Poesia e Antipoesia

	
							Noel Nascimento


	Arte ou arte de vanguarda sobreleva o homem, espelha suas lutas, 
sacrifícios, conquistas, sonhos e glória. Exalta e valoriza a vida, a 
natureza, a liberdade, as virtudes e o trabalho.
	A arte é de vanguarda porque rompe o entrave de regimes e 
ideologias, à frente com o novo. Assim, o modernismo é um movimento 
de vanguarda em relação também aos anteriores.
	Agora é o momento de uma verdadeira revolução cultural 
humanista, na qual escritores, artistas e poetas podem e devem 
reconsiderar posições, pontos de vista, e desempenhar o papel que lhes 
cabe de reconstrutores, guias de povos, restaurando valores, cuja 
destruição leva à ruína a sociedade. É importante a atuação de todos e de 
cada um em seu campo de trabalho, livro, revista, teatro, cinema, rádio 
ou televisão.
	Num mundo aético, de valores invertidos, espelham-se formas de 
antipoemas. Falava-se em decadência das artes, já se proclamava a 
morte.[1] Féretros passam sem acompanhamento de leitores nas 
publicações literárias.
	Croce define a arte como expressão de intuição lírica. Mas não 
percebe as relações íntimas, interdependentes, entre os sentimentos do 
bem e do belo, um incluso no outro, fluindo da mesma fonte. Contribui 
com a visão de arte pura, de atenção e prazer desinteressados, para a 
preponderância de correntes formalistas que acabaram por excluí-los das 
obras. Noutro movimento de idéias em que a arte é concebida como "a 
natureza vista através de um temperamento", é implícito o 
reconhecimento do sentimento, sem a restrição croceana.[2]
	Até mesmo as formas não independem do sentimento para serem 
belas.
	Em dois sentidos distintos, porém complementares, se dá a 
evolução do homem: o da inteligência criadora da filosofia e da ciência, e 
a do sentimento - sob forma de arte, poesia, grandeza moral ou inspiração 
religiosa. Graças à inteligência, domina a natureza, menos a si próprio. 
Porém o espírito reproduziu o bem, a beleza das coisas sobre a madeira, 
o marfim ou a pedra, nas telas, exprimiu-a pela música, pela poesia. O 
sentimento transpõe a ciência e a filosofia onde se detém a inteligência. 
Assim se explica o sentido de beleza e do que a extrapola - o divino. E o 
que nos é muito peculiar: o encanto.
	Amor, eis aí o mistério, essência do poema, a mesma dos 
sentimentos do bem e do belo, gêmeos e inseparáveis. Para o religioso, a 
centelha divina, na Encíclica e numa filosofia - a dignidade humana.
	"Ver sem amar é olhar nas trevas", diz Maeterlink. Não importa se 
o sentimento que a arte exprime depende, por vezes, de uma percepção 
extrasensorial, ou se é um conhecimento transcendente. Faz-se luz que 
nos aproxima do infinito, para a qual não há o inatingível:

		"Se o infinito
		cabe num verso
		e o universo no coração,
		Por que me dizem os sábios
		que as estrelas estão tão longe,
		se eu sei que elas estão tão perto?!"

	Faz-se luz que conduz o homem à bondade, à renúncia, à 
honestidade e à solidariedade.
	O funeral é da antipoesia. Transporta caixão de versos vazios, sem 
vida, sem o sentimento. A antipoesia é produto descartável da sociedade 
de consumo. Convém à despersonalização do homem. A cultura da 
inteligência não equivale a do espírito. Sem esta a sociedade torna-se 
aética, invadida de feldade, imundície, grosseria, vícios e más-paixões. O 
antipoema representa a submissão, velha e arcaica, a um sistema 
opressivo. Expressão de homem-massa, desnaturado, egoísta, apátrida, 
infiel, sem amor que não ao bem-estar, juros, lucros e bens de consumo. 
Ou passatempo pequeno-burguês. O jogo de palavras foi execrado na 
"Semana de 22". Reapresenta-se com o de sons, ridícula junção de 
consoantes e vogais em busca de eco, de correspondência sonora, sem 
nada a ver com a vida. Exclui-se o sentimento a pretexto de brevidade, 
linguagem de massa, de mídia. Inscrição em muro, pichação, cartaz, 
borrão em papel, inventam-se pilhérias.
	De sopro renovador, o modernismo foi varredura nos modelos 
crônicos, cópias, repetições e lamentações vulgares, prevenindo e 
sanando o cólera literário. Os bons poetas ainda restauram os termos e a 
língua, não substituem lugares comuns da burguesia por lugares comuns 
da marginália. Usaram até de um dizer surpreendente, inusitado, porém 
popular, autêntico e não gasto, para exaltarem o bom sentimento. 
Ignoraram, desprezaram e renegaram a exploração negativa de mágoas e 
pesares, do plangente, do pedante, da afetação vulgar, e o estilo 
rebuscado. Compreende-se que Drummond de Andrade diga em seus 
versos "cantor sem piedade, sem frágeis lágrimas", "de nada vale gemer 
ou chorar", "o que pensas e sentes não é poesia", "não faças versos sobre 
os acontecimentos". Pois faz o contrário, porém com palavras que "não 
nascem amarradas", e sim livres como o ritmo, a rima e o tema. Canta a 
infância, a família, Itabira, tudo que acontece na vida e na terra.. Sua obra 
é também ética, tem o sentimento do mundo. Ele sente a solidão: 
"sozinho na América", "o menino chorando na noite", "a falta de amor", 
"a tristeza de Deus". É épica a "Carta de Stalingrado".
	O sentimento é a matéria prima da idéia poética, inspiração, estado 
de espírito, estado de graça. Necessita das formas para expressar-se, mas 
não de um modelo, seja o soneto em nossa língua ou o haicai da 
japonesa. Nos versos importa a compreensão da poesia, o sentimento, "a 
intenção do autor" - na afirmação de Sérgio Milliet. Veja-se o poema 
"José", ainda Drummond de Andrade. Percebe-se o estado de espírito. 
São presentes a dúvida, a expectativa, a desolação, a perda de um bem, 
de um sonho. Há esperança e desesperança, uma reavaliação de crenças e 
atitudes. Tudo sugerindo em palavras saudáveis, em ritmo alegre: "E 
agora, José?"
	Fernando Pessoa nos faz ver num poema, o poder extraordinário 
do sentimento. Jesus - que era Jesus! - não lia livros, não possuía 
biblioteca. Ora, o nevoeiro das bibliotecas, de círculos fechados, podem 
nos separar da realidade. O segredo da vida está na própria vida e só o 
amor o desvenda. A sabedoria não é o saber dos filósofos, dos doutos e 
cultos. É a sageza[3], a sabedoria dos generosos, dos capazes de 
sacrifícios, de renúncia e de caridade. Entre eles o poeta, porque a 
essência da poesia é o amor.



[1] "A arte está morta" - "golpeada pelo vanguardismo, pela moda e por 
artistas medíocres, a arte deixou de ser um processo criativo" (Ferreira 
Gullar, Idéias e Ensaios, Suplemento do Jornal do Brasil, 24 de 3 de 
1991).
[2]No realismo socialista a arte é definida como "a natureza vista através 
de um temperamento rebelde".
[3]Sageza é registrada com outro sentido por Aurélio.