A REVOLUÇÃO DO BRASIL

 

 

Noel Nascimento

 

 

 

PREÂMBULO

 

 

                   Esta é uma contribuição para a interpretação de nossa história, encarada como realidade social em movimento. Consideramos que até agora a nossa história tem os fatos fichados ou catalogados, sem conexões, carecendo de interpretação e, por isso, não compreendidos, algumas vezes esquecidos ou simplesmente ignorados ou omitidos.

                   Para nós, existe uma Revolução Brasileira, com contra-revolução e guerra civil. Consideramos um dos grandes objetivos nacionais a extinção do latifúndio e destacamos como Grande Guerra Camponesa a que teve lugar de 1912 a 1916 no território do Contestado.

                   Focalizamos as lutas sociais que se travaram também no Paraná, ou só no Paraná, mas apenas as mais importantes. Não enfocamos, por exemplo, a escravidão, porque não houve no Estado um regime de produção escravista. Os movimentos de 1922 e 1924, que precederam o de 1930, e estes, foram situados no Paraná e examinados com seus elos. Tratando do povoamento, fato de ocupação cruenta das terras paranaenses, caracterizamos como agitações camponesas a “Guerra de Porecatu” e a “Revolução do Sudoeste”.

                   Contamos de novo a história, objetivando preservar a memória nacional, fazendo avaliação de fatos que, por falta de interpretação, acabaram menoscabados e esquecidos. Nossa pretensão foi, igualmente, mostrar como aconteceram os fatos históricos mais importantes aqui no Estado do Paraná.

 

 

 

 

A HISTÓRIA E A REALIDADE SOCIAL BRASILEIRA

 

 

         Talvez permanecesse por muito tempo ignorada a realidade social brasileira, não fora o surgimento, em fins do século XIX, de uma obra literária: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

         A história não pára, é um expresso correndo em direção ao futuro. Mas historiadores pátrios têm-na visto estática, conquanto os mais avançados refiram-se à carga e à luta dos passageiros. É quando a história parece fotografia colorida, tirada de ângulos especiais, encobrindo sob o jogo de luzes e sombras  uma realidade muito maior.

         A história há de ser vista dinâmica, coincidente com a realidade em movimento. É nesta história que se desenrolam a revolução brasileira, a contra-revolução e as lutas sociais. Nela o Paraná se revela com todas as suas forças, sua glória, seu sangue.

         Os países da América são tidos como frutos da expansão econômica da Europa, ao iniciar-se o processo colonialista. A partir do século XVI, a América entrou na história, mas Ortega Y. Gasset afirmou que “A América ainda não havia começado a sua história universal”. A liquidação colonial iniciou-se com a revolução industrial. Porém, muitos autores acham que a autonomia dos países, alcançada no passado, teve apenas um conteúdo político, permanecendo a submissão, a dependência econômica.

         As lutas pela independência tinham conteúdo político quanto econômico. Isto não significa que não hajam surgido novas formas de domínio econômico estrangeiro e, numa segunda etapa, provocando eclosões de cunho nacionalista.

         Ao atracarem as velas lusitanas, tribos vivendo na Idade da Pedra vagavam em nossas florestas. A divisão do território em capitanias estabelecia um semi-feudalismo no país. Um milhão de indígenas conviveram e se misturaram com os brancos. O mameluco conservou no interior hábitos indígenas, vivendo de caça, pesca, extração de alguns produtos das selvas, e de um ou de outro cultivo, ora agregando-se às fazendas, originando uma massa camponesa semi-plebéia. Tornou-se básica a cultura de subsistência. De cinco a dez milhões de negros vieram da África, em regime de escravidão. Misturados a brancos, índios e mamelucos, a miscigenação atingiu índices extraordinários. Os mestiços, pouco a pouco, vão se constituindo em maioria. Esse povo é descoberto nas sesmarias, em regime de servidão, e aí reside a importância de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

         A coroa proibiu o progresso no Brasil. Não podiam ser construídas estradas para o escoamento dos produtos da terra, do ouro e de manufaturas. Não era permitida a existência de engenhos, fábricas, confecção de jóias, tipografias, escolas, livros, etc. Tais proibições, entravando o desenvolvimento econômico, dificultando a formação de classes com todas as suas categorias, provocavam a eclosão separatista.

         No primeiro século e meio de colonização, quando predominava a economia do Nordeste, com base na produção de açúcar, embora disseminada a cultura de subsistência, os centros urbanos eram poucos e pequenos, com população dedicada à administração e ao comércio. A semeadura de novos povoados aumentou no período de mineração, no qual se processou também uma lenta infiltração na rede hidrográfica do Amazonas que, vale acima, iniciou-se na segunda metade do século XVIII. Com a pecuária houve ocupação de novos territórios, porém muito rala e cheia de vácuos. Nos primeiros anos do século XIX, pequena população se distribuía ao longo do litoral em que predominava a agricultura; no Extremo-Norte onde se fazia colheita de produtos naturais; no Centro-Sul que dependia da mineração; e no Nordeste e Extremo-Sul, em que a atividade econômica era a pecuária.

         No século XVIII ocorreu uma mudança substancial, criando condições para uma “aurora-burguesa”, quando aumentou consideravelmente a população européia e houve o incremento das atividades econômicas e comerciais em todo o mundo, ao chegar a era da revolução industrial. Começaram a surgir novos e grandes mercados para o Brasil, principalmente o dos Estados Unidos, valorizando-se os produtos. O Algodão possibilita-lhe a expansão comercial. Entre outros produtos, despontará como novo fator de transformação social, o café. O país se desenvolverá, ampliar-se-á o sistema de transportes e comunicações e, com a predominância econômica do Centro-Sul, já na segunda metade do século XIX, crescerão os centros urbanos e a burguesia estará preparada para desencadear e dirigir a revolução. Em 1889, o Rio de Janeiro já tem uma população de 450.000 habitantes.

         No ano de 1720, Felipe dos Santos, encarnando os ideais nacionalistas, era arrastado por cavalos bravios nas ruas de Vila Rica. Mas é em 1789 que, com aspirações republicanas, a Inconfidência Mineira torna-se a cédula-mãe da Pátria, consubstanciando as idéias emancipadoras. Significativo é o fato – e não constitui simples coincidência, o fato de que esse ano é o ano da queda da Bastilha. E quando Tiradentes é enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro, em 1793, cai definitivamente a realeza na França.

         Definem-se as classes no mundo: a nobreza, apeada do poder, a grande e a pequena burguesia, o campesinato, um operariado crescente.

         O que na França acontecia, em virtude da mudança do caráter das forças produtivas, desenvolvimento do comércio, da indústria, das cidades, tinha de repetir-se, com características próprias, na maior parte dos países do mundo e, com o tempo, em todos.

            A abertura dos portos a todas as nações, em 1808; a transferência da corte para o Brasil; a equiparação a Portugal, em 1815, pela elevação à categoria de reino unido; foram conquistas democráticas ou, pelo menos, nacionalistas, as quais determinaram o crescimento das massas urbanas.

            A identificação da idéia de independência com a de república é presente na revolução pernambucana, de 1817. Remonta a 1789, nos movimentos de Minas, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Com o Império tínhamos um regime escravocrata semi-feudal primitivo. Embora indefinidas (fenômeno típico brasileiro), várias classes formavam a sociedade brasileira. Uma minoria de nobres da Corte, senhores e escravos, um campesinato em sua maioria miserável, e uma burguesia também numerosa e amorfa, ávida de liberdade e poder. Neste quadro desempenhavam papel importante o clero e os militares. Para entender o que significava o Exército, é preciso saber que não contava com a confiança da monarquia, que era influenciado pelo positivismo, com suas teses nacionalistas e científicas, sua explicação do homem e da história. Filosofia que refletia o crescimento em número e cultura das classes médias urbanas. Nos fins do Império, o ideal republicano convém também aos cafeicultores e aos oligarcas, cujos filhos vão às cidades reforçar ainda mais a burguesia.

 

 

 

 

 

REVOLUÇÃO BRASILEIRA

 

 

            Existe uma Revolução Brasileira, mas são conhecidas apenas as estrangeiras, a exemplo da francesa, da americana, da russa ou da mexicana.

            A brasileira desenvolve-se num processo de marchas e contra-marchas, de difícil análise, porque é extremamente complexo, com período de duração que é quase impossível precisar.

            De fato, remonta à Inconfidência Mineira a luta democrática e nacionalista pela República, e tiveram igual conteúdo as lutas contra os absolutistas e a recolonização do país, os levantes populares como os dos cabanos, dos balaios, a agitação praieira e as farroupilhas. Mas o marco definitivo da revolução brasileira é o de 15 de novembro de 1889. Até então as suas principais conquistas foram a Independência e a Abolição dos Escravos, esta ligada à Proclamação. Convém assinalar, no entanto, que a presença de um imperador no trono constitui o fator mais positivo para manter e consolidar a unidade nacional.

            Para os economistas, decerto a revolução teve início com a transferência da Corte para o Brasil, em 1808, lançando as bases da autonomia brasileira.

            Benjamim Constant, líder revolucionário, condenava o trono escravista, enquanto a oficialidade se rebelava contra ordem de caça aos escravos fugidos. Para conservar o poder, obstar ou retardar o desfecho da revolução, o trono e a aristocracia cediam gradativamente à pressão popular e à luta abolicionista.

            A República não resultou de um golpe de Estado e não se consolidou com passeatas, salvas, palmas e flores, sem derramamento de sangue. O novo regime veio representar uma transformação social, com extinção de privilégios e monopólios, e para firmar-se teria de vencer obstinada resistência das velhas estruturas.

            A revolução brasileira nasceu de novas condições econômicas, com início, no mundo, da revolução industrial. Já nos referimos ao crescimento do mercado internacional.

            A partir de 1850, chegaram os imigrantes europeus e, com o contínuo aumento de trabalhadores assalariados, em fins do século XIX estruturou-se o mercado interno e desenvolveu-se o comércio. Nas zonas mais adiantadas, multiplicaram-se estradas de ferro, pontes e linhas telegráficas. Após a proibição do tráfico de escravos, o governo imperial promovera uma inflação de crédito e emissões de papel moeda, política que constituía empecilho ao desenvolvimento, pois estimulava a importação de manufaturas estrangeiras, favorecendo o investimento inglês, que concorriam com os produtos das empresas nacionais.

            Entre 1850 a 1860, fundaram-se 62 empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de navegação, 23 de seguros, 4 de colonização, 8 de mineração, 3 de transporte urbano, 2 de gás e 8 estradas de ferro. De 62 indústrias em 1860, passou-se para 600, em 1888, nos fins do Império. Próximo à região algodoeira de alguns estados, nascia uma indústria têxtil.

            A par da formação de uma população urbana, de uma classe média e de um contingente de trabalhadores assalariados, a miscigenação das raças com o predomínio de mestiços mulatos e mamelucos, resultava num  espírito democrático e profundamente humanista.

            Entre 1890 e 1895, quando ocorreu a guerra civil, foram fundadas 452 fábricas, antes da crise em que o surto industrial cessou. Na região do Rio de Janeiro localizava-se 40% da indústria, 15% em São Paulo, e 5% no Rio Grande do Sul. Neste há o apego à pecuária e ao tradicionalismo. No Paraná e em Santa Catarina, uma só região, as principais atividades, além da pastoril, estão ligadas à erva-mate e à madeira, à industria extrativa rudimentar.

            Apesar do desenvolvimento industrial e, principalmente, do comércio, o Brasil tem dependido do setor primário e da monocultura do produto básico de exportação. Com a Abolição, o Império perdeu seu sustentáculo: os grandes proprietários do Nordeste e de zonas velhas de café, os quais debandaram para o lado dos republicanos, por se sentirem traídos. Por outro lado, os cafeicultores paulistas, mais avançados (1), capitalistas de campo, davam força à revolução.

            Vitoriosa, a revolução brasileira foi impotente, em longo período, para resolver o problema da terra, como preconizavam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Sílvio Romero. (2)

            Afinal, havia no interior o predomínio das oligarquias rurais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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(1)                 Ver pág. 14

(2)                 Respectivamente: O Abolicionismo, São Paulo, 1938, págs. 182/183; Diário e Notas Autobiográficas, Rio, pág. 330; História da Literatura Brasileira, Rio, 1888, págs. 115/116.


A INTELECTUALIDADE E A REVOLUÇÃO

 

 

            Talvez os historiadores da literatura brasileira constituam a corrente mais esclarecida acerca de nossa realidade social. Sílvio Romero nos dá uma impressão sobre o clima das idéias no período de desfecho da revolução brasileira: “Um bando de idéias novas esvoaçava sobre nós de todos os pontos do horizonte”. Referia-se ao positivismo, evolucionismo, darwinismo, crítica religiosa, cientificismo na poesia e no romance, folclore, novos processos de crítica e história literária, transformação do direito e da política. (3)

            Mas a maioria dos escritores continua negando as lutas de nosso povo. Independência, para eles,  fez-se graças a intervenção das elites brasileiras. É a mesma tese de que a Abolição ou a República foram apenas concessões generosas e não o resultado das lutas populares e das aspirações nacionais. Muitos desses autores são incongruentes, na Abolição reconhecem as lutas, enquanto as negam na conquista da Independência ou da República.

            Alfredo Bosi afirma:

“A divisão de águas entre liberais e conservadores, que marcou o homem europeu na primeira metade do século, esbateu-se entre nós pelo fato de ter vindo de cima a consecução da Independência

De Cairu, valido de João VI, a José Bonifácio, conselheiro de D. Pedro I, temos uma inteligência que repete, em um vasto país recém-egresso do sistema colonial, a experiência dos intelectuais europeus junto aos déspotas mais ou menos esclarecidos.”

            Não são poucos os que consideram os homens da elite, simples “aristocratas servis”. Vários historiadores tem acentuado o que chamam de caráter de compromisso de que se revestiu a Independência. Caio Prado Júnior diz textualmente:

“Até às vésperas..., entre aqueles mesmos que seriam seus principais fautores, nada havia que indicasse um pensamento separatista claro e definido.

O próprio José Bonifácio, que seria o Patriarca da Independência, o foi apesar dele mesmo, pois sua idéia fora unicamente a de uma monarquia dual, uma espécie de federação luso-brasileira.” (4)

 

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(3)                 Explicações Indispensáveis, prefácio aos Vários Escritos, de Tobias Barreto.

(4)                 Formação do Brasil Contemporâneo, pág. 364

Ora, a luta pela Independência não era propriedade de José Bonifácio, pertencia ao povo brasileiro, e já vinha de longe. Em dado momento, os indivíduos, as personalidades, agem de acordo com as circunstâncias, representam e lideram o movimento, fazendo o que a revolução determina.

Existe também uma posição negativista, que é a dos intelectuais que consideram o Brasil na rota da monarquia conservadora porque mantém as colunas do poder agrário: o latifúndio, o escravismo, e a economia de exportação. (5)

Não é de admirar, pois, que a revolução brasileira, desfechada pela burguesia nacional, tenha sido ignorada e não conste na história oficial do Brasil.

Até mesmo aqueles que procuravam rever o processo histórico à luz de novas concepções, também se equivocaram.

Para Caio Prado Júnior “o Império é uma transição entre  o passado colonial e o presente moderno”, o qual vê no período uma evolução num processo “difícil e moroso”. (6)

Nelson Werneck Sodré, talvez o mais importante de todos, referindo-se à atualidade,  chama de revolução brasileira “o processo de transformação que o país atravessa, no sentido de superar as deficiências originadas de seu passado colonial e da ausência da revolução burguesa no seu desenvolvimento histórico”. (7)

À frente de marxistas equivocados, nem ao menos percebe que o nacionalismo brasileiro nasceu já no início do processo colonialista, numa primeira etapa, culminando na Independência.

A cegueira é total e geral. Para a maioria dos historiadores, o processo de transformação social tem seu marco na revolução político-militar de 1930, supervalorizada, na qual terminou a primeira fase do regime republicano no Brasil. Para eles, a data é a mais importante da história pátria.

A intelectualidade é convicta de que o nacionalismo surgiu após 1922, embora reconheça fundamental a obra de Euclides da Cunha. Mas, de 1922 para cá, existe um nacionalismo, em sua nova etapa. Já frisamos que em movimentos anteriores preponderaram os sentimentos e interesses pelos problemas nacionais.

A luta nacionalista reflete-se na literatura e na imprensa. A literatura dos primeiros tempos, de caráter puramente informativo e referencial, valia pela revelação de uma nova realidade, desenvolvendo-se

 

 

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(5)           V. José Ribeiro Jr. “O Brasil Monárquico em face das Repúblicas Americanas”, em “Brasil Perspectiva”, págs. 167-221.

(6)           Evolução política do Brasil e Outros Estudo, págs. 199 a 200.

(7)           Introdução à Revolução Brasileira, pág.1

em contradição com o processo colonial. O nativismo ou o indianismo, com todos os seus matizes que se afiguram frívolos, sem maior significado, constituíam bandeiras. Para compreendê-los, basta dizer que o Padre Aires de Casal, desde 1796, coloca nos parágrafos referentes a zoologia, os indígenas entre os animais. No jornalismo, tem destaque especial Cipriano Barata, revolucionário que, desde a conspiração dos alfaiates, visando a abolição dos escravos e supressão dos privilégios sociais existentes, envolveu-se em todos os movimentos libertários, pelo que pagou nos cárceres das fortalezas. Vieram secundá-lo publicistas como Hipólito da Costa Pereira e Evaristo da Veiga. O jornal “A Opinião Liberal” trouxe a público um programa reivindicando abolição da guarda nacional, organização armada em que pretendia apoiar-se a monarquia contra o Exército. O “Tamoio”, na primeira metade do século XVIII também desempenhou papel importante na luta democrática do povo brasileiro. E era de ver a agitação provocada pela imprensa quando publicou, às vésperas da Proclamação, a ordem de punição a todos que ousassem repetir o grito proibido, com a manchete: “É proibido gritar: viva a República!”.

         De 1870 a 1890 as idéias liberais e abolicionistas foram esposadas pela inteligência nacional, mais permeável ao pensamento europeu que se constelava em torno da filosofia positiva e do evolucionismo. Definia-se o novo ideário e a alma nacional, quando já diziam muito a poesia social de Castro Alves e de Souzandrade, o romance nordestino de Franklin Távora, e chega a vez do realismo democrático com Tobias Barreto, Sílvio Romero e, ainda, Euclides da Cunha, Clóvis Beviláqua, Graça Aranha e Medeiros de Albuquerque, lutando contra as tradições do espírito da monarquia.

         Era já protesto a poesia retórica, persuadindo, moralizando, encontro de complexo de idéias e sentimentos, quando o patriótico e moralizante aparecem copiosos nas “Poesias Avulsas”, de Américo Elísio (1825), pseudônimo de José Bonifácio de Andrade e Silva.

         É do conhecimento universal que o Romantismo surgiu em conseqüência da revolução burguesa no mundo. É incrível não o tenham visto, no Brasil, como fruto de nossa própria revolução burguesa. Em seus “Ensaios”, Karl Manhelm chega a interpretá-lo como expressando os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas: a nobreza, que já caiu, e a burguesia que ainda não subiu; de onde as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento.

         Paradoxalmente, os próprios marxistas vão ao absurdo de afirmar que a burguesia brasileira jamais teve a direção do país, porque consideram títeres os seus governos, e a situação ainda de dependência colonial ou semi-colonial, como se a roda da história houvesse parado em obediência às ordens alienígenas. É interessante assinalar que, negando a revolução burguesa – uma revolução nacional –, negam a própria teoria que vê o mundo cada vez mais dividido entre as classes antagônicas. Diga-se, ainda que os estados nacionais formaram-se ao surgir a burguesia. Estaria o Brasil à margem da era industrial? Afinal, que caráter têm a constituições, que códigos de leis possuímos, que não os da revolução que aboliu a escravidão, institui o regime republicano, conquistando liberdades democráticas e direitos humanos?

         As classes sociais, no Brasil, uniram-se pelo interesse nacional contra o colonialismo, a exemplo do que possa ocorrer em relação ao capital monopolista alienígena, mas é a burguesia nacional que se encontra no poder. Se frações de grandes proprietários rurais compartilham do poder, e antes mais ativamente, isto não invalida o fato.

 

 

 
O PARANÁ

 

         Limitado ao norte pelo Estado de São Paulo: ao sul, por Santa Catarina, a leste, pelo oceano Atlântico; a noroeste, pelo Mato Grosso; a oeste, pelo Paraguai e a sudoeste, pela Argentina; o Paraná fica na palma da região centro-sul brasileira, com grande importância geográfica e estratégica. Um conjunto de planaltos se sucedem no sentido leste-oeste, da Serra do Mar, junto ao Atlântico, até o rio Paraná, passando pela serra Geral. Entre as duas serras, encontra-se o planalto de Curitiba e, em seguida, o de Ponta Grossa – os Campos Gerais. Após a serra da Esperança, o planalto de Guarapuava. Finalmente, no limite oeste o curso do rio Paraná. A sua região é florestal, onde predominaram o pinheiro, a imbuia, cedro, erva-mate; e de campos. Na faixa litorânea, é tropical, quente e baixa. Mais de dois terços de território eram tomados por inóspita e indevassável selva que, de norte a oeste, fechava a zona salpicada de povoados pouco distantes do litoral, em semi-círculo.

         Na fase da mineração, paulistas e lagunenses tropeavam o gado dos pampas, cargueiros de carne seca e courama, através de Santa Catarina rumo a Sorocaba. Ao passarem pelos Campos Gerais, estes ficaram conhecidos como “o corredor do gado”. Neste corredor surgiram os pousos, as invernadas e o primeiros povoados: Castro, Ponta Grossa, Lapa e Palmeira.

         Na caça ao índio, os bandeirantes haviam descido à região de Guaíra, destruindo as reduções jesuíticas, no início do século XVII. Nessas expedições contra os guaranis, centenas de paulistas eram acompanhados por milhares de índios aliados, de outras tribos.

