CASA VERDE

Noel Nascimento

 

Ele subiu a serra com uma velha bíblia na mão.

A muque prendia ao peito uma trouxa de trapos.

Ferira os pés nas pedras em riste das escarpas. Consta que um velho cão vadio lhe lambera as chagas.

Ele vivia numa gruta, isolado do mundo dos homens. Segregara-se antepondo a este a muralha das montanhas. Lá no cume, no claustro do mosteiro lapeano, mosteiro da natureza, na socava, fizera morada. Uma fenda talhada na rocha, onde à tardezinha, ao decair o sol, se projeta nitidamente a sombra de santo Antônio. Tanto isto é verdade que, certo dia, um retratista protestante bateu uma chapa da gruta e se surpreendeu quando viu revelada a imagem do santo casamenteiro.

Para os moradores da Lapa, ainda vilarejo, era uma figura apocalíptica, mas a alguns ricos fazendeiros, acostumados à vida da capital, parecia apenas um mendigo.

— Monge!

No dia ensolarado de seu rosto, os olhos, o céu; as barbas, as nuvens.

Naquelas paragens a natureza é ascética. Se a tarde expira, o sol é chama de vela que se finda no horizonte, e a própria serra um bando de frades ajoelhados, envoltos em incenso. No chão imenso refulgem tapetes bordados de campos, e os pinheiros, vestidos de escuras batinas, semelham multidão de vultos penitentes, com os braços estirados para os céus, em atitude de súplica. Ouve-se o ruído resmunguento da bicharada como suave murmúrio de preces.

Tinha como templo o universo, como altar, a consciência.

Não se devia indagar de que vivia o monge, pergunta indiscreta, seria profanação.

— Santo não come — explicavam os campônios.

Se perdia os sentidos algumas vezes, a fome como causa, nisto ninguém creria. Mas, era um fato, resistia galhardamente. Apenas três vezes ao dia chuchurreava o chimarrão, e quase sempre na mesma posição, de cócoras.

Na hora do crepúsculo é que se punha a contemplar o cenário esplendoroso. Então preferia o pito. Pito de bambu. Em espirais, a fedorenta fumaça e os pensamentos subiam para o infinito. Quando faltava o fumo de corda, cachimbava folhas secas de ervas silvestres, apesar de os roceiros lhe trazerem a preciosidade. Arrimava-se ao bordão e perdia os olhos tristes no panorama, logo após as horas que passava de joelhos. Entoava baixinho um hino decorado como se fora acompanhado por coro de anjinhos. Nessa ocasião, nascia no horizonte uma trepadeira de estrelas que se espalhava na amplidão, iluminando-a.

Ele vivia noutro mundo, no mundo das fantasias. Buscava esquecer a si próprio. Desejava a paz, sua barba branca desfradada no rosto era uma bandeira de paz. Impossível desvendar-lhe o passado, melhor aceitar o que dele diziam:

— João Maria é um enviado do céu.

— Monge!

Embora velhinho, ainda alvorecia em seus olhos azuis, em suas barbas alvíssimas. Enclausurara-se na montanha, indignado com a maldade humana, cheio de decepções e desenganos. Lá se libertara dos sentimentos egoísticos, pensando em desligar-se das coisas materiais e perder o apego a tudo que julgava mal terreno. Nem dinheiro, nem propriedade, nem ambição, vaidade, ou orgulho. Achava necessária tal iniciação para seguir o destino. O nome do registro civil, não importa. Nacionalidade, nenhuma. Estava acima das convenções sociais, ainda que se intitulasse monarquista. Sabia-se um profeta, um missionário divino:

— Monge.

— Inhô Jesus! — exclamava o aldeão, joelhos no chão.

Se indagavam de sua vida, curiosidade pecaminosa, obtinham-lhe a resposta:

— Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença.

A atoarda corrente nas vilas florescentes dos Campos Gerais era a de que nascera em Belém, na Galiléia, que após perder a esposa, chamada Aisha, e combater, às ordens de Murad-Bey, o exército expedicionário francês, quando no Egito, voltara à Palestina, onde tivera a visão de Paulo, o Apóstolo. Os que propagavam tal versão inventaram um nome que seria verídico: Johannah Ieshona. Um certo general afirmou tratar-se de um cidadão francês chamado Anastas Marcaf, enquanto um major reformado dizia abertamente, nos cafés de Lages, que João Maria não passava de espião argentino a fazer o levantamento da região sul-brasileira.

Monge, apenas monge, fizera claustro na serra de Santa Emídia, no município da Lapa. A cidade admirava-o. Assunto predominante, conhecido dos antigos moradores e objeto de devoção dos novos, faz parte da história.

Enquanto os velhos republicanos como os Lacerdas e os Carneiros preferiam os sermões do jovem e tristonho capuchinho frei Silvério, o que celebrava a "santa missa verdadeira", a população pobre gostava de ouvir o monge a gabar D. Pedro II e prometer um exército de anjos aos revolucionários maragatos. Aliás, ninguém pôde compreender o porquê da retirada das tropas de Gumercindo Saraiva no célebre cerco, o porquê de por este não ser implantada a almejada monarquia sul-brasileira. Tudo coisas de um Brasil bem camponês, bem caboclo, bem brasileiro.

Ele sepultara a memória no fundo dos pélagos. Lá, do alto, atirara fora a bagagem das recordações.

— Ah! mas ninguém sabe com quais sacrifícios...

O crepúsculo é belo no campo. O horizonte arde em rubras e douradas, quão tênues labaredas. O céu parece o prado a queimar nas noites de agosto, dando impressão de uma Roma em chamas ao moroso viajor cavaleiro. O sol, pássaro branco do sertão, esvai-se em sangue, tombando no ocidente. O dia murcha como uma flor do ipê. A imaginação se livra do arreamento e foge, a galope, pelas coxilhas e canhadas, enquanto as aves adejam alvoroçadas, em bandos, como flores despetaladas no ar. É assim que a tarde expira e parte na carruagem das horas, é assim que a noite chega com um rosário de estrelas no pescoço e o Cruzeiro do Sul sobre o coração. Há uma sensação de ocaso na alma, de fim, de morte, de saudade. No peito falece algo que nos é caro. Emoção de abandono e tristeza. É um adeus da natureza.

Nesses instantes de angústia, começavam os seus padecimentos.

Pitando e meditando aguardava a chegada das sombras. Era como se um morcego infinito tivesse fechado as asas sinistras sobre o mundo transformado em descomunal sepulcro. Na caverna, furna escura, ele, João Maria, monge do Paraná, sofria delirando, acordado ou em sono letárgico. A cigarra silenciava cedo, com a passarada. Quando a saparada coaxava a canção de ninar, o enxame de grilos tocava flautas com pontas nos ouvidos. Mas isso era insignificante como o uivo do noitibó, o crocitar pressago da coruja, o zumbido do mosquito sequioso de sangue, o ruído de todos os insetos e aves noturnas.

As velas que via coruscantes no ar não passavam de pirilampos, olhos de duendes que o fitavam eram astros da via-láctea, do candelabro de estrelas pendentes do céu. Difícil saber se tinha as vistas fechadas ou esbugalhadas, se mergulhado num sono mórbido ou em febril vigília. Então lutava contra as tentações, insinuantes imagens de mulher, expulsando-as da mente. Na grota desolada, urros de fantasmas ecoavam ricocheteando nas pedras, de fantasmas que surgiam em vagas. Vultos hediondos explodiam em gargalhadas e faíscas, iluminados por labaredas. Um alarido de imprecações e zombaria ensurdecia-o. Entrementes, o frio lhe cortava as carnes, penetrava-lhe a alma.

Santo do povo, parecia existir por milagre. Finalmente vitoriara-se na luta contra os demônios e o seu eu pregresso. Depois de paciente escavação na consciência, soterrara os nomes e as lembranças do passado. Certa noite, após longa meditação sobre os textos do Evangelho, teve um sonho que sempre confundiu com a realidade. Disse-lhe um anjo, radiante de luz:

— Vá, João Maria. Caminhe pelo mundo e cumpra sua missão sagrada. É preciso salvar a humanidade pecadora.

Já havia decidido chamar-se João Maria de Agostinho. João em louvor a são João Batista, Maria à virgem Maria, e Agostinho a santo Agostinho. Seria três vezes santo.

Nhô Tristão, caboclo abençoado, ajudou-o com a mudança, a descer a serra. Embora a gruta se tornasse sagrada e atraísse mais gente que a igreja, frei Silvério exultou e abraçou muito pica-pau.

Foi assim, de um dia para outro, que Anastas Marcaf confundido como monge da Lapa se tornou eremita. No fim do século dezenove e no limiar do século vinte, vagava pelos caminhos agrestes dos estados sulinos, assombrando as populações, vulto bíblico, versão matuta, um profeta medieval em meio sertanejo.

Nuns e noutros lugares o identificavam:

— Monge João Maria.

— Frei João Maria de Agostinho.

— João Maria de Jesus.

— Bom Jesus.

E explicavam boquiabertos:

— Vem salvar os seus povos!

Peregrinava especado ao cajado. No bornal a tiracolo, orações, curas, promessas e esperanças. Do cinto de couro cru pendiam a marmita de folha ordinária, guampa, cuia e uma bomba de prata. Entre algumas preces que distribuía, todas miraculosas, destacavam-se a "do Santo Sepulcro", a "do Nosso Juiz Eterno", e a "do Bode Branco".

Era bom e castigava os maus.

Frei Silvério, pároco noutras plagas, não queria batizar uma criança por ser a mãe uma paupérrima viúva que não podia pagar o ofício. João Maria deu à infeliz uma nota de cinco mil réis para entregar a frei Silvério e este, após o sacramento, viu desaparecer o dinheiro da palma da mão...

Tendo passado também em São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, João Maria escarafunchou o Paraná e Santa Catarina, granjeando fama. Trabalhadores do campo, lavradores pobres, peões, agregados, fazendeiros arruinados, principalmente agregados, pareciam ver nele a própria imagem. Ou melhor: o reflexo do eu interior. De certa forma, cada um o possuía dentro de si. Em pouco tempo, um ídolo, canonizado em vida pelo povo. Vinculado à luta, às crenças, aos costumes, às aspirações de todos, tornava-se símbolo e lenda.

— Monge!

Ao sopé das montanhas, à beira dos arroios nos capões de mato, fazia o pouso. Para livrar o povo dos males "da peste, da fome e da guerra", erigia uma cruz no monte mais próximo. Abençoava a água, dando-lhe poderes divinos a fim de ser bebida pelos enfermos. Nesses sagrados lugares, recebia o povo, curando e rezando, profetizando, pregando a humildade e o bem. Próxima à Lapa, uma certa família comprara uma propriedade onde havia uma Fonte de São João Maria. Como não cresse no que cria o povo, o chefe desalmado ateou fogo ao cruzeiro e ao pinheiro sagrado.

Naquelas terras nunca mais houve colheita, o gado acabou sumindo, só restando miséria. E o pior é que a família se transformou numa estirpe de loucos.

Com aquele ar avoengo, sublime, os cabelos como crisanto, as barbas de algodão, leque aberto para baixo, à luz das fogueiras acesas defronte à cruz, João Maria — o Bom Jesus! — comandava longos terços e ave-marias. Ao falar, proferia as palavras com ênfase, procurando as de efeito solene, musicadas, mais apropriadas a um santo.

No pequenino oratório guardava uma bandeira do Divino Espírito Santo, outra da Santa Trindade de Deus, e o crucifixo com um Cristo de marfim.

Abrenhara-se sertão adentro como um piolho em suas fartas e respeitáveis barbas. O sertão é a casa verde, soalho de relvas, tetos no céu. Nela os homens devem abrigar-se contra a miséria e os horrores da guerra. A casa verde é a sua casa e está sob a sua proteção.

Uma aldeã que lhe negara um tiquinho de erva, viu-a transformada em cinzas na barrica.

Surgia e sumia de súbito. Uma vez fora encontrado durinho como uma pedra, mas decorridas vinte e quatro horas ressuscitara como o Lázaro.

— Santo não morre — esclareciam os crentes.

Os jornais já se ocupavam de João Maria, e um antigo morador de Guarapuava, o major Domingos Nascimento, que visitara a Água Santa, no caminho que vai do rio Jangada a Palmas, em seu livro "Pela fronteira", ressaltava num trecho:

Este cenobita, um velho rijo e seco, anda há quarenta anos perambulando por aquelas paragens: fura o sertão até a Lagoa Vermelha; de lá corta os Campos de Palmas; vai ao Tibagi; vence as florestas e as montanhas dos Agudos; interna-se no Paranapanema; faz por lá os seus milagres, as suas prédicas, as suas orações; dá seus bons conselhos, e retorna derivando para as margens do Iguaçu, Jangada e não sei por onde mais. Andarilho de primeira, erra por montes e vales, andrajoso e esquálido, com um bastão apenas por arma. Não há insetos que lhe mordam as carnes, nem feras que lhe moam os ossos.

Nunca fora picado por serpentes ou colhido pelo jaguar manhoso. Ao pressentir o perigo, punha o crucifixo entre as mãos e repetia três vezes: "são Bento, são Bento, me livre desse bicho peçonhento".

Marrecas, cruzada pelos cargueiros carregados de sal, açúcar do dia, rapadura, cana e frutas; Marrecas, onde a besta da ponta chegava batendo guizos e campainhas presos à coleira, e alteando na cangalha uma flâmula branca de paz; Marrecas era um pouso tranqüilo e certeiro dos arrieiros dos Campos Gerais. Uma vilinha de rústicos casebres cobertos de tabuinhas com quintais cercados de pau bruto.

João Maria vinha por uma vereda e descera uma serra inacessível. Pouco distante de um rancho, num local marcado por uma árvore frondosa, à sombra da qual havia um veio de água límpida e boa, armaria sua barraquinha. Fora visto com uma trouxa presa aos ombros como uma mochila, segurando uma caixinha pela alça com uma das mãos, enquanto a outra prendia o bastão peregrinante. Depois, à medida que os tropeiros e os moradores de Marrecas iam chegando, abancavam-se no chão informe, ouvindo-lhe as práticas. A conversação com os arrieiros era lida, em toda parte, na brochura intitulada Vida de João Maria de Jesus:

— Quem é vancê? E donde vem?

— Sou um filho de Deus e pecador como vós... Venho de muito longe. Tão longe é o lugar de onde venho que não podeis fazer idéia. Milhares de léguas separam minha pátria da vossa. E eu venho de lá...

— Mas como se chama essa terra de onde vancê vem?

— Já ouvistes falar na Galiléia? Terra onde nasceu Jesus Cristo, nosso Salvador; Filho de Deus? Pois eu sou dessa terra bendita. Chamo-me João Maria de Jesus, discípulo de santo Agostinho. Não sou eu só desse nome. Tenho um irmão frei Manoel Maria de Jesus e uma irmã Maria Clara. Os três somos penitentes e percorremos a terra toda, semeando a mancheias o amor ao próximo e o pão bendito do bem. Irmãos! Vêde este oratório? Relicário santo que carrego por todo o mundo?

Após uma pausa para a prece, continuou:

— Amai-vos uns aos outros. Tempos virão em que os homens procurarão se destruir uns aos outros, como feras. Nações contra nações se esfacelarão e procurarão consumir-se reciprocamente, de inveja uma das outras, e irmãos contra irmãos se procurarão matar e roubar ao mesmo tempo. Haveis de ouvir, deste bendito recanto onde morais, o troar do canhão na grande guerra universal. Temei, filhos das matas, o convívio das cidades, onde reina de permeio a muita hipocrisia, a luta pela vida material e esquecem-se todos de que só Deus e a Graça Divina dão o sossego e alimentos à alma e ao corpo... Eu vou para longe, onde continuarei a penitência que me impus e se impuseram os irmãos de meu corpo.

— Mas como pôde vancê vir por essa picada que só vem dar aqui no rancho e por lá não sai em outro caminho?...

— Não tenho caminhos.Vou à mercê de Deus e os caminhos me aparecem no decorrer da viagem. Quando canso, paro. Se tenho fome, como.

— E vancê não tem medo dos bichos brabos do mato?

— Não lhes faço mal, meu rapaz, por isso não temo e eles me respeitam. Jamais matei um ser vivente.

— Mas é pecado matar um tigre, por exemplo? Se ele nos persegue?

— O tigre só persegue os que dele têm medo. É porque no coração pecador desses, um outro tigre mora: o ódio aos seus semelhantes e a todos os viventes. Por isso o tigre feroz adivinha nele um outro tigre e busca matá-lo: — é uma fera contra outra fera. Plantai todos os vegetais que servem de alimento, assim como frutas. Os que crescerem e derem fruto, fora da terra, irão cada vez mais minguando, até não poder subsistir aos climas que se transformarão em toda parte. Procurai, então, outros que possam substituir. Destes, eu vos aconselho as batatas e os tubérculos. Haverá tempos, não muito longe, em que só estas plantas serão alimentos para o homem...

— Mas os bichos? Pelo menos haverá carne... E vancê diz que não se deve comer carne?

— Assim será, porque nesses tempos o homem deixará de ser material para se deixar guiar pela voz da alma, e espíritos lúcidos perceberão que a carne lhes faz mal e hostiliza o espírito. Então, reconhecerá os outros homens como irmãos...

Na manhã seguinte, levaram-lhe muitos presentes, mas João Maria só aceitou leite, queijo, manteiga, ovos, hortaliças, mate e fumo.

O número de fiéis aumentava a cada instante. Fazia uma infinidade de compadres, sacramentando casamentos, batizando os afilhados. Quando se dispunham a segui-lo, então João Maria desaparecia.

Amava a solidão.

Os ímpios e os escarnecedores talvez não acreditem, talvez não acreditassem, mas João Maria antevira acontecimentos importantes. Anunciara a queda do Império. Mas abominava a traição dos ministérios, dizendo que os "bons tempos do império" sempre seriam relembrados depois que os militares implantassem o "governo do diabo". E acrescentava: — Durante seis anos vão rebentar as bombas.

Nos arredores de Guarapuava, onde se encontra uma frondosa árvore, a Árvore Santa, revelara:

— A Igreja não cumpre mais a vontade e a palavra de Deus. A santa missa é rezada só por dinheiro, em língua estrangeira. Os padres cobram pelo batismo das crianças e pelos santos sacramentos. Andam de braços dados com os ricos e desprezam os pobres necessitados. O castigo vem vindo pelo fogo do inferno!

Quem conta o fato nas prosas de farmácia e barbearia, acrescenta estupefato:

— Passado um tempo, houve um grande desastre: a matriz foi destruída por um incêndio!

Dissera também:

— O rio Cavernoso vai dar sangue nas canelas.

E noutra ocasião:

— No fundo do lago surgirá um monstro que devorará a cidade.

Na serra do Marumbi, entre Castro e Tibagi, advertira:

— Vocês plantem tatu pra terem o que comer no ano.

Velhos lavradores rememoram e comentam:

— A safra de arroz e feijão se perdeu por causa das chuvas, salvou-se apenas a das batatas...

Em Ventania, muito antes da construção daquela capelinha pitoresca, tivera uma visão do futuro:

— A comida será mel para todas as abelhas, os tatus terão uma grande toca, os passarinhos voarão das gaiolas e os homens viverão como as formigas. Deixai cantar as cigarras.

A Ponta Grossa, Princesa dos Campos, a orgulhosa cidade encastelada nas colinas do Pitangui, chegou acompanhado de um bode preto com uma fita vermelha amarrada ao pescoço. Na vila Ana Rita, sagrou as águas da fonte, tornando-as miraculosas. Subindo e descendo ladeiras, provocara pasmo. Mais comentado que o Homem do Bodinho ou o Homem do Banquinho, ambos paralíticos, vendedores de loteria, que recebiam alcunha do meio de transporte de que se serviam. Bandos de meninos travessos e vadios apuparam-no, apedrejaram-no sob as vistas complacentes dos adultos. Com ressentimentos no coração e lágrimas nos olhos, ouvia as imprecações:

— Monge!

— Coruja!

Não bastassem essas demonstrações de desrespeito e crueldade, consideraram-no as autoridades um elemento perigoso, nocivo à sociedade, pregador da anarquia entre o operariado. A polícia foi-lhe ao encalço, mas João Maria sumiu no ar como um mago, só reaparecendo em sua tenda momentos após, para alegria e espanto dos romeiros. Já dissera que Ponta Grossa haveria de se transformar numa pedreira, mas é sempre lembrado o sermão que se tornou célebre:

— Me atiraram pedras como Jesus Cristo, Nosso Senhor, salvou delas santa Maria Madalena. Os ricos de Ponta Grossa vivem no materialismo e são usurários. Se eu quisesse me defendia, mas quis ficar manso como o sublime Cordeiro manso ficou na Santa Cruz, pois os inocentes são perdoados porque não sabem o que fazem. Deus, Sublime Pai, disse: quem com ferro fere, com ferro será ferido. Vai chover uma chuva de pedras em Ponta Grossa!

Ninguém mais se esqueceu do dia em que, escurecendo abruptamente, o céu arqueou-se carregado de vinganças. Era o abaeté, era o profeta, era o "Bom Jesus" bradando pelo trovão, disparando flechas elétricas. As orações, as simpatias, as velas acesas não surtiam efeitos. E uma formidável saraivada de bátegas e gelo, como jamais houve, desabou sobre a cidade. Cumpriu-se o vaticínio. É da história da Princesa dos Campos. Os avós contam o episódio para os netos, arrematando:

— A casa do Homem do Banquinho desapareceu do mapa!

Quando algum crente fervoroso tinha fé e queria vê-lo, João Maria surgia à frente. Aparecia para as crianças ora como um moço, ora como um velhinho.

Aplacava a cólera dos homens.

É notório que caminhava sobre as águas dos rios. Um dia, ao aproximar-se do Pitangui, falou ao balseiro:

— Não tenho precisão de montar na tartaruga. Reme para o outro lado da barra.

Dando-lhe pouca ou nenhuma atenção, o balseiro obedeceu e, quando aportou à margem oposta, qual não foi o seu espanto ao deparar com o próprio monge!

Aprofundava-se na casa verde, como chamava o sertão, que assistia à poda da erva-mate e à passagem das juntas de bois arrastando toras. Não poucos lhe ofereciam presentes e hospedagem nas cabanas de palha.

— Do que Deus dá de graça, ninguém tem direito de pedir compensação — preceituava. Aceitava o bocado de sempre e chupava um chimarrão gostoso, quando de erva especial, preparada ao fogo de lenha da gabiroba, oferecida pelos bugres seminus.

Um curiboca, ao aproximar-se e expondo terrível úlcera no peito, suplicou:

— Siô João Maria, a ferida brava me mata de tanto que rói as carnes do peito.

A vida do tarefeiro de erva-mate é uma vida de trabalho, sofrimentos e miséria. Não conhece outro regime que não o de cativeiro. Durante o corte de caá os facões abrem picadas e podam os arbustos. Quem inventou o chimarrão foi o solitário índio Jaguaretê. Expulso da tribo por causa de um amor impossível e infeliz, viveu segregado muitos anos, com uma saúde de ferro, graças à erva maldita. Mãos calejadas e deformadas pelas murras é que a produzem. Mestiços andrajosos enfrentam a floresta traiçoeira, o bote das feras, a picada venenosa das serpentes, o ataque dos insetos, caminhando sobre feridas. Feições cozidas pelo sol causticante espelham toda sorte de privações. Fisionomias de cobre. Nos braços e nas pernas as chagas latejam ao resvalar dos trapos. Quando da sapeca das folhas no barbaquá e no carijo, queima-se a pele, em fogo o corpo inteiro. Vergando ao peso de fardos enormes que carrega nas costas, presos à cabeça por tiras de couro que rasgam e sangram a fronte, o tarefeiro vive pior que um escravo.

Era uma úlcera de Bauru. Compadecido, João Maria receitou:

— Todo dia de manhã, lave com arnica e soque erva de santa Maria, e tenha muita fé em Deus...

Um monge sofria com os sofrimentos alheios. Seguia a lei que consistia em duas palavras: caridade e fraternidade. Eis tudo que receitou nessa ocasião, como remédio: banhos de samambaia, três cipós, capim papuã, sumo de arnica e assa-peixe; vinho de braúna; sangue de bicuíba; chá de marapuama, pacová, crista de galo e cidreira.

Ele era tão humano como o mais humano de todos os jecas. Sentia na carne as dores do próximo. Santo de verdade, santo do povo, sua igreja, a casa verde.

Monge.

No fundo do sertão, após exorcizar e despachar os medicamentos, teve um aviso do Alto e preveniu:

— Vocês rezem muito e façam atos de compunção, porque vai haver um grande desastre nas maretas.

Atreladas as toras de pinho e de cedro ao cingel, os viajores se foram, murmurando preces, benzendo-se, caminhando pelo vale, ao lado das cangas. Chegando ao porto do rio Uruguai, jungiram as toras com cipó e arame, construindo com elas enormes jangadas, as quais prenderam às marombas, à espera da cheia. Não tardou muito, já se comentava na pequenina aldeia, sede de contrabando:

— O rio tá em ponto de balsa.

Na hora da partida, as mulheres choravam de susto e saudade, ensurdecidas pelo vivório e pelos estampidos das armas de fogo. Homens de pés descalços e peitos descobertos marcavam com as remadas a cadência da viagem, cuidando a carga levada pela torrente. As mulheres da aldeia pensavam no perigo das corredeiras traiçoeiras. A corrente ia aumentando pouco a pouco, até disparar a toda brida. Cada vez mais se avolumava o imponente rio, engrossando com as águas barrentas dos afluentes. Nas proximidades das ilhas, onde as lontras devoram peixes sossegadamente, era mais árdua a viagem porque as embarcações abalroavam nos escolhos.

Rumo à Argentina.

Não fora o destemor e a destreza do impávido matuto, já teria havido soçobramento. A friagem suportada à custa de trabalho e cachaça penetrava o peito. Para se orientar, o balseiro gritava e auscultava a bússola do eco. Guiava-se pelo coro da própria voz. E o zumbir da xiririca ressaltava o ronco da catarata.

Dormindo ou cochilando ao relento, os homens se revezavam nos remos e zingas. Roupas em tiras secavam estendidas nos arames, enquanto cozinhava o feijão preto na panela de folha, pendurada sobre o braseiro do improvisado fogão. Perigo que surgia de solapa era o da curva mais estreita, quando mãos criminosas fechavam o trajeto com basculhos de arbustos, armando ciladas. Da margem as espingardas abriam mortífero fogo. Era o assalto.

— Os caçadores de vigas! — exclamava o matuto que recebia a primeira chumbada.

Então se travava a batalha pela posse da madeira e não raro os piratas do mato acabavam recolhendo a carga que vendiam no porto argentino.

Fora um dos fatos pelos quais João Maria recomendara tanto, criam os humildes balseiros. Uma semana inteira de trabalho, luta e apreensões e, por fim, alguns tudo perdiam, até a própria vida.

No dorso mais largo do rio, a bulha das águas tumultuosas e o ribombar da cascata abafavam os berros:

— O salto grande!

— O salto grande!

Enormes ondas se atiravam do leito turbulento, de encontro às balsas. Como relâmpago, na memória de cada um, João Maria se fazia ouvir:

— Vocês rezem muito e façam atos de compunção porque vai haver um grande desastre nas maretas!

Calmos e destros, os camaradas contornavam-nas com auxilio dos varejões, evitando a custo a morte certa, o abalroamento, levando a embarcação para a margem alagada graças à enchente. Mas, naquela vez, uma jangada com seis homens a bordo fora arrojada pelas vagas em fúria, desfazendo-se violentamente. E a viagem que começara como uma procissão acabou como um funeral. Realizara-se a terrível profecia:

— Vai haver um grande desastre nas maretas!

João Maria acordava-se antes do dia. Acendia o fogo, enchia a cuia de mate e despejava água quente na guampa. Duma feita, teve a atenção despertada por lindo passarinho de asas azuis e crista vermelha, o qual trinava no último ramo, no cimo de uma gabiroba, como um tenor cantando num trapézio. O mestre. No palco da galharada, todo o bando ouvia atento como os musicistas de orquestra que esperam e observam a batuta do regente. Quando aquele calou o biquinho, todos romperam num terno e suave gorjeio, num coro orfeônico de passarinhos. No teatro da casa verde, no teatro do caboclo, João Maria assistia à dança dos tangarás. Cessou o chilreio, houve um rápido intervalo e as avezinhas, pedaços pequenos do céu, alçaram-se em saltinhos de duas em duas no mais gracioso balé, marcando a cadência do toque das violas sertanejas. Depois recomeçou o gorjeio e o mestre se exibiu com todo vigor de sua arte, de galho em galho, dançando os passos simples de tangará, enquanto o corpo de baile participava da festa cantando, batendo as asas, voando uns por de cima dos outros numa parada de alegria pela vida. Como se estivesse preso a um ramo do arbusto mais próximo, como uma jabuticaba, um chupim admirava o número, emudecido como quem ouve uirapuru, enquanto outro pássaro dizia:

— Bem-te-vi! Bem-te-vi!

João Maria pensou:

— Os filhos do Chico Santos!

Sim. O desventurado Chico Santos, temente a Deus, advertira os filhos:

— Não presta viver só pensando em namorar, só festando, pulando como saci-pererê, sem ter o menor respeito pela quaresma e os dias santificados.

Mas os marotos não lhe davam ouvidos, voltavam-lhe as costas, gostavam do fandango. Eram sete irmãos e o mais velho batizou o mais novo, para este não virar lobisomem. Muito honestos e trabalhadores. Porém, ficavam possuídos ao saberem de festa. Fosse o dia que fosse, não faltavam ao bailarico. Ao chegar uma quaresma, não ouviram os conselhos dos mais velhos, em cega desobediência. Foliaram até na semana santa, na própria sexta-feira da paixão.

O que aconteceu, quem é que não sabe? Caíram de cama, os sete com bexiga e, pobre do Chico Santos, um a um iam morrendo e se transformando em passarinho. Metamorfosearam-se em tangarás os meninos travessos.

A miséria humana contrastava com a magnificência da natureza e com espetáculos como aquele. Uma dessas caravanas que percorriam os sertões, penando e esmolando, desgraçados a fugirem do mundo e de si próprios, chegou ao ascetério de João Maria. Uns vinham a pé, outros a cavalo. A maioria dos homens trazia as trouxas, enquanto as mulheres arrastavam e carregavam crianças seminuas. Exaustos, desconsolados. Não entravam nas vilas e povoados, recebiam esmolas dadas com medo, de longe, tratados como uma récua de criminosos ou malta de cães raivosos. Doíam-lhes apenas o pavor e a incompreensão dos outros. Bem que preferiam a floresta bruta, o mel das colmeias, as ervas do campo, os frutos das árvores, o acampamento à beira da água límpida, corrente. Uma leva de morféticos.

Somente João Maria, um monge, para lhes compreender os dissabores, a penúria, o desespero, a moléstia. Em pé, defronte ao cruzeiro, encorajava-os, auxiliava-os a suportarem o destino.

— Que importa a ferida, a nódoa do corpo? Meus filhos, o que vale é a pureza da alma. O mundo é um vale de lágrimas onde cumprimos uma provação. É preciso ser forte e aceitar com resignação aquilo que vem do Alto. Deus nunca se esquece dos filhos amados.

Recebera-os sentado, de pernas cruzadas, convidando os mais velhos para formarem a roda do chimarrão. Fez compadres entre eles. Com paciência e bondade, sem achar resposta, tranqüilizou um jovem vacilante que lhe perguntou qual o mal que fizera ele, aquelas mães, aquelas crianças, para merecerem tal castigo, e que Deus era esse que permitia tanta desgraça na face da terra.

Após os curativos e benzeduras, João Maria mandou que rezassem em jejum e com o rosto voltado para o norte. Com auxílio de uma pedra, moeu folhas de samambaia, juntou ao pó alguma gordura e disse:

— É pomada para as feridas.

Nessa ocasião, redigiu a Oração de São Lázaro, que todos repetiram genuflexos.(1)

Daqueles que não faziam parte da caravana, somente atendera a um pecador arrependido, ao qual dissera em tom imperativo:

— Eu lhe perdôo os pecados, mas tem que rezar cinqüenta ave-marias e cinqüenta padre-nossos, sem tirar a boca do chão.

A maré de prosélitos crescia e João Maria surgia em diversos sítios, ao mesmo tempo. Estava em toda parte. A casa verde era pequena para ele. Tinha na palminha da mão as matas com seus segredos e mistérios. Dominava-as.       

As roupas puídas acabavam-se no seu corpo de vara, franzino. Trajava-se mal como palmito. Entre os olhinhos azuis, melancólicos, o nariz adunco se destacava no meio das barbas caídas sobre a carcomida manta que lhe envolvia o pescoço. Tornava-o exótico um gorrinho felpudo feito com couro de jaguatirica, com o qual cobria a cabeça encanecida. Com o paletó de brim riscado, curto sobre o colete, apertado como espartilho e a prender-lhe os movimentos, trazia um rosário, cujas contas afirmava serem "as lágrimas de Nossa Senhora". O cinto mal servia para pendurar a tarecada, pois as calças caídas, de fundilhos rotos, deixavam às escâncaras a ceroula, e o próprio sexo aparecia. Certa vez, uma velha beata exclamara estupefata:

— Nunca vi um santo com as vergonhas de fora!

Rio Negro e Mafra, cidades xipófagas, ligadas por uma ponte, aquela paranaense, esta barriga-verde, viviam às voltas com enorme cruz que se transportava a si própria, a santa cruz de Mafra. Quando não erigia uma, João Maria a desenhava, mandando reproduzi-la.(2)

Nos diversos lugares onde fazia aparição, as populações levantavam dinheiro e construíam capelas nas quais ardem velas noite e dia, pagando promessas, ao lado de pilhas de muletas. O curandeirismo tomou grande incremento. Foram difundidos seus métodos, suas práticas, suas receitas, seus remédios, suas simpatias, suas benzeduras. Pouca gente não sabia que sarro de pito é bom para bicho de pé, inflamações e mordedura de cobra. Se bem que, neste caso, ele mandava meter o pé na terra molhada e tomar seis goles de limão. Produzia tais prodígios, tão afamado, que até um perna-de-pau correra ao seu encontro na ânsia de recuperar o membro que fora decepado na guerra do Paraguai.

Só castigava os maus. Pelas bandas de Guarapuava, havia dito que "guerras viriam no mundo", "pestes desconhecidas assolariam os campos", "haveria muito pasto e pouco rasto", "estalaria uma guerra com os filhos dos castelhanos", e "Guarapuava se transformaria num porongal". No entanto, pessoas incrédulas duvidavam de seus poderes, zombavam, escarneciam-no. Nas terras das araras, se deu um caso assombroso. Chamado para assistir uma parturiente, João Maria atendeu prontamente o pedido, seguindo para o ranchinho. A parteira pinoteava como égua fogosa, coiceando com as nádegas o ventre da infeliz paciente, enquanto esta mordia o lençol, depois de assoprar uma garrafa. João Maria interrompeu a cena, apenas por um instante. Mandou a parturiente colocar na cabeça o chapéu do marido, mas não foi obedecido. Protestando sapiência, a "entendida" exibiu um documento que leu em voz alta, sob a aprovação dos presentes. Era a Carta de Habilidade passada à pretensa parteira por médico.

João Maria retirou-se acabrunhado, mas o resultado do caso é relembrado e propagado. Pobre mãe, louca mãe:

— A criança nasceu com duas guampas na testa!

Um sujeito vivia troçando das coisas sagradas. Afirmava que Deus não existia e que o monge era um doido.

— Nóis não sabe lê, nem escrevê e os ricos faiz nóis de bobo. Morreu, fedeu: isto, sim.

Um dia, quando estava partindo lenha no mato, um raio o fulminou. Castigo divino, mas a família, porque ele era bom, achava que fora chamado para o céu.

Um fotógrafo, muito ganancioso, bateu duas chapas de João Maria, sem o seu prévio consentimento, e ao revelá-las... Estavam em branco!

Quando o monge se encontrava num pouso situado nas campinas do Tibagi, uma cabocla pediu ao marido:

— Preciso pagar uma promessa que eu fiz. Me leve esse pacote de velas pro João Maria.

— Levo pro diabo que o carregue! — respondeu-lhe estupidamente o excomungado. Mas cedeu depois da descompostura passada pela esposa. Pelo caminho, ia com o embrulho na destra, sentindo-lhe o peso e o volume. Ao dar de chofre com João Maria, levou um prisco. Estendendo o braço para entregar-lhe o pacote de velas, viu que este sumira das mãos. Fitando-o, punindo-o com os olhos, explicou-lhe o monge:

— Ficou para quem você disse que ia levar...

Uma anciã paralítica, carola como só ela, não tinha fé nos milagres do profeta. O marido, que pensava diferentemente, sugeriu uma consulta a João Maria e isto a fez matraquear:

— Só diz bestages, diacho! Num sabe que só padre pode rezá missa, que tem representação de Deus na terra? Ele cura nada! Ele cura uma banana! Uma banana!

O humilde camponês foi consultá-lo sozinho, sobre a enfermidade da esposa. João Maria tirou uma banana do bolso e lhe ordenou:

— Diga a sua mulher que batina esconde rabo de macaco, que corvo voa sem ser anjo. Ela está de cama pra mor dos pecados. Diga pra comer esta banana, que ela sara.

Realmente, depois de saborear a fruta, a paralítica sentiu melhoras, levantou, andou e se tornou uma crente fervorosa.

— Vou lhe contar um causo... — Assim começavam as narrativas.

Gente que o venerava, que o idolatrava, era a do Bituruna. Lá onde as sesmarias se perdem de vista, a região contestada, em litígio entre o Paraná e Santa Catarina. Ele fizera sucessos indescritíveis em municípios como os de Curitibanos, Campos Novos, União da Vitória, Canoinhas, Caçador, entre outros. Uma grande amizade nascera entre ele e um bondoso fazendeiro chamado Manoel Alves D'Assunção Rocha, mais conhecido por Rocha Alves. Apoiara-o, aprovara os planos de fundação de uma cidade santa naquelas plagas: São Sebastião das Perdizes. Seria edificada sob suas bênçãos e ele não se opunha ao convite feito a frei Silvério para rezar a primeira missa, este agora em Campos Novos.

Fora de guerra quando apoiara as tropas do compadre Gumercindo Saraiva, com fanáticos emboscando os pica-paus. Era de paz, pois exortava à resignação, à renúncia, à penitência, apesar de indignado com as injustiças em voga e de pregar contra a república que — reproduzindo suas palavras — é o governo dos maus, invenção do demo, que deixa na miséria os brasileiros. Solenemente, ele prometera:

— Vou mandar muitos monges para salvar os meus povos e acabar com o reinado do diabo.

Mas era de paz, tinha a bandeira branca das barbas aberta no rosto.

Frei Silvério, que acudira ao apelo do papa emigrando para o Brasil — onde faltavam sacerdotes — e que sofrera terrível concorrência na Lapa, voltava a incomodar-se em Bituruna. Quando as coisas começavam a ir bem para a Igreja, surgia aquele monge e o povo virava a cabeça. A Igreja perdia o prestígio e ficava com a posição abalada. Até o bispo ficava contra ele que, justamente por sua incrível vocação sacerdotal, bondade e honestidade de propósitos, era designado para sanar a situação caótica do clero. Vivia de cidade em cidade, logo iria para União da Vitória, onde havia o morro da Cruz e as inocentes festas de Sinhana Bita. Com certeza, muito tempo não ficaria lá, teria de continuar solapando o culto do monge. Sentia-se frustrado, humilhado, diminuído, como todos os padres assim tachados de maçons e protestantes, combatidos com as próprias armas que empunhavam. Indagava de si próprio que desgraça acontecera. Ninguém mais comparecia à missa, trocando-a pelas rezas de um mulambeiro; ninguém trazia óbolos à ermida, fugindo aos verdadeiros apóstolos. Entretanto, as taperas que abrigavam João Maria transbordavam de adeptos. Sentado à moda hindu sobre um couro de boi, num tugúrio distante, já o fizera de tolo quando lhe fora ao encontro, servindo-se do burrico.

João Maria não podia ser santo, não cursara convento. Ele dissera-lhe:

— Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires e faz onze anos que tive um sonho de que eu devia caminhar pelo mundo durante quatorze anos, sem comer carne nas quartas e sextas-feiras e nem pousar na casa de ninguém.

Um justo não o teria feito passar por maçom, por herege, por protestante, não o deixaria desautorizado perante tanta gente, ridicularizado, detestado, como fizera João Maria. Não se conformava o louro capuchinho.

Não havia peão ou agregado que ignorasse do sermão o trecho mais conhecido e repetido: "É crime viver juntando dinheiro a dinheiro, terras a terras, viver à custa dos que trabalham; a lei de rei foi escrita no céu e é a lei de Deus".

Ninguém sabe o que aconteceu a João Maria, porém é visão constante sempre presente na memória do povo, venerada saudade, fabulosa personagem dos sonhos dos moços e das donzelas ardorosas.

— Monge!

