores, terminando em terreno pedregoso, ora circundado por banhados e sangas. Concentravam-se nela a fuzilaria e a artilharia governista, enquanto os rebeldes ocupavam as baixadas. Em desvantagem, sem a cavalaria que não podia operar com seus lanceiros e decidir à arma branca a batalha, ainda assim atacavam. Ao retomar suas posições, a infantaria em que servia o tenente Álvaro teve a mais pesada perda de soldados. De baionetas alçadas, formado em quadrado, um batalhão de baianos, carregou sobre as tribos. As metralhadoras pararam-lhe as cargas. A força policial rio-grandense teve estropeada a cavalhada e perdeu mais da metade dos efetivos. Ao atacá-los, exclamavam enfurecidos os maragatos:

     - A ratada branca!

O cair da noite salvou de aniquilar-se o exército regular, porém Inhanduí não teve vencedores nem vencidos.

Joca Tavares decidiu a retirada, inventando que chegavam mais reforços e armas aos inimigos. Deu a ordem porque escasseavam as munições, embora contrariasse os combatentes. Uma contramarcha épica sob cargas de balas em desfiladeiros, banhados, pedreiras, por onde passavam as carretas cheias de feridos. O próprio Joca, um ancião, de calças arregaçadas ajudava-os a transporem os arroios. As forças à retaguarda sustentavam uma luta desigual. Grupos desarmados, se descobertos, seriam dizimados. Em socorro, setecentos combatentes entraram por engano no campo dos picapaus, de onde tiveram de sair tiroteando e cruzando arma branca. Um major, cujo filho jurava vingança, fora o primeiro a ser degolado e estripado. Dos capões, os picapaus fuzilavam os retirantes.

     - Amigos hasta a la muerte!

Então se agigantava o grande dos caudilhos. Um abnegado. Gumercindo socorria-os, salvara-os, encorajando-os e evitando o pânico. Auxiliavam-no o irmão, além de Giuliano, Paquito, Miguel, Ramón, Manolo e outros que começaram a guerra. Os que desertaram pelo caminho, arrependeram-se e voltaram mais fortes às suas ordens.

Quando o doutor Arcanjo se achava acampado à margem do rio, servindo na outra coluna, ao visitá-lo, Gumercindo foi recebido com vivório:

     - É o Salvador!

     - Viva o general Gumercindo!

     - Vivôôôôôô!

Ao apear do zaino-negro, parecia triste. Vestia um sobretudo comprido, com gola de pelo e, por baixo, uma camiseta de lã. Na barraca do doutor, que tinha por companheiro um juiz de direito, pediu-lhe para dirigir o atendimento aos feridos de sua coluna. Esta e a do general Salgado, sem os galões substituídos pela blusa gaúcha, agiam de comum acordo. Ocuparam povoados e cidades, escapando ao cerco das tropas republicanas.

As razias maragatas destroçaram guardas, piquetes, arrebanharam gado. Numa das expedições, à noite, dois gaúchos de lenço branco ao pescoço forçaram a porta de uma casa, agarraram uma das moças que tremiam de medo no quarto e foram presos pelos oficiais que lá se achavam refugiados. Pablo e o paraguaio foram cabisbaixos à frente de Gumercindo para julgá-los pelo crime. Fuzilados, a coluna desfilou consternada ante os cadáveres, após ouvir um comandante falar sobre a honra de integrar a tropa e a infâmia do mau comportamento. "Que a pena imposta, com tanto pesar, aos transgressores, sirva de exemplo e prova de nossa dignidade" - acrescentou.

Pahim, que no campo de batalha cavara com as próprias mãos a cova do filho, abraçou Gumercindo como se desejasse consolá-lo:

     - Também perdi meu filho nesta maldita guerra que nos fazem em nome da república.

A dor estava estampada no rosto contrito do grande chefe que cumpria um dever, porém travando uma luta feroz contra o remorso. Ele e Aparício lembravam-se da mãe suplicando na Palma:

     - Compadre, cuide bem de Pablo.

Este não lhe seguira os conselhos, afastara-se dos camaradas do esquadrão, em companhia do paraguaio.

No Serro de Ouro, os picapaus ocupavam o monte que se estendia do sul para o norte, caindo em tangente sobre o arroio junto a uma picada. O general Salgado devia atacar pelo norte, e Gumercindo de flanco, pelo leste. As tropas do governo fecharam a passagem com uma barreira de fuzilaria, isolando-lhe as brigadas. Ardilosamente, estas abriram um caminho durante a noite e, pela manhã, já se achavam numa coxilha defronte ao cerro, sob intenso fogo. Os clarins ordenavam carga e morte. O esquadrão de lanceiros - demônios para os inimigos - arremetia de bandeirolas brancas em riste, encharcando-se do sangue da soldadesca. Os que fugiam eram alcançados e mortos. O doutor Arcanjo, que socorria os feridos, viu um picapau lancear o próprio filho entre os maragatos. Ao expirar, reconhecido e abraçado em pranto, o moço mal teve tempo de suplicar aos companheiros que, por sua vez, mataram o velho: "- É meu pai!"

O chão ficou cheio de cadáveres e chegou a hora do carcheio. Tiraram-lhes não só as armas e munições, mas roupas, calçados e uniformes. No grupo de Cisério, um de seus camaradas tocava harmônica, enquanto os outros dançaram e pularam no meio dos corpos. Gumercindo repreendeu-os energicamente, acabando a festa macabra.

No caminho de São Gabriel, a cavalaria minuana de Aparício colheu de surpresa quinhentos soldados em suas lanças. Desbaratando tropas, tomou de assalto acampamentos, arrebanhando carretas com farta bagagem, suprimentos e material bélico.

Em combates encarniçados, as duas colunas maragatas rompiam o cerco nos cerros alcantilados, com sangas cheias de escarpas, arroios e pântanos. Apoderaram-se do sul e parte do interior ao engrossarem as suas fileiras, divididas num sem número de destacamentos. Tingiam-se de sangue a Serra de Caveirá, as bordas de rios e riachos, antes da arrancada para o norte.

O doutor Arcanjo não resistiu ao fascínio dos caciques da nação de minuanos e deixou a coluna militar do general Salgado. Presenciara cenas épicas, condoía-se da sorte dos combatentes, dos feridos e dos prisioneiros. Num conflito de sentimentos vacilava entre a empolgação pela causa e o desencanto. Percebia nas conversas dos acampamentos o desejo da restauração, e resistência à consolidação republicana. Preocupava-se com vinditas por parte da matulagem que se formava em torno de Cisério, Catão e outros. As juras de vingança com lágrimas nos olhos são maus presságios - pensava ele. Incentivava os companheiros à luta, porém o contato com a dor e o sangue das vítimas que atendia de barraca em barraca, aproximava-o também do caráter estúpido e absurdo da guerra. Não negava que fossem bons brasileiros os combatentes das forças contrárias e, num desencargo de consciência, punha a culpa de tudo em Floriano e Castilhos.

À indagação que havia no ar sobre a causa do conflito, ouviam-se duas respostas:

     - O governo - diziam os maragatos.

     - O banditismo - respondiam os picapaus.

Aos companheiros de barraca, um estancieiro e outro um juiz, contara que pretendia escrever um livro. Fazia anotações à noite, à luz da lanterna. Vale a pena lê-las, tomando-lhe o pulso: "Por que pessoas sabidamente bondosas, normalmente incapazes de maldades, estavam saqueando, roubando, ferindo, matando? Chefiando ou engrossando bandos que pareciam de celerados? São os pequenos que sofrem, que se ofendem e se matam como joguetes dos que os obrigam a isso." Caía em si: "Não estaremos todos errados ao nos determinarmos pelos que são considerados os grandes?" Tinha por objetivo relatar os acontecimentos da campanha e os feitos da coluna, mas fazia considerações: "- A revolução é o direito contra a força, o direito vence pela persuasão, a força não vence, apenas destrói." "O que somos nós? Vítimas da vontade potencial dos outros?"

Se a paixão não o levasse a achar errados apenas os bravos do outro lado, já teria escolhido pelo menos o título do livro: - Heróis Fratricidas. Acreditava tomar parte numa revolução. Não era só ele. Assim se considerariam por muito tempo os complôs e quaisquer sedições contra um governo. Em todo o país se falava em revolução federalista, sem o menor fundamento. No processo de evolução da humanidade, ocorrem rivalidade entre os indivíduos, famílias, clãs, luta de classes, raças, nações. Mas o que há de mais importante são as revoluções, representando um salto para o futuro, destruindo uma velha ordem para estabelecer uma nova. Escapava-lhe o fato de que no Brasil, como noutros países, tinha caráter republicano, democrático, antimonarquista. Estava envolvido nos acontecimentos, numa contra-revolução. Vivia intensamente os feitos da coluna, exaltava-os, mas se indignava contra a guerra, comovido com o heróico sacrifício do esquadrão maragato que a iniciara. Disse aos companheiros de barraca preferir outro título: - Mártires da Liberdade.


 

 

 

DEPOIS DAS BODAS

 

 

Num clima de expectativa e agitação política, os recém-casados desembarcaram em Curitiba. Não lhes era indiferente a cidade verde, verde-mate, verde esperança, o pó derramado dos engenhos, das carroças, pintando as ruas e os trabalhadores. Os tios deram-lhes uma recepção carinhosa. E as reuniões enchiam a sala. Rodas de prosa regadas de cuiada verde. Nhá Bina enchia um purungo menor para ela e os da cozinha. Comentavam-se as peripécias do jovem casal, o final venturoso e, de permeio, festas, teatro, circo, a construção da linha de ferro, o desagrado dos carroceiros, o preço e as marcas das ervas. Em respeito às amizades, evitavam-se as discussões sobre política e a guerra civil. Só na ausência de simpatizantes do doutor Glória, Tio Silva pôde frisar o caráter contra-revolucionário da campanha antimilitarista. Eles pareciam não suportar a presença de Barreto, o qual fizera blague na arena, arremedando-os. Numa das reuniões, quem não sabia o que tinha Xandô de diferente, descobriu de vez. Um sonhador. Perdera a timidez à medida em que vinha à tona o caso de Maria Conceição. Ninguém se conformava com a recusa do padre em recomendar o corpo da moça assassinada.

     - Vão difamá-la no julgamento! - previam.

O desembargador Silveira, que levara Tio Silva a trabalhar no Tribunal, criticando o júri, achou um desatino terem os constituintes abolido a pena de morte. Ninguém quis contrariá-lo, porém Tio Silva ponderou que, em face da generosidade brasileira, nunca mais seria implantada no país.

A força que Xandô despertara para Letícia, que o levara ao Campo de Santana e a enfrentar desafios, fê-lo intervir na conversa. Ouviram-no impressionados.

     - A pena, por si só, é um mal retribuído com outro mal, a violência com outra violência, criando um círculo vicioso de males. Como o linchamento é instigado pelos brutos, a justiça deveria ser inspirada pelas pessoas generosas.

Não se entusiasmava com o direito penal, pois só existia um perverso sistema de cárceres e nada mais.

Constantino e o filho do desembargador apartearam-no em tom falso de gracejo:

     - Isso é conversa de advogado...

     - Você defende os criminosos? É contra a punição?

     - O senhor acadêmico não pretende colocá-los numa colônia de férias, não?

A força em seus modos, em sua voz, em suas idéias, dominou o ambiente. Ninguém mais o contrariou quando falou de educação, tratamento, e que enquanto não prevalecesse no mundo o princípio de solidariedade e colaboração, seriam cada vez mais insuficientes as prisões para o número sempre crescente de malfeitores. Perguntado, disse a opinião que tinha sobre o júri:

     - As pessoas sabem que as penas são inúteis e não resolvem coisa alguma, por isso absolvem os réus na maioria das vezes. Decidem pelo que acham constituir um bem, ou pelo menos um mal menor, pouco importando a lei. O seu maior problema é evitar a complacência. Não se sentem bem ao condenarem.

Bento de olhos fixos em Xandô nunca mais se esqueceu de suas palavras:

     - Eu só acredito numa pena: o remorso. Um homem recuperará a dignidade quando atender à exortação de João Batista: "arrependei-vos! arrependei-vos!"

     - Acha que o assassino de Maria Conceição se arrepende?

     - Sofrerá as conseqüências de seu crime.

Figura exponencial na sala, o desembargador Silveira foi cordial, experimentando-o:

     - Admiro seu idealismo, meu rapaz, mas em que o futuro colega se fundamenta?

     - Existe um sentimento de justiça. De onde provém, não sei se do céu ou do coração da mulher e do homem. Não é do livro, nem das bibliotecas. Creio num direito natural, ideal, de todos. Quem nasce nos Campos Gerais, o paraíso terrestre, respira essa coisa, um direito sagrado, a proteção que nos dá a natureza proporcionando-nos o ar, o sol, a vida. É a mesma que nos dão a mãe, desde o nascimento, o pai com seus cuidados, a família, os semelhantes. A sua fonte é o amor que leva o homem a estendê-la até à flora e à fauna.

O doutor Glória e a mulher nunca deixaram de ser gratos à Letícia, foram cumprimentar o casal, e ele mostrou-se gentil:

     - Geovani, professor de música de seu irmão Alberto, toda vez que veio nos visitar, dizia que iriam construir uma sociedade sem leis, sem governo, sem autoridades. Não é possível. Como pretender que em meio a tempestades sejam tranqüilas as águas debaixo de um só barco? Como ficar em paz entre exércitos em guerra? Pobre Geovani e sua gente. O tesoureiro da colônia pôs tudo a perder, o trabalho, os sacrifícios, os ideais. Sem contar que querem cobrar as terras que lhes foram doadas. É preciso pôr os pés no chão, meu filho - trouxe à baila o caso da colônia italiana!

A explanação de Xandô deu causa a discussões paralelas quando Luzia, ajudando Nhá Bina a servir o café, contou que as pessoas sentiam pena da mãe e da irmã do anspeçada Diniz, por vê-las rezando e fazendo promessas na cruz de Maria Conceição.

     - Não acredito nessa história de santidade, a vítima não era de boa fama. Tudo é crendice e fruto de boa-fé dessa gente... - manifestou-se Constantino.

A reprovação foi geral, e Estácio o primeiro que não se conteve:

     - Antes ficar com a boa-fé, do que com a má-fé.

A moçada republicana animou o antigo casarão de Pedro Tropeiro, rivalizando com o palácio iluminado do Barão do Paraná, no qual se encontravam os conspiradores.

O mês de fevereiro trouxe a guerra para perto. Castelhano, o grande chefe, com quatrocentos maragatos transpôs a serra do Asseguá. A região de Palmas, com a adesão de coronéis caboclos, caía em mãos dos rebeldes. Os monarquistas, aliados aos políticos apeados do poder, entravam em contato com os comandantes da revolta e envolviam os militares. A casa do doutor Glória parecia de prontidão. Mas o doutor Vítor no governo, com olhos em todos os cantos, vigiava-lhe os passos.

Tudo fora festa de bodas e lua-de-mel para o casal, que só aguardava a hora do embarque para o Rio. Na plataforma, o clima era de felicidade. Todos contentes como Tio Silva e Dulce. Bento levara Clarinha e Luzia na caleça. As duas ficaram de braço com Belinha e as irmãs, de um lado a outro, mas Clarinha na ponta com ele. Cercaram os passageiros. O palhaço Totó, ou melhor - Fernando Barreto,  o Mestre Salvador e a diretora Pepa falavam alto no meio dos artistas, inclusive dos amadores. Otelo, Genésio e o anão Bartolo foram os últimos a abraçarem o casal, por fim acenando da janela do trem. Desta vez, a máquina apitou de alegria, alcoviteira, por levá-los juntinhos no vagão nupcial.

Envolvidos pelo amor, extasiados à luz do luar que os espiava através da clarabóia do camarote, acharam rápida a viagem pelo mar.

Os homens mudavam menos lentamente o mundo, com a máquina a vapor encurtavam as distâncias, produziam mais, criavam novas condições de vida, embora não pudessem se libertar da economia de furto. O otimismo que demostravam os positivistas nas reuniões, nas escolas, nos cafés-concerto, nas tabernas, em toda parte, sugerindo que a ciência resolveria todos os problemas humanos, não correspondia à dura realidade. Por mais de um século, ainda, seria inconcebível o mundo sonhado, sem o tecnicismo do futuro, único meio de produzir para todos, livrando o homem da economia de furto. As mutações envolviam crises, e no Brasil, frustrada com negócios mal feitos e especulações na Bolsa, a burguesia rural retomava o caminho das fazendas abandonadas. Antigos escravos também se dirigiam para lá. Sem exportar o açúcar, arruinavam-se no Nordeste os senhores de engenho. Os sertanejos, sim, salvavam o Norte, explorados pelos seringueiros.

Aguardavam o casal no cais, acompanharam-no à casa de duas janelas, espremida entre os sobrados do meio da quadra. O tenente tratou do aluguel. Emília da arrumação e ajustara uma empregada. Um achado naqueles dias.

Visitaram-no primeiro o coronel Teles, sua esposa Laiz, e seu grande amigo Orestes. Ao contrário do general Solano, que com ele comandava o regimento de cavalaria no Paraná, conservava-se legalista e sequioso de notícias sobre gestões de paz nos estados. Uma amizade sincera nascia entre Laiz e Letícia que, com o marido, devotavam-lhe muito respeito. Depois a pensão em peso recepcionou-os como uma só família. Os filhos da viúva , agora mocinhos. Letícia justificava tantas venturas, merecia-as, tão simples, meiga e bonita - acharam os antigos hóspedes, cousa de que ninguém discordou.

Ao saírem a passeio, empolgavam-se cada vez mais com o Rio de Janeiro. A paisagem provocara emoção, alegria de viver, revelando um povo que, apesar de sofrido, superava as crises do mundo. Ao descerem do bondinho de burros, assistiram aos ranchos que vinham pela rua, formados por meninos e meninas fantasiados, tocando instrumentos, outros recolhendo dinheiro dos espectadores.

     - Pedem esmolas - um certo gajo provocou o protesto de Letícia.

     - Não senhor. Solicitam uma paga pelo espetáculo que apresentam.

Xandô acariciou-a, explicando-lhe que os ranchos nasceram das "folias", as quais antecediam a "festa do Espírito Santo".

     - Puxa, quanta beleza! - exclamara ela, recostando a cabeça em seu ombro.

Logo toparam o samba. Tomava formas, ainda era mais a função, a brincadeira, o local onde se divertiam ao som de batuques e de danças na base de umbigadas. Havia um lamento levado de roldão em meio a estribilhos de batucadas, lundus de um ritmo novo. Quase maxixe ou pagode. As noites, também negras e bonitas, risonhas de luar, abriam os bailes dos morros.

No quarto, davam-se sofregamente à saciedade, e afinal Letícia compreendeu por que ele lhe dissera antes da viagem só poder oferecer-lhe o mundo na palma da mão. Juntos tinham certeza do paraíso. Impressionavam-se com os quadros de pobreza, doenças e desigualdade social que presenciavam, lembrando-se do que lhes diziam pessoas como o tio Jango, Matias ou as pretas velhas: - Aqui é o inferno, o purgatório e o céu.

Letícia concordava com Xandô:

     - Há misérias e dor, mas o bem e o belo superam tudo que há de mal na terra.

Não há gozo igual ao que experimentara na cama, logo depois que lhe sentira as mãos tirando as peças íntimas, ouvindo-o:

     - Sou a pessoa mais rica do mundo. Quanto vale esse céu, o mar, a vida? Tenho você, minha querida.

     - Não há maior riqueza que ser feliz - gemeu ao sussurrar, ambos extasiados.

Coisa natural num novo mundo, em construção, numa sociedade virgem, com gente cheia de fé, esperançosa, por tudo a conquistar, sem as angústias das civilizações cansadas. No carnaval esqueciam-se as dores, as mágoas, divergências. Brincava todo mundo, misturavam-se as pessoas, as raças, as classes. Naquele ano, o Rei Momo desanimou-se, diminuiu o séquito por causa de doenças e mortes, de motins, prisões, desterros. Entristecera-se com a decadência da monarquia. O povo que resistia a tudo, celebrava a vida no corso, formava blocos e cordões, com música e dança nova nos clubes e nas ruas. À alegria contagiante dos moços ninguém podia ser indiferente. Ao primeiro sinal da comemoração popular, Letícia saiu à janela e observou:

     - Que interessante, não é Xandô? O Zé Pereira que vem tocando bumbo, com a molecada pulando atrás, toda cidade tem um. É o nosso Otávio Pereira lá de Ponta Grossa, que rodeávamos nas fogueiras de São João. Noutros lugares tem outros nomes, mas é sempre o mesmo Zé Pereira.

Não havia quem não indagasse:

     - De que tu vais te fantasiar?

Os saudosistas defendiam o entrudo:

     - Até a família imperial participava. Era tudo mais divertido. Os cordões e as fanfarras. Espirrava-se água com seringa. Os gajos jogavam papel picado, limão-de-cheiro e flores. O limão-de-cheiro tu preparavas em tacho de cera.

Madames discordavam, contestando-os qual se fora um desrespeito às mulheres:

     - Era uma estupidez darem vassouradas e cobrirem a gente com todo tipo de pó.

O mau não brinca, só se aproveita. Carnaval é invenção de gente boa, por isso, alegre e feliz - pareciam dizer os pobres, em cujas fisionomias Xandô reconhecia expressões de Otelo, Jair, Minega, amigos de infância e colegas de escola.

Achou graça do garção, velho conhecido, que saiu de baiana entre os malandros de camisas listradas, atrás de foliões fantasiados. Os estudantes da pensão ainda não haviam chegado, mas também lá as janelas ficavam apinhadas, Alfredo e Henrique inventando artes na rua.

