Religião, Criação do Homem

							Noel Nascimento


	Considerado estreitamente relacionado ao racionalismo, o 
humanismo é tido pela maioria dos escritores como oposição à religião.
	Há quem afirme que a Renascença é estruturalmente pagã e 
anticristã, mas como explicar que os grandes gênios da época eram todos 
cristãos?
	Pensadores materialistas, entre eles também os humanistas, 
comportam-se qual Marx, pondo de lado a religião como algo 
ultrapassado, o qual estabeleceu nos fascículos dos Anais Franco-
Alemães (Paris, 1844), que "(...) a crítica da religião, no essencial, 
terminou, e a crítica da religião é a condição preliminar de toda crítica".
	É inegável que o humanismo originou-se contrapondo-se à teologia 
e à metafísica, mas ele não conflita com a religião. A norma anunciada 
pelo Papa - "a investigação adequada para a humanidade é o homem" - 
pareceu a muitos o abandono do ideal religioso em favor de um 
humanismo materialista que só consideraria bem o que resultasse na 
ampliação do poder humano. Todavia, investigando o homem, deparamos 
o seu próprio mistério, a dignidade, a razão, os sentimentos, a fonte dos 
valores e de direito natural, nada que contrarie o ideal religioso, o qual 
não se contrapõe ao humanismo. Para distinguir o homem dos animais, 
pode-se tomar também como critério a religião.
	Não é correta a idéia de que a religião constitui a fase oposta ao 
humanismo, uma expressão de irracionalismo com a visão ceticista ou 
niilista, descrença na razão para conhecer e transformar o mundo. Mas é 
com tal premissa que se diz ser a religião o resultado do fetichismo do 
homem primitivo que, emprestando vontade e sentimentos a tudo que o 
cerca, adora a objetos e seres de que crê receber influências e de que se 
crê dependente. Em tal estágio teria nascido a noção da alma, quando o 
primitivo fetichista viu a si mesmo em sonhos. Engels esposa esta idéia, 
ao examinar a obra de Fuerbach que assinalaria, segundo os marxistas, o 
fim da filosofia clássica, estabelecendo definitivamente o materialismo 
como interpretação da natureza. Tem sido evidenciado, através dos 
tempos, como principal fator da religião, a ignorância. E na própria Bíblia 
se diz ser o medo o princípio da sabedoria e, assim, o medo é para 
muitos, a exemplo de Bertrand Russel, a origem da religião. Em oposição 
àquelas teses, elegemos o amor como fator determinante.
	É importante notar que para situar a religião como contrária ao 
humanismo, procura-se conflitá-la, com o racionalismo, a ciência, a 
cultura, a civilização, o progresso.
	No entanto, a razão não exclui a religião. É a razão que aceita ou 
refuta a fé e que estabelece uma crença. Ser ou não ser religioso 
independe do estágio social, embora devam ser levadas em conta as 
forças externas de condicionamento. A religião é uma condição humana, 
natural, que não pode ser suprimida por tais forças, mas apenas 
aproveitada e dirigida para outro tipo de ideocracia. Isso acontece, por 
exemplo, quando se faz igreja de uma doutrina política. Com menos ou 
mais conhecimentos, o homem raciocina para aceitar ou refutar o ideal 
religioso.
	O humanismo é um esforço do homem para pensar, sentir e agir 
por si próprio, aceitando a lógica dos resultados, e tem por norma 
principal a afirmação de que o homem é o próprio criador das boas ou 
más condições da sociedade. Os que combatem a religião afirmam que se 
trata de um criação da humanidade. Ora, tal fato não é nenhuma 
descoberta e nada prova. Os anti-humanistas vão mais longe, rejeitam a 
natureza humana ou essência do homem de todos os domínios das 
ciências humanas. Para eles a religião passa a ser resultado de formação 
social, divisão de classes, forças produtivas, relações de produção, infra-
estruturas, superestruturas.
	Afirmamos que a religião é, de fato, criação do homem. Porém, ela 
é o fruto de sua razão, de seus sentimentos, de todas as suas faculdades, 
de sua consciência do universo.
	Não só os gênios da Renascença, como dissemos, foram religiosos, 
mas como comparar Einstein ou Le Bonn aos fetichistas das tribos 
primitivas?
	Tanto a ciência como a religião buscam respostas à razão, a 
ciência caminhando de experimento em experimento, a religião 
avançando por cima desta, servindo-se da imaginação para alcançar as 
últimas respostas. "A ciência - segundo Sir Juliam Huxley - nos coloca 
diante de um mistério básico e universal, da existência em geral e... da 
razão em particular. Por que o mundo existe? Por que a matéria do 
mundo é o que é?... Não sabemos."[1] O homem tem momentos de 
dúvida e de descrença, sempre indaga, mas tem momentos de fé e de 
contemplação em que busca explicação para o mistério do mundo e da 
existência, procurando encontrar algo no fundo dos céus. É o que ocorre 
com o homem na Idade da Pedra, na Idade Média, ou numa sociedade 
adiantada como a soviética, na qual o doutor Jivago, da novela de Boris 
Pasternak, medita ao fitar o céu. Isto não significa alienação nem 
humilhação ou escravização, como afirmam certos pensadores. O homem 
só pode ser alienado, humilhado ou escravizado pelo próprio homem.