         Depois disso, houve busca de ouro no interior, e o afluxo de aventureiros fez nascerem três vilas: a primeira, na entrada do porto, Paranaguá; outra, no fundo da baía, Antonina e, bem pouco distante da orla marítima, Morretes. Ao ultrapassarem a serra do Mar, fundaram mais outra, Curitiba. Nesse período, nasceram Sorocaba, em São Paulo, Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis) e Laguna.

         O Conselheiro Mafra (Exposição histórico-jurídica, pág.44), revela que:

“O Governador de São Paulo, D. Antonio Luiz de Souza, Morgado de Mateus, pretendendo ocupar e povoar as fronteiras de sua capitania com o sobre-excesso da população mestiça que andava vagabunda, depois de vencer a inicial relutância de Correia Pinto, dando-lhe uma patente de Capitão-Mór Regente e prometendo-lhe uma comenda da Ordem de Cristo, encarregou-o de povoar os campo de Curitiba (...)”

         Nas caravanas bandeirantes predominavam caboclos, forros carijós e bem poucos negros escravos. Acompanhavam-nas alguns padres catequisadores, tal como o Padre Chagas, em Guarapuava, que evitavam choque entre índios e os conquistadores. Povoados iam surgindo e crescendo do intercâmbio dos centros agrícolas e pastoris com os portos litorâneos. As exportações de produtos faziam-se por meio de tropas muares e carros de bois, que traziam, de volta, pólvora, sal, medicamentos, ferramentas e tecidos finos. Pouco a pouco, foram aparecendo as primeiras carroças. Porto União da Vitória, por onde o gado passava, assumia importância como entreposto porque de lá partiam, carregados de mercadorias, pelo Iguaçú, vaporzinhos com destino a Rio Negro e Porto Amazonas. À beira e à riba dos rios, longemente separados, sempre havia moradores, caboclos e seus ranchos rústicos, sua pequena roça, sua pesca e sua caça.
         As clareiras de campos primitivos e originais mais propícias para a criação de gado e economia de subsistência, atraíam os povoadores. Onde a floresta era extensa e maciça, constituía obstáculo intransponível.
         Já os bosques de pinheiros, menos ou mais extensos, não impediam de todo a instalação humana. O pinheiro é hospitaleiro, é o chão forrado de pinhas, é a casa, banco, mesa e tarimba, o utensílio, a cerca, o mangueirão e o galinheiro, o fogo avermelhando a trempe. À sua sombra fixaram-se os caboclos, tomando posse de pequenas porções de terras, posse que passava de pais a filhos. A massa desses matutos crescia incessantemente, misturada a trabalhadores de mato e das companhias de Estrada de Ferro.
         Uma organização social formou-se com fazendeiros, coronéis políticos e a massa semi-plebéia: peões, agregados, arrieiros, lavradores, trabalhadores braçais, bugres semi-civilizados e pequenos posseiros. Colonos estrangeiros viriam a ser pequenos proprietários agrícolas em diversas áreas. Nos vilarejos, de burguesia nascente, porém vilarejos estacionários em sua maioria, a vida dependia das estâncias. Mas já havia prosperidade quando, em 1853, nascia a província do Paraná, separada de São Paulo, por decreto de D. Pedro II.

            Existe uma acentuada diferença, que ainda não foi objeto de observação, entre nossos fazendeiros típicos e os fazendeiros paulistas e, mesmo nordestinos. É que os fazendeiros mais ao norte, por se dedicarem mais à agricultura e, às vezes, à transformação e à comercialização dos produtos, ou pelo contato com centros maiores, fogem à categoria simples de camponeses e podem ser considerados capitalistas. É o que também, entre nós, acontecia com os que se dedicavam à extração de erva-mate e à indústria de madeira, alguns até diretores de firmas de exportação. Estes capitalistas de campo,  no campo não se fixam. Quando se esgotam as terras e há ocorrência de pragas, flagelos, geadas, etc., eles são os retirantes ricos a iniciarem o êxodo rural, se já não residem nas cidades grandes. A sua terra é apenas um negócio, investem seus capitais como o fariam em qualquer outra atividade econômica. Desfaz-se dela quando a julgam imprestável, não rendosa. O grande fazendeiro de café é um exemplo. Raramente não mudou de propriedades ou não mudou de ramos de negócio. Já com o sitiante, pequeno proprietário, isto não é comum. Tais capitalistas de campo, capitalistas caipiras, mais avançados em suas reivindicações, tiveram posição saliente no processo revolucionário brasileiro. Formaram a corrente mais forte dentro do Partido Republicano. O fazendeiro paranaense e seus vizinhos do Sul têm outro espírito. Sua vida, seu mundo, são os campos. São camponeses ecológicos, ligados à terra que amam, formando clãs com os seus camaradas. Ainda que houvesse também, entre nós, senhores de engenhos de erva-mate, meio nobres e meio escravocratas. O fato é que predominavam os fazendeiros camponeses, acompanhados à fixação e ao amor pela terra pelos imigrantes estrangeiros.

            Tudo isto explica porque a organização social aqui no Sul era mais conservadora, servindo de base à luta armada contra-revolucionária. Os nossos fazendeiros, menos progressistas, dominavam os estados e os municípios, dando lugar a uma oligarquia rural provinciana muito mais rebelde que a das outras regiões brasileiras.

            No Paraná, palma da mão centro-sul brasileira, teriam de ser vividos os grandes momentos do processo revolucionário, que haveriam de decidir os destinos políticos do Brasil.

 

 

 

CONTRA-REVOLUÇÃO

 

            Proclamada a República, formou-se um governo provisório, ainda vacilante, chefiado pelo marechal Deodoro da Fonseca, cuja política financeira levada a cabo por Rui Barbosa, conhecida como Encilhamento, provocou grande inflação e desvalorização da moeda, que serviu de pretexto a uma maior aproximação do marechal aos monarquistas. Nos círculos comerciais e financeiros levantou-se verdadeiro clamor contra as medidas. Tal decreto de emissões, previu Campos Sales, “traria dentro de dez anos a ruína financeira do país”. Apesar da boa fé de Rui Barbosa, em todo o período da expansão do papel bancário, o Governo foi apoiado e festejado pelas classes conservadoras, e principalmente pelos monarquistas. A medida fez alastrar-se o delírio na bolsa.

            Floriano Peixoto, ao assumir a Presidência, viria opor-se àquela política financeira.

            Durante o Império, Rui Barbosa recusara ministério, por ser federalista. Os cafeicultores paulistas, mais progressistas, que davam condições de vitória aos republicanos, constituíam maioria no lançamento do Partido, e seus interesses não condiziam com a centralização do sistema monárquico. Reivindicavam independência recíproca das províncias, elevados à categoria de Estados (8). E muito mais que aos cafeicultores paulistas, a autonomia das províncias convinha às oligarquias rurais, principalmente nos Estados sulinos. Federalismo seria a conservação do coronelismo, do poder dos latifundiários interessados em novas áreas de terras, como ficou patenteado na disputa do Contestado.

            A revolução, culminando com a Abolição e com a Proclamação, não reuniu forças para resolver o problema da terra, como preconizavam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Sílvio Romero. E nos Estados sulinos, os fazendeiros arrastavam à rebelião toda a massa camponesa semi-plebéia.

            Rui Barbosa foi líder máximo do federalismo. Uma vez decretada a Abolição, atirou-se à campanha. Antes da Proclamação, ao dirigir o Diário de Notícias, visava a eleição dos presidentes das Províncias, a secularização do ensino, e a eleição dos senadores sem a escolha imperial. Era sua a tese: “A Monarquia e a República são meios: a liberdade é o fim”. É seu o lema: “Reforma ou revolução”.

É curioso que Tavares Bastos considerasse inadiável para o país, o federalismo. “Aí encontraria a monarquia  e  sua  própria  salvação”. O fato é que  o  federalismo deu  conteúdo  à  contra-revolução,  a qual contava com bases poderosas, operando no próprio seio dos governos republicanos e nas forças armadas.

 

 

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(8)                 No Manifesto de Fundação do Partido Republicano.

            Aprovada a Constituição, o marechal Deodoro da Fonseca, sustentado por militares, foi eleito Presidente da República, enquanto na chapa de oposição, encabeçada por Prudente de Morais, foi eleito à Vice-Presidência o marechal Floriano Peixoto.

            Vitoriara-se a revolução, antes do dia da passeata e da Proclamação, mas o primeiro governo realmente revolucionário do Brasil, assumiu a 23 de novembro de 1891, com o marechal Floriano Peixoto na Presidência  da República.

            Eram muitas as formas de dissimulação que assumia, no plano ideológico, a contra-revolução. Servir-se-ia, ainda, de uma campanha civilista, com caráter demagógico e reacionário, apoiada pelos que sabiam ter sido o Exército o responsável direto pela República. Criada no período da Regência, para fortalecer a posição dos grandes senhores, a Guarda Nacional era o contrapeso às tropas regulares e, após 1870, o futuro príncipe consorte projetara o desarmamento progressivo destas, em favor da Guarda Nacional, prevendo ação do Exército contra o Império. Enquanto o  Exército representava povo, burguesia, a Guarda Nacional era a milícia particular a serviço dos donos da terra.

            O parlamentarismo seria a bandeira desfraldada por Gaspar Silveira Martins. Mas Quintino Bocaiúva desmascarou a contra-revolução  em “O País”, de 20 de agosto de 1892: “O parlamentarismo é a antítese da República: não podem coexistir. No Brasil ele prepararia primeiro a República unitária, e depois, por complemento, a Monarquia. O parlamentarismo: eis o inimigo!”.

            O general Arthur Oscar, comandante desde os primeiros momentos da guerra civil, jamais se enganara: “Para mim, nunca tive dúvida sobre os intuitos da revolução (contra-revolução) do Rio Grande e da revolta da Armada: eram monarquistas”. Para Floriano Peixoto “todos esses elementos de natureza heterogênea fundiram-se na mesma ação e pensamento dos chamados federalistas do Rio Grande do Sul, mensageiros da depredação e do morticínio, ao mando de um antigo ambicioso político que, com o advento da República, ficou privado dos privilégios de que astutamente gozava no regime decaído. Nesse amálgama de ódios, de despeito e de egoísmo, o que sobreleva em ignomínia a tudo, era o pensamento perverso de fazer a Pátria voltar ao jugo monárquico de que se havia libertado a 15  de novembro de 1889”.

            Culpava-se a República pelas conseqüências de quatrocentos anos de escravidão e colonialismo, ou pelos fatos novos decorrentes da revolução industrial no mundo e, ainda, pela crise econômica e financeira. Todos os males eram atribuídos àquele que representava a defesa das conquistas sociais do povo: o marechal Floriano Peixoto. Parlamentarismo, federalismo, civilismo, regionalismo, eram apenas armas ideológicas contra-revolucionárias. Ocultavam o objetivo reacionário, o sonho impossível, a restauração monárquica ou a conservação dos antigos privilégios. Os fatos confundiam os espíritos, refletindo-se no terreno das idéias as contradições da realidade brasileira, as quais originavam posições políticas várias de personalidades e grupos influentes. Vigorava um clima de ódios, intrigas, difamações, propício a conspirações que precedem golpes de força e lutas fratricidas. Ressentimentos acumulados durante séculos explodiam nas vinditas pessoais e coletivas. Um país que sangrara acorrentado nos pelourinhos e que só agora despontava para a liberdade, e ainda tinha a cumprir em seu próprio solo uma desumana lei de guerra, teria de chorar sangue para rasgá-la e bani-la da consciência.

            A Nação encontrava-se em crise, quando o marechal Deodoro da Fonseca, no dia 3 de novembro de 1891, dissolveu o Congresso Nacional, em sua maioria composta por oposicionistas que tirara da obscuridade e que formavam a chamada “legião rebelde”. O quartel da resistência ao ato, mais esclarecida, instalou-se em São Paulo, onde Campos Sales redigiu o manifesto dos congressistas. O Estado do Pará declarou separar-se da União até que o governo entrasse na órbita da legalidade, enquanto no Rio Grande do Sul, as facções apelavam às armas. Em Santos, os trabalhadores do porto entraram em greve, e a Estrada de Ferro paralisou o tráfego na madrugada do dia 22.

            Ao perder ao popularidade, o marechal Deodoro da Fonseca procurou apoiar-se em monarquistas e contou com Saldanha da Gama, Eduardo Wandenkolk e alguns oficiais do Exército. A política dominante de vários Estados, entre as quais a do Paraná, apoiou o atentado à Constituição. No Rio de Janeiro, o 2º Regimento de Artilharia e o 1º Batalhão de Infantaria guardavam as portas fechadas do Congresso Nacional. No Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, intelectual positivista, líder republicano, que viria a ser apoiado pelo marechal Floriano Peixoto, foi obrigado a abandonar o poder. Rebelaram-se as guarnições de Rio Grande, Bagé, Sant’ana e Pelotas. O golpe repercutiu em todo o país e provocou forte reação popular não só no Rio Grande do Sul, como também no Paraná e em Santa Catarina.

            A contra-revolução procurou lançar dúvidas sobre o comportamento exemplar do grande republicano sulino, e alguns historiógrafos teimam em afirmar que Júlio de Castilhos solidarizou-se ao Marechal Deodoro, pelo golpe, o que não tem fundamento.

            Apoiado pelo Congresso, Floriano Peixoto assumiu a Presidência porque, no dia 23 de novembro, o almirante Custódio de Melo e seus camaradas, a bordo do couraçado Riachuelo, obrigaram Deodoro da Fonseca a renunciar ao governo. Reabrindo o Congresso, Floriano Peixoto  passou a reprimir a jogatina desenfreada e a impor o tabelamento dos gêneros alimentícios, esbarrando imediatamente na oposição dos especuladores da Capital, que se aliaram às correntes reacionárias do Brasil. Mal assumiu a Presidência, Floriano enfrentou dia 13 de dezembro, a sublevação dos marinheiros do cruzador “1º de Março”, sob o pretexto de maus tratos infringidos pela oficialidade, tendo sido os sessenta marujos recolhidos à fortaleza de Santa Cruz. No dia 19 de Janeiro de 1892, o 2º sargento Silvino Honório de Macedo, apoderou-se da fortaleza de Santa Cruz, à frente dos presos que libertou dos calabouços e aprisionou a oficialidade. Com as fortalezas do Pico e de Laje, sob suas ordens, Silvino intimou Floriano a resignar no prazo de duas horas, sob pena de bombardear a cidade. A esquadra, então, atacou a fortaleza de Santa Cruz (9). Em diversos pontos da Capital, militares de alta patente e membros do Congresso Nacional faziam sucessivas reuniões secretas visando a deposição de Floriano e volta à ditadura.

            A campanha contra o marechal Floriano Peixoto ganhava proporções com a infundada invocação de inconstitucionalidade do mandato, com base no artigo 42 da Constituição que, na verdade, não se aplicava ao caso, uma vez que ele fora eleito através do Congresso, o qual referendara a sua posse. Governadores impopulares, que haviam sido eleitos por fraudes no processo eleitoral, considerado remanescentes da ditadura, uma vez que tinham apoiado o ato de dissolução de Congresso, não se portaram condignamente e não renunciaram aos cargos. Tal fato provocou a exaltação dos ânimos e movimentou a oposição que lhes movia o Partido Republicano, verdadeiro partido da revolução brasileira, motivando deposições nos Estados, com a participação ou o envolvimento dos militares. Em Alagoas, a queda do Presidente do Estado foi imediata. No Paraná, Vicente Machado foi eleito após a deposição de Generoso Marques e seus correligionários, sustentados pelo general Aguiar Lima. Estes pediram auxílio aos rebeldes do Rio Grande do Sul, os quais responderam que não auxiliavam os “sustentáculos da ditadura”. As guarnições militares apoiaram Júlio de Castilhos, no Rio Grande do Sul, e Vicente Machado no Paraná.

            Em 13 de março de 1892, visando a defesa da legalidade, com Júlio de Castilhos, nasceu na cidade argentina de Cacero, o Movimento Reivindicador. Eram os pica-paus sulinos concertando seu plano de ação.

            O estado de anarquia agravou-se, ao voltar do exílio Gaspar Silveira Martins, pregador do parlamentarismo. E a situação era igualmente caótica nos municípios, pois com a dissolução dos Congressos, eram depostos também os intendentes.

            Anárquica, sem definir seu verdadeiro objetivo, com pretextos ilegítimos, a contra-revolução já nascia dividida e com poucas possibilidades de vitória. É fácil compreender porque o federalismo tornou-se a principal bandeira da contra-revolução, ocultando, em primeiro plano, os interesses das oligarquias rurais. Em razão disso, o movimento armado reacionário passou à história oficial com a designação imprópria de Revolução Federalista.

 

 

 

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(9)           Sílvio Honório de Macedo foi aprisionado em Recife, Pernambuco, no dia 13 de janeiro de 1894, e fuzilado por ordem de Floriano.

Por representar as forças mais progressistas é que o marechal Floriano  Peixoto  tornou-se alvo da  campanha  infamante, da fúria reacionária. Sucedia a Benjamim Constant na chefia de um Exército há pouco provado na guerra do Paraguai, vanguarda do povo nas lutas de libertação nacional. Era composta dos guardiões das conquistas sociais do povo brasileiro, os pica-paus.

            Marechal do povo, Floriano procurou obter a pacificação e não intervir, sem necessidade, nas disputas políticas nos Estados. Ainda assim, via-se acusado de violar a Constituição e de causar a queda de governos estaduais e municipais. A 31 de março de 1892, renovaram-se as esperanças reacionárias, com o “Manifesto dos Treze Generais”, encabeçado por Eduardo Wandenkolk, firmado também pelo general Aguiar de Lima, o qual interferia nas disputas políticas paranaenses. Esse manifesto provocou uma sedição popular no Rio de Janeiro, no dia 10 de abril, quando o próprio Floriano enfrentou e dissolveu a manifestação, com ajuda de populares.

            As reuniões conspiratórias faziam parte do clima contra-revolucionário. As notícias, no país, eram as de que a Capital encontrava-se em plena rebelião e que uma esquadrilha seguira para a Europa, a fim de trazer de volta a família imperial. Diante da gravidade da situação, o marechal Floriano Peixoto decretou o desterro dos signatários do “Manifesto dos Treze”, e de inúmeros outros oposicionistas exaltados, entre os quais alguns que desempenhariam papel saliente na guerra civil.

            No Rio Grande do Sul, no dia 17 de junho de 1892, Júlio de Castilhos à frente do povo em armas foi reconduzido ao governo. No mesmo dia transferiu-o a Vitorino Monteiro, este ao 2º Vice-Presidente que, por sua vez, nomeou o general Joca Tavares, o qual instalou o governo em Bagé, armando suas tropas para enfrentar as do Movimento Reivindicador, de Castilhos e Floriano. Nos dias 21 e 24, Porto Alegre sofreu ataque da canhoneira Marajó, quando foi preso o comandante Cândido Lara.

            Demostrando intenções pacifistas, o marechal Floriano Peixoto, a 5 de agosto, decretou anistia. Mas de volta do desterro os seus opositores intensificaram a campanha contra-revolucionária, e ele sofria ataques dos jornais “A Cidade do Rio” e “O Combate”. A conspiração reacionária contava com elementos no seu próprio governo.

            O almirante Custódio de Melo, que havia encomendado armas para a Marinha, tentou mudar as guarnições legalistas das fortalezas. Ao demitir-se, lançou um manifesto com ataque “à má direção dada a operações de guerra”, a seu ver, causa do morticínio de Alegrete. Animava os governos que apoiaram o ato de dissolução do Congresso e não admitia o apoio emprestado a Júlio de Castilhos. Era Custódio de Melo quem desejava intervenção nos Estados e não o Marechal Floriano Peixoto, o qual só a determinava após judicioso exame da situação, conforme os interesses da República e os preceitos constitucionais. Houve necessidade de intervenção quando Gaspar Silveira Martins voltou do exílio, instalando-se no Sul. Então Floriano nomeou comandante do 6º Distrito Militar um general republicano histórico, com instruções de apoiar o Partido Republicano de Júlio de Castilhos.

            Em carta a Custódio de Melo, a insistência de Gaspar Silveira Martins, discordando do governo instalado no Desterro (Florianópolis), por ser de comtistas e demetristas, em dar a chefia do movimento rebelde ao almirante Saldanha que, ao aderir à revolta, fez uma proclamação monarquista, patenteia a justeza das decisões do marechal Floriano Peixoto.

            Talvez no desespero da causa perdida e sob o impacto das batalhas fratricidas, levado ao desvario político, tal como a vários chefes rebeldes, Gaspar Silveira Martins tornou-se separatista. É significativa, nesse sentido, a carta, inserta no jornal “Amigo del Pueblo”, da cidade de Concórdia.

            Angelo Dourado, cronista da coluna Gumercindo Saraiva, diz textualmente: “Eu preferia que se levantasse a bandeira da restauração da Monarquia”. E sobre o coronel Julião, comandante maragato, anotou: “Para principiar o fogo, ele tem uma prática imprescindível: – Viva S.M. o Imperador! Viva a antiguidade do Império!” Quando Gumercindo Saraiva instalou o Quartel General na cidade de Ponta Grossa, correu a notícia, pelo Brasil, de que proclamara uma Monarquia Sul-Brasileira, constituída pelos três estados sulinos e Uruguai. Na verdade, constava numa ordem do dia: “(...) A consciência me diz que eu devo proclamar a independência do Estado do Paraná e dos seus dois irmãos do Sul”.

Ainda assim, há opiniões equivocadas sobre a contra-revolução, impropriamente designada como Revolução Federalista. O comportamento do almirante Custódio de Melo, que em má hora ambicionou a Presidência da República, muito concorreu para a confusão dos historiadores que lhe atribuem toda a culpa pelos acontecimentos. Outros, ao inverso, vêem o marechal Floriano como tirano e ditador.

Os historiadores não perceberam a existência da revolução burguesa em nosso país e, portanto, não poderiam perceber a existência da contra-revolução. Assim, tratam os fatos como “fruto de banditismo partidário”, “má política do início do regime republicano”, “incompetência e ambição”, “rivalidade entre as forças armadas”, “protecionismo no Exército e na Marinha”, “ação de maus patriotas”, “intervenção indébita nos Estados”.

