O Primado do Homem

	
							Noel Nascimento


	O homem constrói o mundo e a história. Mas ele próprio é um 
processo em formação, e de sua evolução espiritual depende a social. A 
sua realidade concreta, palpável, é a individualidade.
	Antes de ser operário ou burguês, desta ou daquela raça, tribo, ou 
nação, independente das crenças que professe, o homem é pessoa. Possui 
um valor absoluto. As suas relações primordiais são as de pessoa, as de 
mãe, pais e filhos, de irmãos, de semelhantes para semelhantes. As 
pessoas são sempre as mesmas, com características próprias como o 
nome ou traços digitais, como nos folguedos, nas escolas, nas igrejas, ou 
onde quer que seja, as crianças são apenas crianças. A sua evolução se 
dá apenas pelas experiências de vida com a predominância de 
sentimentos de amor sobre os demais.
	E os sentimentos humanos não podem ser rotulados como de 
senhores, de escravos, de burgueses ou proletários.
	Não há outra alteridade na pessoa, ela é sempre a mesma nos 
diferentes momentos de existência, nasça onde nascer, fale a língua que 
falar, tenha esta ou aquela profissão. A consciência é individual, e não 
social. Disto é prova, por exemplo, o arrependimento, acontecimento 
íntimo, pessoal.
	O homem pode adotar ou descartar conceitos ou preconceitos de 
classe, raça ou religião, menos deixar de ser ele mesmo com tendências 
boas ou ainda más, egoístas.
	Há algo incondicionado em seu espírito: a necessidade de amor, a 
inclinação pelo conhecimento, pelo prazer estético, o desejo de proteção, 
o sentimento de solidariedade e de aprovação social, a sensibilidade ao 
insulto, o temor, a alegria ou o pesar. Justiça, paz, democracia, 
correspondem a inatos desejos de liberdade e solidariedade. Ele depende 
do progresso material para alcançá-los, porém organiza a sociedade tendo 
em vista tais objetivos.
	Assim como é enganado pelos sentidos sobre a realidade, seja 
observando o sol ou a lua descrevendo um arco sobre a terra, ou 
ignorando o projétil no ar ou os átomos em movimento, também o 
enganam as forças sociais, fazendo com que acredite ser justo o ódio aos 
semelhantes. Convicções ilógicas, absurdas, incutem-lhe através dos 
costumes, das tradições e dos preconceitos que o cercam, pelo simples 
fato de ouvi-las reiteradamente. Por isso tem sido compreendido não 
como um ser que se dirige, e sim como uma máquina, um autômato 
conduzido por forças externas, por seus instrumentos de trabalho, por 
suas invenções, por sua própria obra, como se o barco não o  tivesse à  
direção, ao leme.
	Suas idéias geram, conforme as necessidades, as formas de 
organização social.
	O paralelismo do progressos das ciências físicas e das grandes 
indústrias comprova o fato de que as idéias precedem todo o 
desenvolvimento natural da sociedade. As descobertas industriais do 
século XVIII, por exemplo, são um resultado de idéias científicas que 
começou em Descartes, Kepler, Galileu. O movimento econômico se 
explica pelo movimento de idéias científicas. A vida espiritual da 
sociedade age e reage sobre a vida material e a dirige.
	Ele pode encontrar já estratificada uma sociedade, mas é sempre a 
sua vontade que lhe determina os propósitos. É em virtude dela que 
exerce ou não uma determinada atividade, podendo variar o modo de 
viver. A ocupação - repita-se - não lhe determina o ser, a consciência. 
Esta a precede.
	Corrente filosófica, aqui criticada, toma por "homem" o indivíduo 
na sociedade preestabelecida, mas ele homem construiu-a antes e 
constrói todas elas.
	A economia, como tudo o mais, não o explica, pois é 
conseqüência, resultado de sua ação inteligente sobre a natureza.
	O humanismo histórico refuta a visão fatalista da violência 
primordial, de relações de combate entre duas consciências que se 
confrontam. Condena a violência como forma de retrocesso e simples 
destruição. Nela residem as causas de intolerância, de misérias e de 
inversão dos valores. Se os possuídos de ódio fazem a história, seria 
preferível não tê-la.
	Mas a verdade é outra. A capacidade humana, por excelência, é a 
capacidade moral, linha mestra de sua ação e de sua conduta, fundamento 
de sua responsabilidade, de sua ética, de seu direito, de sua estética, de 
sua história. A essência do homem é o espírito, e se este é iluminado por 
amor a obscurecer a cólera e o medo, eis então o grande homem, por 
mais humilde que seja, guiando a humanidade.
	Nenhum indivíduo normal deseja a reprovação social e quer ser 
considerado mesquinho, covarde, traidor, hipócrita ou mentiroso.
	Por certo a intuição humana já transcende os sentidos, a razão e a 
ciência, descortinando um porvir de paz, justiça e fraternidade.
	Uma revolução se processa quando se acham injustas as relações 
na sociedade, as leis, e se dispõem dos meios que possibilitam modificá-
las. Nesse período cresce a preocupação com o justo e o injusto, com o 
bem e o mal.
	Não é a fome que levanta um povo, porém os sentimentos de 
justiça, e a revolução pode ser pacífica como foi preconizada há dois mil 
anos:

	"Não pela força das armas,
	mas pela força do espírito."

	Resta dizer que a força do espírito é o amor.