O Poeta e a Face da Justiça

Noel Nascimento

 

“O Poeta Humaniza a Justiça”
 
Túlio Vargas
 
“O Amor, plenitude do sentimento, 
está em cada ser, em cada pessoa.”
 
 Antonio Celso Mendes
 
 
      
No palácio do mais augusto dos Poderes, a Academia Paranaense de Letras se engrandece nesta solenidade.
Concede-me a honra de representá-la na acolhida fraterna a um poeta togado do Egrégio Tribunal de Justiça. Afinidades nos reencontram agora neste mesmo palácio.
 
Ao apresenta-lo em “Folhas Caídas”,  estréia de José Wanderlei Resende, sublinhei a singeleza, o encanto e a ternura em seus versos. Percebi-lhe logo a dignidade, o humanismo.
 
Há pouco, ainda que pequeno intelectual, havia eu corrigido em “A Nova Estética” a conceituação de arte procurando estabelecer os fundamentos de um novo realismo; o realismo humanista.
 
Na época se cogitava da existência  ou não de uma “filosofia”, de um “pensamento brasileiro”. Pontificavam nomes como Miguel Reale, Alceu Amoroso Lima, Darcy Ribeiro, Gilberto Freire, Hélio Jaguaribe,  Roberto Lyra, Caio Prado Junior, Wilson Martins, Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Viana, além de componentes do ISEB e demais escritores preocupados com a identidade nacional. Ressalte-se ainda, a influência do Modernismo.
 
Ao criticar idéias estéticas e contribuir para a revelação de um “humanismo brasileiro”, parti das definições de Zola e Flaubert, quanto de ideólogos socialistas, e propus:
 
“A Arte é a natureza vista através de um temperamento amoroso.”
Com a substituição  de “rebelde” por “amoroso”, supera-se não só o naturalismo, também o velho realismo, ainda que crítico e democrático representasse um avanço ao contrariar injustiças e falsidades sociais. Porém velho realismo que esposara intolerância, violência, e assimilara ódios confundindo a Fé com os erros da Igreja, a prevaricação com a dignidade da família, culminando com a adoção do materialismo histórico.
 
De amor é a visão do poeta, por isso revela o bem e o belo. A matéria prima das artes são os sentimentos. Então se expressa nos versos, no ritmo das palavras, nas imagens, no estilo.
 
Creio ser de Léon Denis a afirmativa : “A beleza é um dos atributos divinos. Deus colocou nos seres e nas coisas esse misterioso encanto que nos atrai, nos cativa e enche a alma de admiração, às vezes de entusiasmo. A arte é a busca, a manifestação dessa beleza eterna.”
 
Em “Grito Mudo”, obra recente de José Wanderlei Resende, então se compreende porque indaga num poema : “Como não ser poeta/ nessa nave errante/ pelo espaço infinito/ ¾ e conclui:  “Como não ser poeta/ diante de tanta beleza?”
Em “Caminhos”, a antecedente, os sonhos, os anseios, os devaneios afetivos e sua peregrinação poética, ali estão simbolizados numa síntese:
 
“Caminhos ...
Quantos caminhos
nesta vida a percorrer
quantos escolhendo os seguimos
quantos seguimos sem querer.”
 
Amor amalgama valores humanos imperecíveis, transparentes na obra de um poeta.
 
Joana de Ângelis (psicografia de Divaldo Pereira Franco) diz-nos dessa força ao nos reportar à Roma do ano 399, quando pressionado por cristãos eminentes, o imperador Honório fechou as escolas de gladiadores. Mas quando os godos tentaram invadir a capital do Império, o general Atilicho bateu-os em sangrentos batalhas em 403, expulsando-os às regiões de origem. Ao serem celebrados no Coliseu essas vitórias, após corridas de bigas, desfiles, musicais, bailados, tiveram lugar em homenagem ao Imperador e ao General, novamente lutas de gladiadores até à morte.
 
