História e Evolução

	
							Noel Nascimento


	Ao final do século XX encerra-se a introdução à história. Um 
tempo das cavernas à atualidade.
	Uma revolução cultural humanista faz a transição à história 
propriamente dita, a qual se inicia com nova civilização no Terceiro 
Milênio.
	Durante a crise global provocada pela desproporção entre o 
progresso material e espiritual, na qual tantos valores tem sido destruídos, 
o mundo se prepara e caminha para a Reconstrução. Conclui-se de 
autores das mais diversas correntes de pensamento, de Pietro Ubaldi a 
Deleuze, passando por Jacques Maritain, Emmanuel Mounier, Teilhard 
de Chardin, destacando ainda os revisionistas marxistas e a ação de 
grandes líderes religiosos, Mahatma Ghandi e os papas da atualidade.
	Uma revolução cultural humanista, depurando as ideologias, tende 
a unificar o pensamento científico e filosófico, os povos, as aspirações 
humanas no interesse de paz e felicidade terrestre. É possível uma 
filosofia religiosa ecumênica acima de divisões e divergências.
	Explica-se a crescente oposição à filosofia e à apologia da 
violência em que se sustentam os estados. A escalada atinge os limites na 
sociedade de consumo, na qual se aprofunda a divisão entre ricos e 
pobres ou miseráveis. Então permanece a barbárie, nega-se a civilização, 
e um homem moderno pode continuar primitivo, parecer involuído.
	Não há sentido na afirmativa de Francis Fukuyama e seus 
seguidores de que a queda do Muro de Berlim e das ditaduras do Leste 
Europeu representam "o fim da história". Assinalam o limiar. O passado 
é, de fato, o preâmbulo. Tais acontecimentos são resultado da revolução 
cultural humanista. Ressalte-se o papel de novos marxistas preocupados 
com os problemas de alienação, com o homem mesmo, dissidentes do 
sistema.
	A história não pára, não finda, é uma realidade em contínuo 
movimento e de eterno devir. "Não coincide com o ideal perfeito e 
imutável" - observa Deleuze.
	Não desceremos às particularidades de um período oficialmente 
dividido em Idades Antiga, Média, Moderna e Contemporânea. Interessa-
nos ressaltar nesse transcurso de séculos os dois acontecimentos mais 
importantes do movimento histórico. - A revolução pela Liberdade, com 
raízes nas lutas contra a escravidão e a servidão, afinal dirigida pela 
burguesia e com paradigma na Revolução Francesa. E a revolução pela 
Igualdade, desencadeada pelo proletariado, consolidando conquistas 
sociais em todo o mundo, provocando também mudanças políticas, 
econômicas, sociais, e em conceitos científicos, filosóficos e artísticos. 
Então culmina com poder em rede por todo o mundo, centralizado nos 
regimes comunistas.
	A turbulência social, conflitos e guerras de todo tipo, indicam que 
gerando transformações não solucionaram os problemas que afligem a 
humanidade.
	É a revolução pela Fraternidade a principal característica na 
cultural humanista de nosso tempo, que dá início à era de Reconstrução. 
Através da união, da tolerância, de entendimento e boa-vontade serão 
vencidos os desafios para a entrada triunfal ao Terceiro Milênio.
	Com a Fraternidade será alcançado o equilíbrio entre o progresso 
material e o espiritual.
	O fenômeno de produção e acumulação de recursos e riquezas 
incomensuráveis criam, ao mesmo tempo, desemprego, miséria e guerras, 
com a agravante da destruição da natureza. A usura banca a luxúria e a 
lascívia das elites.
	A correção se dará com o surgimento e poder de um homem 
fraterno.
	O devir não é antecipável, porém se constrói gradativamente no 
presente o seu alicerce.
	Uma formidável força renovadora integra a revolução pela 
Fraternidade: a subversão ambiental.
	Ecologia, definida pelo biólogo Ersnt Haeckel, mobiliza a 
sociedade. A voracidade das máquinas com fome antropófaga capitalista 
gera a degradação ambiental e ameaça de morte o planeta.
