A Renovação do Brasil e a Liberação do Homem à Luz da Presença do Papa João Paulo-II

	
							Noel Nascimento


	Batizado ao aportarem as primeiras caravelas, com a celebração da 
primeira missa, o Brasil nasceu e formou-se cristão. Pero Vaz de 
Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, dizia na carta que "o melhor 
fruto, que nela se pode fazer me parece, que será salvar essa gente e esta 
deve ser a principal semente, que Vossa Alteza em ela deve lançar" (...) 
"para nela cumprir e fazer, o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber; 
acrescentemente de nossa santa fé." "O principal fim porque se manda 
povoar o Brasil é a redução de gente à fé católica", dizia o Regimento 
baixado a 17 de dezembro de 1548 para o primeiro governador-geral do 
Brasil, Tomé de Souza.
	Como o Padre Anchieta fundou São Paulo, também outros padres 
acompanharam as bandeiras povoadoras de terras desbravadas. 
Abençoados pastores da Igreja palmilharam, em missão evangelizadora, 
o solo brasileiro, e em todos os tempos as ermidas originaram os 
povoados, as vilas as cidades. Colégios foram edificados por eles, e os 
jesuítas criaram as primeiras faculdades e a primeira universidade 
brasileira.
	São predominantes na alma brasileira os sentimentos despertados 
pela evangelização do povo. E mesmo outras filosofias adaptadas à nossa 
realidade, só têm aceitação em nossa Pátria se não contrariam a pregação 
do amor e a ética cristã.
	Armado pela Fé, o Brasil é o maior e mais poderoso país do 
mundo. Com regiões diferenciadas pelo desenvolvimento econômico 
desigual e por características próprias, uma realidade social variável, 
congraçando raças, culturas, migrantes, miscigenado, o Brasil é 
profundamente democrático a despeito do próprio regime se, 
transitoriamente, não se reflete a verdade de seu povo.
	Tem sido destacado pelos escritores e sociólogos o extraordinário 
caldeamento de raças ocorrido no Brasil, mas um fato conseqüente, muito 
importante, não foi objeto de atenção. Os que se referem ao Brasil 
tradicional atêm-se aos três elementos étnicos dos primeiros tempos: o 
português, o índio e o negro.
	O português despedira-se do passado e buscava novas situações de 
vida num mundo virgem, numa nova época. Era antes um homem a 
construir um mundo novo, um aventureiro ou um colono despejando-se 
de rótulos de nobre, burguês ou camponês. Pois eram múltiplas as 
atividades de trabalho que exercia ao contato da nova terra, auxiliado por 
índios, mamelucos e, mais tarde, pelos negros e mulatos. Os índios já 
viviam solidariamente e desconheciam por completo as desigualdades. Os 
negros conheceram as dores da instrumentalização ao iniciarem as 
viagens nos navios negreiros e também se conservam unidos na 
escravidão que lhes foi imposta.
	O espírito de solidariedade presidiu a formação da sociedade 
brasileira, apesar do colonialismo, da escravidão e da servidão, porque 
ocorreria com a miscigenação não só o encontro de culturas, mas o 
cruzamento das classes sociais.
	No Brasil novo, revitalizado pelas novas correntes migratórias, 
continua o processo de encontro do homem brasileiro e o fenômeno de 
amalgamento social e a renovação do espírito de solidariedade.
	Esses fatos constituem o procurado segredo da unidade nacional.
	Peculiaridades próprias da realidade social brasileira possibilitam 
mudança constante nas condições de vida de seus habitantes. A falta de 
consciência de classe é compensada pela superação numa consciência de 
humanidade. A realidade social brasileira oferece novos horizontes à 
sociologia tradicional e apresenta um homem mais natural e humano, 
menos dividido ou diminuído, somando experiências de vida e de 
trabalho diversificado.
	Foi esta a Nação do Evangelho, de índole realmente democrática, 
que recebeu a crisma do Papa João Paulo II, em celebração de grande 
significação histórica.
	Se os princípios cristãos são eternos e imutáveis, João Paulo II 
veio demonstrar que a doutrina é dinâmica e enriquecida constantemente 
pela ação sempre renovadora da Igreja.
	Numa revolução cultural humanista, de reafirmação de valores 
humanos imperecíveis, de valores sagrados, que tende a caracterizar 
nossa época, o cristianismo desempenha papel fundamental ao exaltar a 
dignidade do homem, buscando dignificá-lo através das ações solidárias. 
Por si só, representa o cristianismo uma revolução humanista permanente 
assim se explica a contribuição de pensadores como Jacques Maritain, 
Emmanuel Mounier e Alceu Amoroso Lima.
	Esvaziaram-se as acusações de "aliada dos poderosos", "ideologia 
das classes dominantes". Pensadores materialistas que confundiram o 
cristianismo com o idealismo filosófico que nega a realidade, o 
conhecimento e, inclusive, a sociedade em movimento, contradizem-se. 
Na própria análise marxista da história, o cristianismo é considerado 
como a ideologia dos pobres, dos escravos, das massas oprimidas.
	"A Igreja é dos pobres" - falou João Paulo II.
	Erros humanos da Igreja sempre foram evidenciados, mas 
propositadamente esquecidas as suas virtudes. Até guerras lhes são 
atribuídas, quando os acusadores são os primeiros a afirmar que as 
causas das guerras são econômicas, disputa de mercados, matérias-
primas, lutas de classes, colonialismo e imperialismo, além de outras 
combatidas pela Igreja.
	Portadora de mensagem eterna, contida no Evangelho, a Igreja está 
acima dos regimes político-sociais, por sua intemporalidade, enquanto 
estes são transitórios.



