O Jardineiro de Aquário

	
							Noel Nascimento


	"Mais ampla do que a reforma, mais profunda do que a revolução, essa 
	conspiração (aquariana) benigna, a favor de uma nova ordem, deflagrou 
	o mais rápido realinhamento cultural da história. A grande 
	transformação, a mudança irrevogável que nos está empolgando, não é 
	um sistema religioso, político ou filosófico. É uma mentalidade - a 
	ascendência de uma surpreendente visão do mundo que reúne a 
	vanguarda da ciência e visões dos mais antigos pensamentos 
	registrados."
	"Há conspiradores aquarianos de todos os níveis de renda e educação, 
	dos mais humildes aos mais poderosos." 
				(Marilyn Ferguson)
	"Sejam feitos luzeiros no céu... e sirvam para sinais e para os tempos."
				(Gênesis, 1:54)
	"Procurai um homem com uma bilha d'água."
			(Jesus, seg. Lucas, 22:10)
	"A Terra é azul!"
			(Gagarin)




	Antes era o Pastor e, desde há dois mil anos - o Pescador. Agora, o 
que muda a humanidade é o Jardineiro de Aquário.
	É o homem generoso que faz a história, e assim como o trabalho 
produtivo e criativo eleva as condições materiais de existência, a ação de 
boa-vontade é o trabalho que faz o progresso espiritual. Mas a principal 
contradição no mundo social não reside nas classes (há classes neutras e 
intermediárias mal definidas), nem nas nações ou nos regimes 
econômicos, porém entre o homem-indivíduo e o sistema que o dilui, que 
o nega, que o explora, que o oprime. Ele está em todas as classes, em 
todas as nações, em todos os regimes. Essa é a causa principal das 
revoluções, apresentem-nas com tais ou quais interpretações, razão da 
luta permanente pelas liberdades individuais, pelos direitos humanos e 
pela democracia. Inquietam-se os povos, a juventude se agita - à frente a 
estudantil, os trabalhadores lutam e os intelectuais denunciam as 
injustiças, a corrupção, as desigualdades. Caem governos, convertem-se 
nações. Ruem os impérios e declinam as civilizações enquanto houver um 
só homem esmagado em seu alicerces.
	De um mundo que finda, vêem-se os sinais alardeados desde os 
tempos bíblicos. O mal e o menos bom são destruídos para o melhor 
assumir o seu lugar. De um mundo que finda e do outro que começa, 
agora os sinais relampejam nas redes de rádio e televisão, nas telas de 
cinema, em jornais, revistas e livros. O que começa caracteriza-se pela 
rebelião da individualidade. Na sociedade consumista, que mais o 
pressiona e procura destruí-lo, o indivíduo adquire conhecimentos que lhe 
favorecem a libertação de servidões e limitações físicas, graças ao 
progresso das ciências, como a eletricidade através da luz, do rádio, da 
televisão, dos motores, dos aquecedores, enfim, das invenções 
eletrônicas. Então esclarecido pode sacudir o jugo do totalitarismo, das 
explorações, da tecnocracia, da burocracia, das coletivizações, 
libertando-se também das más influências e de más ambições tal qual o 
fiel de seus pecados. As mulheres se emancipam e ficam livres para o 
trabalho e para suas virtudes, as crianças têm direitos e não são meras 
propriedades dos pais.
	No rumo das estrelas, o homem viu o Canaan, que a Terra é azul, 
um só mundo. Então só a paz e a fraternidade interessam ao povos, e 
perde toda substância a ideologia apológica da violência, a qual não é 
nenhuma "parteira da história", mas poderia ter sido a coveira.
	Novas luzes iluminam a Terra - herdam-na os mansos - com maior 
intensidade que as do Século XVIII. Jacques Maritain prevê 
Reconstrução ao dizer que "sobre a vitória de todas as liberdades, 
liberdade espiritual, liberdade política, liberdade social e operária, essa 
reconstrução poderá se estabelecer". Emmanuel Mounier divisa o 
Jardineiro de Aquário, pois exalta a individualidade, sobrelevando a 