Ao exaltar-se a massa, um homem humilde atirou-se entre eles das galerias a suplicar-lhes que não se matassem. A feroz multidão pôs-se a atirar-lhe  pedras, pedindo a morte do intruso, então assassinado em meio ao delírio geral.
 
Foi o último espetáculo, e o sacrifício de amor do anônimo o responsável pela abolição das lutas.
 
Pela força do amor, também acabarão as guerras, as lutas fratricidas, a violência, a miséria, as corrupções, a injustiça.
Na poesia, essa força é dom, doação, harmonia, encanto, ternura, bondade, beleza. Por ela  iluminado, o poeta vê a face da Justiça.
 
“... Se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe a outra”, disse Jesus, segundo Mateus.
 
Eis nesta outra a face da Justiça. Não para ser ferida, porém não a de revide, de vingança, de castigo, de retribuição do mal com o mal. Talvez até de piedade, mas a que perdoa, assiste, emenda, alenta e encaminha.
 
Ao pregar a abolição de penas, sugerindo substituição gradativa por medidas de correção e tratamento, tive agora a obra reeditada pela editora da Universidade de São Carlos, sob o título de “A Escola Humanista”, na qual procuro restabelecer-lhe os fundamentos.
 
Iniciou-se este processo com os frutos do humanismo. A mudança está em curso com a denúncia da falência do sistema penitenciário. Anunciam-se reformas, são indícios da transformação preconizada. Sinalizam-na juizados especiais, tornam-na efetiva a aplicação das chamadas “penas alternativas”. São elas nada mais de que medidas de correção e não mais penas no sentido repressivo ou de expiação. Não tardarão eficientes medidas de tratamento.
 
A realidade social brasileira, no entanto, torna imperiosa para a resolução do problema de polícia, segurança e de corrupção, a necessidade de substituição do atual processo, originado na predominância de oligarquias e coronelismo, por um novo Juizado de Instrução.
 
De juristas emergem poetas porque vêem a face da Justiça.
 
Para mim, Justiça é proteção. O direito de proteção um direito natural. Irradiou-se do regaço materno, no amor daquela que civilizou o homem. A ela, mulher, deve-se o amalgamar dos valores.
 
A visão amorosa do poeta identifica-a na esposa e filha, na família, estendendo o sentimento ao mundo. Refiro-me ao que acontece em poemas de José Wanderlei Resende.
 
Há, todavia, formalistas equivocados afirmando que a arte nada tem com o bem ou belo, com os sentimentos. Argumentam, inclusive, com as diferenças entre o santo e o poeta. Para não entrar em detalhes como a necessidade de expressão em versos e imagens, simplifico uma resposta: O santo é pra lá de poeta!
 
José Wanderlei Resende tem não só a sabedoria do sacerdócio de juiz, mas a da intuição reveladora na visão amorosa de poeta.
 
Por desamor, os homens ainda se digladiam nos coliseus do mundo. É a humanidade vivenciando violências, misérias, fratricídios, genocídios, guerras.
 
É preciso ouvir o “Grito Mudo”.
 
Entre inúmeras sentenças do juiz poeta, anotei para exaltar-lhe a sabedoria da visão amorosa, uma em que julga o homem, a si mesmo, a humanidade, com a aplicação de uma pena alternativa, ou melhor dizendo, de uma medida de correção e tratamento:
 
“É preciso amar,
é necessário soltar as rédeas
do coração;
é preciso dar trela
à imaginação e sentir ...
sentir
profundamente
lá de dentro d’alma
com intensidade.
É preciso amar
num mergulho profundo
irreversível;
é preciso sorrir,
é preciso chorar de amor,
se necessário for.
Amar é tudo, fundamental.”
 
Que minhas palavras mais de que louros por vós merecidos, sejam recebidas com abraços amigos, fraternais, que as transcendem. Sede, José Wanderlei Resende, bem-vindo à Academia Paranaense de Letras.