O país tirou a fantasia e vestiu a realidade.

Em residências cariocas os pianos gemiam valsinhas dolentes. Pequena, porém de sala ampla, a de Letícia tornou-se ponto de encontro dos artistas, com a vinda da companhia de Pepa ao Rio de Janeiro. Músicos que a freqüentaram, tocando flauta, violão e cavaquinho, partiram da polca e do xote para o repertório brasileiro. No ato variado do teatro, Letícia empolgara o público. A vida do casal mudara muito, conhecido e admirado em todos os meios, Xandô trabalhando em jornal, respeitado por suas opiniões e participação nos acontecimentos. Aproximava-se o final do curso e, nas férias, ele próprio lançara a proclamação: "- A Pátria está em perigo!" Os jovens engajavam-se na defesa do novo regime, voluntários nos batalhões patrióticos.

     - Jacobinos florianistas - ironizavam os adversários.

As reuniões suspeitas na casa de Manoel Lavrador, em São Cristóvão, onde comparecia o ministro da Marinha, tornaram-se notórias.

Estácio, um bom ativista, não se cansava de esclarecer que a anarquia reinava por causa dos monarquistas e dos políticos do Partido Liberal apeados dos governos estaduais. Ele e Orestes sentiam a falta de Xandô nas tabernas.

Só a lua em nada mudou para Xandô e Letícia em sua vida nova, pois continuava de mel. Estranhavam, às vezes, o aperto da cidade mal arejada, mal cuidada, de ruas que mais pareciam corredores, a falta de jardins e arvoredo. Em busca de ar livre, inventavam piqueniques e passeios. Inauguraram a moda de banhos de mar. No princípio as mulheres entravam na água de um lado, os homens de outro. As celeumas começaram quando os dois foram vistos juntos furando as ondas. Ela de túnica bege com lacinho acentuando-lhe a cintura fina, calça fofa, ajustadas sob os joelhos. Muito graciosa de gorro com bordado arabesco sem cobrir a franja e as madeixas. O mar, eterno folião de azul ou de verde, com golas e borlas de espumas, fingia de pierrô choramingão e virava cambalhotas na praia. Haviam freqüentado cafés-concerto, o Cassino Fluminense, clubes de bairros e reuniões dançantes em casas das Laranjeiras. Assistiram aos teatrinhos de revista nacional, que tanto insistiram para que ela não abandonasse o palco.

Para quem ama é sempre primavera, estação de paz. No entanto, fora travada a batalha de Inhanduí, as tropas rebeldes se dispersaram no Uruguai, mas "El Castelhano" arrancava com suas colunas para o norte. Numa tarde de maio, Estácio leu emocionado, em voz alta , no saguão da faculdade, a matéria que saiu no jornal:

     - É uma carta do conselheiro Gaspar Martins, transcrita do "Amigo del Pueblo", da cidade de Concordia, no Uruguai, - anunciou aos colegas, ressaltando o principal.

     "Rio Grande Y el Estado Oriental formaram dentro de poco una sola nacionalidad. Que honor para los ciudadanos que concurran a tornar la pátria maior.

     Solo D.Julio Herrera no compreende esta grande idéa, que és el sueño de tajes y de todos cuantes piensan en las vantagens de una pátria grande.

     Si los otros Estados de La República Brasileira no nos acompanhan y mandan soldados a combater-nos, nuestro objeto, antes de ser vencidos, és:

     Separacion, independência, y union com el Estado Oriental."

A mocidade saiu indignada em passeata pelas ruas, e a reação golpista apressou-se em desmenti-la:

     - A carta é falsa! - exaltavam-se os conspiradores.

Chamando Floriano de caboclo e sargentão, argumentavam que se o governo não houvesse intercedido no Rio Grande do Sul contra os revoltosos, não haveria guerra, nem separação. Defendiam o conselheiro Gaspar Martins. Sentiam-se mais fortes que nunca, pois a oposição da marinha tornara-se pública. Convidado a substituir o ministro demissionário, o almirante Saldanha respondera a Floriano: "V.Ex.ª sabe que se eu estivesse aqui em 15/11/89, as coisas não teriam se passado como se passaram; sabe também que insisti para que o Exmo.Sr.marechal Deodoro não lhe entregasse o governo." Assim que foi publicado o manifesto de um almirante no "Jornal do Comércio", embora tenha sido preso após tomar um navio de esquadra, houve euforia em legações estrangeiras. O Conde de Paço d'Arcos telegrafou a seu governo, e este enviou ao Rio de Janeiro a corveta Mindelo, para prestar auxílio aos insurretos.

Um artigo de Xandô, em certo trecho não foi bem entendido:

"O governo não deve tirar conclusões precipitadas do apoio dos fazendeiros de café, desde o início comprometidos com a República, supondo que o exemplo é seguido pelos fazendeiros sulistas. Os primeiros são agricultores, ligam-se à terra pelo capital, mas engrossam a burguesia nas cidades. Os criadores de gado ligam-se à terra pelo umbigo, mandam a cavalo, e é de suas mãos que a revolução republicana quer arrancar as rédeas do poder."

Equivocado, o general Solano tentou aliciá-lo:

     - Teus amigos estão contando contigo para derrubarem também a ditadura. Esperam que não te vás com o tenente Irani para o bloco da chaleira - aludiu à roda do chimarrão que se formava em torno do senador Pinheiro Machado, herói de Inhanduí.

Não desejara contrariá-lo na presença da mulher e filhas tão gentis com Letícia, mas deixou claro a sua posição, embora constrangido:

     - Necessitamos de paz e o governo só intervém para estabelecer a ordem.

A respeito da carta, dissera que não discutia a autenticidade e achava que amar o Rio Grande, o Paraná, Minas ou Amazonas, era amar o Brasil, que o separatismo seria um ato de desespero, nunca um ideal,  um ato de traição sem possibilidade de consumar-se.

Entre seus amigos, muitos não pensavam como ele. Não queria ser solidário a um grupo de bons brasileiros contra outro. Enfrentava um dilema. O cunhado só faltara contar-lhe os detalhes da conspiração, o dia e a hora em que começaria o canhoneio contra o palácio. Inspirava igual confiança ao coronel Teles. Sabia dos planos de ambos os lados e guardava segredo. Sabia de tudo. Aquele sujeito baixo e gorducho que acompanhava o sargento Silvino às assembléias de marinheiros, para depois traí-lo, delatava um a um dos conspiradores que se reuniam em São Cristóvão na casa do doutor Lavrador. Fora fiel de armazém e, como escriturário da Alfândega, prestara pequeno favor ao doutor Dermeval, captando-lhe a confiança, fingindo-se rebelde para através dele obter informações que transmitia à polícia.

Estácio e Orestes foram dos primeiros no batalhão acadêmico.  - O coronel Teles e sua esposa Laiz apoiaram Orestes contra a oposição da família e de vizinhos. Azucrinavam-no pelas costas:

     - Onde já se viu? Um aristocrata na tropa de florianistas.

     - Pirou do juízo.

Solidário com os colegas, Xandô incitava-os a lutarem pela legalidade, em defesa da integridade do País. Mas ainda resistia à convocação. Depois lhe deram a notícia sobre a formatura: - O ano letivo ia encerrar-se e todos seriam aprovados, os bacharelandos colariam grau. Num grupo à porta da faculdade, disse-lhe Estácio:

     - Floriano perguntou por você, achando que a sua participação seria bem recebida no Rio e no Paraná, aumentando o aliciamento.

Xandô foi franco:

     - Faz tempo, estive numa reunião na casa de Floriano. Não escondi que sou a favor da paz. Declarei-me contra a anarquia e o separatismo, mas defendi companheiros que lutaram pela República e até inimigos que de boa-fé, equivocados, deixaram-se envolver por monarquistas e políticos cegos de ambição.

Evitava discussões, desviando-se de burgueses que, em vez de falar, discursavam. Não podia tomar parte numa guerra fratricida, tinha amigos e parentes dos dois lados. Uma guerra absurda, sem razão de ser, - pensava. O que tinha era medo? Sim, difícil confessá-lo. Gostaria de ser forte, corajoso como, por exemplo, Estácio. Sentia-se incapaz, deprimido, ao pensar que não possuía a sua coragem. Por mais que procurasse, apoiando-se nele, jamais conseguia igualá-lo. Não seria covardia ou traição desertar da luta armada? Abandonar amigos e colegas que o haviam seguido? Mas...Letícia, deixá-la sozinha? O soldo de oficial interessava-o no momento.

Num intervalo do idílio noturno, Letícia surpreendeu-o:

     - Meu bem, por que não se alista duma vez? - fez uma pausa e acrescentou: - Só me aflige ser a causa da sua indecisão.

     - Não é assim, querida. Você é a causa das minhas decisões. Entende quanto é importante para mim?

     - Então se aliste por mim, mas - por favor! - eu morro se lhe acontecer alguma coisa - suspirou, antes de se unirem novamente.

Caiu-lhe bem a farda, galões de tenente, garboso artista ao lado de Letícia, a estrela. Vestiu a de gala ao acompanhá-la à ópera do Teatro Recreio Dramático. Dera um adeus à redação, concluiu o curso e entrou na caserna. Fizeram-lhe festa os companheiros, aumentou o voluntariado. Causara satisfação nos meios populares. Sabina saudou-o, lembrando à estudantada os incidentes com o Visconde de Ouro Preto. Abriam-lhe caminho. Até o mendigo da Candelária arredava os pés após terem sido atingidos pelo canhonaço, destrancando a rua.

Letícia ficava afogueada, coração pulando no peito, ao vê-lo desfilar no batalhão acadêmico. À noite, ia buscá-la dos ensaios, para acabar esmorecendo em seus braços. Às vezes, defendia-o de insinuações hipócritas, sarcásticas. A mulher de um almirante lhe perguntara na casa de Cecília:

     - Seu marido juntou-se à plebe e esqueceu os companheiros?

     - Não, senhora. Por causa deles uniu-se aos colegas, dando exemplo para que os seguissem ao lado do povo e dos pobres.

     - Mesmo contra o cunhado, um tenente da Armada Imperial? Não pensou na irmã e no sobrinho?

     - Sim. Somos muito unidos, como deviam estar todos os brasileiros. Por isso, está num batalhão patriótico.

A matrona só não foi mais grosseira porque Cecília interviera contando que o marido se aborrecera com Xandô, mas respeitava suas convicções.

No inverno abriu-se o Teatro Lírico às companhias de óperas italianas e de comédias francesas. Fora programada uma grande parada militar no dia da Independência. Uma noite antes, estrearia uma ópera no Teatro Recreio Dramático.


 

 

 

O ESTADO DIVIDIDO

 

 

O Paraná se alarmava. Aquele mundo que era Palmas tornou-se território maragato. Lá se refugiaram famílias inteiras, o chefe Prestes Guimarães recebido como herói. Uma escolta com a missão de executá-lo foi batida pelos palmenses. Com o apoio da população e uma força de mais de cem cavaleiros, incursionaram contra os bandos legalistas de Palmeira e Passo Fundo, no Rio Grande. O telegrafista da vila não parava de anunciar vitórias rebeldes.

No Café Glória ou no Café Gaúcho, diziam que Prestes Guimarães mandara assassinar o coronel Chicuta, líder republicano de Passo Fundo e, por isso, fugira para Palmas. Outros procuravam defendê-lo, afirmando que a acusação era falsa. Mas logo correu a notícia de que o governo ia mandar para lá um regimento de cavalaria, batalhões de infantes e farta munição.

Em Curitiba, os novos governantes tinham apoio do povo. O doutor Sérgio, que liderara a revolta do comércio, voltou eleito de Guarapuava, passando a participar de cargos importantes no legislativo e no governo. Na chapa de oposição à antiga oligarquia, eleito vice, o doutor Vítor acabou assumindo o governo.

A instabilidade, notícias de prisões, sedições, combates, aproveitaram aos opositores, cada vez mais fortalecidos no interior. Não eram poucos os cidadãos que, sem desejarem, favoreciam a insidiosa campanha dos próprios adversários, pois se mostravam descontentes com a situação.

     - Esta não é a República de nossos sonhos! - o lamento.

O general Raimundo, comandante do distrito, esquecia as pregações evangélicas das sessões espíritas que freqüentava, senão não poderia manter a ordem. Alertara a oficialidade contra as manobras de envolvimento dos politiqueiros. Em setembro, por pouco não se apossaram do governo, apoiados por um coronel das fileiras. Advertiu vários graduados, lembrando que queriam intrigá-los e quebrar a disciplina do Exército. Referia-se aos "semeadores da discórdia!" Deles provinham os boatos de insubordinação na Armada, no Exército e de deposição de governos. Acompanhava os passos do doutor Glória, do senador e ex-presidente Generoso e seus correligionários. Mantinha vigilância sobre o doutor Deleone e os anarquistas. Confabulava com Constantino, o qual o punha a par de reuniões suspeitas no palácio do Barão do Paraná.

O judiciário, por causa talvez do desembargador Egídio, cujo prestígio espraiara-se da vizinha Lapa, encontrava-se nas mãos de maragatos. Tio Silva fizera ótimo ambiente no Tribunal, pôde continuar com o curso de contabilidade, porém retirou-se da política.

Houve regozijo no casarão quando Gabriel, filho do desembargador Silveira, decidiu-se a pedir a mão de Clarinha. Apenas Bento se desgostara, embora não o demonstrasse. Andava calado, impressionara-se muito com o assassinato de Maria Conceição, ouvindo comentários favoráveis à absolvição do anspeçada.

     - Matou por paixão.

     - Não queria vê-la nos braços de outro.

Os que entendiam de lei, previam o veredicto:

     - Agiu com perturbação dos sentidos.

À Luzia, que amara Xandô desde menina, fez uma pergunta estranha:

     - Como você pode ser feliz? - aludia à renuncia, certamente.

     - Só não seria, se eu não tivesse coração - coraram-lhe as faces.

Aos dezoito perigosos anos, as vozes discutiam em sua consciência, e a mais impetuosa com idéias de que "melhor morrer do que viver sofrendo" ou "dar morte a quem nos faz sofrer". A outra não queria que magoasse ninguém, porém que se conformasse, pois só a ingratidão - conforme costumava dizer Nhá Bina - era a origem de tudo que não presta.

     - O que será que Bento tem?

     - Coisas da idade.

Com intuito pacificador, o Partido Republicano Federal procurava unificar as correntes de opinião, acolhendo a todos. No Rio, um deputado criticou-o acerbamente: "-  É uma catedral aberta a todos os credos." No Paraná, impossível um acordo. Acampados na União Republicana, os adversários não davam trégua ao governo, aliciando os descontentes. Para ganhar terreno, o doutor Vítor mandou promover uma grande concentração com a banda militar animando o povo no dia Primeiro de Maio. Colaboraram o comércio, os clubes, as associações de trabalhadores e, principalmente, a Sociedade Protetora dos Operários.

Bento influenciou-se com o clima de violências, a ponto de admiti-las como solução de problemas, pensava nisso quando Tia Dulce mandou-o acompanhar a filha. Sem prestar atenção à Luzia, que ia junto, recomendou-lhe:

     - Cuide bem da Clarinha.

Sentia-se homem o mocinho de paletó e calça comprida, aprendiz de alfaiate na oficina onde Tio Silva encomendava suas fatiotas, em troca do serviço de guarda-livros. Percorreu-lhe um arrepio gostoso ao dar-lhe o braço Clarinha. Uma sensação de felicidade e medo de perdê-la. A sua voz revelava maior contentamento que todo o vivório da praça. A vibração popular não se comparava a sua no peito. Clarinha, tranqüila e segura, adorava o irmão adotivo, ou melhor, de criação.

Pensaram que as comemorações terminariam com o foguetório e o discurso do doutor Vítor sobre o dia do trabalho. Anoitecia quando foi interrompido pela manifestação da Liga de Sapateiros, aliada à União Republicana, que se dirigira à praça. À frente de uma centena de homens e mulheres, um italiano conduzia uma bandeira vermelha e preta com os dizeres "Liberdade e Terra". A solenidade oficial deu lugar a uma manifestação popular. O doutor Glória quis chefiar o tumulto, gritando que o dia era do trabalhador e a festa do povo, não do governo.

     - Nem da oposição! - protestou com o punho cerrado, no palanque, o gráfico que presidia a Sociedade Protetora dos Operários.

A polícia ficara de sobreaviso. Chica Chapeleira, viúva do francês anarquista da antiga Colônia Argelina, desde cedo gritava impropérios contra os republicanos de uma das janelas de sua casa. E foi ela que acompanhou seu filho Bialê, tido como louco, berrando os dois no préstito:

     - Viva o Imperador D.Pedro II!

Trocaram-se insultos, sopapos e bengaladas, mas a polícia apartou a briga e, entre outros, levou Bialê para a cadeia, o qual levou uma surra de vara de marmelo. Bento não deixou ninguém aproximar-se de Clarinha, mas Luzia deu com a sombrinha na cabeça de um gajo que se atreveu a passar-lhe as mãos nas nádegas. Viram o mendigo Saúde - assim o apelidaram - tísico o coitado, com cara e roupa de defunto, que para não ser preso pelo temível alferes Argemiro, cumprimentou-o:

     - Passório bem, senhor soldado.

As desavenças entre os grupos tomaram rumos perigosos. O governo acusava o doutor Glória e seus partidários de anarquistas. O Jornal "A República" publicava-lhe os artigos, rebatendo os virulentos ataques de seu desafeto na "Federação". Começava a guerra entre jornais, clubes, famílias, envolvendo todo mundo.

No dia da inauguração da estação de Palmeira, o trem da comitiva saiu carregado, metade picapau, metade maragato. Tio Silva pensou tratar-se apenas de um passeio e agradeceu a reserva de lugares. Clarinha pediu que a levassem, e os pais acabaram cedendo:

     - Então pode ir com seus irmãos.

     - Bento cuidará de você e de Luzia.

     - Não saia de perto de Bento - recomendaram repetidas vezes.

Barreto suspendeu a função no circo, e Constantino foi o encarregado da cobertura civil à comitiva. Chefiava-a o doutor Vítor, que aguardava a partida de chapéu na mão, batalhão formado na rua, carruagens despejando autoridades ao som de dobrados, por último o Hino. A cabeça, de cabelos ralos, um tanto presa dentro do colarinho duro encimando as golas largas do paletó.

Deputados e camaristas opositores também receberam convite da companhia, que lhes reservou um vagão especial.

Ao soar o apito da locomotiva, o que disparou foi o coração de Bento, mais veloz que a tropa férrea. Clarinha sorria de tudo, mexia-se tocando-lhe de leve, mostrava-lhe paisagens: - Veja! Junto com ela, um paraíso. Para protegê-la das fagulhas nas curvas, ao fechar a janelinha sentia-lhe o roçar dos seios. A pedido dela, sentara entre as duas no banco.

Palmeira em peso compareceu à estação. O povo esparramou-se pela rua, pois não cabia mais ninguém na plataforma. Quando o trem chegou, fazia tempo que a banda estava tocando. No desembarque formaram-se dois grupos rivais, e a multidão dividiu-se ao meio. O juiz comandava o primeiro, cercado do promotor, do padre, do delegado e de outros picapaus. Intenso foguetório precedeu o discurso do doutor Vítor sobre a importância do acontecimento e o progresso de Palmeira. As palmas começaram a ser abafadas pelos gritos do doutor Grilo, do major Castro e do coronel Henrique Araújo, fazendeiros da região.

     - Viva o doutor Glória!

     - Vivôôôôôô.

Os italianos e polacos das colônias vibraram ao ouvirem o líder oposicionista ladeado pelo senador Generoso e os desembargadores Egídio e Silveira, saudado com tiros para o ar:

     - Esse governicho acumpliciado com a ditadura, nada tem a ver com a construção de estrada de ferro e o progresso de Palmeira. Esta obra pertence ao povo e aos governos fiéis a D.Pedro II e ao marechal Deodoro. A companhia e o povo sabem a verdade. Enquanto os trabalhadores a constroem, a canalha promove a desordem, destruindo-lhes a paz. Querem, em nome da república, taxar criminosamente as terras dos colonos, com a intenção de roubá-las!

Influenciado pelo Barão dos Campos Gerais e pela oligarquia monarquista, o povo Palmeirense apresentava faces maragatas. O doutor Delelone e Bodziack prepararam uma recepção muito mais calorosa ao doutor Glória e seus acompanhantes.

A presença de tantas mulheres e crianças foi providencial, pois evitou que a discórdia degenerasse em conflito. A comitiva do doutor Vítor retirou-se protegida, com as autoridades locais, para o local do banquete. Então os opositores comportaram-se cavalheirescamente. Fora oportuna a intercessão dos diretores da companhia, em tal sentido. Bento, Clarinha e Luzia arregalaram-se antes das manifestações de rua na vila. Para evitar incidentes, saíram pelos fundos o doutor Vítor e seus correligionários de volta à estação, guardados no vagão do diretor. À hora do regresso, havia um trem só para gente do lado dos picapaus, e outro para os maragatos. Ambos encheram de repente, em fuga para Curitiba. Aí chegou o momento em que Luzia cedeu o lugar a uma mulher grávida, e Clarinha sentou-se ao colo de Bento.