	A libertação do homem. O solidarismo. 


	Pedindo a renovação do homem pelo coração, exaltando o valor 
sagrado da Eucaristia e da ação pastoral, João Paulo II sugere que a 
libertação do homem dar-se-á, no plano espiritual, com a salvação pela fé 
em Cristo.
	É ainda, nas homilias brasilianas que, revelando a preocupação da 
Igreja com a sorte do homem no mundo material, à qual não é indiferente, 
sugere como caminho para a libertação, no plano social, o solidarismo.
	O solidarismo é suscitado pela própria realidade brasileira e há, 
assim, identidade entre a ação libertadora da Igreja e as mais legítimas 
aspirações de nossa ação. O solidarismo é o amor em ação unindo os 
homens em mutirão para a construção de um mundo justo e fraterno. 
Solidarismo é o claro sentido da presença de Sua Santidade entre os 
favelados, os índios, os camponeses e os operários.
	Foram palavra de João Paulo II: "A sociedade deve ser solidária, 
principalmente para com os mais necessitados (...)."
	A fé e a comunhão representam o comportamento para com Deus, 
e a prática do solidarismo o comportamento cristão para com o próximo.
	Solidarismo é a defesa de direitos humanos, da ecologia, de 
trabalho para todos, da erradicação da miséria material e da miséria 
moral. Solidarismo é o caminho de "humanismo cristão" a que se refere 
Sua Santidade. Visa a redução progressiva "ao mínimo possível" das 
diferenças sociais, com a eliminação das condições subumanas em que 
vivem milhões de trabalhadores. A miséria moral é fruto da corrupção, da 
poluição nas artes e na literatura, do consumismo, da cobiça, dos 
privilégios e da concentração da riqueza nas mãos de poucos.		
	Como condição fundamental para o solidarismo, a exigência na 
homilia, em São Paulo, é o espaço da liberdade, ou seja - a democracia. 
Enaltecendo a necessidade de reformas sociais que solucionem o 
problema da terra, das migrações, das favelas, dos esbulhos sofridos 
pelos índios, da situação dos operários, das famílias carentes, João Paulo 
II quer que sejam feitas sem violência por cooperação e entendimento 
entre todos. Perseguindo o ideal de uma sociedade justa e humana, 
condenando tanto os poderes do consumismo quanto as ditaduras de 
classe, indica como solução o solidarismo, e que já vem sendo praticado 
pelos bispos brasileiros e pela C.N.B.B. Afirmando que o homem não 
pode ser instrumentalizado, pedindo a humanização das cidades e 
também da economia, reafirma as posições de Puebla, a preocupação 
com a impessoalidade do homem-massa, tornado objeto pelos poderes 
políticos e econômicos, com perda de identidade e, acima de tudo, da 
dignidade humana. Em outros termos, o homem deve colocar os meios de 
produção, a máquina, a seu serviço e não se deixar escravizar por eles. A 
palavra homem é abrangente, não exclui os ricos, os quais também 
podem encontrar a salvação e a liberdade no solidarismo. A satisfação 
das necessidades primárias de existência não podem ser negadas, 
segundo Sua Santidade, e os primeiros cristãos deram o exemplo pondo 
em prática o princípio de que "os bens deste mundo estão destinados às 
necessidades de todos, sem exceção".
	Assim compreendemos as homilias brasilianas.
	João Paulo II fez semeadura em solo fértil, no tempo apropriado, e 
as intempéries não hão de ocorrer, prejudicando a grande colheita.