Coração por coração, conquistara a casa verde. Também nas bandas do oeste catarinense continuava a ditar ordens aos crentes, sempre vislumbrado pelos mais inocentes. Alguns velhos caboclos, antes agregados, tornavam-se andarilhos, dando origem aos boatos dos "falsos monges". Mas João Maria era o ar e a vida, a esperança dos oprimidos. Ninguém lhe arrebataria a coroa de cipó e urzes. Na residência do abastado ou na tosca choupana, as iniciais de seu nome, J. M. A., gravadas a fogo, encimavam nas portas o signo de Salomão. Sempre invocado com devoção, o seu retrato constituía relíquia sagrada.          

Santo do povo, transformara-se em símbolo e lenda. Nos topes dos morros, as cruzes que arvorara são os seus braços abertos para os sofredores. Nos pousos, à beira das vertentes, olhos d'água, as velas ardem indefinidamente como sóis no infinito.

Um dia vaticinara:

— Meu túmulo será cavado pelos índios, no cerro do Taió.

Disto ninguém se recorda, porque santo não morre. Talvez tivesse caído vitima de febre, talvez tivesse sido apanhado por uma fera, talvez tivesse sumido no bico dos corvos, mas estes são os pensamentos dos sacrílegos. Santo não morre.

Apesar disso, no jornal A República, órgão do Partido Republicano Paranaense, edição de 25 de setembro de 1912, na terceira página, estampada a fotografia de um esmoler, havia um artigo:

profeta que morre...

O monge João Maria passou desta para melhor.

E assim concluía-se a notícia:

Por muitos anos há de perdurar ali a tradição dessa figura venerável de apóstolo, longos cabelos e barbas prateadas a emoldurarem um rosto velho, mas de expressão ainda viva, fisionomia de faquir a surgir a todas as portas, a visitar todos os lares.

Santo não morre! João Maria continua protegendo a família da casa verde: guiado pelo bordão inseparável, ele vagueia pelas veredas da história.        

 

 

        Livro II

                       

Capítulo I

 

Bituruna é o território das célebres Missões, conquistado pelas bandeiras; é a terra que os caingangues dominaram. Bituruna era o nome de um monte, mas algum índio o estendeu à região.

Bituruna é a pátria abraçada amorosamente pelos rios Iguaçu e Uruguai. Estes rios não passavam de bandos líquidos de revoltos guerrilheiros, engrossados pelos afluentes, levando a cabo o cerco de florestas, campos, serranias, avançando de rojo sobre um formidável exército de pinheiros.

Bituruna é uma braçada do tamanho de inúmeros países da Europa, porção deste Brasil, a qual se chamou Contestado porque foi disputada pela Argentina e foi questão de fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina.

As linhas da palma da mão do Bituruna se constituem de rasos riachos atravessados a vau e de caminhos abertos a casco de mula. Contavam-se nos dedos as estradas carroçáveis. Por muito tempo a máquina fora viva, tinha pata e não apitava. Era o cavalo. Mas a estrada de ferro acabou penetrando-o, rasgando-o, por motivos de estratégia militar. Partia da cidade de Porto União da Vitória, hoje bipartida entre os dois Estados limítrofes. Oriundos do Rio, São Paulo, Santos e Recife, milhares de operários trabalharam nas obras da Rede, atraídos com promessas de elevados salários. Moravam em tendas que comparavam aos cochicholos de cães, e onde grassavam epidemias e fome. Suas greves se transformaram em motins e houve muito sangue derramado. Cada cidade, no entanto, celebrava contente a sibilante chegada do trem, nele saudando o progresso. Marcou época, por exemplo, a festa de Porto União da Vitória, quando da inauguração da ponte sobre o Iguaçu. Naquele 26 de novembro de 1906, todo o povo celebrou o acontecimento. O hotel Matoso, enorme sobrado de madeira, regurgitava de visitantes. A famosa Banda Musical, da cidade de Ponta Grossa, sob a regência do maestro João Holzmann, executou dobrados, maxixes e valsinhas, jamais olvidados. Ainda hoje são bastante conhecidos os versos do professor Serapião, comemorando o fato marcante.(3)

Serapião fora bastante elogiado.

Quem não sabia que era ele um "grande talento", fundador da Sociedade Dramática Amadores da Arte e colaborador do semanário Rebate? Seus versos foram espalhados em boletins e recitados nas reuniões do Clube Apolo.

Progresso!

Não para os camponeses pobres. Era o truste se atirando esfaimado sobre o prato cheio do Bituruna. Um larápio, a Railway, a papar as terras marginais ao leito dos trilhos, ela própria com seus agrimensores malandros a fazer a medição da área abocanhada. Já não bastassem as concessões à Lumber Corporation, dragão com dentes de aço na serra-fita a devorar a mais rica vegetação do mundo. E enquanto os imigrantes europeus chegavam e se estabeleciam como proprietários, gozando de favores e privilégios, os caboclos pátrios viam-se preteridos, tratados com desprezo, vítimas de violências praticadas pelos latifundiários e pelas empresas estrangeiras, empregadores de jagunços.

Mas o trem é uma necessidade. Talvez apitasse incubando escolas e hospitais, talvez trouxesse a carga sobre rodas de porvir. Fada de ferro, talvez metamorfoseasse e transformasse enxada em arado, as cascatas em força hidroelétrica, miséria em fartura. Talvez chegasse com ofertas e preços para os produtos agrícolas, carregadinho de felicidades. Mas o truste procurava lucros à custa do trabalho do povo. E, apesar disso tudo, estava bom o mercado do boi.

Mas o trem é uma necessidade. O Bituruna, entrecortado de riachos e fundas picadas, algumas estradas carroçáveis, invadido por tropas de montanhas, vasta casa verde, como um monge, segregara-se do mundo. Nenhum exército o invadiria impunemente. A natureza o fortificara, minando todos os caminhos com pedras, algares, barro, sangas e lodaçais; construíra muralhas com as serras e armadilhas com itaimbés; dispusera imensas legiões de pinheiros defendendo as campinas e adestrara a mataria; munira-o de feras, serpentes e insetos.

No transporte de mercadorias como sal, pólvora, chumbo, querosene, aguardente e tantas outras, o cargueiro de mulas gastava dias e noites. A boiada que partia para as cidades litorâneas chegava estropiada, após o estouro à beira dos peraus.

Talvez o trem viesse resolver muitos problemas. Quem sabe se o lavrador encontraria para quem vender o que plantasse e não visse cereal apodrecendo ou não desse feijão aos porcos — não mais semearia para o próprio sustento.

Só não faltou dinheiro para a grande festa da inauguração de São Sebastião das Perdizes, a cidade mandada construir sob os auspícios de Rocha Alves, o mais íntimo amigo de João Maria. Não houve quem não colaborasse para o êxito da campanha.

Nunca se viu tanta boa vontade, sobraram dádivas e prendas. Monge não era, porém Rocha Alves dava bons conselhos, benzia e receitava. Fazendeiro, mas um simplório, um jeca-tatu de botas e esporas, coração de pobre. Um líder, um chefe espiritual. Apesar do ar enérgico de patrão, se confundia com a peonada. O seu mundo, como o de todos os proprietários daquelas bandas, era a sua fazenda, onde vivia como um rei. Ou príncipe sertanejo. Isso explica, em parte, porque fora sempre um ardoroso partidário da causa monarquista. Nem podia conceber outra forma de governo, que não a vigorante em seus domínios. Deus nas alturas e ele cá embaixo, cônscio da importância, mas humilde com os semelhantes. Nas redondezas, poucos não o tinham como compadre. Cordão entrançado prendendo o novo chapéu ao queixo pontiagudo, poncho-pala cor de cinza, armadura de lã, bombachas negras com bordados dourados e botõezinhos de madrepérola, mudas concertinas de couro nas pernas — com aquele ar soberbo de caudilho, parecia um príncipe rebelde, belicoso. Fora sempre um maragato e nunca tolerara pica-paus. Jactanciava-se de ser um grande amigo de Gumercindo Saraiva e apóstolo de João Maria de Jesus, seu compadre. Considerava iminente a restauração da monarquia. Seus domínios se estendiam sobre as chapadas da célebre serra de Santa Maria, já no município de Caçador. O dizer em voga lhe atribuía uma maior riqueza: "a da alma". Cofiava o bigode sob as largas narinas, quando estalou a idéia em seu crânio: fundar uma cidade santa ali em Perdizes, um centro religioso, erigindo uma igreja em homenagem ao santo cavaleiro, cavaleiro como ele, ao padroeiro do sertão. João Maria aprovara os planos e a voz corrente dizia que ele estaria presente na nova Meca. Era raro o dia em que não chegava gente à fazenda de Rocha Alves para tratar do assunto, ainda dos lugares mais distantes, tão bem acolhida. A poucos quilômetros da sede, num terreno onde havia espesso vassoural, foi levantada a ermida no centro de algumas palhoças.

A comissão de festeiros elaborou o programa e, em toda parte, a notícia formou redemoinhos de gente parladeira, principalmente defronte às vendinhas dos minúsculos povoados. Eliazinho dos Santos, o pai da menina Maria Rosa, a que tinha santos também nos sonhos, a que inspirou os mais belos amores da casa verde, foi convidar pessoalmente frei Silvério para a celebração da primeira missa. Com o desaparecimento de João Maria, frei Silvério já não se sentia humilhado como outrora. Procurava aproveitar o culto do monge em benefício próprio e da Igreja. Não acreditava no ressurgir de João Maria. Achava bom ter aumentado a religiosidade do povo. "No fim, os padres saíram ganhando", pensava com o seu rosário.

No trem de casco, no trem de orelhas, os convivas vieram de todos os recantos do Bituruna. Moradores das redondezas, poucos apontaram a pé. No dia da inauguração, São Sebastião das Perdizes parecia uma bandeira brasileira a tremular festiva. A igrejinha hasteada no tope, os ranchos fincados no chão e cobertos de palha eram as suas estrelas. O lema estava escrito no ar, no chão, no céu, nas faces dos moradores: Igualdade.

Fora abatida uma boiada para a ruidosa comemoração; com mãos estranguladoras no pescoço, algumas dezenas de frangos rodopiaram e estrebucharam; leitões e cabritos foram pelados para o forno; e ainda sobrou dinheiro que frei Silvério levou para o santo...

De madrugada, rasgando a treva, coruscavam os foguetes de vara, estourando no ar a nova alvissareira. Não tardou e, do sol, uma tribo de índios guerreou a terra, atacando-a com flechas de prata. Cheinha de coloridas bandeirolas que pareciam borboletas penduradas nos fios, São Sebastião das Perdizes nascia ostentosa em seu berço de relvas. A passarada revoava em bandos, como pétalas de malmequer, punhados de confete jogados pelas mãos de folhas dos espinilhos.

Os campos já resplandeciam sob o chuvisqueiro solar e, ainda, o chorrilho humano escorria no caminho que vinha da encruzilhada. Enfeitadas de guizos e pompons, as carroças saracoteavam de contentamento e só pararam de tremelicar quando os moços pularam para fora em algazarra.

Naquele distante 19 de janeiro, dia da magna comemoração na casa verde, era o acontecimento mais extraordinário a inauguração de São Sebastião das Perdizes.

Quando frei Silvério apeou do burrico, houve salvas de tiros e inesquecível ovação:

— Viva frei Silvério!

— Viva são João Maria, são Sebastião e frei Silvério!

— Vivôôôôôô!!!...

E o frade não perdia tempo:

— Viva a Imaculada Conceição e a santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Depois uma procissão percorreu vagarosamente todo o vilarejo, a imagem de são Sebastião carregado num andor e, à frente, frei Silvério a cantar acompanhado pelo coro desacorde:

— Vestida de branco Ela apareceu, trazendo no cinto as cores do céu.

Ave, Ave, Ave Maria!

Ou:

— Queremos Deus

que é nosso Rei,

queremos Deus

que é o nosso Pai!

Então a multidão invadiu a ermida onde frei Silvério celebrou a primeira missa da nova cidade. Abrindo-se de contentamento, parecia um pinhão cozido: ponta para baixo, cabeça para cima. A batina puída, descorada. Alourado e esguio, com uma cara de quem é triste ou sofre de amebas, um capuchinho simpático. Naquela ocasião, fez um sermão cheio de humildade e sabedoria, pregando resignação, combatendo a usura dos ricos e interpretando passagens bíblicas. Aproveitando a ocasião, contou casos de desgraças sucedidas como castigos divinos a maçons e protestantes. Bem no fim do discurso, advertiu a assistência contra os "falsos monges". Nesse momento, o avô trinta vezes, o vovô Zebinho, do banco em que estava, levantou a voz:

— Nós aqui só adoramos são João Maria.

— Ah! Este é o verdadeiro! — explicou frei Silvério, aumentando o próprio prestígio.

Do dia para a noite, tornara-se alvo de admiração e devoção, cercado pelos grupos dispersos na praça e ora em conferência com as beatas e distribuindo santinhos às crianças.

Nesse dia de esplendores, pela vez primeira, Antoninho e Maria Rosa se encontraram, se olharam e se gostaram. Entreabriu-se uma flor da união dos dois corações: no da menina ficaram as pétalas, os espinhos no do rapaz.

Antoninho pressentira o acontecimento, já no momento em que estreava a montaria. Da peonada que labutava na fazenda do velho Elias de Morais, talvez fosse o mais pobre, além de mais jovem. Achara-se o mais rico ao ver-se nas ancas do garrano com gosto arreado, lombilho de cabeção metálico, peitoril e freio de presilhas, coxinilho e badana. Tinha, como todos, a cara resplendendo confiança e liberdade. Mas um filho de agregado não poderia esperar tão cedo tamanha felicidade. Caboclote, não era nenhum tongo: há muito sabia quando vem chuva, vento ou geada. No domingueiro, coçado terninho de brim riscado, assumia ares de importância e atrevimento, com aquele chapéu de boiadeiro, o laço rubro envolto ao pescoço, as botas de canos bordados. Com o bem arreado garrano e seu traje de garnisé se impressionara a si próprio como à singela e sonhadora Maria Rosa. Dava valor ao que possuía: seu pai tivera apenas um matungo, rabudo e peludo.

Caboclote, Antoninho se orgulhava de não ser um miserável. Tudo, menos ser miserável. No Bituruna, na casa verde, só presta quem é temido, respeitado como homem e como amigo. Há de se proteger o pobre, o fraco, o irmão de crença. Miserável é o covarde, janota da cidade, medroso, almofadinha; miserável é aquele que não carrega no cinto de cartucheira um revólver de calibre 38, ou a espingarda a tiracolo, ou o comprido facão de cotejo; miserável é o que não trabalha e acumula riquezas, amealhando terras, enquanto outros labutam e acumulam dívidas e sofrimentos. O miserável não sabe domar o burro xucro, jogar o laço e, pelos chifres, tombar o garrote no corro. O miserável não crê em são João Maria!

Deus te livre, ó Antoninho. Nasceste na casa verde, filho da selva, criado no pampa! Vieste à luz no casebre do flanco da montanha. Montanha que chora com olhos d'água o cristalino riacho. Teu berço foi a garupa do petiço. És na terra o que é são Jorge na lua: cavaleiro. A roça e a faina do campo foram a tua escola. Escreveste com a foice o teu nome no chão. É bastante ter por mestre o cavalo, o cavalo que ensina o que é o mundo, e o mundo é o Bituruna, a casa verde. Quem te ensinou a acorrilhar o gado, parar o rodeio, sofrear a manada; quem é o teu companheiro na vigília, na viagem; quem suporta o peso do arado, da carpideira, da carroça; quem te educou no trabalho e exercitou para combate? Ama, pois teu garrano, ó Antoninho. Teu pai, com parte do lar na estrada, homem sem parada, tinha o monge no corpo, não se apegava a bem terreno, errando pelos ranchinhos alheios e pelo mundo como as águas dos rios. Vivia dividindo com os poderosos os frutos do próprio trabalho e a essa exploração chamavam empreitada, parceria, arrendamento.

Na fazenda de Elias de Morais, como as outras, a labuta da peonada fora um exercício de guerra. Agora o serviço era de pouca monta. Abrira-se o mês de fevereiro e somente em meados de março começaria a marcação. A salgagem requeria pouco tempo, maiores cuidados se faziam necessários durante a vigilância exercida sobre as vacas e os terneiros. À noite, os bezerros ficavam soltos no curral. Na hora em que Antoninho estreara a nova montaria, já haviam mamado e berrado à vontade. Elias de Morais entregou-lhe a bandeirola de são João, que tremulava na fazenda, naquele momento em que Antoninho se achava à frente do grupo de cavaleiros, próximo ao casarão da sede que dominava os sítios e a paisagem monótona. Ao empunhar o mastro, enchera-se de bons augúrios. Guia, porta-estandarte, chegara a São Sebastião das Perdizes, seguido por Elias de Morais e seus camaradas. Apeando no largo da igrejinha, deu de chofre com Maria Rosa, a cujas mãos passou o estandarte sagrado. Num instante ambos estremeceram e ficaram paralisados, os olhos a versejarem poema de amor.

— Vim buscar a bandeira de são João Maria, que Rocha Alves me mandou — decidiu-se Maria Rosa.

Na voz, Antoninho ouviu o gorjeio dos pássaros da casa verde, descobriu bosques imensos e dezenas de estrelas nos olhinhos gateados, viu nascer a aurora num sorriso apenas esboçado, sentiu o frescor dos arroios e das cachoeiras no ar que a envolvia, enquanto notava a bruega da noite a escorrer em seus cabelos. O jovem, com Maria Rosa nas vistas, era uma criança enlevada com uma rosa na mão. Achando-a cheinha de mimos, num insignificante lapso de tempo, associou idéias extravagantes. Lembrou-se das florinhas das campinas e da murta carregadinha de brotos e, vendo-lhe, os lábios imaginou-se chupando amorinhas.

Maria Rosa era um bordado vivo, bonito e singelo como esses dos panos de parede, mas estampado na sala de visita da casa verde. Tinha a beleza simples do vestidinho de chita com desenhos de flores, cinturado pelo laço de fitas de três dedos de largura, borboleta de asas abertas em suas anquinhas. No peito, um recorte vermelho em forma de coração. Atraía este mais atenção do que os brincos dourados e o colar de contas coloridas.

Antoninho se expressou com emoção, despercebida por Maria Rosa, mas revelada no rosto em que a barba repontava timidamente sobre os ângulos da boca:

— Você leve porque as mãos santas foram feitas para servir a Deus.

Maria Rosa também sentira o choque. Ao afastar-se com a bandeirola, sentia dificuldade em caminhar naqueles sapatinhos escarlates, de saltinhos. Não tropeçou, não torceu o pé, mas se confessou olhando para trás.

Naquelas bandas, a mulher se casa muito cedo e a maternidade começa na infância, meninas embalam não bonecas, mas os filhinhos no colo. Maria Rosa não aprendera nem a ler e escrever, porém sabia campear o gado. E abelha, tinha ferrão para defender o mel.

Após tal encontro, nunca mais se interrompeu a corrente, de coração a coração. Antoninho, entre vários admiradores, era o felizardo e, bem por isso, odiado à primeira vista pelo caboclo Deodato.

Pitando o palheiro, recostado a um tronco retorcido, nodoso, desgalhado, Deodato espionara-os esmagado pelo ciúme. Tinha um só confidente, ao qual confiava a própria alma — um só amigo de todas as horas difíceis, um amigo fiel, mudo, frio, vingativo, feito de aço e sedento de sangue: o facão, enfiado na longa bainha de couro, pendendo do cinto. Deodato não possuía palavras para expressar tão grandes sentimentos, desencadeados dentro do peito, não os revelava, sofria calado. Sua tristeza era um pássaro engaiolado, sem linguagem para voar; seu despeito, uma fera enjaulada a sondar pelas grades dos olhos, urrando vinditas. Quando prestava serviços na propriedade do Eliazinho, pai de Maria Rosa, andava seguindo a menina como se lhe fora a sombra. Mas, para ela, não passava de um pau-de-bugre: ela tinha-lhe aversão, alergia. Duma feita, quando Maria Rosa ordenhava as vacas no estábulo, Deodato se declarou:

— Maria Rosa, vancê se casava com eu?

Ela não respondeu, virou as costas com desdém e carregou o leite para casa. Eliazinho, alertado pela esposa, acabou despedindo o camarada. Bem dissera o capataz:

— Muié tem tanta como pinga e pau de porteira. Mecê é mais teimoso que a muié do Pedro Pioio.

Conta-se que havia um casal muito briguento, cujo marido a rabugenta esposa xingava de Pedro Piolho. Um dia, este ameaçou enterrá-la viva se continuasse a escarnecê-lo. Ao cumprir o prometido, a desgraçada alçara os braços para fora da cova, esfregando as unhas dos polegares, chamando-o Pedro Piolho através do gesto. Teimosia de bugre, teimosia de Deodato.

À cata de emprego, Deodato vagara de estância em estância, sem paradeiro, como bicho carpinteiro. Algum tempo fora arrieiro. Nas longas jornadas, conduzindo os muares, sentia ânsias de atirar-se aos peraus. Mas era um homem e não um miserável, tinha ânimo dos fortes e não se deixava vencer em luta que travasse. No pouso dos caminhos, com a saudade por companheira na barraquinha, via a imagem de Maria Rosa na prata da bomba do chimarrão, no lume do facão, no fogo da binga, na fumaça do palheiro. Arranjara-se, finalmente, numa estância adjacente, alojado num galpãozinho distante da sede. Na realidade, amava a casa verde e seu teto de estrelas. Já possuía um pingo, selim e pelego. Sabedor da inauguração de São Sebastião das Perdizes, arribou ao novo povoado. Calça de brim, camisa de algodão e botinas atestavam sua pobreza. Bem trajado, porque a maioria se constituía de maltrapilhos.

Naquela hora do encontro entre Antoninho e Maria Rosa, ofegante, teve uma tempestade interior e pensou com seu fiel facão: "um para o outro, dois até ver e três é correr". Ouvira o velho Jerôme, o sábio Jerôme, dizer que "com um homem e uma moça, se faz noivado e casamento; com dois homens e uma barra de saia, se arruma amarra de cipó e se faz uma cruz". Ensimesmado, a cara ensolarada sob o chapéu gasto, velando ciúme e despeito, Deodato se atolava nas mágoas da terra por um anjo do céu. E amor é número par — ímpar é desgraça na certa.

Antoninho e Maria Rosa estiveram novamente juntos dentro da igrejinha, um com o outro encantado. Se as imagens dos quadros da paixão de Cristo, pendurados nas paredes, tivessem vida, haveriam de se mexer admiradas quando Maria Rosa o convidou:

— Vamos ver quem reza primeiro dez ave-marias e dez padre-nossos?

— Quem perde paga um beijo!

O estalo escutado pelos santos dos oleogramas foi abafado pela voz do leiloeiro:

— Quem dá mais, quem dá mais, quem dá mais?!

— Quatro mil-réis!

— Dou-lhe uma, dou-lhe duas, e dou-lhe...

— Cinco mil-réis!

— Quem dá mais, quem dá mais, quem dá mais?!

— Dou-lhe uma, dou-lhe duas... dou-lhe... três!

Quem leva o peru é o coronel.

Gauchescamente imponente, vistoso, Rocha Alves parecia um galo de raça, um galo de briga. A festa da Trindade, a festa do Divino, não se realizava no Bituruna, mas os pobres o viam como se tivesse sido nomeado imperador por são João Maria. Outros festeiros se trajavam de modo mais ou menos idêntico, a maioria sem o poncho-pala. Nuns e noutros, o belo lenço vermelho se abria sobre o peito, como dois córregos de sangue. Elias de Morais, Eliazinho dos Santos, Chico Ventura, Alonso, Zebinho, eram também figuras de destaque e respeito, frutos da árvore mais alta do Bituruna, do último galho. Mas, pelo ideal, se igualavam com os mais modestos vaqueiros, com os mais modestos camponeses.

Longas tábuas estendidas sobre cavaletes, a mesa fora disposta num caramanchão de palha de bambu. Das taquaras da coberta pendiam folhas de xaxim e flâmulas de várias cores. No candente brasido da vala, fogão do churrasco, a carne estalava suculenta, aguçando o apetite com o aroma saboroso, trespassado pelos espetos. Leitões, cabritos e frangos foram assados em separado pelas mulheres, as quais também fabricaram vinho, cerveja com mel de abelha e garapa de canela.

Quando o sol estava em pé, como um polvo de fogo — cabeça no céu, tentáculos na terra —, o caramanchão abrigou os convivas vindos de todos os recantos.

E caboclo não come churrasco na mesa, de prato e talher. A sua mesa tem toalha de campina, seu prato é a palma da mão, seu garfo é de cinco dedos. Sob frondoso arbusto, senta no catre dos calcanhares.

No ajuntamento, à hora do banquete, destacavam-se os festeiros, o juiz, o promotor, o inspetor de quarteirão, frei Silvério e o rábula Tavares. Este morava em Canoinhas, muito distante de São Sebastião das Perdizes, onde chegara um dia antes da inauguração. Tinha certos interesses, ligações com alguns coronéis catarinenses, mas comungava com a crença de todos, adepto de são João Maria. A fama de sua oratória corria mundo. De rústica elegância, um tanto forçada e pedante, era vivíssimo e muito loquaz. Casimira à moda, vestia um terno escuro, paletó compridão de bolsos largos, bem abotoado colete exibindo a corrente de prata do cebolão, fina camisa listrada e de colarinho alto. Tinha sempre o porte ereto e parecia prestes a ser estrangulado pela gravata. Os sapatos brilhando. Viajara a cavalo e trouxera o traje na bagagem. A cabeça de cabelos abundantes, negros como os bigodes, e contrastando com a cor da pele, dava impressão de ser inclinada para trás. Lembrava um alazão fogoso empinado no cume duma colina.

A avozinha Querubina, esposa de Zebinho, chamara com voz de badaladas:

— Bastiana! Fidoca! Fermina! Se apinchem pra ponhar a bóia!

Afora o churrasco, foi servido em caldeirões, caçarolas e tigelas o assado de porco, cabrito e frango. Depois da comilança, a discurseira. Tavares soergueu-se sobre a cadeira de palha e, abrindo os braços em forma de cruz, levando uma das mãos ao peito, começou a oração:

— Excelentíssimo juiz de direito, excelentíssimo promotor público, reverendíssimo virtuosíssimo padre Silvério, meus senhores, minhas senhoras. Quis o destino implacável que fosse o mais humílimo servo de Deus, criador do céu e da terra, o escolhido para dirigir-vos a palavra neste momento da mais alta significação cívico-religiosa. Com a voz embargada pela emoção, o coração a transbordar de alegrias, não sei como cumprir a sagrada missão a mim confiada com tanta honraria desmerecida, se não me socorrer a Divina Providência, se não guiar meus passos nesta caminhada sacrossanta o nosso santo padroeiro são Sebastião, se não me estender a sua mão milagrosa são João Maria de Agostinho. Faltam-me as palavras, hoje mais do que nunca, e um misto de alegria e tristeza, de dor e prazer, me invade a alma ao dirigir a este povo católico e generoso que habita o Contestado, o verdadeiro Eldorado do mundo de amanhã, fértil Canaã, orgulho de Santa Catarina e quiçá na grandeza do Brasil. Com a alma em pranto e genuflexa venho, em primeiro lugar, render a minha sincera e comovida homenagem a esse intrépido e denodado trabalhador das causas justas: D. Manoel Alves de Assunção Rocha, o nosso mui estimado Rocha Alves! Deus, que está no céu, vê e cobre de bênçãos sua obra imperecível. Que são Sebastião nos livre da fome, da peste e da guerra! Curvo-me submisso a seus pés, ante a figura impoluta, caráter sem jaça, padrão de dignidade e honestidade. Levantar uma cidade santa, edificar um templo, é trabalhar por esta pátria amada, herança de D. Pedro I e D. Pedro II, embora tenha vingado o governo republicano. É dar consolo e alívio às almas torturadas e, ipso facto, é ver a esperança, ser reanimado pela fé, fortalecido pela confiança, é ver que o céu escuta as suas preces e atenderá todas as suas súplicas. A capacidade realizadora do povo catarinense ao construir esta cidade santa, próspera e bela, é uma prova insofismável de que o Contestado deve pertencer juris et jure ao Estado de Santa Catarina. Desta solução depende a ordem e a tranqüilidade. Não quero citar os nomes dos Camargos, dos Marcondes, dos Araújos, dos Paulas, dos Gordos, mas é tempo de o governo punir aqueles que fazem correr o sangue de nossos patrícios por causa de ambição de terras e mais terras. Penso que as terras devolutas deviam ser distribuídas aos nossos compatriotas, completamente esquecidos pela república. Não é mais possível tolerar a ganância dos coronéis, a usurpação e a jurisdição deste território pelo Estado do Paraná. É tempo de elevar os nossos pensamentos ao bom Deus e ao bom Jesus, unirmos nossas vozes num brado uníssono, que há de ser: — Execução da sentença ou morte! Que Deus acompanhe Rocha Alves! Que Deus Abençoe São Sebastião das Perdizes!

Salvas de tiros para o ar anunciaram o fim do "belíssimo" discurso.

Tavares suava como dia chuvoso, passava o lenço no rosto, e era felicitado, abraçado.

— Sujeito de pergaminho! — diziam os caipiras, com admiração.

Num ambiente de incontidas satisfações, horas prazerosas, festeiros e convivas devoraram a carne, o pão, a salada, a farinha e abundante bebida. Depois o banquete se repetiu, com a vez das mulheres e das crianças.

Entretempo, lá fora, os camponeses pobres, a maior parte esfarrapados, fincavam os espetos no chão sombreado pela cabana ou pelo arvoredo, agachados, fazendo ângulos com as pernas, curvo o espinhaço, joelhos em riste. Com o facão na destra, se lambuzavam sem cerimônias. Pés-rapados, pés-no-chão, pelados, como lhes chamavam os prepotentes, porque não possuíam terra, nem haveres, nem roupas. Constituíam a maioria presente, pois assim era o povo do riquíssimo Bituruna, da majestosa casa verde.

Também lá fora a conversa rodopiava e se elevava num remoinho de sons, com o capeta a fugir apavorado com tanta religiosidade. E fora o demo que escrevera pela mão do diretor do semanário Missões, editado em União da Vitória, que "a máquina de ferro é a civilização em marcha e só vem beneficiar a humanidade".

Lá fora, o inigualável Jerôme, o Jerôme sem vintém, e que tantos amigos tem, o Jerôme que todos querem bem, o bondoso Jerôme, viva imagem dos caipiras mais sábios e experimentados, mais desconfiados, um velho camponês de pés espalmados e largos como os de pato, um chefe pelado, adivinho, curandeiro, respeitado oráculo, pregava:

_ Civilização, nada! Só desgraceia o mundo. Quando não tinha disso, tudo vivia bem e era tempo de rei. Um home era home de verdade e honrava a barba da cara. Ninguém liga pra perdição das família. Num querem que os filhos respeitem os pais e os mais véios, querem roubar as muié dos outros e ter amantes. Ninguém mais se educa na palavra de Deus e faz o sinal da cruz. Nos bãos tempos do império se respeitava a lei de Cristo e os direitos de posse. Ninguém tomava as roças dos pobre. A lei dos rico é funil: larga pra cima, fina pra baixo. O governo só dá terras pros miseráveis, pras Lamber e pras gente da Oropa. O cumpadre João Maria vai aparecer de novo, promessa de santo é contrato selado no cartório. Maria Rosa já viu ele numa encruziada. É perciso pôr um fim nesse paradeiro!

Pelado, Jerôme era como os bugres, como os desocupados, como os agregados, como os pobres. Calça de brim pelas canelas, rota, remendada, marcada pelos tempos; camisa estraçalhada; paletó imundo rasgado, com o forro dos bolsos expostos pelas aberturas; e tudo grosso de sujeira. Pés no chão.

Um dos irmãos Colete, o fanfarrão de Curitibanos, que parecia antes estar fantasiado do que vestido de cavaleiro, quis contrariar a opinião de Jerôme, falando bem do trem e mal do governo de rei. Jerôme passou-lhe uma descompostura:            

— Uai! Mecê virô maquinista? Mecê num tá na festa do cumpadre João Maria? Será que virou ateu, também?

Em seu apoio, todos faziam ponto de interrogação com os olhos, com a cabeça, com o corpo.

Quando um castelhano quis falar mal do Brasil, afirmando que o pinheiral do Bituruna ia de graça para a Argentina, Jerôme replicou calmamente:

— Num faz mal, nóis tomamo tudo isso de vancês memo.

Em cada ajuntamento sempre se destacava um tipo idêntico a Jerôme.

Certo ancião de chapéu de palha, que fora andarilho, descambava a língua nos coronéis, na polícia e nos jagunços das companhias.

— Peludos! — uns exclamavam, com raiva.

— Miseráveis! — diziam outros, com desprezo. Explicava-se que todos os coronéis não eram peludos e miseráveis. Citava-se como exemplo o nome do coronel Henriquinho que, em Curitibanos, dava abrigo aos perseguidos pelo Albuquerque. O fato é que tal designação não se reservava a fazendeiros como Rocha Alves, Eliazinho dos Santos, Elias de Morais, Alonso, Chico Ventura, ou Zebinho.

— São homens de crença, não têm riqueza por riqueza — diziam deles os camponeses, revelando nos dedinhos de prosa tudo o que pensavam e o estado de espírito reinante.

De barriga cheia, a sesta acordou com o berreiro do leiloeiro.

Para a tarde, estava programada uma corrida de cavalos. Na chapada mais ampla, fora improvisado o hipódromo. Ou melhor: a raia. Na hora da largada, Marmelada e Fumaça resfolegavam, a expectativa doía nos nervos e inflava os peitos do público. Não havia quem não houvesse apostado, ou dinheiro contra dinheiro, ou objeto contra objeto.         

Manoel, filho do Zebinho, perderia um petiço para João Vieira. Antoninho ganharia um facão. Deodato ficaria sem a binga.

Com o coração também a galope, a assistência aguardava impaciente o sinal da partida: um tiro para o ar.

Segundos antes do estampido, Chico Pitoca gritou:

— Agora é que a porca torce o rabo!

Nem frei Silvério conseguia dominar a emoção: jogara o livro de rezas contra uma promessa de Maria Rosa.

Da risca imaginária, as éguas parelheiras dispararam numa chispa sem bridas, num tropel surdo, a casco de rebanho, abafado pela bulha da platéia alvoroçada. Rápidas como raios. Grudados como carrapatos no lombo dos animais, se agachavam Gidoca e Chandoca, voavam batendo com as pernas e os braços, enquanto as rosetas das esporas trituravam as virilhas das fogosas. Montaria a meio-pêlo: apenas um coxinilho cobria o espinhaço de Marmelada e Fumaça, que esvoaçaram de par a par no prado e passaram juntas pela marca da chegada.

De pronto nasceram as discussões, as desavenças. Uns achavam que Marmelada havia ganho por uma cabeça ou pelo focinho, outros argumentavam de modo exatamente contrário. Todos se achavam com direito a receber as apostas. Chico Taquara se exaltara e isso constituía um perigo. Chico Taquara, rei do cotejo, o rei do duelo caboclo, o invencível Chico Taquara. O facão de cabo de osso chegou a relampear no ar e o frege já ia se generalizar, não fora a intervenção de Rocha Alves e Frei Silvério. Mas, se não houve morte, foi milagre, intercessão de são João Maria!

— Ninguém ganhou, nem perdeu. Houve empate — declararam os pacificadores.

— Empate! — repetiam todos, insatisfeitos.

Depois que o sol afundara no taimbé do poente, a noite parecia uma negra baiana, como é a baiana enfeitada de colares, pulseiras, brincos, balangandãs, bata de rendas, alegre e sorridente. Então São Sebastião das Perdizes era um vilarejo celeste. Com estrelinhas coruscantes, hasteada a lua como bandeira, onde está bordada a imagem de São Jorge em seu alazão. As palhoças, as palmeiras, o pinheiral, a igrejinha, tudo um quadro emoldurado pelo vassoural, são Sebastião das Perdizes parecia pincelada pelos astros. Clareavam-na os raios de luz, em floco, como se fossem as barbas de João Maria. Tinha agora o aspecto de presépio e, na realidade, era um arraial santo.

Bruxuleantes lampiões a querosene, pendurados nas estacas, douravam com fiapos de lantejoulas o salão do fandango. Os moços faziam lembrar os filhos do Chico Santos que viraram tangarás. A alegria se alastrava como o fogo no campo. Todo mundo bailava, preto com branco, bugre com mulato. Caipira que não dança, não canta ou não é violeiro, então só se for curandeiro. Chique como um carrapicho, Antoninho vivia a noite mais feliz da existência, o que também sucedia a Maria Rosa, com sua pompa de arara. O acordeonista e o rabequista tocavam sempre as mesmas notas musicais, como bonecos de corda. Entre eles surgiu Jerôme, soprando a melodia num pedaço de pente envolto numa folha de laranjeira. Antes de começar a tocata, o salão ficava tomado de avançadas masculinas e, quando o rabequista encostava o instrumento ao queixo, se dava o estouro. Cada qual procurava chegar primeiro à preferida. Antoninho estava de olho na banda e em Maria Rosa, cocando-a. Ficava de perto, sempre disparado à frente de Deodato e outros pretendentes. Como eles, não tinha na mente a idéia do pecado. Dançava por prazer. Vibrava e se concentrava nos passos, não colava o corpo ao par, não proferia uma palavra e chegava a respirar com dificuldade. Tangará. Enrijecia-se, forcejava, segurava com firmeza a mão da graciosa companheirinha, gingava o braço para cima e para baixo e, com a outra mão, puxava, repuxava e amarrotava o vestidinho de chita estampada. Ora marchando, ora dando saltinhos ligeiros, rodopiava e coiceava o chão. Quando o xote alvoroçava o salão, o bater de pés levantava poeira.

Frei Silvério não teve medo do inferno e valsou uma moda com a negra Belarmina. O juiz e o promotor se encorujaram num canto da sala, palestrando com o rábula Tavares.

Bibiano, rapazote travesso e valente, excedendo-se na pinga, ia provocando um chinfrim ao jogar um toco de cigarro à mesa onde se encontravam os irmãos Sampaio. Zebinho apartou a briga, acalmando os exaltados.

A festa foi de arromba, deixou muito atrás as de Sinhana Bita, em Porto União da Vitória: nunca houve churrascada igual, nem em tempos de eleições.

Depois São Sebastião das Perdizes ficou deserta. Somente um pelado, um asceta, o Joaquim Bertolino, permaneceu num ranchinho de palha, aguardando o Juízo Final.

Rocha Alves fora o rei, e o povo sua corte. Enquanto não ressurgia o monge, era o chefe espiritual do Contestado.   

 

                       

Capítulo II

 

Coronéis viram contrafeitos as fazendas desertas no dia da festa, permitindo a contragosto a partida da peonada, da criadagem.

Não foi exatamente o que aconteceu na fazenda Chuva de Pedra, em que, desde a véspera, o coronel Petrônio se achava voluntariamente sozinho. Não de todo, mas sem a família que, há dias, mandara passar "uns tempos" na cidade.

Sozinho é modo de dizer. Fazia-lhe companhia na sombria mansão campestre a serva Dadá. Dadá, a que parecia mãe do mundo, a mãe de todos, a dona dos campos e da mata, a dona de tudo. Empregada de estimação, dessas que os suseranos querem tanto como aos animais que adulam e chicoteiam. Que seria dos filhos pequeninos daquele patrão enérgico se lhes não valesse a negra volumosa de olhos e dentes rebrilhantes? Era o "Dadá me acuda!" e a velha retinta saía afundando o soalho ao socorro das crianças, antes que o rabo de tatu se encharcasse de sangue nas costas das pobrezinhas. Só ela enfrentava o lobo, à toa enfurecido. Aquele senhor era um demônio que dominava pela violência e pelo terror. A ira faiscava em seus olhos, escorria-lhe no suor, rugia-lhe na voz. Dadá escorava-o por ser bondosa, embora o temesse. A patroa vivia apavorada, não ousava abrir a boca para contrariar a fera, muitas vezes proibida até de chorar uma lágrima, ou de fazer um movimento. Em duas ocasiões, apenas, pudera exibir em público as sedas, uma no clube, outra no teatro, mas à volta pagara caríssimo pelo prazer: a cada palavrão, dos quais cadela era o menos injurioso, recebia um potente murro na cabeça ou no rosto. Sem motivo algum, despertava o ciúme do soberbo marido. Escrava, apanhava como escrava: escrava por ser mulher. Não tinha um esposo, mas um proprietário, um algoz.

Dadá era feliz comparada à patroa, sentia-se livre, exprimia-se à vontade, tão simples, tão espontânea, bonacheirona. Assim eram as criadas, e pobres das patroas!

Dadá ficaria cuidando do velho solar de tábuas e telhas goivas, servindo ao régulo exigente, arrumando e limpando os cômodos, cozinhando, pondo a mesa e depois iria embora para o seu ranchinho.

