Erros Maiores da História

Noel Nascimento

 

 

 

            Grandes pensadores levaram-nos a incidir nos maiores erros da História.  Mal-entendidos de conseqüências trágicas. No entanto, já é possível a correção. Na atualidade pode-se afirmar que é falso o antagonismo entre o materialista e o idealista, este religioso. Para que se compreenda em outros termos: entre ciência e religião.

            Idealistas crêem em Deus, enquanto para os materialistas a única realidade é a Natureza.  E concluem: nada mais existe. À memória nos vem Shakespeare: “há mais mistérios entre o céu  e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.

            Dividiram-se igualmente os que se dedicaram à História. Nas eras primevas dominara a mitologia e tudo se atribuía à ação de deuses.  Há semelhanças em regimes tribais. A fé era cega e quando evoluiu para um único Deus ainda se admitia  que  intervém em todos os fenômenos naturais e sociais. Atribuíam-Lhe as vicissitudes humanas. E continuavam injustas, cruéis, as teocracias em que se convertiam monarquias e estados não

 laicos.

            Um erro lamentável foi contrapor aqueles de ideais mais elevados, a exemplo de Platão imaginando sua Republica, ou Thomas More e outros igualmente considerados utópicos, inclusive muitos socialistas e, no outro lado, os adeptos de um socialismo científico baseado  no materialismo histórico de Karl Marx.

            Desde Heródoto a preocupação foi a narração dos feitos como da Grécia ou de Roma após dois mil anos.  Predominaram os Livros Sagrados e o espírito religioso dos povos. Negando ou ignorando as ciências, as classes dominantes serviram-se da religião como aliada na exploração de escravos, servos, e na submissão do proletariado.

            Quando Francis Bacon proclama o “saber é poder”, a humanidade se conscientiza. Ele inverte o processo de Aristóteles que tomava premissas como aceitas e delas se deduziam, ao partir das verdades particulares para a verdade geral, em vez de admitir uma verdade geral e dela deduzir as conseqüências lógicas. Era o método indutivo que se criava, oposto ao dedutivo. Então esclarece as causas dos fenômenos naturais, não existem manás e do céu não caem o pão, o teto, o tecido, as utilidades. E’ preciso lavrar a terra, tudo é produto do trabalho quanto do saber do homem.

            Karl Marx abala e divide de vez o mundo (1). A principio idealista e discípulo de Hegel, torna-se materialista. Contribuíram  para a conversão as posições reacionárias das igrejas. Adota-lhe o método dialético  na interpretação dos fenômenos sociais. Constrói  o materialismo histórico, fundamento de um socialismo científico. Para atingir o ideal, também utópico no presente, imagina um quadro completo do mundo por meio da extensão unívoca das leis da dialética à evolução da sociedade. Dá ênfase as contradições, que atribui a condições econômicas, e elege como causa motriz da História a  luta de classes. Prega a revolução, a tomada do poder pelo operariado, segundo sua doutrina, ultima classe a ser explorada e  predestinada a  construir o mundo da Igualdade. Mas a ideologia ê de apelo à violência, á força, às armas, ao ódio, `as más-paixões , e indistintamente  enfurece as massas. Num tempo de horrores, agravam-se as relações humanas. Há conspirações, revoltas, greves, golpes, motins, execuções, massacres, ditaduras, tiranias, genocídios,guerras. Males de lado a lado. A reação e’ desproporcional e ainda mais bárbara atinge o auge desencadeado por regimes nazi-fascistas, países colonialistas e imperialistas.

            Então na sociedade mal dividida ocorre idêntico equívoco sobre os valores  humanos. Estes são perenes e jamais contraditórios. O homem estóico suporta com calma a dor, aceita o sacrifício pelo bem, a dor , a supressão de prazeres e acha que a felicidade está na conduta virtuosa. É capaz de renúncia e resignação. Também o epicurismo é filosofia generosa e humana, acentuando o direito à vida, ao progresso, à liberdade e à procura da felicidade. Apenas se completam caracterizando a dignidade, fundindo-se na realização e significação da vida. O equívoco em que se ocorre tem como causa a inversão de valores que se dá na sociedade mal dividida.