 

 

 

A GUERRA CIVIL

 

 

Em conseqüência da contra-revolução, o Brasil conheceu a guerra civil.

Alexandre Alvares (10) opina que as guerras civis exprimem o fruto da falta de preparação dos Estados latinos para a vida pública, e as ambições pessoais alastraram a história de muita delas. Não é o caso da secessão nos Estados Unidos e nem da guerra civil desencadeada pela contra-revolução no Brasil.

As condições para o reconhecimento da guerra civil, da sua caracterização, são evidentes: os insurretos mantiveram em seu poder determinada área do território nacional, organizaram governo, embora prevalecessem autoridades de vários chefes rebeldes, combateram com forças organizadas. Poderiam até mesmo ter vencido. O que faltou nessa guerra civil, de lado a lado, foi o tratamento humano devido aos prisioneiros e aos vencidos. Teve características próprias, com instabilidade de governos nos Estados, sublevações anárquicas em diversos pontos do país, início de levantes camponeses típicos, o caos na administração e nas relações civis, o guante de ferro do chefe militar mais forte ou do político mais atrevido, a onda de crimes – banditismo, saques, assaltos, incêndios –, atos de sabotagem e terrorismo, indisciplina e sedição nas guarnições militares, estado de sítio, a Marinha em guerra contra o Exército, batalhões de voluntários, participação caudilhesca e participação popular. Camaradas de armas encontraram-se nas batalhas, uns batendo-se contra os outros.

Angelo Dourado, o intérprete da coluna Gumercindo Saraiva, entendia o movimento como “a história do esforço popular riograndense contra o poder esmagador que tentou asfixiá-lo”.

Nas regiões do País, onde não chegava a guerra civil, o êxodo ou marchas para o trabalho dos nordestinos eram semelhantes a de lutas fratricidas, nas batalhas do cacau e da borracha. E, em toda parte, os miseráveis do campo, sem terra, sem haveres, sem direitos e garantias, buscavam saída nos grupos do cangaço ou de fanáticos.

A agitação política era maior nos Estados sulinos. Do advento da República a novembro de 1981, houve 18 presidentes em Porto Alegre.

O sentimento de indignação política foi o conteúdo das guerrilhas que nasceram nos pampas.

No Paraná e em Santa Catarina as guerrilhas assumiriam forma diferente. No meio das florestas ou nos cerrados dos capoeirões, o matuto fez guerra de emboscada e de tocaia, fragmentando as massas de combate.

 

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(10) Le Droit International American, 71.

Onde o mundo é a estância, em torno da qual giram os povoados, as vilas, as pequenas municipalidades, é inconteste a união dos camponeses riograndenses. Agachados, o facão pendendo do cinto, todos se igualam na roda do chimarrão. O dono da terra é chefe, compadre, presta favores, reina e dá a própria vida pela peonada numa causa justa. Quando as disputas locais começaram a degenerar em perseguições, conflagrou-se o Rio Grande do Sul, grupo unido a grupo, clã à clã, querência à querência.

A anarquia no levante tornou-se evidente no momento da aliança entre gasparistas e federalistas, quando Gumercindo Saraiva dizia: “El gobierno és mi espada”. Noutra ocasião, declarou: “Pouco me importa que o governo seja aqui uma coisa ou outra. Que nos dê meios para lutarmos e depois que se arranjem os políticos”. No latifúndio, a única forma de governo que parece lógica e natural, de acordo com a lei divina, é a monarquia. O coronel, dono da terra, é rei em seus domínios. E, naquele tempo, o homem do campo ainda professava a ”Religião do Império”, expressão da Constituição de 1824. Não lhe era fácil conceber o que fosse república, e muito menos federalismo, presidencialismo, parlamentarismo, etc.

Em Santa Vitória do Palmar, quando soprava o Minuano, nasceu Gumercindo Saraiva. Seus irmãos igualavam-se em valentia. À frente de setenta cavaleiros irmanados pelo sentimento de indignação, armados com facões e lanças com pontas de tesouras, tornavam as cidades da Fronteira. Um rio de sangue inundou a campanha, atingiu as araucárias, a costa e o mar.

O espírito maragato dominava o Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, exceção de algumas cidades mais progressistas menos dependentes das fazendas. A população rural apoiava os rebeldes. Camponeses pobres, matutos ou gaúchos, e até mesmo índios, procuravam Gumercindo Saraiva, incorporando-se às fileiras de Aparício, Torquato Severo ou Juca Tigre. Por outro lado, aumentava a adesão de militares às forças de Joca Tavares e do general Salgado.

Gumercindo Saraiva foi o precursor da guerra de movimento, precedendo a revolução na arte militar. Com a vanguarda cavalariana, dava combate de surpresa às forças legalistas que o perseguiam, combinando com o general Salgado a tática que consistia em “marchar desunidos para atacar unidos”. As guerrilhas começaram com os gaúchos, cuja cavalaria obtinha vitórias rápidas. Equipamentos, roupas, armamento e munições, eram arrebatados ao inimigo. Piquetes arrebanhando gado bovino ou cavalhada, entreveros, escaramuças, emboscadas, motins, lutas entre guardas postadas nos passos dos rios e escoltas avançadas, registraram-se às centenas no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Antes das batalhas travadas no Paraná e em Santa Catarina, dos ataques às fortalezas, muitas tiveram lugar no Rio Grande do Sul e, somente na de Inhandui, empenharam-se mais de 10.000 combatentes.

Em carta ao marechal Floriano Peixoto, o general Joca Tavares e o coronel Salgado anunciaram que trocavam a farda pela blusa de gaúcho.

Após o bombardeamento de Porto Alegre, e com os assassinatos no interior, era grande o movimento de famílias retirantes que se refugiavam no Paraná e no Uruguai, gerando núcleos de maragatos prontos a incursionar ao território riograndense. Era elevado o número de mortos e feridos, milhares de pessoas abarrotavam as prisões. Havia ainda o saldo sangrento das vinganças. Em Cruz Alta, enchiam a cadeia à noite e, pela madrugada, os prisioneiros eram conduzidos ao matadouro para a degola. Numa localidade próxima, quando houve tentativa de revolta, no governo do general Barreto Leite, sobreviveram apenas as mulheres. Um rapaz de dezoito anos, sozinho, matara mais de duzentas pessoas. No Rincão do Cadeado havia cento e oitenta viúvas de degolados, no Rincão da Cruz – oitenta e seis. No lugar denominado Boi Preto, foram sacrificadas setecentas pessoas. E também no Paraná foram encontradas às dezenas os cadáveres dos que haviam sido mortos pelas costas, uns atados aos outros. Algumas vilas ficaram desertas, viraram vilas fantasmas, abandonadas pela população em pânico.

Na sua maioria camponeses pobres, foram os maragatos que mais suportaram os horrores da guerra civil. Mas também eles se deixaram dominar por sentimentos de vingança. Revela-o Angelo Dourado:

“Qual a idéia que obrigou Júlio de Castilhos a vender o Rio Grande do Sul a Floriano?  Seria o amigo que te comprou?

  Então não é pela reabilitação do nosso Rio Grande, do Brasil, que lutam?

– A princípio foi, hoje porém, meu fim é outro, é a vingança.”

 

O extenso município de Palmas foi, no Paraná, desde o início da guerra civil, o que mais sofreu com excursões predatórias, invasão de casas, motins, banditismo, degolamentos. A vila foi transformada em praça de guerra. Na colônia militar improvisou-se laboratório pirotécnico, fábrica de pólvora e cartuchos. No lugar chamado Boa Vista, Dwit e sua mulher, uma professora, deram um baile em regozijo à capitulação da Lapa, num salão bem decorado, onde dançaram a “Carmanhola”. Dwit foi degolado como o foram os irmãos Ribas, Capoieira, Calçado, Tico, Maneco Pedreiro e Coca Mico.

Quando os pica-paus dominaram Porto União da Vitória, Canoinhas e outras cidades maragatas, recrutaram gente à força. Em Palmas, o coronel Caminha convidou os cidadãos para formarem uma banda de música e, ao vê-la formada, obrigou-a a marchar à frente de uma brigada para o Rio Grande do Sul.

 

 

A MARINHA CONSOLIDA A CONTRA-REVOLUÇÃO
 
 
Sem o domínio do Estado do Paraná, nenhum movimento armado teria condições de vitória no Brasil. Este seria o  motivo estratégico da derrota da contra-revolução, embora compreendido pelos chefes rebeldes mais capazes. A Armada teve como u dos seus objetivos principais a conquista do Paraná, a ponto de seus marinheiros empreenderem luta em terra, misturados a matutos e gaúchos.
Planificada com antecedência, estratagema contra-revolucionário, a Armada rebelou-se no dia 6 de setembro de 1893. O Aquidabã hasteou a bandeira branca, de guerra e não de paz, enquanto entrou em greve a Estrada de Ferro Central do Brasil e um grupo de indivíduos atacava as estações de São Cristóvão, São Diogo, Mangueira e São Francisco Xavier, procurando obrigar os empregados a abandonarem os postos. A população carioca alarmou-se e uma das balas do Aquidabã atingiu a torre da igreja da Candelária. A esquadra rebelde era constituída pelo Aquidabã, navio chefe; cruzadores República, Trajano, Orion e Guanabara; vapores Júpiter, Marajó e Madeira; torpedeiras de alto-mar Araguari, Sete de Setembro e Amazonas; couraçado Javari e piquetes Uranus, Vênus, Palas e Marte. Acompanhavam Custódio de Melo vinte e um oficiais da Marinha e alguns oficiais do Exército, entre eles Jacques Oriques e o comandante Vinhais.
De madrugada, um comando marujo desembarcou em Niterói, na Ponta da Armação, tomando o depósito de artilharia do laboratório pirotécnico da Marinha. Na Ilha das Cobras, o Batalhão Naval, aderindo ao movimento, partiu para bordo da Esquadra. As fortalezas de Laje, São João e Santa Cruz permaneceram fiéis à legalidade, mas a de Willegaignon, neutra a princípio, decidiu-se pelos rebeldes.
O almirante Custódio de Melo, que aspirava à presidência da República, passou a exercer, juntamente com Gaspar Silveira Martins, a chefia suprema do movimento contra-revolucionário, definindo como seus objetivos a pacificação do Rio Grande do Sul, o restabelecimento do respeito à constituição e o afastamento dos militares do governo do  país. Atacava  o  marechal Floriano Peixoto,  acusando-o de fazer-se eleger presidente, vetando uma lei de incompatibilidade para a eleição. Não concordava, ainda, com o apoio dado a Júlio de Castilhos, que julgava ser a causa das lutas no Rio Grande do Sul.
Mas era a revolta da Armada que agravava a situação, estendendo de vez a guerra civil.
Os argumentos contra-revolucionários seriam desmentidos pelos fatos posteriores, mas na época confundiam muita gente, a ponto de estudantes paulistas haverem se manifestado favoravelmente aos rebeldes. Mas o objetivo reacionário não passava despercebido em São Paulo onde, em 2 de fevereiro de 1894, Campos Sales, Alfredo Elis, Júlio Mesquita, que constituíam comissão para organizar batalhões de voluntários, diziam em seu manifesto: “Agora, portanto, que aspirações reacionárias se organizam audazmente em revolta, ameaçando as instituições republicanas (...)”
No Rio de Janeiro, o povo ganhou as ruas e, numa reunião realizada no Teatro Recreio Dramático, foi aprovada uma moção de solidariedade ao marechal Floriano Peixoto. E o governo decretou estado de sítio, plenamente apoiado pelo legislativo.
A sublevação da Marinha aumentou consideravelmente o poder  da  contra-revolução. Os 15 milhões de habitantes, em sua maior parte, concentrava-se na faixa litorânea, cujas cidades estavam ao alcance dos canhões da esquadra. A euforia dominou os Estados sulinos, com a certeza da vitória, e aumentaram as forças rebeldes. Mas o litoral foi artilhado e defendido por forças populares, principalmente no Rio e em Niterói, às quais se apresentaram intelectuais, estudantes e trabalhadores.
A população do Rio de Janeiro, alarmada com os combates travados pelos marinheiros em Niterói, Ilha do Governador e outros pontos, abandonou a cidade no dia 13 de setembro, sete dias após ao fogo do Aquidabã. As estações da Estrada de Ferro Central do Brasil ficaram abarrotadas. Em trens especiais, a pé, de carros ou carroças, 100 mil pessoas fugiam da Capital. Muitos buscavam refúgio nas matas próximas. Nos dia 17 e 18 houve combates entre a esquadra e as fortalezas. Durante todo o mês, os navios fizeram vítimas entre os habitantes. Um grupo de terroristas explodiu três bombas de dinamite no túnel nº 13 da Estrada de Ferro. As embaixadas inglesa e francesa distribuíram boletins, nos quais anunciavam a iminência de saque e anarquia. A cidade acabou deserta, o comércio paralisado, ruas, bondes e carros vazios. O pânico estendeu-se às cidades vizinhas.
A situação realmente tornou-se periclitante, e os países estrangeiros com navios de guerra à espreita já demonstravam simpatia à revolta, intuitos intervencionistas, prevendo a restauração monárquica. Achavam-se fundeados vasos de guerra da Inglaterra, Portugal, Itália, França e Estados Unidos. Quando o comandante de um desses navios, acompanhado pelo respectivo cônsul, indagou ao marechal Floriano como seriam recebidos os marinheiros num desembarque, este respondeu-lhe: “serão recebidos a bala...”
A fortaleza Willegaignon aderiu à revolta no dia 9 de outubro, e os praças partiam para  os navios e lanchas, operando contra as guarnições terrestres. A bandeira branca anunciava a insurreição, enquanto a vermelha comandava os maragatos em terra. No Rio de Janeiro, para gravar ainda mais a situação, houve no verão uma epidemia de febre amarela, debelada a muito custo. E, na baía da Capital, transformada em palco de guerra, foram os mais importantes fatos a explosão nos paióis de pólvora da Ilha do Governador, a submersão do couraçado Javari e os desembarques em Niterói.
         Intrépidos maragatos do mar, os marinheiros empreenderam uma centena de guerrilhas navais na região do Rio de Janeiro, assaltando ilhas ou cidades como Magé, e dominaram o litoral sul, desembarcando comandos, tomando instalações militares, atacando como infantes. Num dos assaltos a Niterói, tripulando lanchas e escaleres, de trás da Ilha do Caju, de machadinhas em punho, abatendo as sentinelas, tomaram as pontes e as oficinas da Companhia Frigorífica e da fábrica de sabão e vela. Ao mesmo tempo, atacaram a Armação, o Toque-Toque, o Pondo da Madame e Ponta da Areia, chegando em lanchas, rebocadores, frigoríficos armados em guerra e com a corveta Liberdade. Dois batalhões, o Tiradentes e o Benjamim Constant, defendiam a cidade. O tenente José Cândido da Silva Murici, combatente pica-pau, uma das glórias paranaenses, conta que um estudante paranaense  – Eufrásio Correia, foi morto a golpes de machado, defendo um dos canhões costeiros. O intelectual Sebastião Paraná, autor paranaense foi um dos comandantes do batalhão Benjamim Constant.

         Ainda na Capital Federal, os boletins da tabuleta da Associação Comercial, anunciavam a invasão de Niterói, a tomada de Magé e grandes feitos dos sublevados no Sul.

         Cada marinheiro era um gaúcho em sua embarcação, cada navio uma querência no Atlântico a unir os maragatos do mar.

         Antes, o Riachuelo não pudera atracar na cidade de Rio Grande, e Eduardo Wandelkolk fora levado preso para Santa Catarina. Agora, com a adesão de toda a Marinha, o governo tratou de adquirir navios em vários países estrangeiros, que seriam agrupados em Pernambuco, sob o comando de um general reformado. – “Armada de Papelão”– diziam os maragatos.

         Comandado pelo bravo capitão de mar-e-guerra Frederico Lorena, na manhã de 17 de setembro, o cruzador República forçou a barra, aproveitando a cerração, e passou ileso entre as baterias das fortalezas. Da missão participaram célebres oficiais: os primeiros tenentes Felinto Perry, Manoel Pacheco de Carvalho, Aloísio Ribeiro Graça, Arnaldo Sampaio, Arlindo do Vale, Teotônio Pereira, e segundos tenentes Honório de Barros e Eduardo Piragibe. Faziam parte da tripulação o capitão Aníbal Elói Cardoso, Dr. João Pedroso Albuquerque Sobrinho, Dr. Manoel Lavrador, capitão Miranda de Carvalho e o repórter João José César.

         Enquanto o Aquidabã bombardeava as fortalezas, cegando-as com a luz dos holofotes, o Palas – comandado pelo tenente Pio Torely, e o Marcílio Dias – comandado pelo tenente Francisco de Matos, deixaram a barra pintados de negro e blindados com fardos de algodão, rumo ao Sul. Outros barcos seguiram-nos. O República foi atacado em Santos, respondendo ao fogo, abasteceu-se de carvão em São Francisco e, vencendo a fraca resistência da fortaleza da Santana, aportou no Desterro, capitaneando a divisão naval maragata.

         Desterro – seu povo de marinheiros – era um paquete rebelde, uma ilha de maragatos. A esquadra foi recebida em festa. E ali terminava a epopéia do Uranus. Ao tentar furar o bloqueio das baterias costeiras do Rio de Janeiro, o barco foi seriamente avariado. Parando entre o Pão de Açúcar e a Ilha de Catanduva, com as máquinas desarranjadas, a popa derreada, era peneirado pelas balas. Um oficial içara a bandeira pedindo socorro e mais de cinqüenta homens lançaram-se ao mar. Uma lancha que fora arriada cheia de gente, retornou quase toda dizimada. Finalmente o Uranus derivou vagarosamente, refugiou-se atrás da ilha e zarpou para Santa Catarina. Muitos civis e marinheiros morreram e, agora, os feridos eram levados para o hospital, os tripulantes aclamados como heróis.

         Desterro tornou-se a capital rebelde, no dia 14 de outubro de 1893. O povo delirava em meio a salva de tiros, música de bandas militares, o Palácio engalanado. Foi proclamado e instalado o Governo Provisório, com a chefia do capitão de mar-e-guerra Frederico Guilherme de Lorena, o qual nomeou ministros Aníbal Elói Cardoso e João Carlos Moura dos Santos.

Visando a imediata conquista do Paraná, o Governo Provisório decretou a mobilização da Guarda Nacional, procedeu ao recrutamento geral, organizou forças, destacando algumas para Tubarão, Lages, Joinville, Blumenau, etc. Em Itajaí, o Palas bateu numa rocha e naufragou. Em conseqüência da instalação do novo governo, foram efetuadas muitas prisões e mudanças no quadro do funcionalismo estadual.

Embora Porto Alegre, Rio Grande e outras cidades continuassem nas mãos dos pica-paus, a bandeira vermelha tremulava nos pampas, e agora a hasteava Santa Catarina. Ia começar a marcha sobre o Paraná.

A Marinha insurreta, a instalação de um governo, a ocupação e arregimentação de Santa Catarina, davam condições para o reconhecimento do estado de beligerância, pelo qual lutavam no exterior Rui Barbosa e Gaspar Silveira Martins. Pareciam vitoriosas as razias, as sedições, as guerrilhas maragatas.

 

 

A situação militar

 

Piragibe, sobrevivente do Uranus, organizou um Exército Libertador, com a Polícia, o 25º Batalhão de Infantaria, o Btl. Fernando Machado, o Btl. Anita Garibaldi, o Esquadrão da Cavalaria São José e uma bateria de artilharia. O coronel Paulino chegara a Passos e Lages, enquanto o tenente Perry, do República, expulsara inimigos pela fronteira do Araranguá.

Joca Tavares comandava 2.500 homens, a ponto de sitiarem Bagé, depois que parte deles, com Cabeda, tomaram de assalto Quaraim. As colunas de Salgado e de Gumercindo, com cerca de 5.000 combatentes, penetravam em Santa Catarina. Mas estes maragatos já estavam exaustos, esgotados, pobres e sem recursos, cansados de batalhas sem tréguas, marchando por desfiladeiros e atoleiros, penando nas travessias dos rios, vencendo escaramuças. Os lanceiros já se sentiam sufocados pela falta de ar da campanha. Em Santa Catarina e no Paraná, o terreno apresentava-se próprio para as guerrilhas dos matutos e não dos gaúchos.

Três colunas de pica-paus perseguiam os rebeldes e pretendiam avançar sobre a retaguarda das forças de Gumercindo Saraiva, de seu irmão Aparício e de Piragibe, para colocá-los entre dois fogos, uma vez que, de São Paulo, marchariam tropas sob o comando do general Pires Ferreira. A primeira coluna, no município de São Joaquim, comandada por Pinheiro Machado e Rodrigues Lima, compunha-se de 4.000 homens; e a de Thomaz Flores, no município de Vacaria, de 1.300 homens. Nas proximidades de Torres, estava o general Artur Oscar, também à frente de 1.300 homens.

Perseguido pela coluna de Arthur Oscar, o general Salgado lançou-se em direção à Laguna, atingindo-a com graves perdas. Lá, embarcou suas forças no vapor Íris, chegando ao Desterro com mil combatentes. Então as três colunas de pica-paus, de Artur Oscar, Pinheiro Machado e Rodrigues Lima, atiraram-se ao encalço de Gumercindo Saraiva, o qual percorreu os municípios de Lages e Canoas, sustentando neste os combates dos dias 19 e 20 de novembro, embrenhando-se nos sertões, passando por Blumenau, Joinville e Itajaí, descendo a São Francisco.

No combate do Serro de Ouro, em 10 de agosto de 1893, as forças de Salgado e Gumercindo haviam feito junção, obrigando as que estavam sob o comando  do coronel Portugal a se retirarem para São Paulo. No dia 25 de setembro, a coluna Salgado teve a retaguarda cortada pela Divisão Norte, ao passar o Ibicuí, no Passo de Mariano Preto.

