Os Escritores e a Igualdade Fraterna



	
							Noel Nascimento


	

Os bons escritores , até mesmo intuitivamente , percebem a igualdade de homens e  mulheres como pessoas , acima de todas as diferenças. Jamais,sob qualquer pretexto , aprovam crueldades , injustiças , exploração dos mais pobres nas sociedades em trânsito.

 

Os bons escritores , plenamente ou de algum modo , são sempre realistas . Não Importa em que época ,  se clássicos , românticos , modernistas , pós-modernistas  e adeptos das diversas teorias sobre arte.  Seja Homero com “Ilíada”e “Odisséia”, ou poetas como Camões  na língua portuguesa , e até os dias de hoje prosadores com suas narrativas , principalmente as épicas e históricas .

 

A criação artística espelha o real não pela reprodução em vidro de fina camada metálica , mas pela impressão no espírito do autor. Pode apenas aparentá-lo , transfigurado pelo imaginário . A imaginação é da natureza do homem , um ser real ,  portanto é  ela uma representação subjetiva com vínculos verazes . Estes menos fortes que na verossimilhança . O fantástico tem algo , tem muito e , algumas vezes , tudo de real. A arte reflete a natureza , a vida , as lutas ,vitórias , sofrimentos e aspirações do homem em sua evolução na Terra . Quando denúncia o mal , realça o feio , as misérias , o injusto , visando a transformação do mundo  para o bem,a equidade e a justiça .

 

Os bons escritores dinamizam idéias contra as opressões, tiranias , escravidão , servidões , imperialismos . Então adotaram os valores do humanismo , da Era Helenística , apropriados  pelo Império Romano até a decadência com a inversão quando , através dos saques pelas legiões , tornou-se opulenta , luxuriosa e corrupta . Então considerava  quem conservasse as virtudes , com as quais se fez sua grandeza , um fraco . Apesar dos esforços de Augusto , somente  restaurou-os o cristianismo e , com novas luzes , sem a  aceitação de derrota e desalento de que foram exemplo  Schopenhauer  e Renan  no século XIX .

 

Enalteça-se a mulher que , desde as eras primevas das cavernas , com os sentimentos de mãe , é  a fonte desses valores.

 

Ao proclamar “a arte pelo bem”,um”realismo humanista”, preconizar um “novo período literário”, de “reconstrução”, é importante salientar que os bons escritores guiarão os povos num caminho de igualdade fraterna .

 

Vale a pena lembrar obras que contaram histórias  como de “Spartacus” ou dos “Macabeus” , de heróis e mártires , de personagens típicos ou de homens comuns , evidenciando-lhes as virtudes .  Porquê são perenes obras como “Ivanhoé” ,  as de aventuras fictícias criadas por Cervantes  , ou um singelo  “Conde de Monte Cristo” , ou  “Os Três Mosqueteiros”.

 

Numa citação restrita não se pode deixar de registrar as de Victor Hugo , em defesa das virtudes dos pobres e oprimidos , e de  Dostoievski , ambos denunciando a barbárie das penas como castigo , divulgando as idéias  de César Becaria e de Lombroso, respectivamente.

         

No Brasil , com a tolerância , miscigenação de raças . sincretismo religioso , interação de culturas , formou-se um povo de boa índole . Para o Brasil ,  os povos também são irmãos , e reprova qual seja a separatividade . Tem grande papel a desempenhar no mundo . Sua vocação é a de concórdia , irradiando luzes para o porvir em sua missão reveladora . No País são muitos os bons escritores e a predominância do realismo.

 

Não se excluem as obras de puro entretenimento , desde que refletindo a beleza do real na unidade de  forma e conteúdo , as virtudes humanas , o bem na vida e na natureza. 

         

A beleza encerra a totalidade dos valores estéticos quanto éticos .  Eles se fundem e se confundem harmonizados num quadro , num poema , numa narrativa .  São inseparáveis na criação artística .  Os estéticos são os meios , linguagem, material , cores ;  os éticos são os derivados do amor , como honra , a beleza espiritual . Conciliam-se e harmonizam-se estóicos e epicuristas , sacrifício e renúncia , bondade, verdade , fé , gratidão , alegria , ternura , lealdade e demais virtudes com trabalho ,liberdade , progresso ,  paz  ,  justiça e felicidade .

 

O real artístico não se distingue pela simples coincidência (imitação ou cópia) , porém pelos vínculos , os quais constituem o nexo de causalidade. Claro que o “característico” e o “típico”aparentam coincidência.

 

Em dado momento histórico , o realismo constituiu-se em movimento literário . Voltou-se contra a falsa moralidade burguesa , o divórcio entre a Igreja e o cristianismo , a intolerância , o fanatismo e a tirania eclesiástica , a apologia das  paixões , a hipocrisia de elites decadentes entregues  a prazeres e vícios , com o aviltamento da razão e das consciências.

 

No século XVIII, com a assimilação de conhecimentos , das descobertas  do século XVI, a intelectualidade já poderia ter por objetivo o progresso através da razão e da ciência.