Conceição tivera de permanecer na fazenda, pois Dadá não podia fazer tudo sozinha e, além disso, o coronel Petrônio a incumbira de fazer compras no dia seguinte. Alguém teria de ficar atendendo o bruto. Ainda que esse alguém fosse a despercebida Conceição, botão de flor da roça, Conceição órfã de pai e destino, menina lacaia, aquela menina tímida que chegara, descalça e maltrapilha, há menos de um ano à Chuva de Pedra. A mãe, viúva que se vira obrigada, como tantas outras, a dar os filhos para os ricos criarem, não podia deixar de confiar no compadre que lhe batizara a filha na "santa Igreja". Assim o destino da filhinha passou a depender do reputado coronel Petrônio, cuja honradez, se fosse posta em dúvida por algum audacioso, significaria prisão, morte.

Conceição temia-o instintivamente. Vivia amedrontada dentro daquela habitação maldita. Sentia-se desamparada e pressentia desgraças. Vivia calada ou então respondia às perguntas somente com monossílabos. Detestava o casarão, nos cantos do qual procurava evadir-se, escondendo-se, esquivando-se às vistas maldosas do coronel Petrônio.

Desabrochava a mulher, uma menina-moça. Sempre fugidia, esgueirando-se de cabeça baixa pelas paredes mal caiadas, procurava ocultar os encantos sob grosseiros e desajustados vestidos, a face graciosa sob o véu do medo. Quem a fitasse por um segundo descobriria um rosto realmente belo, animado por olhos escuros e arregalados, emoldurado por uma cabeleira negra, desgrenhada, agreste e suavemente envolvente como a mata noturna.

Dadá aprontara a mesa, e Conceição jantara a um canto da cozinha.

Depois, já sem as botas e bombachas, o coronel Petrônio chamou de dentro do quarto:

— Conceição!

— Pronto, padrinho — respondeu a afilhada, estremecendo.

— Venha cá.

E a porta do quarto fechou-se atrás da estarrecida menina que, numa noite de terror, numa noite de violência, numa noite de asco e de ódio tornou-se mulher.

De manhã, Conceição sentia-se enojada, revoltada, enferma do corpo e do espírito, como que morta, como flor que murcha, enquanto lá fora sobre a campina o dia desabrochava com o sol despetalando-se no céu.

Passados dias, a família chegou da cidade. Conceição tornou-se mais queda, mais esquiva, sentimentos de ódio e vingança crescendo desordenadamente no coração. Era ainda uma criança para saber como desejar o mal. Nunca o aprendeu, todavia.

Dadá rebelou-se, desconfiada de tudo, que bem conhecia o íntimo comum desses suseranos. Tinha bastante experiência e conhecimento do mundo. Nem se deve falar de sua própria filha atirada aos lupanares mais sórdidos e imundos dos bairros sombrios das cidades grandes. Um dia, quando ouviu o coronel Petrônio dizer à patroa "Conceição está ficando moça, vou arranjar um marido para ela", percebeu-lhe a trama. Deodato veio à sede da Chuva de Pedra, apresentado como noivo à Conceição.

Pobre da patroa e das crianças! Nunca sofreu tanto. Dadá desapareceu da fazenda, levando Conceição. O coronel Petrônio passara o diabo para trás, de tão ruim que ficou.

Dadá foi procurar o delegado, o juiz e o promotor. Tudo em vão.

— É mentira da menina. Nunca fale para ninguém uma coisa dessas. O coronel Petrônio que não saiba, é um homem tão bom, tão honesto, devo a ele a minha autoridade...

O juiz e o promotor fingiram não acreditar na história do estupro. Ninguém tinha coragem de comentar o caso.

Por ordem do coronel Petrônio, Dadá acabou pagando os insultos na cadeia. Conceição ficou junto dela durante três dias, mas à noite pousava noutra cela em companhia do cabo. Foi solta sozinha, justamente no primeiro dia em que ganhou dinheiro para dormir com um homem. Ninguém a queria como empregada — mal falada, as senhoras olhando-a desconfiadas, com raiva e desdém, os homens com cobiça mal dissimulada. Pouco a pouco, tornara-se fútil, faceira, gostava de conquistar os machos, atraindo-os ao pecado, à traição, num desejo patente de vindita.

Quando voltou à Chuva de Pedra a mando do coronel Petrônio, estava disposta a casar-se com um noivo arranjado às pressas, livrando da prisão a vilipendiada, a mamãe Dadá, a dona dos campos e da mata, a dona de tudo, criadeira dos filhos de amos, obrigada a cozinhar para os presos e os soldados.      

                       

            Visita dos Santos Reis

1.º

São chegados os três reis

Só da parte do oriente

Visitar do Deus menino

Salve Deus onipotente

Azul e branco pertence ao céu

As cinco chagas do corpo de Cristo.

2.º

No céu Cristo no presépio

Dando ao mundo assunção

Que tudo corre dela

Rendendo-lhe adoração.

3.º

Acordai vestais dormindo

O som da madrugada

Receber os santos reis

Que do oriente são chegado.

4.º

Aí vem o Espírito Santo

Vem o doce refrigério

Que os nossos males adoce

Divino Espírito Santo

Consolai vossos devotos

Quando deste mundo flor.

5.º

Três anjos da paz

Era o sábio mediador

Eis o emblema da inocência.

Eis o fruto do amor

Azul e branco pertence ao céu

As cinco chagas do corpo de Cristo.

(Poesia encontrada no patuá de um fanático.)

 

 

Capítulo III

 

Em ondas de prosa, espumadas de boatos, as notícias inundaram o Bituruna.

Ressuscitara João Maria de Agostinho! Reaparecera o monge! Santo não morre. O monge estava no Paraná!

Não. Não se tratava de João Maria, o Bom Jesus, mas do seu irmão são José Maria, informavam os que o haviam visto.

— Falso monge! — exclamavam com indisfarçável desgosto os "miseráveis", fazendo coro com frei Silvério.

Falso ou verdadeiro?

Vivendo sua provação, estava na cadeia, preso como qualquer larápio.

— Que sacrilégio! — diziam espantadas as aldeãs.

Constava que seu nome real era Miguel Lucena de Boa Ventura e que fora indisciplinado praça do Exército, além de cabo desertor da Polícia Militar do Paraná. Alguns atribuíam o rancor à farda e à caserna como conseqüência dos maus tratos que, na época, sofriam os soldados.

Sagrara uma fonte, na qual algumas donzelas se banhavam despidas. Um antigo general, o comandante da colônia militar de Chapecó, mandou-o escoltado a Palmas, a cidade-fazenda do oeste, a cidade das palmeiras.

No estreito cubículo, o frio navalhava as carnes dos desgraçados. Um ancião amanhecera enregelado e o cadáver custara a ser removido da cela vizinha. Completamente nu, estirado no assoalho imundo, um louco silenciara após a bordoada desferida pelo cabo. A tuberculose pastava-lhe o peito.

Dentro da masmorra era sempre noite, vedada a entrada do sol, agitador da Liberdade. Apenas uma vela, ardendo sob pequenino oratório, alumiava aquelas caras farpentas, escorridas de cansaço, marcadas de fundas olheiras.

Boa Ventura, o monge, são José Maria, era anjo da guarda a velar pelos infelizes no pardieiro. Gravara indelével na memória todas as passagens da obra mais lida e admirada na casa verde: A história de Carlos Magno e dos doze pares de França. Às narrativas estapafúrdias, apócrifas, acrescentava as que imaginava, mais fantásticas ainda. Com tal fertilidade inventava façanhas para os seus heróis que faria inveja ao autor desconhecido.

Era um caboclo, um plebeu, um asceta, um eremita, um curandeiro.

— Monge!

Relera a Bíblia, catecismos e livros de rezas. Fascinado pela vida dos santos, principalmente pela do antecessor, João Maria de Agostinho, não resistiu à tentação de imitar-lhe o exemplo. Dizem que uma das causas disso era o desgosto de ser leprosa a família. Ninguém sabe. Iniciara-se como são Manoel, mas acabou homenageando e tomando o nome do pai de Jesus, seguido pelo da Imaculada.

— Monge José Maria!

De boca fechada, fungando, o beiço superior saliente como se tivesse a língua sobre os dentes, os olhos perscrutavam argutos e vigilantes. Tratara dos ferimentos de Andrade, banhando-os com urina e mentruz. Acalmou-o com uma sentença do sermão da montanha: "Bem-aventurados os que têm sede de justiça, porque serão saciados."       

Posseiro, Andrade fora escorraçado de seu lote por um bando de facínoras. Os corpos de sua mulher e sua filhinha ficaram plantados sob as cinzas da choça de palmito, fixando e contrapondo o seu direito. Escapara à degola, por milagre. Fugira matando um jagunço e fora preso pela polícia de Palmas. Não lhe deceparam as orelhas ou o sexo, apenas teve raspados os cabelos, sob o chuveiro gelado. Antes de conhecer José Maria, se mostrava pessimista e eram suas expressões como "urubu infeliz até na loja se atola; cabra manca, morro abaixo faz viagem; tudo que eu possuía, o diabo fugiu com o saco; gente ruim existe mais que pau torto e bicho-de-pé; quanto mais magro, mais carrapato nas costas; a terra é como a mãe, depois que se perde, o valor aparece". Agora já falava noutro tom: "desgraça pouca é bobagem; num macho amarrado, pau nele; quem sofre é mudo, mas tormenta sem ronco vai mais água; muitas cruzes cabem ainda nas veredas..."

Escarranchado num canto daquela câmara mortuária, no centro de uma ferradura humana, formada por homens agachados, José Maria operava maravilhas. Incutia-lhes ânimo, fortalecia-lhes o espírito. Transportava-os a um mundo de sonhos, como se fora um liame entre a realidade e a fantasia. Amenizava-lhes a vida de sofrimentos. Alma brasileira, candura e alegria se expandiam no falar de devaneio. Mas seus olhos, tintos de terra, eram profundos: duas cacimbas com minas de lágrimas no fundo. A luz transmudava-se em prata na meia-lua de cãs que lhe contornava o rosto, coroando-lhe o queixo. A fronte serena revelava claramente uma inaproveitada inteligência e muita sabedoria, fronte que se apoiava ao nodoso nariz como a um cajado reconhecedor do terreno para a errante fisionomia... Com as pernas estiradas, uma por baixo da outra, fazia uma cruz. Sob as abas do chapéu de coco alto como cúpula de igreja, tufos de cabelos agrilhoados escapuliam para as planuras do pescoço e para os morros das orelhas. Com amplas mangas a avançarem sobre as mãos benzedeiras, o camisolão de gola aberta no peito lhe envolvia o tronco abaulado, caindo sobre os joelhos. José Maria era gordo e atarracado, de tamanho médio e de membros curtos e grossos. Tinha um bando de papagaios na garganta e não parava de palrar:

— Para mim é grandeza esta penitência. Minha jornada é longa e não tem fim. Eu sou como a batatinha e o chuchu, com qualquer quantidade de sal. Comigo é no cepo! Sou homem que cuspo e não lambo. O que digo, digo; não é papo, nem bico; mostro a estampa como espelho. Não estou aqui de escoteiro. Tenho que cumprir uma missão sagrada. Eu mato a cobra e mostro o pau! Já tirei muita gente da cama da morte. A verdade é terra suja e água limpa. Não tenho medo de sentença de forca. Vou sair daqui, debaixo duma coroa, com ordem de Deus. Digam, meus filhos: querem ouvir outra história de um nobre par de França?

— Queremos sim, são José! E o moço trancafiado recentemente ajuntou:

— Quem são os doze pares de França?

Aceso nos olhos de José Maria, um fogacho de entusiasmo correu-lhe as barbas, quando explicou:

— Os doze pares de França foram vinte e quatro valorosos cavaleiros servidores de Carlos Magno, que nunca conheceram o medo. Quem do medo corre, de medo morre. Eram Roldão, conde de Cenóbia, filho de Berta, irmã de Carlos Magno e do duque de Milão; Oliveiros, filho do duque Regnier de Hens; Guarim, duque de Lorena; Gui de Borgonha; Ricarte, duque de Normandia; Tietri, duque de Dardânia; Lamberto, príncipe de Bruxelas; Urgel de Danoá, rei de Dória; Guadeboa, rei de Frísia; Hoel, conde do Nantes; Neme, duque de Baviera; Jofre, senhor de Bordéus; Bonfim de Gênova; Galalão, que no fim foi um traidor; e outros que não me lembro o nome agora.      

Como ninguém o interrompesse, prosseguiu arrebatado:

— Vou dizer como era o jeito do imperador Carlos Magno, que viveu defendendo o cristianismo, em luta contra os turcos e os infiéis.

Imaginando-se como o rei, que cultuava, arregalando os olhos, repetia o trecho que sabia de cor:

Turpim, homem santo e arcebispo de Roma, que andou muito tempo em companhia de Carlos Magno, diz que ele era homem de corpo grande, bem nutrido, forte e proporcionado de membros muito ligeiros, feroz no olhar, tinha cara larga, e trazia continuamente a barba do comprimento de um palmo; os cabelos negros, o nariz rombo e chato, a presença era muito respeitável, os olhos como de leão, e um tanto vermelhos e reluzentes, as pestanas e sobrancelhas declinantes a roxas; se estava raivoso, só com os olhos espantava; o cinto com que se cingia tinha oito palmos de comprido; era largo de costas, grosso das pernas e tinha grandes pés. O seu comer era três vezes ao dia, e pouco pão; porém, comia ao jantar um quarto de carneiro, ou duas galinhas; a ceia era caça assada; bebia três vezes ao dia, porém pouca água. Tinha grande força: muitas vezes o viram partir capacetes de ferro, até com os dentes, e isto de um só golpe, e, estando a cavalo, levantava com um só braço um homem armado até o igualar com a sua cabeça. Tinha três condições virtuosas: a primeira, premiar bem quem o merecia; a segunda era fazer a todos igual justiça, sem que alguém se queixasse; a terceira, ouvir e responder a todos com paciência, manso e pacifico no falar e repreender.

Sentia que se ajustava à descrição e que os ouvintes o confrontavam com Carlos Magno, e isto o enchia de contentamento. Pachorrento, continuava:

— Em poucas badaladas eu conto o causo. Sou eu o filho do meu pai e da minha mãe. Eu sou grande! Sou homem de fala curta e conhecimento comprido. Na praça de festas de Paris, quando toda a corte estava presente com a sua magnificência, quando todos os melhores cavaleiros e príncipes atenderam ao chamado das justas em honra a Carlos Magno, quando os pares derrotaram todos os seus adversários, causando inveja aos estrangeiros, entrou por uma porta um cavaleiro gigante, com armas pretas e tendo no escudo um cipreste com a raiz para baixo, do comprimento que a árvore tinha para cima, e uma inscrição: "Se o corpo cresce agigantado / As raízes do afeto, que se oculta, / São do mesmo tamanho da estatura." Chegou no meio da praça, no seu cavalo baio ricamente arreado, e provocou em voz alta aquele que quisesse defender a amada contra a sua formosa Galiana. "Galiana não é mais bela que a minha Angélica!", gritou um cavaleiro elegante que entrava pela outra porta, montado num cavalo cheio de ouro e pedras de brilhante, trazendo um escudo com o desenho de um girassol inclinado para uma angélica, com os dizeres: "Nem de olhar para ti / Deixo de ser girassol." O primeiro cavaleiro era um mensageiro que durante duas horas lutou com Roldão, o mais conhecido dos pares, sendo por ele batido sobre a terra.

Com pasmo, deslumbrados, os detentos ouviram a singular narrativa, admirando as "belas palavras" de José Maria. Nele, cada um via Carlos Magno e, em si próprio, um par de França.

Aberta a porta da cela, um vento fantasmal assomou, arrastando no chão a capa sinistra, apagou a vela e flagelou os presos, que rangeram os dentes. Agasalhado à repolho, um balofo sargento de cara estanhada, vindo com o dia nas costas, projetando a sombra que parecia alma do frio e, interrompendo José Maria, vociferou:

— Monge, pode dar o pira, antes que a borracha cante. E acrescentou: — É ordem do delegado.

O carcereiro, sujeito chuchado das bruxas, pescoço de varapau, se admirou de ver aqueles párias ajoelhados, chorando aos pés de quem, para ele, não passava de um esmolambado. Todos se lembravam do que há pouco dissera:           

— Vou sair daqui, debaixo duma coroa, com ordem de Deus.

Palmas se agitara desde que fora aprisionado José Maria. Era comum ouvir vozes em sua defesa, afirmando que só fazia o bem e pregava a caridade, pois se tratava de um irmão de João Maria. Corriam boatos de que Miguel Fragoso, velho maragato que se estabelecera no Irani, na fazenda do comendador Santos, capitalista no Rio de Janeiro, tratara de reunir gente para vir à cidade exigir a liberdade do monge. Dizia tratar-se de elemento perigoso, com experiências nos campos de batalha, que militara nas forças federalistas no posto de coronel. O próprio prefeito combinou com o delegado, ambos ávidos de eleitores, e temerosos, a soltura de José Maria.

Farnel de trapizongas, o sacrário, uma caixinha de madeira com a imagem de Nossa Senhora de Abadia, os olhos enuviados e marejados, depois de abençoar os companheiros, José Maria partiu de espeque a percorrer trilhas ignotas, alvoroçando, fascinando os moradores da casa verde. Também amava a casa verde, de telhado de estrelas, chão atapetado de campos e matas, rampas de colinas e montanhas, paredes no horizonte.

— João, José e Maria, são assim como o Padre, o Filho e o Espírito Santo — respondia quando lhe perguntavam se era o próprio João Maria de Agostinho, ou um seu irmão.

Naquele tempo, nos bosques araucarianos, era comum o aparecimento de andarilhos a se arvorarem em profetas. Viam neles um misto de gente e fantasma. Ter visões, lá, não constituía vesânia, mas coisa normal, corriqueira. Comentavam-se muitos casos. Uma mulher fora ao galarim da fama, cognominada Flor de Pureza. Outra, se dera a conhecer como Maria Santíssima, cujo filho, Menino Jesus, reinava no andor das procissões. Um tal de Plácides dizia que era o próprio João Maria de Agostinho, o Bom Jesus, mas acabara desacreditado e desprezado como um "falso monge". Outros ascetas também glória efêmera tiveram: são Miguel, nhô Dodô e Bandeirinha.

Mas nenhum alcançou José Maria no caminho da celebridade, sumiram em seus rastos de luz.

Feridos nas farpas das sendas inóspitas, os pés de José Maria recebiam curativos piedosos dos arroios.

Na zona da mata, o sol era um gorro de prata sobre a carapinha verde do Bituruna. José Maria palmilhara o terreno e penetrara nas grotas fundas das montanhas. As feras lhe respeitavam a divindade... Errante. Uma força indomável o impelia para a frente. Guiava-o, como a um cego, o experimentado bordão. O andar marcava compasso de marcha estremecendo o sertão.

Do alto das serranias, divisava a zona dos campos, a planície recamada de restingas e bosques de pinheiros, que se estende ondulada para o sul. Faces enrijecidas pelo cansaço e pelas privações, semelhava, lá em cima, uma alma do outro mundo, o pai, o espírito da floresta.

E seguiu com o vento...

Num dia gélido do mês de junho de 1912, José Maria se abrigou numa cabana situada nos domínios de um antigo fazendeiro. Logo se mudou para a propriedade do crente Chico de Almeida, em Campos Novos. Não tendo recursos para atender a numerosa clientela, recebeu donativos para entulhar o galpãozinho de panacéias. Elixir de Nogueira, Bristol, Capilus, xaropes, preparados homeopáticos, latinhas de pomadas, pacotinhos de ervas sobravam em sua farmácia ambulante. Como atraísse levas de prosélitos, José Maria fez nascer o despeito e a inveja dos boticários das vilas mais próximas. O de Curitibanos chamava-o de charlatão, bandido e falso monge. Mas já não havia quem não possuísse uma cópia da oração redigida por José Maria, tamanho o seu prestígio.(4)

Numa segunda-feira, dia apropriado, José Maria foi à hospitaleira residência do Chico de Almeida a fim de defumá-la:

— Deixe que eu dou uma vassourada em sua casa, em nome da Divina Providência, eu dou! É uma navalhada, corta tudo.            

Pediu uma telha e brasas, explicando que estas teriam de arder sobre aquela:

— A natureza é barro e barro nós somos, viemos da terra, com a terra vivemos, e para a terra vamos. E começaram os trabalhos.

— Fechem os olhos, bem fechados, até verem a imagem de um crucifixo brilhante — disse, a transbordar fé, acendendo uma vela e pondo incenso no braseiro, fumaçando o recinto.

Inspirava pena, a rezar fervorosamente, ciente de que fazia um grande bem ao próximo. E caiu em transe, possuído de um terremoto. Com afinco, se esforçava para se concentrar. Gemendo palavras como Sacrossantíssima Diviníssima Divindade, Sagrados Evangelhos, passou a declamar com ardor:

João Batista, Batista João,

a quem batizou Jesus

nas águas do Jordão.

João Batista, Batista João!

Que jogue os males desta casa

nas águas salgadas da Oceania,

onde o galo não canta,

onde não tem pão nem vinho.

João Batista, Batista João,

Batista, Batista, Batista,

João Batista, Batista João!

O camisolão ficou banhado de suor. Depois de assopros e assobios, já com o corpo livre do espírito, bebeu um copo d'água para acalmar-se e acabar a tremedeira. Enlevado, soltava as bridas da língua:

— Como eu sou feliz por poder contar com a Divina Providência, para fazer bem aos meus irmãos que sofrem! É uma coisa maravilhosamente sacrossanta! A inveja e os males nunca mais entrarão nesta casa. Expulsei pelas janelas. Comigo não tem subida, é tudo plano. Como eu sou reconhecido ao Criador. Para mim, tudo isso é uma grandeza muito grande.

Acrescentou, desvanecido:

— Eu sou verdadeiro como espelho. Eu sou mais caro. Fiquei satisfeito, meu peito encheu de carbono. Vote, caninana!

A família do velho Chico de Almeida ficou agradecida.

Na manhã seguinte, houve enorme afluência ao tugúrio. Basta dizer que uma ponta de gado foi varada pelos espetos, sobre o braseiro da vala estreita, aberta no chão. Ao primeiro paciente, inteirinho icterícia, cara de girassol, José Maria ensinou a infalível simpatia:

— Vista uma roupa amarela pelo avesso, deite de costas na grama e mande cortar nela a sua silhueta. O sol chupa a doença. Se não chover, sara.

Deparando um menino de braço quebrado, José Maria moeu carvão, misturou à gemada e passou cuidadosamente no membro que encanou com bambu. Pai e mãe agradeceram de joelhos a graça recebida. Tratou das varizes de uma anciã apenas com vinho e azeite. A ferida de uma rapariga, com ungüento azeite rosado, cera bela, flor e esterco de cavalo. Para torceduras, fervia água numa vasilha, virava-a de borco numa bacia e punha sobre aquela uma tesoura aberta em cruz. Munindo-se de pano, fio e agulha, "costurava" o mal, enquanto eram pronunciadas as seguinte palavras:

— O que é que você tem?

— Destroncado.

— Destroncado mesmo eu coso. Coso nervo torto, carne amaguada e osso quebrado.

O diálogo se repetia mais duas vezes, tendo José Maria de responder durante a primeira e a segunda vez, respectivamente: "coso carne amaguada, osso quebrado e nervo torto" e "coso osso quebrado, nervo torto e carne amaguada".          

De maneira idêntica, curava sapinho. Empunhava um facão, uma vara de assa-peixe e, cortando-a, dialogava:

— O que é que você tem?

— Sapinho.

— Sapinho mesmo eu corto. Corto o rabo, cabeça e meio.

Depois de dizer, na última vez, "corto o meio, o rabo e a cabeça", colocava o ramo para secar ao fumeiro do fogo.

Sentado na cepa do cômodo exíguo, pés nus na terra fria, receitou para uma criança de narinas em bica, dirigindo-se à mãe:

— A senhora dê chá de jasmim. Amarre um cachorro e não dê comida durante três dias. Colha a titica branca, coe e prepare a bebida. A tosse comprida fica curta e some.

Ao moço que tinha um pano amarrado à cabeça com o nó debaixo do queixo, recomendou:

— Esquente uma colher de pau no fogo e encoste no inchaço. Amarre com uma pele de toicinho e, depois de vinte e quatro horas, enterre a pele num formigueiro. É um tiro para cachumba.

Medicina matuta.

O camponês vive como pode, abandonado, naquele isolamento que acelera o mundo a marcha à ré. Na sua máquina de tempo, à Wells, vive no passado, na Idade Média brasileira, às voltas com barões e ascetas da miséria. Não tinha culpa daquele atraso. Se não houvesse latifúndio, sesmaria; e se tivesse o domínio da casa verde; se para habitá-la não pagasse o pesado tributo da meia, da terça, tudo seria diferente. Haveria produção e riqueza, desenvolver-se-iam a pecuária, a agricultura, o comércio, as finanças, e cidades cachimbentas fumegariam naquelas plagas, assinalando uma era de prosperidade. Ninguém mendigaria emprego, sem profissão e sem residência fixa. Não haveria um plebeu a errar pelos caminhos. Mas os governos nem sequer cogitavam de uma reforma agrária e tinham os olhos fechados para o Bituruna.            

Não ouviam os reclamos dos homens da roça. Essa a causa da estagnação da economia, daquele isolamento e alheamento à civilização. Muitas e muitas léguas de terrenos incultos, inaproveitados, a separarem, umas das outras, as pequeninas cidades de pinho, adormecidas à sombra das araucárias. Vida monótona, vegetativa, sem horizontes. Vida social primitiva. Absolutamente nada de novo. Sempre os mesmos ventos. Campos e campos a se estenderem à medida que o viajor avançava em seu cavalo. Estrada carroçável deserta, espremida por cercas de taipas, marcando as divisas das vastas estâncias. Comércio precaríssimo, com trocas à base de sal e boi gordo. Na vila paralítica, apenas alguns casebres, ferraria, boteco, balcãozinho de farmácia, porta de barbearia, a ermida no ponto mais alto, um barracão de tábuas feito Grande Hotel, e, às vezes, modesto teatrinho, de madeira, com frisas e camarotes, funcionando aos sábados e domingos. Nem padaria, açougue, nem olaria. Nunca a locomotiva fendendo as campanhas, nunca a máquina revirando a terra. Jamais o sermão profético do apito da fábrica. Raros engenhos de beneficiamento de madeira, mate e fumo — um tiquinho de progresso. O mercado único do litoral, quase inacessível. Nas pouquíssimas escolinhas, funcionando em paióis espalhados pelos extensos municípios, havia falta de mestres, de lousa, de livros, de cadernos, de lápis, e até de alunos, porque as crianças roçavam e pastoreavam. O professor tinha de pertencer à facção política dominante. Hospital não existia. As endemias se alastravam livremente, como as hordas de bandoleiros.

Na tribo, o médico é o pajé. Para o matuto, o médico e o pajé são o curandeiro. José Maria curava também bicheira, benzendo-a.(5)

Se algum enfermo expirava em suas mãos, José Maria se justificava a contento:         

— Quando Deus chama, o doente sobe da cama.

Após as consultas, José Maria passou a narrar passagens de vida de Cristo e aventuras de Carlos Magno e seus pares de França. A certa altura, a voz se tornou mais alta, mais forte, emocionada:

— Vou contar como era a carta. Prestem atenção! Pareceu-me uma noite que via diante de minha cama, uma mulher, admiravelmente formosa, a qual me dizia: "Constantino, muitas vezes tens rogado a Deus que te desse ajuda contra os turcos, que possuem a Terra Santa. Pois se tanto o desejas, faze isto que te digo: procura ter da tua parte Carlos Magno", e mostrou-me um cavaleiro armado de vistosas armas, com uma espada na cinta, e uma grossa lança na mão direita, de cujo ferro saíam muitos raios de fogo, e era o seu rosto muito belo, formoso e bem disposto de corpo, a barba crescida, os olhos reluzentes, e os seus cabelos começavam a embranquecer. Ó augusto que nunca te apartas dos Mandamentos de Deus: Alegra-te em Jesus Cristo, e lhe dá graças de todo o coração; ama a justiça, como tens sido nomeado na honra, para que Deus te dê perseverança do bem.

Enlevado, arrematou a história:

— Foi assim que Carlos Magno recebeu as chaves do Santo Sepulcro e chorou como uma criança porque o Santo Sepulcro estava nas mãos dos infiéis.

À tarde, chegou ao tugúrio uma comitiva vinda do município de Curitibanos, onde predominava a autoridade do coronel Albuquerque. Lideravam-na, além de Praxedes, proprietário de uma casa de negócios, os rancheiros Chico Ventura, Cirino do Sul e Joaquim Vidal.

A idéia surgira na venda de Praxedes. Gralha, um pelado muito falador, ao aproximar-se do balcão, pediu:               

— Mecê me dá uma garrafa de pinga, um pacote de erva, um rolo de fumo, cem réis de banha, e meio quilo de feijão.

Na mesinha do canto, Venuto Baiano, Castelhano, Coco e Gidoca disputavam uma partida de truco, enquanto lá fora outros jogavam malha, esporte no qual Taquara era certeiro.

Chico Ventura chegou e começou a fazer estardalhaço, dizendo que Rocha Alves, coadjuvado por Alonso e Elias de Morais, tratava de levar José Maria para São Sebastião das Perdizes.

— Isto não é coisa que se permita — interrompeu Zé Tigre.

— Vamos tomar a dianteira e trazer o compadre pra cá — sugeriu Praxedes, o que foi aprovado por todos.

Naquele instante, foi constituída uma comissão que deveria, no dia seguinte, levar o convite a José Maria.

— A bênção — suplicaram os cavaleiros, tilintando as esporas.

— Deus abençoe vocês, meus filhos. Eu já tinha recebido aviso do Alto, que vinham me buscar para fundar meu reinado de mil anos sobre a face da terra. Vou formar uma cruzada contra os infiéis, porque há de haver uma Guerra Santa contra os miseráveis, os exploradores dos cristãos. Vou lutar como Carlos Magno.

O monge, impressionando a todos os presentes, formulou um pedido, de modo imperativo:

— Quem me seguir vai entrar no céu, nem que tenha mil pecados. O arrependimento limpa tudo. Quem não me enxergou ainda? Quem tem olhos e não vê, não é cego, é asno. Me acompanhem quem quiser a salvação e a lei de Cristo. Aqueles que seguem a Deus, se peguem comigo.

— Eu vou, eu vou, eu vou, eu também vou — repetiam as vozes.       

Em todos céus do Bituruna, soou o apelo do messias caboclo.

No outro dia, após o chimarrão, rezas por despedida, juntara as trapizongas, a farmácia ambulante, e partira a cumprir a missão sagrada. Uma caravana passava pelos campos, orando e entoando ladainhas num coro de vozes desafinadas, lamurientas, desencontradas. Uma romaria. Engrossava à medida que se aproximava do destino. Uma procissão herética de oprimidos. À frente, o condutor e seu cajado, ladeado pelos cavaleiros e, formando a cauda, uma leva de maltrapilhos.

— Fanáticos!

— Pelados!

Amedrontados, os miseráveis espiavam de longe.

A casa verde se iluminava. Estremecia o Bituruna. Encontrara um monge verdadeiro, o libertador, o escolhido, o salvador, José Maria, o revoltoso.         

           

           

Capítulo IV

 

Taquaruçu é uma flor dourada. É o peregrino riacho feito monge de barbas de espumas, bordão de pedras. É o acampamento rebelde. É, afinal, a rancharia tosca tremulando ao vento, como pendão da terra. Arraial-bandeira. Bandeira rota, mas gloriosa, espalmada no chão ondulado.

Taquaruçu é uma aquarela camponesa, de tintas nativas, pinceladas por um sol sempre esplendoroso. Capital revolucionária dos oprimidos.

Taquaruçu é uma pinha de taperas — pau, palha, taipa. Guarida de camponeses escorraçados. Gente cansada da servidão e farta de misérias, sedenta de justiça. Gente que, na ânsia de libertação, antecipa o futuro na mente, julgando-se numa nova Idade de Ouro, num paraíso terrestre criado por um mensageiro divino. Gente que vive os desejos, confundindo a fantasia com a realidade.

Taquaruçu é um clamor, um grito de socorro, um lamento. Bisbilho do córrego. Mas é sinal de luta tocado no tamboril, soprado no chifre de boi. É o caboclo empunhando facões de guamirim e lanças de bambu, contra o latifúndio, resistindo ao coronelismo, defendendo as riquezas da pátria. Rota esperança, negro vislumbre.

Terra do monge, Taquaruçu é profecia.          

— Reduto — diziam as autoridades em Curitibanos, porém a palavra nascera espontânea na boca da caipirada.

O povoado desabotoara como um roseiral na primavera. Os adeptos de José Maria chegavam com a família e traziam o que restava dos haveres. A trouxa, cabrita, meia dúzia de aves. Algumas vezes, uma ponta de reses, uma vara de suínos. Muitos vinham em visita a Taquaruçu, entre eles Rocha Alves, Alonso, Tavares.

Taquaruçu é a Meca e a Jerusalém do sertão, capital dos pelados. José Maria — o seu Profeta, o Cristo Redivivo.

Afora Eliazinho dos Santos, Chico e Guilherme Ventura, Elias de Morais, Zebinho, Cirino do Sul, Joaquim Vidal e alguns rancheiros arruinados, o grosso da população se compunha de peões e agregados, estes e aqueles confundidos com posseiros, tropeiros, tarefeiros, plebeus, operários sem serviço — antes empregados nas companhias. Isto explica o ódio devotado às empresas estrangeiras e a coronéis como o Albuquerque, e à república por ele representada.

Camponeses que escapavam vivos às masmorras se refugiavam em Taquaruçu e traziam, de triste lembrança, cara e cabeça raspadas a navalha, justificando a pecha infamante:

— Pelados!

Questão de higiene, para evitar a proliferação de piolhos, a raspagem acabou se tornando um habito no reduto.

— Fanáticos! — diziam com assombro os janotas das cidades.

Centenas de pessoas ouviam narrativas bíblicas, histórias romanescas de Carlos Magno e seus pares, prédicas, preces.

Certa manhã, vindo a mando do coronel Albuquerque, deus-sol de Curitibanos, deputado estadual, chegou ao reduto um capanga com uma ordem para José Maria. Que fosse imediatamente a Curitibanos, à casa do prepotente chefete, a fim de atender uma enferma.  

Na roda do chimarrão, Zebinho, Rocha Alves, Alonso, Praxedes e Augusto Moreira — o que sabia ler e escrever —, todos aprovaram a altiva e inspirada resposta ao insolente:

— Diga a seu amo que venha e traga a doente. Minha igreja é a verdadeira. Eu também posso calçar o chão com ouro e tive quinze anos de escola. Eu sou mais caro! Agora que me enxergaram? Não há nada de novo debaixo do sol. Sou eu quem pode remover a pedra do sepulcro. No meu reino, soldado é general, coronel é recruta. Minha justiça não é justiça de sapo, rato e carrapato. Se quiser pedir perdão aos pobres e a Deus, eu perdôo e recebo no meu rebanho, mas tem que ter arrependimento verdadeiro das desgraças que vem causando ao povo.

O lacaio meteu as esporas no baio, chispou.

No dia seguinte, toda Curitibanos comentava o fato. A afronta, o desafio à autoridade do bigodudo mandão. O boticário exultou e esticou a língua pela cidade. Inchava o peito e iscava a matilha de ódios:

— Coronel, esse falso monge é um charlatão anarquista. Se fosse santo, respeitaria um homem como o senhor, que é justiceiro e competente. Nosso grande deputado. Ele quer desmoralizar o governo e os bons padres. Não entende nada de remédios, não é curandeiro: é um feiticeiro.

O boticário falou tanto e fez tal campanha que Curitibanos só se ocupava com o acontecimento. Num riso, o coronel Albuquerque via oculta a mofa, num cochicho, a alusão escarnecedora. Gritava com todo mundo, por qualquer motivo mandava gente para a cadeia. Ai de quem não tirasse o chapéu em sua frente. Não satisfeito com o que mandava o delegado fazer, o que nomeara, acabou trazendo a Curitibanos um forte contingente policial comandado pelo próprio chefe de polícia com o fito de atacar Taquaruçu e prender o desaforado.     

Mas a mata tem olhos e ouvidos, e José Maria enxergava o que se passava em Curitibanos, estava a par dos preparativos bélicos.

Outrora, no Bituruna, havia necessidade de proteger o rebanho de cavalos e mulas da aproximação dos baguais selvagens que transviavam a manada para o pampa, e os cavaleiros sulinos se punham em guarda, rondando e sondando. Eram estes os chamados bombeiros. E bombeiro passara a significar espião.

Jerôme, o velho pelado Jerôme, cumpria a tarefa de bombeiro: ia vender mel e rapadura em Curitibanos e chegava a Taquaruçu com a cesta cheia de notícias.

Além dos soldados, contando com os Pires e os Coletes, o coronel Albuquerque assalariava capangas para destruir e arrasar Taquaruçu.

Vaqueanos eram chamados esses capangas, termo que significava guias, pois como guias eram contratados.

Antes do incidente com o coronel Albuquerque, Taquaruçu tinha apenas o aspecto de um aldeamento bíblico. O mais eram rezas e procissões. Com a igrejinha ao centro, o largo do povoado fora demarcado quadrilateralmente pelas santas cruzes, uma em cada ângulo, formando o quadro santo onde os sacros ofícios se transformavam em comícios. José Maria relatava as façanhas de Carlos Magno e dos doze pares de França, profetizava, aconselhava, receitava. Ali batizava, unia seres em matrimônio, exorcizava, celebrava missas.

Afora aquelas já citadas personalidades, primeiras na hierarquia do sertão, a começar por Rocha Alves, também lá estavam em Taquaruçu muitos dos que haviam de se destacar nas defesas dos vários redutos. João Vieira, Andrade — o que fugira da cadeia —, Leandro Palma, Pitoca, Pedro Teles, Taquara, Castelhano, Gralha, Delfino Pontes, cada qual mais convicto e decidido.         

Fanáticas eram as mulheres, entes cujas vidas consistiam em carregar crianças nuas nos colos, engravidar, rezar e cantar ladainhas. Transfiguravam-se genuflexas. Oravam como quem se lamenta, cantavam esganiçando as vozes. Querubina impunha respeito e comandava as rezas. Zefa agitava o povo, gesticulando e falando impropérios, descalça e esfarrapada. Conceição, que viera pela mão de Dadá, chamava atenção pelos requebros, faceira, lânguida, apetitosa... Mas as que deslumbravam eram as virgens. As inspiradas, as que tinham poder divino. Principalmente Maria Rosa. Sua companheira, Dorinha, ainda criança, era neta de Zebinho e Querubina. Uma caboclinha franzina, de cabelos lisos, pele embaciada, corpo esguio, pés disformes, ventre intumescido. Ambas nunca viram cartilha, lápis ou papel: só conheciam o céu e a mata. Sabiam campear o gado, ordenhar vaca, usar espingarda, cozinhar moranga e fazer rapadura. Ambas recebiam recados dos santos, dos anjos, e não se sabe se os pares não sentiam ciúmes.

Pressentindo que a ira do coronel Albuquerque acabaria em guerra, José Maria tratou de tomar providências e insuflar o povo. Às seis da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde, como de costume, já as prédicas se tornavam mais violentas. Anatematizava a república como o regime dos opressores, que legalizava a pilhagem, reconhecia as sesmarias, doava lotes aos estrangeiros e enormes áreas às companhias.

— República chefiada pelo coronel Albuquerque! — exclamava indignado.

Achava-se capaz de instaurar um reino milenar de felicidades, sentia-se predestinado a seguir o exemplo de Carlos Magno. Algumas vezes se via invadido por aquela sensação de peregrino, um impulso dentro do peito, e caminhava precípite por todo o reduto, sem saber por quê, com desejo de correr mundo. Angustiado, a respiração ofegante, empalidecia e suava frio. Tinha uma nebulosa de pensamentos no cérebro e de sentimentos no coração. Passava as noites rezando, clamando pela proteção divina.

Um dia, vestido à Carlos Magno, segundo supunha, com o camisolão branco e enorme facão à cintura, reunido o povo no quadro santo, recebeu sobre a cabeça grisalha uma coroa de folha. Foi simples a cerimônia. José Maria se ajoelhou e Maria Rosa lhe disse:

— Em nome de Deus, de são Sebastião, de são João Maria e de todos os santos, proclamo o senhor José Maria o nosso imperador!

Salvas de tiros, gritos de aclamação, marcaram o acontecimento.

Visto assim imponente, garboso, magnífico, não se poderia condená-lo com aquelas informações dos missivistas que importunavam os jornais: "José Maria procede de um contingente procedente das ilhas das Cobras, foi soldado do 4.º esquadrão, no 71 do 14.º regimento de cavalaria", "trata-se de um agitador, homem de instintos guerreiros, verdadeiramente indomável, é um índio com talvez 58 anos de idade, estatura elevada, barba ampla, cabelos caindo sobre os ombros, magro, direito, e é natural de Bom Jesus da Vacaria, fazia parte das tropas de Juca Tigre, foi muito denodado e respeitado".