O nome de Gumercindo Saraiva corria de boca em boca, assombrando os sertões, adquirindo força de legenda, e em torno dele já se originava um “fanatismo” que unificava em luta os camponeses sulinos. Mas esse fanatismo para o qual concorria o apoio e a participação de João Maria,  o monge paranaense, unia os sertanejos, enquanto já graçava desentendimento entre os chefes maragatos. No campo militar, a tática consistia em “marchar desunidos e atacar unidos”, porém no campo político ideológico definia-se como marchar desunidos e atacar mais desunidos ainda.

Gaspar Silveira e Rui Barbosa procuravam obter empréstimo para compra de armas e, ao mesmo tempo, queriam o reconhecimento ao Governo Provisório e do estado de beligerância. Acreditando que havia seiscentos contos de réis na alfândega de Desterro, insistiam que lhes enviassem o dinheiro. De Montevidéu, Salto ou Buenos Aires, Gaspar Silveira Martins ditava ordens de chefia. Todavia, convidados a comparecerem à reunião, realizada no Desterro, para decidir os planos da revolta, não compareceram.

Bravos patriotas, mas não monarquistas, parlamentaristas ou separatistas, o almirante Frederico Guilherme de Lorena e seus colaboradores não contavam com a aprovação de Gaspar Silveira Martins. Este não aceitava a idéia de um Governo Provisório sem ele próprio e sem o general Salgado. Não admitia que assumissem posições de relevo os ex-alunos da Escola Superior de Guerra, positivistas, fautores da República, exprobando a participação do major Aníbal Cardoso, que alegava ser um “comtista fanático”. Opunha-se, igualmente, ao capitão João Carlos Mourão dos Santos, dizendo não admitir “nem comtismo nem militarismo”. Procurando impor a nomeação do Conselheiro Maciel para o Governo Provisório, por motivos que logo viriam  à tona, ordenou a Custódio de Melo a convocação do almirante Saldanha da Gama. Então a suprema chefia do movimento passaria a Gaspar Silveira Martins e Saldanha da Gama, esclarecendo-se os objetivos contra-revolucionários. O heróico almirante, ao rebelar a Ilha das Cobras, levando a Escola Naval, seus comandados e os presos sentenciados que mandou soltar, à luta contra a legalidade republicana, lançou um manifesto à Nação, nos quais os tópicos abaixo dizem tudo:

“A lógica assim como a justiça dos fatos autorizaria a que se procurasse a força das armas repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de novembro de 1889, quando num momento de surpresa e estupefação nacional ele foi conquistado por uma sedição militar de que o atual governo não é senão uma continuação.”

“É urgente que sua vontade impere e é pois imprescindível que a sua vontade se manifeste clara a positivamente sobre sua resolução de lançar fora esse jogo abominável de escravidão em que o militarismo de 1889 nos quer reter.”

Os intuitos restauradores foram, então confirmados pelas ordens-do-dia e cartas circulares dirigidas a oficiais e comandantes de unidades. A acusação de jacobinismo lançada contra o governo de marechal Floriano Peixoto, bem revela o seu caráter nacionalista e democrático.

Diante da evidência das verdadeiras causas do maior conflito social do Brasil muitos patriotas ainda puderam verificar o erro em que incidiam e abandonar o movimento reacionário que haveria de ser perdido não pelos bravos combatentes maragatos, mas em virtude de seus motivos e de seus objetivos políticos irrealizáveis.

 

 

 

 

A GUERRA CIVIL NO PARANÁ

 

 

A Situação no Estado

 

Notáveis homens públicos militavam na política paranaense, desta­cando-se Vicente Machado, Generoso Marques, Barão do Serro Azul, Menezes Dória, e toda uma inteligência aguerrida como o provam Sebastião Paraná, Domingos Nascimento, Leôncio Correia, Rocha Pombo, Teófilo Soares Gomes e outros.

Menezes Dória merece referência especial. Exercia a medicina na cidade de Ponta Grossa, envolvendo-se com a esposa de um dentista que, enciumado, matou-a a facadas. A casa da tragédia, ao lado da catedral, permaneceu longo tempo desabitada porque, segundo a lenda, as manchas de sangue surgiam subitamente no assoalho. Foi um escândalo naquela cidade, quando Menezes Dória no cemitério obrigou o coveiro a desenterrar a pobre mulher para despedir-se sobre o caixão aberto. Dias após, num casamento ao qual assistira, a banda musical tocou uma marcha, o povo cantando a letra sobre o crime. Por fim, a população revoltada fez-Ihe o enterro simbólico, carregando o caixão em passeata pelas ruas, expulsando-o de Ponta Grossa. Um dia ele voltaria, recebido com bailes, banquetes e discursos, ao inaugurar a Estação da Estrada de Ferro, exercendo o Governo do Estado, apoiado pelo Quartel General de Gumercindo Saraiva. Era o mais exaltado de todos os federalistas, como eram chamados os contra-revolucionários, sempre ao lado de Generoso Marques, redigindo violentos editoriais no jornal partidário.

O Barão do Serro Azul, “Mauá paranaense”, proprietário de engenhos de erva-mate e de serrarias, um dos mais influentes homens das araucárias, tinha temperamento que o predispunha à concórdia e à prudência. Ildefonso Pereira Correia, como se chamava, não seria o homem digno de que seus contemporâneos dão testemunho, fiel e leal, se não fosse ou se não se conservasse um monarquista.

A agitação política, no Paraná, vinha de longe. Nos anos que precederam a Proclamação, o Teatro São Teodoro com seus camarotes de arcadas mouriscas, platéia e galerias iluminadas a bico de gás, já era palco de desentendimentos e tumultos nas sessões cívicas. Numa delas, a festa acabou quando Menezes Dória atacou o governo “e a camarilha que o cercava”. Pouco tempo depois, por ordem do ministro do  Interior, foi conduzido preso a Paranaguá e, de lá, a bordo de vapor para o Rio de Janeiro. A 22 de setembro de 1890, voltando a Curitiba, teve apoteótica recepção. Epaminondas Vilalba revela que, de outra feita, Menezes Dória empreendeu fuga de uma prisão do Rio de Janeiro: “Este novo chefe político de tempestuosos antecedentes, em companhia do dr. Hilário de Gouveia, conseguira evadir-se, disfarçado, de uma prisão no Rio de Janeiro e embarcando-se para essa cidade passou a fazer parte das forças de Gumercindo Saraiva, servindo no corpo de saúde”.

Quando Floriano Peixoto reabriu o Congresso Nacional, Generoso Marques foi deposto no Paraná, e seus principais correligionários eram precisamente Menezes Dória e o general Aguiar de Lima. Este militar exercia pressão, perseguindo os adversários políticos, intervindo no processo eleitoral. Vicente Machado, eleito após a deposição de Generoso Marques, viria a ser o principal alvo das investidas de Menezes Dória, do general Aguiar de Lima, de Cordeiro Júnior e outros federalistas exaltados Em julho de 1892, Menezes Dória, Emydio Westfalen e Cunha Brito, tentaram tomar o governo. Ante as notícias de aproximação dos rebeldes, o golpe quase se consumou através do coronel Barbosa, simpático à causa.

Numa brigada maragata, Menezes Dória não ficava apenas no corpo de saúde, atirava-se a cavalo sobre as linhas inimigas.

O Paraná já estava com o pescoço à faca quando, no dia 16 de outubro de 1893, veio a público uma proclamação de Vicente Machado, anunciando o estado de sítio.

O plano concertado pelos chefes maragatos previa o domínio do Paraná, com um ataque conjugado por forças de terra e mar, e uma revolta em São Paulo se,  nesse Estado, apontassem as tropas rebeldes. A situação foi compreendida pelo alto comando pica-pau, e para o Paraná partiram batalhões formados por estudantes e populares do Rio e de São Paulo. Os franco-­atiradores cariocas eram os mais detestados pelos “bombachudos” que a eles se referiam como “molecada desclassificada”. No Paraná seria travada a batalha decisiva e selada a sorte de pica-paus e maragatos. O projeto rebelde seria prejudicado pela ausência do general Salgado, o qual permaneceria com suas tropas em Laguna, sem ser solicitado pelo governo do Desterro. Face aos desentendimentos, quanto mais vitórias obtinham as hostes rebeldes, mais perdidas ficavam. Uma contra-revolução não poderia realmente conservar o poder, ainda que apenas num ou noutro Estado.

Os matutos que engrossavam as fileiras revoltosas eram chamados de periquitos, mas em sua maioria só davam combate nas matas, emboscando os pica-paus.

Palmas foi território maragato, desde a chagada de Prestes Guimarães, o qual tinha em ação mais de uma centena de homens. Os grandes fazendeiros apoiavam os rebeldes, os agregados acompanhavam-nos e, naquela região, era muito valiosa a colaboração do coronel Vivida. Outro donatário, Amazonas Marcondes, colocara Porto União da Vitória em mãos federalistas, franqueando-Ihes o rio Iguaçu e os vapores de sua propriedade para o transporte de tropas, munições e mantimentos. Lá estava o tenente Pio Torely, o comandante do Palas, a executar pica-paus. Antes de ser fuzilado a bordo do Potinga, depois metido a pique, o capitão Anacleto degolou mais de quarenta pica-paus.

Em Paranaguá, no dia 11 de janeiro de 1894, elementos da Guarda Nacional, chefiados por Teófilo Soares Gomes e Narciso França, num levante fracassado, tentaram apoderar-se do porto. Nessa ocasião, foram presos 42 políticos e 68 guardas nacionais. Se prevalecessem as ordens do general Pego e de Vicente Machado, teriam sido passados pelas armas. A guarnição da cidade, com 4 canhões, debelou a sedição. Mas esta contava com o apoio até mesmo do prefeito Prisciliano Correia, comendador e primo do Barão do Serro Azul, e de José Guimarães, comissário de polícia, os quais lançariam um manifesto com vivas à Armada e ao Exército Libertador (rebelde).

Em Ponta Grossa havia manifestações barulhentas em que federalistas, com espadas embainhadas provocavam o prefeito Manoel Vicente Bitencourt. Em Morretes os grupos eram liderados por tefegrafistas da Estrada de Ferro, nas arruaças. Na cidade de Antonina prevalecia o maragato Teófilo Soares Gomes. No Tamandaré, próximo a Curitiba, houve tumulto e um pelotão policial foi recebido a bala, um soldado retalhado a facão. O major Vicente de Castro e Bodjack comandavam tropelias no município de Palmeira. Bandos de colonos polacos assaltavam e saqueavam casas de comércio em São Mateus e São João do Triunfo. Em Castro, Tibagi e Guarapuava, o Barão de Monte Carmelo, Telêmaco Borba e Lacerda Werneck preparavam sua gente.

O marechal Floriano, a fim de barrar a evolução das tropas rebeldes e acabar com a grande guerra intestina do Brasil, nomeou para comandar o 5° Distrito Militar, o general Francisco de Paula Argolo. Uma expedição com inúmeros oficiais leais ao governo, partiu para o Paraná. Em Paranaguá juntaram-se à ela os oficiais paranaenses José Cândido Muricy, Mário Alves Monteiro Tourinho e Cândido José Pamplona. Os comandantes contavam com o 3° Regimento de artilharia, o 8° Regimento de cavalaria e o 17° Batalhão de Infantaria. Na capital paranaense foi formado um batalhão de voluntários, o “23 de Novembro”, com muita dificuldade, e foi convocada a Guarda Nacional. Quando começou a luta, as deserções no batalhão de voluntários levaram um general e exclamar: “Deus me livre dos patriotas!”

O general Argolo fez da Lapa o quartel da força legal. De lá, foi acantonar em São Bento, onde fundou mais um governo em Santa Catarina. Com reforço de mais de 700 combatentes, avançou de São Bento para a serra, na qual poderia ter impedido a marcha do inimigo já esgotado, mas ao pressenti-lo, ordenou retirada. Após algumas escaramuças, abandonou no Rio Negro 130 armas, munições, fardamento e parte do arquivo do 17° Batalhão de linha. Retornou a Lapa, de onde partiam pequenas patrulhas contra os invasores.

A verdade é que o general Argolo deixara a força em estado de desânimo e derrota.

 

 

 

A Invasão

 

A estratégia rebelde consistiu na invasão do território paranaense por forças conjugadas de terra e mar. A data do ataque geral deve ter sido a de 11 de janeiro de 1894, dia em que fracassou a sedição de Paranaguá. A situação dos pica-paus tornou-se difícil quando o Exército Nacional Provisório, constituído por dois corpos, o primeiro comandado pelo general Piragibe, o segundo pelo general Laurentino Pinto Filho, e mais o Exército Revolucionário do Rio Grande do Sul, de Gumercindo Saraiva, todas as forças chefiadas por este, ingressaram nas araucárias.

Em Tijucas havia uma pequena vanguarda com menos de quinhentos pica-paus. As turmas destacadas abriam fossos à margem do caminho, roçada na mata, e para impedir o avanço inimigo entulhavam os fossos com obstáculos a possíveis investidas de cavalaria. Um pracinha carioca que foi beber água numa fonte próxima, primeira vítima dos “bombachudos”, foi degolado, enquanto seu companheiro salvou-se com a mão decepada.

No dia 11 de janeiro, Tijucas foi atacada. A guarda, com 70 soldados do 5° Batalhão veio recuando até a vila, onde tomou posição no flanco direito dos franco-atiradores, ante à carga da cavalaria inimiga. Gumercindo Saraiva tinha certeza de vitória e declarara levar a força “por delante, de tala erguida, a pelegro e a grito. . . no más”. Mas os atacantes foram rechaçados pelos canhões dos tenentes Muricy e Maza, e da fuzilaria dos soldados entrincheirados O primeiro relata que: “ora era um cavaleiro cujo cavalo, ofuscado ou ferido, se arrojava violentamente ao solo; ora era um animal que, depois de dura boleada, atirava seu cavaleiro naquele torvelinho de homens e cavalos espantados, feridos, refugando cheios de pânico ao espoucar da metralha que, a granel, inclementemente, caía sobre eles”.

A infantaria dos maragatos secundou a ação de sua cavalaria, a qual foi destroçada. Das trincheiras e detrás das carroças polacas em linha, os pica-paus infligiam graves perdas também aos fuzileiros navais, aos marinheiros e ao 25° Batalhão de Infantaria, ainda que comandados por valentes como Isidoro Dias Lopes, Jacques Ouriques, tenentes Perry, Pio Torely e Gumercindo Saraiva. Com forças três ou quatro vezes superiores em número, Gumercindo Saraiva beijava pela primeira vez o chão da derrota, justamente no solo paranaense.

Então começou a fustigação de Tijucas pela artilharia e fuzilaria inimiga. Gomes Carneiro, ao enviar reforços à guarnição, cometeu talvez o seu único erro: substituiu o comando do coronel Ismael Lago pelo do coronel Adriano Pimentel, veterano da guerra do Paraguai, da qual saíra mutilado, agora em avançada idade. Gumercindo Saraiva deixou os reforços passarem, para que rareassem ainda mais as provisões uma vez que empreendia o cerco da praça. Na noite de 15 de janeiro, manobrou e cortou a retaguarda, sitiando a posição. Das copas de pinheiros, de trás de árvores e casinholas, os marinheiros começaram a caçar os pica-paus, que já nem podiam sair das trincheiras. Mas de novo a artilharia e a fuzilaria do reduto desbarataram os grupos de atacantes. Um violento assalto à retaguarda dos defensores foi vencido por um ato de bravura de uma companhia do 17° Batalhão de Infantaria, sob o comando do capitão Teodorico Gonçalves Guimarães. Os soldados saíram das trincheiras a peito descoberto, avançaram por um terreno em declive e desalojaram da mata os marinheiros. Na operação muitos foram mortos e feridos.

Os pica-paus resistiam heroicamente, mas no dia 18 o negociante Roberto Hauer chegou com uma proposta de capitulação num telegrama do Barão do Serro Azul, a qual foi aceita pelo coronel Adriano Pimentel, contra a vontade de seus comandados.

Tibúrcio, um bandoleiro, acompanhado de mais alguns homens com fita branca no chapéu, saqueou o hospital e assassinou friamente o capitão Leprevost. Depois refugiou-se em Canoinhas, entre os fanáticos de João Maria.

A vitória que os pica-paus tiveram no dia 11 levou o general Laurentino Pinto a dizer na ordem do dia: “(...) o revés sofrido pelos bravos companheiros do 1° Corpo do Exército Libertador, no dia 11, quando tentaram assaltar as trincheiras inimigas, fez aventar a idéia de uma retirada, desastrosa em todos os sentidos e das mais funestas para a revolução”. (federalista, contra-revolução).

No Rio das Pedras, arredores de São Mateus, uma emboscada dos maragatos colheu de surpresa um destacamento legalista, do qual morreram 11 soldados, tendo sido ferido o comandante Fredolin.

No litoral os federalistas brancos, Teófilo Soares Gomes à frente, não ficariam decepcionados. No dia 13 de janeiro o vapor Esperança foi repelido em Paranaguá, para onde haviam seguido 180 praças do 3° Regimento e 108 da Guarda Nacional de São Paulo. Mas no dia seguinte desembarcou uma força que pôs em fuga a guarnição que se refugiou na Ilha do Mel, onde foi aprisionada. No dia 15 a esquadra entrou na barra e ali estava o legendário Uranus, sob o comando do paranaense tenente Costa Mendes. Ao lado do Uranus, República e o Iris, vigiados ao longo pelo Aquidabã. Era o desembarque das forças maragatas organizadas no Desterro e em São Francisco.

À machadinha, os marinheiros liquidaram a guarnição de uma bateria na Rua 15 de Novembro, enquanto o povo da cidade fugia. “– Mata pica-pau! mata!” gritavam os marinheiros ao tomarem Paranaguá.

Depurada de desertores e de federalistas brancos, a defesa concentrou-se no edifício da cadeia pública, onde 76 pica-paus resistiram heroicamente.

A 16 de janeiro, Antonina recebia em festa o vapor Iris, onde um piquete de 16 marujos, com um carrasco degolador, foi para a terra e executou várias pessoas.

Em Paranaguá, o general instalou-se no Rocio, mas retirou-se para Morretes e daí para Curitiba. No seu relatório, o almirante Custódio de Melo diria:

“A luta tornou-se renhida então de parte a parte e assim se manteve enquanto durou a nossa passagem, lenta e propositalmente demorada, diante das seis bocas de fogo que defendiam o litoral. Em meio do combate, o general de Divisão Antonio Maria Pego Júnior, que se achava ocasional ou propositadamente em Paranaguá, esquecido dos deveres inerentes ao alto cargo de Comandante em Chefe do Distrito Militar, desapareceu inesperadamente, seguindo para Curitiba com todo o seu Estado Maior e a quase totalidade de oficiais daquela cidade.”

Em Curitiba, o Comando do Distrito Militar decidiria evacuar a cidade e partir para São Paulo, deixando aos rebeldes uma composição férrea carregada de armas e munições.

 

 

 

O Cerco da Lapa

 

 “O ínclito general Gomes Carneiro, escreveu, talvez, a mais admirável página da história militar de um povo”.  Floria­no Peixoto.

 

As forças legalistas achavam-se acantonadas nas cercanias da vila, passagem para os planaltos araucarianos. Fechavam as portas da Pátria e do Paraná à contra-revolução, e patrulhas fustigavam os rebeldes que já vinham pela estrada do Rio Negro.

A vila não era uma vila de pica-paus, tinha muitos simpatizantes da causa contra-revolucionária, mas o prestígio de Joaquim Lacerda, compadre, padrinho, bom patrão, era tão grande que os caboclos da Guarda Nacional davam a vida pelo coronel, resistindo à fascinação exercida por Gumercindo Saraiva, cujos cavaleiros traziam no chapéu vassourinhas do monge João Maria. Os meninos da vila, quando se referiam à luta que se avizinhava, não escondiam as suas preferências e diziam: “os nossos já vem vindo”.

A missão de barrar a avançada federalista na palma paranaense foi confiada a Gomes Carneiro, mineiro do qual ninguém cobra derrama, primeiro voluntário da Guerra do Paraguai, provado na defesa do Rio de Janeiro. Chegara a Lapa para hastear a bandeira de um sonho secular e defendê-la. Contaria com uma plêiade de heróis. Mas os regimentos e batalhões estavam desfalcados, fracionados, e seus efetivos – cerca de 700 homens – mal atingiam o de uma só unidade. Havia muitos voluntários, principalmente paranaenses, porém sem treinamento militar, sem experiência de fogo.

Em guerra de movimento, aproximava-se o mais formidável exército de que se tem conhecimento na História, de valentia e fúria inigualáveis. Dando combates sucessivos, avançava por campos e matas, serras e desfiladeiros, empolgando a população sertaneja. Agora vinha com bom armamento tomado ao inimigo, carroças e muares carregados. Na vanguarda, gaúchos brandindo facões tarjados de sangue fresco, seguidos de ferozes marinheiros com suas machadinhas. Não havia uma retaguarda propriamente dita, pois era um exército com garras em todas as frentes, que se atirava inteiro sobre o inimigo. A artilharia movia-se ao lado da infantaria e, às vezes, antecedia a cavalaria. Formado de contingentes móveis, as regras de sua guerra variavam de acordo com as circunstâncias. Compunha-se de soldados de linha, fuzileiros navais, marinheiros, guardas nacionais catarinenses, estrangeiros de Corrientes e Entrerios, nômades e servos do campo – caboclos e bugres –  ­gente de briga recrutada na massa semi-plebéia. Um gênio guerreador o comandava: Gumercindo Saraiva.

Afinal, aquele exército era movido por um sentimento de revolta e de indignação, isto constituindo uma vantagem como se estivesse conscienti­zados de uma causa justa. As ilusões pelas quais se batia tinham a mesma força que o sonho secular defendido pelos pica-paus.

