Nossa Colônia Cecília

 Apoteose

                                         Noel Nascimento
 
 

        Antecipação imaginativa de porvir venturoso neste mundo, ruiria tragicamente a Colônia Cecília, odisseia anarquista no Paraná. Formara-se, sob a direção idealista de Giovanni Rossi, por vitoriosos imigrantes italianos a afrontarem mares, florestas, caminhos inóspitos, sacrifícios, árduo trabalho na construção de um paraíso impossível. Não uma utopia apenas em pensamento, como de Thomas More, ou a “Pasárgada” do poeta e outros sonhadores. Porém, em construção.

         Se lendária, continua exaltada por um sem número de escritores de renome, como Miguel Sanches Neto. O professor de história Raphael Guilherme de Carvalho, nos oferece um quadro completo de autores e suas respectivas ideias em seu artigo[1].

A verdade é que jamais poderia uma comuna ser realmente autônoma (em sentido amplo), isto é, isolar-se das condições do meio, de povoados, vilas e cidades próximas, do estado, do país, do mundo. E, de modo definitivo, das condições de seres humanos que todos somos. Razões de sobra para o esmaecer. O desfecho ocorreu durante a Guerra Civil de 1893 e 1894, culminando com o massacre do Batalhão Garibaldino, de voluntários da Colônia, então maragatos, feitos prisioneiros e executados como inimigos pelos pica-paus.

Num parêntese, esclareço como “dever” o ideal político maragato de combater pela volta à monarquia e de D. Pedro II ao trono[2].

Na Rússia de Bakunin, os anarquistas desejavam destruir a monarquia, o contrário dO que acontecia no Brasil. Lá, Lenin tomava por base a instituição clandestina para organizar o Partido Comunista, após um militante, que era seu irmão, ter sido condenado à morte por atentado ao Czar.

Se a ruína da Colônia Cecília teve como principal causa a ilusão de queimar etapas da evolução social e antecipar um “Juízo Final”, há outras subsequentes e deveras significativas. Incluiria, também, a falta de religião, “cujas raízes são os sentimentos”, afirma Aristóteles.[3]

Assinale-se a visão materialista na colônia, falta de fé, confrontando com a evolução natural do homem pela humildade e pelo amor.

Não relato desentendimentos cotidianos, menos relevantes, alguns em meu romance “Arcabuzes”.

Foram, em nossa colônia, ideias equivocadas as de “amor livre”, com sérias consequências. Confusão, com a de amor, com a de sexo. Amor é sentimento, enquanto “sexo”, ato fisiológico. É fictícia, mitológica, a consideração de Eros como deusa da criação. Jamais existiu. Erotismo, termo a que deu origem, é prática libidinosa, lasciva, devassa, e não amor. O fato de haver poucas mulheres e muitos homens, então, resultou em “sexo livre” e não em “amor livre”. Ou pior: resultaria em extinção da família, como se constituísse um mal no mundo. Disparate! Pois é a família a célula bem-aventurada de toda sociedade. Não há como negar o benigno relacionamento ao visar-se a união conjugal ou estável. Sem amor, o que existe é crime e pecado, pedofilia, corrupção, estupro, lenocínio, prostituição. Mas em nossa colônia, em razão do espírito probo e boa fé de seus membros, trata-se de um equívoco putativo, perdoável.

Esclareça-se: amor é sentimento. Autor do behaviorismo, James Watson, em suas experiências com crianças recém-nascidas, descobriu as emoções. O Medo, quando assustada, no escuro, e ao perder o equilíbrio; a Cólera, importunada, irritada, com desconforto e arranhões; o Amor, confortada, acariciada, estampando-o no rostinho sereno e em leve sorriso. O medo conduz à angústia e à covardia; a cólera, ao ódio, agressão e vingança; o amor, ao perdão, à paz e à fraternidade.