importância de pessoa, tal como a vê, em sua evolução, Teilhard du 
Chardin. O "Dignitatis Humanae" é inscrição no portal dos novos 
tempos. Os povos ouvem os líderes pacifistas. No Brasil o humanismo 
tem raízes profundas, é filosofia pragmática de seu povo, também 
interpretada por Alceu Amoroso Lima.
	Estamos na Era de Aquário.
	O homem conhece a si próprio e ao próximo, é solidário. 
Redescobre-se como centro do Universo, agora sublimado, com um 
significado extraordinário: é pessoa. Razão, sentidos, sentimentos, 
harmonizam-se, e então se desvendam novos aspectos da vida, da 
natureza e do Universo. Descerram-se cortinas e revelam-se novos e 
imensos cenários da realidade. Já se pode dizer "eu creio" como se diz 
"eu sei", confirmado em novos canais de conhecimento. O relógio da 
história é o Zodíaco, o Jardineiro de Aquário conduz à Páscoa dos Doze 
Povos.
	É ele o homem da bilha d'água.
	Por isso o cuidado com a natureza, a consciência ecológica, 
coincidindo com a da paz e da fraternidade, para o desabrochar de todas 
as flores. O jardineiro é o homem do mundo que começa, você, eu, todo e 
qualquer indivíduo autoconsciente e que se auto dirige, com pleno 
entendimento do mundo e da vida. Pessoa, realidade primordial, para a 
qual tudo existe, inclusive a sociedade que a modela, mas que não tem o 
direito de oprimi-la.
	Reconstrução é, agora, a tarefa dos que desejam união, não-
violência, tolerância, solidarismo, paz social, amor à pessoa, à vida e à 
natureza. Reconstrução é o movimento de vanguarda do terceiro milênio, 
que restaura os valores humanos imperecíveis, através da arte e da 
literatura, rompendo com os estilos e preceitos formalistas antigos e 
modernos, declarando como absolutamente substancial o conteúdo. 
Opondo-se a concepções anti-humanistas e anti-realistas, afirma a 
existência do mundo objetivo e seus mistérios, tanto quanto o primado do 
homem como pessoa. Verbera as teorias formalistas, a idéia de que a 
obra é simples jogo de palavras, construção lingüística, coleção de sinais, 
inutilidade, não importando a inteligência do texto. Ressalta o erro de 
tomar o material (fornecido pelo mundo exterior) e formas como a arte 
em si. O próprio tema não constitui o principal no conteúdo. O principal, 
temos de repetir: "O verbo é o princípio". Isto é, a causa, a base, a regra, 
a lei, o ser em expressão. O principal é o amor, que faz o artista sentir o 
recôndito, o distante, o oculto, e tornar presente o indizível e o devir. Um 
conhecimento da essência das coisas, e não relativo à sua existência ou 
função, é definido por Husserl. A arte é a natureza vista através de um 
temperamento amoroso. São insuficientes as conceituações naturalista, 
socialista ou marxista. Há um conhecimento do substancial, de ordem, de 
harmonias e de relações ainda ignorados, transcendente, com o qual o 
artista expressa o poder que, nos fatos, ultrapassa o poder do saber 
comum, o poder que é o mistério das cousas. É o conhecimento de 
arcanos, de indícios de um considerável fantástico, de um devir, da 
totalidade da vida e do Universo que é, agora, uma imposição à arte. O 
estilo, "que é o homem", exprime-se pelo ritmo, movimento do sopro no 
barro. O sopro criador é o artista, a vida pela impressão da engenharia do 
espírito, sem o que material é lixo. Noutras palavras: o artista forma a 
idéia poética e manifesta "com o sopro da vida e o pó da terra". Sua 
visão estética da natureza, seu amor, eis o conteúdo.
	Passou a hora de poetas-massa, de amontoar palavras e não dizer 
nada senão banalidades, de construir versos sem poesia. Passou a hora do 
discurso oco, do livro vazio. Para que a arte reflita o bem, todo o encanto 
da vida e da natureza, agora o que muda a humanidade é o Jardineiro de 
Aquário.