Do pedestal ao colo. Bento se esforçava para não perder a fala e o fôlego. Ninguém lhe notava a excitação, o vagão cheio, na penumbra os passageiros sob as impressões da baderna na inauguração da linha. Não havia como deixar de deliciar-se. Tinha de segurá-la - era demais. Já nas manobras, à saída, as mãos escapavam da cintura, tocando-lhe os seios. Os rostos pechando-se quando ela se virava para dizer-lhe quanto gostara do passeio. Talvez nem soubesse o porquê, porém o expressava: - Nunca me diverti tanto e me senti tão feliz. Sentiu-lhe o hálito. Ah, que desejo de beijá-la, mordê-la, ao apertá-la fingindo ser preciso. Não resistia à tentação. Luzia cochilava com o ruído monótono da ferragem, não precisaria disfarçar o prazer. Envolvida por uma sensação gostosa, de atração e bem estar, Clarinha vivia o momento, sem compreendê-lo. Colada de costas, balançando as coxas com o jogo do trem, levou-o ao êxtase. Depois que ele se levantou e foi ao banheiro, voltou e ficou em pé alguns minutos, ela o chamou, mandou sentar-se e novamente acomodou-se em seu colo. Queria-o pertinho. Parecia natural à Luzia que os considerava irmãos. Anoiteceu durante a viagem, e Clarinha soltou-se adormecida nos braços de Bento. Este pela segunda vez estremeceu de gozo.

Enquanto a banda tocava na recepção às autoridades na estação iluminada, os três tomaram uma caleche para casa. Nhá Bina serviu-lhes a mesa de café com pão feito em casa, e foram relatando com muita graça as peripécias da viagem.

     - Você saiu de perto do Bento, minha filha?

     - Não, pai.

     - Ele cuidou bem de você e de Luzia?

     - De mim, sim mãe. De Luzia nem precisava.

     - Sabiam que nós estávamos bem acompanhadas - justificou Luzia.

     - Não fosse Bento, não seria tão bom o passeio - as palavras chegaram a provocar leve desconfiança que os tios afastaram da mente.

O que aconteceu na Palmeira teve enorme repercussão, principalmente na capital e nas cidade dos Campos Gerais. Não havia mais dúvidas de que a maioria dos fazendeiros e dos colonos apoiavam uma revolta contra o governo. Liderava-a o doutor Glória, de família parnanguara de grande prestígio. A mãe dera recital de piano no Paço Imperial, o pai tocava violão, rabecão, violino, harpa e cítara. Animavam reuniões nas casas e nos clubes.

     - O doutor Glória trata os pobres de graça, como o finado doutor Leocádio Correia.

     - O Visconde de Taguaré continua dono do litoral. Some-se a isso a parentela do Barão do Paraná e o prestígio do coronel Soares Gomes em Antonina.

     - Se estourar uma revolta, o governo tá perdido no litoral - diziam com razão.

Realmente, o mar constituía uma ameaça maragata aos litorâneos ligados ao comércio e à exportação de erva-mate que se retraíam, por penderem para os picapaus.

Anunciou-se oficialmente a derrota das forças rebeldes em Inhanduí. Nisso acreditaram os curitibanos, voltando suas atenções para os lances do crime de Maria Conceição. As mulheres eram vistas em pedestais nesse tempo, valorizadas como nunca. Não havia um só homem que não considerasse a mãe uma santa. A do anspeçada visitou com a filha, uma a uma, as famílias dos jurados, pedindo-lhes clemência. Ajoelhadas ante à cruz do caminho, faziam promessas.

A defesa superou a acusação, alegando que se Maria Conceição traíra o réu e não merecera ao menos a extrema-unção na igreja, este agira com perturbação dos sentidos, lavando sua honra. Mas se realmente era uma santa, como diziam, perdoava-o.

No dia doze de julho, por onze votos contra apenas um, o corpo de jurados absolveu o réu, contra a lei e a prova. Ele teria de aguardar na prisão o resultado do recurso interposto pela promotoria.


 

 

 

O FIM DO MUNDO

 

 

I

 

A expectativa das comemorações da Independência e próxima estréia da ópera lembravam o clima do grande baile da Ilha Fiscal. Outra vez predominava o ar que soprava do lado dos navios. Reanimavam-se as famílias galegas. A parada militar seria uma réplica ao Quinze de Novembro. Os navios ficariam de prontidão na barra e, com a prisão de Floriano, voltariam os tempos do Império.

Ao tirarem dos cabides as casacas ou seus belos uniformes, os conspiradores antegozavam a vitória. Após a leitura do manifesto e o troar dos canhões, assim que Floriano renunciasse, seriam proclamados heróis. A história daria meia-volta. O almirante Saldanha da Gama, comandante da Escola Naval, e o conselheiro Martins, articuladores de todo o movimento, usavam-nos para seus fins e não tinham dúvidas do êxito contra-revolucionário.

Mas a monumental passeata não houve, desfigurou-se o dia da Independência. Fileto, o fiel de armazém, esteve a bordo do Aquidabã, se ofereceu para levar o manifesto à imprensa e delatou todo o plano no Itamarati, enredando um a um os conspiradores.

Floriano conhecia o almirante Custódio de Melo, o suficiente para saber que desejava conquistar pela força a presidência da República. Fora seu ministro e se rebelou porque lhe recusara apoio. Certamente pretendia desforrar-se do Congresso, que indicara candidato o doutor Prudente de Morais.

A par do aliciamento de comandantes de várias unidades, ciente do perigo representado por uma sublevação na marinha, ainda mais que os rebeldes tinham as mãos sobre o Rio Grande, Paraná e Santa Catarina, aprovou um contragolpe. Disfarçaram-se os intentos, desviando-se as atenções propositadamente para os divertimentos. Polarizavam-nas a ópera e a parada militar.

À véspera do dia da Independência, o mundo elegante afluiu ao Teatro Lírico. Na noite iluminada, a antiga corte desembarcou de carruagens não mais tão luxuosas e com cavalos importados da Argentina. Burgueses de indumentária aristocrática chegaram nos bondinhos de burros, os bancos forrados de seda. Olhos sequiosos devoravam as belas mulheres enfeitando as dependências inteiramente lotadas.

Na hora de começar o espetáculo, o almirante recebeu um aviso e fez correr pelo teatro um recado aos seus comandados:

     - O plano foi descoberto. Fileto, o fiel, nos traiu, é um espião. Vamos antecipar o ataque.

Assim que se levantasse e saísse, deveriam segui-lo para o embarque.

Ao subir o pano, iniciou-se a ópera. Em cena "Huguenotes", de Meyerber. O huguenote Marcelo cantou o Salmo Luterano, e Custódio de Melo roubou o espetáculo, levando consigo parte do público. A atitude provocou perplexidade, um claro na platéia, perturbando a apresentação. O tenente Carvalho Mendes despediu-se no camarote, tranqüilizando Cecília, confiada ao irmão. O teatro esvaziou-se aos poucos em face da aflição das mulheres, cujos maridos acompanharam o almirante.

Os chefes, inclusive civis, estavam a bordo do Aquidabã, capitânia de bandeira branca içada, símbolo da revolta. Às primeiras horas da manhã, desafiavam o regime republicano dois couraçados, três cruzadores, três torpedeiros, vapores e paquetes armados. Um destes aprisionado ao chegar do Sul com carregamento de carne seca. Os escaleres com o batalhão naval, da Ilha das Cobras, foram recebidos entusiasticamente. A Fortaleza de Villegaignon, única de guarnição maruja, rebelou-se também. Ao contrário das de Santa Cruz, São João, Ramón e Imbuí.

E comandando a Ilha das Cobras, na direção da Escola Naval, Saldanha da Gama concertava planos para, no momento oportuno, decidir as batalhas.

O primeiro comando desembarcou de madrugada na Ponta da Armação, em Niterói, apoderando-se do depósito de artilharia. Simultaneamente deflagrou-se uma greve na Estrada de Ferro, e um piquete atacou em vários pontos, danificando fios e aparelhos telegráficos, obrigando os ferroviários a abandonarem os postos. Terroristas atiraram bombas de dinamite nos túneis, e uma das balas do Aquidabã atingiu a igreja da Candelária.

Os conspiradores transformaram em guerra a festa da Independência. No dia seguinte já eram vinte e sete as naves, milhares os insurretos. Maragatos com o mar como planície, e navios a sua cavalaria. Então a comoção tomou conta da cidade. Estudantes e trabalhadores se apresentaram em massa para formar batalhões patrióticos e combater a revolta. O Congresso Nacional autorizou o governo a declarar o estado de sítio, exigido nas concentrações populares. Enquanto se repudiava o manifesto do almirante Custódio de Melo, votava-se moção de apoio a Floriano, em reunião no Teatro Recreio Dramático.

Ao prepararem o seu próprio batalhão, o Acadêmico, Xandô, Orestes e principalmente Estácio se mostraram incansáveis, pois auxiliaram ainda a mobilização do Operário e do Franco-Atiradores.

O bombardeio à capital obteve de resposta um cerco de fogo desferido pelas fortalezas, que imobilizou na baía a esquadra maragata. Floriano não renunciara nem ao primeiro, nem ao último tiro de canhão, como supunham os almirantes e seus aliados do Encilhamento. Artilhou o litoral para debelar a revolta e alertou as tropas nos vários estados. A sua atitude fazia vibrar a alma carioca.

     - Caboclo duro de roer esse caboclo das Alagoas. É dos nossos - não lhe poupavam elogios, nem epítetos.

Sem perda de tempo, tratara de organizar nova esquadra, adquirindo navios nos Estados Unidos, único país que o apoiava. Por inspiração do conselheiro Martins, desdenharam-na como "Esquadra de Papelão".

Enfim, sob forte bombardeio soçobrava um navio de pedra: o Rio de Janeiro. Abandonava-o em pânico parte da população, mas não o comandante e suas guarnições. Parecia a pique, porém era falsa a ilusão de vitória da força naval rebelde.

Em São Paulo, ao contrário do Rio de Janeiro, os estudantes lançaram um manifesto saudando o golpe, a retrogradação, com vivas à Armada. No quartel os acadêmicos os criticavam, uns achando o fato decepcionante, outros atribuindo-o à falta de esclarecimento de filhos de fazendeiros filiados ao Partido Liberal.

Cecília se mandara de filho ao colo, e mais uma serviçal, para junto de Letícia. Das janelas viam o povo deslocando-se a pé e em todo tipo de carros cheios de badulaques. As estações ficaram abarrotadas, os fugitivos acoitavam-se nas matas. Os combates e o pânico irradiaram-se às cidades próximas.

 

II

 

Nos estados sulinos, as populações recebiam com festa as colunas rebeldes. Desfiles ao som de bandas, recepções em teatros e clubes, discursos, declamações, bailes de xote, valsa, milonga e vanerão.

Em Curitiba, o doutor Glória tinha o povo na mão.

Após Inhanduí, os maragatos tomaram a direção de Itaqui, na margem do rio Uruguai. Sem barcos, faziam travessias com grande dificuldade, passando os cavalos atados pelas caudas uns aos outros. À vanguarda, Aparício comandou a carga de lanceiros e venceu a resistência oposta nos corredores de pedra do lado da campanha. Antes que os picapaus depusessem as armas e do enterro dos cadáveres deixados nas ruas, o chefe da esquadrilha naval ordenou a cessação de fogo. Aparício respondeu em espanhol que não o faria, desafiando-lhe a autoridade.

     - Estou no Brasil onde se fala a língua portuguesa - replicou o comandante.

Então Gumercindo entrou em Itaqui com o grosso da tropa, e ergueram-se vivas ao Brasil e à Armada. Receberam-no, a contragosto do chefe, marinheiros agitando os gorros. Uma marcha triunfal, após a tomada de assalto.

O doutor Arcanjo chegou de canoa para, a bordo, pedir a adesão da flotilha. Estavam presentes os comandantes e sua famílias, que o ouviram agradecer os socorros prestados aos feridos.

     - O que fizemos foi por humanidade e como brasileiros, a esquadrilha não faz diferenças numa guerra de irmãos - frisaram.

De roupa velha e rota, com triste aparência, arrancou elogios de um simpatizante e sensibilizou a oficialidade:

     "- Sou um mártir voluntário, como meus companheiros. Aqui está comigo o coronel Barbosa, que também abandonou tudo, levando consigo seus dois únicos filhos para desposarem a pátria no martírio."

Relatou os sofrimentos passados, mas teve de enfrentar os protestos de um tenente contra a restauração da monarquia. Por pouco, não conseguiu a adesão da flotilha, revelando os planos rebeldes:

     "- A esquadra no Rio de Janeiro está abertamente contra Floriano. Se a esquadrilha se declarar a nosso favor, tomamos Uruguaiana, fundamos um governo, será reconhecido o estado de beligerância e imporemos a paz."

Estavam todos confiantes nos acampamentos, como o doutor Arcanjo no quarto do hotel, porém os picapaus atacaram e destruíram uma coluna no rio, tomaram o passo e sitiaram Itaqui, dificultando a retirada.

De Salto, Montevidéu e Buenos Aires, o conselheiro Martins tratava da obtenção de reconhecimento do estado de beligerância pelos países estrangeiros, contando com a formação de um governo rebelde. Na conferência dos comandantes, a bordo do Aquidabã, decidiu-se que uma divisão de navios, capitaneada pelo cruzador República, forçaria a barra para instalá-lo no Desterro.

Por sua vez, Saldanha da Gama revelara, na Ilha das Cobras, ao comandante português do navio Mindelo:

     "- Se eu entrar na luta, vou levantar a bandeira da monarquia que será defendida pelo próprio Custódio, pelos revoltosos do Rio Grande do Sul e a grande maioria da população das cidades e do país, de norte a sul."

 

III

 

Na manhã daquele sete de setembro, as mulheres acordaram com o rebôo dos canhões, temendo pela sorte dos maridos. O cruzador República, que podia ser perfurado a balas por ser de madeira, aproveitou a cerração, passando ileso entre as baterias acesas das fortalezas. A seu rastro um patacho armado, paquete de dois mastros. Na tarde seguinte, aventuraram-se o Palas e um torpedeiro, porém o fogo cerrado obrigou-os a recuarem. Então foram blindados com fardos de algodão e alfafa, protegidos pelos canhões e as luzes dos holofotes do Aquidabã a cegarem as baterias de terra para seguirem a capitânia.

Apoiada pelo governo estadual e com a capitania dos portos simulando oposição à revolta, com a qual colaborava sabotando a ação de militares do distrito, a flotilha aportou na cidade-ilha, Desterro. Em reunião no quartel-general, onde se encontrava o tenente Irani, opunham-se ora à abertura de trincheiras, ora à vinda do contingente legalista de Blumenau ou de outras forças confiáveis. Dissimulavam habilmente:

     "- Impossível tentarem depor o governo."

     "- A polícia, os pescadores e o pessoal da estiva receberão instrução e podem ser armados pelo senhor comandante."

O capitão dos portos tranqüilizava os legalistas:

     "- Ah, não se preocupem senhores. O cruzador tem dezessete pés de calado, e a barra tem só quatorze de profundidade."

A verdade veio à tona quando, em segurança, os chefes desembarcaram do cruzador para se instalarem na capitania dos portos onde os colaboradores punham-nos a par das decisões dos militares legalistas.

Em vão, o coronel Serra Martins quis requisitar lancha a vapor, escaleres, embarcações para oferecer resistência no continente. Sob seus protestos e de alguns oficiais, no quartel do batalhão de infantaria, o Barão de Batovi, marechal sedicioso, impôs a capitulação.

     - Isso é covardia. Uma vergonha. Um velho marechal do Exército!

     - Oficiais esquecidos de seus deveres.

Quando o repórter João César, secretário civil do comandante Lorena, fora a terra, providenciara a destruição de pontilhões pela polícia, carroceiros e catraieiros, na estrada por onde marchara a tropa que atacou a flotilha.

     Ilha maragata, com a instalação de um governo provisório, Desterro tornou-se capital rebelde. A sala de conspiração da mansão do doutor Lavrador deslocou-se para a ilha, a bordo do República. Nela foram indicados para a chefia o capitão de mar-e-guerra Frederico de Lorena, ministros Aníbal Elói Cardoso e Mourão dos Santos, ex-capitão dos portos, então recompensado.

No começo de outubro, engalanou-se o palácio, houve salvas de tiros, marchas ao som de bandas militares, intensa vibração popular. O governo provisório decretou a mobilização da guarda nacional, recrutou e organizou forças, destacando-as para diversas localidades. Ao efetuar prisões e mudanças na administração, reconduziu ao cargo de presidente do Estado aquele que fora afastado por abuso de poder.

O Rio de Janeiro sofreu as conseqüências da luta. Mães, esposas, irmãs e noivas de combatentes rezavam ajoelhadas ante oratórios armados nas salas. Nos cortiços ou nas mansões, as lavadeiras e as criadas benziam-se, exclamando:

     - É o fim do mundo!

Assustavam-se com a movimentação nos quartéis, nas ruas, a ocupação de cais, morros artilhados e patrulhas vasculhando a cidade. O canhoneio de terra e da esquadra faziam vítimas. As celas das fortalezas estavam cheias, e o doutor Glória que chegou escoltado do Paraná ficou com vários civis trancafiado numa delegacia.

Alardeando as notícias de Santa Catarina, os insurretos criam na queda de Floriano. A restauração já não poderia ser contida, ninguém mais salvaria a República - confiava o almirante Saldanha da Gama, pronto a assumir o comando da revolta. Então a esquadra desfecharia um ataque em regra, decisivo.

Numa pausa dos combates, Xandô veio preencher o vazio que deixara em casa. Ele e Letícia trataram de tranqüilizar Cecília, fazendo-a acreditar num iminente cessar fogo. Fora avisada que o tenente Carvalho Mendes comandava o paquete Urano, encurralado na baía. Orestes e Estácio ajudaram a desfazer o pessimismo ocasionado pelos boatos e notícias alarmantes:

     - Os boletins que as embaixadas inglesa e francesa espalharam, anunciando saque e anarquia, foram para justificar a posição que tomaram contra o governo. Não têm cabimento

     - Logo a situação voltará ao normal.

Cecília dirigiu-se ao irmão e seus amigos:

     - Por que uma guerra entre irmãos?

Com o quepe sobre o colo, falando como quem disfarça uma tristeza, Estácio deu a resposta pelos três:

     - Senhora, os homens ainda vão custar a compreender que as guerras, todas as guerras são entre irmãos.

Orestes não perdia os modos de nobre:

     - Creiam as senhoras que as forças garantirão o respeito à lei, e tudo não terá passado de um desagradável pesadelo.

Letícia só interveio em favor da cunhada:

     - Cecília tem razão. Não dá para aceitar que amigos e parentes se encontrem em campos opostos, uns atirando contra os outros, se todos são patriotas.

     Xandô ia falar sobre separatistas que traíam o Brasil, mas achou melhor calar-se. As palavras que ficaram na memória foram as de Estácio:

     - Nós queremos a República porque é o caminho da igualdade de direitos para todos. Por um Brasil sem súditos, servos e escravos, em que os homens sejam irmãos, eu daria a minha vida.

Nada comentaram sobre os combates. Conduziram a conversa para a conclusão do curso, a colação de grau e até para fatos corriqueiros.

De braços dados, Xandô e Letícia foram à pensão de Mme. Souza, cujos filhos Alfredo e Henriquinho se alistaram na tropa de franco-atiradores. Inconsolável, a viúva pedira por eles a Xandô, que os protegesse, um dos responsáveis pelo batalhão. Então retornou à posição, em Niterói.

No dia nove de outubro, a Fortaleza de Villegaignon amanheceu com a bandeira branca hasteada, sinal de insurreição. De lá as praças partiam para os navios e lanchas, atacando as defesas litorâneas. Tingia-se de sangue a baía. O paquete Urano tentou furar o bloqueio, atingido pelas baterias e peneirado pela fuzilaria. Mais de cinqüenta homens atiraram-se ao mar. Uma lancha arriada retornou com o pessoal reduzido pela metralha. O tenente Carvalho Mendes pediu socorro no tombadilho, ordenou que fosse hasteada a meio-pau a bandeira brasileira. Na Fortaleza de Lage servia Fileto, incitando os atacantes, mas o comandante mandou cessar o fogo. A de Santa Cruz continuou o massacre. Remendado a tempo, o vapor derivou para trás da ilha e zarpou.

Ao atracar no Desterro, a acolhida calorosa no cais tornou comovente o desembarque dos feridos, muitos em estado grave. Além do feito memorável, o Urano levou a bordo uma plêiade rebelde.

Relataram à Cecília, na casa do general Solano onde fora acompanhada de Letícia, a odisséia do Urano. Soube que o marido escapara são e salvo. Não perguntaram de Xandô e seus amigos acadêmicos.

Com o governo provisório prestes a ser reconhecido no Exterior, não havia mais dúvida quanto ao estado de guerra civil. Mas os dois grandes mentores da reação, o conselheiro Martins e o almirante Saldanha, precisavam dar-lhe o caráter monarquista. Então o primeiro reclamou em carta a Custódio de Melo não haver sido consultado. Queria um governo com ele próprio e o general Salgado, sem nenhum simpatizante republicano. Contrariando os chefes do Desterro, exigia representantes monarquistas numa junta governativa para a qual seriam indicados um paranaense e outro dos pampas. Sugeria que, bajulando o almirante Saldanha, transmitisse-lhe o comando da revolta.

As facções acusavam-se mutuamente pelo fratricídio. Os líderes, endeusados pelos seguidores, recebiam dos adversários pechas de tiranos, caudilhos sanguinários ou simplesmente bandidos.

Duas colunas, a branca de Gumercindo e a vermelha de Salgado, diferenciadas pelas divisas, buscavam a região serrana, fugindo ao cerco. Se não encontravam desertos os lugarejos, viam apenas viúvas e crianças porque os homens, ou eram combatentes, ou tinham sido degolados. A tropa legalista comandada por Firmino de Paula implantara o terror naqueles pagos.

