Prosa, Poesia e Helena Kolody

Noel Nascimento

 

            Em prosa e verso é por excelência poetisa Helena Kolody. Ao conhecê-la fiz dela uma idéia poética.

            A prosa, que também pode conter poesia, tem como característica preponderante a linguagem natural, cotidiana ou erudita. Na poesia há artificialidade na linguagem, forma sucinta, expressão do que se passa no mundo interior, psicológico, a alma do poeta, sua emoção e sentimento. Sem isto, pouco ou nada representam  o ritmo mecânico e muito menos a rima.

            Então é necessário distinguir poesia em sentido lato e poesia essência em sentido estrito. A primeira com abrangência ampla, conserva a diferença mais visível  que tem da prosa, notada há milênios, a formal: aparência simétrica, enquanto é assimétrica a da prosa. Apenas com esta característica pode ser pobre, vazia da poesia real,essência. Em contrapartida, pode contê-la a prosa, embora apareça diluída no texto. No poema é extrato concentrado que exala o belo qual se fora uma flor em versos.

            Pela linguagem se expressa uma idéia, um pensamento. Apesar da diferenciação também pela forma, fundamentalmente é o conteúdo da obra que a distingue. Trata-se, com maior vigor no caso de poema, de uma intuição lírica, a visão amorosa da natureza, da qual nasce na consciência um pensamento: a idéia poética. Pois poesia verdade, o extrato, é a que jorra da alma, o lirismo, o amor pleno, este que só é pleno ao sublimar-se. Notáveis mestres resumiam tudo nos cursos ginasiais exclamando: “As boas obras literárias são aquelas que contém estro!” Certamente por estro entendiam veia artística, talento, inspiração.

            A idéia poética  difunde-se, a exemplo das musicais. Percebendo-o, Abelardo Barbosa, famoso comunicador, dizia: “nada se cria, tudo se copia”. Nem tanto. São idéias poéticas “ouvir estrelas”, “o coração tremer debaixo da terra”, a primeira  já expressa em francês, outra em italiano. Muitas poderiam ser citadas.

            Na minha infância conheci já moça a professora cujos olhos azuis irradiavam a ternura de uma  eterna amiga. Mais tarde vim a perceber sua visão amorosa refletida em seus poemas, sínteses de suas idéias poéticas. Contemplando uma rosa sobre o muro, animava-a, sua visão era a de que a rosa estava sonhando. Na reflexão sobre o tempo, via -o como um mar que se alarga. Numa viagem de encontro ao sol, uma eterna madrugada. Helena Kolody é prova da visão amorosa do artista. Poesia pura, através de imagens de enlevo, doçura,  sentimentos, amor sublimado,  Helena descortina o belo e o bem no mundo. A imagem dos olhos azuis como causa de sua poesia, da visão singular daquela que vê o celeste no universo,foi meu pensamento, a idéia poética que fiz dela. Expressei-a em artigo de jornal, nos anos oitenta, com a epígrafe de Gagarin; “A Terra é Azul!” Noutro que também está inserido em  livro ,(1) havia dito: “A paisagem e a música  que transpõe da alma para os versos, prenderam-nos na contemplação de cada canto, luares, tardes e manhãs vistas só por seus olhos de cor celeste  foram mostrados como se a leitura fosse um sonho. Assim o encanto de um pássaro, de um chafariz, ou da carroça de tolda”.

            É gratificante ver difundida e estratificada a idéia poética que tive a felicidade de fazer da poetisa e amiga inesquecível. Desde Paulo Leminski tem sido amplamente repetida em páginas especializadas.

            Ela que em Curitiba deixa “ancorado o coração”,ela cuja obra é de celebração da vida e da natureza, da criação de Deus de quem fez o bem “vai sempre ao encontro”, merece ainda mais de que a comovente homenagem.

 

l) “O Novo Período Literário”,Editora da UFScar,São Carlos,l.999,pág.75.

2) Helena Kolody,(“Correnteza”.Ed Lítero-Técnica,Curitiba,l.979)

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