Ao findar uma oração, em ação de graças, José Maria anunciou a formação duma guarda de honra: os doze pares de França. Escolheu-os entre os caboclos mais robustos e valentes, distribuindo-lhes as melhores armas e os mais velozes corcéis. Por par entendia uma dupla, e assim a guarda se constituiu de vinte e quatro aguerridos cavaleiros. Comandavam-nos Leandro Palma e José Tigre, o corneteiro. Antoninho e Deodato estavam entre eles, e também Andrade, para vingar a família morta e ressuscitar seus direitos. Cada um dos pares recebeu das mãos de José Maria uma oração que os tornava invulneráveis às balas inimigas, invencíveis. Andrade tinha-a no patuá.(6)

Após desfilarem os doze pares de França, dando três voltas no quadro santo e tendo à frente as virgens, José Maria anunciou a composição de seu governo:

— Em nome da monarquia e de Jesus Salvador, nomeio Zebinho, secretário-geral do Governo; Chico Ventura, ministro da Guerra; Praxedes, ministro da Fazenda; Joaquim Vidal, ministro da Agricultura; e, Alonso, comandante geral!

Foi um alvoroço no reduto. Ressoavam salvas de tiros, toque de caixas, buzinas de chifre, vozes se elevaram aos céus.

— Viva são José Maria!

— Viva a monarquia!

— Bendito seja o Senhor.

— Ai, Jesus, Maria, José.

— Amém, Jusuis...

— As leis de Deus vão imperar na face da terra.

— Estão se acabando os peludos.

— Inhô, sim.

Antes, desempenhavam funções apenas Elias de Morais, juiz de paz e comandante das rezas, e Augusto Moreira, o escrivão. Este, sabendo ler e escrever, também redigia cartas e orações. José Maria distribuía bênçãos aos nubentes, enquanto Elias de Morais celebrava o matrimônio. Assistindo à cerimônia, Antoninho e Maria Rosa trocavam olhares comprometidos, ardentes, contratando núpcias. Não casavam por não terem ainda pedido o consentimento do monge. Ela era uma virgem, santinha de Taquaruçu, não se pertencia. Os noivos vinham a cavalo, no quadro santo, acompanhados pelos padrinhos, escoltados pelos doze pares de França. Apeavam e se ajoelhavam aos pés da cruz de santo Antônio. Augusto Moreira, o escrivão, fazia uma cruz nas costas das mãos dos noivos, e Elias de Morais os declarava marido e mulher. Antoninho e Maria Rosa viviam, cheios de desejos, o acontecimento, e se uniam em pensamento. Deodato, magoado, despeitado, esposava a vingança.

Ainda naquela tarde, Chico Taquara ganhou o posto de comandante dos entreveros e Jerôme o de ajudante do comando geral.

Nabor, o mulato Nabor, trouxera a chirua Zabela, a que ria fácil, contente da vida. Zabela ouvira dizer que os filhos dos pobres haveriam de ter o que comer e o que vestir. Era essa a razão de sua obsessão. Mas, para que nasceu a negra, senão para lavar a roupa dos ricos nas pedras do arroio, e criar rebentos raquíticos que herdam trabalho e miséria? Consolando-se, repetia: "que tem, mói; quem não tem, mói da mesma forma, porque no fim todos ficarão iguais". Refugiara-se em Taquaruçu e, com as outras mulheres, levantara em volta do reduto uma formidável muralha de ladainhas.

Nabor, o capitão Nabor, tinha por missão arrebanhar o gado e trazê-lo para o acampamento. Cumpria o encargo com persuasão ou com violência, de acordo com as circunstâncias. Travava tiroteio com guardas de jagunços, mas o piquete sempre voltava ileso. Valente de fato, tornou-se o terror dos fazendeiros e sua gente. Nervos e ossos frinchavam-lhe a pele descarnada. Magro, de braços e pernas longas, e o paletó enorme, os canos altos das botas aumentavam-lhe o tamanho. A energia morava-lhe nos olhos fortes, vibrantes, como dois brilhantes a coruscarem numa poça, olhos a refulgirem sob um chapelão de boiadeiro, cujas abas formavam um triângulo com a ponta caída sobre o nariz de fornalhas. Olhos lá no fundo. E sob a camisa, aberta à altura do peito, a medalha de Nossa Senhora das Graças.   

Jamais deixava faltar a bóia em Taquaruçu, fosse como fosse.

Chico Taquara realmente lembrava o bambu, tão alto, tão seco. Um pêndulo. Claro e de bigodes cor de palha. Levara, até agora, a vida erradia do agregado, a choupana gravitando ao redor da rústica mansão do estancieiro. A terça na roça de milho e feijão, alguma rês no pasto do patrão, duas ou três porcas no chiqueiro. Andava com a mudança nas costas: saco, botijas, a prole na cauda. Montava casa num upa: uma cabana de palmito mobiliada com tocos de cangerena e meia dúzia de tábuas. Sabia lidar o gado, livrar os terneiros de vermes, marcá-los quando faziam dois anos, castrar os touros aos quatro e deixá-los engordar no capim mimoso. Sempre fora mais peão que tropeiro, apesar de inconstante como cajado de monge. Usava botinas, um lenço rubro ao pescoço, possuía um morzelo e gozava merecidamente a fama de valente. Um dos mais respeitados na casa verde. Certa vez, respondera júri, porém fora absolvido, segundo decidiu o conselho de sentença: "por ter praticado o crime com privação dos sentidos e da inteligência". Temido, tinha um prestígio sem conta. Bom na faca e no tiro, muitas lendas corriam a seu respeito. Trabalhador e chefe de família.

Assim acontecia com Chico Taquara, o comandante do entrevero. Particularmente, ele atribuía as próprias façanhas à oração de são Jorge, que rezava em segredo, antes e até no momento do cotejo.(7)

Surpreso e comovido ficou Jerôme, ajudante do comando geral! Embora curandeiro, adivinho, oráculo, não previra tamanha honraria. Falhara pela primeira vez... Mas José Maria sabia fazer justiça. Jerôme era um autêntico chefe pelado. Aos pobres, como ele próprio, inspirava confiança paternal. Viúvo, com os filhos correndo o mundo que gira eternamente, tornara-se solitário. Mal conhecia netos e bisnetos. Uns tempos tentara a sorte de posseiro, ocupando pequenino lote, porém um coronel mandara expulsá-lo e oferecer-lhe sete palmos de terra. Isto aconteceu quando camponeses agraciados com títulos de domínio do imperador D. Pedro I, por atos de bravura na Guerra do Paraguai, foram despejados como intrusos. As companhias e os coronéis tinham fome canina das riquezas do Bituruna. Ora chegavam os vaqueanos, ora os soldados, repetindo-se as cenas de vandalismo. Casas e roças queimadas, a criação roubada, homens torturados, mulheres violentadas. Sem a esposa, que morrera por ocasião de um parto, Jerôme tinha um palácio em Taquaruçu. Palácio, sim. Castelo de tatu é a toca, e Jerôme gostava de seu ranchinho sem, ao menos, uma tarimba. Exibia uma generosidade encantadora. Gostava da bicharada e dormia no chão, com uma porção de gatos friorentos, além do cachorro Trabuco, o que latia preguiça e vivia com os fuços no esterco. Com a sua nomeação, a massa delirou. José Maria dedicou-lhe uma oração que se tornou obrigatória para todos.(8)

Entre enfermos, rancheiros arruinados, agregados, arrieiros, tarefeiros, havia mais de setecentas pessoas em Taquaruçu, sem somar aquela criançada raquítica que comia terra em frente aos casebres, sem contar os que vinham em visita.

Taquaruçu nascera como uma greve, uma resistência, uma festa de espoliados. Homens e mulheres abandonavam os serviços nas fazendas, nas roças, nas matas, nas serrarias onde só recebiam vales que não chegavam para pagar os armazéns e das quais dificilmente podiam escapar, iludindo a vigilância da guarda especial.

As reivindicações de Taquaruçu ultrapassavam os limites da realidade, porém as de caráter econômico tinham raízes no solo. Não contavam em programa, em manifesto, mas estavam escritas no próprio ar.

O ministro da Fazenda organizou um abaixo-assinado para angariar fundos e pedindo a instauração do regime monárquico.            

Encabeçaram-no os ministros e Rocha Alves. Mil e tantas assinaturas, em cruz, foram colhidas.

Apesar de tudo, Praxedes, que era um comerciante, titubeava. Não se sentia encorajado a abandonar os bens e a propriedade. Havia pago adiantado uma grande encomenda que fizera a uma firma de Florianópolis: repetições, cartuchos, sal, fazendas, armarinhos. Sabia que, a casco de mula, o transporte demoraria, mas precisava recebê-la. Frei Silvério foi ter com ele em sua casa de negócios e o advertiu:

— Cuidado com o coronel Albuquerque. Está brabo como uma onça. Você pode se arruinar seguindo esse falso monge. Isso não é santo, nada: isso é santo do pau-oco.

Medo não. Mas segui-lo a outras plagas, também não.

De repente, o arraial estava em pé-de-guerra.

Taquara exercitando o povo no entrevero. Rufavam tambores de pinho e bexiga de boi. Buzinas tocavam formação, ataque e retirada. Nos intervalos, José Maria chamava os matutos, se agachava e narrava feitos imaginários de Carlos Magno e dos doze pares de França, que venciam monstros e gigantes, em defesa da religião e do império. No quadro santo, sucediam-se missas, comícios, marche-marche, combates simulados. Os cavaleiros armados com lanças de taquara e os infantes com facões de guamirim. A maioria não possuía arma de verdade. Mas o ódio munia a rebelião. Transparecia nos gritos:

— Entra, peludo!

— Ai, miserável!

— Tá morrendo, desgraçado!

— Pé-redondo é churrasco no ferro branco!

Agora as reivindicações não pairavam apenas no ar mas também nas pontas das lanças e facões, e bordados em forma de cruz nas bandeiras. O revoltoso sublevara o povo.      

No meio do quadro santo havia uma igrejinha, mas tudo se passou lá fora. A multidão de prosélitos fora disposta de modo que os homens ficassem separados das mulheres, e as crianças dos adultos. Rei caboclo, imponente, majestoso, José Maria chegou com as virgens, uma em cada lado, escoltado pelos doze pares de França. Montados em belos corcéis, arreados a gosto, fizeram três voltas na praça, sob estrondosa aclamação. Apeavam em cada canto do quadrilátero, para beijar as cruzes. Quando o revoltoso falou, o sol ardia nos rostos bronzeados. Sucediam-se-lhe as idéias como relâmpagos. Em pé, defronte à cruz, se lembrava das grutas distantes, das longas caminhadas, da fadiga, da fome, do frio nas manhãs de geada, do ardume das feridas abertas nos pés. Rememorizava cenas de horror que presenciara: famílias de camponeses massacradas por facínoras. Homens que não empunhavam armas, e sim cabo de enxadas, que tombavam atirados pelas costas, surrados a cacetadas e coronhadas. Homens com nariz amputado, orelhas decepadas. Ou ferroviários morrendo nas tendas infectas dos acampamentos. Ouvia gritos estertorosos de mães, choros de crianças, lamentações. Via-se na prisão, a pão e água. Transfigurava-se. Com as mãos crispadas, lançando meteoros pelos olhos, falava como se governasse o universo:

— É preciso fazer penitência! É preciso que todos os que querem o fim da injustiça e querem ganhar o céu façam parte do meu exército sagrado. Ai daqueles que não me ouvirem e obedecerem, que são inimigos dos dez mandamentos, que vivem desgraçando e torturando os pobres, que roubam as terras e põem fogo nos ranchos dos bugres. Farei uma guerra santa chover raios sobre as leis da república, reduzindo castelos a tapera. Vou fazer a humanidade feliz, implantando a monarquia no mundo e governando os meus povos com as leis divinas. Vou varrer os peludos da face da terra! Os meus povos devem vir em minha companhia para verem as pedras de Curitibanos chorarem sangue! Não vou deixar pedra sobre pedra. Uma bola de fogo vai aparecer no céu e matar os miseráveis. Vou fazer os miseráveis chorarem brasas. Os irmãos de crença que tombarem na minha santa cruzada, ressuscitarão e viverão no meu reino, terão a vida eterna. Estamos no século da liberdade, não pode haver mais escravidão. Farei uma lei de terras, distribuindo lotes aos pobres. Quem for meu soldado, não precisa de dinheiro, nem riqueza, nem orgulho. Um homem não deve viver à custa do outro. Ninguém deve possuir mais do que o próximo. Cada um deve viver do trabalho das próprias mãos. Isto aqui também é uma igreja. Não valem nada os sacramentos dos padres, amigos dos peludos. A consciência é a bíblia verdadeira. Não quero o sangue, mas o sangue será derramado, porque haverá fome, peste e guerra. Meus povos serão protegidos pelo manto sagrado de Nossa Senhora!

O sermão foi uma chispa de fogo a acordar e a estremecer o sertão.

Para José Maria, matuto no modo e nas concepções, o Bituruna era o mundo, a vasta casa verde universal. Curitibanos, vilarejo situado no alto duma colina, por ser a sede do município e da comarca, covil do coronel Albuquerque, afigurava-se-lhe o baluarte republicano, capital dos peludos. Ficava a doze léguas de Campos Novos, alcançada por caminho de muar, com uma população de quinhentas e tantas pessoas. Possuía dois prédios de tijolos, um do coronel Albuquerque e outro do doutor promotor, além duma centena de casinholas com os fundos em hortaliças contornadas por árvores frutíferas. Toda de pinho. No edifício do coronel Albuquerque funcionava a câmara de vereadores e a polícia.

Não obstante a ação do boticário, havia lá muito adepto de José Maria. Só os dependentes, os lacaios, eram partidários do coronel Albuquerque. Não pouca gente procurava dissimular, a fim de evitar perseguições. Seu principal adversário político, o coronel Henriquinho, abrigava em sua fazenda Floresta inúmeros injustiçados do município. Ainda entre os habitantes de posse de Curitibanos, vários seguiam o revoltoso. Como Paulino Pereira, talvez o comerciante de maior prestígio no lugar. Outros como Chico Pires e Alfredo Colete, coronelões e fanfarroneiros, pensavam em usufruir vantagens com a situação e faziam planos de aliciar gente para receber dinheiro do governo. O primeiro, campeão da gabolice, jactancioso; o segundo, ótimo bebedor de pinga, trovador-sanfoneiro. Ambos pretensamente valentes, exibindo coragem na vestimenta, no espalhafato. Este último, crescendo em importância, queria dirigir a política no município. Fora peão, mas enriquecera ao casar com uma viúva riquíssima, e agora possuía fazenda nas imediações do lugar chamado Corisco.

Nem do Bituruna Curitibanos era centro.

Mas o mundo do pelado não é tão grande, nem uma bola. Limitado por rios, matas e montanhas, termina num brejo imenso, num perau sem fundo. Em cima, o céu; embaixo, o inferno. O mundo é a terra, o rancho, a chirua, o capiau. Abrangia, apenas, os povoados mais próximos.

Os monges profetizaram a guerra. De fato, o mundo inteiro se agitava no prelúdio de grande catástrofe. Produzindo em excesso ou desprovidos de matérias-primas, os países imperialistas cogitavam da conquista, pilhagem e partilha do globo. Os povos almejavam a paz, mas os governos traiam os povos.

No Brasil, onde se abolira a escravidão e se passara à servidão, o saque se processava por meios suasórios. Taquaruçu é uma resistência, mas o mundo do pelado é o Bituruna, a guerra do pelado é a guerra do Contestado. Se em Curitiba e Florianópolis só os poderosos e os protegidos para si legalizavam as terras, se o poder público doava lotes aos imigrantes recém-chegados da Europa, se a União concedia enormes áreas à Lumber e à Railway, esta fazendo a medição a seu modo, como por cobro à situação, senão com uma santa cruzada?

Mas o que importava em Curitibanos era a desforra do coronel Albuquerque, a vindita do boticário.

Com a sucessão dos tiroteios e o crescimento da agitação, Bischap, o gringo diretor da Lumber, telegrafava a Deus e ao diabo. "Taquaruçu é uma ameaça permanente, exigimos providências imediatas." Os da Railway antecediam Bischap. União da Vitória, Palmas, Curitibanos, Três Barras, Caçador, Lages, Canoinhas e outras cidades fediam de polícia. O coronel Fabrício, proprietário da fazenda Chapéu do Sol, com seus vaqueanos, se empregara como governo do Paraná. Chegara de Ponta Grossa e reunira sua gente em União da Vitória, em cujas cercanias tinha a estância. Tropas do Exército já se faziam representar na repressão ao movimento. Em Curitiba, o jornal dos Camargos, A República, órgão do Partido Republicano Paranaense, estampara em sua primeira página o artigo: "O dia", com os subtítulos "Aqui e lá fora", "O Levante de Curitibanos". De início, dizia:

Habituado às intempestivas mutações que se operam na política e até mesmo na vida social deste país, verdadeira boite de surprise, o povo não mais estranha fatos como o de Curitibanos, que está determinando providências do governo no intuito de abafar esse movimento ao qual se pretende dar um caráter de ameaça às instituições.

O povo observa e ri, pois acha, impossível que tamanha agitação bélica tenha só por fim bater um bando de caboclos fanatizados e que, se armados, terão quando muito armas de tipo primitivo, talvez caçadeiras e as vulgares pistolas de sertanejo.

E, após outras considerações, concluía o comentário:             

A insídia, se houver nessa questão, não apanhará desprevenido o Paraná, que está convencido de haver um segundo fim em todo esse aparelhamento para debelar um levante que, a ser real, não reveste importância alguma.

Os bombeiros levavam as novas a Taquaruçu. Homens que vendiam mel, mulheres que vendiam paçoca. José Maria espetava um ataque. Tinha ciência dos preparativos, da presença também em Caçador de dois contingentes federais de cavalaria. Ante a iminência de fatal desfecho, numa tarde fria e nebulosa do mês de setembro de 1912, durante a concentração da tardezinha, consultou as virgens, ambas ladeadas pelos doze pares de França:

— Virgens do meu reino, quais são as ordens dos santos? Maria Rosa respondeu:

— Vai começar uma grande guerra, com muita fome e peste. Os peludos vêm vindo com o fogo do inferno. As famílias devem ir pra casa e ficar escondidas, pros peludos não assassinarem os inocentes. São Sebastião e São Jorge ficarão defendendo o reduto. Siô José Maria vai viajar de Taquaruçu, levando o trono sagrado pelo mundo.

A mocinha pitonisa, a virgem, de branco como uma noiva, exprimira os pensamentos e os desejos dos chefes pelados. E seguiria com o monge e com os doze pares de França, pois entre estes estava Antoninho, que formava do lado de Deodato, ambos atrás dos comandantes Palma e Zé Tigre.

Na manhã seguinte, Taquaruçu estava deserta, abandonada. Quando a polícia e a jagunçada chegaram, o coronel Albuquerque e o boticário ficaram decepcionados. Sem vítimas, ninguém pôde relatar proezas em Curitibanos. Era como se não tivesse havido nada.         

Disperso entre os casebres de rachões de pinho pelos campos, na sua vida habitual, o povo fingia ignorar os acontecimentos, de bico calado. Quando, no caminho, o coronel Albuquerque indagou a um ancião de largo chapéu de palha e que usava bordão, um compadre de José Maria, se sabia onde estava o "falso monge", logrou a resposta:

— Uai! Tem farso monge por aqui? Nunca vi um, tinha vontade de vê...

Como o interlocutor desejava saber qual o caminho para o Taquaruçu, o camponês esticou o beiço e ensinou:

— É ali. Vancê vira pra riba, dá num pau oco, desce pra direita, pega um xaxim, quebra uma légua e meia, passa um mato, vê um pinheiro torto, dobra e vai direito...

José Maria estava longe, evitara as matanças do coronel Albuquerque, despistara a polícia e, rumando para o sul e do sul para o oeste, chegara a passar pelas barbas do décimo quarto regimento, que tinha sede em Caçador. Dorinha ficara, mas Maria Rosa acompanhava o monge e seus pares. À beira dos arroios, nos capões de mato, apeavam da animália, comiam e rezavam. Farofa e pinhão cozido não faltavam. Jerôme e outros faziam a pé o trajeto. Na longa jornada, Antoninho carregava o oratório e Deodato empunhava a bandeira da "santa cruzada", à frente dos "nobres cavaleiros", cujos comandantes ladeavam o monge e a virgem. Lá atrás, sombra do dono, o cachorro Trabuco, língua estirada entre os dentes.

Quando se encontrava em território jurisdicionado pelo Paraná, José Maria recebeu num pouso o influente posseiro Miguel Fragoso, velho conhecido que forçara sua liberdade quando ainda se achava recluso, e que o convidou a estabelecer acampamento em Irani, a quinze léguas da cidade de Palmas. Foi lá que, num terreno cercado por matas e cortado de sangas, capões e contrafortes da serra Taquara Verde, entre os rios Chapecozinho, Jacutinga e Uruguai, se formou o aldeamento.    

 

                       

CAPÍTULO V

 

União da Vitória fora sempre uma cidade tranqüila. Construída de pinho, casas em forma de caixas, telhados cônicos, uma porta e janelões de frente, um em cada sala, estas separadas pelo corredor. As primeiras moradias eram cobertas de palha ou tabuinhas, mas o violeiro Guaraú, fundador do lugarejo, fabricara as primeiras telhas porque de sapateiro se transformara em oleiro. Achavam-na bela, sobrançada pelo "grande de Curitiba", o Iguaçu, e circundada de serras, linda com o Tem que Ver, lugar de deslumbrante panorama. Distava bastante das mais próximas, ligada por estrada de centenas de quilômetros. Mas União da Vitória desfrutava de excelente situação geográfica, entroncamento rodoferroviário.

Entreposto de comércio — diziam satisfeitos os fregueses dos bares da rua 15 ou da barbearia e bilhar da Prudente de Morais. A falada Estrada Estratégica ia dali para Palmas.

A vida do povo transcorria calmamente, apesar de passada aquela época em que só se atravessava o Iguaçu pela balsa e as mercadorias desciam pelo rio em lanchas e canoas. Os cargueiros que levavam sal e outros artigos para Palmas já não eram mais alvo de ataque dos botocudos. Ainda se comentava muito a vida do coronel Amazonas, prefeito durante apenas trinta anos.   

Ele preocupava-se com o testamento que constantemente modificava. Levara anos a redigir o intróito, no qual pretendia demonstrar a alta linhagem da família. Começara o trabalho no dia em que chegou à sua casa o primeiro piano de União da Vitória. Nos dias de tocata, lá se reuniam as mocinhas, todas candidatas do concurso de beleza do semanário Missões. Rosinha, Cecília, Edwiges, Zizinha e outras. Nessas ocasiões, gostava de exibir aos convidados o honroso documento firmado pelos membros da Comissão Brasileira para a Demarcação de Limites entre o Brasil e a Argentina, que consistia nuns versos compostos por alguém que assinara F. de Castro e que, geralmente, a professora Leocadinha declamava:

O progresso é uma força que não pára,

Está no alto mar, está no Sahara,

Em toda parte está,

Gravitando co'os céus, voa co'os ventos

E dilatando a esfera aos pensamentos

A luz também lhes dá.

— Espírito trabalhador — difundia sua opinião sobre ele o escrivão, a preparar a erva na cuia.

Nas rodas de chimarrão, formadas nos bares, no fórum, na farmácia e nas residências dos coronéis, falava-se muito nele e no progresso de União da Vitória. E também no preço do gado, da madeira, em requerimentos de terras devolutas ocupadas por intrusos, nos novos vapores Tupi e Brasil, na fábrica de cerveja Rio Branco, situada no bairro de Tocos, na instalação do município de São Pedro de Malet, na nomeação do fazendeiro Marcondes como tenente-coronel da 24.ª Brigada da Cavalaria da Guarda Nacional. Vez ou outra, eram lembrados nos bate-papos as enchentes do Iguaçu.

Recordava-se freqüentemente a passagem do profeta João Maria. Não só o comerciante Serafim, "entendido na arte de curar", comparecia ao morro da Cruz e sim toda a população pobre ia lá fazer promessas, render graças, rezar e acender velas. Tal espetáculo não agradava a frei Silvério, o prestigioso capuchinho invejava o monge. Embora se tornasse também figura lendária. Tinha poderes. Certa vez, um comerciante que estava com um olho muito inchado e inflamado, chamou-o para curar um filho. Quando frei Silvério chegou, lhe disse:

— Padre, meu piá está tentado.

— Vamos ver.

O moço amarrado, frei Silvério fez uma prece e perguntou:

— Quantos demônios tem?

O franciscano orava, benzia e tornava a indagar:

— Quantos demônios tem?

— Três.

Repetia a pergunta e obtinha nova resposta:

— Um!

— Em nome de Deus, saia!

Frei Silvério curou o menino apenas com sua presença e a ladainha de todos os santos. A mãe informou a origem da doença do filho:

— Ele teve isso na encruzilhada...

Então o capuchinho passou a benzer o olho do comerciante por sinal — muito usurário. Tanto que se recusara a tomar uma assinatura do semanário local, alegando que não podia "porque estava com o olho inchado e inflamado". O poeta do jornal se vingou e publicou uns versos numa das páginas:      

Se a comissão conhecesse

A força desse usurário

Punha-lhe logo, na cola

O nosso amado vigário.

Garanto que o reverendo

O olho bom consertava

Deixando-lhe o outro olho

No jeito que já estava.

Frei Silvério tomava parte nas maiores festas da cidade, mas achava que o povo não gostava de missa e sim de divertir-se. Além disso, havia sempre a maçonaria. Esbaldava-se contando casos de desgraças sucedidas a maçons, porém sentia de retorno a campanha. Mas as duas festas da cidade eram católicas. Uma, a sua; outra, a de Sinhana Bita, no bairro de Tocos, onde também havia churrasco, foguetório, fandango e chinfrim. Todavia, nada se comparava àquela que realizava em louvor de Nossa Senhora da Vitória, a santa padroeira. Que felicidade ver o povo se preparando, as damas de caridade angariando prendas, as senhorinhas costurando vestidos, os moços encomendando fatiotas. Mestres Pepe e Leopoldino levavam meses ensaiando marchas, valsinhas, maxixes e dobrados. Cada qual procurava executar mais perfeitamente a "Cabocla do Caxangá". Tudo alegria, risos, flores. Frei Silvério galgava no seu manso burrinho o morro da igrejinha e, dos alforjes pendurados nos arreios, tirava as alfaias para os santos ofícios. Os coroinhas bimbalhavam os sinos que chamavam o povaréu. Mais importante que a missa e a novena, era a quermesse.

O assunto mais palpitante de União da Vitória vinha sendo o do litígio de fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina. Isso desde o tempo da inauguração da ponte e dos "inspirados versos do professor Serapião". Os moradores alimentavam a esperança de que a cidade seria a capital do Estado das Missões, que haveria de ser formado pelo território entre os rios Iguaçu e Negro; a sudeste, a serra do Mar, seus contrafortes e o rio das Canoas; ao sul, o Uruguai; e a oeste os rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio. Fundou-se em 1911 a Junta Governativa do Estado das Missões, composta pelos coronéis Amazonas e Cleve, além dos representantes de Palmas, Clevelândia e Rio Negro. O Dr. Silva, o intelectual considerado grande escritor e jornalista, fundara o hebdomadário Missões, que defendia a causa. Há pouco tempo, provocara sensação o artigo em sua primeira página:

É o seguinte o profundo excerto poético que a população desta cidade aclamou como o Hino das Missões e que, reza a lenda, foi a inspiração sublime de um brasileiro ferido no campo da batalha que ao lhe ser amputada uma perna, proferiu-o num rasgo admirável de eloqüência:

Ou morre o homem na luta

Feliz, coberto de glória,

Ou surge o homem com vida,

Mostrando em cada ferida

O hino de uma vitória...

O governo do Paraná firmara um pacto com a junta: se o Supremo Tribunal desse ganho de causa a Santa Catarina, a Comissão de Limites apoiaria aquelas pretensões. Mas, nas sessões do clube Apolo, presididas pelo Dr. Silva, antes das declamações, os discursos defendiam os direitos do Paraná sobre aquela "região dadivosa com que Deus aquinhoou a brava gente das verdejantes araucárias".

— Missões, capital União da Vitória — diziam consigo próprios os fazendeiros, os comerciantes, os moradores.      

Até entre os coronéis, a exemplo do que ocorria noutras cidades do Bituruna, havia descontentamento e críticas ao governo da União, por ter cedido áreas à Lumber e à Railway. Mas os camponeses pobres se queixavam de tudo e de todos. Disso e das doações aos imigrantes polacos, alemães e italianos; disso e da ganância dos coronéis. Realizavam-se sessões de câmaras só com o objetivo de doar lotes aos colonos, o que desgostava os esquecidos matutos. Nos botecos, bebendo pinga, jogando truco, adeptos do monge relembravam os motins dos operários da estrada de ferro, por falta de pagamento de salários e, deplorando a atual situação, soltavam a língua contra a república. Os comerciantes e os coronéis se regozijavam com a criação de coletorias paranaenses no vale do rio do Peixe, mas se mostravam insatisfeitos com a intromissão catarineta no vale do Timbó.

Dizia-se:

— Os barrigas-verdes querem abocanhar o Paraná. É preferível criar um novo Estado, com o governo em União da Vitória.

A notícia de que José Maria, o revoltoso, se encontrava em território sob jurisdição paranaense, já nos campos de Palmas, alvoroçou a cidade. Sabia-se que, em Palmas, o povo fora chamado às armas, organizado em voluntariado, reinando o pânico, às vésperas de aguardado ataque. Aliás, todo o Paraná se alarmara com o anúncio de que "bandidos barrigas-verdes" haviam invadido o Estado. Na ex-futura capital das Missões, fechou-se o comércio, foram suspensas as aulas nas escolas e se realizou uma festa cívica no teatrinho Palácio, com a banda musical executando dobrados. As duas bandinhas unidas formando uma só. As bandinhas de Leopoldino e de Pupe. Frei Silvério compareceu e exortou os católicos a não acreditarem em falsos monges. Evocara-se "a Independência e o passado glorioso do torrão natal".   

Curitiba, capital do Paraná, regurgitava de boatos e de telegramas assustosos. João Gualberto, o oficial que comandava o Regimento de Segurança, gostava de comentar a situação, e alardeava notícias nos cafés da rua 15. O presidente do Estado chamou-o ao palácio para enviá-lo a União da Vitória, com toda a força policial.

Na ocasião do desembarque, na noite de 12 de outubro de 1912, o céu saudava a tropa com uma procela. Ainda assim, não faltou banda de música, discurseira e vivório na estação. União da Vitória via, afinal, um coronel de verdade, ex-comandante do famoso Tiro de Guerra Rio Branco, um tenente-coronel do Exército Nacional! Em missão especial, mandava cerca de quatrocentos soldados e vinha acompanhado pelo próprio chefe de polícia. Ambos se hospedaram na residência, ou melhor, "na mansão do coronel Amazonas", enquanto alguns oficiais se acomodaram nos hotéis, e a soldadesca, em galpões desocupados.

Na varanda da mansão, a conversa ia animada. Os visitantes contavam inúmeras novidades da capital, principalmente sobre política. Falou-se em nomeações de juízes, promotores e delegados, nas remoções e exonerações de funcionários que não pertenciam aos quadros do Partido Republicano.

— Quem fala mal do governo, vivendo à custa dos cofres públicos, não pode esperar outra coisa — observou o beletrista Da Silva, olhando de soslaio o professor Serapião.

O coronel Amazonas trouxe à baila a história de União da Vitória, vangloriando-se do vaporzinho Cruzeiro e do "assombroso progresso da cidade". Não pôde deixar de exibir o "precioso documento" que guardava como relíquia, os gastos versos que encimavam as assinaturas dos componentes da Comissão Brasileira para Demarcação de Limites entre o Brasil e Argentina. Acharam-nos belos e expressivos. Enquanto se aguardava a hora da ceia, chimarreando, passou a explicar "o caso dos fanáticos":                       

— Trata-se de perigosos bandidos barrigas-verdes, chefiados pelo falso monge José Maria, um impostor, criador de uma falsa seita abraçada por intrusos e vadios. Tal gente é apoiada e financiada pelo governo de Santa Catarina, a serviço dos coronéis Albuquerque, Pacheco, Ramos, e indivíduos como o Tavares, que fomentam desordens com o intuito de se apoderarem das terras paranaenses.

Frei Silvério esposava outros pontos de vista, mas não os expunha. Estava murcho. Gostava de contar casos de desgraças sucedidas aos que combatiam os padres. Sabendo que João Gualberto era membro preeminente da maçonaria, se sentia diminuído, acabrunhado. Comparecera para não demonstrar os aborrecimentos. Fora pároco em vilas catarinenses e não queria ser apontado como partidário do Schimited e outros tantos. Eram bastante conhecidas as ações que empreendera contra o culto do monge. Havia até quem fizesse caçoada com os casos. Dizia-se que, para castigá-lo, João Maria, o verdadeiro, fizera-o cair do burrinho e quebrar os ossos; ou que os fanáticos lhe haviam tirado a calça e levantado a batina. Isto o professor Serapião contava às colegas do Grupo Escolar, para vê-las escandalizadas, rubras e com a mão na boca:

— Hin!

João Gualberto, abotoando a túnica, ereto e imponente, indagou:

— Quantos homens acompanham o monge José Maria?

— Quem sabe? O que posso informar é que famílias inteiras de caipiras estúpidos e boçais, ralé mais sórdida que habita a região, vão ao seu encontro pensando que se trata de um santo, do verdadeiro monge, o profeta João Maria.

Frei Silvério não se agradou da resposta dada pelo coronel Amazonas, do modo de falar em João Maria, mas já andava conformado com aquela veneração, aproveitando-a em benefício da Igreja. Concordara, por exemplo, em rezar uma missa no morro da Cruz.

O Dr. Cavalcanti, o chefe de polícia, surpreendeu os presentes:

— O certo é tranqüilizar a opinião pública, esclarecendo a verdade dos fatos, comunicando o que realmente se passa ao governo, e procurar apenas pacificar essa gente.

Foram palavras que aborreceram principalmente João Gualberto e o coronel Amazonas, cujos semblantes se tornaram turvos, sombrios, contrariados. Mas o primeiro, logo, desabafou com altivez:

— Isso não. Eu vou fazer esse falso monge desfilar amarrado pelas ruas de União da Vitória e Curitiba, antes de interná-lo no manicômio. Trouxe cordas para isso.

Falava com autoridade. Era homem de vontade firme e impressionava bastante pelo porte aguerrido e elegante. Alto e robusto, impecavelmente fardado, as frontes encanecidas. Tanto que frei Silvério, comodamente sentado, com a boca na bomba de prata, antegozava o espetáculo, imaginando como seria humilhado José Maria, a passar amarrado em plena rua 15. Ele, então, pregaria a religião verdadeira, combateria os maçons e os protestantes e tomaria o lugar reservado a um santo do povo. As igrejinhas das vilas seriam freqüentadas por muitos fiéis, numerosas caboclinhas na sacristia. Encheu a cuia com a água quente da chaleirinha, passando-a ao professor Serapião.

Após o chimarrear, a mesa foi servida e elogiada por hóspedes tão ilustres. A cerveja Borboleta, fabricada na própria cidade, gabada especialmente, animou todos os assuntos, bebida como no baile do clube União, oferecido à oficialidade.

Na manhã seguinte, era maior o alvoroço da população, entusiasmada com os acontecimentos. Tudo era festa. O regimento formado defronte à igrejinha de sinos chorosos, houve missa campal. Frei Silvério abençoou as armas "cristãs", "defensoras da ordem e do regime republicano". A pedido, a banda militar bisou o dobrado "Partida de Mato Grosso". Depois, o povo postado nas calçadas da rua 15 de Novembro, teve lugar o "monumental" desfile. Atrás vinham os pelotões, guarnecendo as carroças de armas e munições. Junto à metralhadora Maxim, as cordas para o monge, "o falso", "o louco", "o fanático". Assim, em meio a algazarra de palmas, gritos e risos, o regimento encetou a "grande marcha".

                       

 

CAPÍTULO VI

 

Com José Maria e Maria Rosa não estavam mais de quinze homens vindos de Taquaruçu. Dos vinte e quatro cavaleiros que constituíam os doze pares de França, apenas seis acompanharam o monge.

Quando a estrada penetrara o desfiladeiro, costeando grotas, íngremes ladeiras e extenso lodaçal, a voz corneteira anunciou:

— É ali pertinho. Estamos chegando.

Achando o faxinal em situação excelente, José Maria empinou o cavalo como um mastro de bandeira e exclamou:

— Epa! Isto aqui é chão sagrado. Vamos medir pra formar o quadro santo e estabelecer o acampamento geral.

A virgem aprovou a idéia, e Alonso examinou com atenção as adjacências, auxiliado por Jerôme. Ergueram-se rapidamente ranchinhos de jeribá e nos ângulos do quadrilátero as cruzes. Fragoso e sua gente chegaram, deram as boas-vindas e também ficaram, suprindo de víveres o novo reduto.

Então José Maria se pôs a propagar a "grandeza da monarquia", logo após as rezas e os exorcismos. Quando o sol, lâmpada brilhante do quadro santo, se apagava, e chegava a noite, a temperatura baixava tanto que os pelados acendiam fogo no chão e, esfumaçados, cochilavam sentados nas esteiras, com os pés para o braseiro. Mas a onda de gélidos fantasmas do vento penetrava pelas frestas das tênues cabanas, sinistras, atacando-os.

Um dia, José Maria saiu a visitar alguns moradores do lugar, reunindo mais adeptos. Sabia o que se passava também em União da Vitória, das providências do governo do Paraná, da marcha que empreendia o Regimento de Segurança e dissera a um tal de Farrapo:

— Não tenho questões com o Paraná, nem com Estado nenhum. No meu entender, tudo é Brasil. O Brasil é um só, dentro não tem fronteiras. Aqui vem força me bater, eu brigo e dou prejuízo. Não ataco ninguém, fui perseguido com minha gente pelo coronel Albuquerque em Curitibanos, mas se me combaterem não fujo. O coronel Albuquerque surra gente até em cruz de cemitério, atado.

— Mas não há necessidade de brigar, a força não lhe bate — ponderara o Farrapo.

Farrapo e João Varela, sem perda de tempo, e com o consentimento do monge, partiram para expor o caso ao chefe de polícia e evitar o conflito. Este acedeu, porém João Gualberto discordou e cumpriu seu propósito. Com uma parte do regimento, atacaria o reduto e traria o monge amarrado. Do Passo da Galinha, onde estava acantonado, mandou um piquete de vinte praças e dois oficiais fazer o reconhecimento, guiado por alguns vaqueanos. Farrapo e João Varela tornaram a falar com os oficiais em Alegrete. Um deles, o coronel Soares, prometendo paz, em nome do comandante, foi até o reduto entregar ao monge uma carta de João Gualberto. Lendo-a, José Maria ficou estupefato:

— Não aceito isto como parlamento. É um desaforo carta escrita com lápis!

Ainda assim, prevaleceram as promessas de paz, com José Maria desconfiado, Castelhano olhando de soslaio, descontente.            

Já no dia vinte e um, ardilosamente, se unia ao piquete, em Caçadorzinho, o comandante João Gualberto, seus quarenta homens, sua possante Maxim. Nesse dia, enviou ao revoltoso uma intimação:

Sr. José Maria.

Deveis comparecer a este acampamento com a maior urgência, a fim de me explicardes o motivo da reunião de gente armada em torno de vossa pessoa, alarmando os habitantes desta zona e infringindo as leis do Estado e da República.

Caso não atender a esta intimação, que me dita o cumprimento do dever e o sentimento de humanidade, comunico-vos que vos darei, desde logo, franco combate, e a todos que forem solidários convosco, em verdadeira guerra de extermínio, a fim de fazer voltar a paz a esta zona do Estado, o regime da ordem e da lei.

Avisai a todos que vos acompanham, que os considerarei criminosos, se não comparecerdes vós ao meu acampamento, a fim de evitar uma terrível desgraça.

Comunico-vos, ainda, que, além das forças minhas que vos sitiam por várias estradas, outras expedições vos perseguem também, tornando-se dessa forma impossível a vossa fuga ou resistência no território nacional.

No caso de vossa resistência às minhas imposições, deveis retirar com urgência as mulheres e as crianças que aí estiverem.

a Cel. João Gualberto Comes de Sá Filho, Comandante do Regimento de Segurança do Paraná.

Era madrugada e Jerôme já estava vigiando, encolhido de frio, fumegando o pito de bambu. Um pano amarrado à cabeça, por baixo de desabado chapéu de palha. Vestia duas camisas, duas calças, uma ceroula, dois paletós, um deles enfiado pela cintura. Velha e puída manta ao pescoço, sob a "medida de N. Senhora". O bornal a tiracolo, e a espingarda segura pela direita. Os pés nus, mas calejados, enrijecidos, sujos, como se estivessem calçados de cracas.          

Na madrugada daquele 22 de outubro de 1912, um cãozinho arrepiado, seco e desconjuntado, meditava debaixo de um pinheiro, o matuto lá em cima na copa. O matungo, com velho selim sobre roído saco de estopa e estribos de couro pendentes de uma corrente de ferro, ficara para trás restolhando o chão, enquanto o cachorro Trabuco, jaguara farejador, se coçava gemendo, com os dentes sobre as pulgas do lombo. Dentro do bosque, aninhado qual passarinho na majestosa árvore coroada como uma rainha, sobre o cetro de galhos, Jerôme estava alerta, de olhos acesos, bombeando as forças do governo.