Quando o tenente Isidoro derrotou uma força inimiga, os moradores saíram dos esconderijos no mato e vieram receber os federalistas, trazendo pedaços de pano vermelho nas bengalas.

Em Cruz Alta, houve uma passeata triunfal e estada rápida, pois não convinha dar combate na cidade aos picapaus que se aproximavam. A zona fora palco de cenas horripilantes narradas pelos moradores. José Gabriel dizia que nunca pensara ser a carne humana tão boa para engordar cães e porcos.

A coluna branca escapulia e, ao mesmo tempo, avançava em marcha noturna pelos carreiros nas matas, para combater de dia. O inimigo não lhe dava tréguas.

As duas colunas entraram em Passo Fundo, assim que o bando de Juca Tigre tomou as trincheiras abertas por Chachá Pereira, defendidas até pelo juiz, autoridades locais e suas famílias. Sentindo a ausência de Prestes Guimarães, refugiado em Palmas ou Corrientes, deslocaram-se para Lagoa Vermelha. A entrada foi triunfal, coincidindo com a notícia dos jornais de Santa Catarina: "- O tenente Machado, governador, declarou-se favorável aos rebeldes."

O povoado vibrou com as paradas, música nas ruas, homenagens, jantares e danças nas casas. Os chefes respiraram aliviados:

     - Temos uma saída para não sermos esmagados entre dois fogos.

Se em Passo Fundo o juiz levara a própria mulher às trincheiras, o da Lagoa Vermelha era um maragato. De poncho e pala seguiu para o fronte, dividindo a barraca com o doutor Arcanjo. A coluna vermelha tomou o rumo de Vacaria, enquanto a branca enveredou por caminhos menos seguros de rios e desfiladeiros, fustigada pelo inimigo.

Branca e vermelha reencontraram-se na divisa. A tática combinada surtia o efeito desejado: "marchar separados para atacar unidos". As divergências se avultaram quando de novo tiveram uma grande notícia: a esquadra organizara um governo rebelde no Desterro!

     - A salvação - pensavam nos acampamentos. Embora com sacrifícios, poderiam marchar para Santa Catarina sem ficarem presos no cinturão de fogo dos picapaus. Esperançosos, atolavam-se com seus cavalos e suas carretas no desfiladeiro que levava ao rio Pelotas e nos charcos da mata. As mulheres, ajudando no desencalhe, nem do frio se queixavam. Depois da travessia do rio, a subida para a serra num caminho estreitando-se em ziguezague.

A coluna branca empolgara o povo camponês. Combatia sem descanso, desde Lages e Canoas, acossada pela tropas comandadas por Artur Oscar, Pinheiro Machado e Rodrigues Lima. Divisão Norte sobre a qual o grande chefe, o Castelhano, disparava suas lanças abrindo-lhe brechas, sangrando-a.

Constituía o maior orgulho um aperto de mão dos caciques "hermanos", ou do doutor Arcanjo, pajé da nação minuana. João Maria gabava-se do compadresco. Amaldiçoando a república e prometendo um exército de anjos para restaurar a monarquia, empurrava o matuto à guerra. Ante os horrores, que havia prenunciado, as caboclas também exclamavam nos ranchos:

     - É o fim do mundo!

Tratara centenas de combatentes, livrando-os de um mal intestinal com uma erva que passaram a chamar de "mil-homens". Conduzia os fanáticos às batalhas, atacando os picapaus de emboscada, onde os lanceiros não podiam entrar em ação. Viam-no levando-os à vitória, portando uma bandeira branca com um pombo vermelho ao centro, dando vivas à monarquia e a Gumercindo Saraiva.

Depois a coluna deixou a região de Curitibanos, passando por Blumenau, Joinville e Itajaí, até descer a São Francisco. Em Itajaí reuniram-se os comandantes, Gumercindo foi aclamado Generalíssimo, o doutor Lavrador, chefe do Estado Maior, e as forças rebeldes foram designadas de Exército Libertador.

Picapaus e maragatos, exaustos, igualados pela bravura e até pela barbárie, surgiam rotos e descalços nos povoados, transportando enorme número de feridos.

O doutor Arcanjo seguira na coluna vermelha. Em sua maioria constituída de forças de linha, não deixara muitos mortos pelo caminho. Por toda parte recebiam-na com manifestações de júbilo. Ao chegar às minas de carvão, aguardavam-na o trem e gente de Laguna. Em Pedras Brancas foi difícil evitar a paixão "de uma moça encantada com seu Quixote" - confessara aos companheiros de barraca. Na Laguna, com a estação iluminada, uma guarda de honra na plataforma, músicas, fogos de bengala, o povo aplaudindo, a recepção foi inesquecível. O tenente Carvalho Mendes falou, dando as boas vindas em nome do governo instalado no Desterro. Houve hospedagem em residências, um jantar no hotel, com champanha. Um grupo de senhoras bordara a divisa "Tudo pela Liberdade".

Os rasos, recrutados na campanha, permaneciam nas barracas, avessos a solenidades. Gaúcho gosta de guitarra, canção, trova e namoro, além de cavalo. As moças cevam mate, cozinham e bailam muito bem. Patriotas, davam a vida por seu rincão, acompanhando maridos e filhos.

Na Laguna dançavam-se valsa e polca, as catarinetas falando cantado. Ao doutor Arcanjo levaram versos para ler e avaliar, pedindo-lhe que escrevesse no jornalzinho da terra. Ouvira duas moças, acompanhadas ao piano pela irmã viúva, cantarem em dueto "As Duas Flores", de Castro Alves. E as sessões de homenagens enchiam o teatrinho da cidade. Logo após uma grande passeata, o doutor Arcanjo discursou da janela do hotel. Cuidava dos feridos no hospital e, à tarde, saía a cavalo. Sentia não estar em Itajaí com os brancos, os quais haviam sofrido muitas baixas. Angustiava-o uma sensação de culpa.

O mundo poderia findar perto da estação de trem, no Rio Negro gaúcho, pouco distante de Bagé. As colunas branca e vermelha avançavam sobre o Paraná. Permanecera o velho Joca Tavares, o qual reunira mais de três mil homens, dividira-os em três brigadas, uma delas comandada por seu irmão Zeca. Por elas foram envolvidos e derrotados com pesadas baixas os legalistas, soldados de linha e da brigada policial, mais o numeroso bando dos irmãos Pedroso. Um grande número de prisioneiros ficou a mercê de Cisério e de Catão, ambos chefiando piquetes na brigada de Zeca, a única que ficou no local. A degola de mais de trezentos - o fim do mundo! - começou com o diálogo entre Catão e Maneco Pedroso:

     "- Catão, quanto vale a vida de um homem valente e de bem?"

     "- Valente, sim. De bem, não sei. A vida de um homem vale muito, a tua não vale nada. Está no fio da minha faca, não há dinheiro que pague."

     "- Pois então degola, negro filho da puta!" - segurou-se no galho da árvore, erguendo a cabeça, cortada de orelha a orelha.

     "- A la criola" - explicavam.

Após o assassinato do irmão tempos atrás, Cisério parecia apenas um facínora, não um federalista. Retirava de uma mangueira de pedra os presos para degolá-los. Ao partirem os piquetes macabros, engrossando a coluna branca, a lagoa onde foram lançados os troncos e cabeças ficou conhecida como Lagoa da Música, por causa dos gemidos que se ouviam.

No Rio de Janeiro à deriva, um "salve-se quem puder". No mês de novembro submergira o couraçado Javari, explodiam os paióis de pólvora da Ilha de Governador e fracassavam as tentativas de desembarque em Niterói. Os navios mercantes estrangeiros davam cobertura aos líderes rebeldes que estabeleciam ligações entre as forças, o "Cidade do Porto" fornecera alimentos, armas e munições para a esquadra.

Republicanos de todos os estados combatiam na guerra, nos batalhões regulares ou de voluntários. Floriano sabia onde rondava o maior perigo e, por isso, mandou para Curitiba o general Argolo e um punhado de oficiais de sua confiança, a fim de assumirem o distrito e impedirem a invasão do Paraná. A guarnição local vacilava e o doutor Glória fora denunciado como principal responsável pela insubordinação de parte da oficialidade. Tal o motivo de sua prisão e de ser conduzido por escolta ao Rio de Janeiro.

À casa de Letícia compareceu a diretora Pepa, agora para que ajudassem na transformação de uma escola em hospital. No verão grassara a epidemia de cólera e febre amarela. Revezaram-se elas, prestando socorro às vítimas  ora da guerra, ora da peste. Incansáveis, relacionando a situação daquelas com a dos próprios maridos.

No Desterro, oficiais e subalternos foram presos e obrigados a fazerem serviço de marinheiro. Aos que comandaram ações contra a revolta, pairava a ameaça de morte. O tenente Irani fugiu a bordo de um palhabote argentino. Bordejando com o velame içado, este aproveitou o vento e passou entre os barcos da flotilha. No porão ao qual desceu pela escadinha da escotilha, o tenente deparou amontoados os foragidos ao recrutamento. O bafio insuportável da carga fê-lo procurar um socavão no costado do barco, onde dormiu sobre o cordame. Salvou-o da ordem de prisão a bandeira do país amigo. Pelo menos até São Francisco. Procurando ocultar-se na pensão de Mme. Soares, conhecida de Paranaguá, viu chegarem de um barco a vela, desarvorado pela tempestade, fugitivos do Rio e São Paulo, entre os quais se encontrava o doutor Glória. Refez-se do susto ouvindo-o contar, provocando risos, que vestindo hábito escapulira com um companheiro da delegacia do Catete. Não percebera ele em que apuros se achava o conterrâneo:

     - O senhor nestas paragens, tenente Irani? Recebendo-nos com tempestade? Um picapau em território maragato? Desertor não pode ser, não é? Ah, desculpe. Dá cá um abraço, como vai a família?

Eram adversários amigos, apesar de tudo.

     - Vim do Desterro, com salvo-conduto. Oferecemos resistência à esquadra, mas fomos traídos com uma capitulação, conforme o senhor deve saber.

A menção ao salvo-conduto foi inteligente, enquanto temerária a justificativa.

     - Ah, meu fiel tenente, tomar atitude contra o governo florianista, não se pode dizer que seja uma traição.

Continuavam a caçá-lo e, desconfiado de uma denúncia, não perdeu tempo. Quando o procuraram na pensão, já estava chegando de carroça a Guaratuba, a caminho de Paranaguá. No mesmo dia, tomou o trem para Curitiba e contestou a reprimenda do general Argolo.


 

 

 

O MEIO DA GUERRA

 

 

A abundância de recursos nos campos e no comércio tornava vital para os maragatos a ocupação do Paraná. O meio dos caminhos, o ponto nevrálgico do país. E entre o litoral e Ponta Grossa, impunha-se a importância de Curitiba como centro de comando. As feições de capital pareciam florianistas.

Os reforços vindos do Rio de Janeiro e São Paulo, recepcionados na estação, desfilavam sob palmas pelas ruas. Recebiam instrução em batalhões locais os estudantes, trabalhadores, funcionários, sócios de clubes como o Republicano e o Girondino. O circo arriou o pano e mudou-se para a caserna. Fernando Barreto, o Totó, palhaço não era mais. Major, os recrutas batiam os calcanhares, prestando-lhe continência. Não atraía mais o público ao circo, mas à luta contra a restauração e o separatismo. E também atraía o ódio do Visconde e sua parentela que não esqueciam o rapto de Teresa, como o dos Ribas que o culpavam pela "desgraça" de Letícia.

Menos forte na capital, a subversão tinha o domínio do litoral e do interior, infiltrada nas hostes legalistas. O primeiro general que chegou para impedir a invasão encontrou desfalcadas as forças de linha. Os conspiradores tinham aliados dentro e fora dos quartéis. Com a cidade bombardeada de boatos, cada qual dava crédito ao que queria. Um caixeiro que desmentia a deposição de Floriano apareceu morto com um tiro nas costas. Nem a ausência do doutor Glória diminuíra a ameaça de golpe no estado. O seu grupo articulava com os almirantes da Armada um desembarque, prometendo-lhes um levante geral em Morretes, Antonina e Paranaguá.

Em contrapartida, o governo forçou o recrutamento no exército, na polícia e na guarda nacional. Sem perda de tempo, estipendiou chefetes acapangados dos vilarejos, oferecendo compensações a estrangeiros e desocupados que se alistassem. Em sinal de alerta, as rondas começaram a vasculhar casas, ameaçando e prendendo adversários.

A troca de insultos pelos jornais acabava em brigas nos cafés ou nas aglomerações do Largo da Estação, onde chegavam e saíam os trens, os bondinhos de burros, e se reuniam no Congresso os deputados.

Do quartel-general vazou a informação alarmante: - Corre bala por toda parte.

Sabia-se de greve em Morretes, rixas em Paranaguá e Ponta Grossa. Algumas notícias faladas eram verdadeiras:

     - Em Tamandaré um pelotão de polícia foi recebido a bala, um soldado retalhado a facão.

     - Em Palmas o coronel Vividas fornece homens-de-briga, cavalos e vacas aos maragatos.

     - Amazonas Marcondes entregou União da Vitória nas mãos do tenente Toreli, da marinha, cedendo os vapores do rio Iguaçu para o transporte das tropas.

     - O capitão Anacleto executou mais de quarenta picapaus de mãos amarradas nas costas. Ficaram boiando na água.

As fazendas acoitavam bandos revoltosos, e "gravatas coloradas" abriam-se a faca nas gargantas de suas vítimas. Colonos vingavam-se de extorsões, formando piquetes nas adjacências de Palmeira. O doutor Deleone reunia os italianos, enquanto Bodziack à frente dos polacos saqueava São Mateus e São João do Triunfo.

A conflagração refletia-se no clima de tensão das cidades. No Largo da Estação, nos cafés, ou nos pontos de pipeiros e carroceiros, não faltava assunto.

     - O doutor Glória está preso numa fortaleza e vai ser fuzilado.

     - Estão dizendo que fugiu da prisão no Rio de Janeiro, com ajuda de uma mulher que lhe emprestou o vestido.

     - O tenente Irani, capitulado no Desterro, chegou de carroça a Paranaguá, dizendo-se foragido. Está respondendo inquérito no quartel.

     - O coronel Serra Martins e o filho, um alferes, foram traídos pelos companheiros de farda. O tenente Irani conseguiu fugir, mas atiraram ao mar o coronel e sua família perto de Sepetiba. Foram salvos por milagre, recolheram a mulher quase morta.

O doutor Glória não perdera o fascínio, recebido ruidosamente por seus correligionários no Largo da Estação. Aguardavam-no próceres da oposição, antigos presidentes, um senador, deputados e desembargadores. Os anarquistas agitaram o povo como no dia em que o deputado Augusto Ribas, de Ponta Grossa, denunciou as arbitrariedades sofridas na Colônia Cecília, defendendo o direito dos imigrantes às terras, desrespeitado pelas autoridades.

Chica Chapeleira gritava contra a trinca de generais:

     - Os maragatos argolaram o Argolo, vão pegar o Pego e cozinhar o Carneiro!

Fazia arruaça, desafiando a polícia. Uma escolta foi prendê-la, juntou gente, e ela se livrou intimidando-a:

     - Sabem quem vem vindo aí? O Gumercindo. Vou dar o nome de um a um de quem me botar a mão.

Não houve o primeiro, enquanto se ouviam os protestos:

     - Onde já se viu prender uma viúva indefesa?!

     - Uma mulher!

Os crimes tornavam-se fatos comuns, confundindo os moços. Impunha-se a violência como norma de conduta, eles propensos a seguirem para a guerra. Um assassinato passional, qual o do anspeçada Diniz perdia o caráter delituoso. O mundo falto de razão. Até o padre Beto pregava ódio na igreja, aliciando os fiéis. Brigava se fosse preciso. Mandava gente para o inferno, como fez com um soldado de polícia. Este topou-o de frente no passeio, tocou-lhe a batina, deu-lhe passagem, provocando-o:

     - As senhoras têm preferência, mormente quem foi casada com o doutor Vítor e ficou viúva.

Bento testemunhou a bofetada do padre no bêbado, a queda e - pumba! - a cabeça sangrando no chão. O ajuntamento habitual, e levaram a vítima para a Santa Casa. O praça morreu, mas nada se fez contra o padre.

Bento sentia um ciúme danado de Clarinha. Trabalhara na confecção de fardas e, no armazém, com o carretel que comprou na mão, mostrou-se apalermado quando o furriel lhe contou:

     - Aquele seu amigo... o Fidêncio, lembra-se? Ia nadar com você no tanque no Bacacheri. Tava no fronte. Suicidou-se. Espalharam que foi medo, mas ele se matou porque a prima casou com outro.

Também a Bento parecia que só a morte solucionava as dores do coração.

Curitiba sentia a faca prestes a riscar-lhe o pescoço, de orelha a orelha. Cessaram as festas nos bosques, no Passeio Público, no Teatro São Teodoro, nos clubes. Não havia mais danças nas casas, as luzes apagavam-se mais cedo.

Vinha dos pampas, engrossada de matutos, bugres e fanáticos, a única bandeira de guerra no mundo: a coluna branca do Generalíssimo. A ela se incorporavam oficiais de exército e marinha. À vanguarda, a montonera castelhano-brasileira. Comandavam as brigadas os caudilhos, caciques camponeses. Para vingar-se das cangas da servidão, nelas combatiam caboclotes saídos de aldeias de estuque e palha, armados e uniformizados no carcheio. No caminho, avolumava-se também em suas hostes o contingente de celerados.

A cidade e sua mão armada - o Exército, tinham de rechaçá-la. As classes urbanas eram a República, o povo que não admitia mais os privilégios dos barões de gado.

A moçada alegre fazia parte do batalhão de voluntários do major Fernando Barreto, não mais palhaço. Antes de partir com a força para a Lapa, alguém tentara atear fogo ao circo. Teresa quase perdera o segundo filho.

Na última função, arrancando gargalhadas ao público, ao contracenar com Otelo e Bartolo, ambos vestidos de gaúchos com enormes lenços ao pescoço, Totó berrou no picadeiro:

     - Sabem por que esses dois bobos usam lenço vermelho?

A platéia silenciou, mas Otelo e Bartolo deram a resposta, respetivamente:

     - Porque lenço vermelho é da cor do sangue!

     - Porque gaúcho é macho, tchê!

Então o palhaço arrancou-lhes os laços, deixando à mostra o bócio de borracha.

     - Vejam só: é para esconder o papo!

Simpatizantes maragatos levaram a mal a brincadeira, embora de um rio-grandense. Totó provocou também os oligarcas. Vestido de fraque e cartola, cara pintada, desafiou:

     - Acabou-se o que era doce, a corte e a monarquia. Graças a Deus, vou tirar a roupa de palhaço, não existe mais conde nem visconde. Minha gente, vamos todos formar batalhões patrióticos na defesa da República!

     - Canalha insolente! - vociferavam de dentes cerrados os ofendidos.

Intrigas à parte, Constantino granjeara posto de tenente-coronel. Advertira o general que o Barão do Paraná enviara carta ao Castelhano, pedindo que invadisse o estado, prometendo dinheiro e fornecimento às suas tropas. Realmente a levara o doutor Glória e, em Itajaí, convencera o comandante e seu estado maior.

Na capital vila, o que acontecia a um morador afetava a todos. Mas a alegria ainda iluminava o casarão de Tio Silva e lá não havia coração às escuras. Talvez sim, talvez não, o de Bento.

Só no palácio do Barão do Paraná, esbanjava-se energia da usina, há pouco construída nos lados da estação. Um castelo, segundo os leiteiros ou padeiros que faziam entrega em carrocinhas. Um luxuoso solar marcando a zona residencial rica. A Baronesa recebia muito bem as visitas, principalmente na conspirata, às vésperas de um desembarque no litoral. Apoiava o marido, um monarquista até por questão de honra e lealdade para um abrasonado. Barão, governara a província. Já na primeira reunião, os líderes persuadiram-no a aderir à revolta.

     - Se o senhor presidir de novo o Paraná, a vitória é certa.

     - O batalhão que toma conta de Paranaguá é de São Paulo, o coronel um subordinado ao comando paulista. Forasteiros...

     - Não é bem visto, mas está fazendo chamada de voluntários, construindo fortificações e gastando o dinheiro público. É um desaforo.

     - Isso não é novidade. Em São Paulo o governo compra armamentos, munições, animais, manda confeccionar fardas, botinas e requisita transportes - adiantou o parnanguara portador de convite do almirante Custódio para uma conferência.

     - Se o senhor aceitar a chefia, serão inúteis as medidas dos paulistas, pois o povo apoiará a Armada e o Exército Libertador, garantiu o desembargador Egídio.

Com a aquiescência do Barão, a conspirata ficou mais forte, e o desembargador Egídio prestou precioso serviço à causa, aproximando-o do grupo do doutor Glória. Este poria o Generalíssimo a par de tudo.

Naquela sala foram inúmeros os motivos de regozijo. A tropa legalista que marchou até São Bento, onde o general Argolo ensaiou um governo com políticos catarinenses, retornou sem glória. Os moradores organizaram um grande baile, mas no meio da festa avisaram o general que três mil maragatos avançaram de Lages para cortar-lhe a retirada. Podia barrá-los na serra, porém deu de ré, abandonando armamento, munições, fardamento e até o arquivo de um regimento. Um mês durara a mal sucedida aventura. Na versão governista, ele evitara o envolvimento por forças em vantagem, porém no solar do Barão viam-na como uma fuga desordenada.

Um dos oficiais da guarnição que não faltava às convocações conspiratórias, asseverou que a concentração dos florianistas na Lapa era uma burrice e deixava as portas abertas para os rebeldes virem do litoral. Mostrou-se muito bem informado:

     - A tropa que seguiu para Tijucas, esperando contar com a companhia da guarda nacional, do major Leprevost, vai ter de se defrontar com piquetes dos moradores.

