O Realismo

						
							Noel Nascimento


	O humanismo histórico tem por princípio o realismo como 
superação do velho idealismo que nega a existência das cousas, dos 
objetos.
	Ainda que seja retomada aquela posição filosófica e se depare com 
Bergson afirmando que o mundo não passa de imagens ou que só existe 
na consciência, elas não merecem nenhum crédito.
	Em vão alguns reavivam a idéia de que as coisas não existem por 
si só, independentemente do sujeito. É inconsistente a afirmativa de 
Berkeley de que a matéria é somente uma idéia do indivíduo. Ou de 
Withead, a de que o único fato concreto é o processo; que as coisas não 
têm realidades por si mesmas e são feixes de fenômenos ligados entre si 
por múltiplo nexos no espaço-tempo.
	A religião não leva à negação das cousas, dos objetos, do mundo, 
mas só à afirmativa de sua criação.
	O neotomismo, corrente cristã, afirma a existência do mundo 
objetivo, entendendo que as coisas exteriores são atingidas pelo 
espírito.[1] Os neo-escoláticos e os que aceitam a fenomenologia têm 
ponto de vista semelhante. O pragmatismo, opondo-se à especulação e à 
tendência de sistematizante e teórica, desferiu o golpe definitivo ao 
idealismo.
	É de acentuar-se as posições neopositivistas lideradas pelo Círculo 
de Viena, segundo as quais as ciências positivas são a única fonte 
legítima do conhecimento humano, considerando que a ciência não é 
outra coisa que não a realidade constatada.
	A consciência aprende a nova realidade em que surge e se 
desenvolve, não é determinada pelo objeto, nem o objeto pela 
consciência dos indivíduos.
	O agnoticismo, que não nega a realidade objetiva, mas sim a 
possibilidade de um conhecimento total dela, é mais racional e assim 
parecerá porque a ciência não tem fim e parece não operar a última 
constatação. Tem igual substância a atitude positivista de Augusto 
Comte, a qual se limita a constatar as relações entre os fatos, sem indagar 
as relações, considerando inatingível o porquê das coisas.
	É evidente que há coisas e fatos ainda não conhecidos, mas 
possíveis de serem descobertos e conhecidos.
	Aqueles que explicam a história apenas por bases econômicas 
entendem que todos em desacordo com seus postulados são idealistas e 
reacionários, o que é falso.
	É que o idealismo histórico atribuía a arcaica e injusta ordem 
social à vontade de Deus, reconhecendo direito aos reis, aos tiranos, 
justificando os males sociais que o materialismo histórico acha fatais e 
necessários, por determinação dos fatores econômicos.




[1] Maritain, Os Degraus do Saber, pág. 237, Desclée de Browner, 5ªed., 
Paris, 1948.