O vento balouça a floresta. O sol esparge seus primeiros raios. Os rios, longas serpentes cristalinas, se arrastam no chão, agitando os guizos de espuma, ocultas nas restingas, no vargedo. Os pinheiros se levantam da cama de sombras e se banham na fonte da manhã. Toda a araucária, o pinheiral sem fim, sob a chuva de cores da aurora, respingada de ouro e prata, cheinho de pássaros como enfeites, parece um só pinheirinho de Natal. Ao clarão da manhã, primavera da cor, a terra é uma flor desabrochada. Alçadas em bandos, as aves são pétalas desprendidas de rútila corola.

Jerôme admira o despertar do sertão e pensa que a natureza é um hino maravilhoso. O mundo é uma viola com bojo no céu, cordas na terra — feitas de riachos, vento, trinar de pássaros. A bicharada canta e o coração tem ouvidos. Enquanto a lua e seus pintinhos cintilantes que ciscavam no ar desapareceram do terreiro do céu, trepado no poleiro da montanha, sacudindo o pó das asas auriprateadas, o sol é um garnisé doirado a cantar toadas de luz, o cocorocó da alvorada. Ressurgia a vida reverdecendo as campinas. O panorama é tão belo quanto o de Tem Que Ver.

Jerôme dá asas ao pensamento, mas não se esquece da missão. Mais três companheiros estão atentos. As quatro armas de repetição, únicas do reduto, estavam assestadas e ocultas nas copas das árvores, e não podiam falhar. "No quadro santo, o povo já estaria formado. Como era belo ver o monge, a virgem e os pares de França desfilando garbosamente! Se fosse José Maria, dava ordem para Antoninho casar com a menina Maria Rosa. Logo Dorinha poderia cavalgar com a guarda de honra. Tinha um mau pressentimento sobre Deodato. Deus queira que seja engano, mas ciúme desvia o homem da religião... Que teria acontecido em Taquaruçu? Estaria em paz. A guerra é coisa do diabo e da república. O diacho inventou o dinheiro. Cruz, credo! Cada um devia ter seu palminho de terra e plantar o sustento da família. O mundo é tão grande! Como é que são as palavras da oração do Santo Sepulcro?"

— Ahn!

Viajando, Jerôme cismava. "Se não existisse são José Maria, nem são João Maria, nem Deus, nem o mundo, nem nada, o que seria?!"

O sol é o olho de Deus zelando pelos crentes. A mata tem vistas e ouvidos. Jerôme punha a mão esquerda sobre as sobrancelhas, protegendo a visão da cascata de luz que se despenhava do céu, lambendo-lhe a cara tostada. Descortinava o vale, como se estivesse num pico de serra. Ficava pequenino lá no alto, dentro do cálice de galhos.

Trabuco, o magro e famélico Trabuco, procurava entender o que o amo fazia, mas não compreendia nada. Esperava, aborrecido com aquela incômoda coceira: comichão. Com certeza o amo estaria comendo um churrasco, o sangue escorrendo da carne... Juntava água na boca. Olhava para cima, com gula. Decepcionava-se. Não perdia a esperança. Andava fraco e entristecido — maltratavam-no propositadamente, só para vê-lo sofrer. Tinha um medo terrível de tudo e todos. Quando ouvia estampido, desesperava-se, corria para perto de Jerôme, buscava proteção. Para ele, todo ser humano era um todo-poderoso, mas principalmente aquele velho sujo, fedorento, simpático, bondoso. Culpava-o, todavia, das privações que passava, e ao homem atribuía os próprios fenômenos da natureza, a chuva, o raio, a trovoada, bem como a fome e o frio. Sentia-se igual ao matungo, só não podia comparar-se ao ancião cuspidor e cachimbento. Não sabia da causa das coisas e procurava não indagar, com medo. Não raciocinava, sentia falta dos meios. Só conhecia meia dúzia de palavras, delas se destacando o nome. De peste ou pesteado, expressões que detestava, não apanhava o significado. Cheirava bem, entendia as coisas pelo odor. Algumas noites, sorumbático, exprimia as mágoas uivando. Uma negra cadela que vivia escorraçada em Curitibanos pusera-o nesse mundo de maldades e miséria. Tinha uma vaga recordação dela, principalmente das tetas. Nascera e se criara sob o assoalho de uma casa abandonada, habitada apenas por ratos e insetos, mormente pulgas. Da cria, fora o único sobrevivente, mas acoitado como um criminoso. O frio enrijecera um, a fome, outro e a garrotilha, a trinca restante. Quando Trabuco saiu do esconderijo, não mamava, era cachorro feito. Comia os estercos das ruas e procurava dono. Certa vez, simpatizou com um antigo funcionário da prefeitura, o qual lhe deu um bolo de carne. Devorou-o com voracidade. Jerôme vinha chegando numa tropa de cargueiros e o salvou com um vomitório que comprou na botica e com uma garrafa de leite. Trabuco era amigo e grato fiel. Tinha bons sentimentos e muito medo, latia, mas não mordia. Invejava e odiava aqueles cães gordos e rancorosos, de dentes arreganhados, iguaisinhos aos proprietários, ferozes. Embora revoltado, a fraqueza o obrigava a baixar a cabeça e esconder o metro de rabo entre as pernas e sumir. Perdera já uma lasca da coxa na boca de um buldogue. Possuía a sabedoria hereditária dos guapecas, além de apurada experiência da vida. Pensava com as imagens recebida pelos sentidos e vivia se babando com o gosto de tutano na memória. Sabia o que eram as coisas, ignorava o significado, as origens e os fins. Um frustrado. Expressava-se surrealisticamente, hermeticamente, por símbolos confusos, onomatopéias caninas, com uma dor d'alma invencível, nostalgia imensa, via apenas o lado miserável das coisas. Fatigado, enojava-se da existência. De admirável clarividência e extraordinária intuição, antevia os acontecimentos desagradáveis. Pontapés, por exemplo.

No capão de mato, próximo a três casebres vazios onde se achava comandando os companheiros, da copa do pinheiro, Jerôme viu quando a metralhadora caiu no banhado, ao assustar-se a mula, no momento em que um praça acendeu a vela para alumiar o chão ainda sombreado. A tropa policial manobrara toda a madrugada e vinha arrastando-se perfidamente como uma cobra. Era maior a bulha da mata, o coaxar dos batráquios, o canto exultante do grilo, o pio agourento e sinistro da coruja. Foi no instante em que a tropa atingia a clareira de campo que Jerôme disparou um tiro para avisar os pelados. Trabuco se assustou e se enfiou sob um tronco caído no solo.

— Algum caçador, comentaram na tropa do governo.

No quadro santo, o revoltoso pregou pela última vez:

— Os irmãos já sabem o que vão fazer. Eu não queria a guerra, mas me botaram dentro de um cesto. Agora que o burro vai corcovear, é preciso levar a coisa no cepo! Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santíssima Trindade, esconjuro todos os peludos! Não há de ficar um só no mundo do futuro, pra fazer mal ao próximo. Eu sou o rei, e são Jorge protege meus soldados. Não tenham dó dos miseráveis. Me acompanhem que eu recompensarei. As mulheres e os doentes fiquem rezando pela Santa Cruzada. Se eu morrer, vou ressuscitar e trazer uma cavalaria do céu; os irmãos que morrerem ressuscitarão e poderão brigar com dez soldados da república!          

O avançado piquete da polícia foi recebido a bala por Jerôme e seus três bombeiros, mas o revide era uma intensa descarga de fuzis. Então, João Gualberto sentou no selim da metralhadora colocada na mais alta elevação do terreno, guardada por um esquadrão, enquanto se estendia a linha de atiradores. No momento, o regimento caíra numa emboscada, encurralado entre um brejo atrás, o mato à esquerda, um taimbé à direita. Na hora em que os bombeiros de Jerôme abriram fogo, caçando soldados, Alonso, Fragoso, Zé Tigre, Leandro Palma, Castelhano, Deodato, Nabor e o negro Joaquim Germano surgiram a cavalo, distribuindo golpes de facão, pondo em fuga os cavalarianos da milícia. E, à frente dos pelados que brigavam a pé, majestade dos sertões, rugindo, leão com juba e tudo, assomando de surpresa, passando pela estiva, José Maria atacou a força, de chifarote em punho. A Maxim engasgou, José Maria avançou para João Gualberto, recebendo vários tiros da esquadra e vibrou um golpe no cocuruto do comandante. Quando um sargento procurou decepar as orelhas do monge, então Chico Taquara e Delfino Pontes o retalharam inteirinho.

O chão era um charco de sangue, e sangue escorria dos facões. A grita infernal, o desabafo secular dos oprimidos, um cântico de guerra e revolta:

— Mata. Mata!

— Viva a liberdade! Viva a monarquia!

— Viva são Sebastião!

— Viva a coroa do império!

— Viva a coroa do céu!

— Morram os peludos!

Do lado do inimigo, também se ouviam vozes:

— Calar baionetas!

— Munição! Munição!

— Avance! Fogo! Fogo!        

Castelhano, incrivelmente feroz, em seu tordilho, distribuía lambadas e berrava:

— Caracoles! Viengam, baianos!

Os praças corriam desesperadamente, caíam no precipício, afundavam-se no atoleiro, perseguidos pelos fanáticos. Abandonavam tudo, fuzis e munições. Augusto Moreira, o escrivão, com a mão ferida, como que pendurada sobre o punho, desferiu com a outra um golpe mortal sobre um alferes.

A batalha fora um choque de correntezas, com uma avalanche indômita de matutos rebeldes como o mar encapelado, lâminas fulgurando e espumando sangue, pororoca, sangue a borbulhar.

O comandante do regimento, que disparara alguns tiros com um mosquetão e que acertara o monge, acabou tombando exangue ante o caboclo Delfino. Vendo-o morto, a milícia desertara a luta, debandando.

Alguns pelados morreram e outros ficaram feridos. Dos que combateram montados, somente Joaquim Germano, que tinha uma cutilada na cara, deixou um naco de coxa numa baioneta. Andrade, quando golpeava o adversário, via o rancho queimado e os filhos mortos, ou o carrasco que torturava os presos.

Se Maria Rosa tivesse de escolher entre os mais valentes, não poderia casar nem com Antoninho, nem com Deodato, que se igualavam nos embates. Nenhum menos denodado que Zé Tigre, Nabor, Leandro Palma ou Alonso. Coco e Gidoca estiveram lado a lado com Chico Taquara e Delfino Pontes. Dos que vieram de Taquaruçu, não morreu ninguém. Pereceram alguns das cercanias.

As mulheres que ficaram orando pela vitória, repetindo as palavras que Maria Rosa pronunciara, ajudaram a carregar os feridos, prestando os primeiros socorros. Augusto Moreira, o escrivão, estava na lama debruçado sobre o alferes. A seu lado, o cadáver de um raso, olhos vidrados, a boca cerrada, os intestinos para fora. Jerôme, que assistia aos feridos, amarrou o braço de Augusto Moreira, o escrivão, servindo-se de cipó, guilhotinou-o, atorando-lhe o punho. Numa das tendas do acampamento, levou dias tratando das chagas dos combatentes. Usava salmoura e ervas.

No campo de batalha, a tropa em fuga deixara a metralhadora, quarenta fuzis e milhares de cartuchos.

Uma flor nascera na boca, a outra no peito, sobre o coração. Duas rosas de sangue, duas chagas. Tombara o revoltoso.

No quadro santo, todos choravam. Na hora do crepúsculo, a procissão e o enterro. Mas santo não morre.

A cova ficaria coberta de tábuas para que ressuscitasse e voltasse a proteger os sofredores. As mãos cruzadas sobre o peito, olhos sem viço, sem cores, os pés atados com uma fita vermelha, o tronco hirto e frio como gelo, a face malicenta, empapada de sangue, um lençol por mortalha ao fundo do jazigo. Jerôme comanda as rezas, Maria Rosa pede misericórdia a Deus, para os que ficaram desamparados. As mulheres soluçam. O som plangente da trombeta de chavelho é um lamento coletivo, um adeus derradeiro partido de todos os peitos. Adeus! O toque dos tambores, no entanto, parecia brado de revolta, promessa de luta.

— Ó, sacrossanto salvador do mundo,

Ó, diviníssimo pai de misericórdia,

Ó, rei cavaleiro da monarquia!

Rogai por nós.            

Quando Maria Rosa terminou a recitação do último terço, entre lágrimas esboçou um sorriso de dor e esperança. Sim. O monge levantara a espada dos oprimidos. Dera-lhes um reinado de fantasia, unira-os. Dera-lhes consciência da própria força; uma lei, a igualdade; uma bíblia, a revolução; uma bandeira, o céu! Agora tudo estava claro. Os pelados queriam o paraíso, a Idade de Ouro, e os peludos, a conservação do inferno. Mas José Maria já era saudade. Fora imolado à causa sagrada. Acabara o mundo em seus olhos, mas não a majestade em seu vulto imperecível. Descia à cova e ascendia ao firmamento. Hediondo crime, supremo pecado, sinal do fim que vinha perto — imensas desgraças para a humanidade. Certamente ressuscitaria, levantando-se como viva estátua de ilusões, símbolo de esperanças. Já não pulsa o coração, porém a fé no futuro é sempiterna, e monge, santo do povo, não morre.

— Passou-se, diziam tristonhos os crentes.

Passou-se para os corações dos infelizes, passou-se para o porvir, passou-se para o canaã fantástico dos profetas camponeses. Vitória coberta de luto. Terra e sangue. Nenhum punhado de terra na vida, apenas a amplidão da casa verde, sete palmos na morte.

No momento do enterro, a natureza acompanhou o funeral. Na tumba do ocidente desapareceu o dia, tombou o sol e a noite enlutou a terra. O vale umbroso escureceu, a lua surgiu informe e avermelhada, inchada como se estivesse chorando. Terra e sangue, esperança e saudade. A tarde esmaecia no horizonte e findava o mundo daquele dia.

O posseiro Fragoso, que ocupava grande área naquela região, mandou destruir o armamento usado pelos "pecadores". Metralhadora e fuzis foram quebrados e atirados ao fundo de um pélago. Armas sacrílegas, poderiam contaminar as mãos dos "irmãos de crença". Os corpos dos inimigos que ficassem aos corvos altivolentes.

Após alguns dias, numa madrugada, Maria Rosa voltou escoltada pelos combatentes às plagas de Taquaruçu. O regresso não foi percebido pelas tropas da Polícia e do Exército.(9)     

 

                       

CAPÍTULO VII

 

Bravo Regimento de Segurança que fora derrotado por um punhado de matutos.

Palmas tomou-se de pânico, à espera de um assalto que nunca viria: gente aquartelada nas casas particulares, gente armada e municiada pelas autoridades. E não menos sobressaltadas ficaram as populações das cidades do Bituruna, apesar da notícia, ainda que inacreditável, da morte do monge. União da Vitória vibrava emocionada com a passagem das tropas. Uma comissão do Tiro Rio Branco se alojou no hotel Milão, à espera do corpo de João Gualberto, que, com a procela, chegaria no dia 12 de dezembro.

Afinal, no mundo inteiro se soube da batalha. A imprensa do país lastimava a repercussão no estrangeiro: "caluniar torpemente um país, por telegrama, não pode ser menos indigno que atassalhar de boca a fama de um individuo", "se é crime caluniar um só, e iludir alguns, ainda mais crime será desacreditar nações e enganar todo o mundo", "é conhecido o teor, extraordinariamente alarmante, dos despachos transmitidos para o velho mundo, a propósito da catástrofe de que resultou a perda do querido, bravo e nunca assaz pranteado comandante João Gualberto". Um artigo concluía: "ainda há pouco cientistas e astrônomos franceses deixaram de vir a São Paulo observar o eclipse de 10 de outubro porque: no Brasil 40% dos habitantes morrem de febre amarela!" Os jornais falavam na repetição de Canudos e se lia: "fora raras capitais onde se encontra uma certa vitalidade, o resto é casebre de pau-a-pique, o monjolo centenário, a esterilidade dos solos esgotados, são as superstições e os fanatismos africanos, uma indolência repugnante, tudo isso à beira de um rio que serve de esgoto; escolas, fábricas, culturas, são coisas que não existem; no entretanto, multiplicam-se as benzedeiras e os curandeiros", "é preciso acabar com a nefasta influência dos monges, que exploram a crendice do povo". E vinham as entrevistas. Um general dava seu depoimento: "Acredito que o nome desse fanático, João ou José Maria, tenha servido de bandeira a malfeitores, que depois da última revolta, infestam os sertões do rio do Peixe, Uruguai, e seus afluentes, para reunir gente fanática, crédula na sua santidade."

Curitiba estremecera, o Paraná assombrado. A edição A República, órgão do Partido Republicano, esgotou-se em meia hora, a exemplo do que sucedia com o Diário da Tarde, o povo aglomerado na rua 15 de Novembro. O primeiro anunciava em grandes títulos, na primeira página: "O Combate do Irani". A expedição do Coronel João Gualberto. Os revoltosos são comandados por Miguel Fragoso. Os mortos. Os extraviados. As providências do Sr. Presidente do Estado. O major Fabriciano Rego Barros assumirá o comando das forças. O Dr. Carlos Cavalcanti pediu a intervenção federal. A cidade sob profunda impressão do acontecimento. Uma chusma de telegramas de pêsames chegava à capital. Lamentava-se a morte de João Gualberto, herói por não ter corrido, sempre no constante tom:

Tabaréus incultos, verdadeiras bestas humanas, malfeitores sem quaisquer resquícios humanos, armados até os dentes, traiçoeiramente trucidaram como uma fera, o distinto pernambucano, o cidadão sem mácula, que teve o coração meigo e alma simples de todos os bons; o valoroso e ilustrado capitão de engenharia, que se chamou João Gualberto Gomes de Sá Filho. Foi levado pela crença de que apenas encontraria fanáticos, pobres homens simplórios, da comitiva de um monge, que o emérito oficial, incapaz de uma falsa manobra de tática, avançou 11 léguas adiante do grosso das forças, com um reduzido grupo de soldados, contra o bando maldito, que só então surgiu como era, dez vezes mais numeroso, descansado, e senhor de uma situação estratégica incomparavelmente superior. E não há quem deixe de experimentar impetuosas revoltas íntimas, relembrando a hecatombe covarde. Acabar, assim, desamparado de todo socorro, envolvido, sufocado numa onda de lama viva, vencido por uma quadrilha vil, abatido por homicidas e ladrões, não é morrer contente em face do estandarte adverso, é ser ferozmente assassinado; é ser sacrificado como um mártir; é morrer muitas vezes, da mais cruciante das mortes, antes do derradeiro alento, do último pensamento para esposa e filhos! Já muito lamentável seria que expirasse em tão trágicas circunstâncias uma criatura qualquer. Devem ser pranteados, sem dúvida alguma, todos quantos pereceram no morticínio bárbaro. Mas cair assim o homem que se havia tornado, como bem disse Correia de Freitas, "o ídolo de todas as classes desta terra", tombou trespassado assim _ maculado, mais do que ferido e morto _ pelo facão infame do caboclo facínora, é uma desgraça que transtorna o cérebro de quem escuta; é uma catástrofe esmagadora, que desorienta e irrita, que alucina e revolta, _ sem que a gente saiba, enfim, onde a revolta começa e onde principia a mágoa dilacerante.

Nunca houve igual agitação em Curitiba, movimento de forças, gente alarmada comentando os acontecimentos, comícios em que foram oradores os doutores Carlos Cavalcanti e Dario Vellozo. No dia em que chegaram os corpos irreconhecíveis dos ilustres falecidos, a multidão se comprimia na estação e nas adjacências, a cidade de luto, as ruas com as lâmpadas envoltas em crepe e a 15 de Novembro ornamentada com colunas e arcos negros. Nunca se viu coisa igual, grandiosa cerimônia fúnebre. A banda musical tocava para arrancar lágrimas dos mais insensíveis, militares e escolares desfilaram, e o brilho pertenceu ao garboso e "heróico" Tiro Rio Branco, onde os mocinhos serviam à pátria, exibindo-se. Antes do Dr. Pamphilo de Assunção, discursou o mais admirado poeta paranaense, provocando soluços: "A cidade veio vos receber, coronel João Gualberto, veio, porém, nervosa, estrangulada, como uma triste mãe, que viesse para levar o corpo de seu filho..."

Os camponeses regozijavam-se com a vitória, sempre esperançosos, no Bituruna, aguardando a ressurreição do monge. Maria Rosa e Dorinha continuavam a ser consultadas, cada qual anunciando um regresso triunfal à frente da cavalaria do céu. Havia quem o tivesse avistado, ao meio-dia, num cruzo de caminho, e era verdade inconteste que se levantara da cova, do Irani. Dorinha vira-o no céu, em forma de nuvem, lá pelos altos de Taquaruçu. José Maria fora o mártir, o herói, o rei a imolar-se pela salvação dos servos da casa verde. Mas estava vivo, a proteger os seus filhos.

Se nas grandes cidades os escrevinhadores teciam loas ao comandante da polícia paranaense, o poeta pelado da casa verde cantava o feito ao som da viola:

Viva são José Maria

que aparece ao meio-dia

de branco como Jesus;

saiu da cova sagrada

a bandeira levantada

pela vitória da cruz.

Vem cumprir o que dizia

trazendo cavalaria

à frente são Sebastião

dividir a sesmaria

implantar a monarquia

acabar a servidão.

A virgem Maria Rosa

vai rezar prece ardorosa         

galopar ao léu...

O monge está aqui de novo

No coração de seu povo

Na nuvem branca do céu.

Rei do céu e da terra

monge na paz e na guerra

tanta glória nunca vi:

dez facões, vinte pelados,

correu setenta soldados

na batalha do Irani."    

 

                       

CAPÍTULO VIII

 

Rocha Alves ficara na estância aguardando o desenrolar dos acontecimentos, exultando com a vitória proclamada à boca cheia, porém consternado com o martírio do monge. Também recebeu Maria Rosa e sua gloriosa guarda de honra, combatentes galardoados como pares de França, na fazenda do pai Eliazinho. Houve calorosa recepção, concorrida, triunfal. Uma festa de abraços, lágrimas, e orações às carradas. Maria Rosa explicou que o monge se sacrificara como Jesus e que em breve haveria de voltar à frente da cavalaria do céu. Rocha Alves comoveu-se profundamente ao ouvi-la afirmar, sempre sob inspiração dos anjos, que ele, o Rocha Alves, ainda seria proclamado "imperador da monarquia". Nesse dia, o dia do regresso, houve chegada e partida, reunião e dispersão, cada qual de volta à vida habitual, aos afazeres cotidianos, pelo menos enquanto se aguardava a ressurreição de José Maria.

Entretempo, uma expedição militar com mais de mil homens, levando canhões e metralhadoras, vasculhava os caminhos conhecidos entre Palmas e União da Vitória, porém infrutiferamente. E, a par da ação criminosa dos sicários a soldo dos grotescos coronelões, recrudescia no Bituruna a arbitrariedade, a violência, a fúria policial. Tornava-se lei o linchamento dos camponeses. Posseiros eram queimados vivos, depois de amarrados e pendurados às árvores. Vaqueanos bem remunerados prendiam, espancavam, decepavam, assassinavam. Somente de quando em vez alguns deles tombavam nas tocaias do cruzo dos caminhos. O Bituruna tornou-se uma história de crimes hediondos, de fogo, saque, morte, estupro. Em Caçador, o contingente do Exército representara uma certa garantia, mas se fora embora com toda a expedição pródiga em condecorações aos oficiais "por se portarem com galhardia nas operações de guerra".

Transcorrera um ano inteirinho desde o retorno de Maria Rosa e os combatentes do Irani, o terror ainda campeava, o demo dominando, e não reaparecera o monge. Era trégua pior do que a guerra. A operação encontrava as vítimas isoladas umas das outras. Coronéis como os De Paula, Albuquerque, Amazonas, Araújo, Fabrício, tramavam sucessos contra os mais influentes dos pelados.

Zebinho, chefe de família, chefe de tribo, se refugiara em Pedras Brancas, quando abandonou Taquaruçu. Após o que sucedeu no Irani, voltou para casa, em Taboão. Cria resoluto no ressurgimento do monge. "O compadre Zé Maria não deixaria a missão pela metade", "santo cumpre o que promete", costumava argumentar, acrescentando: "enquanto eu viver, tem um amigo na terra, não sou amigo de bom tempo, um papa-vento". Não haveria de tardar a liberdade, presente de monge, dádiva de santo. Expressava o pensamento dos habitantes pobres do Contestado. O revoltoso acabaria com os arrendamentos, limparia de peludos o Bituruna, poria fim à ganância dos coronéis, à sanha das companhias, à pilhagem sangrenta de terras, distribuindo-as aos que precisavam, e, acima de tudo, implantaria a almejada monarquia! Venerando ancião, o bondoso Zebinho continuava a gozar o prestígio antigo e, de todos, a merecer igual respeito. Mas não há lavra sem suor, colheita sem trabalho, alegria sem lágrimas, direito sem luta, claro sem escuro, e Zebinho sentia acabrunhamento por não ter acompanhado o monge ao Irani. Não tivera a sublime glória de morrer ao lado do "divino rei". Não fora bafejado pela sorte dos felizardos. Com isso, realmente sofria. Agora vivia a rezar e a invocar a proteção de José Maria. Principalmente quando sua netinha, a virgem Dorinha, caía de ataque. Dorinha contava menos de dez anos, mas sabia desempenhar com devoção o papel de virgem. Antes sonhava, não tinha visões aterradoras como no momento. Magrinha, frágil como delicado caule duma flor, os cabelos escorridos, os olhos cansados no fundo das covas, o rostinho muito bonito. Durante o dia, não raras vezes, repentinamente, se esquecia do mundo, fora de si alguns instantes. Só pensava em são José Maria, vivia no ar. Estava falando ou fazendo algo e, de repente, perdia a consciência das coisas. Porém, logo voltava à realidade. Os olhos tornavam a se mover e a fisionomia a tomar expressão. Como era uma virgem, uma entidade santa, não se lhe estranhavam a "inspiração", o enlevo. Temia a noite como se a noite fosse um lúgubre fantasma envolto em capa preta. Via na escuridão. Rija sobre a tarimba, passava entre a vigília e o sono, superexcitada, a respiração ofegante, o coração espancando o peito e a produzir a bulha dos demônios, ouvida no travesseiro. Doía-lhe o medo, estrangulava-lhe a consciência, oprimia-lhe o ser, sufocava-a. Entre a vida e a morte, os olhos chegavam a parar, a perder o viço, cravados no nada. No seu corpo franzino, raquítico, descorado, a anemia abrira picada para a epilepsia. Via diabos, lobisomens, mulas-sem-cabeça, faces hediondas, sinistras. Ficava estarrecida e, ao fazer um supremo esforço para gritar, desmaiava dentro de si mesma. Era um rebuliço na casa do Zebinho. Querubina corria a friccionar com álcool as canelas e os punhos da netinha, e um clamor se erguia ao monge José Maria. Dorinha se debatia e se retorcia, o tronco hirsuto, os membros distendidos, rijos, inteiriçados. A cabeça se arrastava para cima e para trás com movimentos conjugados dos olhos opacos e dilatados, os dedos crispados sobre a palma e o polegar se flexionando como a marcar a cadência da morte. Felizmente, o ataque vinha rareando à medida que aumentavam aqueles instantes nos quais caía em esquecimento. Tudo isso a família escondia aos estranhos para não pensarem que Dorinha tinha "encosto". Não era uma endemoninhada, mas uma virgem, uma entidade divina. Graças à fé, a tribo de Zebinho vivia alvissareira. A chama era perene, ardia como o sol, não se apagava com a tempestade ou com sopro de boca de padre. Um dia, frei Silvério surgiu lá e saiu enxovalhado. Pretendendo exorcizar, ao ver Dorinha, indagou:

— Quantos demônios tem?

A virgem respondeu:

— Só um na minha frente. Não é mulher, mas veste saia. T'esconjuro em nome de são José Maria!

— Vá embora corvo de uma figa! — avançou Manoel, levantando a mão, só não agredindo o franciscano porque Zebinho preferiu vê-lo afastar-se, sem quebrar as regras de hospitalidade.

O revoltoso logo ressuscitaria. Na casa de Zebinho, além de aparecer nos sonhos de Dorinha e de seu tio Manoel, constitui o assunto de todos os dias, razão de ser e da vida.

O vento, o vento é sagrado, o vento é a barba do monge.

Cada vez que trovejava, os olhares procuravam nas nuvens, ora clareadas pelos relâmpagos desferidos pelas armas sagradas, piquete celeste. Era o tropel que se ouvia, e a chuva, poeira líquida jogada pelas patas dos corcéis fantasmais. Querubina previa o mau tempo:

— Manhã ruiva é vento ou chuva — dizia, repetindo o ditado.

— Lugar de vento, lugar sem repouso — falavam os velhos.

Dorinha, bastante ventoinha, escapava à espiral que rodava na rua e que se perdia no infinito, então corria para casa e gritava:

— Vovó! vovó! O capeta ia me levando no redemoinho...

O vento vinha bailando, assobiando, rodopiando: era uma alma querida que estava penando. Um remendão tinha por hábito indagar com o adágio:

— Será que morreu padre, tabelião ou judeu?

Quando, sobrecarregado de cargas elétricas, o trem da procela descarrilhava, tombando no ar. Dorinha, Manoel, Joaquim e todas as crianças da tribo de Zebinho começavam a berrar:

— Vovô! vovó! São José Maria chegou dos Campos do Irani!

Era o tropel da cavalaria do céu, comandada por são Sebastião. E, então, reinava a alegria pelo retorno do monge. Se as coisas iam de mal a pior, e não se podia viver de brisas, ao léu da sorte; se passaram os "bons tempos do império"; se a peste dizimava a criação; se vencia a hipoteca; se a roça não se vendia; se o dinheiro era pouco para tanto remédio; se havia, na casa verde, a fome, a peste e a guerra; a solução estava no revoltoso! Zebinho ia para o buraco, de vento em popa; não ia ao vento, mas perdia o assento. Rancheiros modestos se arruinavam, esmagados pelas dívidas, oprimidos pelos grandes. Dir-se-ia que a casa verde estava em chamas: um vendaval propagava o fogo, em cada coração um furacão de ódios e ressentimentos.

Inverno de dias curtos e pardacentos, pródigo em geadas e aguaceiros, flagelava os pelados em suas choças, queimara de frio inúmeras crianças, chibatara andarilhos nos caminhos. Felizmente, tocara-o a primavera pela porta dos fundos. O minuano, doce suspiro da cordilheira dos Andes, refrigerava o ar das campinas. As árvores frutíferas enchiam-se de flores como a noite se enfeitava de estrelas — metamorfoseara-se a vegetação raquítica, agora exuberante. Os campos, ardendo em chamas, pareciam uma Roma incendiada por algum Nero do sertão...

Taboão não passava de um lugarejo como tantos outros, meia dúzia de casebres eqüidistantes, sempre de janelas para a ruela comprida, sinuosa, única. Zebinho e Querubina recebiam muita visita e aguardavam também a do monge. Um dia, estavam na sala as irmãs Vacarianas, a Chica e nhá Maria.

— Sabe, cumadre Querubina? — dizia a Chica — Deodato, aquele par de França que curtia as mágoas por causa da virgem Maria Rosa?

— Ahn!?

— Errou o pealo, se casou com a Conceição, aquela namoradeira.

— Sabe, cumadre? — contava nhá Maria — Que desgraça! A Candinha tava esperando são José Maria, e o filho morreu sem o santo batismo. Diz que criança é anjinho até sete anos, mas a Candinha queria levar prum padre

— Credo, cruzes! Num dianta. O padre arrenegou são José Maria. O remédio é pedir ao monge a salvação do menino — interveio com espanto a mãe de Dorinha, a qual continuou: — Meu filho já tem dois anos e vai ser batizado pelo monge. Já vai tempo que tamo esperando. Pra padre, não levo. Se chama José Lembrado, o capiau.

Dorinha fora buscar lenha num capão das proximidades. Também ia pensando no batismo de José Lembrado, o dedo mindinho dos irmãos. Repentinamente, ficara absorta, como que perdida, pálida, sem se dar conta da caminhada, do tempo, do mundo. Passara a noite rezando, fazendo promessas, aterrada, em vigília; recebera o dia com uma sensação de alívio, com mais satisfação que vestidinho novo no aniversário. Mas sempre com aquele ar de pavor anuviando-lhe o rostinho. Contra tudo, se sentia venturosa. Era uma virgem. Ia devagarinho e, de súbito, parou deslumbrada a fitar a caneleira. Não trouxe a lenha e assombrada entrou gritando na casa:

— Vovó! vovó! Eu vi três homens na caneleira! Vovó! Eu vi são José Maria!

Enquanto Dorinha soluçava, convulsivamente, de contentamento, explodiram exclamações:

— Bendito seja Deus! Viva o vivo anjo são José!

— Ai de nós, pobres pecadores! Salvação! Salvação!

— Aleluia! Aleluia!

O acontecido alvoroçou a residência, e Taboão, e Campos Novos, e o Bituruna, e a casa verde. Ansiadas, as mulheres haviam acompanhado Dorinha para ver o monge. A caneleira, enorme e frondosa, o sol espargindo prata sobre as folhas, era um altar erigido no meio do campo. Um céu mais azul do mundo ardia nos olhos, cobrindo um chão esmeraldino. Cabeças pensas, mãos unidas sobre o peito, as senhoras pareciam orar até com os passos.

— Salve, rainha, mãe de misericórdia...

Todas as três ficaram em dúvida se tinham ou não visto os vultos que Dorinha distinguira e que se elevaram lentamente do solo. Na manhã seguinte, sob as vistas de Dorinha, inúmeras crianças foram batizadas pelo monge. E quando a mãe da virgem teve um ataque e caiu, ela correu ao monge que, com a unha, riscou uma ferida na perna para Dorinha colher o sangue numa xícara e dar à paciente, o que operou milagre.

Durante uma semana, o povo fez romaria à caneleira, Dorinha transmitindo as "ordens divinas". Na hora das refeições, Querubina punha a mesa para o monge, mas só a virgem o via comer. No sétimo dia, esta fez conhecer a vontade do "profeta": Zebinho deveria voltar a Taquaruçu e lá reunir os crentes, a fim de que se restaurasse a monarquia.

Cumprira-se a promessa. Chegara a hora da liberdade, o monge ressuscitara! Voltara o revoltoso. Um ano de espera, um ano de sofrimento inaudito, um ano de ansiedade e, por fim, a maravilhosa recompensa. Estava próximo o fim da república e dos peludos. "Palavras e penas o vento leva", diz um velho adágio — mas não as penas de penar ou as palavras de um monge. José Maria regressara à casa verde, esperançando os aflitos, espaventando os soberbos.      

As mulheres arrumaram as trouxas e agasalharam as crianças sob as toldas das carroças. Zebinho mandou Manoel soltar os terneiros no campo e abrir as janelas da casa, à hora de abandoná-la. De Taboão partia para Taquaruçu, sete léguas adiante, em caminho comprimido por longas cercas de taipa, a primeira leva de fanáticos. Findava o ano de 1913, ao renascer a cidade santa, a capital da monarquia.

O arraial ia aumentando gradativamente com a chegada dos camponeses pobres, entre eles o velho Jerôme. José Maria deixava ver-se por todos, no céu, em forma de nuvem, as barbas mais longas e mais alvas. Ninguém mais sabia quem o avistara primeiro. Enquanto Dorinha estava acamada e Maria Rosa não chegava, ditava as ordens por intermédio de Manoel. Então, os homens se proveram de facões de guamirim, lanças de taquara, e se exercitaram em combates simulados. Laços de fita branca envolveram chapéus de barbicacho e borlas, e alvas bandeiras com cruz azul bordada no meio tremularam no reduto, prenunciando a luta. Durante vários dias, o povo rezava de pé, rodeando grandes fogueiras, para que José Maria aparecesse. Manoel viu e anunciou que fora o escolhido para comandar a "santa cruzada". Houve aclamação, delírio após a procissão.

Também Joaquim, criança de doze anos, irmão de Dorinha, contou a avozinha Querubina que vira o monge, o qual lhe dissera para formar um exército de meninos. Na manhã seguinte, comandava sessenta, todos armados de varas de marmelo.

Frei Silvério, que fora mandado às pressas a Curitibanos, espantado com os preparativos bélicos da cidade, prevendo uma carnificina, bem intencionado, surgiu no reduto montado em seu burrico. Chegou molhado da chuva, encharcado. Arrastando os erres, o sotaque alemoado, começou a doutrinar no pátio da casa de Chico Ventura. O povo aglomerava-se, ameaçador. Quando falou em "falsos monges", ouviram-se gritos de "cachorro!" "ladrão!" e "padre vagabundo!" Manoel esboçou agressão, o facão levantado.

— Mata! Mata! — berravam iradas as velhas fanáticas.

Sob saraivada de insultos e apupos, frei Silvério se foi a rogar pragas, esporeando, vingando-se no muar. Enquanto o burrico engolia os caminhos, ele se afundava nos próprios pensamentos, decepcionado. Afinal, que adiantava ser bom e compassivo para uns, e falar sobre necessidade de estradas, escolas, hospitais, para outros? Quantos sacrifícios fazia pela Igreja! Os que professavam a religião e compareciam às missas eram poucos, misturavam catolicismo com espiritismo e fetichismo. E o pior era enfrentar esses endemoninhados maçons. Lembrava-se dos boletins espalhados pelo Bituruna, assinados com o pseudônimo de Luismér.(10)

Há tempo sofria violenta campanha. Desde que se negara a receber na igrejinha o cadáver de um influente maçom, os boletins se alastraram por baixo das portas das casas. Encontrara um na própria sacristia.

Praxedes e Cirino levaram o padre até uma encruzilhada, sem trocar palavras. Ia acabrunhado, encurvado no lombo do burrico. Poderia ter sido morto. E pensar que vivia para os outros, para fazer o bem... Se santo não fosse, gozava de fama. Era comum ouvir-se — "bom como frei Silvério", "seja virtuoso como o santo frade". Existia para a Igreja. Bem sabia das fábulas a seu respeito. Um pinheiro seco não caíra sobre o cavalo de uma jovem noiva porque o pai não quis esperá-lo para celebrar o casamento? Um maçom não morrera acidentado por não querer confessar-se com ele? Uma menina vira o próprio Cristo a seu lado! Mas frei Silvério se sentia humilhado, abandonado. Não sabia como entrar em Curitibanos. O juiz e o boticário zombariam dele, e o boticário vangloriar-se-ia. Conhecia-os bastante. Do fiasco, os maçons ufanar-se-iam.

À noite, em Taquaruçu, Manoel começou a chorar, no que foi logo acompanhado por todo o povo. Depois, entrou na palhoça e dormiu. Não se esgotara o primeiro minuto da madrugada quando um grito lancinante acordou o acampamento. Querubina fora atender Dorinha e, ao chamar Manoel, este não lhe atendera. Sacudindo-o para despertá-lo, percebera que o filho estava morto. Manoel era um cadáver estendido sobre a tarimba. Fez-se o guardamento, todo mundo chorando, soluçando. O defunto ficou em cima da mesa, os círios iluminando o caminho para a alma, uma chave entre as mãos para abrir a porta do céu. Muita prosa, chimarrão, café e cachaça. Mas as mulheres rezavam e pediam a intercessão do monge. Quando começaram os cânticos do meio-dia, houve o milagre: Manoel ressuscitou! Subitamente, ergueu-se e sentou-se, dizendo:

— Eu não morri! Quando estou dormindo, vou ao céu falar com são José Maria. Tenho ordem de dormir com três virgens e fazer a guerra de são Sebastião!

Um a um, então, lhe beijaram os pés e se foram a render graças no quadro santo.

A noite já vinha perto e ainda se ouviam os hinos, a cantoria desafinada. Excitado, lúbrico, Manoel se dirigiu à capela, onde dormiu com três virgens, as quais deixaram de ser virgens. Foi um escândalo. Joaquim, seu sobrinho, com grande sabedoria, passou a exercer a chefia de todo o reduto, e seu primeiro ato consistiu em mandar sovar Manoel com varas de marmeleiro. Demonstrando grande aptidão e capacidade para o comando, ordenou ao avô Zebinho que passasse quinze dias deitado de bruços para que se tornasse santo.

Joaquim era um prodígio: vidente, dirigiria o exército de são José Maria, além do regimento dos meninos — apesar de, no reduto, viverem pelados da estirpe de Chico Ventura, Praxedes, Jerôme, Alonso, Venuto Baiano, Elias de Morais — o juiz de paz —, Augusto Moreira — o escrivão, esse agora chamado Maneta, o que perdeu a mão no combate do Irani.

Entrementes, na fazendola do Eliazinho dos Santos, são José Maria apareceu à virgem Maria Rosa, ordenando que se proclamasse a monarquia, em Perdizes, e que fosse coroado Rocha Alves como imperador. A notícia correu mato e, ao norte de Taquaruçu, como este, surgiu o reduto de Caraguatá, ainda ignorado pelas autoridades. Em Curitibanos, obedecendo ao coronel Albuquerque, concentraram-se forças policiais e uma centena de jagunços à frente dos quais se encontravam o Dente de Ouro e João Ruas. Enquanto uma companhia do 6.º Regimento chegava a Porto União da Vitória, festivamente recebida, outra se deslocava para Erval. Canoinhas já estava ocupada pelo Exército.