            A evolução é o princípio fundamental do universo e não se aplica por uma única ciência,.porém  por todas ela s em conexão.

            Outras vezes já se estenderam as leis da mecânica a todos os fenômenos da natureza, tentando explicar por meio delas, os fenômenos sociais. Isto também ocorre com o darwinismo social e a psicanálise.

            O maior dos erros, de sérias conseqüências, é ignorar que a contradição geratriz  do que acontece no mundo social a transtornar as  relações humanas reside nos próprios homens. Ressalte-se, desde logo, a importância da antropologia no conjunto das ciências a nos regerem e ao mundo. Todas elas constituem uma colossal unidade, inclusive a física dos elétrons e a quântica. Com esta abre-se um leque de novas hipóteses, descobertas, idéias, sentimentos e intuições. Não existe acaso, as leis naturais antecedem a existência da humanidade e a própria vida no planeta. A origem é cósmica. Elas se entendem ao homem e à sociedade. Não há como negar lutas de classes, mas também as de clãs, tribos, nações, raças, crenças, religiões, gerações, e até mesmo de famílias, grupos, facções diversas, quanto disputas e desavenças comuns. A causa original está em todos nós, entre a evolução pelo amor e a involução pelo egoísmo. Uns de ideais elevados, esclarecidos em sua própria crença; outros – a maioria-  contagiados pela cólera coletiva e desprezo aos valores que compõem a dignidade humana. Embora seja o homem dotado de dignidade, existe justificativas para expressões “lobo do homem”,“metade anjo,metade demônio”,“ homem medíocre”, “ homem massa”. Lastimável é ver a mulher – fonte do amor- a qual civiliza a humanidade, sofrer os males de um condicionamento impróprio.

            O homem de ideais mais elevados é aquele que através dos tempos vem melhorando o mundo. È a antítese do reacionário de todos os matizes, desenvolve a sociedade. Há plêiades deles como na Grécia antiga e, após dois mil anos, em Florença. Ou na Palestina quando nasceu Jesus.  Na atualidade se dispersam pelo mundo. É escusável a citação de maiores benfeitores da humanidade e seus humildes seguidores. Pela sua ação as classes urbanas com liderança burguesa venceram os entraves de regimes anteriores na conquista da democracia e dos direitos humanos.

            Ora, as leis naturais que constituem as ciências são lógicas, portanto é também lógico supor que o universo é pensado, inteligentemente criado. É crível que regem o cosmos em harmonia e cumprindo princípios como de evolução, relatividade, ação e reação, atração e repulsão, e até mesmo de livre-arbítrio (relativo) a capacitados seres inteligentes. Afinal, o princípio de evolução, que é cósmico e fundamental, não se aplica por uma única ciência, mas por todas elas em conexão. Estendidas as leis à História, regimes do passado, presente e futuro são determinados. Naturalmente científicos, podemos dizer. Há convergência de pontos de vista.. É natural, científica a passagem do capitalismo ao socialismo. Com tal convergência não há razão para se digladiarem, uns contra os outros, materialistas e religiosos. A passagem prescinde de meios violentos que a obstaculizam provocando reações desproporcionais, conseqüências catastróficas. Não se antecipa o futuro, senão apenas na imaginação. Não se queimam etapas na História. O homem é sujeito à evolução a partir das cavernas, da barbárie à civilização e de redenção no porvir. São idênticos os anseios e aspirações tanto de materialistas como de idealistas, estes esclarecidos com sua fé pelo avanço das ciências. É imprescindível a observação do princípio humanista da Tolerância, respeitando posições e convicções diversas ou discordantes, para que a mudança para um mudo de paz e justiça, solidário e de igualdades, seja construído mais de que pelo progresso material, através do próprio homem pelas suas virtudes, o amor  fraternal.

 

1) Vide in crítica do autor ( O Novo Período Literário, Editora Ufscar, Universidade de São Carlos,S.P.1.999, págs. 29 a 34)