O general Argolo, com a retirada injustificável, e depois o general Pego, abandonando o Distrito Militar, deixaram o contingente legalista desacorçoado. Após a capitulação de Tijucas, engrossadas ainda mais as forças que pretendiam envolver a Lapa, não era de esperar-se uma batalha, porém um massacre. Carneiro, para não perder a brigada cabocla de Joaquim Lacerda, manteve-se na vila, em posição desfavorável. Tinha de transformá-la numa fortaleza, embora sem muralhas ou paliçadas. Se eletrizasse a tropa com medidas severas de disciplina e civismo, contaria com o peito aberto dos bravos. Urgia o tempo, e Carneiro mandou por a pique os vapores do Iguaçu, fuzilar o quanto antes o tenente Torely e anunciar o rigor das leis de guerra aos derrotistas, desertores e federalistas brancos. Um trem foi preparado para a retirada de velhos, mulheres e crianças, mas as mulheres exigiam que as acompanhassem os maridos, irmãos, noivos e filhos, então Carneiro deixou que permanecessem na vila. Numa escaramuça, ele e dois cavaleiros correram um magote de vinte maragatos. A sua tática consistiria em, aproveitando a topografia do terreno, os acidentes, as casas públicas, impedir assalto de cavalaria quanto o de marinheiros em luta corpo a corpo. Dispôs a artilharia em pontos estratégicos, mandou cavar trincheiras e, no fim das ruas, foram erguidas barricadas com pedras, madeira e sacos de terra, além de caldeirões e alambiques de ferro de uma inacabada fábrica de conservas. Carros de munição e provisões foram colocados próximos às sapas. Cercas de arame farpado evitariam o bote dos lanceiros, o assalto de infantes e marinheiros, fuga e traição dos federalistas brancos. (11) Carneiro acabou impondo as condições da batalha decisiva, a mais importante da guerra civil brasileira. Enfrentava um exército quatro ou cinco vezes superior em número e não podia afastar-se da vila para não ver dissolvida a força e porque tinha ordem de aguardar reforços que jamais chegariam.

Mas a guarnição florianista, agora com moral, sabia que Gumercindo Saraiva dissera:   “Me tenia volvido a los pampas si no fuera El tirano que és preciso tocar el poder...”

Equivocavam-se os que faziam blague com o nome de Carneiro. Rugia ordens um leão indomável na pele do Carneiro. Obedeciam-no os relutantes e, se era ríspido, visava disciplina, socorro aos feridos, tratamento aos prisioneiros, assistência aos comandados. Tinha de lutar contra intrigas, boatos e trama dos que procuravam minar-lhe a autoridade. Lá fora estava o maragato paranaense Davi de Araújo e, cá dentro da vila, muitos partidários de Menezes Dória.

Desde os primeiros dias de janeiro, os feridos vinham sendo tratados no hospital improvisado pelos médicos João Cândido, Felipe Wolf, Paula Xavier e alguns enfermeiros, enquanto o doutor Albernás permanecia em casa “tocando flauta” e o dr. Manoel Pedro foi para a cadeia.

Os acampamentos dos arredores foram levantados e, na manhã do dia 14, o tenente Mario Tourinho levou um trem de prisioneiros para Curitiba. No dia 15, as forças do coronel Piragibe vieram bombardear as posições, encontrando cerrada resistência de pica-paus emboscados na mata próxima. No terceiro dia, as guardas postadas em locais altos e estratégicos tiveram de recuar para dentro da vila, submetida ao canhoneio, à esta altura dentro de uma semi-elípse de fogos. Na madrugada de 17 de janeiro, um trem saiu com destino a Curitiba e, perto da mata do Capivari, foi alvo das balas da brigada de Menezes Dória. Tomando a estação de Serrinha, este respondeu aos chamados telegráficos para a Lapa, com a cumplicidade dos funcionários. Telegrafou como se fosse o próprio coronel Carneiro, declarando-se perdido e anunciando que milhares de rebeldes estavam marchando sobre a Capital.

Houve pânico em Curitiba e o general Pego fugiu, abandonando trens carregados de material bélico.

Nesse mesmo dia, uma poderosa cavalaria contornou a Lapa, estabelecendo um cerco, numa manobra de ataque em todas as frentes. Na retaguarda ao norte, dava-se a principal arremetida, mas de dentro do cemitério,  com dois canhões,  a guarda  de Joaquim  Lacerda fez recuar o

 

 

 

 

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(11)         Simpatizantes contra-revolucionários

 

inimigo. Na frente sul, um esquadrão de 150 cavalarianos foi repelido e, no flanco  esquerdo leste,  praças do Regimento  de Segurança mantiveram aposição. Aproveitando-se do avanço dos maragatos, Carneiro mandou Aristides Vilas Boas, com guardas nacionais, cortar-Ihes a retirada, para envolvê-los entre dois fogos. E os assaltantes acabaram batidos, desalojados das matas, sofrendo uma centena de baixas, enquanto os sitiados tiveram 19 feridos e 5 mortos. Curitiba fora tomada por telegrama de Menezes Dória, já estava ocupada, mas os rebeldes estavam perdendo a guerra na Lapa.

Nos quatro dias seguintes diminuiu o ímpeto do exército invasor. A luta prosseguiu com escaramuças, impedindo o arrebanhamento de gado, enquanto de longe a artilharia espedaçava algumas casas. O exército invasor já não prosseguia sua marcha vitoriosa. Os ponteiros começaram a girar para trás no relógio maragato. Parara e recuara o tempo da contra-revolução. Inexoravelmente, regredira no solo paranaense a campanha rebelde.

Sabedor de que era espionado e que moradores federalistas encontravam-se às escondidas com os sitiantes, Carneiro viu-se obrigado a mandar atirar sobre desertores e fugitivos, incluindo as mulheres. Os chefes maragatos sabiam que ele aguardava a chegada de reforços, estavam bem informados sobre as posições e corrigiam com segurança a mira dos tiros. Pagaram mais caro a sua traição João Prestes e seu compadre João Lourenço, que punham David de Araújo a par dos planos da defesa. Ao serem apanhados, saindo da vila por uma patrulha das fileiras de Juca Tigre, foram degolados junto a um riacho.

Na madrugada de 22 de janeiro, Gumercindo Saraiva aproximava-se perigosamente do povoado. Preparava o ataque e seus comandados ocuparam sorrateiramente as matas e as casas do morro do Monge, postando-se no vale e nas capoeiras que ladeiam o engenho de erva-mate e o cemitério.

De manhã, três cavaleiros desceram a encosta do morro, portando uma bandeirola branca. Mas Carneiro não admitia que comerciantes pactuassem com os rebeldes, suprindo-os de dinheiro, armas e munições, e viessem pedir rendição, procurando minar o moral da tropa. Obrigou-os a galoparem de retorno, sob fuzilaria. E dos bosques e das casas cedidas aos invasores, canhões, fuzis e metralhadoras despejaram fogo sobre a vila...

Após expulsar mais um emissário, o tenente Chiquet, e indignar-se com um ultimato que Ihes mandaram os comerciantes, Carneiro viu os atacantes se atirarem às linhas e tomarem a estação da Estrada de Ferro, o cemitério e o engenho. Os pica-paus ficaram fechados num círculo incandescente de ferro e chumbo. Sua resistência era cada vez mais difícil, enquanto em Curitiba já se fazia festa com proclamações e discurseiras palacianas.

Carneiro era um leão e rugia ordens para a retomada de posições. Numa investida fulminante, apoiada de artilharia e fuzilaria, caladas as baionetas, os pica-paus, desalojaram os assaltantes das matas e das casas ocupadas. No cemitério o canhoneio rebentava e abria sepulturas para os maragatos que ali abandonavam seus mortos. E o capitão Clementino Paraná, com apenas 22 homens, retomava a estação, a golpes de coronha, só escapando ileso o seu corneteiro, pois ele próprio caiu ferido.

Abrira-se um claro nas fileiras dos pica-paus mas em meio aos cavalos mortos jaziam mais de cem maragatos, que ainda deixaram uma dezena de prisioneiros.

À luz de velas ou lamparinas, nas enfermarias os feridos eram tratados com iodofórmio ou sangria de sanguessugas e, às vezes, submetidos a amputações de membros. Na igreja e em casas mais seguras refugiavam-se as mulheres e as crianças. Muita gente na cadeia, mas ainda havia quem espalhasse boatos e fizesse intrigas, conluiado com os sitiantes. Lá fora, à espreita, Juca Tigre, a fera sobre o nome, e Cesário, o Degolador.

O bombardeio continuou incessante, derruindo a cidadela. O troar da artilharia começava com o toque de alvorada, depois a fuzilaria, e só ao entardecer cessavam os fogos.

Na manhã do dia 27, Gumercindo Saraiva enviou um emissário e Carneiro trancou-o no xadrês. Então os canhões federalistas começaram a atirar para outro lado, simulando uma luta com os reforços que estavam sendo aguardados na praça. A manobra visava desprevenir e desmoralizar os defensores. Carneiro percebeu, ordenou prontidão e fogo cerrado.

Num ataque demolidor, os sitiantes tomaram simultaneamente o cemitério, onde instalaram artilharia, o Alto da Cruz, além da Rua das Tropas, comprimindo os pica-paus em suas trincheiras. Apesar das baixas entre os sitiantes, processava-se um lento aniquilamento da resistência. Na praça, os canhões armados com lanternetas, impediam a arma branca dos marinheiros, gaúchos e soldados de linha. Explodiam granadas nas ruas e dentro das casas, defensores eram carregados às pressas com o peito rasgado pelos estilhaços.

Nos primeiros dias de fevereiro recrudesceu a batalha. Canhões dos navios de guerra ancorados no litoral vieram reforçar o arsenal dos sitiantes e, foram assentados entre as tumbas do cemitério. Após a chuva de ferro e chumbo, ataques de infantaria foram a muito custo rechaçados. A força legal, muito reduzida, batia-se num círculo estreito de sapas. Esgotados e em permanente vigília, numa tensão angustiante, os florianista recostavam a cabeça sobre os braços, durante a noite. Numa delas, o astuto Aparício, irmão de Gumercindo Saraiva, teve a idéia de atar ao rabo de um jumento e de uma égua latas vazias de gasolina, atropelá-los nas ruas escuras. O barulho infernal, confundido com o de uma guerrilha noturna, fez com que os defensores desper­diçassem cerca de vinte mil cartuchos.

No dia 4, Gumercindo Saraiva repetiu a manobra de simulação de chegada de reforços em socorro ao baluarte. Aguardou que se erguessem das trincheiras para começar um massacre, porém o ardil falhou. Então os assaltos tornaram-se ainda mais violentos.

Um bombardeio intermitente em dois dias seguidos, preparou um ataque geral às trincheiras. Conluiados com moradores, os sitiantes aproveitaram a noite, ocultando-se em casas e quintais de onde podiam atingir de surpresa os sitiados. Os combatentes fuzilavam-se cara a cara, quando não se matavam à arma branca. Dois batalhões de fuzileiros navais investiram contra a posição do Regimento de Segurança, mas foram contidos quando, de espada em punho, caiu o seu próprio comandante Cotrin. Os atacantes sofriam revezes, principalmente ao norte, onde Carneiro dirigia a fuzilaria. Mas, repentinamente, numa das frentes, abriram-se as janelas da casa de Francisco de Paula, de onde dezenas de maragatos começaram a dizimar a trincheira da rua. Carneiro, acompanhado de ajudantes de campo, correu a socorrer seus comandantes, ordenando um recuo até o prédio da farmácia. O tenente Henrique dos Santos tombou mortalmente ferido e Carneiro, que tentou ampará-lo, foi também atravessado por uma bala. Caiu, ainda, com o ventre varado, Lebon Regis. O coronel Joaquim Lacerda e o capitão Sisson dispararam o canhão sobre a casa da emboscada, enquanto o major Menandro Barreto fez explodir lá dentro uma carga de dinamite. Ao arrombar a porta e entrar atirando numa outra casa, José Amintas da Costa Barros foi fuzilado. Na igreja, a vítima foi o Coronel Dulcídio, atingido por um projétil.

À tarde, em meio a centenas de mortos e feridos, retiraram-se os assaltantes. À porta da casa de Francisco de Paula jaziam empilhados os corpos de vários federalistas, e lá dentro estavam os cadáveres de toda a sua família.

Sob o assoalho da igreja eram enterrados os mortos, mas prosseguiam os duelos de artilharia, com os maragatos desejando vencer pela fome e pela fadiga. Embora acuado e ferido, encurralado na cidade gruta, Carneiro tornava vitoriosa a República e a Revolução Brasileira. Mas na manhã de dez de fevereiro, coberto com a bandeira do 17° Regimento de Infantaria, transladado à sacristia por um grupo de oficiais, o corpo de Carneiro foi inhumado.

Os oficiais chegaram a firmar um pacto de morte, comprometendo-se a lutar até o último homem, porém já haviam cumprido o seu papel glorioso. Não ganharam a guerra, mas conquistaram a paz para o País. O sacrifício dos pica-paus conscientizou a Pátria, encheu de brio as forças da legalidade, salvou a República.

 

 

 

 

O Epílogo

 

Os federalistas alardeavam, no Brasil e no mundo, vitórias e conquistas, feitos da Armada, domínio de Santa Catarina e, finalmente, do Paraná. Neste Estado sucediam-se reuniões solenes, com bandas de música, e nos teatros e salões engalanados era comemorada a vitória dos rebeldes. Novas forças eram mobilizadas e, em toda parte, brotavam os batalhões de voluntários. Tudo era festa e as cidades do interior competiam com Curitiba.

Mas, na Lapa, eram fuzilados, à socapa, os pica-paus que não procuravam refúgio. Piquetes de bandoleiros em que se transformaram alguns combatentes, saqueavam fazendas, violentavam mulheres, decepando as cabeças dos homens amarrados. Já no trem dos capitulados, um sargento foi arrancado do vagão e decapitado à margem da linha. Imitavam Cesário Degolador o major Amora, Felício Rato e Vila Nova, que andavam à cata de pica-paus para cortar-Ihes os pescoços. O cabo Fuão Pinheiro comprava pica-paus a cinqüenta mil réis por cabeça. Em Palmeira penduraram cabeças nos postes das ruas. Em Carambeí aplicavam o “suplício da estaca”. Em toda a parte, bandidos sem causa aproveitavam a ocasião para praticarem toda sorte de crimes.

O major Menandro Barreto, que na Lapa dinamitara a casa de tocaia federalista, foi cortado em pedaços, depois de cavar a própria cova, junto ao depósito de pólvora de Curitiba. No pátio do quartel do 8° Regimento de Infantaria foram enterrados os corpos de degolados ou fuzilados, executados ora por vindita, ora por atos de desobediência ou indisciplina. Ao ser descoberta uma tentativa de sedição nas forças, várias execuções foram ordenadas. Muitos florianistas foram levados ao paredão do cemitério.

As comemorações prosseguiam com proclamações, discursos, missas e funerais pomposos, banquetes, bailes e passeatas. A população curitibana colaborava com os rebeldes, damas serviam de enfermeiras nos hospitais. O funcionalismo público passou a apoiá-los, a exemplo do Superior Tribunal de Justiça.

Assim que o general Pego determinara o abandono da Capital pela tropa do Distrito Militar, o Estado passou a ser dirigido por uma Junta Governativa, presidida pelo Barão do Serro Azul, o qual pediu a participação de Generoso Marques. Já no dia 20 de fevereiro, o delírio tomara conta das ruas de Curitiba. Menezes Dória entrou na cidade à frente de 150 cavalarianos e, de um trem especial, desembarcaram o almirante Custódio de Melo, Teófilo Soares Gomes – que conspirava no litoral, oficiais da Marinha e do Exército. Então Menezes Dória foi aclamado governador.

O Teatro São Teodoro era pequeno para as reuniões. Então a Junta Governativa transformou-se em Comissão para Lançamento do Empréstimo de Guerra, tratando de arrecadar fundos para os rebeldes. Além do Barão do Cerro Azul, compunham-na vários comerciantes com acesso ao cadastro da Associação Comercial. Outras comissões foram organizadas no interior do Estado, subordinadas àquela, presididas por barões, comendadores e coronéis políticos. O Barão do Serro Azul emitia ordens de pagamento pelo telégrafo. Em Palmas quem as recebia era o comerciante Antonio Joaquim da Cruz. Em Castro, o Barão de Monte Carmelo angariou trinta contos de réis e enviou tropa de mil rezes. No norte, Telêmaco Borba invadiu a Fazenda Curralinho e arrebanhou 600 mulas.

Ainda que o Barão do Serro Azul e outros comerciantes procurassem evitar saques e desordens, comprometiam-se irremediavelmente com o movimento rebelde.

As redações dos jornais recebiam centenas de cartas de cidadãos que aderiam a Menezes Dória, declarando terem sido iludidos pelo governo dc Vicente Machado. Dezessete oficiais, antes pica-paus, diziam num documento:

“(...) a marcha do batalhão para o sul da República tinha por fim o impedimento da invasão de um exército anarquisador que queria a restauração da Monarquia” e “(...) considerando que ao enfrentar-se com o inimigo foi surpreendido ao ver distintos e reconhecidos correligionários à frente de suas forças militarmente constituídas a se baterem pela República civil, pondo de margem a intervenção de militarismo nos negócios do País.”

Até mesmo um militar como Vilas Boas, que se portara heroicamente na defesa da Lapa, deixar-se-ia enganar pelos acontecimentos, julgando justo e vitorioso o movimento rebelde.

Menezes Dória dispunha dos fundos da comissão, de acordo com as diretrizes do Governo Provisório, instalado no Desterro, favorecia o Exército Nacional Provisório, aproximando-se do general Laurentino Pinto Filho, com preterição às forças de Gumercindo Saraiva. O primeiro comandava tropas bem armadas e uniformizadas, enquanto as de Gumercindo estavam em precárias condições.

O Rio Grande do Sul, verdadeira paixão dos maragatos, não fora dominado. Lá permaneceram Joca Tavares com suas forças e para lá retornara também o general Salgado, agastado com os chefes do Desterro. Já grassava o desentendimento entre os insurretos, envolvendo Gaspar Silveira Martins, Custódio de Melo, Frederico Lorena, Luiz Salgado, Gumercindo Saraiva, Saldanha da Gama e Anibal Eloy Cardoso. E os últimos acontecimentos políticos no país, com a eleição de Prudente de Morais, que não era o candidato de preferência de Floriano, desmentiam os argumentos contra-revolucionários (rebeldes). Para a dissolução latente, observada por Angelo Dourado, contribuíam o manifesto monarquista do almirante Saldanha da Gama, a sua capitulação, e a ocorrência de saques e execuções sanguinárias. Fato novo na história da pátria, o feito dos pica-paus na Lapa exaltava o ânimo legalista, conscientizava o povo, unificava os patriotas, esvaziando a reação maragata.

Sem o apoio aguardado, na Guanabara, o almirante Saldanha da Gama refugiou-se em navios portugueses, com 493 rebeldes, no dia 13 de março daquele ano de 1894. E Piragibe recuou de Castro, pois a resistência da Lapa acabou com os planos de invasão do Estado de São Paulo. O retorno dos rebeldes ao Rio Grande do Sul seria a grande contramarcha, até a total dissolução do movimento. Gumercindo Saraiva, em telegrama a Custódio de Melo, pedia que atacassem o porto do Rio Grande, dizendo: “(...) Salvemos, pois o resto da valente esquadra, engrandecendo a revolução, e alcançaremos pelo menos a independência do nosso caro Rio Grande”.

O Exército Nacional Provisório, sob o comando do general Laurentino Pinto Filho, embarcou em Paranaguá. Menezes Dória, com o produto do empréstimo de guerra, a pretexto de comprar armas no estrangeiro, abandonou o Estado. Ao empreender a contramarcha dividindo suas forças que caminharam milhares de quilômetros sacudindo os sertões, despertando e levantando camponeses, esgueirando-se em fuga e repontando para atacar, Gumercindo Saraiva deu as costas para Curitiba.

A norma da luta entre pica-paus e maragatos era o saque, o incêndio, a violação, a degola, o massacre e o carcheio dos cadáveres. A vingança campeava onde cessaram os combates.

No Desterro, o general Moreira César comandava bárbaras execuções, fazendo uma centena de vítimas, a começar com as do almirante Lorena, do Barão de Batovi e seu filho Gama d'Eça. Em Curitiba, o general Everton de Quadros arvorara-se em “O Vingador”. Considerava missão de seus comandados a de se tornarem “vingadores da lei e da moral ultrajadas”.(12) Contando com os oficiais Joaquim Augusto Freire e Ataliba Lepage, imbuídos do mesmo propósito, deu início às perseguições, às demissões de funcionários, às buscas e capturas, abarrotando as prisões e transformando em presídio o Teatro São Teodoro. Os fuzilamentos começaram com os do major Amora, Manoel Neto da Costa Magalhães,

Cândido Lopes Ribeiro, Vila Nova e Felício Rato, este não antes de ter os braços quebrados. No Rio Negro foi executado Matias Becker, enquanto Francisco Buch e Artur Vicente tiveram morte nas barrancas do Rio Negrinho. Em Paranaguá foram executados junto ao muro do cemitério os majores Colônia e Pedro Nolasco, o primeiro porque traíra os florianistas, e este porque comandara, no governo de Menezes Dória, o Regimento de Segurança. Também foi executado Francisco Bragal, o qual dirigia a ação dos lapeanos que apoiavam os maragatos.

 

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(12)         Na ordem do Dia nº 19.

O massacre do Pico do Diabo, ocorreu na noite de 20 de maio de 1894. Uma escolta fez embarcar no trem o Barão do Serro Azul, Preciliano Correa, José Lourenço Schleder, José Joaquim Ferreira de Moura, Rodrigo de Matos Guedes e Balbino de Mendonça.  Quando o comboio parou à beira do despenhadeiro, do vagão mal iluminado à lamparina os presos foram arrastados à força pelo pelotão. Matos Guedes atirou-se pela janela do trem, mas recebendo a descarga da fuzilaria, rolou pelo precipício. Balbino de Mendonça, agarrando-se ao vagão, teve os braços quebrados  a coronhadas, e foi  abatido  a  tiros  de  revólver.  O  Barão do

Serro Azul ajoelhou-se, mas em meio a rogos, gritos, gemidos e choros, os prisioneiros foram trucidados.

Os atos de banditismo, que mereceram a condenação pública, foram também reprovados por comandantes maragatos e combatentes pica-paus. Clementino Paraná, herói ferido na resistência da Lapa, ao saber do

massacre do Pico do Diabo, dirigiu-se ao edifício da Câmara de Paranaguá e pôs em liberdade todos os presos que lá se encontravam.