Joaquim sabia que Taquaruçu seria atacada. Também Dorinha, pitonisa, dissera-o várias vezes. Se a luta ainda se não travara, havia uma causa. Juca Tavares, que se dizia disposto a lutar contra os paranaenses de Porto União da Vitória, em favor dos direitos de Santa Catarina, convencera Rocha Alves a mandar impetrar um habeas-corpus ao Supremo Tribunal Federal. O rábula redigiu o requerimento, com muitas assinaturas a rogo, no qual se alegava cerceamento de liberdade de culto, mas o instrumento só provocara curiosidade na capital do país.

Alertado por Jerôme, o sábio Joaquim então nomeou Alonso comandante do exército de são José Maria, proclamando-o menino-deus e menino virgem! Nesse momento, houve grande delírio no quadro santo.

No dia do ataque a Taquaruçu — 29 de dezembro — o reduto estava preparado, seria defendido pela cavalaria do céu. Manoel fora perdoado e carregaria uma bandeira sagrada, a qual deveria acenar de dentro da trincheira, a fim de que cinqüenta peludos morressem cada vez que a levantasse. Também os sessenta meninos, armados de varas de marmelo, ficariam no reduto para defender os não-combatentes. O acampamento estaria sob a proteção dos santos, enquanto perdurassem as rezas. Somente os soldados que tivessem facões e armas de fogo, segundo as ordens de Alonso, tentariam cortar o caminho às forças dos peludos. Assim, apenas dois pequenos grupos foram destacados para emboscar o inimigo. Uma guarda, a de Venuto Baiano, ficou guarnecendo a estrada norte do reduto; outra, formada pelos que só brigavam a facão, vigiava o sul. Aqui e acolá, ora na copa do pinheiro, ora de dentro da imbuia, nos cerrados, nos passos dos rios, os bombeiros também se punham em posição de combate. Quando as colunas dos peludos se aproximaram das guardas, já estavam encurraladas. Os comandados de Venuto Baiano puseram a correr os vaqueanos do Dente de Ouro e, ainda, se chocaram com o destacamento do 6.º Regimento, que retrocedeu após várias horas de tiroteio. A força que viera pelo sul nem combateu: regressou a Campos Novos assim que o piquete de João Vieira fez fugir uma patrulha de vaqueanos

Taquaruçu se rejubilou com a vitória, houve missa e procissão em ação de graças. José Maria, que velava pelo reduto, foi mais uma vez glorificado. As armas e as munições dos cargueiros apreendidos ao inimigo, Alonso as distribuiu aos homens de briga. Continuava a prática religiosa e o arrebanhamento de gado por bem ou por mal. A notícia da derrota dos soldados da república atraía mais gente a Taquaruçu, principalmente os perseguidos pelos coronéis De Paula, Araújo, Albuquerque e outros ricaços do mato.          

 

                       

CAPÍTULO IX

 

Quando Praxedes soube que chegaram a Curitibanos as mercadorias que encomendara a uma firma de Florianópolis e que haviam sido apreendidas a mando do coronel Albuquerque, ficou indignado. Era um pelado, fora ministro da Fazenda, mas não tomara parte nos combates travados no Irani e em Taquaruçu. Aconselhara-se com frei Silvério, seu amigo, e resolvera não hostilizar o Exército nacional. Frei Silvério, com o crucifixo entre as mãos, prometera ajudar os camponeses pobres, levar-lhe as reivindicações de terras ao Governo, e dissera mal dos políticos, dos coronéis ambiciosos, das companhias esbulhadoras. De nada adiantara a palavra do frade. E Praxedes achava-se afrontado. Comprara a dinheiro, o transporte por sua conta. Seu estoque diminuíra, vendia muito, porém fiava demais. Não faltavam querosene, sal, fumo de corda, bebidas, açúcar, mel, cereais, chumbo e pólvora, mas tecidos e armarinhos. Ao lado da pilha de carteirinhas de cigarros Sport, Simila, Elite e Faísca, maços de palha, havia muito artigo de farmácia dentro dos vidros. Se bem que estivesse a ponto de voltar às hostes de José Maria, ainda se preocupava com a casa de negócios. Homem de excepcional prestígio no Bituruna, nunca fora ofendido e humilhado. Poderia morrer pobre, mas deixaria aos filhos um patrimônio de honra. Caráter de aço, um fio do bigodão, de pontas caídas como a aba do chapelão de boiadeiro, garantia a palavra empenhada, valia uma fortuna, um mundo, uma vida. Não fora por acaso que, certa vez, José Maria o escolhera para exercer o cargo de ministro da Fazenda. Duas tropas que também traziam seis espingardas e cerca de três mil cartuchos haviam sido presas em Curitibanos. A carga estava amontoada num canto do improvisado quartel de polícia.

No momento em que soube do caso, Praxedes se exaltou e começou a comentar detrás do balcão. Os fregueses aglomerando-se, muitos dispostos a buscar as mercadorias. Os que jogavam malha suspenderam o torneio.

Ao partir de madrugada, acostumado a ser obedecido, disse à mulher:

— Se eu não voltar, leve tudo para o reduto. São José Maria cuidará dos meus.

Levou consigo o filho mais velho e alguns camaradas, entre eles o Pedro Teles. Alguns muares foram puxados pelos cavaleiros. Ao aproximar-se da povoação, Praxedes foi recebido a bala. Mas, sem se intimidar, ergueu uma bandeira branca e, então, o coronel Albuquerque, à frente da tropa de policiais e vaqueanos, desceu do burrico e veio abraçar Praxedes, como amigo, comprometendo a palavra de homem:

— Você está garantido...

Praxedes evitou-o e deu as costas à escolta dos peludos, pronunciando suas últimas palavras:

— Quero as minhas fazendas que vim buscar...

Nesse instante, foi metralhado traiçoeiramente, enquanto também tombavam quatro companheiros. Não tivessem seu filho e Pedro Teles aproveitado a confusão do tiroteio para fugir, a carnificina seria completa.

Dizem que Praxedes não estava morto quando foi transportado para o quartel, e que teria sofrido horrores antes de expirar. Quem sabe? Pela cara de frei Silvério, era de se desconfiar, nunca fora visto tão abatido. Com persistência, convencera as autoridades a permitirem que o corpo fosse entregue aos familiares, com uma trégua.

Do fundo da cama, à beira da morte, com violenta disenteria, frei Silvério recebia visitas e fazia pedidos dessa natureza. Também estava morrendo, porém o superior hierárquico lhe ordenara que vivesse para suprir a falta de sacerdotes. Abalado física e moralmente, pedira a extrema-unção, que lhe fora negada. Então, houve um milagre. Isto após a grandiosa procissão em que foi carregado num bangüê, a fim de restabelecer-se.

Na encruzilhada onde há uma palhoça abandonada ao pé de frondosa canjerana e se ergue uma cruz informe, de braço quebrado, habitam lobisomens e mulas-sem-cabeça. O boitatá acende os olhos chamejantes, o capiroto apavora o viandante desprevenido. Na madrugada, eles não dormem, preferem atormentar as crianças nos pesadelos. Ai de quem por lá passar na hora fatídica da meia-noite... Mas é ponto de encontro de namorados, se a noiva está fugindo, se o galo canta antes do tempo. Duas sendas tortuosas de lá se vão, para lá convergem serpenteando. Numa vinha a milagrosa procissão de frei Silvério, na outra, o enterro de Praxedes — o ex-ministro da Fazenda. O silêncio noturno cortado ora pelo murmúrio das rezas, ora pelos gritos nostálgicos dos carregadores da rede que ecoavam pelas quebradas. De todas as choupanas saía gente para formar o séquito de Praxedes e, lá na encruzilhada, frei Silvério se levantou do bangüê, assombrando o povo de Curitibanos. Ficara bom de súbito e acabara voltando a pé para o convento. Os pelados atribuem a cura à intercessão de são José Maria, que tem piedade dos infelizes, enquanto os peludos afirmam que só frei Silvério é santo de verdade. Talvez fosse, pois evitara o que parecia inevitável — a briga, pedindo que uns respeitassem os outros, retornando acompanhado pelos coronéis e seus vaqueanos.

Maria Rosa à frente, vestida de branco. De lá partira o cortejo fúnebre para o cemitério. As mulheres entoavam hinos, Dorinha inocente como um passarinho. Os pares de França, graves e contrafeitos, escoltavam o corpo. Jerôme chorava, Chico Taquara prometia vinganças.

No local, permaneceram a palhoça, a canjerana e a cruz anônima. É uma cruz onde não ardem velas, é uma cruz de alma solitária, de alma penada. Muitos contam que a história daquela cruz é uma história de dinheiro enterrado. O negro Olegário sabia que não era. Não surgira por causa de dinheiro, nem por causa de mulher. A história daquela cruz é a história de um cotejo. A palhoça fora um boteco, Olegário o freqüentava. Tudo aconteceu num sábado, à tarde. De pé, um grupo de caipiras rodeava a mesa, assistindo ao jogo. Baralho acaba em duelo. Zebinho sempre dizia: "brinquedo de homem junto, cheira defunto". O parceiro, um vaqueano que fora guarda da Lumber, era muito atrevido. "Pior que polícia", pensavam os espectadores. Depois do Irani, Olegário mancava de uma perna, e o jagunço o provocara com sorna:

— Joga, coxo.

Em frente a cada contendor, um copo de cachaça e o facão desembainhado...

— Truco!

— Seis!

— Joga, coxo!

O capanga venceu a partida e a assistência. Olegário, imóvel, fitava o cabra que o escarmentou:

— É coxo mesmo, não me aperreie.

Metido a valentão, Zico Bode estava bêbedo e queria mostrar que era macho. Tinha os fios do bigode e da barba escorridos para baixo, justificando a alcunha. Parecia ter focinho, e a cabeleira poenta semelhava palha de aço.

— Tá me infernando, timbinga duma figa! Pule pra fora, porco espinho! Peludo lazarento!

Os espectadores cercaram emocionados, na estrada, os gladiadores. Ambos bufavam de cólera e se espancavam à lâmina. O aço ficou rubro de sangue, talho com menos de palmo é arranhão. Zico Bode atacava com a boca arreganhada, cara enfurecida de fera. Num vaivém a arena ia-se deslocando para a encruzilhada. Olegário, manquejando, negaceava o corpo e arremetia com golpes certeiros, abrindo fundas feridas no adversário cada vez mais exangue, que tal destreza não esperava do negro. Gingando, o capanga rasgou a coxa esquerda de Olegário, mas levou um lanho na face e ficou sonso. O sangue escorria das línguas de aço, tingia a roupa, encharcava as botas, alagava o chão. Defrontavam-se encurvados, agachados, peito e ventre encolhidos. Estilo do mestre Chico Taquara. Cada qual mais atento, procurando achar o outro desprevenido. Fingia-se uma pancada e desferia-se outra, tentava-se uma cutilada. Na última vez que golpeou o ar, Zico Bode perdeu o equilíbrio e caiu como facão de Olegário cravado no peito.

Ninguém sentiu a sua morte e Zico Bode virou cruz, cruz anônima de encruzilhada. Cruz onde ninguém acende velas. E nunca mais se pronunciou seu nome, a fim de evitar a aproximação da alma do falecido. Olegário ocultou-se na casa verde, mas conhecia toda a história daquela cruz.

Muitas cruzes havia no Bituruna, como aquela, impressionando pessoas de cidade. O Dr. Túlio de França, promotor público de União da Vitória, recém-chegado ao Contestado, compôs estes versos muito elogiados na época:

Cruz

A margem dessa longa estrada curva

E sem rumor, eu, descrente supus

Que até não fosse, a vista quase turva,

Que não fosse uma cruz.         

Turbado o sonho, o coração tremente,

Pensei então que aqueles braços nus

Estivessem a rir profundamente...

Que não fosse uma cruz.

Mas ai! Doce clarão depois me veio:

Em seu olhar se fez de novo a luz.

E assim de dor e de remorsos cheio

Vi bem que era uma cruz.

Saudade, amor, recordação sincera...

Tudo enfim! Tudo quanto é dor, traduz,

Nessa fera e solidão de tapera,

Tristemente uma cruz.

Enxergando esse frio e triste cerne

Que lembra uma ilusão, e dor, Jesus...

Quem haverá que, então, não se consterne

Enxergando uma cruz?...         

 

                       

CAPÍTULO X

 

Rubra flor, dourados frutos, verde touceira, a bromeliácea abundante dera nome ao novo reduto: Caraguatá.

Maria Rosa, anunciando as ordens emanadas do monge, era mais que bela, um encanto, possuía algo de sublime. O que acontecera a Zebinho e sua família, repetira-se na fazendola do Eliazinho dos Santos. O monge fizera aparição nos sonhos, acabara falando com ela ao tê-la ajoelhada ante a caixinha de Nossa Senhora. Que a virgem dissesse ao povo para coroar imperador Rocha Alves, o maior festeiro da casa verde, e que se instaurasse a almejada monarquia. Maria Rosa cumpriu seu destino a deslumbrar, a fanatizar a multidão, e nas chapadas da serra do Capador surgiu qual rubra flor de dourados frutos e verde touceira o reduto de Caraguatá. Aqui, todos obedeciam cegamente à virgem: o próprio pai, Eliazinho dos Santos, curvava-se. Os doze pares de França, à frente Zé Tigre e Leandro Palma, escoltavam-na orgulhosos. Entre eles, mais garboso, mais galhardo, o Antoninho, contente da vida e de seu amor. Deodato, apaixonado mas rebelde, não podendo suportar o descaso de Maria Rosa, unira-se à volúvel, à doidivanas Conceição — a que não via homens sem experimentar desejos, mormente o másculo e retinto Joaquim Germano, o que provocava escândalo no acampamento. Somente Deodato nada via e nada sabia, tão fingida a rapariga, tão boa na cama como passando a mexer as ancas. Andrade quase lhe conta, quase precipita a tragédia.

Rameirinha, Conceição provocava a todos. Tentação em pessoa, resistiam-na por medo de Deodato ou por medo aos castigos do inferno. Chegara a ponto de oferecer-se a Antoninho, esfregando-lhe as nádegas. Antoninho ia derrubá-la, levantar-lhe o vestido vermelho, mas o preto Joaquim Germano, que a seguira como um cão danado, acabou presenciando a cena do abraço e impedindo o desfecho. O fato é que Antoninho a evitava, mas dizem que nem frei Silvério pôde se conter diante da ladina Conceição, quando a reteve na sacristia. Joaquim Germano variava por causa dela, possuía-a na ausência de Deodato, e todo mundo sabia.

A começar pelo próprio Rocha Alves, os principais chefes pelados estavam em Caraguatá. Entre eles, o juiz de paz, Elias de Morais; o escrivão, Augusto Moreira, o maneta; Eliazinho; Fragoso; João Vieira; Pitoca — além de homens como Olegário, Joaquim Germano, Coco, Gidoca e os irmãos Sampaio. Tavares, o rábula a um só tempo fanático e partidário de Santa Catarina no litígio de fronteiras, também comparecera. Já impetrara um habeas-corpus ao Supremo Tribunal e, por Rocha Alves, fora encarregado de redigir um manifesto à nação brasileira. Acompanhou-o, aderindo à causa comum da monarquia, um ex-fiscal da estrada de ferro e antigo capitão da Guarda Nacional, Aleixo.

Chegava muita gente nova a Caraguatá. Em Canoinhas, fez sucesso a notícia: Bonifácio Papudo, que ali estivera às ordens do juiz de direito, chefiando um bando de vaqueanos, "passara-se para os fanáticos". O Contestado tornara-se um território rebelado, o assassinato de Praxedes indignando os crentes. Novos redutos foram formados, porém dependentes de Caraguatá, onde se combinou uma grande festa para o dia da coroação de Rocha Alves e da proclamação da monarquia. "A hecatombe de Taquaruçu será um canto lúgubre, uma nota dissonante, um sudário, uma mortalha estendida em farrapos sobre as páginas da história brasileira."

(Do Diário da Tarde, edição de 1º de fevereiro de 1914.)

 

                       

CAPÍTULO XI

 

Alonso, o menino-deus, o menino virgem, mas pai de numerosa família, mandou cavar trincheiras dentro de Taquaruçu.

Depois que Pedro Teles e um grupo de amigos do finado Praxedes andaram fazendo tropelias nas imediações de Curitibanos, tentando assaltá-la, chegaram reforços de todas as partes e lá acantonaram. Era a nova expedição que se formara para arrasar o reduto. Compunham-na cerca de setecentos e cinqüenta homens e cento e cinqüenta cargueiros; uma seção de artilharia de montanha, duas seções de metralhadoras, o Regimento de Polícia de Santa Catarina e o 54.º Batalhão de Caçadores. Os edifícios públicos e casas particulares de Curitibanos estavam superlotados de soldados, inclusive o velho teatrinho de tábuas e a própria mansão do coronel Albuquerque. Este, a exemplo de outros latifundiários da região, exultava com os acontecimentos. O fanfarrão Colete e o acovardado Padeiro, gauchescos, procuraram o tenente-coronel Aleluia Pires e se ofereceram para combater com seus vaqueanos mas, exigindo pagamento astronômico, foram dispensados. Entre os chefes desses bandos de mercenários, havia um, sempre presente, que parecia um porco em pé, repelente, inclusive com o bigodão áspero e nojento. Um sanguinário.  

Defreitas, o deputado paranaense que conspirava em União da Vitória, com a triste Junta Governativa do Estado das Missões, estava em Curitibanos para acompanhar as tropas, incumbido de parlamentar com Zebinho.

Infestada de bombeiros a mata, Jerôme saíra a pé, cedo, com o cabisbaixo e meditabundo Trabuco. Confiava no faro do jaguara, na oração milagrosa do patuá e no experimentado facão. Voltou ao reduto trazendo a notícia da aproximação das forças atacantes. Ainda ouviu o deputado Defreitas parlamentar com Zebinho, quando muitos já corriam para as trincheiras ligeiramente cavadas no solo, e Joaquim punha em forma seus sessenta meninos armados com varas de marmeleiro.

— Em nome do marechal Hermes da Fonseca, presidente da república, vim dizer-lhe para mandar dispersar sua gente, antes que cheguem tropas com metralhadoras para acabar com esses ajuntamentos...

Zebinho foi logo interrompendo o político, cassando-lhe a palavra:

— Diga ao marechal Hermes que mande logo uma metralhadora, que eu quero conhecer. Depois lhe dou a resposta...

Percebendo a inutilidade da viagem empreendida, o deputado Defreitas retornou com os seus guias.

Poucos eram os homens em condições de combate em Taquaruçu, e eles não contavam com armas e munições. Uma vintena de clavinas em mãos de exímios atiradores, porém as balas dificilmente poderiam atingir o alvo. O pelado fazia raias no projétil e furava o cano da espingarda para ouvir o assobio. O tiro sibilando era o único de valor. Mas, com isso, a arma perdia o alcance e a precisão. Coragem, astúcia de índio ou de fera, tudo isto sobrava no combatente — porém, era só. Conhecimento de arte militar não tinha.

Taquaruçu, com sua igrejinha e suas taperas, a praça fervilhando de fanáticos a rezarem, era um aldeamento indefeso, aberto, escancarado. Confiavam cegamente na proteção de são José Maria. O monge, no céu, velaria pelos crentes. Cada vez que Manoel ou outro fanático acenasse a bandeira sagrada, cinqüenta peludos cairiam fulminados. As varas de marmeleiro, chicoteando o ar, desbaratariam as cavalarias inimigas. Os outros atirariam de perto ou lutariam a ferro branco.

Próximo ao arraial, havia um monte bastante escalvado, para o qual Jerôme destacara dois bombeiros. De lá se divisava nitidamente o reduto. Via-se o que as pessoas faziam nas ruelas ou na praça. A excelente posição custou a vida de ambos, cujas orelhas testemunharam o feito, levadas para Curitibanos. Naquela colina, rala de mata, foram assestados os canhões e as metralhadoras do Exército, enquanto o Regimento de Polícia e o 54.º Batalhão de Caçadores se estenderam como uma muralha de soldados, tendo por torre o outeiro artilhado.

Meio-dia. O povo ainda estava formado no quadro santo, ouvindo as últimas ordens de Alonso, Zebinho e Joaquim, quando explodiram as primeiras granadas, fazendo vítimas entre as velhas rezadeiras.

— Para as trincheiras!

— Viva a monarquia!

— Viva são Sebastião!

— Viva são José Maria!

O quadro era pavoroso, a igrejinha e as miseráveis palhoças ardendo em chamas, troando o canhão, cerrando gente a metralha, mulheres e crianças a tombarem, despedaçados os corpos.

Brado de guerra, Taquaruçu é um clamor, um grito de socorro, um lamento.

Os gritos que partem de dentro das trincheiras revidam o ataque:

— Miseráveis!

— Pés-redondo!

— Covardes, larguem a máquina de costura!  

— Venham brigar a ferro branco!

— Covardes, larguem a máquina de costura!

As bandeiras sagradas acenadas, as varas de marmeleiro surravam o ar, mas não surtiam o efeito desejado, pois o bombardeio continuava a cada momento mais intenso. E raras vezes alguma bala sibilante abria uma rosa de sangue na dourada túnica do militar apavorado.

Não era um combate, mas uma chacina. Das mulheres e crianças que se haviam refugiado na igrejinha, nenhuma escapara com vida. Arderam em chamas as taperas. O quadro santo estava alagado de sangue; os homens, feridos; os meninos, chorando e gritando dentro das trincheiras. Poucos escaparam à carnificina.

Somente quando cessou o fogo José Maria chegou à frente da cavalaria do céu, punindo os agressores, enchendo os crédulos de espanto. Enegrecendo rapidamente, a tarde estremecia revolta. Os raios cortavam os ares, o ribombo atemorizava a soldadesca inimiga, enquanto a chuva protegia a retirada dos pelados. Maria Rosa, avisada da tragédia, mandara os doze pares de França auxiliar os "irmãos", trazendo-os para Caraguatá. A missão fora cumprida com dificuldades, ainda que se aproveitasse o momento da tempestade e a escuridão da noite convulsa. Não havia pelado que não apresentasse ferimentos, o que tornara difícil a tarefa. Abandonada, Taquaruçu ficara juncada de cadáveres. Apenas uma antiga fanática, que enlouquecera, permanecera uivando cânticos em frente à ermida incendiada.

Se os fazendeiros e seus jagunços exultavam, se os policiais contavam proezas, tal não acontecia entre os soldados do Exército. Tanto o capitão Espiridião como o tenente Aristides, ambos do 5º Regimento de Infantaria, indignados com as ações covardes da polícia, acabaram recolhidos à sede da inspeção militar, em Curitiba.        

A notícia de uma estrondosa vitória corria o Brasil, porém não se vira uma batalha, antes uma chacina. Matos Costa, um capitão ainda jovem, comandante do 6º Regimento de Infantaria, um dos militares realmente bravos, possuía coragem para demonstrar simpatia pela causa dos camponeses, que, explicava, "eram brasileiros espoliados em seus direitos". Um patriota sincero, moço entusiasta, impunha-se à admiração dos colegas e da soldadesca com seu espírito compreensivo e generoso, sua visão incomum. A túnica abotoada ao meio, de largos bolsos, de gola alta ostentando nos dois lados o número 16; o quepe de oficial com dois fuzis cruzados, insígnia da infantaria — a farda, enfim, nunca esteve melhor assentada e honrada do que naquele oficial de olhar franco e ar alegre cujos bigodes, negros e vastos, não podiam esconder-lhe a juventude. Era ele quem falava em favor dos camponeses, desgostando os latifundiários. Sua voz já não se ouvia apenas no Contestado, no quartel ou nos círculos de prosa formados no bar da 15 de Novembro lá de Porto União da Vitória. Embora os jornais preferissem os depoimentos do deputado Defreitas e do coronel Albuquerque, ou entrevista de frei Silvério narrando suas peripécias, tudo corroborando a versão em que os camponeses não passavam de criminosos, a ação de Matos Costa produzia frutos. Suas idéias encontravam acolhida. O mérito cabia principalmente ao democrático Diário da Tarde, de Curitiba, que, em sua primeira página da edição de 5 de janeiro de 1914, estampava o artigo: "Pela Humanidade". Liam-se tópicos como estes:

É um crime o espingardeamento, a trucidação desse grupo de infelizes patrícios — homens, mulheres e crianças — que agem inocentemente, acorrentados à cegueira da ignorância e sugestionados pelo fanatismo religioso.

Acreditamos, porém, que além do motivo propriamente religioso haja também, no fundo, pelo menos da parte de alguns dos agregados, um desejo de vingança contra as autoridades de Curitibanos e Campos Novos por perseguições e espoliações de que essa gente se queixa.

Essa crueldade não se compadece com os nossos sentimentos de justiça, não se coaduna com os nobres impulsos de um povo culto; é um crime, é uma afronta à nossa civilização.

Os coronéis ficavam indignados com esse modo de encarar os acontecimentos e, em Curitiba, houve polêmica entre o Diário da Tarde e o Diário do Comércio. O Dia, de Florianópolis, procurou justificar com veemência a matança. Mas o artigo "Parlamentários Fuzilados", em que o Diário da Tarde reprovava o assassinato de Praxedes, não teve resposta.

Os que se vangloriavam dos tristes feitos não eram os que participavam efetivamente das campanhas. Os praças, de tudo ressentidos, queixavam-se, lamentavam-se — e o próprio tenente-coronel Aleluia Pires comunicou ao comando da Região que estava enfermo, para não mais dirigir as tropas.    

 

                       

CAPÍTULO XII

 

Taquaruçu mudara-se, temporariamente, para Caraguatá. Muitos feridos morriam, apesar do sábio tratamento com salmoura e ervas milagrosas, enquanto outros se restabeleciam. Zebinho, atingido numa das pernas, estava entre estes. Muitos foram os que perderam entes queridos e houve casos, como o de Elias de Morais, em que toda a família sucumbiu. Agora, ele comandava as rezas, comovido.

Na verde mata, na casa verde, o reduto vermelho. Vermelho de sangue, Caraguatá. Rubra flor em verde touceira. Quem colherá seus frutos dourados?

Nos céus de Caraguatá havia cidades, exércitos, igrejas. As virgens viam-nas perfeitamente, assim como tinham encontrado José Maria dentro de uma cova de tatu. O reduto era uma fortaleza divina. E os que morriam na terra iam formar na cruzada que se exercitava no espaço. Por isso, Zebinho respondia quando lhe perguntavam de Joaquim, o sábio menino:

— Passou-se.

Talvez no céu comandasse sessenta anjinhos armados com varas de marmeleiro...

No dia programado, realizou-se a festa de coroação do imperador e da proclamação. Houve uma grande churrascada em pleno quadro santo. À tarde, Rocha Alves recebeu o diadema de latão, de joelhos ante à virgem Maria Rosa, e o povo prorrompeu em viva ao novo imperador e à monarquia, enquanto os pares de França alçavam as espadas, e ressoavam salvas de tiros para o ar. Em nome de são José Maria, Rocha Alves lavrou de viva voz o decreto de nomeações: Zebinho, secretário-geral do Governo; Chico Ventura, ministro da Guerra; Eliazinho, ministro da Fazenda; Joaquim Vidal, ministro da Agricultura; Elias de Morais, comandante das Rezas e da Forma, além de juiz de paz; Fragoso, comandante do Acampamento; Taquara, comandante do Entrevero; Alonso, o menino-deus, o menino virgem, comandante geral; seu ajudante, o velho Jerôme. Manteve, assim, a constituição do governo do monge, substituindo o finado Praxedes pelo Eliazinho. Falou do trono:

— Os povos de são João e são José Maria devem formar redutos em todo o território do Brasil, no sul e no norte. João Vieira, Marcelo, Josefino, Tavares, Aleixo e Papudo serão comandantes. Eliazinho arrecadará dinheiro, com abaixo-assinado, para financiar a santa cruzada. Joaquim Vidal cuidará das roças e não deixará faltar mantimentos. Viva são João e são José Maria! Viva a monarquia!

Sua vontade era lei e assim se faria. Inúmeros redutos surgiram às pressas no Bituruna. Muito dinheiro seria arrecadado. Vidal destacaria mulheres para o trato do gado leiteiro oculto nos currais inacessíveis e homens para construção de monjolos, plantio de milho, mandioca, morangos e cereais.

Quando Rocha Alves terminou, Tavares se pôs defronte à cruz, de costa para ela, e leu o manifesto que redigira de acordo com os chefes pelados e que deveria ser impresso e distribuído à população quando, na reconstituída Taquaruçu, fosse também aclamado o novo imperador.(11)

Fuzilaria saudou a nova lei. O manifesto seria datado de 5 de agosto porque, nesse dia, inaugurar-se-ia a nova Taquaruçu. Então, Rocha Alves mandou Tavares, Papudo, Aleixo e outros formarem novos redutos na região do Tamanduá, ordenando ao povo que se preparasse para a batalha iminente. Os pares de França escoltaram as virgens, deram quatro voltas no quadro santo, levando-as à igrejinha onde elas dormiam acompanhadas de Zefa e Querubina.

— Morada de santa — disse Antoninho a Maria Rosa, beijando-lhe a mão.

Ao alvorecer, abrindo-se o sol em pétalas de luz, lantejoulando a rancharia tosca, três tiros para o ar avisaram que o deputado Defreitas vinha parlamentar e negociar a paz. O governo recebeu-o na sede provisória, a casa de Rocha Alves. O chimarrão corria a roda, Defreitas sentou-se, chupou o mate e expôs as finalidades da visita:

— O marechal Hermes está animado pelo desejo de não hostilizar os senhores, desde que obedeçam às autoridades e cessem de juntar gente para provocar anarquia.

— Anarquia?... Isto aqui não é solo da república — interrompeu Rocha Alves.

— Os senhores compreendam: a república é uma realidade que ninguém mais pode ignorar e que os homens já provaram ser o melhor regime político.

— Melhor?... Ahn! — exclamou Zebinho, coçando a cabeça, interpelando-o:

— Vosmicê é católico? Quem é mais inteligente, o homem ou Deus?

— Sou católico, tenho certeza que é Deus.

— Entonce me responda: Deus é rei ou presidente da república?...

Defreitas desconversou:

— O governo da república está disposto a negociar a paz com os senhores, quer saber se os senhores aceitam dinheiro. Estou autorizado a oferecer cem mil contos.

Elias de Morais, juiz de paz, Comandante das Rezas e da Forma, tinha autoridade de chefe e fez a proposta dos pelados:                       

— Nós mandamos dispersar o povo se forem presos e enforcados os coronéis Depaula, Fabrício, Albuquerque, Amazonas, Afonso Camargo, Pedro Vieira, Pedro Ruivo, os irmãos Miechmiekowk, mais uns outros, e depois que nos derem de volta as vidas das mulheres e das crianças assassinadas em Taquaruçu.

O ministro da Guerra, Ventura, completou-a com mais uma condição:

— Nós queremos um milhão de contos de réis e a restauração da monarquia!

O Defreitas ficou desapontado, mas como político velho não demonstrou contrariedade. Maneirosamente, abraçou um a um ao despedir-se, dizendo-se amigo de todos, deixando-os desconfiados. Afinal, assim fazia com os eleitores, habituado a distribuir apertos de mão a caipiras.

Nos dias que precediam o combate, os piquetes deixavam Caraguatá, ora em busca de dádivas, dinheiro, mercadorias e alimentos; ora arrebanhando gado, prendendo e matando peludos, reconhecendo o terreno. Quando algum capanga de coronel vinha amarrado para o reduto, sofria o chamado "suplício da estaca" no quadro santo. Com um talho de facão sob o queixo, onde se fincava o pau pontiagudo, o bruto ficava pendurado, esvaindo-se em sangue, pagando os pecados!

Fracassada a missão do deputado Defreitas, as tropas que haviam reduzido Taquaruçu a cinzas e que se achavam acantonadas em Caçador, agora sob o comando do tenente-coronel Gameiro, receberam ordem para destruir Caraguatá.

Mas Alonso, o menino-deus, o menino virgem, não se descuidava. Ouvira aos bombeiros as advertências e fora alertado pelos doze pares de França. Então providenciara medidas de defesa. Mandara postar guardas nos bifurcos dos caminhos. À frente de cinqüenta atiradores, dirigira-se para a estrada principal que demandava o reduto. Na do norte, destacara outros tantos pelados sob a chefia de Venuto Baiano.

Para a defesa do carreiro do oeste, contava com a virgem Maria Rosa e os doze pares de França, além de trinta combatentes armados de facão.

O inimigo avançava em três colunas a convergirem sobre a mesma presa. Era flagrante a superioridade em homens, armas e munições. Metralhadoras, fuzis e canhões contra espingardas e facões.

A mata via e ouvia. Confundindo-se com a floresta, com as árvores, com as folhas secas, os pelados estavam à espreita, acoitados nos troncos de imbuia, nas copas dos pinheiros, nas trincheiras camufladas.

Pela estrada geral vinham cinqüenta soldados. Ao entrarem num lodaçal, a saída estava truncada, impedida por enormes troncos tombados no chão. Emboscada de Alonso e seus comandados. A tropa caiu em pânico, as praças chafurdavam de bruços, inundando de sangue o pântano. A retirada se processava desordenada, sob silvos de balas e motejos de caipiras triunfantes.

O grosso da tropa, cavalaria à frente, mais de seiscentos homens, enveredou pelo oeste. À espera estavam os doze pares de França, empolgados com a presença de Maria Rosa. Invisíveis, como fantasmas. Somente a fumaça da pólvora denunciava-lhes as posições. Os soldados não sabiam como e para onde apontar as armas, aterrorizados, paralisados. Sob o fogo de inimigos que lhes pareciam milhares, recuavam espavoridos.

No passo do riacho Canhada Funda, postara-se a guarda de Venuto Baiano. Pressentida pelo capitão Matos Costa, travou-se cerrado tiroteio, com baixas de lado a lado, enquanto Jerôme e Chico Taquara ansiavam pela hora da esgrima. Mas os canhões obstaculizavam as ações, as metralhadoras atiravam a esmo. Quando a coluna, caladas as baionetas, entra na mata para descobrir e desalojar os pelados, ainda assim é colhida de surpresa por uma demoníaca falange de fanáticos. Encharcam-se de sangue as douradas fardas milicianas, retalhadas a golpes de facão. Um tenente e vários subalternos são prostrados a pancadas, e só os cadáveres dos rasos são poupados. Chico Taquara, Jerôme, Bibiano, Olegário, Maneta, os irmãos Sampaio, e outros que sabiam brigar apenas à arma branca, espumavam de ódio. Quando o corneteiro começou a tocar socorro, Conceição assomou à trincheira e alvejou-o com certeiro tiro de revólver.

Entrementes, Chico Ventura marchara para São Sebastião das Perdizes, com outros ministros e mais uma centena de homens. O lugarejo fora transformado em base de operações do inimigo, a retaguarda — lá estava o hospital de emergência, funcionando na antiga igrejinha. De inopino, há o assalto, os feridos são abatidos ao se levantarem das macas, ou fogem assustados para as matas. A ação retaliadora é rápida e eficiente. Após levarem a morte e o pânico à última fila do inimigo, os atacantes tornam a se espalhar pela floresta.

A tática, contudo, era atrair cada vez mais para o fundo da selva o exército invasor, levá-lo, inclusive para dentro do próprio reduto abandonado. Mas, acudindo a tropa desnorteada, soou plangente o toque de retirada...

Taquaruçu fora vingada. Morreram três pares de França, inclusive o comandante Leandro Palma. Outros pelados também pagaram a vitória com a vida, mas os agressores tiveram cerca de cinqüenta baixas, a metade em mortos.     

                       

 

CAPÍTULO XIII

 

As crianças choravam os pais e os pais os filhos; as viúvas, os finados esposos. Chegaram à casa verde os três anunciados flagelos: fome, peste e guerra. A fome precedeu à guerra, e esta à peste. O tifo dizimava os sublevados. O próprio Rocha Alves se achava acamado, com violenta disenteria. Mais de seiscentas pessoas, em Caraguatá, estavam a sucumbir do mal. Todos os dias havia enterro. O arraial tornou-se fúnebre. A febre fazia mais vítimas entre as crianças, mas famílias inteirinhas se acabaram repentinamente. As receitas caseiras, as ervas milagrosas, surtiam pouco ou nenhum efeito. José Maria chamava muita gente para o céu... Dorinha, a virgem Dorinha, fora uma das primeiras.

Logo se decidiu a mudança da sede do governo para outro local. Apesar da epidemia avassaladora, persistia a resistência.

Montada em seu vistoso corcel ornado de prata e veludo, de franjas e fitas, Maria Rosa ia à frente dos retirantes, escoltada pelos pares de França e seguida por mais duzentos cavaleiros. Com seu vestidinho branco, castanha cabeleira caída aos ombros, era a fada da utópica revolução, a inspirar ânimo e coragem até aos mais infelizes. Atrás da tropa de muares, vinham a pé centenas de homens e mulheres, a carregarem trouxas às costas e crianças aos colos. Outros transportavam enfermos em improvisadas macas. Na última linha, uma dezena de boiadeiros tocava o rebanho. A caravana só interrompia a viagem se alguma parturiente dava à luz, pondo no mundo um novo crente, ou se era preciso abrir cova para o que partia a chamado do monge.

A sete léguas por ínvios caminhos, o terreno ideal para o novo acampamento era circundado de rochas e bosques. Ali, em Pedras Brancas, foi erigida a igrejinha e demarcado o quadro santo. Contornando-o, no chão agreste nasceu uma centena de palhoças. Houve festa. A procissão comovida, por alguns acompanhada de joelhos, introduziu na ermida a imagem idolatrada de são Sebastião. Vidal, Zebinho, Coco e Gidoca assaram o apetitoso churrasco. A viola e a rabeca, ao ar livre, alegraram o povo. Inúmeros casamentos foram celebrados. As viúvas cansaram de tanto chorar e esperar a prometida ressurreição dos mortos e, da virgem, receberam ordens para contrair conúbios sacramentados pelo juiz de paz Elias de Morais, e pelo escrivão, o Maneta. A própria Maria Rosa apareceu de mãos dadas com Antoninho no quadro santo e manifestou ao pai o desejo de logo se casar. Emocionara Eliazinho, acrescentando às últimas palavras: "na terra ou no céu". A notícia agradara e alegrara, mas preocupara também. Rocha Alves voltara gravemente enfermo de Caraguatá para a sua fazenda, refúgio bem guardado por inúmeros agregados. Não seria interessante faltar à virgem Maria Rosa. O casamento contava com o consentimento geral, mas só para mais tarde, ou para nunca mais. Que se amassem Antoninho e Maria Rosa, mas que a união fosse de fato celebrada pelo próprio José Maria...

Tal notícia agradara a todos, com exceção de Deodato, que, para agravar seu estado de espírito, desconfiava cada vez mais da dengosa Conceição, sempre o ciúme a morder-lhe o peito.

Conceição tinha gestos graciosos, pretensão e faceirice. Vestia-se bem. Ou melhor: caía-lhe admiravelmente a chita estampada, limpinha, esvoaçante às frescas rajadas dos campos. Deixava os filhos entregues à fiel Dadá, recebia e visitava homens, passava derramando sensualidade do corpo inteirinho — dos seios, do colo, das cadeiras —, despertando desejos. Era o escândalo do reduto.

— Rameirinha.

Amava a todos e a nenhum, apesar do indelével sentimento de asco, de aversão, que experimentava ao entregar-se. Desdenhava de tudo, desprezava a vida e o mundo, gostava de enciumar e invejar, gerar desgraças, vingando-se do que lhe acontecera. Já de nada valiam os conselhos de Dadá. Só Jerôme costumava dizer aos camponeses:

— No fundo é uma boa alma, igual a nóis.

Deodato vingava-se nos peludos. Chefiava piquetes que incendiavam fazendas e arrebanhavam gado. Um dia, ele próprio levou uma expedição à Chuva de Pedra. Fez uma enorme fogueira do casarão e fuzilou o coronel Petrônio.

— Vai morrer, desgraçado!

— Sou um pai de família! — suplicou o pé-redondo.

— Quem não respeita as filhas dos pobres, não é pai...

Diálogo curto precedeu a execução.

Deodato tornara-se tão feroz e temido que já se fazia obedecer, embora Alonso desse os comandos das terríveis sortidas sertanejas a Castelhano, Pitoca, Olegário, Nabor e Venuto Baiano.

Por determinação de Alonso e Maria Rosa, de Pedras Brancas os redutos se alastraram pelo Bituruna revoltado. Pouco distante dali, surgiu o de Vacas Brancas. Outros menores se formaram nas margens dos rios Tamanduá e Timbozinho, bem como na Serra do Caçador e na de Santa Maria.