Se há falta de amor, tornam-se assaz nocivas aquelas que geram covardia e ódio em razão do medo e da cólera.

Mira Y Lopes, em sua obra, “4 Gigantes da Alma”, op. cit, destaca: “três são as emoções primárias, nas quais se encontra toda gênese de fuga, agressão e função possessiva: o Medo, a Ira e o afeto Amor. Outra imensa força seria uma quarta: o Dever, neste representados a Lei, obrigações, costumes, normas etc., que constituem a “gigante social” diversa das “gigantes naturais”.

Se houve malogro em nossa Colônia, ocasionaram-no as mazelas humanas a sitiá-la por todos os flancos. Mas a sua causa, a de sua construção, permanece para sempre, é indestrutível.

Não sou psicólogo, mas quero acrescentar a tropilha da alma, outros monstrinhos ainda não anotados, porém gigantescos: egoísmo, vaidades, orgulho, arrogância, ambição e ganância, inveja e ciúme, hipocrisia, presunção, preconceitos.

Ressalte-se, todavia, o êxito fantástico de nossa Colônia: a preservação dos sagrados valores humanos, ao fazerem a história. Tal é a apoteose que a todos comove pelo desprendimento e boa vontade de seus membros, idealizadores e seguidores e um heroísmo apenas precedente em nossas reduções jesuíticas e de nossos irmãos fronteiriços. Construíram-nas por Amor. Comove-nos imaginar a bandeira vermelha e preta no alto da colina e ouvir “Va pensiero”, o hino.

Anarquistas criaram clubes e sindicatos de trabalhadores em Curitiba, Ponta Grossa, Paranaguá, Palmeira e em todo o estado. Quando ginasiano, no clube Dante Alighieri, em Ponta Grossa, reunia-nos à mesa de um salão o senhor Hugo Colli, de ilustre família da cidade. Ele, filho adotivo na colônia, agora idoso, convencia-nos que o caminho para um mundo justo e igualitário passaria do capitalismo para o socialismo e haveria de chegar ao mundo prometido no sermão da montanha. É possível o porvir venturoso, de igualdade social homens e países irmãos. Utopia significa a promessa dos grandes mestres da humanidade. Para mim, ainda que de homem comum, trata-se de um pré-conhecimento, premonição: é eterna a nossa Colônia Cecília!

 

[1] DE CARVALHO, Raphael Guilherme. Poética de uma utopia: a colônia anarquista Cecília entre a literatura e a história. In: LEAHY, A. Paraná, 356 anos. Curitiba: Instituto Memória, 2009.

2 A participação na Guerra Civil comom maragatos faz crer verídica versão de que houve contato entre D. Pedro II e Giovanni Rossi, intermediado por Carlos Gomes, na Itália, em 1888. Afinal, influenciaram-se pela política contrária à República recém-criada. Fora constituído um governo federal rebelde na Ilha do Desterro”, dividiram-se as Forças Armadas, aumentava o voluntariado de ambos os lados e guerrilheiros avançavam do Sul.

3 Em “4 gigantes da alma”, Mira Y Lopes, p. 25, Ed. José Olympio.

 


 


[1] DE CARVALHO, Raphael Guilherme. Poética de uma utopia: a colônia anarquista Cecília entre a literatura e a história. In: LEAHY, A. Paraná, 356 anos. Curitiba: Instituto Memória, 2009.

[2] A participação na Guerra Civil comom maragatos faz crer verídica versão de que houve contato entre D. Pedro II e Giovanni Rossi, intermediado por Carlos Gomes, na Itália, em 1888. Afinal, influenciaram-se pela política contrária à República recém-criada. Fora constituído um governo federal rebelde na Ilha do Desterro”, dividiram-se as Forças Armadas, aumentava o voluntariado de ambos os lados e guerrilheiros avançavam do Sul.

[3] Em “4 gigantes da alma”, Mira Y Lopes, p. 25, Ed. José Olympio.