Entretempo, Gumercindo Saraiva dividira suas forças em três colunas. Ele, pelo centro, transpôs o Iguaçu, em Porto União da Vitória; Juca Tigre tomou a direção de Guarapuava; Aparício Saraiva e Torquato Severo, com toda a artilharia, foram pela Lapa rumo ao Rio Negro. O plano consistia numa junção de tropas em Palmas.

Mas a expedição ao Rio Grande do Sul fracassou. A perseguição movida pelas forças de Pinheiro Machado e Arthur Oscar aos destroços maragatos transformou-se numa caçada impiedosa. Combatendo em diversos lugares, Gumercindo Saraiva parecia comandar uma legião fantasma. Aqui e acolá, grupos de matutos davam-lhe cobertura, para depois se dispersarem nas matas. Mas ao alcançar a região riograndense, o grande chefe foi mortalmente ferido no Carovi, no dia 10 de agosto de 1894. Assim, a guerra foi perdida na Lapa, mas acabou no Carovi. As guerrilhas continuaram, mas perderam a força de um movimento nacional, ou mesmo regional, embora estivesse ativa a “velha guarda” com Joca Tavares, Saldanha da Gama, Rafael Cabeda, Guerreiro, Juca Tigre, David Araújo, Vasco Martins, e tantos outros. Em fevereiro do ano seguinte, Piragibe ainda mostrava sua bravura, transpondo o Quaraim. E, nas cercanias de Bagé, galopava intrépido o esquadrão de Aparício Saraiva.

Vigiando as fronteiras, o temível coronel João Francisco, à frente de uma força de 600 homens, era o carrasco a degolar os grupos de remanescentes rebeldes em fuga para o Prata. Chegara a telegrafar ao governo, vangloriando-se de que na região só restavam vivos, e em pé, ele e seus contingentes. Venceu a última batalha, na qual Saldanha da Gama tentou invadir o Rio Grande do Sul, em 24 de junho de 1895, à frente de marinheiros. Mortos ou feridos, os vencidos foram todos degolados, e o heróico almirante, estocado depois de cair, ainda teve o corpo mutilado, arrastado no acampamento.

O “Protocolo da Pacificação”, de 10 de julho de 1895, assinado pelos generais Galvão Queiroz e Joca Tavares, selou o fim da contra-revolu­ção, já derrotada, numa das mais terríveis guerras-civis da História. Nascera uma nova Nação, fundidos os sentimentos de brasilidade de pica-paus e maragatos, mas ainda dominaria o interior a oligarquia rural.

 

 

 

 


A GRANDE GUERRA CAMPONESA

 

 

Pródomos

 

O Paraná e Santa Catarina constituem uma só região geográfica, e a divisão política atendeu a interesses de partilha de seus bens entre as oligarquias.

A demarcação de limites com o Paraguai, normalizou-se após a guerra com esse país, e com a Argentina foi assinado um tratado em 1894. O território paranaense situado entre os rios Iguaçu e Uruguai teve uma metade cedida à Santa Catarina em 1916. Mas foi disputado palmo a palmo por companhias estrangeiras e coronéis políticos, em prejuízo dos camponeses. Bem ao centro, erguiam-se ranchos de tropeiros e o lugar tinha o nome de seus povoadores: Curitibanos. Por lá transitavam, há pouco tempo, milhares de mulas, cavalos e vacas, na Estrada de Tropas. De Curitibanos a Rio Negro existia uma extensa faixa de floresta.

Nos municípios de Canoinhas e de Palmas ficou a maior parte dos perseguidos políticos, dos maragatos paranaenses dispersados durante a retirada de Gumercindo Saraiva.  As vilas, misto de aldeia e cidade, tais como Porto União da Vitória, onde o donatário Amazonas Marcondes dividira parte de sua enorme fazenda “Passo do Iguaçu” para vender lotes a colonos, exportavam erva-mate, gado, lã, crinas, queijos e carnes. Em contrapartida, importavam sal, arroz, café, farinha, tecidos, ferragens, louças, além de pólvora e chumbo.

O Paraná dominado pelos pica-paus provocava ressentimentos e desejos de desforra naquela zona infestada de fugitivos e desertores, ocupada por fazendeiros e posseiros agastados com a política de terras do governo paranaense.

As feridas da guerra civil não cicatrizavam. Demétrio Ramos e Aleixo Gonçalves de Lima, velhos chefes maragatos, agora servindo a interesses de coronéis catarinenses, chegaram a organizar movimento armado de oposição ao Estado do Paraná, o qual procurava jurisdicionar o território.

Assinalando a fase crítica de nossa história, Euclides da Cunha sente as conseqüências da guerra civil em “Os Sertões”:

“A pique ainda das lamentáveis conseqüências da sanguino­lenta guerra civil que rematara ininterrupta série de sedições e revoltas, emergentes desde os primeiros dias do novo regime, a sociedade brasileira, em 1897, tinha alto grau de receptividade para intrusão de todos os movimentos revolucionários e dispersivos.

(...) O governo civil, iniciado em 1894, não tinha a base essencial de uma opinião pública organizada. Encontrara o país dividido em vitoriosos e vencidos.”

O coronel Moreira César, o algoz de Santa Catarina, foi vencido e morto na Campanha de Canudos, em 3 de março de 1897, e no Rio de Janeiro todo o povo acreditava na reorganização das forças reacionárias, restauradoras ou monárquicas.  Diz Euclides da Cunha:

“Já era tarde e a excitação do povo aumentava na proporção de uma massa sempre crescente; assim nesta indignarão lembram-se dos jornais monarquistas, e todos por um, em um ímpeto de desabafo, foram às redações e tipografias dos jornais “Gazeta da Tarde”, “Liberdade” e “Apóstolo”,  e apesar de ter a polícia corrido para evitar qualquer assalto a esses jornais, não chegou a tempo de evitá-lo, pois a multidão aos gritos de viva a República e à memória de Floriano Peixoto invadiu aqueles estabelecimentos e destruiu-os por completo, queimando tudo.”

No início do século XX, o Paraná colhia frutos da expansão cafeeira, surgindo no norte as vilas de cafeicultores paulistas – Jacarezinho (1900), Cambará (1904). Bandeirantes e Cornélio Procópio viriam em 1921 e 1924. Antes havia a Colônia Mineira (Siqueira Campos), Venceslau Brás e São José da Boa Vista. Só no ano de 1930, após a venda de área ao Príncipe de Gales, realizar-se-ia o grande surto com a Companhia Paraná Plantations.

Mas as negociatas de terras começaram logo que terminou a luta entre pica-paus e maragatos.

Com a descentralização política instituída pelo regime federativo, os Estados mais ricos e populosos foram os mais beneficiados. Podiam contrair empréstimos no exterior, decretar impostos sobre exportação, possuir corporações militares, constituição e código eleitoral próprio. Com a forma federativa, o foco do Poder estava nos Estados e a organização deles era o problema fundamental do regime. Através da “política dos governadores”, Campos Sales apoiou-se nos presidentes dos Estados, e as representações estaduais no Congresso ficavam a cargo dos grupos que dominavam os governos estaduais, e a União não intervia nas políticas regionais. Livres de interferência do poder federal, os grupos dominantes tinham assegurada a sua perpetuação no poder, anulando as pretensões eleitorais das oposições. Em troca, apoiavam incondicionalmente o Governo Federal. Assim, a “política dos governadores” consolidava o coronelismo, organização social e política da Primeira República. Os proprietários rurais dominavam o processo político, elegendo vereadores, prefeitos, deputados, senadores, presidentes de Estados. O próprio Campos Sales representou no país o domínio político da oligarquia rural cafeeira, estabelecendo a aliança São Paulo-Minas, conhecida como a política do “Café com leite”, que caracterizou o que os historiadores designaram “República do Café”. Nesse período, os interesses urbanos ficaram submetidos aos rurais e predominaram os interesses dos cafeicultores, a ponto do Estado comprar o produto para manter o preço no mercado. Sob o governo de Campos Sales houve o surto de aplicação de capitais estrangeiros, tornando-se deles dependentes a nossa economia. A pretexto de reerguimento financeiro nacional, operou-se a transferência de várias estradas de ferro para empresas particulares e favorecimento às manufaturas do exterior, o que provocou a ruína de empresas nacionais. A questão de pagamento da dívida externa veio, então, agravar-se no governo de Hermes da Fonseca.

Em 1908, fim do período presidencial de Campos Sales, a Brasil Railway, empresa norte-americana, apoderou-se de enorme área do Brasil, equivalente a de vários países euroupeus, após conquistar extensas redes de estrada de ferro, portos, monopólios de força elétrica, iluminação e viação urbana. Controlava, aqui no Sul, a Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande que, em 1912, cortava o território do Contestado, de norte a sul, de Porto União da Vitória a Marcelino Ramos, do rio Iguaçu ao rio Uruguai. Com polícia particular de duas centenas de homens, expulsava posseiros das terras que Ihe foram concedidas e dominava levantes de trabalhadores, os quais foram abandonados após a conclusão das obras. No Paraná, com a aquiescência dos governantes, a Railway tomaria posse de seis bilhões de metros quadrados. Era seu advogado o próprio Vice-Presidente do Estado, o dr. Afonso Camargo, no governo de Carlos Cavalcanti. O dr. José Niepce da Silva, então Secretário de Obras Públicas denunciando o surto de uma formi­dável advocacia administrativa, contra a qual insurgiu-se, demitia-se do cargo.

A Brasil Railway, para explorar terras laterais à Estrada (a concessão era de 15 quilômetros de cada lado da linha), e outras que adquiriu, como os 180 mil hectares ao sul dos rios Negro e Iguaçu, próximos de Canoinhas, a 15 mil-réis o hectare, criou uma subsidiária: a Lumber Colonization. Aproveitan­do os préstimos do dr. Afonso Camargo, seu intermediário, ainda contratou com fazendeiros da região o corte de madeiras, montando serrarias em Três Barras, a duas léguas de Canoinhas e em Calmon. Com o monopólio do transporte, liquidando pequenos e médios engenhos nacionais, tornou-se a Lumber a maior companhia madeireira da América do Sul e das maiores do mundo.

Além da Lumber, outras companhias estrangeiras penetraram na região, especulando com terras: a Hansa, a Piccoli e a Hacker. Uma vez burlada a legislação sobre terras devolutas, os coronéis políticos procuravam legalizá-las para si, para os protegidos e apadrinhados.

A massa componesa semi-plebéia aumentava consideravelmente no território. O regime de servidão nas fazendas gerava contingente de agregados, de intrusos, de gente desocupada ou à cata de serviços. A Lumber podia lamber a floresta com um número muito reduzido de empregados. Com a ruína das serrarias nacionais, agravou-se o problema do desemprego. Além disso, o trabalhador da indústria extrativa de madeira é pouco menos que um escravo, não vê dinheiro, é obrigado a trabalhar longas jornadas, sem descanso, sem domingos e feriados, trocando vales nos armazéns das próprias empresas. Com a conclusão das obras da Estrada de Ferro, milhares de trabalhadores com suas famílias permaneceram ora nos cochicholos dos acampamentos, ora nos ranchinhos marcando posses. Uma numerosa massa semi-plebéia sofria a exploração semi-feudal, a opressão das companhias e dos coronéis, e aguardava a salvação. 

 

 

 

 

A IDADE MÉDIA NA EUROPA E NO BRASIL REPÚBLICA

 

 

A História mostra que as insurreições camponesas, nas condições medievais e de transição para os tempos modernos são lideradas por rebeldes de Bíblia nas mãos. Talvez o motivo fosse o de que na Bíblia revelava-se o cristianismo primitivo e simples em oposição ao cristianismo feudal da época.

Pior que a “morte negra”, peste vinda da Ásia, já era o jugo servil nos anos de 1348 e 1349, na Europa. Na década seguinte, a Jacqueria abalaria a França, e Guilherme Caillet seria torturado com uma coroa de ferro candente – o “rei camponês” – antes de ser decapitado, com os outros enforcados e queimados nas árvores. Os “Jacques” sucumbiram aos milhares durante as cinco semanas do levante.

No século XIV apareceram as primeiras traduções da Bíblia e, na Inglaterra, repetia-se com insistência o refrão popular de uma poesia:

“Enquanto Adão arava e Eva tecia,

quem  era então o nobre? “

John Bahl achava que a vida social pode ser comparada a um campo. “O agricultor inteligente arranca as ervas daninhas para que as boas sementes possam germinar. Ora, os senhores, os advogados, os juizes são precisamente as ervas daninhas que sugam a seiva de todas as forças sociais.”

Em 1381, Wat Tyler, Jack Straw, John Ball, John Litlwood e Richard Welingford, à frente dos camponeses sublevados, marcharam sobre Londres, e muitos foram queimados vivos, uma vez sufocada a revolta. Na Catalunha, teve lugar em 1484, a liderada por Pedro Juan Sala, também executado.

Ao traduzir os livros religiosos do latim, João Huss reclamava a revogação da servidão, dos tributos feudais, confisco de terras e a livre eleição do clero. A 6 de julho de 1415, foi queimado o herói tcheco. E durante o movimento dos taboristas, a atmosfera já estava impregnada de idéias redentoras e visões apocalípticas.

Teólogos, oficialmente considerados hereges, influenciavam as massas camponesas, conduzindo-as à luta armada. Era pregada, com insistência, a volta à pureza de Adão e Eva, antes do pecado original. Em fins de 1419 irrompeu um movimento quiliástico que conquistou o povo, estabelecendo a crença na ressurreição de Cristo, instauração do reino milenar de felicidades, e da ressussitação dos mártires. Difundia essas idéias o padre Martinek Huska, o “Eloquente”.

Nos levantes dos plebeus do campo, eram pregadores os elementos mais pobres do clero.

Em 1476,  fez-se profeta no vale do Tauber um jovem pastor e músico, Hans Bohein de Niklashausen, o “Timboleiro”. Exortava o povo à penitência e à renúncia, preparando-o para a revolta. E os anabatistas, liderados por Nicolau Storch, também anunciavam o juízo final, o novo milênio, tinham visões, êxtases e o dom da profecia.

            Enfim, em todas as insurreições camponesas nas condições feudais, prevalecem o misticismo, o ascetismo e a pregação de volta ao cristianismo puro.

Em 1524 começou, na Alemanha, a Grande Guerra Camponesa, e seu inspirador, Tomas Munzer, sacerdote, unira-se aos anabatistas. As exigências camponesas estavam nos “Doze Capítulos”. Essa grande guerra terminou com o massacre de cem mil camponeses, as aldeias arrasadas, e nem as mulheres e crianças foram poupadas. Tomas Munzer foi decapitado, depois de torturado. Nela, Lutero incitava a “golpear, estrangular e apunhalar os camponeses como a cães danados”.

A luta camponesa é gerada pelo regime servil, mas é, em primeiro lugar, uma luta pela terra. Essa reivindicação material é a principal de todas, embora algumas vezes não seja tão clara. Elas ainda se caracterizam por outras exigências como as de direito à caça, à pesca, a pasto e pomares, a plantio para sustento próprio, por remuneração ao trabalho, supressão de pagamento por meio de vales, extinção do sistema de parceria, além da reivindicação de preços e transporte para os produtos. Nas condições medievais da Europa e das ocorridas no Brasil, elas não contam com um plano prévio, desenvolvem­-se espontaneamente, sem apoio urbano, sem objetivos políticos definidos, contando apenas com a simpatia de pobres e vagabundos. Fracassam por carecerem de organização, apoio e consciência de objetivos.

A Grande Guerra Camponesa do Brasil, travada no território que ficou conhecido como Contestado, teve, ainda, como uma de suas principais características materiais a reivindicação nacionalista, aqui inseparável da luta pela terra e da libertação do jugo servil.

Para o conhecimento de nossa própria realidade nacional, é preciso esclarecer que, no fim de uma Idade Média, a época é de crise, guerras e rebeliões, prenúncios de uma nova era. A transição para os tempos modernos se faz por uma longa série de lutas sociais, nacionais, em que têm lugar as camponesas.

Ao florescer na Inglaterra, fábrica do mundo, a indústria manufatureira, houve como aqui no Brasil a usurpação de direitos sobre as terras com expulsão de camponeses. Lá era a  política dos “cercados”. Pelos caminhos da Inglaterra vagavam, então, multidões de mendigos e desocupados. Daí resultou a insurreição geral, quando três mil rebeldes foram degolados, e um número maior preso e executado, enquanto Robert Kate era enforcado na praça de Narwick.

No Brasil da Primeira República, não eram teólogos os que reuniam e conduziam os camponeses para a revolta. Onde fermentava a indignação contra a miséria e as injustiças, destacava-se da multidão de vagabundos um tipo de profeta caboclo, conselheiro, curandeiro e andarilho. No princípio, o cajado era mais poderoso que o canhão, e a fantasia armava o espírito do povo, enchendo-o de esperanças. Estavam presentes ao longo das sesmarias, o misticismo, o ascetismo e a pregação quiliástica

Eram três os principais caminheiros sublimes nos sertões do Brasil: Antonio Conselheiro, João Maria e José Maria. Com eles ou apenas com a sua pregação afinavam-se elementos que compunham a fração plebéia do clero.

Antonio Conselheiro era o monge do Nordeste, que vagava pelos sertões, assistindo às ruínas das fazendas e às tropelias de cangaceiros, fanatizando jagunços que, em Canudos, seriam os insurretos da guerra camponesa descrita em “Os Sertões”.

Ao mesmo tempo em que ocorria a guerra civil, gerada pela contra-revolução, tinham início no Brasil as guerras camponesas.

Em 1893, o Conselheiro estava em Bom Conselho quando mandou queimar as tábuas de editais para cobrança de impostos. Uma tropa policial, com trinta praças bem armadas, alcançou-o em Massete, onde foi desbaratada pelos jagunços. Logo, em torno de Canudos, “talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades”.

Mal terminou a guerra civil, já eram batidas expedições de tropas governistas  a Canudos.

Os monges paranaenses, João Maria e José Maria, participaram ativamente na guerra civil. A presença de João Maria é assinalada à frente de combatentes maragatos, e José Maria, ainda soldado, foi também um maragato.

 

 

 

 

OS MONGES PARANAENSES

 

 

Monge é o asceta plebeu e rebelde, visto no campo como um salvador, um enviado do céu. Não é padre nem frade, porém um líder místico que se destaca da massa de vagabundos e desocupados dos latifúndios.

Os monges paranaenses transpuseram para os sertões a antiga evocação da liturgia católica: “Fame, bello e peste, libera nos Domine”.

João Maria, que não era pastor nem músico, mas um simples plebeu a errar pelos caminhos, invocando a Bíblia, traduzia sem ter tido conhecimento dela, a pregação do Timboleiro, no linguajar caboclo. Exortava à renúncia e à resignação e, ainda, difundia as mesmas idéias quiliásticas e anabatistas, preparando a grande guerra do Contestado.

Era ele o monge do Sul.

Face a existência da massa amorfa dos trabalhadores do campo, semi-plebéia, espoliada pelas companhias, oligarquias rurais e coronéis locais, e da devoção a João Maria, o ambiente no Paraná e, principalmente no território do Contestado, era o de misticismo, indignação e revolta.

Então entrou em cena José Maria, o novo monge paranaense. O seu nome verdadeiro não importa. Desertara de força legalista durante a guerra civil para combater na coluna de Juca Tigre, dispersada na retirada para o Rio Grande. Há quem afirme que se internara no sertão, por ser leprosa a família. Era, agora, o novo monge capaz de conduzir os camponeses à luta armada. Pregava preceitos de moral cristã, anunciava flagelos e fim do mundo, mas não tinha a Bíblia nas mãos, porém um outro livro muito lido no campo: “A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França”. Curandeiro, além de andarilho, dava conselhos, narrava as aventuras de livro mal compreendido, as quais provocavam o entusiasmo dos matutos.

José Maria sagrara fontes e nelas banhara donzelas nuas. Acusado de crime, o general comandante da Colônia Militar de Chapecó mandou-o escoltado à cadeia de Palmas. Miguel Fragoso, antigo coronel da Guarda Nacional, ex-combatente maragato, reuniu gente para soltá-lo à força, o que não foi necessário graças a intervenção do prefeito.

Recebido como salvador, José Maria instalou-se numa cabana no município de Campos Novos, para depois fixar-se em Curitibanos, em cujo município fundou Taquaruçu, o arraial santo e rebelde para onde afluíam os camponeses. A exemplo de Carlos Magno, organizou uma guarda com os caboclos mais valentes: “Os Doze Pares de França”. Porque entendia par como dupla, os doze eram vinte e quatro.

Ao prometer derrubar a República e instaurar a Monarquia, atraía ao movimento fanático antigos maragatos, menos esclarescidos. Mas entre estes,  já se agitavam em Canoinhas os chefes Aleixo Gonçalves de Lima, Juca Tavares e Bonifácio Papudo, interessados na questão de limites, defendendo jurisdição de Santa Catarina. E o mais influente fazendeiro da região do Contestado, conhecido por Rocha Alves, ali mesmo em Taquaruçu, um dia foi proclamado Imperador.

De Florianópolis partiu um contingente policial para dispersar o ajuntamento de Taquaruçu. Mas José Maria, evitando o confronto, partiu com parte de seus vinte e quatro cavaleiros para os campos do Irani, no município de Palmas. Nos faxinais habitavam posseiros e caboclos miseráveis que acorreram ao acampamento.

Em Curitiba, o movimento foi interpretado como invasão catarinen­se na zona em litígio, e o governo enviou para combatê-lo o Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel João Gualberto. A tropa policial desfilou festivamente em Porto União da Vitória, exibindo a metralhadora de carreta e as cordas em que seria amarrado o monge.

A confiança na superioridade das armas, no aparato e no treinamento militar, levou João Gualberto a dirigir-se, com um destacamento de 64 homens, ao arraial do Irani. Enquanto o grosso regimento prosseguiu na marcha para Palmas, ele planejou um ataque de surpresa.