	Materialismo e Idealismo


	Com as colocações dualistas de Descartes, surgiram como 
sistemas principais de pensamento, radicais e irreconciliáveis, o 
materialismo e o idealismo. Enquanto o materialismo procurou mutilar o 
homem, reduzindo-o a uma máquina dirigida por condições sociais ou a 
um tubo digestivo, o idealismo acabou por negar o homem singular e 
concreto, reduzindo-o a um momento do processo do Espírito, 
manifestação do "Eu" transcendental, ignorando a individualidade e a 
própria realidade.
	Consideramos posição sensata aceitar superação de antagonismo 
entre essas duas correntes, o Realismo que se formou no pensamento 
universal, afirmando o conhecimento, a existência da matéria, das cousas, 
dos objetos, e atribuindo ao corpo próprio da religião e da psicologia a 
questão de corpo e alma.
	O humanismo que defendemos não discrimina e não faz distinção 
entre idealistas e materialistas, desde que aceitem os princípios e as 
normas do humanismo, principalmente a tolerância.



	A Tolerância


	A tolerância é ação de grandeza e de humildade, e reconhecimento 
de falibilidade humana, de que podemos errar, e muito mais que tudo 
isso: um perdão recíproco. A tolerância pressupõe a compreensão e a boa 
vontade, é contrária à violência, à imposição de idéias a ferro e fogo, às 
lutas armadas e à repressão pelo castigo.
	A tolerância só se efetiva numa democracia, formal ou real, onde 
se torne livre a indagação e a expressão do pensamento. É a tolerância a 
condição essencial do humanismo, o seu principal compromisso social. 
Em conseqüência, o pecado capital anti-humanista é precisamente a 
intolerância, gerada pelo rancor ideológico. Móvel das opressões de 
pensamento, é a intolerância a linha característica de toda espécie de 
tiranias e que distingue as ditaduras. O humanismo originou-se num 
período em que a intolerância caracterizava a Igreja e os regimes 
baseados em religiões, o que levou à idéia falsa de que opor-se-ia não 
simplesmente à intolerância, mas à própria religião. Foi a intolerância que 
justificou a acusação de obscurantismo, que determinou ditaduras como a 
calvinista, guerras religiosas e guerras de todos os tipos. No entanto, a 
intolerância é própria do homem no poder e não da religião ou falta de 
religião. O cristianismo, por exemplo, é essencialmente tolerante, e daí o 
ecumenismo e a atual orientação humanista da Igreja. A intolerância de 
uma instituição budista, muçulmana ou judaica, num determinado tempo 
e lugar, não se pode atribuir à religião, mas à desumanização do poder.



	Os Valores e a Felicidade


	As duas escolas - estoicismo e epicurismo - dividiram o campo 
filosófico, enquanto os valores da primeira foram exaltados pelo 
idealismo e, da outra, pelo materialismo. Há quem diga serem os dotados 
de elevados sentimentos e os escravos aqueles que tendem às atitudes 
estóicas. Os prazeres intelectuais e os dos sentidos seriam procurados 
pelos mais fortes e os mais sensíveis. Francis Bacon, reagindo contra a 
unilateralidade predominante dos valores estóicos, achou no saber a 
solução contra o medo e o fatalismo, aceitando a moral epicurista, após 
confessar que só há duas atitudes possíveis em face da existência: o 
estoicismo e o epicurismo.
	Partindo do pressuposto de que o corolário de todos os valores 
humanos é a dignidade, conseqüentemente reconheceremos tanto a 
humildade, caridade, abstinência, sacrifício e todo séquito de virtudes 
chamadas de monacais, quanto liberdade, progresso e o que deva ser 
considerado bom e proporcione prazer. Jamais a humanidade deixará de 
exaltar as virtudes humanas para cultuar defeitos, falsidade, deslealdade, 
ambição. E, neste sentido, o próprio materialista, um tanto envergonhado, 
declara-se idealista no sentido moral.
	Tendo como valor principal no homem a sua dignidade, a 
tolerância é uma resultante e daí o respeito a todas as pessoas 
independentemente de suas crenças e condições sociais. É da aceitação 
equilibrada dos valores do estoicismo e do epicurismo que depende a 
felicidade humana. Uma renúncia obstinada ou uma vida deletéria de 
prazeres conduzem fatalmente à angustia e ao desespero. Somente a 
satisfação dos desejos sabiamente controlados, com a valorização do que 
realmente é bom para a vida do homem, é que se pode alcançar um 
estado de relativa felicidade. Não há fórmula mágica, mas digamos num 
poema:


		Fuga da angústia

	Sentir como um golpe de buril
	- e nada mias que isso -
	todo o mal que superamos,
	valorizar apenas os bens da vida
	acima dos bens do mundo,
	cada batida do coração
	(se não houver a próxima,
	tudo se acaba),
	e mais a lua que o brilho
	de riquezas e honrarias.
	Senhor,
	simplesmente amar,
		dar o mesmo que desejamos
	com prazer e sacrifício.
	Na mão espalmada,
	no sorriso,
	no trabalho,
	retribuir a vida.

	Sem os valores indestrutíveis da religião, defendidos no sacrifício 
da Cruz, a vida humana se esvaziaria, sem significado, e nada mais 
restaria à humanidade que não o desespero.



[1] (The Humanistic Frame, 1961, pág.42).