Ao norte, onde predominaria a autoridade do Tavares, logo seriam fundados o de Bonifácio Papudo, entre os rios Timbó e Paciência, com guardas postadas em Barra Verde e Piedade; o do próprio Tavares e sua rapariga, na serra do Espigão; e o do célebre Aleixo, na serra dos Vieira. Também nesta região havia minúsculos povoadinhos em pé-de-guerra sob o comando de valentes como Salvador Vieira e Marcelo. Os vaqueanos diziam "redutinhos". Um parecia um Palmares em miniatura e era conhecido como o reduto dos pretos. Dir-se-ia que continuava cada vez mais encarniçada a luta contra a escravidão.

Em cada nova aldeia, nunca fortificada, uma igrejinha, um quadro santo, a rancharia desabando ao vento, e o monjolo pilando o milho...

João Vieira, antigo operário — agora, um desocupado, que já tomara parte num sufocado motim dos trabalhadores —, fora substituído como par de França, para ser nomeado comandante geral do reduto de Santo Antônio, alvo de nova investida das "forças em operação de guerra".

A casa verde estava infestada pela soldadesca, cujo ânimo impressionara o general Mesquita, o qual, designado para dirigir a incursão ao Contestado, revelou o fato, comunicando que encontrara a tropa "em latente efervescência de revolta pela falta de conforto e abandono em que se achava". Em Porto União da Vitória e em Curitibanos, tendo no lombo a experiência de Canudos, pôde bem aquilatar o que era aquela insurreição anticoronelista. Trocara idéias com o capitão Matos Costa, que lhe dissera:

— Não passam de pobres camponeses, nossos patrícios, rebelados contra as injustiças de que são vitimas, a situação de miséria em que se encontram. O único remédio possível é a desapropriação das companhias estrangeiras e dos latifúndios, e a distribuição de lotes de terras aos que trabalham. Esse fanatismo religioso nada representa, é um pretexto, um desabafo dos explorados.

Ambos combinaram expor a situação ao governo e o propósito de evitar o fratricídio, mas cumpriam as determinações superiores.      

Os bombeiros sondaram a concentração na fazenda dos Pardos, próxima a Calmom; viram a chegada de reforços e acompanharam os movimentos das colunas. Desta vez vinham dois mil homens, Fabrício e sua gente incluídos, e seriam mais se o general não houvesse dispensado a polícia. Às forças precedentes estava agora incorporado o 7º Regimento de infantaria.

Alonso reuniu o povo em Pedras Brancas, enviou mensageiros aos redutos e às guardas. Taquaruçu e Caraguatá, que das cinzas haviam renascido, deveriam ser encontrados desertos, e os outros tinham de resistir se fossem atacados. Para as serras do Espigão, Caçador e Santa Maria, partiram patrulhas para obstruir os caminhos e armar emboscadas.

As tropas, que se prepararam em Porto União da Vitória e de lá embarcaram para Poço Preto, ao chegarem à ponte do Timbó, encontraram preso a uma vara um bilhete: "Acordo dos fanáticos. — Quem não quiser morrer não venha cá. Ordem do nosso Chefe Superior Divino Espírito Santo. Comandante."

Dias antes, um tenente que se aventurara a atravessá-la sozinho foi picado a facão. Transpuseram-na, afinal, várias companhias de diversos regimentos, com suas seções de artilharia — canhões e metralhadoras —, guiados pelos vaqueanos, em direção ao reduto de Santo Antônio. Marchavam em coluna de costado, a um de fundo, adentrando perigosas picadas entulhadas de arbustos. Só isso já constituía um sacrifício ímpar, glória, odisséia, ainda que o desejo fosse o de ir ao arrepio para os quartéis. O avanço era inútil, o comboio debandava: a farda, a mochila, o calçado, a arma, a fome, tudo atrapalhava — já não bastasse a falta de ânimo numa luta que se não afigurava justa.

À entrada do reduto, somente duzentos homens comandados por João Vieira opunham resistência, espalhados pelos arredores, metidos em troncos de imbuia ou trepados nos pinheiros. As outras guardas guerrilheiras, à espreita nos topes das colinas e das montanhas, nem foram molestadas. Se a coluna que incendiara Taquaruçu e Caraguatá prosseguisse a caminhada, faria a viagem do corvo, depararia com os doze pares de França e os infantes de Alonso postados nos entraves e nas grotas da serra.

O canhoneio foi intenso, as palhocinhas do reduto rebentavam como as bombas, enquanto alguns pinheiros tombavam ao impacto da artilharia. De quando em quando, um militar caía atingido pelos projéteis que rasgavam o ar sibilando, aterrorizando os soldados que atiravam a esmo, sem divisar o inimigo.

À tardezinha, considerando-se vitoriosas, as tropas legais bivacaram dentro do reduto. O regozijo durou dois dias. Ao se prepararem para o regresso, aconteceu o inesperado. São José Maria surgiu com a cavalaria do céu a lançar raios nos ares e a procela para impedir a retirada enquanto, fazendo o cerco dos peludos encurralados, a hoste de João Vieira fazia fogo, de preferência sobre os oficiais, levando o pânico, alvoroçando a soldadesca. Com canhões e metralhadoras bombardeando os bosques, o exército fez contramarcha.       

No dia seis de setembro

Seguia de Porto União

O capitão Matos Costa

Para o campo de São João.

Ia com setenta praças

A fim de reconhecer

Não sabia aquele bravo

Que era o dia de morrer.

E os jagunços a gritarem

Numa zoada infernal

Com sua virgem da frente

Mandando tudo avançar.

Um velho com um tambor

A virgem com uma capela

Os soldados disseram

Vamos fazer fogo nela...

(De uns versos encontrados no lugar denominado São João dos Pobres.)

 

                       

CAPÍTULO XIV

 

As polícias estaduais, os bandos de vaqueanos e o próprio 16º Batalhão de Infantaria, sediado em Porto União da Vitória, não obstante a presença do destemido comandante, capitão Matos Costa, não se aventurariam a empreender ações no sertão rebelado. Os pelados sabiam disso. Nem Matos Costa tinha intenção de fazer a guerra. Procurava a paz, mas a paz verdadeira. Mandara sua tropa acampar às margens do Iguaçu, apenas com a incumbência de guarnecer a ferrovia entre Canoinhas e Porto União da Vitória, e também a chamada Vila Nova de Timbó. Para certificar-se do acerto de suas idéias e decisões, resolvera entrar em contato com o Exército e são João Maria. Um dia, vestiu-se à paisana, apanhou duas malas velhas cheias de quinquilharias e, em companhia de um fotógrafo, visitou Taquaruçu, Caraguatá e Pedras Brancas. No trajeto da viagem, gozava da hospitalidade cabocla. Comia do que havia, dormia como podia. Ao sair, levava tudo que o pelado lhe podia dar: amor e saudade. Em cada cabana fazia um amigo verdadeiro. Ao chegar a Taquaruçu, já sabia quem era o pelado. Ia desatrelando as mulas, distribuindo espelhinhos e pentes para as mulheres, lenços para os homens, e entrando na roda do chimarrão, enquanto o companheiro tirava retratos. Eram recebidos a churrasco, com grande alegria. Todos ofereciam pouso, cada qual com mais empenho. A pobreza e a hospitalidade tocavam-lhe o coração de brasileiro e patriota. Ao indagar sobre os motivos da guerra, obtinha sempre a resposta:

— Nóis queremos um pedaço de terra pra trabalhar. São José Maria só veio salvar os pobres. Nóis aqui só não gostamos dos coronéis e dos miseráveis.

Tanto em Caraguatá como em Pedras Brancas teve igual acolhida. Jerôme ficou encantado com uma mágica infantil do fotógrafo, lhe ofertou um patuá e um pinhão cru do bornal. Matos Costa, conversando com Alonso, Deodato, Antoninho, Zebinho e outros, quis convencê-los da inutilidade da luta, mas Zebinho resolveu a questão:

— Não adianta brigarem com nóis. Se matarem os pobres, os ricos não comem e o Brasil não vai ter mais morador... Que adianta canhões contra a cavalaria do céu? São José Maria tem mais poder que todos os exércitos do mundo.

— Os soldados brasileiros não querem atirar sobre seus irmãos brasileiros e não concordam com a exploração dos coronéis e das companhias — disse Matos Costa.

— Mas tem que obedecer às ordens do governo. Por isso é preciso implantar a monarquia — ponderou Zebinho.

— Mecê parece crente... — disse um velho esfarrapado a Matos Costa.

O capitão assistiu às cerimônias do quadro santo e Alonso permitiu um bailarico em homenagem aos "amigos visitantes". Na manhã seguinte, todo o povo de Pedras Brancas se despediu, com Maria Rosa concedendo bênçãos do santo monge e os pares atirando para o ar. Matos Costa nunca mais esqueceu o que presenciara.

De volta, resolveu agir. Em Curitiba e no Rio de Janeiro, comparecia à redação de jornais, inclusive acompanhado de dois caboclos. Declarava textualmente:

— Os jagunços se queixam de que o coronel Depaula e outros chefes políticos lhes tomaram as terras que habitavam e agora lhes impedem de recorrer às terras devolutas do governo, por se terem apossado delas pessoas conhecidas e que têm facilidade de obter dos governos grandes territórios nos dois Estados.

Era o esclarecimento necessário, mas ouvido com muito desagrado pelas autoridades. O moço capitão era o Exército falando. Ninguém tinha tanto prestígio. Quando, em Porto União da Vitória, os soldados esboçaram um levante, revoltados contra a guerra injusta, a falta de conforto e provisões, bastou a presença do modesto comandante para acalmá-los. Naquela cidade, tornou-se amigo também de frei Silvério, do professor Serapião e de outros não muito bem vistos pelos fazendeiros. Matos Costa, com sua atuação, contrariava os políticos interesseiros e os diretores das companhias, que, com o apoio das autoridades municipais, sabotavam-lhe a ação pacificadora. Houve quem tivesse o desplante de telegrafar ao Rio, reclamando providências urgentes. Os coronéis aumentavam os impostos, prendiam, matavam. O coronel Albuquerque chegava a exigir que o reverenciassem nas ruas, tirando o chapéu, o que era um grande insulto para quem morava no Bituruna.

Agora, Tavares explorava o litígio entre o Paraná e Santa Catarina, exigindo a execução da sentença. Papudo e Aleixo, dizendo-se adeptos da causa, ameaçavam Canoinhas.

Em Caraguatá, Rocha Alves, que fora proclamado imperador, depois de distribuído o manifesto, morrera de tifo. A coroa, guardada na capela de Pedras Brancas, vaga, apenas simbolizava a monarquia.

No princípio do mês de setembro de 1914, após consultar a virgem, Alonso expediu ordens para a ofensiva geral. Ele próprio comandou uma sortida a Calmom, fuzilando todos os que considerava miseráveis. Nos campos de São João de Cima, uma patrulha pelada anunciou a guerra com o fogo ateado à serraria da Lumber Colonization. Estações da estrada de ferro foram atacadas e incendiadas, o número de vítimas crescia.        

Quando Matos Costa soube dos acontecimentos, alarmado e preocupado, embarcou num trem especial, com sessenta soldados e dois sargentos, em direção a São José, onde já houvera um assalto.

Próximo à linha, Trabuco fareja o chão, à cata de esterco. Um foragido de São João fez parar o comboio e mostra o cão rabugento ao comandante. Matos Costa, então, desceu com uma escolta à frente do trem. Ao aproximar-se de um vassoural, a tropa começou a ser alvejada, travando intenso tiroteio com o inimigo emboscado. O trem começa a correr para trás e só vai parar em Porto União da Vitória...

Matos Costa manda calar baionetas. Rufa um tambor, Maria Rosa vem à frente, carregando uma capela. De facão em punho, os doze pares de França investem contra o pelotão, prostrando os que não fogem espavoridos pelas matas. Matos Costa tomba, procurando socorrer seus comandados.

Alguns pelados foram mortos pelas costas. Venuto Baiano é que atirava sobre os próprios companheiros. Foi fuzilado na hora.

Enquanto a tragédia comovia a nação, frei Silvério chorava ao encomendar os corpos ante a multidão curiosa de Porto União da Vitória, já guarnecida também pelo 51º de caçadores. Um piquete sertanejo assaltava a fazenda Santa Leocádia, fuzilando o coronel Depaula. Os camponeses vingavam-se da miséria e dos sofrimentos do passado, em temíveis batidas pelo Bituruna.

Pitoca recebeu por um mensageiro uma carta do menino-deus:

"O senhor Francisco Maria Camargo.

Eu vos dou ordem e Deus e São João Maria lhe dará o poder e força para ir com um piquete de 15 homem em casa do João Goiten. Se houver peludo terão de brigar e esbodegar com tudo os peludos e resgatar uns preso que tem lá e esta hora será de madrugada, entrarão nas trincheiras sem dar tiro só a facão e depois disso terá o direito de lançar a mão no que for dos peludos, só menos em dinheiro isso sim não; e respeitar muito as família e não injuriar e terão o direito de dar as voltas que for necessária; e enconvidar os que for do acampamento para virem com o que puderem trazer, e o que for dos peludos terá o direito de Queimar, só dechando casa onde acomode as famílias onde ficar e os homens que for goiten é para vir de sepo aparado menos as famílias.

Francisco Alonso de Souza"

N. B. "O que for da geração doente que não venha e não peguem nada sinão Armamento e Criação."

Era a ordem de ataque a Corisco, lugarejo que, constava, sujeito à morféia. Minúsculo povoado distante apenas sete léguas de Curitibanos, guarnecia-o gente do negociante João Goiten, conhecido por João Bravo entre os peludos. Circundado por muros de pedra, estava bem defendido. Mas, na calada da noite, o piquete de Pitoca chegou sem ser visto ou pressentido. Com facões içados nas mãos, os combatentes escalaram a muralha silenciosamente, uns pela frente, outros por trás. Defronte à casa grande do vilarejo, travou-se um terrível combate de arma branca, no escuro, cada qual sem poder divisar a cara do adversário. Os golpes sucediam-se, desferidos com maestria de lado a lado, o sangue borbulhando das feridas, inundando o chão. Nesse momento é que os moradores acordaram e fizeram uso das armas de fogo, assustados com os vivas à monarquia e a são José Maria. É que os pelados haviam pelejado entre si próprios, cada um tomando por inimigo o companheiro que vinha de frente. Pitoca fora mortalmente ferido por um talho de facão, bem como outros pelados que com a vida pagaram a terrível façanha de se baterem com outros fanáticos.

Dias antes, levando de vencida a corja vaqueana, Castelhano entrou triunfalmente em Curitibanos, comandando a razia. Os coronéis fugiram com as autoridades. A cidade estava deserta e de joelhos.

— Vamos queimar a casa do coronel Albuquerque!

Os cavalos ardegos troteavam pelas ruas, levantando pó, deixando incêndios de rastro. Os irmãos Sampaio davam tiros para o ar, enquanto os outros gritavam:

— Viva são José Maria! Viva a monarquia!

— A câmara também é do coronel! — insinuou Gralha.

— E a cadeia! Vamos lá! — lembrou Maneta.

De alvenaria só havia o edifício da câmara e a residência do coronel Albuquerque, primeiros a ruírem em chamas. Depois, Chico Ventura vingou-se do boticário. Chegou a vez do pasquim e da "casa de telegramas". Vinte e duas casas ardiam em chamas e esvoaçava nas ruas o papelório da prefeitura, dos cartórios e da coletoria. Armas, munições e mercadorias foram encontradas nos armazéns abandonados e levados a Pedras Brancas.

Por pouco não se repetiu o fato em Lages, ao ser posto em debandada um magote de peludos no Capão do Chiqueiro, em Campo Alto, próximo àquela cidade.

Os piquetes de Nabor, Olegário e Joaquim Germano só travaram pequenos tiroteios, em incursões às fazendas. No de Olegário, estava Deodato, cada vez mais feroz, excedendo-se no cumprimento da missão, degolando o demônio.

Um dia, o próprio Alonso resolveu comandar uma razia ao rio das Antas. Saiu cedo de Pedras Brancas, à frente de seus doze homens. Ao se aproximar da colônia de europeus, numa batalha feroz, acabou morrendo com todos os doze camaradas.

A notícia abalou Pedras Brancas, parecia inverossímil. "Passara-se" o menino-deus!, o menino virgem! Já não bastasse a desgraça da peste! Todo dia morrendo gente como formiga. Algumas famílias já começavam a abandonar os redutos, vencidas pela epidemia. Surgiram os primeiros desentendimentos em Pedras Brancas. Elias de Morais discordava do casamento de Maria Rosa e Antoninho, contrariando o consentimento do próprio Eliazinho, e pretendia exercer o comando geral. Maria Rosa, no entanto, anunciou no quadro santo, sob inspiração do monge, que a escolha recaía sobre Antoninho.

Dia feliz não existe se Antoninho e Maria Rosa não o viveram quando o povo os aclamava, ambos cumprimentados entusiasticamente. Sob vivório, o comandante geral beijou a virgem. Logo celebrar-se-ia o maior dos casamentos.

Deodato sofria. Tinha uma dor grande que não podia chorar. Fingia ignorar a traição de Conceição e sentia um ódio que precisava desabafar. Prometera a si próprio jamais deixar Maria Rosa com outro se casar.

Um dia, Antoninho saiu de Pedras Brancas para fundar um reduto no Timbó. Deodato aproveitou a oportunidade e ordenou a vários homens que fossem à presença de Elias de Morais, exigindo que este o proclamasse comandante geral. Um recém-chegado asceta, recebido como um monge, concordou com a idéia e Elias de Morais cedeu à pressão dos rebelados. E ai de quem não reconhecesse a autoridade de Deodato! Quem não o vira com o facão empunhado a estraçalhar peludos, a trucidar até as famílias, coisa proibida, mas que não fora punida. E, à grande maioria, era indiferente agora a luta pelo posto, interessada somente em rezar e rezar.

— Tanto faz, como tanto fez.

Antoninho estava no Timbó, genuflexo ante à cruz, no momento em que foi preso pela escolta de confiança de Deodato. Não pôde reagir, surpreso com o fato, que se lhe afigurava traição. Estupefato, viu três companheiros baleados ao esboçarem reação. Com outros dois, foi conduzido de mãos amarradas ao reduto de Pedras Brancas.

Ao chegarem, os prisioneiros apearam da montaria no meio do quadro santo. O novo monge benzeu-os depois de Deodato ordenar que fossem picados a facão. Maria Rosa não viu a degola, começou a chorar convulsivamente e desmaiou. Ao acordar, repetia:

— Quero morrer. Meu casamento será no céu. São José Maria será meu padrinho.

Depois, parecia uma louca a pobrezinha, a vagar pelo quadro santo.

— Vá pra casa, diabinha — xingava Deodato. Eliazinho ficou sob vigilância, mas os crentes começaram a fugir dos acampamentos, e a epidemia de tifo a dizimá-los.

Deodato ordenou a Castelhano e Chico Ventura que continuassem "a castigar os peludos". E seu ato mais prudente foi mudar a sede do governo para o reduto de Santa Maria, protegido pelas serras, pela floresta, pelos atoleiros, pelos abismos e pelos saltos — reduto que, segundo o descrevia o general que viera comandar a gigantesca expedição militar, não passava "de um amontoado de povoações que se estendem por longa curva de três léguas, cobrindo um claro nos vales das serras de Santa Maria e Caçador". O centro distava nove léguas da antiga São Sebastião, agora ponto permanente de acantonamento do Exército nacional.

As escaramuças continuavam encarniçadas. Castelhano ameaçava a cidade de Lages, cuja população a abandonara, mas perdeu a vida, juntamente com uma dúzia de bravos, num combate travado em Campo Belo. O piquete chucro de Olegário, de investida em investida, regressou a Caçador. No norte, Papudo, Aleixo e Tavares fustigavam as guarnições militares, as colônias e as fazendas. Abastados coronéis, como os Araújo e Carneiro, ficaram sem as casas e sem as criações.

Já ninguém mais contestava a autoridade do comandante geral, e Deodato anunciou no quadro santo:

— Conceição é uma rameira, deve morrer. Nosso casamento está desmanchado. Vou me casar com a viúva do comandante Alonso.

No dia seguinte, Conceição foi degolada e se realizou o conúbio, com o novo monge fazendo uma cruz nas mãos dos nubentes.        

 

           

CAPÍTULO XV

 

Até as cidades afastadas do teatro de operações, no Bituruna, ficaram alarmadas com as ações retaliadoras dos pelados. Nas mais próximas, o êxodo chegava a ser total, as populações correndo de susto. Os sinos tocavam a rebate, ouvidos em todo o país. Diziam-se abandonados pelas autoridades os diretores das companhias e os coronéis, muitos — como os Gordo, Araújo, Carneiro, Camargo — já visitados pelos piquetes fanáticos.

Atendendo prontamente aos reclamos, o governo enviou uma enorme expedição ao Contestado, mobilizando novos regimentos, embarcados em trens e vapores. Era uma formidável guerra intestina que se travava, mas parecia haver séria preocupação em ocultá-la, pois a imprensa só noticiava com destaque os acontecimentos da conflagração européia, se é que não ignorava, com os historiadores, o Brasil e os brasileiros, suas lutas, suas aspirações.

De Curitiba, Setembrino de Carvalho comandava cerca de sete mil homens em formação de ataque, enquanto outras forças guarneciam fazendas, cidades, fronteiras. Um cerco gigantesco se apertava sobre os camponeses amotinados por José Maria. A primeira conseqüência foi cessar o comércio, a troca de couro de boi pelo sal, armamento e outras mercadorias indispensáveis. Três colunas foram organizadas: a do oeste, com os 51º e 57º de caçadores, o 15º e 16º de infantaria; a do norte, com 12º e 16º batalhões de infantaria, o 56º de caçadores, um esquadrão de cavalaria, uma seção de artilharia de montanha, um pelotão de engenharia e destacamento de policiais; a do leste, com o 10º regimento de infantaria, a milícia do Paraná, duas seções de metralhadoras, pelotão de cavalaria, e seção de artilharia. Mas, apesar do divertimento e dos namoricos nas cidades em que estacionavam, dos desfiles, dos festivais nos teatrinhos de madeira, dos saraus e bailes elegantes, aumentavam as partes de doente, de oficiais e subalternos, que o general tachava de "numerosas" e "irritantes". A grande novidade, que servia de tema permanente às conversações nos botecos de Porto União da Vitória, era o emprego da aviação. Pela primeira vez tal arma entraria em ação no Brasil, para espanto da população interiorana, que nunca havia visto um aeroplano.

Mas o céu é a pátria da monarquia! O que é Deus nas alturas? Pensemos como Zebinho: rei ou presidente da república? Quem domina as cidades que Dorinha e Maria Rosa viram suspensas no ar? Donde parte a cavalaria celeste sob o comando de são Sebastião? Donde José Maria vela pelos seus povos?

Não foi apenas um o pelado que profetizou a queda do "gavião":

— Ele cai sozinho.

— Vai ser morto como um passarinho.

— Vou preparar meu bodoque... — dissera o velho Jerôme.

Um conhecido carroceiro polaco acabou transportando o aviador, juntamente com o aparelho, para Porto União da Vitória, excitada com o acontecimento.

Nos redutos, a situação ia piorando. Nem a fome e o tifo venciam o ânimo dos pelados. É verdade que faltava açúcar, sal, café, fumo, e até carne. Quando Vidal, ministro da Agricultura, mandara plantar, muitos aproveitaram a ocasião para se entregarem nas cidades. É que Deodato, o alucinado Deodato, parecia ter sede de sangue. Não respeitava mais ninguém. Maltratava mulheres e crianças, não admitia a mais leve queixa — atropelava-as com o cavalo. Qualquer desobediência, punia com a morte. Tornara-se um tirano impiedoso. Na mata, havia mel, pinhão, abóbora, butiá, gabiroba; podia-se plantar milho, caçar o porco; fazer a farinha de coqueiro. Os ferimentos podiam ser tratados com erva, cachaça, salmoura, terra, teia de aranha. A morte era apenas um passaporte para o céu. Mas Deodato, a cometer injustiças e barbaridades, ia, pouco a pouco, acabando a rebelião.

Tendo conhecimento de tudo que acontecia com os fanáticos, Setembrino de Carvalho mandou publicar e distribuir por toda parte um apelo em que, principalmente, lhes oferecia lotes de terra:

Fazendo um apelo aos habitantes da zona conflagrada, que se acham em companhia dos fanáticos, eu os convido a que se retirem mesmo armados, para os pontos onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se.

Aí lhes serão garantidos meios de subsistência, até que o governo lhes dê terras, das quais passarão títulos de propriedade.

A contar, porém, desta data em diante, os que não fizerem espontaneamente e forem encontrados nos limites da ação da tropa, serão considerados inimigos e tratados com todos os rigores das leis de guerra...

Já não era vã a resistência. Afinal, pela palavra do general, os governos se comprometiam a emitir títulos de propriedade em favor dos camponeses. Talvez a promessa fosse cumprida, se o movimento não descambasse para a anarquia, porque os que se entregaram foram traídos. Alguns degolados pelos vaqueanos, outros passados pelas armas dos policiais.      

Frei Silvério desempenhou seu papel. Na companhia de um novo jesuíta, saiu de Canoinhas levando o apelo. Algumas famílias lhe deram ouvidos. Animado, resolveu dirigir-se aos redutos do norte. Partiu cedo, junto com um médico muito influente, grande amigo dos pobres. Cada qual num burrico. Ao serem divisados por uma guarda, as balas começaram a assobiar e a montaria do médico tombou mortalmente atingida.

— Sou eu, frei Silvério! Não atirem!

Pensara em operar um milagre e regressar triunfalmente como um santo a Canoinhas. Salvou-se por um triz e voltou com o companheiro na garupa, amuado com a caçoada, o riso de mofa dos maçons. Em Canoinhas, não o veneravam.

Canoinhas vivia sobressaltada, apesar do movimento de tantos soldados. Mulheres e crianças tremiam de medo, os homens fingiam valentia, mas nem sequer abriam as janelas ao ouvir os estampidos das armas distantes. De Barra Verde, um lugarejo próximo, depois do canto do galo, saía uma patrulha pelada e ia fustigar a cidade, provocando os canhões e as metralhadoras do Exército. Quando o 12º batalhão, com um piquete de cavalaria, apoiado por vaqueanos, marchou rumo a Barra Verde, foi batido e retornou. Numa das incursões, em Padilha, o braço direito de Aleixo foi decepado pela metralha. Papudo, que chefiara um grupo de fanáticos que se chocara, nas proximidades de Papanduva, com o Regimento de Segurança do Paraná, entregou-se às autoridades de Canoinhas e ninguém mais soube dele. Após inúmeras escaramuças com tropas acantonadas em Papanduva, Aleixo compreendeu num lance a situação e empreendeu retirada das imediações.

Entretempo, o general Setembrino de Carvalho, que vinha sendo alvo constante de investivas, acusado de dirigir a campanha "comodamente instalado em Curitiba", enquanto as tropas "estavam abandonadas à própria sorte, passando privações, fome e frio" após conceber o plano geral de ataque, chegou a Rio Negro e mandou distribuir uma autoproclamação.(12)

Tavares fora o único dos rebelados a ler e entender o boletim, e a gostar do estilo do General. Afinal, nem era um camponês, um fanático sincero, um pelado autêntico. Tinha ligações com certos coronéis de Santa Catarina, que o protegiam, interessados na exploração do litígio fronteiriço, mas já não cria pudesse escapar salvo da aventura. Não contava com muita gente. Pelado procurava pelado. Tavares era, apenas, o rábula. Interessado no lema "execução da sentença ou morte", não havia ninguém nos redutos. Sabia-o Tavares, apesar de redigir cartas a comandantes fanáticos nos termos da que enviou a Marcelo.(13)

Tal missiva foi achada no bolso da calça do cadáver de Marcelo, quando uma companhia de infantaria, um bando de vaqueanos, uma seção de metralhadoras e um contingente do 43º batalhão conseguiram bivacar no reduto juncado de mortos e feridos.

Tornou-se crítica a situação de Tavares. Aleixo pretendia abandonar a serra dos Vieira e internar-se em região inacessível ao Exército. Vários "redutinhos", próximos a Canoinhas, foram deixados às tropas cujos chefes se vangloriavam da façanha, "feito extraordinário". Se a marcha constituía uma "brilhante jornada", "magnífica vitória", quanto mais a ocupação de um arraial deserto...

Tavares, que escolhera uma bela rapariga para companheira e já pensava em escapulir para outras plagas, era tratado com distinção pelos legalistas. Em meados de dezembro, recebera uma carta de um major que o convidava a render-se. Então, chegou a conferenciar com oficiais tratando e distratando, a dizer, a contradizer-se, fazendo promessas, descumprindo a palavra. Na última carta que enviou ao major, escrevera, entre outras coisas:

Não podemos de forma alguma, depor as armas a não ser depois de terminado o litígio entre os dois Estados (Santa Catarina e Paraná) e mais alguns pontos que, segundo o que conversamos ficou combinado; iludir-vos não posso, também não sei fingir. Meu coração embora de um homem que pegou em armas contra o poder é sincero e leal, e o micróbio nocivo da sociedade corrupta, ainda não pôde o contaminar.

Tinha sorte. Um dia, foi encontrar-se com Aleixo e lhe ofereceu dinheiro e mercadorias em troca de combatentes. Não teve êxito na negociação, ninguém o acompanhou. Quando regressava, em seu belo animal, caiu numa emboscada, livrando-se milagrosamente por uma bala ter atingido o seu revólver, ainda na cintura. Ao saber que, na serra do Itajaí, várias companhias ocuparam posições exploradas pela cavalaria, e que poderosa artilharia fora assestada no alto de uma coxilha, fugiu com a jovem cabocla. A chacina não se consumou, mas os verdadeiros pelados se espalharam pelas matas.

Onde havia um camponês, sua prole, uma palhoça, a matilha policial, a súcia de vaqueanos ou, esporadicamente, um piquete do Exército entravam em ação destruindo tudo. Os ranchos eram reduzidos a cinzas, presos ou assassinados os ocupantes. Já não havia em pé um aldeamento sertanejo.

Depois que Antoninho fora degolado, Andrade só não teve idêntico destino por reclamá-lo para bombeiro o Jerôme. Mas perdera as honras de par de França. Estava sempre pertinho de São Sebastião das Perdizes, atocaiado no vassoural. Com Deus e são José Maria, espionava as manobras do inimigo e "castigava" algum desgraçado que se perdesse no bosque. Devido a homens como ele, os vaqueanos de Curitibanos se negavam a entrar nas matas de São Sebastião das Perdizes. Manejava o facão como se esta arma fosse parte do próprio ser, como um tigre tem por arma os próprios dentes. Estraçalhava o cabra. Descoberto por uma patrulha, não pôde resistir e foi preso. Baixinho, acorcundado, bronzeado, de barba rala, maltrapilho, a camisa tinta de sangue seco, foi amarrado pelo pescoço e, em caminho, arquitetou um plano:

— Me sortem, que eu levo meceis pra conhecê o caminho de Santa Maria.

Os militares confiaram a Fabrício e seus vaqueanos a missão de reconhecimento. Andrade, com a corda ao pescoço, os punhos amarrados, mal podendo dirigir o tordilho, ia à frente, contente, ar zombeteiro, mofando da morte. Entrou por uma picada que levava a uma grota cheia de caboclos, mas nesse instante, antes que pudesse realizar o intento, foi puxado pela corda, arrastado pelo chão e ali mesmo degolado.

Jerôme palmilhara léguas e léguas de agrestes caminhos, rondando, olhos e ouvidos da mata. Ia quebrando ramos e galhos para marcar o trajeto percorrido. Algumas vezes, chegava às cidades e colhia informações fazendo-se de reles vendedor de mel ou rapaduras, fingindo-se de bobo. Trabuco ajudava-o a simular idiotice e afigurar-se ridículo. Jerôme, quando voltava ao reduto, o fazia à noite, diluía-se nas sombras da floresta, vivo, astuto como uma raposa. Tinha fé nas orações dos patuás, que sabia de cor, e no seu afiado facão. Não possuía outra arma. Arrebatara fuzis e sabres das mãos de inúmeros pés-redondos, mas preferia o fiel e antigo picador de fumo, abridor de atalho. Saía a pé, com Trabuco, preocupado com o matungo e a bicharada que deixava em casa. Sentia saudades, não como dos filhos e netos, alguns dos quais nem conhecera, mas também saudades. Há mais de uma semana deixara Santa Maria, para espionar os movimentos envolventes dos peludos. Com o bornal minguado de frutos do ingá e milho tostado, ia logrando a fome e se mantinha em pé, embora tão magro. Mas era um forte. E se a beleza é a naturalidade, a singeleza, a espontaneidade, a simplicidade, então ele era belo. Estava atrás de uma moita, próxima a um bosque, vigiando um contingente de cavalaria acampado pouco distante, ávido por achar algum polícia ou vaqueano extraviado.

Com forte escolta, um comboio de carroças transportando prisioneiros, feridos e víveres, vinha daquele ponto estratégico.            

De cócoras, com a cabeça gacha coberta pelo chapéu de palha, rosto velado, Jerôme achara um trevo de quatro folhas e sorrira. Depois passou cuspo em forma de cruz na ferida da perna e cismou na vida. Era o pensamento de todos. Amava os irmãos de crença, os injustiçados, os explorados e perseguidos; odiava os miseráveis, os coronéis usurários e gananciosos, os seus lacaios, os seus governos, a sua república. Recordava-se da antiga choupana alçada sob um pinheiral. Entristecia-se perdido no simplório passado. Um rancho, uma cabocla e um cavalo baio... Lembrava-se do despejo, a palhoça queimada, a roça destruída, a criação roubada, uma menina violada e os outros coiceados a carabina. Depois aquele vagar inconstante pelos campos e matas, como o fizera são João Maria. Aquela terrível ânsia de liberdade. Até como vadio se sentia preso, quanto mais como agregado. Talvez fosse bom espichar as canelas e esquecer tudo. Quem se importa com a vida de um pobre caipira, um pária infeliz. Que mal fizeram as mulheres e as crianças de Taquaruçu? Quantas mais seriam assassinadas a rezarem? Não vinham agora milhares de homens, soldados do Brasil, acabar com os caboclos brasileiros? Tinham máquinas de bombas e balas, gaviões de aço, e tudo que fosse preciso para arrasar a casa verde. Não satisfeitos em destruírem os ranchinhos de palha, o milharal de louras bonecas de longos cabelos, já iniciavam uma derrubada para acabar também com as matas. Amuado, já descria na implantação da monarquia. Deodato não estava à altura da missão: havia horas em que nem parecia um cristão, um crente — não ouvia os conselhos dos mais velhos, não respeitava mais ninguém! E de boléu voltava à memória a imagem de um rancho, uma cabocla e um cavalo baio... Tudo cinzas — cinzas no chão, cinzas no coração.

Com os bigodes apenas plantados sobre os cantos da boca, longos fios de barba escorrendo do queixo, o caipira pressentia o fim. Ainda alisou o pescoço do sarnento Trabuco e acendeu o cachimbinho de bambu. Era um dos grandes da igreja de são José Maria. Mas como poderia Deus permitir tanta miséria, tanto crime no mundo, sendo "Boníssimo" e "Todo-poderoso"? Deus, que fez a natureza, as flores. Deus, que deu vida aos seres. Foi Deus que criou tantos pinheiros! Jerôme lançou um último olhar à floresta: não viu a riqueza incalculável, mas uma beleza que sentia penetrar-lhe na alma, sacudir-lhe as carnes, excitar-lhe os nervos. Achou-se prisioneiro de tudo, do mundo, dos homens, do pinheiral. Hum! O rancho é de pinho, de pinho é a viola, é feito de pinho o caixão...

Esfarrapado, descalço, apenas com o facão enfrentando o mundo, a selva, o inimigo, Jerôme era um herói e merecia uma medalha. Pelado do estado-maior, chefe da igreja rebelde, combatente idealista, adivinho sonhador, tinha de ser agraciado por seus atos de bravura. Mas ainda nada ostentava no peito franzino. Chegara agora o seu momento de glória. Uma medalha nas próprias carnes, uma fuzilaria como salva. Uma medalha de chumbo penetrando o coração, um laço de fita vermelha escorrendo no peito — uma medalha de morte, uma fita de sangue.

A caravana se aproximara. Trabuco latira delatando o dono. A posição foi cercada e Jerôme abatido, caçado na própria toca. O corpo ensangüentado com o corte das orelhas, louros de guerra, foi levado em lombo de burro, ninguém sabe para onde. Trabuco, tomado por cachorro louco, morreu a paulada.

Quando ia longe o cadáver de Jerôme, vinham já perto os socorros do céu com salvas de estrelas e a noite carregou nos braços o dia morto.     

 

           

CAPÍTULO XVI

 

Todos os dias havia procissão em Santa Maria, o reduto com o nome do riacho encaracolado na serra, e do vale aberto como uma tonsura na floresta. Deodato carregava a imagem de são Sebastião numa das mãos, enquanto a outra içava o facão como se a lâmina — língua de aço — convidasse a combater os inimigos da monarquia. Quando cessavam as preces, começava o vivório intenso, homenageados a altos brados são Sebastião, são João e são José Maria. E Deodato obrigava a reconhecerem-no como santo, ao tempo em que frei Manoel, com sua esmolambada e encardida casaca, o lenço cor-de-rosa ao pescoço, as botinas abertas e retorcidas, era cultuado como monge, ocupando a casa grande do vilarejo, na qual tratava dos enfermos e feridos.

Famélico, resignado com os "castigos do céu", estropiado, o povo continuava a formar no quadro santo, resistindo. Com os olhos secos de tantas lágrimas choradas, na montaria de arreios de prata, enfeitados com laços de fita, silhão de veludo, de branco vestida, Maria Rosa era a virgem a cavalgar escoltada pelos doze pares de França. Mas não via Antoninho entre eles, não via ninguém, parecia uma louquinha, só queria morrer. Dava respostas lacônicas às perguntas dos crentes e só vivia a falar com José Maria, que a chamava para o céu.        

Armamento havia. Poucas mulheres não tinham, como a virgem, um revólver. Com os comboios apreendidos aos legalistas, munição sobrava. Como se fabricava farinha nos monjolos, também se sabia fabricar balas para as espingardas.

No meio do largo, aqui e acolá, um e outro se apresentava com parte de fardamento tomado aos vencidos, ora túnica ou camisa de campanha, ora calças ou culotes de brim cáqui, ora botas ou perneiras — enquanto outros exibiam pistolas militares ou reluzentes espadas e baionetas. Estas, para serem usadas, eram devidamente benzidas pelo frei Manoel. Deodato tinha, preso ao ombro pela correia de couro, um fuzil novinho e, à cabeça, um quepe de oficial, além de possuir um binóculo a tiracolo.

Só não havia provisão de boca. O gado minguava no oculto curral, a colheita diminuía consideravelmente, havia pouco tempo para plantar, e o comércio fora interrompido. Mas o pior a suportar, ainda com a tirania do próprio chefe, continuava a ser a epidemia, o mais terrível dos flagelos vaticinados pelo monge João Maria de Agostinho. A peste. Em Santa Maria morriam quatro ou cinco pessoas diariamente, e o tifo se alastrava cada vez mais. As privações eram as costumeiras. Aquele mundo de camponeses maltrapilhos — os pelados — jamais gozara de conforto, jamais tivera o prazer de contar com o prato cheio, com a roupa, e até com o que fazer — abandonado, alheio à civilização. Coronel gordo e rico a viver das crias das vacas era considerado honesto e trabalhador, porém, quem vivia das próprias mãos se via tachado de preguiçoso, vagabundo, embora nem serviço houvesse no Bituruna. O casarão dos coronéis, dominando as fazendas e as vilas, assinalava o marasmo, o atraso. Enfim, a fome era a menor das três desgraças. E a guerra, uma tristeza por causa da chacina dos inocentes, da imolação de mulheres e crianças — tal não ocorresse, tomar parte nos combates seria uma alegria. Quem não gostaria de fazer parte do exército de são José Maria e ser um soldado da monarquia? Quem não seria capaz de demonstrar quanto é valente? Que felicidade não era lutar por um pedaço de terra e pelo bem-estar de todos!...

Não fora a brutalidade de Deodato, tudo passava. Talvez ninguém desertasse a santa cruzada, entregando-se aos peludos para ser assassinado. Houve ainda um ligeiro desânimo ao saber-se da morte de Jerôme, ajudante do comando geral, um grande apóstolo da igreja.

Ingentes forças inimigas, divididas nas três colunas, entravam nas terras sagradas, incendiando as choupanas, destruindo tudo, matando os moradores da casa verde. O reduto de Santo Antônio, arraial onde só ficaram os homens, cujas famílias se refugiaram em Tamanduá, fora totalmente evacuado e abandonado por João Vieira e, logo após, arrasado pela hoste do capitão Potiguara.

Deodato mandara a guarda de Carneirinho, no norte, entregar-se às autoridades de Canoinhas e se oferecer para lutar como um bando de vaqueanos. Vinte e três caboclos, recebidos com satisfação, acumulados de presentes e carinhos. Imediatamente lhe coube uma missão de reconhecimento, à frente de formação inimiga. Carneirinho e seus homens iam conduzindo as tropas a uma emboscada. Aproximavam-se do local combinado, mas um tiro acidental de dentro do mato traiu o plano audacioso. Descobertos, surpreendidos, ainda tentaram se revoltar, mas não houve tempo para a ação. Foram fuzilados pelas costas ou degolados, pois a coluna Norte, do capitão Potiguara, não costumava fazer prisioneiros...

