O Antiparanismo

	
							Noel Nascimento


	O antiparanismo é um mal-entendido.
	Na década de quarenta opunham-se ao realismo nas artes e na 
literatura, ou ao modernismo, uns poucos intelectuais refratários às luzes 
estéticas. Aos círculos elitistas desinteressava a revelação de servidões 
no campo e na cidade, o homem comum, a injustiça social, a vida, os 
sofrimentos e lutas do povo. A posição retrógrada ainda se reflete de 
algum modo no formalismo, com o empobrecimento do conteúdo, tal 
como acontecia no passado com a preocupação de ourivesaria na 
confecção de modelos desgastados, "decalques", "cópias" em série. Um 
regionalismo tímido não contribuiria para mostrar o rosto paranaense.
	Mas o realismo passara a marcar nitidamente a literatura nacional. 
Antes da "Semana de Arte Moderna" atingia o clímax com Euclides da 
Cunha, Machado de Assis, Aluízio Azevedo, Lima Barreto, e após na 
ficção de José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Marques 
Rebelo, Érico Veríssimo e outros.
	Ainda haveria de surgir obra que identificasse o "Contestado"  
como a grande guerra camponesa do Brasil, luta pela terra em regime 
semifeudal, ou que trate de passagem do poder do campo para a cidade 
devido ao crescimento das camadas urbanas levando o país à revolução 
burguesa e à guerra civil.
	No Sul, ao tacharem de paranistas aqueles que se prendiam a 
padrões literários superados e abusavam de um ufanismo vão, novos 
declararam-se antiparanistas.
	Wilson Martins observou "que se digladiavam num conflito de 
geração, paranistas (os antigos) e os jovens antiparanistas. Aqueles com 
sua visão lírica, e outros defendendo uma visão crítica mais avançada da 
literatura e da arte".
	No significado exato da palavra são mais paranistas justamente os 
novos. Entendidos como novos aqueles que não se opunham ao 
modernismo e ao realismo.
	Na obra dos autores já citados dos que acompanharam a corrente 
liderada por Mário de Andrade, a qual aprofunda a consciência de "ser 
brasileiro", outros a exemplo de Felipe Schimidt ou um Guimarães Rosa, 
constituem uma unidade o crítico e o lírico em seu sentido amplo. Ainda 
que realce aspectos negativos na sociedade, o meio hostil, a crueldade no 
condicionamento social, o "característico", o "típico", o "grotesco", isso 
tudo não importa em ausência do lírico, da emoção do amor à natureza, à 
vida, ao humano.
	Dalton Trevisan, então com "Joaquim", marco modernista no 
Paraná, e com seus contos, escritor realista, faz a prova cabal da unidade 
entre o crítico e o lírico. A arte é sempre a natureza vista através de um 
temperamento amoroso. Tenha-se em conta, ainda, a afirmação croceana 
de que é "a expressão de uma intuição lírica".
	Enfim, a exaltação de uma cidade, de um estado, de uma região, da 
terra natal ou de adoção, não constitui pecado, defeito artístico ou 
literário. Se em prosa e verso, em telas e partituras fosse motivo para 
tanto, far-se-iam distinções semelhantes entre nordestinos, mineiros, 
baianos, cariocas, paulistas, catarinenses ou gaúchos. Também se 
dividiriam os autores nacionais em brasileiristas e antibrasileiristas.
	Chega a ser ridículo o mal-entendido e, nele, há causas menores.
	Já estão desculpados intelectuais tradicionalistas que não 
compreenderam porque Sérgio Milliet declarara que "ou o poeta mata o 
soneto ou o soneto mata acaba com a poesia".
	Em sua posse na Academia Paranaense de Letras, no ano de 67, o 
professor Bento Munhós da Rocha Neto definia-lhe os rumos: "Não pode 
enclausurar-se em velhos cânones". E acrescentava: "A Academia tem de 
estar afinada com os moços, acessível e sensível a seus problemas. Tem 
de estar afinada com o pensamento paranaense, possuindo a capacidade 
para compreendê-lo (...)" "A Academia tem responsabilidade diante dos 
jovens que estão surgindo, venham eles do panorama clássico do Paraná 
ou convirjam para a sua metrópole, dos quatro cantos de nossa regiões 
pioneiras."
	Hoje, como ontem, são muitos os novos naquela Academia, e sua 
maior expressão no jornalismo, um ensaísta, Samuel Guimarães da Costa 
dá-nos a melhor idéia de quanto são eles paranistas ao encerrar o seu 
discurso de posse com o grito de guerra: "Morrer pelo Brasil e matar pelo 
Paraná!"