 

Havia pontos em comum com o romantismo , ainda positivos na atualidade.  E’do romantismo a idéia de que “o homem nasce  livre , mas a sociedade o escraviza”. Daí a rebeldia contra as leis ,  governos ,  religiões , instituições ; as revoltas em favor dos oprimidos e da democratização dos regimes.  O excesso em “sonhos”, ”fantasias” e “loucura”, levava a admitir o incesto.  Mas os românticos influenciaram a declaração , tanto quanto os enciclopedistas , de que “os homens nascem iguais e são irmãos”.

 

Abra-se um parêntese para o equívoco de Rousseau . O homem não é livre ao nascer.  Depende da proteção da mãe , da família , da sociedade em que vive e se integra , adquirindo a linguagem , a cultura , desenvolvendo-se.  E da sociedade depende , relativa , a sua liberdade.

 

Esquecendo a tolerância ,  também os realistas investiram contra  a fé por causa dos erros da Igreja ,  e contra as instituições , elegendo a violência como o meio de transformação social , fomentando ódios , ao culminar com a aceitação do materialismo histórico.

 

Quanto à fé , convém lembrar  a idéia de que “se Deus não existe ,tudo é permitido”, a qual pode explicar o desprezo ‘as virtudes que leva a corrupção, ao hedonismo e , finalmente , ao caos.

 

Amor é o gene dos valores e os harmoniza . Arte é amor . Disse ou advertiu o filósofo : “só o amor constrói para a Humanidade”.  Os bons escritores , além de apuro das propriedades estéticas , realçarão a beleza na unidade de forma e conteúdo , despertando a atenção para os irmãos abandonados nos bolsões de miséria no submundo periférico.

 

Nas cidades, com as famílias desagregadas , aumenta o número de excluídos , como lixo social , sem quaisquer direitos . Crianças se prostituem. Crianças moram, furtam, mendigam nas ruas. Os menos infelizes cerram os olhos para não vê-los, imaginando-se seguros em esconderijos de luxo , armados atrás das portas e grades de ferro .  Aqueles expulsos de seus guetos,  não raro são trancafiados , torturados e assassinados .  O crime se inicia  pelas camadas altas da sociedade e , então , se alastra sob todas as formas. A classe média angustia-se , sofre também as conseqüências da abominável concentração de bens e riqueza , com a violação dos valores humanos pela  ganância. Vê seus lares transformados em palco de frustrações e tragédias. Autores comprazem-se  em  relatá-las indecorosas.

Há povos consumidos pela fome e por lutas fratricidas, explorados e excluídos em seus continentes pelas nações ricas e poderosas. A causa de uma criminalidade crescente encontra-se em descrença nos valores, motivada pelo desprezo por parte dos ricos e governantes envolvidos em escândalos.

 

Não será também a riqueza, a prosperidade material que tornará uma pessoa melhor que outra. O possuidor também pode ser infeliz na miséria moral , aprisionado na mansão luxuosa.  Mas certamente surgirão novos instrumentos de trabalho, meios de produção, conquistas científicas e tecnológicas num mundo sem excluídos.

 

Na luta pelos direitos inalienáveis e extinção de privilégios tem sido empregada , através dos tempos , a violência.  Acumulam-se os ódios ,  e a violência permanece na atualidade , divididos  os homens e as nações.

 

Impõe-se a restauração dos valores humanistas para que as instituições sejam dignificadas.  Honra , fé , bondade , gratidão , lealdade , alegria , ternura,  coragem , verdade , pudor e demais virtudes , conjuntamente com trabalho , liberdade,progresso , paz ,  justiça e felicidade.                  

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Independentemente de crença filosófica , os bons escritores hão de preterir agora a violência pela ação da boa vontade , guiando os povos.  A arte é amor e pode iluminar o caminho  de uma igualdade fraterna.  Em que consiste , Jesus  dá-nos o melhor exemplo . Quando mais odiosas as discriminações , os excluídos ainda crucificados , era deles que se aproximava para resgatar-lhes a dignidade ferida pelos poderosos da época. Exprobrava todas as formas de violência , pregando a substituição pelo amor para que se redimisse a Humanidade.

 

Assim ,a Igualdade Fraterna` significa renúncia à violência. Neste milênio , após  tantas tragédias de destruição e morte , com a evolução do pensamento humano , empenho de grandes líderes pacifistas e esclarecimento dos povos , ja se pode construí-la .  Acha-se explícita no Evangelho e no Sermão da Montanha.

 

Com os valores de um novo realismo , o realismo humanista , os bons escritores podem guiar os povos . Inicia-se um século de igualar  os homens como pessoas , pela dignidade , sem preconceitos , pelo amor fraterno . Esta ação é relevante nas creches , nas escolas , nos lares , locais de trabalho , em toda parte .  Voluntários dedicados a assistência social   nas comunidades carentes , a favelas , asilos , abrigos , sanatórios , penitenciárias ; que movimentam fóruns de paz , pastorais da terra , da infância e da juventude ,instituições com fins similares ,   ongs em defesa da vida e da natureza ; são eles que ,  com os valores renovados pelos bons escritores , farão o mundo feliz.  

 

Ao predominar no mundo  a Igualdade Fraterna , a sociedade  ainda não será perfeita , mas ...  quase.