O  bravo comandante não sabia que a mata tinha olhos e ouvidos. E a mulinha, fiel amiga de arrieiros, vinha arrastando a viatura da metralha, pronta para trair a força. Virou a metralhadora no banhado, quando o soldado acendeu uma vela para alumiar o caminho.

A força policial caiu numa emboscada. João Gualberto assentou a metralhadora numa elevação e mandou estender uma linha de atiradores, encurralado entre um brejo, a mata e um despenhadeiro. Após alguns tiros que deram o sinal para os piquetes, a guarda dos “Doze Pares de França” atirou-se sobre a força, seguida por José Maria à frente de sua “forma de quadrado”, dezenas de homens a pé, armados de facão de aço e de madeira, lanças de taquara e algumas espingardas. A cavalaria policial fugiu, enquanto os milicianos eram batidos pelos assaltantes. A metralhadora engasgara, e o coronel João Gualberto recorreu ao revólver e ao fuzil, tombando morto juntamente com José Maria, cujas orelhas um sargento quis decepar, impedido porque foi retalhado a facão.

O Regimento de Segurança teve 13 soldados mortos e 16 feridos, mas apenas 11 fanáticos foram enterrados no solo considerado sagrado.

Na cova do Irani, na terra ou no céu, ressuscitado nos pousos, nas visões, lembrado ou sonhado, José Maria conflagrara o Contestado.

 

 

 

 

 


O IMPÉRIO SUL-BRASILEIRO

 

 

“A hecatombe do Taquaraçu será um canto lúgubre, uma nota dissonante, um sudário, uma mortalha estendida em farrapos sobre as páginas da história brasileira.” (Diário da Tarde, 1 de feve­reiro de 1914)

“O ataque a Taquaruçu foi positivamente o facho que ateou a guerra do Contestado.”

General Demerval Peixoto

O combate de 22 de outubro de 1912, em que um grupo de fanáticos, liderado por um monge, derrotou o Regimento de Segurança do Paraná, repercutiu no Brasil e no estrangeiro como “Catástrofe do Irani”.

A comoção tomou conta do Paraná e, em Curitiba, gente de farda jurava vingança nas cerimônias fúnebres e na partida das expedições punitivas. Uma delas tinha o efetivo de 1.000 homens, contando com artilharia de montanha.

As cidades paranaenses e de todo o Contestado estavam alarmadas. Em Palmas havia pânico e a população aquartelou-se nas casas particulares, armada e municiada pelas autoridades. Porto União da Vitória vibrava com a passagem das tropas.  No campo, um tempo de crime e sangue. Recrudescia a violência. Posseiros ou adeptos do monge eram queimados, depois de amarrados e pendurados às árvores.

Mas as virgens, meninas assim chamadas por serem videntes e enxergarem José Maria ora numa nuvem, ora na copa de uma árvore, transmitiam as ordens de José Maria a seus povos. Outros viam-no em sonhos.

A virgem Dorinha, neta do camponês Zebinho, transmitiu ordens de concentração em Taquaruçu, e em Taquaruçu, Capital do Império Sul-Brasi­leiro,  nasceu o regime caboclo. Em Caraguatá, um novo arraial, gêmeo de Taquaruçu, a outra virgem – Maria Rosa, filha do camponês Eliasinho dos Santos, transmitiu as ordens de Proclamação da Monarquia e de coroação de Rocha Alves como Imperador.

O principal documento camponês é compreensivelmente desprezado pelos autores, mas há quem o leve em conta quando afirma que os fanáticos chegaram a pensar num governo monárquico, que abrangesse Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Uruguai. É uma “Carta Aberta à Nação”, de D. Manoel Alves de Assunção Rocha, o Rocha Alves, na qual se diz aclamado “Imperador Constitucional da Monarquia Sul-Brasileira, com sede no reduto de Taquaruçu do Bom Sucesso”, manifestando o desejo de anexar ao Império, constituído pelas três províncias do Sul do Brasil, o Estado Oriental do Uruguai, e finalmente doar áreas de terras aos camponeses. O documento não é bem redigido, e é considerado ingênuo. Mas a sua real importância foi atestada pelo grande número de vítimas nos hospitais e de mortos juncando o solo do Contestado. A reivindicação material – terra, consolidava a união em torno dos chefes fanáticos.

Rocha Alves, proclamado Imperador, constituiu um ministério caboclo, dividindo atribuições de mando entre camponeses de prestígio, seguindo exemplo do próprio monge José Maria. O movimento ganhou força e moral, a ponto de Juca Tavares, Aleixo Gonçalves de Lima e Bonifácio Papudo, que chefiavam caboclos em Canoinhas, os dois primeiros interessados na questão de limites, e este a mando do Juiz de Direito, aderirem à causa do Império Sul-Brasileiro.

A região foi ocupada militarmente e, em Curitibanos, atenderam-se às solicitações de Francisco Albuquerque, também Presidente do Congresso Estadual, com um regimento policial e uma tropa de vaqueanos, capangas civis. Em Porto União da Vitória acantonou uma companhia do 6.° Regimento. No dia 29 de dezembro, essas forças empreenderam um ataque conjugado a Taquaruçu. Emboscados pelas guardas camponesas, os vaqueanos foram batidos e postos em fuga, enquanto o 6° Regimento foi desbaratado.

Em Curitibanos, o negociante Praxedes que acompanhara o monge José Maria, foi assassinado com mais quatro companheiros, ao procurar receber uma encomenda de tecidos e armarinhos. Indignados com a traição do coronel Francisco Albuquerque, o qual dera garantias de vida a Praxedes, alguns sertanejos tentaram assaltar a cidade. Esta regurgitou de soldados que ocuparam edifícios públicos e casas particulares.

Taquaruçu foi novamente atacada em 8 de fevereiro de 1914. Desta vez, canhões e metralhadoras assentadas numa colina, dizimaram as mulheres e crianças do arraial em chamas. O comandante Alonso, que era no reduto chamado de “Menino Deus” ou “Menino Virgem”, mandara apenas cavar trincheiras dentro de Taquaruçu e não destacara piquetes nas matas, contando com auxílio divino. Esperando nas trincheiras para lutar à arma branca, e com meia dúzia de velhas espingardas, os pelados – como se tornaram conhecidos – tiveram de retirar-se, aproveitando a escuridão da noite tempestuosa.

Nessa ação participaram cerca de 700 homens do Exército e da Polícia, e o massacre chegou a provocar reação desfavorável nas cidades, quando alguns militares mais esclarecidos demonstraram simpatia pelos camponeses, denunciando a espoliação a que viviam sujeitos. Um capitão e um tenente foram recolhidos à Curitiba, enquanto Matos Costa, comandante do 6° Regimento, dava entrevistas afirmando que os sublevados eram “espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança”.

Os retirantes deixaram Taquaruçu coberta de cadáveres dos familiares e carregando os feridos, dirigiram-se a Caraguatá. Daqui partiam as razias, prendendo e matando peludos, arrebanhando gado.

O deputado paranaense Correia de Freitas esteve em Caraguatá e, com propostas do governo, ofereceu cem mil contos para que os pelados se dispersassem. Mas estes responderam que suas condições eram as de que fossem presos e enforcados diversos coronéis fazendeiros, entre os quais Francisco Albuquerque, De Paula, Fabrício Vieira (comandante de vaqueanos­), Amazonas Marcondes e, inclusive, Afonso Camargo, Vice-Presidente do Estado do Paraná e advogado da Lumber. Além disso, pediram de volta a vida das mulheres e crianças mortas em Taquaruçu. Exigiram, ainda, um milhão de contos de réis e a restauração da Monarquia.

Diante do impasse com o regime caboclo, as tropas federais receberam ordens do governo para destruírem Caraguatá. Três colunas fortemente armadas, portanto fuzis, metralhadoras e canhões, deslocaram-se em direção ao reduto.

Desta vez, Alonso não descuidou da defesa, comandou a guerra de tocaias. Na estrada geral, onde havia um lodaçal, truncou a saída com troncos de árvores, e à frente de algumas dezenas de atiradores destroçou um batalhão que caiu na armadilha. O grosso da tropa, cerca de seiscentos homens, cavalaria à frente, foi colhida de surpresa pelos “Pares de França” que, agigantados na luta, pareciam centenas aos olhos dos soldados, obrigando-os à retirada. Outra coluna foi emboscada pela guarda comandada por Venuto Baiano, que a atraiu para dentro da mata para destroçá-la a facão. Entretempo, uma centena de pelados atacava Perdizes, a base de operações do inimigo, assaltando o hospital de emergência, levando o pânico à retaguarda.

Depois de Taquaruçu e Caraguatá, dezenas de redutos do Império Sul-Brasileiro brotaram no território em pé-de-guerra. Uma igrejinha, o “quadro santo” para procissões e rezas, além de uma centena de palhoças. Dos redutos partiam piquetes taladores, enquanto as guardas postavam-se em lugares estratégicos.

Mas a peste vaticinada pelos monges chegou, o tifo fazia mais vítimas do que a guerra em Caraguatá, obrigando um dramático deslocamento para Pedras Brancas, novo reduto, a sete léguas distante. De lá vinham ordens para que se obstruíssem os caminhos e para que os combatentes se ocultassem nos bosques, pois se previa novo ataque.

O general Mesquita, veterano de Canudos, chefiava nova expedição, com reforços do 7° Regimento de Infantaria e de uma centena de vaqueanos. Taquaruçu e Caraguatá foram encontradas desertas, as tropas atraídas a picadas entulhadas de arbustos. Eram entrave o armamento, a farda, a mochila, a viatura e o equipamento. Os vaqueanos conduziram os soldados ao reduto de Santo Antonio onde, trepados nos pinheiros ou de dentro de troncos de árvores, os defensores atiravam sobre a soldadesca, enquanto o canhoneio destroçava as palhoças desocupadas. Por fim, os “peludos” bivacaram dentro do reduto, regozijando-se com a vitória, não alcançada. Decorridos dois dias formaram para regressar e começaram a ser caçados de todos os lados, tomando consciência de que estavam encurralados no arraial destruído. Uma tempestade – que os “pelados” acreditavam ser a “cavalaria do céu”, ­dificultava-lhes a retirada, expondo-os às balas que vinham dos bosques.

Para proteger os serviços da Estrada de Ferro, permaneceu na região o capitão Matos Costa, comandando 200 homens do 6º Regimento de Infantaria, sediado em Porto União da Vitória.

Os fanáticos passaram a uma ofensiva geral, promovendo razias em toda parte. Em julho de 1914 atacaram Canoinhas e ocuparam as vilas de Papanduva e Itaiópolis. Numa sortida a Calmon, onde estava instalada uma das serrarias da Lumber, atearam fogo a tudo e fuzilaram os que consideravam inimigos.  Várias estações da Estrada de Ferro foram atacadas e incendiadas.  Visavam justamente a companhia que lhes tomava as terras. Excediam-se na vingança, matando e degolando funcionários ou simples comerciantes

No dia 6 de setembro, sob o comando de Matos Costa, 60 soldados e 2 sargentos embarcaram em trem especial para São João, onde houvera um ataque. Há alguns quilômetros da Estação, o trem parou, e Matos Costa desembarcou com 40 praças e os dois sargentos, continuando a marcha a pé, enquanto a máquina deu marcha-ré assim que os sertanejos começaram a atirar de dentro de um vassoural. Esgotada a munição, Matos Costa mandou calar baionetas, tombando no entrevero. Dois dias depois, os corpos dos militares foram levados a Porto União da Vitória, a Nação estarrecida com a tragédia.

O fuzilamento do coronel Artur de Paula numa sortida à fazenda Santa Leocádia, veio aumentar o pânico dos proprietários.

A 26 de setembro, os pelados entraram a galope em Curitibanos e queimaram a casa do coronel Francisco Albuquerque, o edifício da Câmara e mais vinte outras, saqueando armazéns, destruindo os cartórios e as coletorias.

Castelhano, remanescente das colunas de Gumercindo Saraiva, chefiando razias, ameaçava a cidade de Lages, cuja população vivia sobressaltada. Mas acabou morrendo em Campo Belo, numa escaramuça, e suas orelhas foram levadas  como  troféus.

Queixando-se de que os governos davam terras aos estrangeiros, os pelados tomaram por inimigos os imigrantes europeus e atacaram várias de suas colônias.

Mas os flagelos profetizados pelos monges chegaram. Primeiro fora a guerra, depois a peste, agora a fome.

Uma enorme expedição militar, com novos regimentos embarcados em trens e vapores, apertou um gigantesco cerco na zona conflagrada.  Havia forças guarnecendo fazendas, cidades e fronteiras, e o general Setembrino de Carvalho, com quartel general em Curitiba, comandava cerca de 7.000 homens em formação de ataque. Consequentemente, com o controle do comércio e das vias de comunicação, chegara a fome aos redutos.

A ser cumprida a promessa do general Setembrino de Carvalho, constante de apelo que mandou publicar e distribuir por toda a região a Grande Guerra Camponesa era, afinal, vitoriosa. Dizia o documento:

“Fazendo um apelo aos habitantes da zona conflagrada, que se acham em companhia dos fanáticos, eu os convido a que se retirem mesmo armados, para os pontos onde houver forças, a cujos comandantes devem apresentar-se”.

“Aí lhes serão garantidos meios de subsistência, até que o governo lhes dê terras, das quais passarão títulos de propriedade.”  

A    proposta   legalista   significava   o   atendimento   à   reivindicação material dos camponeses que, aos milhares, apresentavam-se às autoridades nas cidades.

Faziam falta à guerra do Império Sul-Brasileiro os seus principais líderes. Rocha Alves, o Imperador, sucumbira ao tifo, e a coroa – de lata e papelão – achava-se vaga, guardada numa capela. É verdade que Zebinho e Elias de Morais ainda se encontravam nos redutos. Mas, à medida em que se prolongava a luta, a fração mais plebéia do campo comandava as ações, assumindo as posições de mando. Era uma prova disso a ascensão de semi-bandoleiros, como Castelhano, que atemorizava Lages. Adeodato, que assassinava os rivais nos redutos, acabou assumindo a chefia suprema. Assim, o movimento foi perdendo o apoio popular no campo e das camadas pobres das cidades. Os insurretos, cada vez mais, passavam por simples fanáticos, ignorantes e supersticiosos. Os próprios militares chocavam-se com o abandono em que viviam as populações sertanejas, atribuindo a guerra ao atraso, à falta de educação e de escolas, sem atinar com o latifúndio improdutivo.

Ainda assim, era formidável a resistência cabocla.

Após inúmeros combates, a ameaça a Canoinhas pelos piquetes de Aleixo, Bonifácio Papudo e Juca Tavares, foi debelada. Os redutos das proximidades, cheios de mortos, foram abandonados.

Adeodato mudou de Pedras Brancas para Santa Maria a “Sede do Governo”, um novo reduto protegido por serras, floresta, atoleiros, abismos e saltos. Segundo o general Setembrino de Carvalho, não passava “de um amontoado de povoações que se estendem por longa curva de três léguas, cobrindo um claro nos vales das Serras de Santa Maria e Caçador”.

Três colunas do Exército, da Polícia e de vaqueanos, avançavam bombardeando e arrasando os arraiais, enfrentando as emboscadas. A tropa do capitão Potiguara bivacara outra vez no reduto de Santo Antônio. Por pouco não caíra numa cilada preparada por uma vintena de pelados que se ofereceram de vaqueanos. Descobertos há tempo, foram uns fuzilados pelas costas, outros imediatamente degolados.

Nos passos dos rios, nas gargantas das serras, nas quebradas dos caminhos, as guardas atocaiavam as colunas O carreiro principal, por onde ziguezagueava a coluna Sul, comandada pelo general Estilac, morria num desfiladeiro à boca do vale. Ali postaram-se os pelados, comandados por Adeodato,  aproveitando as rochas do terreno. A coluna, que já vinha sendo fustigada pelas patrulhas quando caía nos atoleiros, acabou encurralada no desfiladeiro. A metralhadora atirava inutilmente para todos os lados, a carga de baionetas não encontrava ninguém pela frente. No dia 8 de fevereiro de 1915, essas forças foram derrotadas, com vinte e oito mortos, mais de trinta feridos e dezenas de prisioneiros.

Era flagrante o despreparo das forças que combatiam os matutos em seu meio natural. Se estes conhecessem a arte militar, tivessem uma chefia capaz que empreendesse ataque às retaguardas, aumentariam ainda mais as dificuldades do Exército. Além disso, descuidavam-se da guerra para rezar.

Na madrugada de 2 de março de 1915, a poderosa coluna Sul, com dois mil homens, canhões, obuses e metralhadoras, começou a bombardear o reduto de Santa Maria. Repetia-se o massacre de Taquaruçu. Em procissão no “quadro santo”, o povo foi atingido em cheio. Em meio a corpos despedaçados, mulheres e crianças correram para dentro da igrejinha, e os combatentes para a mata. Cheia de gente, a igrejinha ardeu em chamas. Então os piquetes caboclos acossaram com fúria os inimigos, obrigando-os à nova retirada.

Mas a resistência foi restringindo-se a grupos de matutos nas tocas e nas árvores. Esvaziava-se o movimento devido a promessa de doação de lotes, à epidemia e a ascensão de Adeodato e outros homens de briga à chefia.

Sob constante fustigação dos matutos, soldados e trabalhadores fizeram uma derrubada, abrindo uma clareira até o vale. E com o canhoneio intenso sobre as guardas, seguido pela marcha arrasadora da coluna Norte, comandada pelo capitão Potiguara, esta bivacou no reduto de Santa Maria. Mas, após trombetear vitória, a tropa viu-se cercada pelos fanáticos que caçavam soldados e vaqueanos para depois desaparecerem como fantasmas.

Adeodato ordenara um recuo para novo arraial, no Cerrinho, em zona praticamente inacessível ao Exército.

Enquanto aguardavam a hora da partida em trens especiais, as tropas federais ainda sofreram ataques. Mas regressaram aos quartéis de origem, pois a missão foi considerada cumprida. Com o predomínio plebeu e bandoleiro, porém, os camponeses perdiam a coesão e a sua força. As ações dos pelados foram se transformando em atos de puro banditismo. Já não estavam entre eles um Rocha Alves, Elias de Morais, ou a “virgem” Maria Rosa. Por qualquer desavença, Adeodato liquidava a sangue frio os próprios camaradas. Degolou Olegário, sob cujo comando estivera num piquete. Fez o mesmo ao negro Joaquim Germano, a Antoninho e a outros que Ihe recusavam obediência. Fuzilou Aleixo Gonçalves de Lima, que iniciara a luta em Canoinhas, sob o pretexto de que causava azar. E o que é pior: mandou fuzilar Zebinho, o fundador de Taquaruçu.

A grande resistência acabou degenerando em simples ações de bandoleiros e a constituir um caso de polícia. As famílias camponesas fugiam para as cidades, aos milhares, abandonando os arraiais. Então as forças policiais dos Estados do Paraná e de Santa Catarina, com auxílio de vaqueanos, terminaram a chacina, triste fim do Império Sul-Brasileiro.

 

 

 

 


DO CONTESTADO À MARCHA REVOLUCIONÁRIA

DE OUTUBRO DE 1930

 

 

Apesar da Grande Guerra Camponesa, foi conservado o monopólio da terra, principal causa dos males sociais no Brasil. Assim, a passagem para os tempos modernos processou-se lentamente.

Enquanto se agravava a situação financeira governamental, registrou-se no país um acentuado progresso econômico. Em vastas áreas desenvolveu­-se a agricultura, surgiram novas cidades, fábricas, serviços públicos, estradas de ferro, bancos e empresas comerciais de toda ordem. Se várias regiões permaneceram estagnadas, a prosperidade teve a liderança do Estado de São Paulo.

A primeira guerra mundial abrira perspectivas novas com a procura de matérias primas pelas nações envolvidas no conflito. A indústria nacional cresceu porque os países industrializados deixaram, temporariamente, de exportar produtos manufaturados. Os interesses urbanos sobrepujaram-se aos rurais. Surgiam a burguesia industrial e novas camadas urbanas, inclusive o operariado, desligados da produção agrícola, com reivindicações próprias.

Os governos, representando os interesses da monocultura cafeeira, tornaram-se autoritários. Com o cerceamento das liberdades, as oligarquias rurais procuraram perpetuar-se no poder. Mas a chamada “questão social” impunha-se à consciência nacional, para regulamentar as leis sobre o trabalho na cidade e no campo, com a melhoria de vida do povo. Rui Barbosa iniciara, como candidato oposicionista, a luta pela democracia e pela resolução da “questão social”.

Depois de esmagado o movimento operário pela “lei infame” de 1921, tornou a recrudescer a luta pelas liberdades democráticas. Militares, com o movimento conhecido por “tenentismo”, denunciaram os viciados mecanismos eleitorais que excluíam as mulheres e o voto secreto, opondo-se principalmente à oligarquia cafeeira.

É o idealismo liberal que faz eclodir, em 2 de julho de 1922, a revolta do Forte de Copacabana. A 15 de julho de 1924, tem sentido idêntico a sublevação  de São Paulo, à  frente  o  general  Isidoro  Dias Lopes.  A coluna

Prestes, em marcha de 25.000 quilômetros, pregava nova Constituinte e a deposição de Artur Bernardes.

A intelectualidade brasileira, numa retomada de consciência da realidade social, nacional e mundial, inicia uma verdadeira revolução cultural, cujo marco foi a Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, no ano de 1922. Era o "tenentismo" na área cultural, um levante liberal nas artes e na literatura. Daí em diante todas as correntes de idéias teriam curso no Brasil, predominando as nacionalistas.

As portas da História estavam praticamente abertas à marcha de outubro de 1930. Em 1929, durante o governo Washington Luís, houve uma crise econômica em todo o mundo. Os Estados Unidos suspenderam as compras de café, nosso principal produto de exportação. Agravaram-se ainda mais as dificuldades com o fechamento das fábricas. Ao chegar a época das eleições, o governo apresentou como candidato Júlio Prestes, enquanto a oposição fixou-se em Getútio Vargas, aliado a João Pessoa, da Paraíba. Julio Prestes foi vitorioso, mas a oposição não aceitava os resultados, acusando fraude. O objetivo era o voto secreto, das mulheres, e a abertura democrática para o atendimento às reivindicações sociais. Para piorar a situação, João Pessoa foi assassinado.