Ao recuarem os picapaus para a Lapa, houve troca no comando. O oficialato já não confiava nos soldados de linha, e vice-versa. Então Floriano chamou o general baiano ao Rio de Janeiro, enviando em seu lugar um coronel. Acharam-no carrancudo e mal-humorado. Diziam ter o traseiro de ferro, pois viajou seis dias no lombo de mula, setenta e quatro léguas de Tatuí à Lapa.

O tenente contou quem era o novo comandante:

     - Nasceu em Minas. Ia cursar Farmácia no Rio de Janeiro, morava numa república de estudantes e se alistou como voluntário na guerra do Paraguai. Fez carreira, foi cabo, furriel, sargento e alferes ao ser ferido numa batalha. Outra vez, uma bala varou-lhe a perna. Quando chegou do Ceará ao Rio de Janeiro, com a família, a corrente do leme de um paquete esmagou as pernas de um filho. O general que vem comandar o distrito carregou o menino no colo. E D.Pedro II doou-lhe os aparelhos para que voltasse a andar. Ambos são olhados com desconfiança pelos republicanos.

     - Então poderão passar-se para os nossos?

     - São carne e unha com Floriano. Esse Carneiro é como o do batalhão, segue com coleira e uma fita no pescoço o corneteiro. Foi Floriano quem pediu a Deodoro que o nomeasse tenente-coronel. Sabem o que Deodoro respondeu?  "Pode incluí-lo, mas foi ele o maior inimigo que teve a classe militar. Será um clamor geral e um ato de vergonha." Impõe castigos nos quartéis, é um carrasco e já demonstrou isso no trato dos presos e no corpo de bombeiros - concluiu.

As recepções às damas, proporcionadas pela Baronesa, disfarçavam os objetivos das reuniões dos cavalheiros. Elas também se rejubilavam à mesa de chá.

O doutor Glória entendera-se com Gumercindo. Acertaram a ocupação do Paraná. O doutor Deleone fora ao Desterro combinar data para um levante no litoral, na expectativa do desembarque maragato.

O desembargador Egídio uniu numa só frente monarquistas, anarquistas, deodoristas, federalistas e tudo mais que passava por maragato. Fora ele que nas eleições de anos atrás usara a força, trouxera um vaso de guerra para intimidar os eleitores. Ele e Glória haviam tentado depor o governo. Sua família tinha influência na Lapa, onde exercera o cargo de juiz. Sua presença emprestava importância nacional às reuniões conspiratórias. Indicado como representante do Paraná na junta instalada no Desterro, tornou-se Presidente da República Provisória.

Ninguém se importava com problemas de pessoas comuns, mágoas de um Bento qualquer. Só se conversava sobre a guerra:

     - Os bombachudos estão cometendo atrocidades. Não respeitam nem as mulheres e as crianças que fogem para o mato.

     - Muitos soldados e até oficiais não voltaram para a Lapa, bandearam-se para os revoltosos.

     - Só na cadeia do batalhão de infantaria tem mais de vinte desertores.

Uma brigada estava a caminho de Tijucas, formada por um punhado do batalhão patriótico, uma divisão de artilharia, uma vintena de cavalarianos e uns sessenta recrutas da guarda nacional. Pouco antes da partida, o tenente Irani abriu o bico no café:

     - Só consegui oito praças na cadeia e mais doze desertores, todos simpatizantes do doutor Glória. Vou tomar mais cuidado com eles do que com os trinta burros das carroças.

A marcha foi espionada, pois a população comentava-lhe os passos:

     - São pouco mais de uma centena. Vão ser dizimados em Tijucas. Pobres das mulheres que seguiram com os maridos.

     - Em São José dispersaram-se muitos dos estrangeiros, dissuadidos pela gente do Ordine.

     - As barracas ficaram vazias quando uma sentinela disparou a arma acidentalmente, assustando o povoado.

O que se passou fora previsto pelo oficial na reunião no solar do Barão, e a pequena tropa recuou três léguas da vilinha, em local adequado à defesa. Numeroso bando, chefiado pelo ricaço do lugar, invadiu e saqueou o povoado.

No casarão, do outro lado da cidade, a vida encontrou ocasião para girar em torno de Clarinha. Ao completar quinze anos, cortar o bolo numa noite de música e dança, a moçada trocava de par a cada batida de uma vassoura no chão. Bento e ela foram os que mais se divertiram.

Tio Silva, homem de boa palavra e muitos amigos, mantinha-se respeitado pelas facções em luta. Os chefes no Desterro haviam sido muito claros com os capitulados: "-Quem não é por nós, é contra nós." E os legalistas não pensavam diferentemente. Respeitavam-no os antigos companheiros do Clube do Arcabuz, da Ultimatum, das sociedades abolicionistas e republicanas. Numa difícil situação, sem hostilizar ou ofender ninguém, sem arredar pé das convicções, buscava a pacificação. Sem desmerecer a confiança de governistas, não rompera as relações de amizade com o doutor Glória, médico da família, e muito menos com os desembargadores Egídio e Silveira, afastados dos cargos. Único no Tribunal, que não demonstrava a menor inclinação para os rebeldes. Ainda assim, estimado pelos desembargadores e o secretário Balbino.

O desembargador Silveira surpreendeu-o à saída do prédio:

     - Preciso falar particularmente com você.

     - De que se trata doutor Silveira?

     - Vou lhe fazer uma comunicação e depois um pedido. O meu primogênito Gabriel quer casar com sua filha Clarinha. Poderíamos marcar uma noite para oficializarmos o noivado? - redargüiu já em frente ao Teatro São Teodoro.

Pai e mãe exultaram e convenceram Clarinha que se sentiu como num sonho. Decidiram por ela seu coração, seu destino. Menina-moça num tempo de cega obediência. A proposta tinha a aprovação da família, irrecusável, provocando as exclamações costumeiras:

     - Um médico.

     - Não há melhor partido na cidade. Uma sorte grande.

     - O pai é chefe político, deputado, ex-desembargador.

     - De uma família tradicional.

     - Que ótimo futuro. O rapaz é muito inteligente, já publicou um soneto.

Bento calara-se, amuado. Ouvira Luzia dizer à Clarinha:

     - Só se você fosse fora do juízo para dizer não.

Certa noite, as luzes espargiram no casarão, o pretendente sentou-se ao lado de Clarinha, e o pai falou cerimonioso:

     - Em nome de nosso filho Gabriel, por mim e minha esposa tenho a honra de pedir em casamento a sua filha Clarinha.

A resposta foi saudada alegremente e, de alianças nos dedos, os nubentes tiveram assentada a data do matrimônio.


 

 

 

A BALA

 

 

Urgiam o reforço da esquadra e a coordenação de ações no Desterro, onde se reclamava a presença do ex-ministro Custódio de Melo.

Vários vapores se achavam inutilizados na barra. O Palas naufragara em Itajaí ao bater numa pedra, e a guarnição fugira. Restava o República. Não era mais "de papelão" a frota legal, ao persegui-los.

Seguindo à risca as instruções do conselheiro Martins, o ex-ministro Custódio de Melo procurou o almirante Saldanha da Gama e, lisonjeando-o, passou-lhe o comando da rebelião. Então o dragão contra-revolucionário pôs as cabeças de fora: o conselheiro Martins e o almirante Saldanha da Gama, mentores da restauração monárquica. Mas o governo provisório repudiava as asserções do primeiro, considerando-o um "politiqueiro monarquista".

Na primeira madrugada do mês de dezembro, o Aquidabã, seguido do Esperança, atirando contra as fortalezas, apoiados pela de Villegaignon, saíram da baía. Custódio de Melo chegou ao Desterro e, no palácio da ilha, definiu-se a estratégia do movimento, lançada a sorte do Paraná. Desde os encontros em São Francisco e Itajaí, os paranaenses se esforçaram para contornar as divergências dos chefes. O doutor Deleone abalara-se a pé de Paranaguá, garantindo a formação de patrulhas de colonos no planalto e o levante no litoral. O doutor Glória levou carta do influente Barão, confirmando o apoio do comércio, dos fazendeiros e até da população. O Generalíssimo aprovou a idéia de lançamento de um empréstimo de guerra para financiar a campanha. A exposição do desembargador Egídio entusiasmou os insurretos.

     - É a vitória! - exclamavam.

O general Salgado, sem esconder o ciúme pela epopéia da coluna do Generalíssimo, retornou com a sua, igualmente heróica, à campanha. Tinha uma ponta de razão ao justificar-se:

     - Se não voltarmos para atacar a Divisão Norte, juntando-nos às forças de Joca Tavares, vamos ficar encurralados no Paraná pelo avanço das tropas que vêm de São Paulo.

O almirante Saldanha da Gama deixou o mundo em expectativa. A "Tarde", de Lisboa, e de outros países os jornais "Standart", "The Western Press", "Pal Mall Gasete", "La Prensa", "Rio News", apoiavam-no. Ao aliciar o pessoal e os internados do Hospital Militar, além de mais de uma centena de presos que mandou soltar, a agitação se alastrou do Rio para as cidades vizinhas.

O dragão punha a cabeça para fora na Ilha das Cobras. Lá o almirante imprimiu e mandou distribuir um manifesto monarquista.

Floriano previu a decisão da guerra no Paraná. Ao escolher o coronel do corpo de bombeiros para comandar as tropas que se encontravam na Lapa, explicou aos ministros:

     - Esse já deu provas de fidelidade, de que jamais trai um amigo e o dever. Era republicano, indispôs-se com os colegas de farda, mas defendeu D.Pedro até o fim. Fará o mesmo comigo. Para chefiar o distrito, vou nomear um outro amigo que carregou seu filho nos braços por ocasião do acidente no cais.

Ressalvou reticente:

     - O Pego, sim, foi sempre um monarquista...

Confiante nos batalhões de voluntários, o marechal resolveu enviar os franco-atiradores, lembrando-se de Xandô e Estácio, oficiais do Batalhão Acadêmico, jovens do lugar. Pediu-lhes que os comandassem, elevando o moral das tropas no Paraná. Estácio alegou dificuldades com parentes equivocados na oposição paranaense, emocionando-o ao responder-lhe que lutaria até à morte, à frente de seus colegas em Niterói. Então Orestes dispôs-se a substituí-lo, acompanhando Xandô no Franco-Atiradores.

Os três receberam os diplomas na Faculdade. Após a solenidade, a turma promoveu um jantar de confraternização em que estiveram presentes os professores. Aproveitava-se um momento de pausa nos combates da Guanabara. Os três foram à pensão onde ainda se hospedava Estácio, juntos com os irmão Alfredo e Henrique, filhos de Mme. Souza, recebidos como heróis. A viúva não se conformava com a próxima partida dos filhos, embora sabendo que Xandô e Orestes também comandariam o batalhão. Em lágrimas suplicou-lhes que cuidassem de "seus meninos".

     - São nossos irmãos. - tranqüilizou-a Xandô, e Orestes fez que sim.

Cecília e Letícia combatiam no hospital-escola as doenças epidêmicas que causavam mais vítimas de que o canhoneio. Crianças a maioria. Marinheiros teriam notícias da perda de filhos, tal qual o coronel que Floriano mandara comandar as forças acampadas na Lapa. As duas só se licenciaram para receberem Xandô e não lhe deram demonstração de quanto se afligiam.

As horas breves do casal, o amor tornou-as infindas. Nelas reviviam-se, inclusive, tempos idos. À noite, a lua a sondá-los no quarto continuava doce. Não precisavam falar nem pensar em sexo, recorrer a fantasias, um possuía o outro, completavam-se.

Incorporado ao Franco-Atiradores, Xandô passava a maior parte do tempo no quartel, ultimando providências para o batalhão seguir ao fronte paranaense. Orestes e Estácio auxiliaram-no na primeira semana. Com base no companheirismo impunham obediência ao comando. Portavam-se como amigos dos subordinados.

Na noite que antecedeu o embarque do Batalhão Acadêmico, reuniram-se na casa do coronel Teles e a esposa Laiz. Orestes lamentou haver sido admoestado pela família e partir sem as bênçãos dos pais. Estácio também iria voltar a seu posto na Armação onde o aguardavam os colegas do Acadêmico. Orestes comparou-o a Floriano, assemelhado a um caipira de bigode e cavanhaque ralos. Ninguém lembrou a rebelião para não vir à tona o caso do Urano, em aventuras nos mares. Cecília ocultava o desassossego no coração, apoiando-os com tímidos sorrisos. De repente surgiu o assunto. Orestes quis ser agradável ao dizer que um dia os heróis seriam reconhecidos e comemoradas as batalhas. Estácio contrariou-os provocando um momento de silêncio e reflexão:

     - As batalhas são tragédias que não deviam ser celebradas em nenhum país, por ninguém e em tempo algum. Um dia, para ser salva, a nação inteira há de sentir remorso desta guerra.

No outro dia, Estácio confiou à Letícia um envelope, para ser entregue, posteriormente, a Xandô. Continha os soldos que pedia ao amigo aceitar, se morresse em combate. Cecília, no terceiro mês de gestação, não se conteve:

     - Por que tudo isto tem de acontecer? É uma loucura. Meu irmão e seus amigos de um lado, meu marido de outro.

     - Tenho fé que a paz virá logo, muito antes de nascer meu sobrinho - abraçou-a carinhosamente.

Depois foi a vez de Xandô e Orestes seguirem para o Sul. A despedida doía no peito, e Letícia não pôde conter as lágrimas. Nem Cecília. À tarde, o batalhão desfilou pela cidade. Mais de que os clarins e a música da banda, os rostos familiares dos soldados emocionavam as ruas. Os espectadores ora sorriam, ora empalideciam, batendo palmas, agitando os braços no passeio, nas janelas, nas sacadas. Muitas mulheres choravam, tal como a mãe de Alfredo e Henrique, os primeiros de uma fileira. Os franco-atiradores eram a moçada pobre do Rio de Janeiro. Vinham dos cortiços, das encostas dos morros, dos casebres e de pensões baratas. Na maioria jornaleiros, engraxates, baleiros, carregadores, catraieiros, empregados, aos quais galegos e antigos aristocratas atiravam pechas. Formavam povo, defendendo a cidadania, o lugar ao sol, carabinas aos ombros. Arcabuzes - diziam às armas. Uma mistura de raças, mulatos, caboclos, crioulos taludos de olhos brilhantes, novos homens de um mundo ainda virgem em construção. A miudagem carioca ombreada à classe militar.

Batalhões de voluntários partiam também do Norte, da Bahia, de São Paulo e de Santos. Todos provocavam a mesma comoção no país. A paixão da mãe gaúcha, orgulhosa do filho morto em combate, era o mesmo patriotismo transindo o rosto das mulheres que se despediam dos praças. Não diferia do que fazia Naná ajoelhar-se ante o oratório, alhures. Ao se lembrarem dela, além da saudade, Xandô e Cecília, sem culpa de nada, sentiam uma espécie de remorso, sem saberem de quê.

Os franco-atiradores estiveram no Campo de Santana, no dia da proclamação da República. Foram "a ralé", à qual se referiam os nobres, estes sim vivendo à custa dos outros. Marchavam com um comandante, em cujo coração cabiam os brasileiros de todas as regiões. Xandô tinha certeza - dizia abertamente o que pensava - da vitória da legalidade, de uma pátria renascida da união entre picapaus e maragatos. Essa idéia ganhava terreno, um grupo de senhoras liderado por Laiz, já se formara com objetivo de buscar uma paz honrosa. Ao vê-lo na tropa, Letícia e Cecília que se debruçaram no balcão do prédio do jornal, tiveram lembranças idênticas. A "Mão Negra", o bando de Xandô nas ruas poeirentas de Ponta Grossa. A quadrilha galgara as ladeiras, conquistara a praça da cidadania, o sol e se organizara naquele batalhão patriótico. Ao se encontrarem os olhares, ele e Letícia de novo diziam beijos e adeuses apaixonados.

Ao pernoitar em casa, favorecido pela camaradagem no quartel, puderam minimizar a ansiedade em cada abraço no leito, com esperança de brevemente recomeçarem a lua-de-mel. Retornou de madrugada, e a expedição deixou o Rio de Janeiro para, no quinto dia do mês, chegar a São Paulo e, no caminho do litoral, pelo Varadouro apontar em Paranaguá.

No Rio de Janeiro, o manifesto com a assinatura de Luiz Felipe Saldanha da Gama provocou um repúdio geral. Não seria diferente nos outros estados. Decepcionaram-se os republicanos que haviam aderido à revolta. Ao descobrirem a farsa, o caráter reacionário, de retrogradação, muitos se afastavam do movimento. O manifesto reproduzia a tese de um ex-ministro Deodorista que "assistira bestializado a revolução popular" - segundo escrevera Xandô no jornal. Significativo o trecho em que o almirante falava "na justiça de procurar à força das armas repor o governo do Brasil onde estava a 15 de Novembro, de 1889, quando num momento de estupefação nacional, ele foi conquistado por uma sedição militar..." E daquele em que se mostrou a par de toda a trama: "O brado da nossa redenção política, levantado nas fronteiras meridionais e que passou por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, até esta Capital, já ecoou no Extremo Norte."

Na casa do general Solano, à qual iam em busca de notícias, Letícia e Cecília ouviram-no desabafar a um grupo na sala:

     - Depois de quatro anos, Saldanha vem nos ofender e pôr tudo a perder com intuito restaurador, repetindo as asneiras dos que assistiram bestializados à revolução republicana.

O almirante engoliu o manifesto, mas a sua ação levou a guerra ao clímax. Em três divisões dispôs a esquadra. No pequeno navio Liberdade, de três mastros, fez a capitânia. Estava bem artilhado, transportando mais de quinhentos homens. Então mandou abrir fogo. Como os florianistas desocupassem o Morro do Castelo e a Ilha do Bom Jesus, em acordo para evitar o bombardeio à cidade, apossaram-se daquelas posições. Manobravam auxiliados pelas naves estrangeiras, exceto a dos Estados Unidos. Escaleres e lanchas de outras bandeiras estabeleciam as ligações. De uma reclamação diplomática, prepotentemente não tomaram conhecimento.

O trunfo em que se fiavam os insurretos era a coluna Gumercindo Saraiva. Vinha fantástica, certamente com o exército de anjos de João Maria. Avançando no Paraná, ao mesmo tempo em que a esquadra atacasse em regra, a luta tomaria feição decisiva. Floriano está perdido - supunham.

Do Desterro onde se reunira a cúpula, Custódio de Melo mandou de volta, sob o comando de Alexandrino, capitão-de-fragata, o poderoso Aquidabã para a tomada da Capital Federal.

Saldanha da Gama expedia circulares às unidades militares, contando com um levante em terra. Diante da repulsa a seu manifesto, procurara negá-lo. Era tarde, provocara uma corrida de jovens aos batalhões patrióticos.

O canhoneio causara pânico, êxodo desordenado de cem mil moradores, mas não derrubara o governo. O retorno do couraçado ao Rio e a intensificação do fogo resultariam inúteis. Se, como antes, não fosse possível depô-lo com salvas de artilharia, talvez surtisse efeito uma intervenção estrangeira. Os diplomatas foram ao Itamarati, e o da Inglaterra indagou:

     - Como V.Ex.ª receberá as forças de nossos navios, se desembarcarem para guarnecerem os bancos e outras instituições de nossos países?

A resposta de Floriano foi a centelha que inflamou a mocidade brasileira:

     - A bala!

Na tabela da Associação Comercial os boletins não continham nomes de mortos e feridos, mas anunciavam a invasão de Niterói, a tomada de Magé e vitórias maragatas no Sul.

Os navios da "Esquadra de Papelão" ainda se agrupavam em Pernambuco. Fileto, o espião fiel, alferes às ordens do general Raimundo na Fortaleza de Lage, fora ao Norte, reconhecera o sargento Silvino, delatara-o, levara-o a Imbirabeira para ter certeza do fuzilamento.

Reforçada do Aquidabã e do Tamandaré, a poderosa coluna naval maragata iniciou o ataque. As posições terrestres foram ferozmente disputadas. Quando retomadas e delas se retiravam os marinheiros, o mar tingia-se de sangue. Tripulando lanchas e escaleres, surgindo de trás da Ilha do Caju, de machadinhas em punho, matando as sentinelas, haviam desembarcado nas pontes das oficinas da Companhia Frigorífica e da fábrica de sabão e velas.

Na bateria de frente, protegida por sacos de areia, Estácio encontrava-se no ponto mais visado da Armação, sob o fogo intenso dos navios. A seu lado um acadêmico, o sargento e um praça do Tiradentes. Eram vários os batalhões de voluntários, misturando-se os defensores. Os ataques da marujada abriam claros em suas fileiras, preenchidos imediatamente. Confundiam-se com a mesma farda estudantes, ferroviários, portuários, caixeiros, trabalhadores de construções, de fabriquetas, de oficinas artesanais e de pequenas fundições. Engajavam-se na luta, em trajes civis, moradores do lugar, inclusive meninos e mulheres, auxiliando a soldadesca. Era o povo!

Quinhentos Réis, um piá de quinze anos, corria, arrastava-se pelo chão, transmitindo ordens, levando munições, expondo-se às balas inimigas. Sua mãe, enfermeira num hospital improvisado fora a campo socorrer um ferido. Com a arma de um sapateiro que tombara, desferiu um tiro no rosto do marujo com o machado pronto a abrir-lhe a cabeça. No dia nove de fevereiro, a batalha assumiu proporções dantescas. Simultaneamente a esquadra bombardeou a Armação, o Toque-Toque e a Ponta da Areia. Os marujos enfurecidos, aos gritos de "mata!" "mata!", desembarcaram de lanchas, escaleres, rebocadores e outros vasos capitaneados pela corveta, assaltando as posições terrestres. Num dos entreveros na Armação, deceparam o braço do sargento. Tentando afastá-los com a espada, Estácio foi despedaçado a machadinha sobre o canhão.

