Poesia e Inteligência

Noel Nascimento

Há poesia e poesia, mas nenhuma em versos de autores menos dotados. O que são uma e outra? O que é a arte?

A arte seria fundamentalmente irracional para psicanalistas e certos teóricos do formalismo. Notadamente para quem  afirma ter o artista uma visão sincrética, obedecendo sua obra a uma ordem oculta do inconsciente.

Ora, a arte é  inteligente...

Já afirmei (1) “ver a beleza pode significar reconhecê-la” e “que em toda obra de arte se expressa uma revelação graças a um poder excepcional do artista. Tal poder é que  explica em grande parte a criação artística. Em sua consciência  existe um conhecimento transcendente. É o misterioso dom, o estro de escritores, da sabedoria inata. Eis o segredo por pouco não desvendado pelos filósofos da Estética.”

Houve tempo  em que se digladiavam duas correntes de pensamento. Uma com a conceituação de Benedetto Croce: “A arte é a expressão de uma intuição.” Ao acrescentar-se  a palavra “lírica”, aproximava-se à verdade. Acusavam-no de reacionário místico e idealista. Contribuía para isso a falsa  versão de intuição entendida como  faculdade divinatória  e sobrenatural, confundida com inspiração. A corrente de maioria materialista também se aproximava à verdade: “Arte é a natureza vista através de um temperamento”. Pelos  marxistas fora acrescentada a palavra “rebelde” (como entendiam os partidários  de um realismo socialista). Considerei a substituição do termo “rebelde” por “amoroso”, preconizando um realismo humanista, com a libertação de dogmas  e preconceitos. Este sem fronteiras, aberto a todas as correntes, admitindo a indignação, o absurdo ou o fantástico, a transfiguração ou  a decomposição do conteúdo real, desde que direcionados por uma visão amorosa. A premissa é a de que  toda arte tem vínculo com o real, ainda  que com ele não coincida.

Conhecia-se apenas a inteligência racional, mas Freud percebera  o poder do subconsciente irradiando uma força energética; impulsos e sentimentos desordenados em seus pacientes.

A expressão “lírica” importa no reconhecimento da inteligência emocional, porém  com o controle harmonioso dos sentimentos. A expressão “rebelde” também a evidencia, mas sem esse controle que se atribui à razão. Em conseqüência  podem preponderar maus sentimentos, impulsos de revolta e amoralidade. Ao substituí-la pelo termo “amoroso” creio que o fiz não só com percepção da inteligência emocional, após vinte anos revelada, em l995, por Daniel Goleman.

Os que fazem uma boa poesia possuem em certo grau o poder de conhecimento já mencionado, além de racionalmente organizarem harmoniosamente os sentimentos refletidos em sua obra. Há nela afabilidade. Antes de tudo, amam. Tal é a poesia predominante, e varia em qualidade se não perde  originalidade, não cai  no trivial, no grosseiro, no ódio ou na pieguice.

Mas outra poesia  de valor mais alto nos dá uma visão grandiosa da natureza e da criatura humana, de sua sublimidade. A obra que a contém, qual arte ou gênero, exprime um rico e profundo sentir, ver, ouvir e dizer, ainda que com simplicidade. É o poder impresso no estilo do autor. A arte, a ciência e a religião desvendam o cosmo e  deslumbram os homens.

Ramachandram, de origem indiana, neurologista diretor do Centro de Cérebro e da Cognição, na Califórnia, descobriu radiações luminosas no cérebro e  fosforescências entre os lobos frontais indicativas de uma consciência perene comandando o psiquismo. Ao conhecê-lo, a Dra. Danah Zohar, autora de “O Ser Quântico”, abandonou o materialismo, constatando que possuiríamos outro tipo de inteligência, a espiritual.

Então se explica o conhecimento transcendente, sabedoria à qual Alex Carrel sugeriu a designação de “sageza”, de gênios, filósofos, cientistas, santos, grandes artistas e escritores. É acumulada na perenidade da consciência. Ateus e agnósticos provavelmente irão atribuí-la a atavismos e heranças genéticas. Mas a inteligência que a  expressa  pelo dom, pela capacidade criativa e inovadora  é, em primeiro plano, a espiritual. Tal se dá na poesia quando a visão amorosa do artista atinge a plenitude.

Variam os níveis de quociente das três formas de inteligência. São baixos na mediocridade, elevando-se entre os idealistas. Evoluem na medida em que se enriquece a sabedoria e são vencidas as  barreiras à fraternidade.

Dar-se-á a ascensão da inteligência espiritual. Com ela o homem criou o mundo fascinante da poesia, das artes e da literatura. E Deus o Universo.

 

 

1) Em “A Nova Estética” (pág.125)