Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho

      Noel Nascimento
 
 

Causas primeiras, as determinantes da História, são ignoradas por transcenderem  o conhecimento humano.  Tornam-se imperceptíveis aos escritores que se limitam à descrição catalogada dos marcos importantes do passado e, ainda, é mal interpretada.

Não há sobre a História do Brasil obra de lucidez, interpretação e plenitude de conhecimento como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

Humberto de Campos, menino órfão, infância marcada pela miséria, sem estudos, dotado de sabedoria, era o mais generoso de nossos escritores quando suas crônicas, nas quais respondia cartas de dor e desespero, circulavam nos jornais mais importantes do país. Persistia na defesa dos desfavorecidos quando abandonado por parentes e amigos poderosos. Submetido a várias operações, faleceu cego em 5 de dezembro de l934. Através do médium Chico Xavier, escreveu as “Crônicas de Além-Túmulo”.  Agripino Grieco e outros críticos famosos atestaram a autenticidade do estilo: “Só podia ser Humberto de Campos”. Educou-nos eu e meninos que líamos “Sombras que Sofrem”, “O Mealheiro do Agripa”, entre outras.

Não são antagônicos, porém distintos o saber da sabedoria. Certo filósofo ao presenciar toda tragédia de uma guerra vaticinara: “Aos homens só devem deixar os olhos para chorar”. Nas palavras havia pouca sabedoria, pois significava admitir a própria tragédia, violências, torturas, o moer dos ossos. A revolta em vez de amor gera ódio, conduzindo a todo tipo de crimes. Outro filósofo, dotado de sabedoria plena, proferiu uma verdade: “Só o amor constrói para a humanidade!” Saber aprende-se no ensino, no estudo, principalmente nos livros. Sabedoria é algo inato ou intuitivo. É amor que se expressa em bondade, ternura, compaixão, fascínio pela natureza, gratidão pela benção da vida.

Há determinismo nas diretrizes superiores que transcendem o saber, porém, mantido relativo o livre-arbítrio do homem, então responsável por suas atitudes.

Na nova obra psicografada, conta-nos Humberto de Campos: “Jesus, ao contemplar dos céus o planeta no qual fora martirizado, amargurou-se por vê-lo a caminho dos feudos, das coroas poderosas, violências, crimes, inveja e felonia.” Nas sombras da Idade Média ensangüentavam-se as bandeiras cristãs. Cessavam os cânticos de amor e fraternidade na Terra. Ao conformá-lo, o mensageiro dirigiu-o ao continente novo onde, no Sul, brilha a Cruz de Estrelas. Emocionou-se o Mestre com os silvícolas humildes e simples, bondosos, promessas de uma nova era. “Aqui ficará o coração do mundo, juntarei a eles os oprimidos e sofredores das regiões africanas para formarmos o pedestal de solidariedade do povo fraterno do porvir” – afirmou Jesus.

 

O Brasil não foi descoberto por acaso e nem de propósito.

 

Na época, os planos terrenos de descoberta de terras maravilhosas e sonhos de tesouros obedeceram à orientação divina das expedições, principalmente a de Cabral ao abandonar, em meio a obstáculos, o caminho das Índias. Enfim, empolgados entre o céu e o mar, os tripulantes vibram emocionados na praia, recebidos pelos indígenas como irmãos em comemorações de fraternidades.  Então, floresce a Terra do Evangelho, defendida do Alto. Só o Brasil consegue manter-se uno e indivisível, na alma o maior tesouro do mundo. Ao desfraldarem as bandeiras das quinas celebra-se o acontecimento em ambos os planos do Cruzeiro.

Origina-se a base de um novo mundo. Em primeiro plano estão os índios, simples de coração, e logo os escravos negros caracterizando os humildes e aflitos, para formação da alma coletiva de um povo original em país predestinado e de tesouros inesgotáveis. As invencionices de Américo Vespúcio assombram o mundo, e na Terra de Santa Cruz, sob exploração de portugueses, espanhóis, franceses, desembarcam exilados e aventureiros. Na época, abalara-se a Europa pelo fanatismo religioso e a Inquisição. No Brasil donatários sofriam os mais justos reveses. A ambição e sede de ouro conduziam o mundo à decadência. Mas os índios que receberam Cabral reagiram contra colonizadores desalmados, de costumes depravados.

O saque após a descoberta não cessava. Sucediam-se invasões a gerarem fratricídios. Secundando ações de portugueses e espanhóis, franceses dominaram o Rio de Janeiro, apoiados pela Confederação dos Tamoios, contrários à perversidade dos colonizadores ibéricos. Travaram-se lutas de crueldades inauditas. Entretanto, do Alto orientaram-se benefícios, não tantos como os da invasão holandesa sob o comando de Maurício de Nassau, civilizadora, voltada à liberdade, tolerância, justiça e paz.

A ação jesuítica, aldeando e defendendo os índios, reflete a influência de Anchieta, Nóbrega, Bartolomeu dos Mártires, Diogo Jácomo, Leonardo Neves, no espírito da Nação. No solo bendito abrigam-se e miscigenam-se as raças mais fortes de coração. A negra, com as personalidades eminentes do País, gloriosa e fraterna, como na comuna  de Palmares.  Nas bandeiras houve também missões, esclarece a de Fernão Dias Paes Leme, grande alma, ainda que motivado pela ilusão do Morro das Esmeraldas. Bandeira não predatória ou à caça de índios. Transformando as selvas bravias, domina rebeliões, obriga-se a mandar enforcar o próprio filho, vive o infortúnio e arruína a família. Mas no retorno de suas caravanas florescem as povoações, ligam-se os arraiais, ao se revolverem as matas da terra virgem, constroem-se os alicerces da nacionalidade.

E a Pátria esplende eternamente. Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, simboliza a epopéia da luta pela Fraternidade. Por fim, a emancipação do Brasil origina-se por vias pacíficas , após a transferência da Corte portuguesa para o continente  do Cruzeiro.

Os desvios de sua predestinação foram causados pelo regime colonial, quanto escravocrata e de servidão, feudal ou semifeudal, originando latifúndios, monarquia e aristocracia escravocrata, oligarquias, coronelismo. Em conseqüência, os erros humanos que levaram a tragédias de intervencionismo em países do Sul, à fratricida Guerra do Paraguai e à Guerra Civil de 1894, com suas barbáries, ainda incrivelmente ignorada como tal em paupérrima historiografia. Com a vigência de República Federativa, o país adquiriu a estabilidade necessária à predestinação que lhe fora confiada.

Então, sob as diretrizes do plano celeste e as luzes de um alvorecer, congraçaram-se as crenças religiosas e as ciências, elucidadas pela doutrina de amor que se irradia no Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, onde se constituíram as mais poderosas forças desarmadas da Terra para irmanar todos os povos na defesa da Paz e da Fraternidade.