Em outubro de 1930, os revoltosos do Sul, empreenderam a marcha, trazendo ao pescoço o lenço vermelho dos maragatos. Planejavam invadir São Paulo e alcançar o Rio de Janeiro, mas antes disso, Washington Luís foi deposto em 24 de outubro de 1930.

Desde o Contestado, crescera no Paraná a oposição ao autoritarismo e à política de terras. Em 1922, o capitão Plínio Tourinho, comandando uma companhia, chefiou na área militar o movimento democrático contrário à investidura de Artur Bernardes. Com o apoio de trinta e oito oficiais da guarnição, marcou para 22 de abril de 1922 o dia para o levante. A sublevação seria dois meses antes da Revolta do Forte de Copacabana, mas ante à vacilação de um dos comandantes do batalhão, fracassou. Em março de 1924, entrou em entendimento com o general Isidoro Dias Lopes que veio em busca de apoio e, este sem esperar que este se concretizasse através de consulta à oficialidade, cometeu o grave erro de deflagrar a ação sem a participação do Paraná, essencial para o êxito da sublevação. Em 1930 o povo paranaense saiu às ruas em apoio à revolução e é, Plínio Tourinho o comandante das tropas contrárias ao governo das oligarquias. A vitória do movimento rebelde foi assegurada pelos paranaenses, ao dominarem as forças legalistas em Santa Catarina, dando passagem aos gaúchos, e sendo vitoriosos em Sengés e em Itararé.

Essa marcha no processo histórico, além de representar a ascensão de forças mais progressistas do país e a conscientização da “questão social”, tirou da cena política a oligarquia rural do Paraná, objetivo da guerra do Contestado.

Abandonava o governo do Estado Afonso Camargo, mas não antes de negociar a área de 12.643 Km2, no norte do Paraná, com a Companhia Paraná Plantations, de capital inglês.

Conquanto se tornassem efetivas as conquistas sociais do povo brasileiro, voto secreto, das mulheres, leis trabalhistas e medidas de caráter nacionalista, entre as quais se destaca a encampação da estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, e até mesmo a criação do Território do Iguaçu, o Brasil acabou voltando ao autoritarismo e à ditadura.

O Estado de São Paulo ficou sozinho na Revolução Constitucionalis­ta de 1932 porque, apesar do golpe sofrido, o regime das oligarquias, com base no latifúndio, ainda era forte no país.

 

 

 

DE NOVO O POVOAMENTO E AS LUTAS DOS IAVRADORES

 

 

O povoamento do Paraná só veio a intensificar-se na década de quarenta, ao sobrevir a Segunda Guerra Mundial. Iniciou-se a grande ocupação do território, com muito trabalho, sacrifício e sangue, devastando-se a sua imensa riqueza florestal. No sul começaram os claros nos pinheirais, até à extinção. Quando as terras não eram tomadas a caboclos e aos últimos índios,  as empresas abocanhavam-lhes os pinheiros. De positivo, havia a colonização de gaúchos, italianos, alemães e poloneses, no centro-sul.

Entre 1940 e 1960 a população do Estado passou de 250.000 habitantes para 4.200.000. Um extraordinário progresso econômico, todavia, teve lugar com a mais violenta e brutal exploração da cidade sobre o campo.

Para a área situada entre o Paranapanema e Ivaí, de terras roxas, deslocaram-se lavradores de São Paulo e levas de todo o Brasil. Fugindo à servidão no Norte e Nordeste, emigrantes abarrotavam as estradas abancados nos caminhões, os pátios das estações ou as igrejinhas dos povoados. A linha férrea alcançara Apucarana em 1937, e Maringá em 1946. Na vasta e rica zona da Paraná Plantations, depois Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná, predominou a pequena propriedade e, entre os cafezais, outras culturas foram plantadas. A alta dos preços do café e, eventualmente, de outros produtos, provocou um enorme progresso. Cidades, vilas, patrimônios, brotavam de légua em légua, do dia para a noite. Londrina tornou-se metrópole e capital econômica da região. A presença de mata original boa para café  marcou a região e, até onde vai a embaúba ou o jaracatiá, aí está a fronteira do norte, para distinguí-lo do sul onde predominam o pinheiro, o campo e os ervais.

A valorização das terras adjacentes deu lugar a uma corrida sem precedentes para o novo Eldorado. O governo estadual, com arrecadações extraordinárias, titulava terras devolutas a aproveitadores de toda espécie. Uma verdadeira máquina de corrupção, com oficinas em órgãos governamen­tais, fora montada no Estado.

De todo o Brasil e de todo o mundo chegavam imigrantes, em busca de novas oportunidades.

Entre 1945 e 1950, a Paraná Plantations vendeu 1.038.180 acres de terras agrícolas e 6.122 lotes urbanos. A sua sucessora, Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, alienou mais 1.166.440 acres e 12.071 lotes urbanos.

Nas zonas frias, adjacentes, foram plantadas pastagens, além de algodão, hortelã, rami, milho, mamona e outros produtos.

A marcha da colonização para o oeste do rio Pirapó e para o sul, partindo do rio Ivaí, ocorreu na década de 40. Mas os grandes núcleos urbanos de Maringá, Paranavaí, Cruzeiro do Oeste e Campo Mourão formaram-se na década seguinte. De Maringá, a expansão partiu em direção ao noroeste, sobre a área arenosa entre os rios Paraná, Paranapanema e Ivaí. E, ainda, rumo ao sudoeste, para Cianorte, ao longo da ferrovia, até Cruzeiro do Oeste e Guaíra.

Em 1950 a área total das propriedades rurais no Estado era de 8.032.743 hectares. Constituíam 89.461 propriedades rurais, 76.467 peque­nas, 7.441 médias e 5.553 grandes. As pequenas perfaziam 85% do número total, com apenas 29% de toda a área, enquanto as médias e grandes, que não representavam mais de 15%, detinham 71% da área total. Havia 822 grandes propriedades, com 2.835.783 hectares, e 76.467 pequenos agricultores com 2.320.725 hectares.

A expansão cafeeira refletiu sobre o sul e, já em 1951 o governador Bento Munhós da Rocha Neto, com os recursos adicionais daquela lavoura, pôde transformar Curitiba em metrópole com obras monumentais, entre as quais o Centro Cívico e o Teatro Guaíra.

A renda interna cresceu a 10,4%, passando de 16,5 milhões de cruzeiros em 1950 para 54,5 em 1962.

Com a chegada ao poder dos novos capitalistas do campo, após a queda de Getúlio Vargas e Manoel Ribas, o governo estadual passou a titular terras devolutas a toda espécie de aproveitadores. À sombra do governo, os grupos modificavam leis, mapas e documentos. O policiamento foi usado para aterrorizar famílias, queimar ranchos, plantações, e escorraçar posseiros. Para a concessão de terras devolutas, a legislação previa como condições a profissão de lavrador, moradia habitual, posse efetiva e quantidade limitada de hectares. Mas políticos e pessoas influentes davam entrada a milhares de requerimentos com falsidade ideológica, informações fraudulentas dos órgãos competentes e, mediante procurações, forjavam as escrituras. Assim usurpavam os direitos dos ocupantes e lesavam o patrimônio público. Formavam-se também as companhias de grileiros e jagunços que, além de chacinar colonos e posseiros, vendiam várias vezes o mesmo lote aos lavradores.

Entre as maiores dessas companhias estavam a Clevelândia Industrial Ltda., a CITLA, da qual era sócio Moisés Lupion, e a Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, a SINOP, de Adhemar de Barros.

As terras da CITLA constituíam parte do Contestado. O presidente Carlos Cavalcanti titulara para a companhia estrangeira a gleba Chopin, e Caetano Munhós da Rocha a gleba Missões. Após a marcha de 1930, essas terras foram incorporadas ao Patrimônio Nacional. No entanto, o cidadão José Rup, que no início do século obtivera do governo de Santa Catarina uma concessão para explorar erva-mate na região de Canoinhas, ganhou uma ação judicial no Supremo Tribunal contra a Brasil Railway. Então ajuizou um pedido de indenização e a companhia foi condenada a pagar-lhe a importância de quatro milhões, setecentos e vinte mil cruzeiros, o que deu origem à penhora ilegal das glebas Missões e Chopin. O cidadão José Rup cedeu seus direitos à CITLA, e o governador Moisés Lupion celebrou acordo com s Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional. Assim, recebeu a titulação, em 17 de novembro de 1950, das glebas Missões e Chopin, num total de 484.680 hectares de terras.

A SINOP, Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná Ltda., recebeu do governo do Paraná, uma área de 80.000 alqueires, a 9 de janeiro de 1951, já ocupada por lavradores. Eram 30.000 alqueires no município de Cruzeiro do Oeste, na faixa de fronteira, domínio da União, e parte em Paranavaí, e outros milhares de alqueires no município de Campo Mourão.

Uma centena de empresas menores já derramava o sangue camponês. E com a execução de obras públicas, cobradas aos moradores das cidades a preço escorchante – ruas ou estradas asfaltadas, prédios, escolas, postos, saneamento e urbanização, locupletavam-se as companhias contempladas pelo governo e pelas prefeituras

O  desmatamento já constituía crime ecológico.

A floresta, riquíssima em madeiras, foi destruída a fogo. Depois a descoivarada, a abertura das covas em linha reta e, a seguir, o plantio do café, entremeado de lavoura branca. Sem os cuidados necessários para evitar a erosão, não se reservavam áreas para pasto, pomar, bosque e terras solteiras.

Empreiteiros agrícolas recebiam “a mata em pé e água no córrego”. Se faziam a derrubada e demais serviços por sua conta e risco, tinham direito à produção dos seis anos, tempo que levava o cafeeiro para desenvolver-se. Nos ranchos de palmito, acabavam na miséria, com mudanças atiradas à estradas, pois ao sobrevirem as geadas perdiam-se as colheitas e não se lhes prorrogavam os contratos. E aqueles que se comprometiam a prestar serviços por quatro anos, recebendo fornecimentos, não tinham melhor sorte. Os parceiros agrícolas, geralmente em pequenas propriedades, com direito à “terça” ou à “meia”, às vezes economizavam o suficiente para a compra de um pequeno lote, aumentando a camada média dos chamados sitiantes. Nas fazendas, confinados em ranchinhos sem soalho ou teto, obedecendo a gerentes, administradores e capatazes, lavradores eram submetidos a cruel espoliação. Formavam com tarefeiros, jornaleiros, volantes, peões, o grande contingente dos assalariados agrícolas, mais tarde bóias-frias. Eram chamados “colonos” e recebiam “mesadas”. Descarregados dos caminhões diretamente nas fazendas, deviam a mudança e firmavam com o polegar os contratos que os obrigavam, e à família, a prestar serviços além da capacidade física, proibidos de saírem do local.

As cidades e povoados multiplicavam-se, aquelas crescendo vertiginosamente. O comércio prosperava, e tudo era comércio: política, cartórios, escrivanias, coletorias, escritórios, agências bancárias, delegacias, consultórios e tudo mais. De pés no chão, mãos calosas, arrastando a prole semi-nua, o lavrador pagava o preço do progresso da burguesia rural. Enquanto não se estabilizava uma população laboriosa e honesta, predominava um certo aventurismo e uma busca fácil de riqueza. Novos ricos, fazendeiros, funcionários, corretores, médicos, advogados, especuladores de café e cereais, comerciantes, davam origem a grupos econômicos que iniciavam a indústria de transformação dos produtos primários.

Os lavradores vendiam sua safra no período de baixa dos preços, e ainda perdiam na pesagem e na qualificação de tipos de café. Favoreciam-se os bancos que financiavam os intermediários, as firmas compradoras e exportadoras, principalmente as grandes empresas norte-americanas como a American Cofee e a Anderson Clayton e Cia. que manipulavam os preços, inclusive de revenda no exterior. Apesar desta situação e dos pesados encargos fiscais, o governo federal instituiu o confisco cambial sobre o café.

Todos esses fatos caracterizavam a mais violenta e desumana exploração sobre o campo.

A  oposição a todo esse estado de coisas, tomou forma política, e Bento Munhós da Rocha Neto, candidato de uma coligação de partidos, foi eleito governador em 1950. Em sua campanha, declarara num comício na cidade de Porecatu:

“Vós que ocupais as glebas e que as desbravastes, sois os que tendes direito a ficar nas terras”.

As grandes agitações camponesas tiveram lugar na década de cinqüenta. Mas já em 1948, enganados pelos inspetores de terras, muitos posseiros reclamaram seus direitos e uma caravana policial incendiou ranchos, destruiu roças, violentou mulheres e matou muita gente.(13)

Pouco antes das eleições, uma força policial efetuou diligência de despejo em Porecatu, matando quatro lavradores que estavam roçando.

Eram eles João Japão, Francisco Barbudo e outros dois ocupantes de uma fazenda titulada a terceiros. Outro fato que muito repercutiu foi o assassinato do camponês Sebastião Bernardes, amarrado a uma árvore em Jaguapitã.

Quatro caboclos decidiram voltar à fazenda de que haviam sido expulsos, ao saberem da vitória de Bento Munhós da Rocha Neto. Eram eles José Bilar, João Pernambuco, Inocêncio Pereira e Isidro Garcia – o “Chimarrão”. Começou o que se chamou “A guerra de Porecatu”. Os quatro ocuparam a propriedade, puzeram em fuga os empregados, e

atiraram sobre um “teco-teco” de reconhecimento. A agitação tomou conta da região, do Estado, do País, e repercutiu no mundo. Os jornais e revistas falavam em guerra, em Coréia  paranaense, em levante,  em  nova Coluna

 

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(13)         Depoimento de “Chimarrão”, “Folha da Tarde”, 2/7/51.

Prestes. Mas as características do movimento não ultrapassavam as de uma grande agitação camponesa. Principalmente porque, se a terra empapava-se de sangue e se cadáveres boiavam de mãos amarradas nos rios, não havia combates, porém só o despejo e massacre de posseiros. Não se tratava de luta armada, embora em ocasiões isoladas tivesse havido tocaia a jagunços ou a algum pelotão policial. Nas fazendas “Quem Sabe”, “Flama”, “Ouro Preto”, “Guanabara” e “Lote Quatro” entraram em greve os colonos (assalariados) e os parceiros agrícolas.(14)

A origem da grande agitação camponesa de Porecatu estava no fato de que o governo “distribuiu terras tituladas ou já cedidas a antigos lavradores da região, a uma verdadeira legião de aventureiros”.(15)

Afinal, pelo decreto de 14 de março de 1951, o Governo do Estado desapropriou as terras situadas no município de Porecatu, Jaguapitã e Arapongas, constantes de títulos expedidos pela administração anterior, com violação do artigo 85 da Constituição Estadual, do decreto 800 de 30 de abril de 1931, e da legislação vigente na data de sua expedição. As terras destinar-se-iam aos lavradores que embora sem título hábil, nelas estivessem estabelecidos com cultura efetiva e morada habitual, há mais de ano e dia.

A grande agitação camponesa de Porecatu teve como causa a oposição ao estado de coisas, a simpatia das populações para com os trabalhadores agrícolas e a formação de uma consciência política para a qual contribuiu a nova intelectualidade do norte do Paraná.

Nesta já se destacavam José Hosken de Novais, Newton Câmara, Amauri de Oliveira e Silva, Flavio Ribeiro, Sebastião Martins Vieira Lins, Rui Cunha, Almo Saturnino, Milton Menezes, Edgar Távora, Aristeu Santos Ribas e tantos outros. Para o delegado paulista, que dirigia as atividades policiais, “elementos do extinto partido comunista, arregimentados e equipados para uma resistência armada ao governo, se encontravam concentrados em Porecatu”. Tentando justificar a  “passeata e o aparato militar”, acrescentava: “Convenceram posseiros à resistência, armando-os em bandos e distribuindo­-os estrategicamente pela região que fica entre os ribeirões “Centenário” e “Tenente”, afluentes do Paranapanema”.(16)

            Os jornais “O Globo” (Rio, 28/6/51) e “Folha da Tarde” (S. Paulo, 25/6/51) citavam como cabeças dos bandos José Bilar, Hilário Gonçalves Padilha – o “Espanhol”, Lázaro Bueno de Carvalho – o “Lazão”, Inocêncio Pereira e Francisco Lourenço Figueiredo, todos posseiros.

Enquanto efetuavam-se prisões de posseiros e simpatizantes trabalhistas­, entre os quais vendeiros de estrada, os jornais do país anunciavam a intervenção militar e da FAB.

 

 

 

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(14)         Jornal “Hoje”, São Paulo, maio de 1951.

(15)               Segundo o Chefe de Polícia, Coronel Albino Silva (“Folha da Tarde”, São Paulo, 2/7/51).

(16)               Jornal “O Dia”, Curitiba, 20/8/51.

Em Londrina as residências foram invadidas de madrugada e presos Newton Câmara, Flavio Ribeiro, Milcíades S. C. Pereira da Silva e esposa, Almo Saturnino, Bento Paiva e esposa, além de Gerson Monteiro de Lima e Manoel Jacinto Correia. O médico Newton Câmara presidira a comissão de solidariedade aos posseantes de Porecatu, o advogado Flávio Ribeiro formou o primeiro sindicato de trabalhadores rurais do norte do Paraná, e Manoel Jacinto tornou-se ativista organizando lavradores nas cidades, vilas e fazendas.

Milhares de boletins e listas de ajuda corriam nos municípios norte-paranaenses.

Apesar da repressão, o movimento obteve vitória. O Governo do Estado nomeou uma comissão para atender aos posseiros da região, doando-lhes lotes. Mas a ação saneadora e regularizadora do governador Bento Munhós da Rocha encontrava obstáculos (17) e não podia ultrapassar os limites de uma política estadual, quando o problema exigia, de fato, uma solução nacional.

Outras agitações camponesas tiveram lugar quando foram denuncia­dos os despejos e massacres de posseiros no Sapecado (Ivaiporã), Pato Branco, e no vale do Piquiri. Entre estas deve ser citada a provocada pela ação da SINOP, Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná. Mas esta companhia sofreu oposição do próprio governo. O dr. José Hensken de Novais esclarecia:

“O que acontecia é que esses departamentos da Administra­ção foram obrigados a empregar a força policial para proteger requerentes, posseiros e ocupantes de terras públicas contra atos de arbítrio e brutalidade dos agentes e paus-mandados da SINOP, que ameaçava despejá-los em massa.”

A agitação camponesa que assumiu maiores proporções depois de Porecatu, foi a revolta no Sudoeste do Paraná. O Sudoeste crescera com a vinda de colonos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que recebiam gratuitamente, cada um, lote de terras de 50 hectares. Com esse objetivo, Getúlio Vargas havia criado a Colônia Agrícola Nacional General Osório. Com a reeleição do Sr. Moisés Lupion, em 1954, a CITLA voltou à região, implantando o terror através de uma subsidiária, a Companhia Comercial Agrícola do Paraná. Os colonos eram visitados por agentes e jagunços, obrigados a comprar de novo o seu próprio lote, ou abandonar as terras. Tinham de ceder a madeira do imóvel à Companhia, cujas serrarias operavam noite e dia. Os que não concordavam eram despejados ou chacinados pelos jagunços.

No início de 1957, grupos de colonos começaram a oferecer alguma resistência e, aos poucos, foram ganhando força e apoio da opinião  pública. No dia  10  de  outubro do mesmo ano, quatro mil colonos

 

 

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 (17)        Ainda em 31 de 8 de 55, o jornal “O Dia” anunciava que requerimentos caducos eram despachados em favor de parentes do Sr. Martins Camargo.

marcharam sobre a cidade de Francisco Beltrão. Foram ocupadas Pato Branco, Barracão e Capanema. Portanto faixas, pedaços de pau e algumas armas, reuniram-se na praça, tomaram a prefeitura e demais edifícios públicos, prenderam o juiz e o promotor, e puzeram em fuga o prefeito e o delegado. Ao entrarem nas sedes das companhias colonizadoras, destruíram os documentos, contratos, notas promissórias, etc. Por aclamação, elegeram como novo prefeito, o dr. Walter Pecoits,  líder trabalhista.

Enfim, as lutas dos lavradores paranaenses foram sempre vitoriosas e, desde a década de 60, a questão de posseiros e colonos começou a ser regularizada pelo governo, com a entrega de milhares de títulos de terras.

Na história social do Paraná, o herói é o camponês ocupando e lutando pela terra e, neste Estado, síntese do Brasil, o País tradicional dilui-se em meio a alemães, poloneses, italianos, japoneses, árabes, russos e outros imigrantes que, ao contato desta terra, tornam-se brasileiros.

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

A bibliografia sobre a Revolução Brasileira e a Guerra Civil é ainda pobre,  justamente devido a má interpretação histórica. Deve-se recorrer às obras de história oficial e a outras aqui relacionadas. As principais sobre a movimentação de pica-paus e maragatos são “Dias Fratricidas”, do general J. B. Borman; “Voluntários do Martírio”, de Ângelo Dourado; “A Revolta da Armada”,  “A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul” de Epaminondas Vilalba; e “A Revolução de 93 nos Estados de Santa Catarina e Paraná”, de José Cândido da Silva Muricy; as quais serviram de base a estudos posteriores de outros autores.

Já a coleção básica sobre a Grande Guerra Camponesa do Contestado em que também se apoiaram autores posteriores,  foi constituída por três obras: “Relatório apresentado ao General da divisão José Caetano de Faria, ministro da Guerra”, de Fernando Setembrino de CarvaIho, “A Campanha do Contestado”,  de Herculano Teixeira d'Assumpção; e “Campanha do Contestado, Episódios e Impressões”; de Demerval Peixoto. Essa coleção foi enriquecida pelo livro de “Maurício Vinhas de Queirós”, nela baseado, com ampliação de informações e reunião de novos documentos. A interpretação como oposição a ordem estabelecida no campo e conflito social é de vários autores como Rui Facó, Dorian Jorge Freire, e “Casa Verde”, de Noel Nascimento, um romance de realismo histórico, retrata o fato com fidelidade.

 

 

 

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