A sua morte parecia o fim de tudo, ouviu-se o som estrangulado de uma corneta tocando a retirada. Não fora em vão, a marujada fugia para suas naves.


 

 

 

TIJUCAS

 

 

Ferido mortalmente na Baía da Guanabara, o monstro contra-revolucionário retorcia-se, serpenteava pelo país, dando botes sobre o Paraná.

Os franco-atiradores foram anunciados pelo telégrafo e recebidos com aparato no Largo da Estação. A banda levou-os pelas ruas, sob a ovação popular, ao quartel. Com Xandô e Orestes entre os oficiais, a moçada carioca sentiu-se em casa.

Folgazão, meio desalinhado na farda, acompanhado de Orestes e dos mocinhos da pensão, Alfredo e Henrique, reviu familiares e amigos. Um capitão de carreira puniria-os, se pudesse, porém Xandô e Orestes foram promovidos com estrelas iguais as suas. No casarão de Tio Silva, preocupavam-se com a guerra, embora entusiasmados com a proximidade do casamento de Clarinha. Achou-a triste, enganando-se quanto à causa:

     - Meus parabéns pelo noivado. Sossegue, se o Gabriel for convocado, médico não combate. Não vá chorar, que não correrá perigo.

Todos sorriram, menos Clarinha que, orgulhosa do noivo, nem pensava nele. Sentia-se insegura, apreensiva, angustiada sem saber também o porquê. A preta Bina não conteve as lágrimas ao revê-lo. Interveio em tom maternal:

     - Ela ficou muito nervosa, com pena do pobre Bento, meu Bentinho, soldado raso no batalhão que foi para a Lapa.

Entre cuiadas que os cariocas mal provaram, preferindo o café, a conversa girou sobre a guerra.

     - Que horror! - interrompia Tia Dulce - não vejo a hora de acabar essa barbaridade.

Tio Silva evitou criticar a ação dos partidários do doutor Glória na presença do desembargador Silveira. Mas falou do sobrinho Roberto, companheiro de Xandô nos tempos do Instituto, o qual vinha como capitão com a caboclada da fazenda num contingente maragato.

Foi enorme a repercussão do episódio no Itamarati entre o presidente e os embaixadores. Quando os rapazes perguntavam se sabiam qual fora a resposta de Floriano à ameaça de desembarque de tropas feita pelo diplomata inglês, ouviam a exclamação:

     - A bala!

O caso levantara o moral das tropas até na Lapa, para onde voltaram fugindo de São Bento.

Mal se aquartelaram os franco-atiradores, a corneta soou de madrugada, ouviu-se o alarido na plataforma, cortado pelo apito de trem na hora do embarque. Imediatamente após o rancho e ligeira sesta na Lapa, a marcha. À noitinha, bivacaram perto do rio, onde começaram os combates. Antes do sol raiar, o batismo de fogo. Xandô acompanhou os cariocas que transpuseram o rio em canoas, por baixo da ponte, atacando de surpresa a baioneta um acampamento. De cima, Orestes comandou a fuzilaria que pôs o inimigo sob fogo cruzado.

Com a queimada que se fez no outro lado para evitar emboscadas, vários corpos foram achados carbonizados. Enterrados os mortos, recolhidos os feridos às carroças, retornaram os franco-atiradores conduzindo dezenas de prisioneiros.

A pouca distância da ponte, travara-se um duelo de artilharia, ao qual o comandante-em-chefe assistira de binóculo. Quando a copa de um pinheiro, arrancada pelas balas, cobriu-o de bruços no chão, deixou transparecer o que almejava, exclamando pateticamente:

     "- O Paraná me dá hoje a primeira coroa de louros!"

Anotou a frase no diário desaparecido. Não via com bons olhos a camaradagem entre os franco-atiradores, advertindo-os numa revista:

     - Não admito quebra de disciplina, liberdades entre oficiais e subalternos.

Longe da fera - Carneiro no nome - Xandô conseguiu do major Barreto o engajamento de Bento ao seu batalhão. Otelo, sargento, preferiu ficar com Totó. Xandô quis livrá-los do coronel, por saber que infligia castigos nas colônias e prisões militares. Dera surras de pau nos desertores aprisionados. Um capitão, o Molina, foi estaqueado para servir de exemplo. Ainda assim, havia aliciadores nas próprias fileiras. Um sargento do oitavo de cavalaria, condenado à morte, arrastou-se de joelhos na forma, implorando perdão. A maioria reprovava tudo aquilo, porém Xandô destacou a lealdade do coronel para com Floriano e sua obstinação no cumprimento do dever. Justificou-lhe os atos, sem concordar com os excessos, pois encontrara as tropas com o moral em pandarecos. Maltratou um dos médicos porque descuidara dos feridos. Mandou prender outro, depois de proibi-lo a entrar no hospital, ao descobrir que espionava para o doutor Glória. Tornar o lugarejo hostil um fortim parecia impossível. Por isso, agia com o rigor das casernas. A vilinha do desembargador Egídio não escondia sua preferência pelo partido do doutor Glória. Os meninos nas ruas anunciavam entusiasmados, referindo-se aos invasores:

     - Os nossos já vêm vindo aí.

Mas o mandachuva, além de fazendeiro, dono de armazém e um engenho de erva-mate na localidade, formara um batalhão de caboclos valentes, estipendiado pelo governo. Um chefe político, do qual dependiam seus homens, não só de serviço e fiado, mas até para andarem armados. Brigavam pelo compadre, ou patrão, mas se negavam a sair da vilinha. Desconfiavam de militares que se prevaleciam das divisas e que ostentavam estrelas, dragonas, desprezando os outros como inferiores. Ficaram perplexos diante das atitudes enérgicas do novo comandante, levantando um fortim em território inimigo. Não as aprovavam de todo, porém o admiravam pela bravura e pela dedicação para com o mais humilde soldado, capaz de arriscar-se por um simples raso. Os moradores instigavam-nos à desobediência, ainda mais que ele proibira a saída das mulheres do reduto.

     - Quer se proteger debaixo das saias - acusavam uns.

     - Tá cum medo dos patriotas fugirem pro mato - escarneciam outros.

Carneiro só no nome, o coronel parecia uma onça, sondando tudo e todos, sem confiar em ninguém. Anotava fatos e nomes no diário, guardando segredo. Um listão de fingidos. Achava um desaforo a satisfação dos moradores com as razias de polacos, italianos ou de caboclos, tiroteando e arrebanhando rezes nas vizinhanças. Ou com a emboscada nos arredores de São Mateus, na qual morreram onze soldados, e até o tenente voltou ferido. Fulo de raiva, trancafiou vários espiões no xadrez. Não admitia vacilações nas fileiras. Os próprios voluntários do batalhão de patriotas da vilinha faziam fiasco, assustavam-se com tiros ao acaso. Queixou-se em carta a Floriano:

     "- Deus me livre dos patriotas!"

O veneno inoculado às tropas vinha das reuniões no palácio do Barão do Paraná. Os oficiais que a freqüentavam levaram a guarnição de Curitiba a discutir se aderia à revolta, ou se ficaria neutra. Uma insubordinação.

Com a chegada dos contingentes paulistas e cariocas de trabalhadores urbanos, começaram a rarear as deserções e as fugas para os revoltosos. Os franco-atiradores se relacionavam alegremente com os soldados e defensores da praça, esclarecendo-os com a espontaneidade típica do carioca.

A severidade do comando não acabou com os abusos. Xandô surpreendeu-se ao topar Sezefredo, protegido do doutor Vítor, no hospital. Ele insistiu que o visitasse, marcando dia e hora. Com um capitão e Constantino, tenente-coronel, ocupava uma das casas abandonadas pelos moradores. Aguardaram-no com três prostitutas ao colo, e outra a sua espera. As quatro, duas louras e mais uma cabocla e outra paraguaia tinham vindo no trem do meio-dia. Disfarçou o quanto pôde, até afastar-se alegando o pouco tempo de que dispunha para cumprimentá-los.

Chovia muito naqueles dias que precediam as festas de Natal e fim de ano. Mas não se descuidava do adestramento das tropas, diariamente passadas em revista. Os patriotas se negavam a sair da praça, mas o coronel esperava um grande contingente de São Paulo para comandar uma força de milhares de homens bem armados e municiados. Tinha a intenção de mandar a coluna de Itararé fixar-se na Palmeira.

     - Com mil arcabuzes ponho-os a correr, vou abatê-los como moscas - imaginava uma operação de limpeza.

Os sítios que circundavam a Lapa coalharam de rebeldes. Bandos locais envolviam-se em tropelias, vinganças, malvadezas. Abriam o caminho para os invasores.

A situação dos defensores modificou-se com a erupção do ardor patriótico que uma só palavra provocara no país:

     - A bala!

Os franco-atiradores faziam rir do manifesto monarquista e zombavam do "Rei Banana", atraindo o ódio dos simpatizantes do doutor Glória. Espalharam também que os revoltosos se desentendiam. Estes só se uniam por desejos de vingança - acrescentavam.

Na revista, os soldados já se mostravam cheios de brio, apresentando armas.

Uma ala dos franco-atiradores recebeu ordem de reforçar a guarnição de Tijucas. De trem, via Portão, desembarcou em São José dos Pinhais, de onde seguiu a pé. Bivacou no povoado, após a incursão do bando que o saqueara e, por isso, abandonado. Os prédios vazios estavam sendo aproveitados. No maior deles, propriedade do chefe do bando rebelde, instalou-se o hospital.

De novo os bacharéis, os dois capitães e sua raia miúda carioca contagiaram as tropas. Oficiais de outras unidades empolgaram-se com eles. O tenente Irani não se cansava de lhes contar como tivera de fugir de Santa Catarina. Em conseqüência, estreitaram-se os laços de camaradagem entre os legalistas de Tijucas.

A surpresa mais agradável foi reencontrar Luzia, a qual guiara uma carrocinha de duas rodas e conduzira material para o hospital. Chamavam-na de Cantineira. Acompanhara o marido, sargento de infantaria. Ficou só ela de mulher porque as outras discutiam muito no acampamento, e o comandante mandou-as de volta. Não se trocava a Cantineira por dez outras. Lavava, cozinhava e ainda era a enfermeira. Desceu da carrocinha, viu Xandô, viu Bento, abraçou-os e levou as trouxas para dentro do prédio.

     - Só me faltava essa! O marido e tanta gente para cuidar, me mandam dois irmãos e mais centenas de soldados - expressão de espanto. Como ficaram Letícia e Cecília? Tios Silva e Dulce? - venham me contar tudo, vou esperar com a mesa pronta, peço licença a "seu" comandante - dirigiu-se a um e a outro.

A cantina tinha porta independente no prédio, e Luzia restringira o movimento ao café. Esperto caboclinho ajudava-a a tomar conta e a amealhar os níqueis da soldadesca. A Cantineira tornara-se indispensável no reduto.

Casas de frechames e barro, em duas linhas, na lombada a igrejinha. À esquerda, na primeira da coxilha e a mais espaçosa, estabelecera-se o quartel-general. Entre as duas ficaram os franco-atiradores, e do lado oposto, no qual havia um valado, o tenente Irani aproveitou um trecho de lombo para assestar os canhões. Entre a colina da igrejinha e o sopé de outra, numa baixada bastante acentuada, alinhavam-se casebres de madeira, de onde vinha a estrada. Os batalhões de infantaria entrincheiraram-se no valo. Coxilhões de campos e capões ladeavam à esquerda o vilarejo. Por ali poderia ser contornado. À direita alinhavam-se alguns barracões, defendido pela mata cerrada e os pântanos. Só deixaram duas opções aos inimigos: a estrada do lado de Santa Catarina e a retaguarda. O comando de Tijucas tencionava avançar, para isso a turma de sapadores agia para tornar um carreiro de tropas e escoteiros num caminho carroçável que desse passagem às viaturas. Precavendo-se mandou roçar a mata para alojar a infantaria, caso um ataque viesse pela estrada. Ergueu-se uma barreira de farpas e espeques num profundo fosso para impedir a ação da cavalaria gaúcha. Os franco-atiradores foram ajudar a construir a estrada.

Quando uma coluna legalista retornou aos pampas, os maragatos não acreditaram, marchando para Itajaí com o fim de enfrentá-la. A branca pôde desfrutar a paz de Joinville, sua paisagem de colinas e bosques, de lides coloniais. Um jardim macadamizado, margeando o rio. Entre roseiras, as mulheres louras, fortes e bonitas, de finos aventais bordados.

Com tal beleza no mundo, por que a guerra?

Talvez nem se dessem conta os lanceiros, acantonados juntamente com o estado maior e a escolta do Generalíssimo.

Nas casas, bem cuidadas, havia belas Margaridas que dançavam mazurca aos domingos. Elas de saia de seda e corpete de veludo, eles de calças grossas e borzeguins. Éden igual ao de Laguna, esta o Arco do Triunfo para a coluna vermelha. Lá estivera seduzida, imobilizada.

     - Las fuerzas paradas pierden la guerra - advertia Gumercindo, o Generalíssimo.

A coluna branca não tinha sossego e saiu de Joinville, jogando-se à luta. Na marcha seus homens tiroteavam com os colonos que escondiam os animais e os pertences, supondo-os bandidos. Os combatentes se amontoavam nas carretas aos solavancos, ou deslizando em lama. Os mais descansados jogavam solo. Os carroceiros paravam nos arroios, davam de beber aos cavalos, e todos tomavam água, enchendo os cantis. No fim da estrada, uns prosseguiam a cavalo, outros a pé. Em dois carros manchegos, trafegando a custo, iam a artilharia e a ambulância. O doutor Arcanjo acompanhava-os montado. Dirigia a ambulância o seu assistente, um preto forte, baiano desertor de um regimento. Na divisa, os feridos tinham sido transportados ao hospital de Joinville.

A chuva caiu sobre a coluna, e a estrada em ziguezague no franco da serra desmoronou, obstaculizando a investida. Homens e animais se atolavam nos charcos. Faltou transporte, as forças se espalharam a reboque por diversos pontos. Ficaram para trás a artilharia e carreteiros encarregados do fornecimento. Então se estabeleceu o acampamento geral na estrada Dona Francisca, lugar ideal para a convergência das forças em combate. O caminho estreito não dava passagem a carretas com bocas de fogo, metralhadoras e munições. Foi revisado com pontilhões e estivas. No outro dia, a vanguarda acampou nas proximidades de Tijucas.

Sol a pino, ouviu-se um tiroteio.

Um piquete no qual se encontrava antigo capanga dos Ribas deu com guarda inimiga.

No lado oposto houve um descanso para o almoço, os franco-atiradores ficaram sob a vigilância de Bento, apelidado de Cabo Verde, por causa da cor dos olhos.

     - Ei, Cabo Verde! - chamou um dos meninos da pensão do Rio de Janeiro. Podemos beber água?

Com o assentimento, os irmãos foram à fonte numa baixada. Deixaram as carabinas. Bento ouviu um tiro e depois os gritos de Henrique debatendo-se entre quatro malvados, ao correr para socorrê-lo. Ajoelhado e seguro pelos cabelos, cortaram-lhe o pescoço, o corpo convulso entre borbotões de sangue. Um assassínio covarde que, atirando sobre o grupo de cavaleiros, Bento não pôde evitar. Mas a coronhadas afastou o degolador e seus comparsas que fugiram em disparada. Alfredo agarrara a faca com uma das mãos, quase decepada. Ele e o próprio Bento acabaram salvos pelos companheiros que desembocaram da mata.

Os franco-atiradores choravam quando o corpo mutilado de Henriquinho, quase uma criança, foi enterrado no quintal do prédio. A maioria conhecia-o da pensão, na qual a mãe pedira a Xandô e Orestes que cuidassem dele. Estampava-se nos rostos da soldadesca o sentimento de revolta.

À barraca do doutor Arcanjo chegou um major com fama de valente, gabando-se da façanha - mentia o desgraçado:

     - Encontrei um piquete inimigo. Fui envolvendo e quando os florianistas se viram em perigo, fugiram. Fiz dois prisioneiros. O mais perigoso entreguei ao major Tenório, da força do irmão do doutor Glória. O outro escapou.

Jactanciava-se quando Tenório apareceu contando que havia degolado o prisioneiro. A indignação do doutor Arcanjo foi tamanha que o celerado tentou justificar-se:

     - Eles queimaram minha casa, senhor, me destruíram tudo sem eu ter culpa de nada, e estragaram todas as casas dos vizinhos...

Um pequeno grupo vigiava a estrada por onde os legalistas tencionavam passar com artilharia. Estes, porém, mudaram os planos e passaram à defensiva.

O grande chefe, desolado longe da campanha, informado da pequena força, deu a ordem:

     - Vamos levá-los por delante, de tala erguida, a pelegro e a grito... no más.

Aumentara o entusiasmo no acampamento geral com o ataque simultâneo a Tijucas, Lapa e Paranaguá. Obedeciam-no agora não só caudilhos e brigadas camponesas e plebéias, mas oficiais de altas patentes, subalternos e rasos. Nas forças que se dirigiam à Lapa, os oficiais usavam galões de cadarço encarnado e no chapéu a divisa "Tudo pela Liberdade". O esquadrão que iniciara a guerra preferira a cor azul. Azul nas fitas de suas lanças.

O Urano, aquela montonera naval, aportara com uma plêiade de comandantes, um dos quais já batia às portas lapeanas. Tinha livre acesso a fazendas dos arredores, abrigavam-no os Araújos, engrossando-lhe os efetivos. A esquadra preparava-se em São Francisco. O Urano e outra nave comandada por um paranaense, carregadas de soldados, aprontavam-se para o desembarque em Paranaguá.

O primeiro corpo do Exército Libertador - assim o designara o general de linha - avançava sobre Tijucas. Aparício, maior lanceiro das Américas, avistou a guarda metida em pequenas trincheiras junto ao mato da coxilha. O esquadrão ponteava a cavalaria a mando de Augusto Amaral. Jacques Ouriques, também do Urano, dirigia a artilharia, e atrás vinham centenas de marinheiros, infantes fardados e paisanos.

Madrugada de onze de janeiro. O último galo fora cozido, e os jaguaras só latiram depois do tiro que soou na mataria, seguido de descargas. Luzia, a incansável Cantineira, chegou gritando da fonte. Vira a cavalaria carregar contra a guarda, uns sessenta praças que recuaram tiroteando.   

     - Está aí o inimigo! Preparem-se! Já estão brigando com a guarda que vem fugindo!

Os franco-atiradores saíram atirando de suas barracas, dando condições à guarda para a meia-volta e posicionar-se a sua direita. Os batalhões inimigos, que vinham à retaguarda de sua cavalaria, exultaram ao verem abandonadas as trincheiras da guarda. Extravasavam os ressentimentos contra o regimento nortista que não lhes dera tréguas em Inhanduí:

     - Fugiu a baianada!

     - Fugiu com o nosso soldo!

     - Vamos à vila assar churrasco e tomar chimarrão.

     - Vamos caçar pica-paus!

Expostos aos raios de sol, foram surpreendidos por um vendaval de balas, assim que troaram os canhões e lanternetas postados na vila. Com grande número de baixas puseram-se em linha, às pressas, e secundaram as cargas da cavalaria.

Xandô e Orestes mandaram colocar as carroças entre a igreja e o quartel-general. Outros ficaram num escavado junto à bateria certeira do tenente Irani.

Ao despontar na coxilha, a cavalaria recebia em cheio a saraivada de chumbo, os animais boleavam, caíam estrebuchando. Às vezes relinchavam por cima de cavaleiros mortos ou feridos. Refazia-se e desfazia-se a onda atacante, de igual modo. Uma trágica derrota imposta aos mais audazes lanceiros, escolhidos entre uruguaios, brasileiros, corrientinos e paraguaios. O seu primeiro revés. Revés da coluna branca, até então invencível. O único da montonera brasiliana.

Num ranchão, o doutor Arcanjo instalou a sua cruz vermelha. Exausto, de joelhos sobre os feridos estendidos no chão, ligando artérias, serrando ossos lascados, fazendo curativos. Alguns vinham sem membros, ou com eles despedaçados. O servente e o  carroceiro arriscavam-se com os baldes de água que buscavam na fonte. Não sobraria ninguém se ao doutor Arcanjo não ocorresse a idéia de armar barracas junto ao arroio, mais distante do charco de sangue. Os feridos ainda estavam sendo levados nas carretas e padiolas quando os ranchões de pinho, atingidos pelos canhonaços, espatifaram-se no ar.

A brigada de Augusto Amaral não aceitou a derrota, e muito menos Aparício, o qual ordenou ataque às trincheiras por gaúchos desmontados, marinheiros e batalhões catarinenses, com cobertura da artilharia.

Xandô saíra com uma patrulha e bombeava detrás de uma touceira, quando o viu passar de guarda-chuva aberto em seu cavalo branco. Sob a chuva fina, Aparício brincava com o perigo, distraindo-se na observação do terreno. Xandô impediu que o sargento o abatesse, baixando-lhe a carabina. Salvara um dos maiores paladinos das terras americanas.