	Em carta a presidente americano, certo cacique expressa muito 
bem a indignação das tribos às agressões à fauna e à flora. São Francisco 
de Assis revela-nos a benevolência em relação à vida e à natureza. Tais 
sentimentos de indignação e de benevolência compõem a subversão 
ambiental, integrando a revolução pela Fraternidade. Esta não se realiza 
por força de armas, porém de ações pacíficas. Tornam-se prioridades a 
educação, saúde, saneamento básico, tudo que represente qualidade de 
vida, com cooperação e progresso sustentável.
	Define-se como objetivo a globalização da justiça social. Esta é a 
antítese e coveira do novo imperialismo multinacional que tem base na 
globalização da economia. Contraria o poder das grandes corporações 
mundiais, dirigentes e banqueiros de vária nações como das castas nos 
mais diversos países, cujo fim há de ser a capitulação à vontade dos 
povos. Os meios de produção levados à proximidade das fontes de 
matéria prima e a mercados de nações subjugadas acabarão por 
beneficiá-las, no porvir nacionalizadas.
	É através de união e solidariedade que se vencem os flagelos da 
natureza e também os provocados pelas forças da economia. Qual 
antídoto, a globalização da justiça social neutralizará os efeitos que vêm 
obstruindo as conquistas de liberdade e igualdade.
	Repetimos que o devir não é antecipável, porém se constrói 
gradativamente no presente o seu alicerce.
	A revolução cultural humanista reflete-se diretamente no direito.
	A Ihering assiste razão ao afirmar que a história do direito é a 
superação do direito penal.
	Embora nos pareçam lentas as mudanças nas instituições jurídicas, 
elas nos apontam para o devir da Fraternidade. O sistema repressivo 
transforma-se gradativamente em protecional. As penas vão perdendo 
antigos significados e já não são penas ("retributio", castigo, expiação, 
confinamento), porém medidas de correção. Com estas melhor se protege 
a sociedade toda, incluindo vítimas, transgressores e familiares. Falido, o 
sistema de cárceres tende a dar lugar a estabelecimentos adequados aos 
diversos tipos de autores.
	Há maior contra-senso de que o enjaulamento de mulheres, rés e 
grandes vítimas das violências e miséria sociais?
	O direito de proteção à pessoa, além de incluir as suas 
necessidades básicas inclui a natureza.
	Inicia-se a desburocratização do sistema, aproxima-se ao povo a 
própria magistratura. O Ministério Público, com soberania e 
independência, é o poder em defesa da cidadania plena e de uma 
democracia real. Movem-se ações contra corrupção, abuso de poder 
econômico e em defesa ambiental. Democratiza-se a justiça com juizados 
especiais e de instrução.
	Antes de afirmarmos que o coração do homem é o motor da 
história, Dante descobrira que o Amor tudo move.
	Astronautas inauguraram a partir dos vôos espaciais uma nova 
visão do mundo. Com propriedade, Louis Pawels e Jacques Bergier, em 
"O Planeta das Possibilidades Impossíveis", preconizam uma "Nova 
Renascença", estabelecendo paralelos com as grandes navegações do 
século XV. É a Reconstrução, também resultado dos avanços científicos 
e tecnológicos de nossa época. Novos telescópios tornam obsoleto o 
Hubles, preparados para fotografar matéria escura, invisível, e realidades 
inimagináveis. O universo se encontra em gênese, constituindo-se e 
nascendo, é uma totalidade orgânica e não um caos. Há luz e calor 
abundantes fornecidos pelas estrelas como fontes de vida.
	Com atenção voltada para a grandeza do Universo e sublimidade 
da vida, hão de elevar-se as dimensões do espírito humano atingindo a 
grandeza moral na nova civilização, primeiro capítulo da história 
universal.
	Criar a consciência cósmica, fundamental à Reconstrução, é dever 
de todos.
	Certamente houve evolução quando ao tornar-se erecto o homem 
perdeu o rabo. Talvez haja perdido, a seguir, a fosceta do delinqüente, na 
qual acredita Lombroso. Talvez em maturação, não apenas biológica, 
perca de vez o rabo de seus pecados, vaidades, más-paixões.
	Afinal, está em curso a revolução pela Fraternidade transformando 
a sociedade no ano dois mil.