Deodato compreendeu num lance a importância defensiva das serras e matas, com seus taimbés e peraus. Em face da iminência do ataque geral, ordenara aos bombeiros que dissessem a todos os crentes para abandonarem as moradas e se espalharem pelos bosques e, em grupos, sempre emboscados, sempre em movimento, darem combate às tropas, em escaramuças. Piquetes deveriam ficar à espreita nas quebradas dos caminhos, nos passos dos rios, nas gargantas das serras. Nunca deixar-se enlaçar pelos pés-redondos e nunca travar choques decisivos. Atraí-los para longe das bases, para o sertão ignoto, fazer esgotar a munição, provisões e energia, extenuá-los. Guerrear até o fim do mundo, até o fim da vida, guerra sem tréguas, guerra sem fim. Tudo em nome dos monges e da monarquia. Então mudara a sede do governo, o acampamento geral, para o vale de Santa Maria, onde, do dia para a noite, florescera o reduto.

Como uma serpente rastejando e descendo entre montanhas, o rio envolve o terreno, correndo para o sul e para o oeste e, repentinamente, se volta de novo para o norte, descrita uma grande curva, como se de fato essa enganosa cascavel líquida pretendesse preparar-se para um inesperado bote sobre os invasores. O vale por ela cingido está encravado na serra, recôndito na floresta em que ora sobressaem imbuia, perobas e cedros, ora espinho-de-cristo, ora as muralhas de bambus, ora o bosque araucariano e, de quando em quando, guardado por jarás em sentinela. A estrada que vem de São Sebastião das Perdizes, a antiga cidade fundada por Rocha Alves, agora com sua igrejinha e palhoças abrigando o inimigo, base de suas operações, a estrada tida como principal, a única tida realmente como boa, nem é carroçável, mas apenas um ziguezagueante trilho dos arrieiros, vezeiros em vencer os marnéis de lama preta ladeados de peraus. À boca do vale, o carreiro morre num desfiladeiro truncado por rochas esbroadiças a formarem coroas, sebes minúsculas de estilhas e escarpas intercaladas de charcos, tudo vedando a passagem ao soldado de caserna, que faz ordem unida e maneabilidade nas avenidas. Ali, Deodato da cara ferina de lobo, mais matuto que gaúcho, pelado simplório que queria ser santo e não bandido, general com farda de mato — estrelas dos céus, divisas dos rios, general da casa verde, — comandava as operações de defesa à frente de uma centena de infantes, homens, mulheres e crianças, protegidos por barreiras de pedras. Ao toque da buzina, ao rufar do tambor, vinham todos ocupar as posições adrede estudadas e preparadas. Ali, Deodato era um Leônidas caboclo.

Quando a formidável coluna Sul cruzou o riacho e penetrou na mata pelo carreiro, já esmagada pela floresta, atolando-se nos lodaçais, caiu em pânico, fustigada em cada trecho obstruído do caminho. Pequenos grupos sertanejos, atacando e recuando, atraíram-na ao desfiladeiro onde fora encurralada sob chuva de balas sibilantes, aturdida com a grita dos fanáticos. Inutilmente, à toa, as metralhas viravam para a frente e para os lados. A carga de baioneta não encontrava ninguém, pois o fanático não assaltava o inimigo prevenido. Maria Vacariana, ao levantar uma bandeira e dar um viva a são José Maria, saindo a campo aberto, foi abatida com um tiro de fuzil. Deodato, que armara uma emboscada vitoriosa num ângulo da estrada, feriu o braço e as costas, mas ainda dirigiu a contenda atrás de um parapeito de pedra e imbuia, vigiando com seu binóculo o movimento dos peludos. Suas ordens finais foram "dar parte de fraco para deixar os peludos chegarem um pouquinho mais perto", "fazer pontaria nos tenentes" e "não deixar recolherem os feridos, que deviam ser picados a facão". Desnorteados os soldados, assustados os superiores, sacudidos todos por uma vaga de terror e desânimo, derrotados, com vinte e oito mortos, cerca de trinta feridos e outros tantos feitos prisioneiros, baixas que seriam maiores não houvesse o silvo dos projéteis, o coronel Estilac Leal mandou tocar a retirada.

Esse foi o combate travado no dia 8 de fevereiro do ano de 1915. A morte de oficiais comoveu a opinião pública das cidades.

Deodato não perdoava fraqueza, não perdoava ninguém. Por qualquer falta, decretava a morte como castigo. Punia por prazer, por loucura, sem motivo, sem razão. Quando Aleixo chegou com sua gente a Santa Maria, foi logo destituído das honras de comandante, só porque era tido como amigo de Antoninho. Vários prisioneiros foram executados com o suplício da estaca, enquanto outros se tornaram pelados, por convicção ou por medo. Um moço que chegou ao reduto, trazendo uma carta para Elias de Morais, missiva propondo armistício, foi amarrado e fuzilado.

Enquanto isso, mais da metade dos efetivos do Exército se deslocava na região, já infestada de policiais e vaqueanos. A guarda especial da Lumber Colonization já não era mais numerosa que as súcias das fazendas. Explorando o campo das operações, a monstruosa coluna Sul, com seus dois mil homens, de todas as armas, tomou posição e encontrou lugar ideal para assestar a artilharia — canhões, obuses e metralhadoras — visando o reduto, distante apenas três quilômetros.

A proclamação baixada pelo coronel Estilac bem revelava o objetivo desejado. Eis um trecho:

No reduto de Santa Maria não mais podemos ver apenas os inimigos da ordem pública, que, a bem da tranqüilidade e da vida pacifica e útil do país, somos obrigados a combater no mero desempenho do nosso estrito cumprimento de dever; lá, naquele antro maldito, estão os assassinos dos denodados camaradas que rudemente tombaram no dia 8 do mês findo, estupidamente vitimados pelos botes traiçoeiros dos bandidos que da mata de Santa Maria fizeram o tenebroso centro de irradiação dos assaltos à fortuna pública, à vida dos nossos concidadãos e de suas inúmeras famílias, e das mais mesquinhas e inexplicáveis depredações. E a nossa consciência não deve mesmo sentir fortes abalos de compaixão pelas mulheres e crianças que acompanham os bandidos do reduto de Santa Maria, desde que tenhamos na mente o doloroso espetáculo da viuvez e orfandade que reina entre tantas famílias dos nossos camaradas, brutalmente imolados nas mãos de tão desalmados abutres.

Na madrugada do dia 2 de março, começou o bombardeio e o povo acordou sobressaltado. Mas como a artilharia não atingisse o alvo, coisa atribuída à intercessão de são José Maria, a calma foi recobrada e se formou uma procissão de graças ao monge. Quando o cortejo saía do quadro santo, à frente a imagem de são Sebastião, cruzes e bandeiras, as primeiras granadas atingiram-no em cheio, despedaçando corpos humanos. Dadá, a antiga serva da Chuva de Pedra, foi a primeira a gritar e a tombar com a bandeira branca na mão. Repetia-se a carnificina de Taquaruçu. Manquejando, Deodato mandou tocar a buzina e o tambor para que cada um tomasse lugar na defesa do vale. Mulheres e crianças precipitaram-se para a igrejinha, enquanto os combatentes se espalharam pela mata, metidos nas furnas, nas imbuias, postados em galhos de árvores, atocaiados nas trincheiras de pedras. Viam com lágrimas nos olhos a igrejinha em chamas, sacudida pelo canhoneio. Chico Taquara então chefiou um audacioso ataque e já se ia aproximando do monte, na tentativa de arrebatar a ferro branco as peças de artilharia, quando as tropas assustadas e desacorçoadas se retiraram às pressas, acossadas por piquetes atocaiados.

Durante vários dias explodiram granadas nas matas e no vale de Santa Maria, inútil gasto de munição, porque os chefes militares acreditavam que isso "levava o desânimo ao inimigo". Assim pensavam porque sabiam que inúmeras famílias camponesas haviam-se deixado prender durante as longas e penosas caminhadas de volta aos lares, quando eram encontradas famintas, enfermas, sujas e maltrapilhas. Somente a presença de homens como Zebinho, Eliazinho, Ventura, Taquara, Vidal, Bertolino, Maneta e o novo monge evitava a completa dispersão dos crentes, tal o descontentamento com o comandante geral. Acima de tudo, lá ainda estava a virgem, a sonhadora Maria Rosa.

Porto União da Vitória vibrava com a chegada do general, de Setembrino de Carvalho, para reunir-se em conferência secreta com os coronéis das quatro colunas recém-formadas para o ataque. Houve parada, baile, teatro, leilão e foguetório. Frei Silvério competiu com Sinhana Bita na realização das festas. O coronel Amazonas, os antigos membros da Junta Governativa do Estado das Missões, não perderam tempo e também procuraram convencer o general que ao Paraná pertencia o território do Contestado. Numa reunião no clube Apolo, presentes os políticos, o general disse que proporia uma linha divisória entre os dois Estados, expondo-a.(14)

O que não se sabia é que já estava decidido o desmembramento do Paraná de seu riquíssimo território do Bituruna.

A conferência dos chefes militares, sigilosa e realizada na casa do coronel Amazonas, era comentada com entusiasmo pelos moradores da cidade e pela soldadesca. Os soldados falavam mal dos comandantes, queixando-se do regime da caserna e acusando-os de gozarem o conforto. Acrescentavam que os oficiais só viviam dando parte de doentes, escapando ao perigo. Muitos habitantes do lugar elogiavam o coronel Amazonas, comentando que o Paraná faria valer os seus direitos. Numa roda de chimarrão formada no hotel Matoso, surgiu o boato de que fora combinado entre vários militares uma revolução se o Paraná fosse despojado daquela imensa área. Um barbeiro se atrevia a fazer caçoada, contando anedotas sobre gauchadas de fazendeiros e negaceadas de comandantes que mandavam caboclos, como vaqueanos, à frente, ou os próprios soldados rasos. Havia quem fizesse pilhérias dizendo que o Brasil recorreria a forças estrangeiras para combater um punhado de caipiras empoleirados nas árvores. As mocinhas aproveitavam a ocasião para fazer a avenida na 15 de Novembro e namorar os forasteiros, convidando-os para os saraus e festivais domingueiros. O plano secreto, todo mundo conhecia. Consistia num ataque maciço e simultâneo pelas diversas colunas. A fim de evitar as tocaias e os assaltos a facão desferidos pelos caboclos amotinados, a coluna que punha o reduto na mira da artilharia faria uma derrubada, abrindo uma clareira até o vale. A chamada guarda do santo, considerada inexpugnável, comandada pelo negro Olegário, seria arrasada pelo canhoneio. De pontos diversos, as tropas de assalto, conduzidas pelos vaqueanos, rumariam em direção ao reduto então destruído.

Dos últimos dias do mês de março aos primeiros de abril daquele ano frio, chuvoso e curto, antes de os campos amanhecerem cobertos de neve — pois até neve houve, a mata era um sorvedouro —, a vanguarda da coluna Norte, formada por quase duas centenas de vaqueanos de um tal de Pacheco e quatrocentos soldados comandados pelo capitão Potiguara, varria a metralha e a fuzilaria os passos dos rios. A retaguarda, mais lenta, vinha arrasando a terra, incendiando, destruindo tudo.

O reduto de Santa Maria, apenas com as cruzes do quadro santo, parecia deserto. Os pelados, com provisão e munição nos bocós, moravam nas lapas do terreno, protegidos por pedras ou troncos de imbuias, camuflados com galhos de árvore. Deodato ordenara, aos crentes que não combatiam, retirarem-se para Cerrinho. Lá unir-se-iam todos, quando o Exército conseguisse penetrar no vale. Para impedir o desbravamento da floresta, destacara atiradores, os quais, caçando os trabalhadores e as sentinelas, não davam trégua aos magotes de peludos que surgiam para protegê-los.

A numerosa formação que atacava pelo sul entrava na mata, mas não ultrapassa o desfiladeiro, retornando ao ponto de partida, atrapalhada com seus comboios, suas juntas de bois, com a artilharia pesada. No dia 3, sexta-feira da paixão, o coronel Estilac telegrafava ao general Setembrino,(15) relatando tudo.

As guardas do norte chocavam-se com o contingente do capitão Potiguara. Durante a travessia do rio Caçador, morreu muita gente de lado a lado e, a cada avanço, uma nova emboscada surpreendia a tropa.        

Maria Rosa, embora escoltada pelos doze pares de França, sabia que em breve morreria. Dissera-lhe em visões o monge José Maria. E ela anunciara o fato no quadro santo. Eliazinho chorou. Ao aproximar-se a semana santa, Maria Rosa previu que seria antes da aleluia, na sexta-feira da paixão, no dia do martírio de Cristo, dia divino, dia próprio para uma virgem voltar para o céu. À frente dos doze pares de França, partira para tomar posição num desfiladeiro do norte. Atingiu-a a primeira rajada da metralha, e então os doze pares de França atiraram fora as armas de fogo, içaram os facões e caíram furiosos sobre o inimigo, aos gritos:

— Degola! Degola!

Foi um encontro de facões e baionetas, juncando-se o chão de cadáveres. Zé Tigre, corneteiro-comandante, tombou em ação, como inúmeros infantes que vieram de trás dos pares. Os fanáticos recuaram e se atocaiaram mais além.

Ao saber da morte da virgem, Deodato expediu mensageiros, mandando as guardas se retirarem para trás das montanhas, em direção a Cerrinho, deixando livre a passagem para Santa Maria. Após um ligeiro combate com uma hoste sertaneja, a tropa que vinha do norte entrou no vale abandonado. No sábado de aleluia, depois de escaramuças com grupos esparsos nos bosques, acantonou no reduto, na "sede do governo da monarquia", delirando, trombeteando vitória. Mas a noite veio desmentir as cornetas e arrefecer, como sempre, o entusiasmo dos ocupantes. O acampamento estava cercado pelos fanáticos a iniciarem nova batalha, sem a preocupação de tomar o vilarejo de palha. A casa de frei Manoel, hospital de campanha, ainda em pé, ficou varada de balas e o próprio tenente médico tombou, mortalmente ferido. Deodato pôs o chefe dos vaqueanos, o Pacheco, sob a mira do fuzil e executou a sentença de morte. E, pela manhã, não havia ninguém nas circunvizinhanças... O pelado surgia e desaparecia como um soldado fantasma, lembrando as artes dos monges.       

Por fim, com o desfiladeiro abandonado pelos fanáticos, também a coluna Sul marchou incólume até o vale, vangloriosa, cantando vitória que não houve. Tanto não houve que um comandante dizia a verdade em seu relatório a Setembrino de Carvalho:

Uma perseguição levada a efeito contra os bandoleiros, além do reduto de Santa Maria, me pareceu inexeqüível: 1º — porque se dispersaram, antes do amanhecer, pelas serras que, a leste e a oeste do reduto, fecham o recinto onde estava encravado o aldeamento; 2º — porque essa operação só podia ser feita a pé, num terreno desconhecido, com tropas cansadas que inutilmente se embrenhariam no sertão deserto, pois o inimigo, conhecedor profundo das grotas onde vive, saberia se esconder com toda a segurança, menoscabando da nossa perseguição e armando emboscadas onde os nossos soldados ficariam traiçoeiramente sepultados, deixando nos antros do banditismo armas e munições.

As tropas dos peludos aguardavam a hora de partida para os trens de ferro e, em São Sebastião das Perdizes, ainda foram atacadas por mais de duzentos pelados em sortidas ligeiras e inesperadas. O Exército regressava, mas a luta recrudesceria e jamais seriam vencidos os pelados se até o fim fossem unidos.

"Passaram-se" Rocha Alves, Elias de Morais, Jerôme, Antoninho, Andrade, Zé Tigre, Alonso o menino-deus! — e a virgem Maria Rosa! Deodato, agora no reduto Rincão do Boi Preto, já não era o simplório caboclote que fora. Estava transtornado. Vingou-se novamente de Conceição degolando o negro Joaquim Germano. Mandou fuzilar Aleixo, Zebinho e um irmão de Alonso. Queria ser Deus, queria ser santo, não admitia oposição. Ordenou que amarrassem Olegário, degolando-o sem o menor motivo.

Ah! Não vou narrar como morreram os pelados aprisionados, cujos corpos foram horrivelmente mutilados; não vou dizer como os crentes acabaram fugindo dos redutos, aproveitando as ordens para plantar; não vou falar das desavenças entre os próprios caipiras rebelados; se Deodato já nem respeitava as viúvas dos companheiros, se brandia desvairado o facão sobre mulheres e crianças esfaimadas. Não quero comover-me com os sofrimentos de gente errando desesperada pelas matas; não posso relatar sem emoção como, um dia, durante uma procissão, em Taquaruçu, policiais e vaqueanos dizimaram, pelas costas, homens, mulheres e crianças. Mas como poderiam ser assassinados homens como os Ventura, Taquara, Bibiano, Gralha, Castelhano, Nabor e tantos outros senão traiçoeiramente? Deodato acabou também vagando sozinho pelo sertão, renegado pelos camponeses. Ao beber água num córrego, foi preso por um menino, e depois morto ao tentar fugir do presídio.

Só me resta recordar com o coração vibrando uma página de luta grandiosa dos brasileiros, para os brasileiros, uma heróica resistência camponesa ao coronelismo e à ação dos trustes estrangeiros, a gloriosa guerra cabocla. Também amo a casa verde — a do telhado de estrelas, e seus habitantes, como os amaram os monges e os pelados. Sou pelado. Um dia seus moradores hão de possuir a terra.

Ó, monge João Maria de Agostinho; ó, monge José Maria — ó, revoltoso —, livrai a casa verde dos horrores da fome, da peste e da guerra!       

 

 

 

Referências        

                       

1.

— Meu Divino São Lázaro ressuscitado depois que foi morto e enterrado, vivo duas vezes pelas mãos Divinas do Nosso Santo Pai Salvador, me livre da alma danada que nem Jesus levantou sorrindo a tampa do túmulo de pedra, me lave com o sangue derramado pelo Sublime Justo pregado na cruz, espirrado pela lança maligna do soldado Longinos furando o peito e o sagrado Coração, assim também quando São Marcos me marque e São Manso me amanse, a carne vire em ferro em aço sem embaraço, eu vos dou culto de adoração e perfumes e me sirvo de ervas, água, ar e fogo, mas me livre primeiro da tentação do tacho como acho. Não se arredem mais de mim nem me virem o rosto com desgosto, não fujam de espanto por encanto.

Me dê vida na carne como na alma.

Deus é fortíssimo e puríssimo!

Deus é Fortíssimo e Puríssimo! Força! Consolo! Aleluia!

Me levante do sepulcro fundo tão frio assim como quando também foi arrancado vivo pelo nosso Senhor Amado Santo Cristo. Amém.            

 

2. 

3.

União da Vitória

Selvagem qual bugre nu:

Banhada pelo Iguaçu

À beira dele nasceste,

Linda cabocla indolente

A dormir em mata ingente

Entre colinas nasceste!

Como criança da roça

Foi teu berço uma palhoça

Erigida em férteis zonas,

Foi teu primeiro luzeiro

O vaporzinho Cruzeiro

do coronel Amazonas!

Qual cordilheira dos Andes

Vazada em cadinhos grandes

Cogitavas inativa!

Então ribombou por tudo

Assim como um grito agudo,

A voz da locomotiva.

Do ventre a soltar fumaça

Ei-la ligeira que passa

Do Estado na maior ponte:

É o progresso nos trilhos

Em procura de outros brilhos

De cintilante horizonte!

Eis a cabocla bendita

De pé, no banco da glória

Cercada de lindas flores

Ao som de cantos de amores,

Eis a UNIÃO DA VITÓRIA!

 

4.

Oração milagrosa achada e copiada na Santa Sepultura de Nosso Senhor Jesus Cristo, feita por mão divina. Todo que esta oração tiver dentro de sua casa não sofrerão castigos de Deus nem raios nem coriscos, nem tormentas. Meus filhos não abuzem com a religião católica. Façam caridade com palavras, façam minhas vontades. Olhem meus filhos se não emendar de vida deitarei os alarmos e mandarei raios, conselho e guerra ao povo que nem aquela vez e mando no fim desta guerra vem até Cristo que a de reduzir no seu fogão quem huzar de terem em Suas Portas quando ele vier a de ser conhecido que no ano de 1914. E quem abuzar e crer a de ver. Não trabalhem no sábado devem jejuarem nas sestas Feras da cuaresma e guardar os dias de festas preseitos faz crem sem jejum a São Sebastião para ele nos livrar dos castigos do Céu. A de vir três dias de escuridão. Se peguem comigo que serão feliz quem esta cópia tiver com estimação de São João Maria de Agostinho quem tiver esta milagroza cópia dentro de Sua Caza servirá de remédio nas necessidade não sofrerão fome nem moléstias graves nem pobreza em Sua Caza e prole toda será livre de Raio corisco tempestade. Se não crem neste sagrados conselhos ei de mandar o sol que a de partir a terra nestas aberturas ade sair e entrar linguas de fogo que a de abrir a terra e o primeiro sinal que a de mostrar 3 estouro na terra sumirá um estinção de terra depois disto passado e aparecerá no céu uma mancha verde. Passados três dias a de escurecer o mundo inteiro em fumaça. Quem não selembra mais de Deus não rezem os terços, não fasam a doutrina criztam não ensina. As armas do purgatore não se confesão mais com os padres. Fasão penitência de tenção. Amem Jesuis!      

 

5.

— Como é o nome da criação?

— Paciência.

— Bicho! Você ta comendo a carne da vaca Paciência... Assim como eu louvo a Deus e vocês tão comendo a carne da Paciência e não louvam a Deus. Eu vou pedir a Deus para vocês ir caindo de um a um, dois a dois, três a três, quatro a quatro, cinco a cinco, seis a seis, sete a sete, oito a oito, nove a nove, dez a dez. Assim como Jesus Cristo caiu do ventre da Virgem Maria, vocês vão caindo da bicheira, de um a um.

Depois de rezar um padre nosso, passava na chaga do animal um ramo verde, o qual atirava para trás, exclamando:

— Assim como o ramo seca, o bicho acaba!

 

6.

Espada Elétrica pertence ao Andrade, nobre cavaleiro de São Sebastião em nome de Santo João Maria quem atira no corpo atira na hóstia sagrada porque entre a porva e a espoleta Deus Cristo fez morada. Deus adiante e por nosso guia eu Andrade, me encomendo a Deus e a Virgem Maria que eu não desprezo nem atado nem do diabo atentado me guarde meu São Celeste, com 7 angelo quebro ferro, quem me aponte arma de fogo em pedaços ficará os meus inimigos compensará que Deus O Vivo Padre e Filho Espírito Santo amem Jesus e esta oração pensei São José e São João Maria.           

                       

7.

Deus adiante, Pai na guia, encomendo meu Deus à virgem Maria. Minha Mãe, são nove e dez ou onze horas, horas das nove, dez ou onze mil virgens, ou doze apóstolos que será meus irmãos. Andarei dia e noite, meu corpo está cercado e circulado com a arma de senhor São Jorge. Meu corpo não será preso, nem ferido, nem meu sangue derramado pelas unhas de meus inimigos. Andarei tão livre como andou Nosso Senhor Jesus Cristo no ventre da Virgem Maria; meus inimigos terão olhos, não me verão; terão boca, não me falarão; terão braço, não me ofenderão; terão pés, não me alcançarão; arma de fogo minarão água pelo ouvido, amém.

 

8.

Espada Luzena! Aqui está o apostolado Jeronymo Antônio Pereira, o belo cavaleiro de São Sebastião! Quem atirar no meu corpo atira na óstia consagrada porque entre a porva e a espoleta Jesuis feis morada. Deus adiante, paz na guia de Jeronymo Antônio Pereira. Encomendo a Deus e a virgem Maria que seu Corpo não seja preso nem atado e nem do demonio atentado e seja guardado por São Silvestre com 47 Anjos quebra pedra 7 quebra ferro e as armas de faca que apontarem no seu corpo na água ficará e os ferros que apontarem em pedaço ficará. Os seus inimigos conhecerão que Deus é Vivo! Pater, Filho, Espírito Santo. Pela Ostia Consagrada. Amem Jesuis.

B-|-H-|-B-|-M-|--|--|-Bento-|-Vetos-|-Noneto-|-Silvus-| -Binoneto-|-Jesuis-|-Maria-|-Jusé.  

 

9.

Réquiem Paranista

"Diante do cadáver de João Gualberto é que pela primeira vez se pode aplicar, ao justo, a cediça exclamação histórica de Henrique III, ao ver os despojos do duque de Guise; como ele é grande! Morto parece ainda maior!"

Euclides Bandeira

"A lenda de Enéias, cantada na lira virgiliana, renasce nas campinas e faxinais do Irani. Os moços educados por Gualberto sentirão a fronte iluminada, como o pequeno Iulo, ao subir o monte Ida, levado pela mão de Enéias seu pai, e nessa auréola de luz e nessa coroa fúlgida trarão a glória rediviva de seu mestre, sol que retorna, para os grandes mistérios da floração exuberanda da mocidade e da vida..."

Hugo Simas

"Quando tomba um bravo que se fez herói nos campos vermelhos do combate, uma alta vibração sacode a alma das multidões para os grandes assombros silenciosos."

Ribeiro Garcia

"Canto selvagem! Hino agreste entoado no desfiladeiro de uma campina sagrada! Apoteose augusta erguida à memória desse pajé sublime, que nos guiava para a vitória e que, em meio do caminho, tropeçou no túmulo para se levantar no panteão dos mortos, imortais.

Salve!"

Sebastião Paraná        

"Pela voz unânime de todos os seus companheiros de Loja, convictos de que o capitão João Gualberto soube sempre cumprir seu dever, depositamos sobre o seu corpo o Ramo da Acácia dos Mestres, símbolo de renascença, pureza e amor; símbolo da nossa inolvidável solidariedade."

Ben Loj Invisível.

Do Grande Oriente do Brasil

"Deixa que, de joelhos, derramemos sobre o teu corpo um punhado de lágrimas. Dorme, pois, amigo, o sono dos justos."

Fernando Moreira

"Patriotas, em continência!

Deixai passar, no estendal da nossa sincera pungência, os despojos de um bravo, que foi buscar a morte onde se achava a glória.

Perfilai-vos, cidadãos da minha terra!"

Ermelino de Leão

"Porque a vida de João Gualberto, bordaram-na glórias e apoteoses triunfais."

Ciro Silva

"IMORTALIDADE

Um herói morre para o mundo:

A matéria desfaz-se lá no fundo

Da terra vil; mas a alma dos heróis

Fica no céu a refletir seu brilho

Fica a brilhar entre os milhões de sóis...

E João Gualberto Gomes de Sá Filho

Morreu, mas o seu nome ficará

Nos feitos imortais de nossa História,

No coração de todo o Paraná."

Francisco Leite           

"Armas em funeral! A comoção rebente!"

Claudino dos Santos

"Tu serás sempre o nosso Comandante!"

Leite Júnior

"Ditosa a terra que pode repetir com o grande amigo, que foi João Gualberto: meu amigo é outro e o mesmo!"

Dario Vellozo

"Será possível que tais acontecimentos obedeçam a um diabólico plano de se pretender, tão macabramente, tomar efetivo o desmembramento do Estado do Paraná?"

Vitor do Amaral

"Honra à sagrada memória

Do herói que ao som do tambor

Se não alcançou a glória

Tombou como um vencedor!

Mas tem a coroa flórea

Que te aureola tal fulgor

Que o teu nome triunfador;

Ó João Gualberto, na história

Como exemplo de valor

Ficará cheio de glória.

Agora a todo momento

A pátria chora por ti.

E há como um longo lamento

Em todo lar por aí.

Mártir, teu devotamento

Canta à mata a juriti.

A própria flor que sorri

Tem um desfalecimento

E nos campos do Irani

Até prantear geme o vento..."

Rodrigo Júnior            

 

10.

Imigrados do negro Vaticano, vêm esses pregoeiros das doutrinas de Satanás encarcerar as consciências inocentes e incautas, saqueando a bolsa do povo para construírem os seus balcões — onde vendem sacramentos pelos preços duma tabela amorfa ao alcance das algibeiras favorecidas e nunca dos exauridos pela necessidade — fazendo-se flexíveis, melífluos e cinicamente contritos, para depois, com a habilidade que lhes é peculiar, mostrar os ferros que lhes calçam os pés, àqueles que lhes toleram por não lhes conhecer as execrandas intenções. Raça maldita!

Nesse momento é que esse corvo despudorado vem desacatá-lo como se fora alguém perante à política e à sociedade!

Não nos admiramos. São eles iscariotes até para com os seus mais íntimos. A prova temo-la onipotente e palpitante ainda. Não é o primeiro qualdipério, o número é inexaurível!

O estalido teorema desse audacioso urubu é contraproducente e absurdo ao extremo; senão, vejamos: no ensino religioso os decuriões ensinam o que aprenderam na sagrada cartilha e crêem na santidade plenipotenciária do ministro Deus na Terra; de um Deus que não conhecem e não sabem aquilatar-lhe a grandeza da ciência; de um Deus que é tão misericordioso que consente que os aquerônticos bonzos de Satã profanem o seu nome e mandem fazer imagens no Vaticano, dizendo ser deles, imagens que, então, passam a ser a adarga inanimada de suas explorações e misérias, de suas vigarices e audácias.

É claro, pois, que — quem crê nas virtudes milagrosas de tão corrompidos mortais, com mais razão pode crer na ressurreição do mais que defunto Zé Maria, porque tanto este como aquele são defectíveis...

Nos colégios da clerezia inoculam nessas pequeninas almas educandas o germe maldito dum mal que lhes atrofia e obceca os cérebros, tolhendo-lhes a opção de pensar no que lhes parece plausível...

Eia! ó tropa de Belzebu! a porta da saída é tão franca como a da entrada; se não lhes agrada o Brasil, procurem o caminho do Vaticano, porque a vossa pátria é Roma!

Luismér.

 

11.

Carta aberta à Nação.

Eu, D. Manoel Alves de Assunção Rocha, aclamado imperador constitucional da Monarquia Sul Brasileira, em o corrente ano, com sede no reduto de Taquaruçu do Bom Sucesso, convido a nação pra lutar para o completo extermínio do decaído governo republicano, que durante 26 anos infelicita esta pobre terra, trazendo o descrédito, a bancarrota, a corrupção dos homens e, finalmente o desmembramento da pátria comum.

Comprometo-me

1º Em pouco tempo eliminar o último soldado republicano do território da Monarquia, que compreende as três províncias do Sul do Brasil _ Rio Grande, Santa Catarina e Paraná;

2º Para o futuro, anexar ao Império o Estado Oriental do Uruguai, antiga Província Cisplatina;

3º Organizar um exército e armada dignos da Monarquia e reorganizar a guarda nacional;

4º Dar ao país uma constituição completamente liberal;

5º Reduzir os impostos de importação e exportação e bem assim estabelecer o livre câmbio dentro do território do Império;

6º Fazer respeitar meus súditos, logo que me seja possível, em qualquer ponto do planeta;

7º Fazer garantir a inviolabilidade do lar e do voto, tão menosprezados pelo decaído regímen;           

8º Fazer respeitar, em absoluto, a liberdade da imprensa, também menosprezada pela antiga República;

9º Tornar inexpugnável a barra do Rio Grande e todo o litoral do país;

10º Guarnecer a fronteira como Estado de São Paulo e fronteira argentina, logo que seja reconhecido oficialmente o novo Império e organizado o exército imperial;

11º Assumir, relativamente, todos os compromissos do antigo regime, que relativamente couberem ao Império Sul Brasileiro;

12º O exército imperial será a primeira linha e a guarda nacional a segunda linha;

13º Unificação da lei judiciária do país;

14º Restringir a autonomia dos municípios;

15º Emitir provisoriamente numerário nominal e em seguida a conversão metálica;

16º A religião oficial será a católica apostólica romana;

17º Liberdade de culto;

18º Cogitar do desenvolvimento da lavoura sem desprezo da indústria;

19º O imposto protecionista a indústria e lavoura do Império;

20º Livres os portos do Império a todos estrangeiros sem cogitar-se da raça, crença etc.;

21º Serão considerados nacionais todos os estrangeiros que residirem dois anos no país;

22º Modificar o atual sistema do júri, que não está mais compatível com o século;

23º O ensino será obrigatório, tanto para a infância como para o exército;

24º A criação do exército aviador que atualmente está dando resultado na guerra européia;

25º Edificação da Corte Imperial que será no centro do território imperial;

26º A bandeira e coroa do império Sul Brasileiro serão adotadas as antigas da decaída Monarquia Brasileira;

27º A pena de morte em vigor, com a forca;

28º O serviço militar será obrigatório;

29º A agricultura nacional será dado uma área de terra independente de pagamento, em terras nacionais.

30º De 1.º de setembro em diante entrará em vigor a lei marcial aos inimigos da Monarquia. Viva a Monarquia Sul Brasileira! Deus guarde e vele pela Monarquia.

O Imperador Constitucional da Monarquia Sul Brasileira.

Ass. D. Manoel Alves de Assumpção Rocha.

 

12.

Estou no Contestado, em meio da tropa sob meu comando, no desempenho da missão, que me foi confiada pelo Governo da República, de restabelecer a ordem nesta bela porção do território pátrio.

É com a alma confrangida que assisto, nesta luta inglória, derramar-se precioso o sangue dos meus patrícios: uns soldados do nosso valoroso Exército, que também no cumprimento de seu dever, obedientes aos compromissos para com a nossa Pátria; outros — cidadãos que abandonando os lares, desprezando o trabalho honesto e divorciando-se da civilização, se internaram, errantes, pelos sertões desertos, para atentar, de armas na mão, contra a ordem e contra as autoridades legalmente constituídas. E como nutri sempre o nobre desejo, a consoladora esperança de vencer-vos, adotei a defensiva como gênero de guerra, preferindo que fôssemos nós os atacados.

Por isso mesmo ao encetar esta campanha, convidamos as rebeldes a deporem as armas, espalhando um justo apelo, em que transpareciam os nossos sentimentos de pura humanidade.

Atacados, temos sido sempre vitoriosos. Desde o dia 11 de setembro que lutamos e os nossos soldados cada vez mais se sentem encorajados para a vitória final, que não tarda.

Mas é preciso parar. É forçoso que termine esta luta, que o sangue brasileiro não continue a manchar as nossas terras, onde a natureza acumulou terrenos inesgotáveis, para a grandeza de nossa Pátria.

Não venho trazer-vos a morte ou o presídio, pela vitória das nossas forças, senão concitar-vos mais uma vez a que deponhais as armas e aceiteis as garantias que vos ofereço em nome do Governo e da Lei.

0Impõe-se que volteis novamente ao trabalho, meio único capaz de garantir a felicidade do lar e promover a prosperidade de nossa grande pátria, que na quadra atual tanto precisa do patriotismo dedicado dos seus filhos.

13.

Sr. Marcelino Alves.

Obedecendo ordens do Sr. João Maria, aviso-lhe para continuar aí com o acampamento e colocar guardas nos lugares necessários e conservar as existentes. Mandará piquetes para fazer rebanhos que for necessários mas nunca rebanhar trastes de casa e dinheiro. Todo respeito às famílias quer ou não sejam da nossa facção. Obrigará todos a assistirem as formas e aquelas que se negarem pode mandar prender e castigar. Ficam sujeitos a ajudarem a dar serviços nas guardas tanto os que se acham no acampamento como aqueles que sendo moradores se conservam em suas casas. Não atacarão os contrários sem novas ordens, salvo se forem atacados; se for preciso mudar os acampamentos, com tempo avisarei. Nada receiem aí que quando houver perigo com tempo avisarei. Obrigue a todos a trazer seus ranchos limpos. Não procurem mais perderem a graça de Deus e a fé de seu João que é o único amparo que temos. Aconselhe a todos que não acreditem em conversinhas que muito aparecem aí, que isso só nos pode prejudicar, assim como aconselhe a todos que não se afastem daí sem ordem, porque seria cair no desagrado do nosso protetor. Se            houver grande precisão pode pedir aos irmãos, mas nunca rebanhar destes. Que Deus nos proteja e Seu João Maria seja convosco.

"O Comandante Geral

Antônio Tavares Júnior."

 

14.

Atuais divisas até o rio Negro, por este abaixo até o Iguaçu, prosseguindo por ele até o Timbó acima até encontrar um dos seus afluentes da margem esquerda, cujas cabeceiras mais se aproximarem do rio do Peixe; pela cabeceira do Peixe e por este abaixo até encontrar um de seus afluentes da margem direita (o 15 de Novembro), cujas cabeceiras mais se aproximam das cabeceiras do Chapecó; pelo Chapecó abaixo até sua confluência com o Uruguai.

 

15.

Agradeço penhorado a honrosa confiança que continuo a merecer de V. Exa., sendo essa presentemente principal motivo minha fortaleza de ânimo enfrentar dificuldade momento. Acusando vosso telegrama acabo receber, tendo a informar-vos que em 3 dias sucessivos de combate as minhas forças não encontraram uma posição onde pudessem se manter Para conservar a mata ocupada a noite e ter forças para combater no dia seguinte precisaria de um efetivo de infantaria duplo do que possuo, tal é a expressão das linhas a guarnecer em profundidade. A manutenção de um pequeno destacamento no ponto mais avançado a que se chega diariamente é irrealizável porque no dia seguinte, para restabelecer a ligação, seria preciso travar um combate de resultados duvidosos, com o risco de atingirmos a nossa própria força. Tendo forçado, desde o dia 29, penetração na mata e à medida que me interno crescem as dificuldades sem esperança de encontrar um ponto de apoio de onde prosseguir as operações.         

Compreendo que a intenção do inimigo é fugir a uma ação decisiva e procura atrair-nos para o sertão desconhecido, separando-nos das fontes de abastecimento. Não tenho sequer um vaqueano da região e os valorosos homens do coronel Fabrício são aqui tão estranhos quanto nós. O inimigo não tem trincheiras nem ocupa posições militarmente definidas, não sai do interior da floresta, onde a nossa força penetra e, apesar da maior cautela, é sempre surpreendida, recebendo fogo de cima das árvores, do interior dos xaxinais e taquarais, e os nossos homens, só por acaso e com grande consumo de munição, conseguem algumas baixas do inimigo, sempre difíceis de verificar pela sua invisibilidade, salvo quando ele se resolve a surgir corpo a corpo, o que é raríssimo e só ocorre fugazmente no prelúdio da ação. Contingente coronel Fabrício consumiu nestes três últimos dias 9.000 cartuchos. Exa. pode bem calcular quanto isso prejudica a educação do nosso soldado e abate o seu moral.

As clareiras que iam sendo abertas numa largura média de 80 a 100 metros atingiu apenas a 1 quilômetro, tornando-se impossível prosseguir devido ao longo flanqueamento a que obrigava, sem impedir contudo que os foiceiros fossem alvejados.

Os reforços de minha coluna têm sido heróicos, em que pesem as suspeitas dos que julgam a situação de longe, ansiosos pelo resultado imediato que tragam a comodidade geral.

As metralhadoras e os canhões têm estado constantemente internados na mata, batendo a uma distância média de 50 metros as direções prováveis do inimigo, sendo eu assim levado a sacrificar os mais elementares princípios do emprego da arma para não deixar de levar o mais perto possível o apoio moral de que a infantaria necessita numa situação desesperadora. V. Exa. compreenderá que eu não poderei por muito tempo exigir de seus bravos comandados esses rasgos de audácia, em que exponho a perdê-los sem poder convenientemente substituí-los. Ontem perdi o sargento-chefe da metralhadora do 57º que tombou varado por 8 balas, quando lutava a 20 passos do inimigo oculto no taquaral e cruzando fogos. Para salvar a máquina quase tive de empregar o laço. A situação é excepcional e não pode ser julgada procurando exemplos de guerra regular. A ofensiva por aqui consiste em repetir diariamente a entrada da força na mata com íngremes esforços, sem revezamento e a única vantagem que temos obtido é forçar os bandoleiros e esgotarem munição, se é que o inimigo não tem continuado a recebê-la, pois a sua resistência aumentou com maior intensidade de fogo. Se no fim do vale que tenho de atravessar com tanto sacrifício houvesse uma posição definida, restaria a esperança de atingi-la. Mas o aldeamento bombardeado no dia 2 de março está abandonado e o inimigo se internou nas reentrâncias do vale, vivendo esparso em grupos pelas matas, para assim dificultar mais o seu extermínio e poder com mais vantagem hostilizar a força.            

 

 

           

Notas        

                       

1. Oração transcrita em "Referências".

2. A cruz está reproduzida em "Referências".

3. Ver os versos em "Referências".

4. Ver oração em "Referências".

5. Ver como em "Referências".

6. Oração em "Referências".

7. Ver em "Referências".

8. Ver em "Referências".

9. "Réquiem Paranista" em "Referências".

10. "Boletim" em "Referências".

11. Em "Referências" está o documento na íntegra, conforme concebido e escrito.

12. Autoproclamação em "Referências".

13. Documento em "Referências".

14. Proposta com linha divisória em "Referências".

15. Documento em "Referências — Relatório do Coronel Estilac".