Logo a infantaria maragata avançou, ocupando casas fronteiras e, detrás das árvores, os canhões e as metralhadoras fizeram muitas vítimas na vila. A trovoada e o vento forte levaram os crentes a acreditarem numa intervenção dos céus. Mas a aguerrida guarnição impediu com uma muralha de projéteis o assalto às trincheiras. Ao lado do tenente Irani, o seu companheiro no comando dos canhões tombou ferido sobre o cadáver do artilheiro. De revólver em punho, Luzia, a Cantineira, socorreu-o, levando-o ao hospital. Brigava acompanhando o marido sargento, com a missão de enfermeira.

No telhado da igreja, Xandô fez um mirante e deu à artilharia a posição exata das peças inimigas.

     - Fogo! - ordenou o tenente Irani.

E o grito uníssono dos franco-atiradores abalou de vez o exército maragato:

     - Hurraaa!

Sumiu a bateria detrás das árvores. Apesar da chuva de balas em resposta, das baixas causadas, continuaram os "hurras" da moçada carioca. Com a eliminação dos alvos, desmoralizavam-se os atacantes.

Ao entardecer, a lendária coluna branca abriu uma vala, enterrou seus mortos, desaparecendo na escuridão da noite. Os feridos das carretas e das padiolas foram atendidos no meio da estrada.

Quando o grande chefe chegou, empalideceu ao tomar conhecimento do desastre. Deixou escapar que achava tolice atacar as trincheiras. Supunha que a esquadra e as forças de linha não cumpriam o combinado, deixando-o só. As façanhas de seus comandos incomodavam alguns chefes - sabia-o. Se não voltara à campanha, se dava combate em solo adverso, impróprio a cargas de lanceiros, fazia-o por lealdade. Fora convencido pelos políticos e não se cansava de dizer:

     "- Me tenia volvido a los pampas si no fuera el tirano que és preciso tocar del poder."

Na Estrada Dona Francisca, despediu os colonos e os condutores, ficando com as carroças e os cavalos. Em meio à tristeza geral, ordenou a retirada. Desnorteadas e perseguidas pela chuva inclemente, as tropas desandaram pelos atoleiros, pernoitando na divisa. Mandou que Deleone e o major Herculano, irmão do doutor Glória, fossem ao acampamento de Piragibe, para que este se retirasse da Lapa e viesse fazer junção as suas forças. Queria as bagagens e todos os feridos recolhidos a Joinville.

Equivocara-se o grande chefe. Depois do levante no litoral, a esquadra atacara Paranaguá. Soube-o no caminho. As notícias reanimaram os combatentes, e ele sustou a retirada. O bisonho comandante que substituíra o general Salgado procurara convencê-lo no momento de indecisão, e ele retrucou:

     "- Bien. Si usted quiere pelear, pelearemos!"

Habilmente pôs em prática a sua estratégia de marchar desunidos, mas atacar unidos. Então aquele expediu ordens ao Segundo Corpo do Exército Nacional Provisório - assim designava suas forças - para também avançar sobre Tijucas.

Na costa, os rebeldes sublevaram parte da guarda nacional, tentando tomar Paranaguá. De posse de um canhão, atacaram a guarnição. Mas os navios não surgiram na barra, e os infantes sufocaram o movimento, secundando o fogo da artilharia. Então foram aprisionados noventa e oito guardas nacionais e quarenta e dois civis, liderados pelo doutor Soares Gomes.

Em Paranaguá, cidade do Visconde Taguaré e do doutor Glória - o Barão do Paraná considerava sua a de Antonina - houve uma parada militar legalista com grande ovação nas ruas.

     - Viva a República!

     - Viva o doutor Vítor!

     - Viva Floriano!

     - Viva!

Dois dias depois, um vapor tentou forçar a barra. No seguinte, desembarcou o contingente que tomou a fortaleza, fundeando em frente ao porto. A guarnição fugiu para as matas da Ilha do Mel, porém renderam-na.

Do Aquidabã o almirante Custódio de Melo dirigiu as operações que silenciaram os canhões de terra e venceram as trincheiras. Entre as naves encontravam-se o República e o Urano - a montonera naval, qual se fora a vanguarda de uma coluna de marinheiros. Desembarcaram comandos marujos e os regimentos catarinenses.

A população acompanhou os acontecimentos alertada pelos boletins espalhados pelo prefeito, um primo do Barão, e pelo comissário de polícia:

 

"Ao povo!

As notícias recebidas da junta governativa pelo Sr. Almirante Custódio de Melo fazem acreditar que a revolução será vitoriosa em poucos dias.

As potências estrangeiras já não reconhecem o governo do ditador Floriano Peixoto. Os ministros acreditados no Rio de Janeiro retiraram-se para bordo dos navios de suas nações.

     - Viva a Armada Nacional!

     - Viva o Exército Libertador!

     - Vivam os chefes da revolução!

Paranaguá, 27 de março de 1894."

 

Com o que sobrou de patriotas e guardas nacionais, o coronel paulista ofereceu resistência com peças postadas na estação, na cadeia, e a terceira na embocadura da rua principal. Aos gritos de "mata!" "mata!", os assaltantes abateram a machadinha os defensores. Mas no edifício da cadeia, guardas paulistas e praças paranaenses, com metralhadoras nas janelas, sustentaram o combate durante o dia e toda a noite. Até que Soares Gomes, líder dos presos rebeldes, deu-lhes garantia de vida, negociando por fim a rendição.

Levados para bordo do Urano, o coronel paulista e outros florianistas foram seriamente ameaçados. Em contrapartida, o general chefe do distrito dera ordens para que fossem executados os presos de Paranaguá, as quais não foram cumpridas porque os superiores haviam decidido submetê-los a julgamento. Temia uma revindita. Acompanhado do estado maior e da oficialidade, retirou-se primeiro do Rocio, em Paranaguá, para a cidade de Morretes, e desta na carreira do trem para Curitiba. Acusaram-no de abrir de vez aos invasores as portas do estado. Bastaria guarnecer a serra para impedir a passagem dos rebeldes. Ou arrancar os trilhos, minar um túnel, pôr abaixo algumas pontes. Inexplicavelmente, mandou desmontar os matacões de pedras que rolariam à boca dos túneis e retirar destes as cargas de dinamite.

Refeito, o exército rebelde volveu a Tijucas.

Em reunião da oficialidade, o major Lago comunicou a difícil situação aos sitiados. Xandô e Orestes surpreenderam-se ao saberem que o tenente Carvalho Mendes transportara no Urano batalhões catarinenses. Mais informações tinha o comandante:

     - A coluna Pinheiro Machado-Rodrigues Lima foi atacada pelo caudilho Gumercindo e voltou ao Rio Grande. Falhou o auxílio esperado na Lapa.

De novo investiram contra Tijucas guerreiros exercitados em quartéis, tombadilhos e nos pampas. Entre eles, um jovem tenente chamado Isidoro Dias Lopes, que faria história. Assentaram a artilharia no coxilhão, iniciando o bombardeio.

O prédio da enfermaria, de cruz vermelha na cumeeira, atraiu a tempestade de projéteis, e o duelo de fuzilaria tornou-se desigual. Tombavam os defensores com tiros certeiros. Nos intervalos dos tiroteios, sapadores e franco-atiradores aprofundavam valas, cavavam novas fossas, protegendo-as com troncos, sacos de areia ou de erva. Não havia abrigos seguros, as casas varadas. O outro dia amanheceu chuvoso. Somente às dez ou onze horas um projétil riscou a praça. Localizada a peça, a resposta foi um tiro de canhão e o habitual "hurra!" dos franco-atiradores.

Na hora do almoço, rareou a comida. O potreiro fora alvo de uma razia, e aprisionaram no campo inimigo o fornecedor que vinha da capital. Rosendo, velho amigo, agora um capitão de guarda nacional, andava de um lado a outro, tentando animar os companheiros. Fazia blagues com a fome.

     - Hoje vamos carnear os cachorros. Gato é que não falta. Brincadeira... Luzia, a Cantineira cozinha um tatu, que vai dar prá todos. Estão com água na boca, não é?

Pregou-lhes um tremendo susto. Recebeu um balaço, começou à cambalear com a mão no peito, gritando:

     "- Viva a República! Viva a legalidade!"

O sangue manchou-lhe a túnica também nas costas. Muitos soldados saíram dos abrigos para socorrê-lo, acompanhando Xandô e o sargento que o levaram à enfermaria.

     "- Estou morto, doutor. Foi o coração... Cumpri o meu dever, viva a República! Estou muito mal, doutor?"

Após a curetagem, o médico falou-lhe estupefato:

     "- Sabe de uma coisa, capitão? Levante, saia correndo e dando vivas, não à República, mas à sua sorte de nascer de novo!"

A bala fora desviada por uma costela, riscando-lhe o couro.

A noite caía nervosa, com as estrelas à flor da pele. Orestes mal pregava os olhos, revivendo cenas, pressionado por uma realidade inaceitável. Cedinho deixou a barraca, demorara aprumando-se e limpando as botas. Não quis provar o chimarrão e foi tomar o café da Cantineira. Ante o pasmo da guarnição, saiu correndo do prédio para as trincheiras de onde desfechou vários tiros em direção à mata.

     - Assassinos! - gritava.

Acalmaram-no os companheiros e só com a presença de Xandô concordou com atendimento na enfermaria. Não havia muito tempo. Um toque de clarim anunciou o reforço enviado da Lapa. Um coronel aleijado de um braço, que se aposentara por velhice e se oferecera para o posto, chegou com a ala direita do batalhão de franco-atiradores e uma divisão de artilharia. Cerca de duzentos homens que o grande chefe deixou passarem, após o cerco, para que a fome rendesse o reduto. Vira o contingente com pouca munição e nenhuma sortida de mantimentos. Depois que o fornecedor fora preso com a carga, escasseara o alimento e até água para beber precisava ser apanhada num banhado.

Pior, ainda, a desastrosa troca de comando, lamentada nas barracas.

Na penumbra da madrugada, os clarões dos disparos pelos marinheiros na copa de um pinheiro orientaram a mira dos defensores. Um canhonaço decepou-o, e os marujos foram esmagados qual se de uma nave de mata sobre eles caísse o mastro. Mas, ao romper do sol, começou o bombardeio, estraçalhando a vila.

Um ataque pela retaguarda a Tijucas, com metralhadoras e artilharia, colheu-a de surpresa. Da mata encimando a colina partia o fogo mortífero, simultaneamente com os de frente e de flanco. O ex-comandante Lago, quatro oficiais e quinze praças, receberam de pronto as comendas de chumbo e sangue, exibidas nas enfermarias. O hospital ficou de pé por ser de pedras.

Não demorou e, localizada a posição às costas, aos gritos de "hurra!", de novo os cariocas comemoraram o sumiço da metralha. Mas as forças de linha inimigas submeteram a praça à fuzilaria. Salvou-a de arrasamento o batalhão paranaense do 17° de infantaria. Em linha de atiradores, expostos a peito descoberto, os praças subiram a colina, aos brados do bravo capitão:

     "- Fogo! Avança! Fogo negada!"

Uma ação temerária. O maior número de combatentes rebeldes estava concentrado naquele ponto. Estes poderiam dizimá-los, assim que alcançassem a clareira. De repente o pânico, a correria. As granadas expelidas pelos canhões da praça explodiram no meio da concentração, dispersando soldados e marinheiros que fugiam dos atiradores, deixando para trás uma centena de mortos e feridos.

Ao pretender mostrar-se mais capaz que o Generalíssimo, precipitara-se o comandante do segundo corpo, doente com a derrota, amuado em sua barraca, sem sair do acampamento. Não quisera ouvi-lo e poupar vidas, pois os sitiados seriam premidos pela fome e pela sede.

No outro dia, a mata da retaguarda foi ocupada. Apertou-se o cerco, uma vez que os picapaus restringiram as frentes, abandonando as posições afastadas. Gastavam os últimos cartuchos em meio ao mau cheiro dos cadáveres em decomposição. Ninguém mais podia deixar o abrigo sem ser caçado inapelavelmente. E nem assim foram vencidos pela força das armas.

     - Vamos convencê-los a se renderem - a decisão veio do palácio do Barão do Paraná.

A capital estava sem governo e o distrito sem comando. As duas maiores autoridades do estado, a civil e a militar, ante a iminência de ocupação pelos maragatos, fugiram da cidade. Com a debandada, quatrocentos desertores permaneceram, e o Barão assumiu a presidência de uma junta provisória. Seus membros haviam insistido para o general não resistir em Curitiba. Compunham-na comerciantes e cidadãos influentes. O presidente já governara durante o período monárquico, a exemplo do vice, senador e chefe do partido de oposição, íntimo colaborador do doutor Glória e do desembargador Egídio. A junta mantinha a ordem pública, perturbada pela soltura dos presos.

Preparava-se a acolhida às forças rebeldes.

O fornecedor apresentou-se em Tijucas, a cavalo, sem bagagem, com proposta do Generalíssimo para que se rendessem. O coronel que substituíra o major Lago aquiesceu a recados de um amigo que fizera parte do governo do Desterro, o major Aníbal, com o qual se encontrou para tratar do assunto. Certa manhã, um novo emissário veio com o pedido do Barão para que terminassem a luta "fratricida e inglória, imitando, o governador e o comandante do distrito". Então o velho mandou chamar o major Aníbal ao acampamento para que apresentasse as condições de uma capitulação. Evitou a presença dos que julgava intransigentes, reunindo na igreja a oficialidade para ouvir os termos da proposta. E explicou:

     - O general Gumercindo só exige a incorporação dos praças de linha e, como os senhores ouviram, sua única condição é a de serem entregues à discrição o tenente Irani e o batalhão de franco-atiradores.

     - Impossível! - protestou Leprevost, capitão da guarda nacional, da força que organizara na vila. Por que a odiosa exceção? O senhor aceitou-a, coronel?

     - O tenente não merece confiança, os franco-atiradores são uns desclassificados, moleques das ruas do Rio de Janeiro que Floriano mandou para combatê-los. É isso que alegam - justificou-se.

Os oficiais pareciam não acreditar no que ouviam e se negaram a depor as armas, dizendo-se dispostos a lutarem até o fim. Então o coronel mandou selar o cavalo e acompanhou o emissário ao acampamento onde assinou uma ata de capitulação, agora sem a exigência de degolamento do tenente Irani e dos franco-atiradores que enfiaram hurras goela abaixo dos revoltosos.


 

 

 

VITÓRIA DRAGONTINA

 

 

Com a aquiescência do coronel, os derrotados vieram ocupar Tijucas. Aqueles aos quais se combatera entraram como heróis no reduto, rebuscando as casas, as barracas, recolhendo armas e utilidades. Entre eles, os covardes que não cumpriam a ordem de respeito dada pelo grande chefe. Na ausência de autoridade, vigorou a lei de Cisério. A anarquia dos celerados, não a anarquia dos idealistas, dos italianos quase santos da Colônia Cecília.

Não longe dali, o grande chefe não escondia a tristeza de haver perdido valorosos companheiros. Queixava-se a Aparício e ao doutor Arcanjo:

     - Sanches, Miguelito, Pancho... Mis valientes hombres se quedaron para siempre.

Bandos formados nas redondezas agiam por conta própria, cumprindo a lei de Cisério. Um soldado de cavalaria, que fora incorporado a um regimento inimigo, foi à barraca de Xandô para avisá-lo:

     - O senhor corre perigo, capitão. O senhor, os franco-atiradores e o tenente Irani. Querem saber quem é o Cabo Verde, vão degolar um a um. Ouvi Cisério dizer que era para esperar os outros saírem, reunir os de confiança e "fazer o serviço".

A coluna branca, com os esquadrões de Juca Tigre, Aparício e Torquato, reforçada pelos marujos dos tenentes Perry e Torely, preparava sua marcha sobre a Lapa. Receberia o prometido: dinheiro, cavalhada, gado para carnear, armas, munições, fardamento. Cisério e outros degoladores deveriam segui-la.

Enquanto os comandantes rebeldes conferenciavam com o coronel capitulado no quartel-general, na casa ao lado da igreja, ouviu-se um tiro. Tenório procurava o Cabo Verde, porém deu de chofre com Leprevost, provocando-o cinicamente:

     - Então, capitão francês? Não quer me prender agora? Que dele o tal de Lago?

Ao receber uma bengalada na testa, Tenório desfechou-lhe um tiro de pistola no peito. Com um riso de escárnio, mentiu descaradamente:

     - Eu ia passando, sem fazer mal a ninguém. Tava distraído, recebi uma bordoada na cara, quando vi, já tinha atirado.

     - Legítima defesa - apoiou-o o irmão do doutor Glória; pelo major Tenório eu ponho a minha mão no fogo - acrescentou.

O ajuntamento logo se desfez, ao ser levado ao hospital o ferido.

De manhã, patas na estrada. O coronel capitulado evitou os oficiais jurados de morte em seu séquito. E a vila foi entregue ao bando rebelde local e ao esquadrão de Cisério.

Ninguém supunha que houvesse um cabo numa barraca de oficiais. Caçado qual criminoso, Bento vira o mundo mudar a sua volta. Mal pudera pegar no sono, sobressaltado. Ontem seria um herói, poderia declarar seu amor à Clarinha. Agora invertiam-se as razões, mas não se arrependia em haver socorrido os meninos na fonte, se ferira ou matara alguém. Não agira por maldade, porém por amor, uma revolta justa. Em vigília, pensava como seria bom apenas dormir, sonhar e parar de sofrer. Uma dúvida atormentava-o: - Clarinha se orgulharia ou se envergonharia dele, agora que os maragatos venceram?

Orestes parecia distante, sem se dar muita conta da realidade. Só não perdia o ar importante, queixo para cima, farda impecável, um nobre. Com a cabeça no lugar estavam Xandô e os comandados ao combinarem a fuga, antes que o esquadrão de Cisério viesse vingar-se das derrotas. Os guardas do batalhão Leprevost, ao voltarem para casa, escondiam-se para não serem hostilizados. Os voluntários abarrotaram o trem no povoado próximo. E o tenente Irani, abandonado à própria sorte pelo coronel capitulado, conseguira por-se a salvo mais uma vez.

Xandô e Bento acordaram a moçada de madrugada com o maior cuidado para o abandono do reduto. Orestes, com o qual se preocupavam, saiu antes com um pelotão. O grosso da tropa partiu meia hora depois a caminho de São José dos Pinhais, onde chegou como um bando estropeado.

Se vissem Bento não o reconheceriam de paletó largo e chapéu desabado, porém uma patrulha procurou-o casa por casa em Tijucas. No outro dia, Cisério ficou possesso por ver vazias as barracas dos franco-atiradores.

     - Cadê a negrada vadia? Capiaus duma figa!

Os médicos e os enfermeiros estavam com as carroças à porta para partirem com os feridos. Quatro cavaleiros mal-encarados chegaram e apearam. Entregando ao comparsa as rédeas de seu burro, Tenório adiantou-se. A Cantineira, Luzia, pôs-se à frente:

     - Respeitem a Cruz Vermelha!

Empurrou-a com o cotovelo para o lado, ameaçando:

     - Se se mexerem, comem bala!

Encaminhou-se à janela da sala na qual se encontrava deitado Leprevost, capitão da Guarda Nacional, e de fora encostou a ponta da clavina em sua fronte, estilhaçando-lhe a cabeça.

     - Podem se queixar a Cisério - debochou.

No acampamento de Aparício, onde várias gaúchas ficaram viúvas, ninguém acreditava numa coisa dessas. Versões de picapaus não mereciam crédito. Os acusados fingiam inocência, insultando os florianistas. A um oficial que lhe denunciara os crimes, respondera convicto:

     - Puedo garantir a usted que mis hombres son valientes, pero incapazes de malas aciones.

Previra-se a vitória dragontina. O Rio de Janeiro ainda se agitava com as notícias na tabuleta da Associação Comercial, dando conta do êxito da invasão do Paraná. Os navios voltaram à Guanabara às ordens de Saldanha da Gama, iminente a derrocada florianista.

O doutor Arcanjo chegava desacorçoado a Joinville, perdendo feridos pelo caminho, transportando-os em lanchas para São Francisco. Então começaram as comemorações de uma vitória dragontina, ao aproximar-se do cais a fantástica nave Urano, do tenente Carvalho Mendes. Saudaram-na com foguetes em girândolas, acenos, gritos, músicas, uma recepção estonteante. A bordo o batalhão da guarda nacional, de São Francisco, que tomou parte no assalto a Paranaguá. Vinha embandeirado em arcos para desfilar nas ruas animadas de bandas musicais, o povo em delírio.

No outro dia, o Urano partiu em nova missão e deixou com pequeno contingente o doutor Arcanjo em Paranaguá.

Entravam triunfantes no Paraná as forças rebeldes.

     - Uma revolta que conquista um estado como esse, não pode deixar de ser vitoriosa - proclamavam os chefes.

O trem subira pelas gargantas da serra, sem nenhum perigo, levando além de Custódio de Melo e o batalhão naval, os amotinados e seu líder que foi aclamado governador apenas por um dia, o doutor Soares Gomes.

O general Pego cedera à pressão, deixara livre a passagem, expedira ordens para desobstrução da serra e para retirada de Tijucas e da Lapa. O próprio comandante da Lapa deixara-o amedrontado ao dizer-lhe, em carta, da covardia e do pânico das forças patrióticas. Escrevera que um bêbado batera à noite numa casa de negócios, cinco quilômetros de distância, fazendo fugir vários deles apavorados. Um outro fingira de morto, safando-se. Um simples telegrama causou tal susto, que reunindo às pressas o estado maior, deliberou a fuga, deixando na linha de ferro um trem carregado de armamento e munições. O doutor Glória apeara do cavalo na estação-tronco de Serrinha - chefiava um esquadrão - telegrafou qual se fosse Carneiro, declarando-se perdido, avisando que uma coluna inimiga marchava sobre Curitiba. Antes de escapar, o doutor Vítor comunicou aos amigos e correligionários a decisão de abandoná-la.

     - Não posso resistir sozinho. Tenho meia-dúzia de soldados e um punhado de companheiros mal armados. Os carniceiros da "esquadra negra" do traidor Custódio e os bombachudos do Glória querem minha cabeça.

Advertido do perigo, na vilinha de Serro Azul tomou a direção de São Paulo.

A cidade ficou acéfala, sem governo, sem autoridades. O comércio cerrou as portas. A junta ainda não se impusera à população. Edifícios públicos desertos, quartéis vazios, sem guardas, as celas abertas. Sem os praças nas cadeias, os presos comuns viram-se livres. Sentinelas corriam pelas ruas. Famílias inteiras seguiam em carrocinhas para lugares seguros. Muita gente se escondia, temendo perseguições, recrutamento forçado e até saque.

O anspeçada Diniz, que não se arrependera do crime - castigos não lhe davam dor de consciência - aproveitou-se para deixar tranqüilamente o cubículo, pronto para cometer outro. Como sentir remorso num mundo que estimulava atos de violência, simulando condená-los? Mal percebia a indignidade do ato que cometera, o prejuízo para si próprio. Foram contraproducentes a complacência da absolvição e os exemplos de crueldade que presenciara. As lágrimas de sua irmã e de sua mãe não tinham força necessária para acender-lhe no coração a chama do bem.

Agitadores maragatos provocavam arruaças. Uma turba instigada contra os militares depredou os quartéis. Engrossaram-na desordeiros dos arredores, desertores. Chica Chapeleira gritou da janela:

     - É preciso por prá fora o chefe de polícia!

Apoiaram-na.

     - Vamos tocar fogo, expulsar o padre Beto!

     - Abaixo o governo!

     - Viva a Anarquia!

     - Morra o palhaço Totó!

Pequena multidão urrava, criava chifres, os rostos inchados, os olhos chamejando, mas por sorte não havia ninguém nas repartições, na igreja, nas casas visadas, no largo do circo.

Uma guarda-cívica apareceu e foi aplaudida pelos próprios manifestantes ao anunciar que o doutor Glória estava a caminho com as forças vitoriosas:

     - Uma junta presidida pelo Barão do Paraná governa provisoriamente o estado - explicou o comandante. Amanhã, às onze horas, serão recepcionados na estação o almirante Custódio de Melo, seus marinheiros e os revoltosos chefiados pelo doutor Soares Gomes.

E a multidão festejou a vitória.

Nas cidades paranaenses, como na Lapa onde a caboclada queria ver ou atirar pelas costas o comandante, a população já não continha a ânsia de assistir à entrada triunfal dos maragatos. Num anoitecer, a capital pulsou mais forte que nunca. O povo se comprimia nas ruas iluminadas, bandeiras por toda parte, gente em penca nos balcões e janelas. Capital do Brasil e do mundo, certamente parecia aos rebeldes. Julgavam-se triunfantes ao desfilarem. A junta e os recém-chegados do litoral foram receber os cavaleiros à entrada da cidade. O esquadrão paranaense do doutor Glória acompanhava o Generalíssimo, o grande chefe, e seu estado maior. Os clarins e depois as bandas de música abafaram a saparia dos banhados, ao passarem em meio ao vivório.

O ex-ministro Custódio vinha eufórico do cais; da estrada, das estações, o povo saudando-o. Afinal, só faltava o bote final no Rio de Janeiro. Então a "esquadra negra" rumaria para o Sul e seriam esmagados os gaúchos do outro grande chefe, líder dos picapaus. Do palácio do Barão, telegrafou ao presidente Floriano:

     " Estamos em Curitiba. Tijucas tomada, guarnição dissolvida. Lapa subjugada pelo general Piragibe. Estado inteiro reconhecido governo Desterro."

     " Se sois patriota como afirmais; republicano como vosso passado indica, deixai o governo para maior glória da República..."

As forças insurretas de terra e mar tinham a recepção que refletia a pujança da terra descoberta. À frente do batalhão naval, muitas moças foram embelezar a passeata, entre elas Belinha e suas irmãs, todas com chapéus de abas e fita branca. Era o começo dos festejos, com sessões cívicas e artísticas seguidas de bailes.

À noite, houve reunião na chácara Balster com a presença do grande  chefe, Gumercindo, o Castelhano. A marinha rendeu-lhe homenagens, prometendo-lhe cobertura na guerra. Para apoiá-lo, a junta transformou-se em comissão para o lançamento de um empréstimo de guerra. O doutor Glória assumiria o governo do estado, subordinando-se ao do Desterro, à frente do qual se encontrava o desembargador Egídio. Para presidirem comissões no interior foram lembrados nomes de viscondes, barões, proprietários, coronéis e todo tipo de monarquistas.

O senador que ocupava a vice-presidência da junta apelou ao Generalíssimo:

     - É preciso poupar a população civil dos horrores desta guerra, por sinal, no fim. A Lapa está sendo sacrificada contra a vontade, só o senhor pode salvá-la. O comandante da praça, um obcecado e comprometido com a ditadura de Floriano, parece não se importar que seja destruída. Mantém a população civil prisioneira, servindo de escudo humano. Os homens levam surras, enchem a cadeia. As mulheres são obrigadas a cozinhar para os soldados. O que todos desejamos é que se negocie a rendição, de acordo com os moradores e a guarnição obrigada a combater.

Decidiu-se enviar um ofício aos comandantes, respectivamente, das forças militares e civis, propondo uma rendição honrosa. General-em-chefe, Gumercindo sugeriu que constasse no ofício a saída das mulheres e crianças, em caso de recusa. Mandou que levassem ao Piragibe para assiná-lo. E o Barão concordou que, em seu nome, emissários acompanhassem um enviado do coronel capitulado em Tijucas "para convencer o Carneiro".

Entretempo, esgueirando-se a pé, sem bagagens, pois até as mochilas lhes roubaram, os franco-atiradores atingiram o povoado onde o major dos patriotas pôde alojá-los numa chácara. O pacato chefe oposicionista do lugar prometera que não seriam hostilizados, mas sim protegidos humanitariamente. Mais tranqüilo, Xandô poderia tomar o trem e providenciar recursos na capital. Ainda havia perigo de topar com gente de Cisério ou dos bandos acéfalos da brigada de Juca Tigre. Mas estes se movimentavam para fazerem junção com as forças de Piragibe.

Não sabia o que acontecera com Orestes. O pelotão que saiu antes de Tijucas perdeu-se no caminho. Num atalho foi colhido por um bando a cavalo, por sua culpa. Salvou-se de ser morto ou pisoteado quem correu para o mato. Rodearam-no deitado no chão, troféu um oficial. Iam degolá-lo quando o major que fora ministro no Desterro e um oficial da Marinha, reconheceram o prisioneiro.

     - Parem! É um nobre, da corte imperial. O Almirante faz questão de levá-lo à família no Rio de Janeiro.

     - O que houve aqui?

     - Fomos atacados, Excelências. Tivemos de nos defender dos franco-atiradores que correram para o mato.

     - Covardia, deixaram seu oficial estendido no chão.

     - Um cavalo - pediu o major. Vamos levá-lo ao acampamento.

Seus companheiros jamais acreditaram no que ouviam: "Traiu os camaradas", "passou-se para o inimigo","morreu com as mãos amarradas às costas".

Quando chegaram ao povoado, os médicos e seus auxiliares deixaram-lhes na chácara as carroças e os cavalos. Partiram com os feridos num vagão reservado. Luzia chorou porque o marido foi forçado a seguir num regimento rebelde. Em São José dos Pinhais as pessoas reprovavam o banditismo de Tijucas e até apoiaram a moçada carioca que lhes mudava as cabeças. Xandô e Bento que se disfarçou para não ser reconhecido como Cabo Verde embarcaram num trem da tabela.

Antes da batalha final na Guanabara, o grupo do doutor Arcanjo desceu do Urano em Paranaguá e, ao chegar a Curitiba, nem ao menos foi recebido na estação. Era madrugada, dançavam na casa do novo governador. Um grande baile comemorava-lhe a posse. Achavam-se presentes além do almirante Custódio e do general de linha, chefes preeminentes como os que se reuniam no solar do Barão. O doutor Glória hospedara um grande número de oficiais, estava eufórico. O desembargador Silveira compareceu com a família, e na ausência da noiva, seu filho formou par com Belinha.

Atraiçoando o grande chefe, o doutor Glória reconheceu, em sintonia com os do Desterro, o exército regular como representante do Governo Provisório da República. Um descaso para com o Generalíssimo. Embora naquele se destacassem o batalhão naval e os regimentos dos tenentes Perry e Isidoro Dias Lopes, não havia forças que se comparassem às brigadas camponesas da coluna branca, sem a qual nem teria começado a guerra. Os políticos só recorriam a Gumercindo nas horas de dificuldades. Esqueciam-no no momento de cortar o bolo e dividir os louros. Se não protestasse, todas as armas, munições, viaturas, animais, víveres e demais mercadorias requisitadas seriam entregues às tropas de linha. Estas acamparam na Lapa, ao som de banda, debaixo de salvas.

Para os maragatos o Brasil parecia resumir-se no Paraná e seus vizinhos do Sul. O desembargador Egídio governava-o do Desterro. O coronel que viera no Urano e fora nomeado comandante do distrito, achava-se ministro nacional. De retorno ao poder, doutores e militares procuraram ignorar a coluna semi-plebéia. A comissão arrecadou centenas de contos de réis. Em todo o estado, barões e donatários puseram fazendas a sua disposição, milhares de reses, animais de montaria e até os vapores do rio Iguaçu. O exército regular ficou com o que foi arrecadado na capitulação de Tijucas, e as requisições serviram para melhor equipá-lo. O doutor Glória guardava o dinheiro, simulando compras. Comerciantes perdiam da noite para o dia as suas mercadorias. Por protestar contra o saque, mandaram prender o Cunha "das roupas feitas". Do prédio sem janelas, com dezenas de portas, os soldados saíram com o estoque de roupas e chapéus. Parte do dinheiro, a critério dos governos, coube para o pagamento da oficialidade. Mas não cumpriam o prometido ao Generalíssimo. As suas tropas lembravam as farroupilhas.

Desmandava-se o governo rebelde.

O padre de Morretes, que xingava os invasores de bandidos, foi preso na igreja e conduzido a Curitiba, onde passou escoltado pelas ruas. Levaram-no a pé ao quartel da cavalaria.

     - Sacrilégio! Soltam o assassino de uma santa e trancafiam um padre.

À procura do padre Beto vasculharam-se igrejas e até casas de beatas. Uma patrulha teve ordem de prender-lhe o irmão, senador pelo partido contrário. Encontrando um homônimo, degolou-o num banhado.

As cadeias enchiam-se de adversários, os hospitais de feridos. No espetáculo hediondo da guerra civil, repetiam-se cenas de grandeza humana, as mulheres se apresentando para servirem de enfermeiras.

No dia em que Xandô e Bento desembarcaram na estação, nem foram percebidos, pois sepultavam na capital um oficial de marinha que morrera em combate. Os quarenta mil habitantes da cidade verde, empoeirada de erva-mate, obrigados a trabalhar para os rebeldes, já não tinham esperança numa reviravolta. As suas atenções voltavam-se para a Lapa. A maioria não acreditava que o comandante e um punhado de bravos resistissem por mais tempo. Os populares influenciavam-se com o que ouviam nos pontos de aglomeração:

     - Estão atirando pelas costas nas mulheres e crianças que tentam fugir da cidade. Os federalistas arriscam a vida para salvá-las.

     - Os picapaus se escondem nas casas, atiram dos telhados, porque os revoltosos respeitam as famílias.

De acordo com o decidido na chácara Balster, dois comerciantes acompanharam um oficial que o comandante capitulado em Tijucas enviou com ofício propondo a deposição das armas. Recebidos a bala, fizeram meia-volta no caminho, retornando a galope. Quando os comandantes da polícia e do bando local apresentaram-lhe os intrujões, Carneiro ficou uma fera. Primeiro passou uma descompostura no militar.

     - Retire-se daqui com esse trapo sujo! - ordenou-lhe, referindo-se à bandeira branca, depois de chamar de traidor quem o enviara.

Enxotou os comerciantes que falaram em nome do Barão:

     - O senhores não têm direito de falar em nome do comércio. Não quero e não vou ouvi-los, por isso ordeno que se calem, não recebo ofício de bandidos, nem parlamentários rebeldes.

Mais ríspido que baixo, agigantava-se o coronel no fortim, como era preciso para resistir à investida maragata. Comandava uma guarnição abandonada à própria sorte.

As forças que deviam avançar de Itararé recuaram aos primeiros tiros. O batalhão Frei Caneca atirou ao rio quatrocentos fuzis, para na fuga correr atrás da polícia e da guarda nacional de São Paulo.

Ao deixarem o vagão de segunda classe, tomaram o trole e viram passar os fuzileiros navais com a artilharia de bordo que conduziam à Lapa. O cocheiro parou, impressionado com o desfile, soltando a língua:

     - Os picapaus vão morrer como moscas. Culpa do tal coronel Carneiro, obrigando os soldados a se matarem, porque os que podem, fogem. Quem não obedece vai prá estaca e prá cadeia. O cabra mandou atirar pelas costas nos amigos do Barão e do doutor Glória, rejeitando proposta de paz. Vai ser o enterro da República na Lapa, a esquadra prende Floriano e daí volta a monarquia.

     - Quem lhe disse? Como o senhor sabe dessas balelas? - não se conteve Bento.

     - Uai? Não são daqui? Vêm vindo donde?

Puxou as rédeas, parou à porta do casarão, recebeu o dinheiro e continou chicoteando o cavalo.

Enfim a pausa, o aconchego de um lar, repouso na cama, café e comida na mesa, descanso na sala, tudo entre pessoas tão queridas. Refizeram-se rapidamente. E o desembargador Silveira, que o freqüentava, garantiu a Tio Silva a segurança do sobrinho, porém aconselhou-o que ocultasse Bento.

     - O tal major Tenório é um antigo capanga do irmão do doutor Glória, um bandido, porém de sua confiança. Acusou o Cabo Verde de provocar brigas e mortes em Tijucas. E você - dirigiu-se a Xandô - tome cuidado com o bando dos Ribas.

O Barão abrira as portas do palácio aos chefes rebeldes, saudara-os com banquetes. Queria a rendição dos florianistas. A guarda que formara não continha a onda de crimes, nem o regimento policial que se reorganizara com os oficiais adesistas.

A lei de guerra dos florianistas e a vingança dos bandos importavam em perseguições e brutalidades.

Bento preferia ter sido enterrado com o pobre Henrique, baleiro carioca, do que encontrar Clarinha noivando na sala. Iludira-se ao imaginar que seria beijado como herói. Antes o atingissem na trincheira de que ferido de ciúme. Escondido num quartinho do galpão entre o depósito de lenha e as cavalariças, chorara. Clarinha tratava-o docilmente, um criado para servi-la - pensava em tudo isso. Bento prá lá, Bento prá cá, faça isto, faça aquilo, leve, traga prá mim. Na voz um quê de súplica, algo reprimido no fundo do peito. A preta Balbina arregalou os olhos ouvindo-a suspirar:

     - Que dó que eu tenho do Bento...

     - Dó?! Ahn, sim - não quis intrometer-se. Num dianta - deu de ombros.

Pelo clima favorável aos conquistadores do estado, desde meados de janeiro regozijavam-se os simpatizantes do doutor Glória.

     - Fugiram os picapaus!

     - O trem especial que veio em busca de socorro recebeu uma descarga de fuzis da brigada do Glória e do Matos Guedes. O capitão desembarcou apavorado, escafedendo junto com o general Pego que nem pegadas deixou...

A luta até à vitória ou à morte, tornou-se mais que dever, uma questão de honra para o comandante da Lapa. Certamente fazia restrições a políticos e altas patentes, censurando-os em seu diário. Insultavam-no pelas costas nos botecos:

     - O Carneiro é um carrasco, brigou com a mulher, tem problemas de família, vai causar muitas desgraças. Proibiu a saída de mulheres e crianças do reduto.

     - Elas se recusaram a sair sem os maridos, os noivos e os filhos, queriam que fossem juntos. Daí não sobrava um patriota.

     - Os caboclos devem até as calças, estão na gaveta do armazém Lacerda, brigam ou morrem de fome. As mulheres e as crianças servem de escudos. Muitas morreram tentando fugir.

Por causa de federalistas brancos, como eram chamados os de dentro da vila que colaboravam com os invasores, até os chefes destes acreditavam nos boatos:

     - Vai estourar uma revolta dentro da Lapa com a ajuda dos moradores.

     - Tem gente pronta prá acertar os comandantes e atirar pelas costas o coronel Carneiro.

Formavam-se grupelhos para ouvirem a Chica Chapeleira:

     - O Carneiro não se importa que a Lapa vá pelos ares e morram os paranaenses, ele é mineiro e só quer salvar o Floriano.

Com o suceder de sessões cívicas, missas, representações teatrais, bailes banquetes e todo tipo de homenagens, iludiam-se os novos mandantes. Não o doutor Arcanjo, um tanto deprimido após as refregas e perda de velhos camaradas. Decepcionado, rejeitara hospedagem na casa do governador, acomodando-se num quarto de hotel. Constrangia-se nas festas, obrigado a pretigiá-las como o "médico humanitário, herói e bravo, jornalista, poeta e orador eloqüente". Tinha dor de consciência, remorso da guerra, intuição de um desastre. A fim de evitá-lo, telegrafou a Laguna, pedindo que o general Salgado avançasse com o grosso da coluna vermelha.

     - Não posso compreender o abespinhamento, nem o orgulho do Salgado, a pátria está em perigo e ele não vem! Quer que roguem de joelhos?! - desabafou na reunião do estado maior.

Aborrecido com as desconsiderações do governo para com a coluna branca, advertiu o Generalíssimo:

     - É preciso tomar cuidado com o Glória, é um déspota e requintado finório.

     - Yo no creo que se escape de nuestra mira el crápula.

Escrivão da coluna, fazia anotações lamentosas, apesar de exaltar-lhe os feitos. Nem sabia que sua revolta era na verdade contra a própria guerra. Encantara-se com a recepção de "um povo bom, alegre, educado e progressista! ",  "Vê-se por toda parte fábricas a vapor." Fazia muitas amizades, inclusive com gente do partido contrário. Interrogava-se angustiado: - Os brasileiros são todos irmãos, como fora acontecer esta guerra terrível?!

Fez uma visita a Tio Silva, em companhia do desembargador Silveira e do filho que ia despedir-se da noiva, engajado no exército como capitão do corpo médico. O desembargador trocara a toga pela farda de coronel. Esperava marchar para São Paulo e assistir à posse do doutor Lavrador no governo.

Apesar de regozijo no casarão, a noivinha não o enganou, parecia tomada de uma preocupação apaixonante pelo moço criado junto, o Cabo Verde, de quem ouvira falar no hospital de campanha. No princípio, supôs que o moço estivesse traumatizado pelo que acontecera em Tijucas, percebeu-lhe mágoas, ferido com a idéia de que outro pudesse tocá-la. Pasmou-se quando Xandô relatou-lhe as atrocidades do jagunço Tenório. Uma cambada de maus elementos, iria alertar os comandantes contra a onda de banditismo - prometeu.

O terror chegara a galope de cavalo branco - poncho amarrado à garupa - montado pelo tenente-coronel Catão, da brigada de Cisério. Desta faziam parte os bombachudos com caras de aranha e com exagero de pano da cabeça aos pés. Tinham perdido a qualidade de gaúchos. Não mais se portavam como os lanceiros, muitos talvez fossem presos que a coluna libertara das cadeias.

Tio Silva não esperou que a reviravolta acontecesse por acaso. Arrecadou dinheiro e mercadorias para Xandô e Bento levarem aos franco-atiradores. À porta do armazém da Praça Tiradentes saíram as carroças abarrotadas, ao raiar o dia, livre o caminho para o lado de Tijucas. As atenções voltavam-se para a Lapa. Apenas Bento presenciou o diálogo que tiveram tio e sobrinho - pouco antes:

     - Nossos amigos estão cercados por forças cada vez mais numerosas e não podem confiar nos moradores. As fazendas abastecem os invasores, principalmente a do coronel David Araújo que também assedia a vila com seu bando. Os lapeanos são os mesmos que davam vivas ao Imperador, no tempo do Jesuíno, Barão dos Campos Gerais. Todo mundo maragato, amigos e parentes do desembargador Egídio, presidente no Desterro. A sua maior glória são os trezentos voluntários mortos e o corneteiro-mor na guerra do Paraguai. Os caboclos da guarda local só defendem o patrão, dono do engenho de erva e do armazém. Os habitantes escondem nas próprias casas os federalistas, para caçarem os defensores nas trincheiras. Uma traição. Vão acabar matando o Carneiro pelas costas.

     - Floriano não é um marechal de ferro, como dizem, mas sim um gênio da raça. Bom, apesar da dureza dos militares em ocasiões como estas. Sabe quem escolheu para a missão mais difícil, a de conter a ofensiva em condições adversas. Enquanto o coronel Carneiro viver, a cidadela não cai. É verdade que espanta emissários a tiros, punindo com rigor a mais leve falta, que abre fogo contra desertores ou contra quem desobedece e quer fugir, seja homem ou mulher. Um fanático. Se for preciso, morre como escorpião num círculo de fogo.

     - O dever é um compromisso moral com o próximo e consigo próprio, com a sociedade, a pátria. No seu cumprimento distingue-se o herói do covarde, o santo do bandido.

     - Não sei, tio - pôs em dúvida. Existem forças que contrariam o que sen